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A ANUNCIAÇÃO – Manuel Bandeira

Seis meses passados sobre A angélica anunciação Do nascimento de João, Santo filho de Isabel, Baixou o arcanjo Gabriel À Galileia e na casa Do carpinteiro José Entrou e diante da Virgem Desposada com o varão — Maria ela se chamava — Curvou-se em genuflexão. Dizendo com voz suave Mais que a aura da manhã: “Ave, Maria cheia de graça! Nosso Senhor é contigo, Tu bendita entre as mulheres”. E ela, vendo-o assim, turbou-se Muito de suas palavras. Mas o anjo, tranquilizando-a, Falou: “Maria, não temas: Deus escolheu-te, a mais pura Entre todas as mulheres, Para um filho conceberes No teu ventre e, dado à luz, O chamarás de Jesus; O santo Deus fá-lo-á grande, Dar-lhe-á o trono de Davi, Seu reino não terá fim”. E disse Maria ao anjo: “Como pode ser assim, Se não conheço varão?” E, respondendo o anjo, disse-lhe: “Descerá sobre ti o Espírito Santo e a virtude do Altíssimo Te cobrirá com sua sombra; Pelo que também o Santo Que de ti há de nascer, Filho de Deus terá nome, Com ser filho de mulher, Pois tua prima Isabel Não concebeu na velhice, Sendo estéril? A Deus nada É impossível”. O anjo disse E afastou-se de Maria. Como no extremo horizonte A primeira, desmaiada Celagem da madrugada, Duas rosas transluziram Nas faces da Virgem pura: Já era Jesus no seu sangue, Antes de, infinito Espírito Mudado em corpo finito, Se fixar em forma humana Na matriz santificada.

(Manuel Bandeira. Poesia completa e prosa. Rio, Aguillar, 1986, p. 317)

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