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A Imaculada Conceição e a Igreja Ortodoxa – Parte II

Por: Padre Lev Gillet (Ortodoxo)

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Vamos agora considerar mais de perto a atitude da Igreja Russa em relação à questão da Imaculada Conceição. Todo estudante russo de teologia sabe que S. Dimitri, Metropolita de Rostov, apoiou a “teoria latina do epiclese” (10); mas os jovens russos são inclinados a considerar o caso de Dmitri como um lamentável excessão, uma anomalia. Se eles soubessem da história da teologia Russa um pouco melhor eles saberiam que desde a Idade Média até o século XVII, a Igreja Russa tinha, como um todo, aceitado a crença da imaculada conceição (11).

A Academia de Kiev, com Pedro Moghila, Estefânio Gavorsky e muitos outros, ensinaram a Imaculada Conceição em termos da teologia Latina. A Confraternidade da Imaculada Conceição foi estabelecida em Polotsk em 1651. Os membros Ortodoxos da fraternidade prometeram honrar a Imaculada Conceição de Maria todos os dias de sua vida. O Concílio de Moscou de 1666 aprovou o livro de Simeão Polotsky chamado A aste da direção, em que ele diz: “Maria foi insenta do pecado original desde sua concepção” (12).

Tudo isso não pode ser explicado como obra de uma influência polonesa latinizada. Temos visto que muitos escreveram na mesma linha no Oriente Grego. Quando, em virtude de outras influências gregas, ataques foram iniciados em Moscou contra a doutrina da Imaculada Conceição, um protesto foi feito pelo Velhos Crentes – um setor separado da Igreja Ortodoxa por razões de sua fidelidade a certos ritos antigos. Novamente em 1841, os Velhos Crentes deram uma declaração oficial que “Maria não tinha qualquer participação no pecado original” (13). Para todos aqueles que sabem o quão profundamente os Velhos Crentes estão associadas à maioria das crenças e tradições antigas,seu testemunho tem um significado muito especial. Em 1848, a “Teologia Dogmática” do Arquimandrita Antony Amphitheatroff, aprovado pelo Santo Sínodo como um manual para os seminários, reproduziu a curiosa teoria de Palamas de uma purificação progressiva dos ancestrais da Virgem Maria, uma teoria que já tem sido mencionada e que proclama a exceção de Maria no pecado Original. Finalmente, devemos noticiar que a definição Romana de 1854 não foi rejeitada por maioria dos representativos teólogos do tempo, Metropolita Filaret de Moscou e Marcário Boulgakov.

Foi em 1881 que o primeiro escrito importante em oposição a Imaculada Conceição apareceu na Literatura Russa. Foi escrito pelo Professor A. Lebedev de Moscu que tinha uma visão de que a Virgem foi completamente purificada do Pecado Original no Gólgota (14). Em 1884, o Santo Sínodo incluiu a questão da Imaculada Conceição em uma programa de “polêmica”, quer dizer, teologia anti-latina. Desde então, a teologia Russa oficialmente tem por unanimidade oposição a Imaculada Conceição. A atitude dos russos tem sido fortalecida por uma frequente confusão de que a Imaculada Conceição de Maria com o nascimento virginal de Cristo. Esta confusão pode ser encontrada não só entre as pessoas ignorantes, mas entre muitos teólogos e Bispos. Ainda recentemente, o Metropolita Anthony, então Arcebispo de Volkynia, escreveu contra a “heresia impiedosa da Imaculada e virginal conceição da Mãe de Deus por Joaquim e Ana”. Foi um teólogo dos Velhos Crentes, A. Morozov, que teve que chamar a atenção do arcebispo de que ele não sabia o que ele estava falando (15).

Há três causas principais que dão uma explicação do porque da oposição com a doutrina da Imaculada Conceição foi realizada na Igreja Ortodoxa. Primeiro e principal, há uma sentido de desconfiança a priori por muitos Ortodoxos de qualquer doutrina definida por Roma desde a separação Ocidente e Oriente. Que, com certeza, é principalmente uma razão psicológica. Há também o medo de formula uma doutrina que pode não ser vista com fundação suficiente nas Sagradas Escrituras e na tradição Patrística. Deixamos o período patrístico fora dos limites da nossa discussão, limitando nós mesmos a uma Teologia Ortodoxa de Bizâncio; mas parece que (de Santo André de Creta a São Teodoro o Estudita) muitas evidências podem ser produzidas de fontes gregas em favor da teologia da imaculada Conceição.

Finalmente, há um medo de restringir a ação redentora de Cristo. Depois de ter isentado Maria do pecado original, você não a isenta dos efeitos da redenção de seu Filho? Não é possível que uma única exceção destrua toda a economia da salvação? Os teólogos Ortodoxos que pensam deste modo, não tem dado consideração suificiente, ou não toda necessária, para o fato que de acordo com a definição de Pio IX, Maria foi apenas isenta do pecado original em vista dos méritos de Cristo: ”intuitu meritorum Christi Jesu Salvatoris humani generis“. Portanto, a ação redentora de Cristo foi operado no caso de Maria, embora de uma forma bastante diferente do resto da humanidade.

Teólogos Ortodoxos tem sempre insistido sobre a beleza da natureza humana em sua integridade antes da queda. Agora é a doutrina da Imaculada Conceição, a única que pode justificar este “humanismo”.É apenas em Maria concebida sem pecado, que a natureza humana alcançou sua realização e efetividade todas as suas possibilidades. Maria é o primeiro e único sucesso da raça humana. É através dela e nela que a humanidade escapou do fracasso total e ofereceu-se para o divino um ponto de entrada no humano. Maria, diz o Metropolita George de Nicomedia “era o primeiro fruto magnífico oferecido pela natureza humana ao Criador” (16). Ela é, diz Nicolas Cabasilas (século XIV) “verdadeiramente o primeiro homem, o primeiro e único a ter manifestado em si a plenitude da natureza humana” (17).

Vamos tirar nossas conclusões: 1. A Imaculada Conceição não é um dogma definido pela Igreja Ortodoxa 2. Pode-se dizer que, desde o início do século XIX, a maioria dos crentes e teólogos ortodoxos têm tomado sua posição contra essa doutrina. 3. Mesmo assim. é impossível dizer que, do ponto de vista ortodoxo a doutrina da Imaculada Conceição constitui uma heresia; por nunca ter sido definido canonicamente como tal por um Concílio Ecumênico e na verdade nunca se reuniu com a reprovação de um consenso universal e imutável de opinião. 4. Realmente existe uma linha contínua de autoridades ortodoxas eminentes que ensinaram a Imaculada Conceição. 5. Portanto, a doutrina da Imaculada Conceição tem todo o direito à sua existência na Igreja Ortodoxa como uma opinião de uma escola ou como uma theologoumenon pessoal, baseada em uma tradição digna de respeito. 6. Segue-se, portanto, que a definição romana de 1854 não constitui um obstáculo para a união das Igrejas Orientais e Ocidentais. 7. Na minha opinião, a Imaculada Conceição não contradiz nenhum dogma Ortodoxo, mas que é um desenvolvimento de toda a crença ortodoxa necessária e lógica (18). Regina sine labe concepta, ora pro nobis.

notas: 10. See Chiliapkin, St Dmitri of Rostov and his times (Russian), in the Zapiski of the Faculty of history and philology of the University of St. Petersberg, t. XXIV, 1891, especially pp. 190-193. 11. See J. Gagarin, L’Eglise russe et L’immaculee conception, Paris 1876. 12. See Makary Bulgakov, History of the Russian Church (Russian) 1890, t. XII, p. 681. On the Polotsk brotherhood, see the article by Golubiev, in the Trudv of the Academy of Kiev, November 1904, pp. 164-167. 13. See N. Subbotin, History of the hierarchy of Bielo-Krinitza (Russian), Moscow, 1874, t. I, p. xlii of the Preface. 14. An article by M. Jugie, “Le dogme de l’immaculee conception d’apres un theologien russe,” in Echos d’Orient, 1920, t. XX, p. 22, gives an analysis of Lebedev’s monography. 15. Letter of Archbishop Anthony of Volhynia to the Old Believers, in the organ of the Russian Holy Synod, The Ecclesiastical News of 10 March 1912, p. 399. Morozov’s reply is contained in the same periodical on 14 July 1912, pp. 1142-1150. 16. Hom. III in Praesentat., Migne P.G. t. C, col. 1444. 17. Hom. in Nativ. B. Mariae, Greek Cod. 1213 of the Bibliotheque Nationale of Paris, fol. 3, r. 18. On the whole subject see M. Jugie, “De immaculata Deiparae conceptione a byzantinis scriptoribus post schisma consummatum edocta”, in Acta II conventus Velehradensis, Prague 1910; and article “Immaculee Conception,” in Dictionnaire de theologie catholique, Paris 1922, t. VII, col. 894-975. This last article by Jugie gives a complete bibliography of the subject. Much will also be found in P. de Meester, “Le dogme de l’immaculee conception et la doctrine de l’Eglise grecque”: 5 articles published in the Revue de l’Orient chretien, Paris, 1904-1905. (From Chrysostom, Vol. VI, No. 5 [Spring 1983]: 151-159)

Créditos : Daniel Silva

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