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A missão extraordinária depende da missão ordinária (continuação das questões acerca das missões do

Passemos ao outro ponto:

Eu afirmo, em segundo lugar, que nenhuma missão deve ser recebida como extraordinária se é desaprovada pela Autoridade ordinária, que reside na Igreja de Nosso Senhor. Isto porque primeiramente estamos obrigados a obedecer aos nossos pastores ordinários, sob pena de sermos considerados ‘publicanos e pagãos’ (cf. João 18,17).

Com efeito, como poderíamos nos alistar sob outra disciplina que a Sua? Os enviados extraordinários teriam vindo em vão, pois estaríamos obrigados a não ouví-los – como eu já disse -, se fossem desautorizados pelos [enviados] ordinários (cf. 1Coríntios 14,33). Deus não é autor de divisão, mas de união e concórdia, principalmente entre os seus discípulos e ministros eclesiásticos, como ensina claramente Nosso Senhor na santa oração que dirigiu ao seu Pai nos últimos dias de sua vida mortal (cf. João 17,11-12).

Como, pois, autorizaria duas classes de pastores: uma extraordinária e outra ordinária? Que a [classe] ordinária está autorizada, não resta a menor dúvida; quanto à extraordinária, apenas o pressupomos. Haveria, portanto, duas Igrejas diferentes, o que contraria à mais pura Palavra de Nosso Senhor, o qual não possui mais do que uma única Esposa: “Una sola paloma, una sola perfecta” (Cântico 7,8). E como o rebanho poderia estar unido sendo conduzido por dois pastores, estes desconhecendo um ao outro, com diferentes pastagens, celeiros e redis? Onde um e outro não desejariam possuir o todo?

Assim seria a Igreja, sob a diversidade de pastores ordinários e extraordinários: desgarrada aqui e acolá em diferentes seitas. Porém, por acaso Nosso Senhor “está dividido” (cf. 1Coríntios 1,13) em si mesmo ou em seu Corpo, que é a Igreja? Na verdade, não! Pelo contrário: não há mais do que ‘um Senhor’ (cf. Efésios 4,5), o qual edificou o seu Corpo Místico (cf. Efésios 4,12) com uma bela variedade de membros bem proporcionais (cf. Efésios 4,2), “unidos e apertados totalmente por todos os ligamentos, através da mútua subministração” (cf. Efésios 4,16).

Daí se segue que querer inserir na Igreja esta divisão de tropas ordinárias e extraordinárias é querer arruiná-la e colocá-la a perder. Assim, é necessário retornar ao que dizíamos anteriormente, a saber: que a vocação extraordinária jamais é legítima se for desaprovada pela ordinária.

3º) Na ordem dos fatos, jamais me será apresentada qualquer vocação extraordinária legítima que não tenha sido [anteriormente] recebida pela autoridade ordinária.

São Paulo foi chamado extraordinariamente (cf. Atos 9,6), mas não foi aprovado e autorizado pela [autoridade] ordinária uma primeira (cf. Atos 9,17) e segunda (cf. Atos 13,3) vez? A missão recebida pela autoridade ordinária é denominada “missão do Espírito Santo” (Atos 13,4).

Da missão de São João Batista não se pode dizer que fosse propriamente extraordinária, porque ele nada ensinava contrário à Igreja mosaica e porque [também ele] pertencia à raça sacerdotal (cf. Lucas 1,8). Apesar disso, a raridade de sua doutrina foi confessada pelo magistrado ordinário da Igreja judaica na bela afirmação que foi feita pelos sacerdotes e levitas (cf. João 1,19ss), e cujo teor pressupõe a alta estima e reputação de que gozava entre eles. E os próprios fariseus, que estavam sentados na cátedra de Moisés, não participaram abertamente de seu batismo, sem escrúpulos (cf. Mateus 3,5.7), o que equivale a receber sua missão como boa?

E ainda Nosso Senhor, que era Mestre, não quis ser recebido:

– por Simeão (cf. Lucas 2,28.34), que era sacerdote, eis que este bendisse a Nosso Senhor e a São José?

– por Zacarias, sacerdote (cf. Lucas 1,76)?

– e por São João [Batista] (cf. João 1,29)?

E também por sua própria Paixão, que era a execução principal da sua missão: não quis Ele ter o testemunho profético do Sumo Sacerdote de então (cf. João 11,49-53)?

4º) Isto é o que São Paulo ensina quando não quer “que ninguém atribua para si a honra pastoral sem aquele que é chamado por Deus como Aarão” (Hebreus 5,1-4), pois a vocação de Aarão foi ordinariamente dada por Moisés, tanto que Deus não colocou a sua Santa Palavra imediatamente na boca de Aarão, mas na de Moisés, a quem Deus dirigiu esta ordem: “Fala a ele e coloca minhas palavras na boca dele. E eu estarei na tua boca e na [boca] dele” (Êxodo 4,15).

Se considerarmos direito as palavras de São Paulo, aprenderemos também que a vocação dos pastores deve ser dada visível ou perceptivelmente, e não por aclamação e moção secreta. Vejam-se, assim, os dois exemplos que ele propõe: o de Aarão, que foi ungido e visivelmente chamado (cf. Levítico 8,12; Êxodo 28,1) e, depois, o de Nosso Senhor e Mestre, que sendo Soberano Pontífice e Pastor de todos os séculos, “não qualificou a si mesmo” (Hebreus 5,5), isto é, não atribuiu para si a honra do seu Sumo Sacerdócio, como já havia dito anteriormente São Paulo, mas “foi ilustrado por Aquele que lhe disse: ‘Tu és meu Filho; Eu hoje te gerei; Tu és eternamente Sacerdote segundo a ordem de Melquisedec’” (Hebreus 5,6).

Eu vos peço que considereis este argumento: Jesus é Soberano Pontífice segundo a ordem de Melquisedec. Ele atribuiu para si e impulsionou por si mesmo esta honra? Não! Ele foi chamado (Hebreus 5,10). Quem o chamou? Seu Pai Eterno (cf. Hebreus 5,5). Como? Imediata e mediatamente, simultaneamente: imediatamente em seu Batismo (cf. Mateus 3,17) e em sua Transfiguração (cf. Mateus 17,5), com estas palavras: “Este é meu Filho muito amado, em quem tenho todas as minhas delícias. Escutai-o”; e mediatamente, pelos Profetas e, sobretudo, Davi, nos lugares em que São Paulo cita, acerca disto, os Salmos: “Tu és meu Filho; Eu hoje te gerei” (Salmo 2,7); “Tu és sacerdote eterno segundo a ordem de Melquisedec” (Salmo 140,4).

E tudo demonstra esta vocação: a palavra da nuvem [durante a Transfiguração] foi audível e, em Davi, audível e legível. Entretanto, São Paulo, querendo mostrar a vocação de Nosso Senhor, traz apenas as passagens de Davi, as quais dizem que Nosso Senhor foi explicitado por seu Pai, contentando-se, assim, em produzir o testemunho perceptível, e produzido através das Escrituras ordinárias e dos Profetas aceitos.

Afirmo, em terceiro lugar, que a autoridade da missão extraordinária jamais destrói a ordinária e nunca é conferida para revogá-la. Testemunhas disto são todos os Profetas, que jamais levantaram altar contra altar, nem revogaram a autoridade de Aarão, nem jamais aboliram as constituições da Sinagoga. Nosso Senhor também testemunha isso, ao afirmar que “todo reino dividido contra si mesmo será destruído e uma casa cairá sobre a outra” (Lucas 11,17); igualmente, testemunhou o respeito que teve à cátedra de Moises, cuja doutrina quis que fosse preservada (cf. Mateus 23,2-3).

Na verdade, se o extraordinário fosse abolir o ordinário, como saberíamos quando, em quê e como deveríamos nos ater a isso? Não, não! O ordinário é imortal enquanto a Igreja existir neste mundo. Os pastores e doutores que geraram a Igreja devem possuir perpétua sucessão, “para a consumação dos Santos, até que todos nós cheguemos à unidade da fé e ao conhecimento do Filho de Deus, como varão perfeito, segundo a medida da idade cumprida de Cristo, a fim de que não sejamos mais meninos, instáveis, levados daqui para acolá a qualquer vento de doutrina, pela malícia dos homens que enganam com astúcia” (Efésios 4,11-14).

Eis aí o belo discurso que São Paulo faz para mostrar que se os doutores e pastores ordinários não tivessem perpétua sucessão ou estivessem sujeitos à ab-rogação dos [doutores e pastores] extraordinários, teríamos apenas uma fé e uma disciplina desordenada e interrompida a todo momento; estaríamos sujeitos a sermos seduzidos pelos homens que a todo instante se orgulham da vocação extraordinária; e, como os gentios, caminharíamos – como faz observar posteriormente (cf. Efésios 4,17) – na vaidade dos nossos [próprios] entendimentos, imaginando cada um sentir a moção extraordinária do Espírito Santo. Disto, nossos tempos apresentam muitos exemplos e esta é uma das mais sólidas razões que podemos expor a este propósito: se a administração extraordinária pode invalidar a ordinária, a quem daremos a primazia? A Calvino ou a Lutero? A Lutero ou a Pacimontain? A Pacimontain ou a Blandrate? A Blandrate ou a Brence? A Brence ou à Rainha da Inglaterra?

Cada um atribuirá para si este tapa-olhos da missão extraordinária, mas a Palavra de Deus retira de nós estas dificuldades, pois edificou a sua Igreja sobre um fundamento tão bom e com uma proporção tão bem compreendida, que “as portas do inferno jamais prevalecerão contra ela” (Mateus 16,18). E se jamais prevaleceram e nem prevalecerão, a vocação extraordinária não tem como abolí-la, pois Deus não odeia nada do que faz; então, como Ele aboliria a Igreja ordinária para criar outras [igrejas] extraordinárias, já que foi Ele quem edificou a ordinária sobre Si mesmo e a fundamentou no seu próprio Sangue?

Tradução: Luis Carlos Nabeto

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