A FALSA MENDIGA

Parei o carro no semáforo e a moça se aproximou, andrajosa e suja. Estava coberta de farinha de trigo, fedendo a ovo, com maquiagem de índio.
— Uma moedinha pro “bicho”, tio — implorou.
Quanta diferença entre a miséria fingida e a verdadeira! Era só uma caloura de universidade, recém-aprovada nalgum vestibular por aí e submetendo-se ao ritual do trote.
— Infelizmente não tenho nem uma aqui… — disse eu.
Na verdade tinha, mas eram para os mendigos de verdade. Ela agradeceu sorrindo e foi mendigar no carro de trás.
Tive dó da moça. Logo o sinal abriu e segui pensando naquela estranha forma de comemorar o fato de ter restado viva, após o massacre dos exames: a incluída assumindo, ao menos por algumas horas, a condição de excluída.
É uma atitude dúplice que a universidade só aprimorará, condicionando os jovens a manter na ponta da língua o discurso igualitarista, sem abrir mão, um só milímetro que seja, da prática competitivo-consumista.
Seria uma atitude até cristã de auto-humilhação, se não fosse antes mera farra carnavalesca.
De qualquer modo, não deixa de ser uma atitude bem simbólica: o primeiro gesto de alguns jovens universitários brasileiros é pedir esmola.
















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