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A MAÇONARIA

A MAÇONARIA A bibliografia maçônica no Brasil tende a produzir mais retórica e emoção do que fatos históricos. Entre os maçons brasileiros, o escritor mais prolífico é o polemista Araci Tenório de Albuquerque. Entretanto, outros autores poderiam ser citados, tais como Adelino de Figueiredo Lima, Jorge Buarque Lyra e A. Campos Porto, assim como Tito Lívio Ferreira e Manuel Rodrigues Ferreira. O trabalho conjunto destes dois últimos, A Maçonaria na Independência Brasileira, é o mais interessante dos estudos maçônicos brasileiros publicados durante a passada décadas”(Manuel Rodrigues Ferreira e Tito Lívio Ferreira, A Maconaria na Independéncia Brasileira (2 vls. São Paulo: Gráfica Biblos, 1962 apud Gueiros Vieira). Entre os autores não maçõnicos, dois nomes de destacam: Frei Dr. Boaventura Kloppenburg, O.F.M., que estudou a maçonaria do ponto de vista católico, e Eduardo Carlos Pereira, um ministro presbiteriano, que também escreveu contra aquela organização (Kloppenburg, op. Cit., passim; Eduardo Carlos Pereira, A Maçonaria e a Igreja Crista. (São Paulo: Livraria Independente Editora, 1945 apud Gueiros Vieira). E por demais óbvio que a historiografia brasileira aproveitaria muito com um estudo erudito da maçonaria nacional, que desapaixonadamente pesquisasse todos os aspectos daquela organização e no que, tanto de bom como de mau, se tem constituído a sua contribuição para a história brasileira. A tarefa é difícil porque os registros maçonicos só estão à disposição dos maçons. Até aqui a maçonaria brasileira não produziu historiadores proeminentes, com exceção talvez do pernambucano Mário Melo Carneiro do Rego, que não era um escritor desapaixonado (Mario Melo, Frei Caneca. (Recife: 1933); A Maçonaria e a Revolução Republicana de 1817, (Recife: 1912) A Maçonaria no Brasil. Prioridade de Pernambuco. (Recife: 1909) citados por Thornton, op cit. Pp. 274-281 apud Gueiros Vieira). A primeira notícia escrita que se teve no estrangeiro sobre o estabelecimento da maçonaria no Brasil, foi o manifesto de 1832, publicado no Masonic World-Wide Register, redigido por José Bonifácio de Andrada e Silva. Nesse manifesto, Bonifácio afirmou que lojas brasileiras tinham sido fundadas em 1801 e 1802, respectivamente no Rio e na Bahia, e tinham-se filiado à Grande Loja francesa (Robert Freke Gould, et al, A Library of Freemasonry Comprising Its History, Antiquiries, Symbols, Constitutions, Customs, etc. And Concordant Orders of Royal Arch, Knights Tem- plar, A.A.S. Rite, Mystic Shrine With Other Important Masonic Information of Value to the Fraternity Derived from Official and Standard Sources Through the Word From the Earliest Period to the Present Time, (5 vols.; London: The John C. Yorston Publishing Co., 1906, IV, pp. 188-189 apud Gueiros Vieira). O Padre Kloppenburg relata que, em 1804, a Grande Loja portuguesa enviou um Emissário para obter a filiação e a lealdade das lojas brasileiras. O emissário português, entretanto, não foi bem sucedido na sua missão, contudo, conseguiu fundar no Rio duas outras lojas de filiação portuguesa. Outras lojas de rito francês foram também estabelecidas na Bahia (1807-1813) e em Pernambuco (1809), mas essas, que eram puramente revolucionárias, tornaram-se inativas depois do fracasso da revolução de 1817. A maçonaria brasileira tem sido atormentada por dissensões desde a sua fundação. Essas dissensões foram, a princípio, entre republicanos radicais e monarquistas, num tempo em que o rito “moderno” francês era dominante (Lima, op. Cit., p. 134. 63 apud Gueiros Vieira) Esse rito tinha sido formulado em 1786 pelo Grande Oriente da França e, em si mesmo, representava um sincretismo de diversos outros (criados pela fortíssima imaginação francesa) com o Rito Escocês dos “Maçons Antigos, Livres e Aceitos” (Henry Wilson Coil, Coil’s Masonic Encyclopedia. (New York: Macoy Publishing and Masonic Supply Co. 1961l n 104 apud Gueiros Vieira). O envolvimento macônico nos acontecimentos que conduziram à independência do Brasil parece-me ter sido corretamente delineado por Sérgio Correia da Costa. O Principe Dom Pedro, que estava ciente do poder da maçonaria e do sentimento republicano generalizado no país, uniu-se à mesma a fim de controlá-la, afirma Costa. A maçonaria brasileira, naquele tempo, estava dividida em duas facções rivais, a de Joaquim Gonçalves Ledo e a de José Bonifácio de Andrada e Silva. Duas organizações maçônicas existiam então: o “Grande Oriente”, formado em 28 de maio de 1822 e o “Apostolado da Nobre Ordem dos Cavaleiros da Santa Cruz”, forma cinco dias depois, a 2 de junho de 1822. Tanto José Bonifácio como Gonçalves Ledo pertenciam às duas organizações. A primeira era dominada pelos republicanos, a segunda (apesar de Rito Carbonário) era conservadora. Segundo Costa, o Príncipe Dom Pedro, primeiramente, filiou-se ao Apostolado, e só mais tarde (a 13 de julho de 1822) uniu-se ao Grande Oriente. De fato, o Grande Oriente tinha convidado José Bonifácio para ser seu Grão-Mestre a fim de que atraísse o Príncipe para suas fileiras (Sergio Corrêa da Costa, As Quatro Coroas de D. Pedro I, 3ª ed. (Rio: Graf. Record Editora, 1968 Pg.. 42-52.64). De uma maneira ou de outra, é fato por demais conhecido que José Bonifácio Persuadiu Dom Pedro a fechar o Grande Oriente como perigosa organização republicana exilou do Brasil seus membros. Do outro lado, o Grande Oriente revidou acusando o Apostolado de estar tramando o assassínio do Imperador. Num gesto inesperado, o Imperador fechou também o Apostolado. Há uma tradição oral, entre os maçons brasileiros, que o Imperador Dom Pedro I antes de ser forçado a abdicar do Trono, foi submetido a um julgamento maçônico, depos do que foi “devidamente punido”. Este autor não encontrou ainda nenhuma evidencia documentária de que isto tenha acontecido. Alguma verdade parece haver nessa tradição Alguns autores chegam a afirmar que o Imperador foi forçado a abdicar pelas maquinações das Lojas Maçônicas que tinha fechado (Costa, op. Cit., pp. S7-58; Barroso, op. Cit., pp. 130). Em 1832, depois da abdicação de Dom Pedro I, o Grande Oriente do Brasil reinicio seus trabalhos. Nesse mesmo ano, o Rito Escocês dos “Maçons Antigos, Livres e Aceitos foi introduzido no Brasil por intermédio de uma carta de autorização belga. Espalhou-s muito rapidamente. Descobre-se que em 1867, por exemplo, 56 das 73 lojas que compunham o Grande Oriente do Lavradio (mais adiante citadas neste estudo como loja monárquica”) tinham adotado o Rito Escocês. Entre as outras lojas do Grande Oriente, uma tinha adotado o Rito Adonhiramita (uma loja germânica na Colônia Dona Francisca, em Santa Catarina) e somente 16 lojas mantinham, ainda, o Rito Francês Moderno (Folhinha Maçônica para o Ano de 5865, Contendo Quadros da LL: do Gr: Or: do Bras: ao Vat: du Lavradio etc.(Rio: Eduardo e Henrique Laemmert, 1867), pp. 27-33). Presentemente o Rito Escocês é seguido por 90% das lojas maçônicas brasleiras A introdução do Rito Escocês foi mais um passo para o afastamento do radicalismo político. A ala revolucionária republicana foi sobrepujada pela influência do novo Rito uma mudança que, em si mesma, tinha algumas implicações filosóficas. O republicanismo outra vez, reapareceria dentro da maçonaria brasileira nos fins da década de 1860, mas então já não era o republicanismo francês “vermelho”. Era fortemente influenciado pelo republicanismo norte-americano, que foi mais tarde sincretizado com conceitos positivistas. Note-se que a maçonaria representou uma das primeiras tentativas para formar-se uma irmandade ecumênica de pessoas de todas as religiões. Pedia-se apenas que o maçon declara se crer em Deus, chamado o “Supremo Arquiteto do Universo”, visto como a palavra “Deus” tem uma conotação cristā e a maçonaria devia ser accessível aos seguidores de todas as religiões (Esse ecumenismo da Maçonaria a princípio era extensivo apenas aos Cristãos. Passou-se muito tempo antes que os primeiros judeus e outros não-cristãos fossem admitidos à fraternidade. Ver Jacob Kartz, Jews and Freemasonry in Europe, 1723-1939 Trad. Leonard Oschry. (Cambridge: Harvand university press, 1970 ) Esse “ecumenismo” da maçonaria foi um dos aspectos que mais perturbou os ultramontanos, especialmente ao tempo da Contra-Revolução. Ainda mais, esse grande medo do que chamo de “ecumenismo” estava também patentemente presente na bula do Papa Clemente XII, In eminenti apostolatus specula, datada de 28 de abril de 1738. Nessa bula o papa atacou o que ele chamou de “associações altamente suspeitas” que costumam chamar-se maçons, nas quais “se congregam homens de todas as religiões e todas as seitas, sob aparência de honestidade natural”, mas cujos desígnios reais eram provavelmente maus. O Papa Clemente XII então proibiu todos os católicos de se filiarem ou, de qualquer maneira, de ajudar essas sociedades. Treze anos mais tarde (18 de maio de 1751), Benedito XIV voltou ao assunto na sua bula Providas romanorum pontificum. Nessa, claramente declarou que entre as proibições e condenações mais graves, da acima mencionada bula anti-maçônica do seu antecessor, a mais grave era que “nas tais sociedades e assembleias secretas, estão filiados indistintamente homens de todos os credos; daí ser evidente a resultante de um grande perigo para a pureza da religião católica. Sem ser indevidamente severo, podia-se dizer que, considerando-se a terrível arma que as nações católicas tinham nas mãos, a saber, a Inquisição, a posição do papado contra a maçonaria redundou (em termos modemos) em um overkill. Os processos inquisitoriais contra a maçonaria portuguesa, a espanhola e a italiana apenas impeliram aquela organização, nesses países, a um maior movimento secreto de resistência, e deixou-a aberta à infiltração de elementos extremamente radicais. Este foi particularmente o caso da Itália, onde não pôde ser formado um Grande Oriente autorizado resultando na aparição da Carbonária. Desde então, o papado não mais teve de contender com homens tementes a Deus e cumpridores da lei, diletantes especuladores filosóficos, mas com uma sociedade secreta, extremamente radical, de homens de detestadores de Roma e da Monarquia(sic), ajuramentados para destruir Roma e toda sorte de “tirania” por qualquer meio disponível, mais das vezes, pela espada, (Para uma série de documentos da Carbonária veja-se Kloppenburg, op. Cit., pp. 304-316; (Giuseppe Bartoldi) Memoirs of the Secret Societies of the South of Italy, Particularly the Carbonari. Translated from the Original M.S. (London: Murray, 1821); Giuseppe Leti, Carbonaria e massoneria nel risorgimento italiano: saggio di critica storica (Bologna: Forni, 1966); Augusto Pierantoni, Ed., I carbonari dello Stato pontificio ricercati dalle inquisizione austriache nel regno Lombardo-Veneto, 1817-1825 Documenti Inediti. (2 vols. Roma: Soc. Editrice Dante Alighieri, 1910. A bibliografia no assunto é bem extensa). O seguinte ponto de interesse, no tocante à maçonaria, seria seu caráter “revolucionário, especialmente o da maçonaria francesa. A qualidade característica da maçonaria francesa, em geral, era tão aristocrática relata Coil, que durante a Revolução, seu Grão-Mestre era o Duque de Orleans. Esse cavalheiro, inteiramente amedrontado com o Reino do Terror, mudou o nome para Citoyen Egalité, e publicou notas nos jornais repudiando toda ligação com a maçonaria e o Grande Oriente, os quais na mente dos revolucionários estavam ligados à realeza e a nobreza. Isto, naturalmente, não o livrou de perder a cabeça na guilhotina É verdade que quase todos os enciclopedistas, os precursores filosóficos da Revolução, evidentemente ligaram-se à maçonaria. Em 1776 a “Loja Nove Imās” foi fundada pelo astrônomo Joseph Jérome Le Français de Lalande, o filósofo Denis Diderot, os matemáticos Jean de Rond d’Alembert e o Marquês Pierre Simon de Laplace, apenas para citar alguns dos luminares franceses que lhe pertenceram. O grande acontecimento dessa Loja entretanto, teve lugar quando o próprio Voltaire, já com 84 anos de idade, foi iniciado nela pouco antes de sua morte (ibid., P. 258; Lima, nos bastidores). É fato notório que a Revolução destruiu a maçonaria francesa pré-revolucionária. O Grande Oriente francês entrou em recesso. As lojas de Paris, como foi assinalado acima, eram inteiramente aristocráticas, e seus mestres, eleitos ad-vitam, eram membros da no breza. Quase todos eles foram executados. Durante a Revolução somente três lojas parisienses conseguiram permanecer abertas. Pode-se bem supor que essas foram lojas da classe média, que tomaram um aspecto revolucionário Em 1795 o Grande Oriente francês ressuscitou com apenas 18 lojas que tinham sobrevivido ao Reino do Terror. Pelos idos de 1804, o Grande Oriente começara a prosperar novamente, no entanto, tornou-se extremamente adulador de Bonaparte, e veio a ser veículo para a divulgação do “republicanismo” bonapartiano. Dividiu-se em duas organizações, ambas controladas pelos Bonapartes: a) o Supremo Concílio do Rito Escocês dos “Maçons Antigos, Livres e Aceitos”, cujo Grão-Mestre foi Luiz Bonaparte, e b) o Grande Oriente, que nomeou tanto a Luiz como a José Bonaparte, bem como ao Marechal Joaquim Murat para seus mais altos cargos. Assim, as lojas maçônicas portuguesas, bem como as lojas brasileiras filiadas às Grandes Lojas francesas, não eram verdadeiramente revolucionárias (em termos de 1789), mas apenas instrumentos do programa expansionista de Napoleão. Deste modo, não é nada surpreendente descobrir-se que, em 1808, um grupo maçônico português, formado por ex-exilados, cooperou com Junot e foi até o extremo de presentear o comandante francês com um projeto constitucional para Portugal semelhante à Constituição do Grão-Ducado de Varsóvia. Além disso, também não causa surpresa encontrarem-se agentes franceses e norte-americanos, partidários de Napoleão, envolvidos com a revolução pernambucana de 1817, dirigida pela maçonaria (Alfredo Carvalho, Aventuras e Aventureiros no Brasil. (Rio: Emp. Gráfica Editora, 1929), p. 17-292, Oliveira Lima, “Notas Biográficas e Documentárias”, apensas à op. Cit., do Padre Muniz Tavares, p. 375; J. A. Ferreira da Costa, “Napoleão I no Brasil. Tentativa de Evasão do Prisioneiro de Santa Helena Concertado entre os Emigrados Franceses nos Estados Unidos e os Agentes da Revolução Pernambucana de 1817”, RIAGP, Vol. X, n. 57, 1903, p. 197-217). A maçonaria nos países protestantes foi também facilmente controlada pelo Estado. Era uma coisa natural que a irmandade cooperasse com o Estado onde não era perseguida. A constituição maçônica exigia que o maçon fosse um cidadão cumpridor da lei. Na segunda recomendação da Constituição de Anderson intitulada “Do Magistrado Civil supremo e subordinado” lê-se como segue: “Um maçon é súdito pacífico dos poderes civis onde quer que resida ou trabalhe, e nunca se envolve em complôs e conspirações contra a paz e o bem-estar da nação, nem se comporta indevidente para com os magistrados inferiores.” É digno de nota que, de acordo com Gould, dois Grandes Orientes apareceram em 1831 no Brasil: o de José Bonifácio (Grande Oriente n° 1) que Gould chamou “despótico” e outro (Grande Oriente n° 2) que era, segundo afirma, “democrático”. Em 1833 o Visconde de Jequitinhonha recebeu uma carta de autorização do Supremo Concilio Belga e formou uma terceira organização, um Supremo Concílio Escocês de 33° grau. Entretanto, por volta de 1835, tal era a dissensão dentro da maçonaria brasileira que a mesma se dividiria em dois Grandes Orientes e quatro Supremos Concílios. Para confundir ainda mais a questão, a Grande Loja da Inglaterra começou a dar cartas de autorização a lojas de língua inglesa no Brasil. Já em 1842, o Grande Oriente n° 2 uniu-se com o Supremo Concílio n°2 e abertamente rejeitou o Rito Moderno francês. Em 1860 o Masonic World Wide Register arrolava 130 lojas brasileiras. Naquele mesmo ano, a 30 de setembro, o Grande Oriente nº 2 e o Supremo Concilio nº I eram dissolvidos e extintos por decreto imperial. Desta forma o original Grande Oriente (n° 1) absorveu todos os outros e tornou-se o único Grande Oriente do Brasil. Essa união forçada entre maçons liberais-republicanos e os conservadores não durou muito. Em 1863, o Grande Oriente Brasileiro dividiu-se novamente. Os dois novos Grandes Orientes tomaram os nomes das ruas onde suas respectivas Grandes Lojas estavam localizadas: 1) O Grande Oriente do Vale do Lavradio (Conservador) sob a liderança do Barão de Cairu, e 2) o Grande Oriente do Vale dos Beneditinos, sob a direção do liberal republicano Dr. Joaquim Saldanha Marinho, que foi seu Grão-Mestre de 1864 até 1883. No entanto, em geral, as lojas filiadas às duas Grandes Lojas adotavam o Rito escocês, que na Alemanha, sob a hegemonia de Frederico, o Grande (1712-1786), tinha-se tornado um instrumento dos reis prussianos. Esse rito, na Prússia, havia-se dedicado principios monárquicos. Como já foi esclarecido, o Rito Escocês entrou no Brasil vindo da Bélgica, e as lojas belgas tinham sofrido forte influência prussiana. O programa da maçonaria brasileira conservadora, como se deduz deste estudo, patece ter sido: a) conservar a nação unida a qualquer preço, usando o Trono como seu ponto de apoio; b) controlar a Igreja, conservando-a liberal, dominada pela Coroa, com um clero não educado e sobretudo, não ultramontano, e c) lutar pelo “progresso” do Brasil por meio do desenvolvimento da educação leiga, da expansão do conhecimento científico e técnico (não estorvado pela teologia) e da importação de imigrantes progressistas” e tecnicamente educados, dos Estados Germânicos, da Inglaterra e de outras nações protestantes Este programa, se foi ou não tramado” e claramente arquitetado pela maçonaria brasilesra, torna-se-á bem claro nos artigos seguintes. Dever-se-ia notar que os irmãos Ferreira, em sua obra de dois volumes, escoraram-se muito pesadamente no estudo de Bernard Fay sobre a maçonaria e a revolução intelectual do século XVIII. A tese de Fay, como os irmãos Ferreira, a interpretaram, era de que a Revolução Francesa tinha sido uma trama britânica levada a efeito com a participação ativa de Benjamin Franklin, com o declarado propósito de destruir a França. Baseados na interpretação acima, os Ferreiras chegaram à conclusão de que a luta entre a maçonaria conservadora (a “Loja Azul”) de José Bonifácio, e a maçonaria republicana (a “Loja Vermelha”) fora uma continuação da trama britânica para obter ascendência sobre todo o mundo através da sua própria forma de maçonaria. Essa “Loja Azul” brasileira, de acordo com os Ferreiras, era um movimento monarquista cruel, que destruiu à espada todas as aspirações “democráticas” republicanas, representadas nos grandes levantes durante a Regência (1832-1845) tais como a revolta de Cuiabá, a Revolução do Pará e Guerra dos Farrapos no Rio Grande do Sul. Essas revoltas, afirmam os Ferreiras, foram não apenas lutas políticas, mas uma guerra entre duas filosofias maçõnicas opostas”. A tese dos Ferreiras, a despeito de sua conexão com o fantasmagórico complô maçonico-hanoveriano para destruir a França e estabelecer a hegemonia inglesa por todo mundo, fortifica nosso ponto de vista acima citado, de que a transferência da maçonaria brasileira do Rito Francês para o Escocês tinha em si uma inferência filosófica profunda uma total mudança de programa. O Rito Escocés colocou a Bíblia no altar maçônico, A Biblia foi chamada a “regra da vida” e as reuniões começaram e terminam com citações bíblicas, como ainda hoje é feito. Desse modo o Rito Escocês predispôs o seguidor da ordem maçônica a olhar para a Bíblia como algo especial, merecedor de respeito, e digno de ser propagado. Por esta razão não é surpreendente notar que os grandes defensores da Bíblia no Brasil, no século XIX, que protegeram os vendedores de Bíblias e travaram batalha contra os ultramontanos, em sua defesa, foram maçons, tais como Tito Franco de Almeida, Dr. Demétrio Ciríaco Tourinho, Francisco Gonçalves Martins (Visconde de São Lourenço), General José Inácio de Abreu e Lima, Visconde Vieira da Silva, José Tomás Nabuco de Araújo, Joaquim Saldanha Marinho e grande número de outros cujos nomes aparecerão no decorrer deste estudo. A maçonaria brasileira dominante não era carbonária, bem como não o eram a A francesa e a italiana. Entretanto, a presença, acima observada, de republicanos radicais e carbonários nos primeiros dias do Império, leva-nos à questão: até que ponto a carbonária e outros elementos estranhos estavam presentes nos distúrbios de orientação maçônica, e que quase esfacelaram o Primeiro Império Brasileiro (1822-1831) e a Regência (1831-1840)? Esse é assunto que não tem sido estudado seriamente no Brasil, e do qual este autor não se diz possuidor de conhecimento especial. Entretanto, dever-se-ia destacar que Líbero Badaró (1798-1830) o italiano radical, editor do jornal anti-monárquico de São Paulo, O Observador Constitucional (1829-1830), muito provavelmente era carbonário. Badaró foi assassinado em novembro de 1830. Sustentava-se que seu assassinio fora levado a efeito por ordem do próprio Dom Pedro I. Outros afirmavam que fora assassinado por ordem da organização maçônica (criada por José Clemente Ferreira) leal à Monarquia, que se denominava “Colunas do Trono”. A verdade acerca desta questão ainda está por ser elucidadas (Barrosos, op.cit., p.131-135). Deve ser lembrado, também, o comentário feito por José Bonifácio, quando ordenou a prisão dos maçons republicanos, no qual se referiu, sem mencionar nomes, a representantes estrangeiros “protetores dos republicanos e carbonários”. Entretanto, é impossível apurar essa alegada influência de carbonários na maçonaria brasileira antiga sem um estudo cuidadoso dos registros maçônicos. Outro nome de estrangeiro que aparecerá umas poucas vezes neste estudo é o de Giuseppe Garibaldi. Assim, seria proveitoso indagar-se até que ponto o “Garibaldismo” poderia ter influenciado a Questão Religiosa. Bibliografia; David Gueiros Vieira, O Protestantismo, A maçonaria e A Questão Religiosa no Brasil

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