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A CIDADE INGOVERNÁVEL


O estado ideal do homem não é o campo: sua vocação é urbana e comunitária. A vida rural, porém, é a fonte de onde provém algumas virtudes morais básicas sem as quais uma cidade não se sustenta de pé: paciência, perseverança, fortaleza.

Em meados de março de 2020, quando o pânico da peste começou a tomar conta das pessoas amedrontadas, o jornalista francês Michel Léon descreveu o que via em Paris, na véspera do anúncio oficial de confinamento na França: uma grande fuga de pessoas deixando a capital e as cidades mais próximas.

De fato, só saíam os que podiam sair. Carros abandonavam os melhores bairros, trens eram tomados de assalto por passageiros. Os ricos corriam para suas casas de férias, os menos ricos ao encontro dos parentes caipiras no interior. O importante era estar longe da cidade grande: havia uma percepção clara, realística, de que era melhor viver a quarentena numa pequena cidade da Provença, na Baía de Arcachon, aos pés das montanhas do Luberon ou do Cevenas, do que na metrópole superpovoada e caótica.

A fuga, segundo ele, era um sério indício da crise por que passa o atual modelo urbanístico do planeta, que pelas obrigatórias aglomerações facilita a difusão de vírus inadministráveis. É mais uma razão, aliada a várias outras, alegada contra essas cidades impessoais e desumanas que, antes de matar pela peste, já matavam metropolitanos sedentários com evitáveis doenças circulatórias, homicídios de causa variada, acidentes de trânsito.

Quanto a estes últimos, por exemplo, a cada quinze minutos, em média, morre no Brasil uma pessoa em acidentes de trânsito. No mundo, segundo a OMS, passa de um milhão e trezentos mil por ano o número de abatidos sob as ferragens dos veículos (equivalente a uma cidade como Campinas).

Infelizmente, as pessoas se acostumaram com essas cifras elevadas. Em vez de abandonarem os grandes centros, consideram mais fácil aplicar medidas pontuais para diminuir as mortes, como controle policial ou eletrônico da velocidade, atendimento emergencial mais rápido, reeducação dos motoristas, uso de cinto de segurança, cadeirinhas para crianças etc. Soluções mais estruturais? No máximo se propõem readequações aqui e ali nas linhas mestras do planejamento urbano adotado.

É o que têm feito os governantes, com mais ou menos empenho, mais ou menos sucesso. Mesmo assim, muitas pessoas continuam a fazer parte dessa lamentável estatística das mortes no trânsito, dentro dos carros ou sob suas rodas: é o holocausto implacavelmente exigido pelo bezerro de ouro das metrópoles, uma vez que deixar de transitar é impossível, pois o atendimento de todas as necessidades só pode chegar de carro, moto, ônibus, trem ou caminhão.

Todas as vidas são importantes — cada morte, diz-se muito por aí, é uma tragédia — e, em nome do bem comum, seria preciso resolver esse problema. Nunca ninguém, no entanto, terá pensado em solucionar esse problema com um bloqueio do trânsito, um lockdown das ruas, voltando às carroças e cabriolés de antigamente, ou permitindo no máximo a circulação de bicicletas. Nem seria razoável reduzir o tráfego de veículos a trens e ônibus, pois a dinâmica de uma cidade moderna criou necessidades que não podem ser atendidas por tais meios de locomoção ou aqueles mais líricos do passado.

Faz-se de tudo para tornar mais suportável o caos gerado por excesso de veículos — menos um questionamento radical desse modelo urbanístico que não deu certo.

Já dizia Aristóteles, há mais de dois mil anos, que a cidade não pode ser tão pequena, que não atenda às próprias necessidades, mas também não pode ser tão grande que torne impossível o seu governo, sendo impossível haver ordem numa cidade muito populosa. Só Deus, que abraça todo o universo, poderia botar ordem num lugar desses (Política, IV Parte, capítulo IV). “Que general pode fazer-se ouvir no meio de uma grande multidão?”, pergunta o filósofo.

Segundo ele, para o exercício justo da autoridade da parte dos governantes, a cobrança da obediência da parte dos cidadãos e a distribuição das funções urbanas de acordo com o mérito, é necessário que os cidadãos se conheçam, e isto só é possível se a cidade não crescer além de certos limites (ela já terá atingido esses limites quando os que nela vivem já conseguirem prover todas as suas necessidades).

É inegável a relação entre a peste provocada pelo coronavírus e o atual perfil urbano das metrópoles, cujo sonho confessado é a Megalópole — fruto do desejo inconfessado de mimetizar Deus na criação do universo —, responsável por abomináveis e superlotados espaços de incivilidade.

De fato, a presente pandemia não teria sido o que foi sem a atual forma de conceber cidades. Quando a peste se alastrou pelo mundo, foram cidades como a poluída e portuária Wuhan, na China, com seus nove milhões de habitantes, que serviram de base operatória para o inimigo invisível iniciar seu trabalho silencioso de contaminação.

Enfim, cidade grande não faz bem à saúde, seja do corpo ou da alma.

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