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A IGREJA CATÓLICA PROMOVEU UMA LIMPEZA ÉTNICA COMO HITLER?

PARTE II

Faz-se necessário compreender o perigo que representavam os hereges, de forma especial os conversos, chamados “judaizantes”, na península Ibérica eram privados de certos cargos em instituições fundamentais do reino e da igreja. Justamente por serem falsos conversos ou CRIPTO-JUDEUS —- como reconhece o próprio Cecil Roth —- esses falsos conversos conspiravam secretamente contra a igreja e o estado sob uma máscara cristã. Ninguém era discriminado como “mouro” ou “judeu”, mas sim como herege. Ninguém melhor e mais acima de qualquer suspeita do que o prestigiadíssimo Sociólogo judeu Bernard Lazar para confirmá-lo: “foram perseguidos, não por serem judeus —- a Igreja queria conversar os judeus como testemunho vivo de seu triunfo — mas por incitar à judaização, fosse de forma direta ou inconsciente, pelo mero efeito de sua existência”. Outro exemplo: só se começaram a aplicar os estatutos de sangue na ordem de São Jerônimo quando foram descobertos membros juadaizantes recalcitrantes em suas fileiras; entre estes, casos famosos como o de Frei Alonso de Toledo, Frei Juan de Madrid, Frei García de Zapata e Frei Diegi de Marchena.

Era portanto Lógico é necessário que, como medida de precaução e prevenção, fossem excluídos de certas funções. Mesmo assim, se verá na prática que os conversos sinceros — ou ao menos um dos mais proeminentes — não encontrariam qualquer impedimento por causa de seu sangue para exercer cargos importantes.

É necessário ter em conta que naqueles tempos a religião era o fundamento e o coração do reino e da sociedade, o único laço inquebrantável que evitava a divisão e a anarquia que tanto sacudiam aquelas regiões que a haviam subestimado ou ignorado.

Lembrando talvez pela décima vez que, a assim chamada limpeza étnica excluía também os cristãos velhos com antecedentes desfavoráveis. A pureza passava pelo de decoro e decência, e não pela linhagem.

Em resposta às teses de B. Lewin e Netanyahu, afirma um dos mais notáveis discípulos de Américo Castro: “em primeiro lugar, o problema dos cristãos-novos não era de maneira alguma racial: Era, e, em segundo lugar, religioso. Os conversos não foram em momento algum portadores de um estigma biológico indelével”.

Apoio no as palavras do Imortal caro baroja, ao dizer que “a ideia da Pureza do sangue era antes de origem Espiritual do que biológica”. O conhecido em insuspeito Historiador judeu Leon poliakov distingue entre o antissemitismo bíblico e o racial, incluindo a Espanha inquisitorial no primeiro grupo. Seu colega espanhol Suárez Fernandes é da mesma opinião, assim como o especialista francês Jean Dumont. O estatuto da limpeza do sangue, segundo contra o pesquisador Messeguer Fernandes, “refere-se ao sangue em sentido moral, Isto é, ao conjunto de sentimentos, opiniões, educação e mentalidade que se transmite no seio da família e enquadra-se em uma sociedade concreta”. Como se faltasse ainda outra opinião em insuspeita e de maior peso, ninguém melhor do que o historiador judeu Y. Baer, o qual em sua conhecidíssima história dos judeus conclui claramente que existiu uma perseguição religiosa, a qual, naturalmente, nada teve a ver com aquela pretensa perseguição racial na qual o homens como Netanyahu baseiam suas teses acusatórias.

Além disso, no caso das declarações de limpeza de sangue, que eram investigações de alto custo econômico, sua veracidade era duvidosa, e sua eficácia relativa, pois haviam sido comprovados vários casos de corrupção por parte daqueles encarregado de realizá-las, agindo a favor ou contra o interessado em troca de dinheiro ou outros favores.

Entre as medidas que o direito canônico dispuseram em sua luta para extirpar a heresia e eliminar sua influência social, encontrava-se a exclusão dos descendentes e hereges de cargos e honrarias. A experiência mostrava abundantemente que os filhos dos hereges, de modo especial, tentavam vingar a seu pai ou algum outro parente processado pela inquisição, inclusive avós e bisavós. Juan de Epserandeu, filho de uma marrano condenado, cuja propriedade havia sido confiscado (“e que, portanto ansiava por vingar-se”, admite Thomas Hope) foi um dos seis assassinos do inquisidor Arbués.

Mas, na prática esta disposição muito raramente foi cumprida. A explicação disso encontra-se no decreto vergentis in seniun de Inocêncio III, onde se afirma claramente que o princípio da transcendência da pena tinha apenas finalidade dissuasiva. Isto é justificado pelo canonista Fernando Pena com uma elocubração que é o fundamento dissuasivo do direito inquisitorial, “porque as sanções que ameaçam os filhos podem evitar que um pai caia na heresia; o amor paterno é tão belo, tão nobre, que os pais temem mais por seus filhos que por si mesmos”. Além disso, é preciso observar que os descendentes desse grupo de acusados sofreram muito pouco a marginalização pela inquisição, pois, como aponta José Martínez millán: “em sua maioria eram já pessoas pobres, que já estavam excluídas da alta sociedade e das honras”. Veja-se o exemplo de Santa Teresa de Ávila, uma das maiores glórias católicas desses tempos cujo avô foi um marrano condenado pela inquisição.

Citando mais alguns casos que nos vem pelo professor Jaime de Salazar. O primeiro trata de uma família de raça e religião Judaica, que permaneceu por dois séculos no topo da hierarquia social da Espanha de seu tempo. “O trabalho de investigação deve-se ao professor Cantera Burgos, publicado em um excelente trabalho a muitos anos. no entanto, uma vez descrita com certo detalhe a trajetória histórica dessa linhagem, cumpre-nos analisar se a origem Judaica, que neste caso está claríssima, fez com que o comportamento familiar fosse em algo distinto do que qualquer outra das famílias da alta nobreza castelhana. Devemos afirmar que não, pois devemos chegar à conclusão de que neste caso, como em outros, as origens familiares não tiveram a mínima influência no posterior desenvolvimento da linhagem”. O mesmo Historiador comenta outro caso: “certamente, consta que no início o primeiro senhor de Punonrostro, e sobretudo sua mulher, eram os judaizantes. No entanto seu filho mais velho era um cristão irrepreensível, e em sua vida, e sobretudo em sua morte atacando os muros do alcázar de Madrid, não sei distinguia em nada com qualquer de outros cavaleiros da Corte dos Reis católicos, e o mesmo pode dizer-se de seus descendentes”. O próprio Gerard Dufour, grande inimigo da igreja católica, foi obrigado a reconhecer a vontade que houve da parte dos Reis católicos e da igreja em integrar no judeus e conversus à sociedade Cristã, tomando como prova a grande quantidade de descendentes de judeus que formaram parte do aparato inquisitorial, “onde exerceram uma atividade exemplar (torquemada por exemplo)”.

Então, chegamos a conclusão de que há pouco ou Nada de verdade na afirmação de que a inquisição condenava sistematicamente aos descendentes dos hereges, “imprimindo-lhe uma mácula indelével”. chegando a uma conclusão em relação a este tema. É necessário insistir que muito pouco esta medida foi acatada na prática, pois encontramos judeus conversos (nem sempre sincero) em todas as instituições da península, até mesmo na mais rigorosa do Santo Ofício. Por tudo isso, Henry Kamen chega à conclusão de que esta questão foi totalmente exagerada: “estas regras não obstantes tiveram um impacto muito limitado”.

Através do testemunho de vários autores insuspeitos, em que nos vimos que não há nenhum sinal de racismo neste tribunal espanhol. Caso restasse alguma dúvida, nada melhor que apresentar o resultado dos trabalhos realizados pelos historiadores Tedeschi —- de origem Judaica —, Henningsen,Conteras e o francês Dedieu, o qual revela, a partir do estudo de mais de 44.000 relatos de casos, que o Santos Ofício, espanhol, a partir da metade do século XVI, converteu-se em um tribunal para julgar cristãos-velhos. Das sentenças pronunciadas entre 1550 e 1700, 60% já não eram casos de Marranos, mouros ou protestantes. José Martinez Milán, por sua vez, observa que o maior número de acusados, segundo as últimas pesquisas, que correspondem ao delito de “solicitação”, delito mais próprio de cristãos velhos. Por sua vez, Doris Moreno, reconhecida especialista em inquisição, observa que esta, “durante o reinado de Felipe II, processou cerca de 25 mil pessoas. Entre os acusados estão luteranos e suas teses heréticas, seguidos pelos mouros (…); os judaizantes não são mais do que mil e quinhentos, e isso naturalmente pelo impacto da anexação de Portugal” Outros estudos recentes assinalam que, por exemplo, no tribunal de Granada, entre 1500 e 1599, a grande maioria dos processos correspondem aos delitos de luteranismo, em menor proporção aos muçulmanos e apenas 9% provém de hereges judaizantes.

Não é de Pouca importância a observação de Jean Dumont em seu processo contraditório à inquisição espanhola: afirma-se que isto se fez sobre a base de uma atitude racista, e em concreto antissemita? Isto é um disparate, uma grande mentira. Pelo contrário, a cultura espanhola do século de ouro foi obra da maior miscigenação possível entre judeus conversos e cristãos velhos. É certo que muitas das grandes personalidades deste século de ouro foram conversas ou descendentes de conversas.

O breve período em que a Inquisição e a Espanha puseram essa prática entre em funcionamento deveu-se estritamente as razões extraordinárias de segurança interna, como a que se refere a subversão exercida pelos falsos conversos nos setores principais do estado e da igreja.

Uma vez solucionado o problema dos conversos, tais disposições foram deixadas de lado pela igreja e pela Espanha, o que demonstra uma vez mais seu princípio social e religioso.

Não se pense que nas regiões protestantes os judeus tinham melhor sorte. Apenas em 1858 é que se permitiu a um judeu fazer parte da câmara dos comuns (O parlamento inglês), sendo Lionel Rothschild o primeiro. Vemos assim como, mais de 20 anos após a abolição definitiva da Inquisição, na Inglaterra anglicana ainda se impedia aos judeus, e também a vários conversos, o exercício desse tipo de funções. Já foi mencionado algo a respeito do tratamento que alguns líderes protestantes dispensaram os judeus: perseguições, assassinatos, difamações, expulsão etc.

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