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A INVENÇÃO DA IDADE DAS TREVAS

Para uma parcela de intelectuais ocidentais, a Queda não se refere ao destino de Adão e Eva, mas ao destino da civilização após o colapso de Roma. Segundo está casta de hipócritas “O cristianismo conquistou o Império Romano e a maior parte da Europa. Então observamos em toda a Europa um fenômeno de amnésia intelectual, a afligir o continente desde o ano 300 até pelo menos 1300 d.C.”. Isso ocorreu porque “os líderes do cristianismo ortodoxo erigiram uma grande barreira contra o progresso do conhecimento”.1

Essas frases foram publicadas em um capítulo intitulado “A prisão do dogma cristão”, que faz parte de um livro best-seller chamado The Discoverers [“Os descobridores”, 1983]. O autor não era um escritor qualquer, mas Daniel J. Boorstin (1914-2004), que primeiro foi professor da Universidade de Chicago, depois bibliotecário do Congresso dos Estados Unidos e finalmente historiador da Smithsonian Institution. Durante sua carreira ilustre, Boorstin ganhou os prêmios Bancroft e Pulitzer. Tais honrarias não eram incompatíveis com o ponto de vista de Boorstin a respeito dos efeitos daninhos da Igreja Católica sobre o conhecimento clássico. A noção dominante há muito tempo é que, após o colapso de Roma, a Europa entrou em sono profundo ao longo de um milênio de ignorância, que veio a ser conhecido como a Idade das Trevas (algumas vezes chamado a Idade da Fé). O famoso historiador de Cambridge J. B. Bury (1861-1927) apontou que, quando o Imperador Constantino adotou o cristianismo, tal feito “inaugurou um milênio em que a razão estava escondida, o pensamento , e o conhecimento não fez progresso algum”2. E o destacado William Manchester (1922-2004) descreveu esse mesmo milênio como uma era de “guerra incessante, corrupção, desgoverno, obsessão com mitos estranhos e uma estupidez quase impenetrável […] A Idade das Trevas foi dura sob todos os aspectos”3.

O humanista italiano Petrarca (1304-1374) talvez tenha sido o prime a qualificar “o período que se estende da queda do Império Romano a sua própria época como um período de ‘escuridão”4, um juízo anticatólico que tem ecoado através dos séculos. Assim, Voltaire (1694-1778 descreveu esse longo período como uma etapa em que “o barbarismo, a superstição, [e] a ignorância cobriram a face da Terra”. De acordo com Rousseau (1712-1778), “a Europa havia recaído no barbarismo dos tempos mais primitivos. As pessoas dessa parte do mundo […] viveram, alguns séculos atrás, em uma condição pior que a ignorância”.6 Edward Gibbon (1737-1794) também proclamou que a Queda de Roma foi o “triunfo de barbarismo e da religião”7. Em tempos mais recentes, Bertrand Russell (1872-1970) emprestou sua grave autoridade ao assunto, escrevendo, na edição ilustrada de seu famoso livro didático universitário: “À medida que a autoridade central de Roma decaiu, as terras do Império Ocidental começaram a afundar-se em uma era de barbárie, durante a qual a Europa sofre um declínio cultural geral. A Idade das Trevas, como é chamada […]. Não inadequado chamar esses séculos de escuros, especialmente se contrastados com o que veio antes e o que veio depois”8.

Como Russell sugeriu, a ignorância que prevaleceu durante a Idade das Trevas parece ainda maior pelo contraste com o renascimento 9. Sendo essa a palavra francesa para “novo nascimento”, esse termo identifica o período que começa no fim do século XIV, quando os europeus redescobriram a cultura antiga por muito tempo esquecida, o que fez com que uma nova luz irrompesse pela escuridão intelectual dominante. De acordo com o relato histórico padrão, o Renascimento aconteceu porque houve um declínio no controle exercido pela Igreja sobre cidades importantes do Norte da Itália, tais como Florenca,10 o que permitiu um reavivamento da cultura greco-romana clássica. Ademais, essa nova apreciação do conhecimento, especialmente do conhecimento científico desembaraçado da teologia, conduziu a história diretamente do Renascimento para o Iluminismo. Também conhecido como a Idade da Razão, diz-se que o Iluminismo teve início no século XVI, quando (ajudados pela Reforma) pensadores seculares libertaram-se do controle clerical e revolucionaram tanto a ciência como a filosofia, trazendo ao lume, dessa forma, o mundo moderno. Para citar Bertrand Russell uma vez mais: “O Iluminismo foi essencialmente uma revalorização da atividade intelectual independente, visando quase literalmente a lançar luz onde até então prevalecera a escuridão”.11

Em resumo, a história ocidental consiste de quatro grandes idades ou eras: (1) a Antiguidade clássica, (2) a Idade das Trevas, dominada pela Igreja, seguida da (3) Renascença-Iluminismo, que abriu caminho para (4) os tempos modernos.

Por muitos séculos, esse tem sido o esquema fundamental de organização para todo livro didático dedicado à história ocidental,12 apesar de os historiadores sérios saberem há décadas que tal esquema é absolutamente fraudulento, “um fóssil indestrutível de humanismo renascentista autocomlacente” 13 É apropriado usar o termo “Renascimento” para identificar um período particular na história das artes, em que houve interesse renovado pelos estilos clássicos, e para distinguir esse período do gótico ou do barroco. Mas é inadequado aplicar esse termo para identificar o novo nascimento do progresso intelectual após a Idade das Trevas, pela simples razão de que não houve nenhuma Idade das Trevas. Mesmo as enciclopédias respeitáveis agora definem a Idade das Trevas como um mito. The Columbia Encyclopedia rejeita o termo, notando que “já não se pensa que a civilização medieval tenha sido tão sombria”. A Encyclopædia Britannica desdenha a expressão Idade das Trevas como “pejorativa”. E a Wikipedia define a Idade das Trevas como “um suposto período de obscuridade intelectual após a Queda de Roma”. Quanto à recuperação do conhecimento clássico, na medida em que se havia perdido, os eruditos da Igreja levaram a cabo essa recuperação muito tempo antes do Renascimento. E se alguém deseja identificar uma Idade da Razão, deve situá-la no começo da era cristã, porque a fé ocidental na razão teve origem na teologia cristã.

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