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A PANDEMIA DA IGNORÂNCIA EM RELAÇÃO AO PAPEL CIVILIZATÓRIO DA IGREJA CATÓLICA


O escritor polonês Andrzej Sapkowski, 72 anos, que escreve romances do gênero “fantasia”, como J. K. Rowling, publicou, entre 2002 e 2006, uma trilogia baseada no movimento religioso hussita (que surgiu na Boêmia, no século XV, hoje República Tcheca, na esteira do líder herético Jan Hus, precursor da “reforma protestante”). Em recente entrevista, saiu em defesa dessa “Igreja hussita” com a seguinte pérola:

“Foi precisamente porque as Guerras Hussitas não foram exploradas que me fez querer abordar este assunto de frente. Além do mais, escolhi esse período porque me parecia caótico e complexo. E fascinante ao mesmo tempo, porque abriu o caminho para o futuro destino da Europa. A “heresia” tcheca foi a única — antes de Martinho Lutero — que não foi esmagada por Roma. Sem Jan Hus, não teria existido um Lutero. O lema sola scriptura (“só a Bíblia é infalível”), professada por Lutero, vem diretamente dos hussitas. E sem Lutero, a Reforma não teria ocorrido. Se a Reforma não tivesse ocorrido, não teria ocorrido a revolução industrial. Ainda viveríamos em cabanas de palha ou pau a pique, rezando.”

Inverdades ditas por não católicos são mais desculpáveis do que as proferidas por gente que pertence à Igreja, como é o caso de um famoso jornalista político brasileiro, católico e conservador, cujos comentários políticos ouço com frequência, mas de quem ouvi, recentemente, coisas equivocadas sobre a Inquisição e um aberto elogio à reforma luterana.

Tanto o escritor polonês como o jornalista brasileiro se beneficiariam bastante com a leitura de uma obra, publicada há mais de dez anos nos EUA, do historiador e economista Thomas E. Woods Jr.: Como a Igreja Católica construiu a civilização ocidental.

Thomas Woods, que estudou em Harvard e se doutorou pela Universidade de Columbia, surpreendeu nesse livro pela qualidade da pesquisa e a inesperada quantidade de informações, bastante oportunas para a época anticatólica em que vivemos. A obra foi traduzida e publicada no Brasil, em 2010, pela editora Quadrante. Todos lucrariam com a leitura, católicos e não-católicos. Os primeiros se orgulhariam mais de sua Igreja; os protestantes e ateus conheceriam o montante da dívida que têm para com a Igreja romana, mesmo sem compreender sua doutrina.

Thomas Woods escreveu-o pensando principalmente nos alunos de universidade, aos quais se ensina, com a maior desfaçatez, que a Igreja Católica é sinônimo de “opressão” e “obscurantismo”, quando a única palavra capaz de designar o seu papel na História é “civilização”.

Apoiado em ampla bibliografia, que o leitor encontra ao final, o historiador vai desfazendo, capítulo a capítulo, a densa trama de mentiras construída em torno da Igreja, inicialmente com a reforma protestante e sobretudo a partir do século XVIII, pelos revolucionários franceses, que viam na doutrina cristã o principal obstáculo à construção de uma ordem puramente humana no mundo.

Depois de dedicar todo um capítulo ao papel fundamental dos monges copistas católicos na conservação da antiga cultura greco-latina, o historiador revela o papel criador dos mosteiros europeus, pioneiros na pesquisa científica e filosófica, que desaguaria inevitavelmente numa das principais criações da Igreja, a Universidade, entre os séculos XII e XIII (um dos períodos mais ricos de toda a História humana, se considerado do ponto de vista espiritual). A Universidade mudou tanto o mundo, que o mundo logo viu-se obrigado a mudá-la, desvirtuando-a de sua finalidade original: construir o saber em fina sintonia com a vida moral.

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Alguns aspectos que fazem dessa época um período precioso da História humana: as Cruzadas contra os muçulmanos, que defendeu o ocidente do irracionalismo islâmico; as Cruzadas contra os hereges cátaros, no sul da França, sem as quais talvez hoje não tivéssemos a tecnologia e a ciência como a conhecemos (explicar a heresia cátara); foi nesse período que surgiu a inquisição, que fez avançar o direito e o sistema prisional do ocidente; é o século de São Francisco e a sua volta ao modelo cristão evangélico, com a sua profunda compaixão por todos os seres racionais e irracionais, recolocando na ordem do dia a presença da natureza, que os primeiros séculos da Idade Média tinham deixado de quarentena, como se a utilização panteísta da natureza entre os gregos e os romanos antigos justificasse a sua purificação (tese de Chesterton); é o período em que Santo Tomás de Aquino fundiu a filosofia aristotélica com o pensamento cristão (a escolástica católica desenvolveu os conceitos básicos da economia moderna, que trouxe para o Ocidente uma riqueza sem precedentes); nesse momento, Dante Alighieri afirma pela primeira vez uma língua neolatina, o italiano, como plenamente hábil para a expressão de conteúdos poéticos; é a época da grande revolução nas artes plásticas, sobretudo na arquitetura e na pintura, com a incomparável beleza das catedrais góticas e dos afrescos de Giotto e Cimabue; é também a época em que se afirma a Cavalaria andante, expressão da generosidade cristã na defesa dos mais fracos; é a época em que as ilustrações de livros atinge um desenvolvimento jamais visto, com as famosas iluminuras, transformando os livros em verdadeiras obras de arte artesanais; é a época em que são criadas as universidades europeias; na música surgiu o gênero canto gregoriano que deu início à fecunda história musical do ocidente.

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Desde o século VIII, a Igreja já mantinha escolas de ensino médio nas catedrais (outra bela invenção da Igreja medieval). Para a história da ciência, talvez a mais importante seja a escola de Chartres, na França, cujos padres andavam também interessados na descoberta das causas naturais do mundo, formulando a base filosófica e o conceito de cosmos que possibilitaria a ciência ocidental, base da nossa tecnologia. Um desses padres, Thierry de Chartres, deve ser considerado um dos fundadores da ciência moderna — uma espécie de Newton ou Einstein de sua época.

Para esses sofisticadíssimos monges medievais, que buscavam a harmonia entre o saber natural e o sobrenatural, as criações divinas — astros, oceanos, rios, montanhas, florestas etc. — não eram pequenos deuses com poder e soberania próprios, nos setores sob sua jurisdição, como acreditavam as civilizações panteístas (segundo as quais a essência divina se diluiria em todas as coisas), mas realidades controladas por leis físicas, nas quais o Criador normalmente não interferia, competindo ao ser humano descobri-las.

Insiste Thomas Woods que, sem essa desvinculação do Criador onipotente e das criaturas sem atributos divinos, docilmente obedientes às leis decretadas pela Providência, provavelmente não haveria ciência como a praticamos hoje. E essa desvinculação foi obra da mentalidade judaico-cristã.

Surpreendente, no livro de Thomas E. Woods Jr., é a relação dos padres envolvidos com ciência, não só como meros praticantes, mas figuras exponenciais e criativas em cada área, além da ajuda financeira que a Igreja sempre deu a pesquisas científicas. Dignas de nota são, também, as páginas dedicadas ao episódio Galileu, apoiado na mais recente bibliografia e bastante diferente do que costuma propagar a Universidade, a mídia e os livros didáticos da escola média, que continuam fiéis àquele propósito revolucionário do século XVIII de destruição da grande construtora da civilização ocidental.

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Bastante esclarecedoras são as palavras do historiador americano sobre a moral judaico-cristã. Segundo ele, a base da moralidade ocidental é a ideia da sacralidade da vida humana, do valor único de cada pessoa por sua alma imortal. É a contribuição fundamental do cristianismo, que desde cedo bateu de frente com a impiedosa mentalidade pagã, cuja indiferença pelos doentes e crianças parece estar voltando nessa onda atual em defesa do aborto, da eutanásia e do suicídio. Foi com base nessa concepção da pessoa humana, que a Igreja criou as instituições assistenciais que conhecemos: hospitais, asilos, creches, previdência.

A Igreja prega e pregou o que pregava o Cristo, que preferia ensinar o enfrentamento das adversidades, e por isso sempre condenou o suicídio. Thomas Woods lembra que, para santo Agostinho, o suicídio era expressão de covardia diante do sofrimento ou da injustiça; se a vida é dom de Deus, dizia santo Tomás de Aquino, só Ele podia tirá-la (nos países católicos, sempre foi menor a taxa de suicídios).

O cristianismo também sempre os condenou os esportes que botam em risco a vida. E os suprimiu, quando pôde fazê-lo. Sua oposição à prática do duelo como método jurídico irritou muita gente, mas estava perfeitamente sintonizada com a sua reprovação de uma tendência muito prezada por nós, a da vingança. Descartava qualquer atividade que expusesse a vida a perigo, e só a aceitava se houvesse uma justa causa, como nas invasões.

E, da justa causa, chegamos à guerra justa, também defendida pela Igreja e seus principais teólogos, que viam na ideia da autodeterminação dos povos um princípio intocável do direito natural. Os antigos quase não se preocuparam com o assunto, começando com os Padres da Igreja a sua primeira abordagem séria, tendo como fundamento a ideia da sacralidade da vida humana, ao contrário do que diria Maquiavel na Renascença, que via o Estado como senhor absoluto da guerra e da paz, imune a quaisquer julgamentos externos (mais que guerra justa, preferia falar em guerra oportuna). Santo Agostinho defendia a guerra contra qualquer forma de injustiça que provocasse sofrimento a homens bons, desde que se poupasse a população civil e não fosse veículo de vingança. Entre as condições da guerra justa, são Tomás de Aquino lembrava que, além de ter como causa uma falta grave, devia ser declarada por instâncias superiores à do indivíduo privado, às quais Francisco de Vitoria ajuntava a virtude da humildade: que a derrota não fosse utilizada para vanglória do vitorioso, como no paganismo. Com muita clareza, Thomas Woods revela como o nosso Direito, suporte da liberdade e da justiça, tem suas raízes fincadas no Direito Canônico.

As feministas muito aprenderiam, com essa obra, sobre os benefícios que a civilização cristã trouxe à mulher. A Igreja Católica foi a primeira “instituição” feminista da História… Restaurou o matrimônio, que andava degradado, tão grande era a indecência sexual na época de Cristo. Botou ordem no barraco, ao decretar que somente eram lícitas as relações íntimas entre marido e mulher, estendendo o adultério ao homem. Com a santificação do casamento pelo sacramento do matrimônio e a proibição do divórcio, que impedia a prática frequente de abandonar mulheres, estas passaram a sentir-se mais à vontade à sombra da Igreja. Talvez seja a causa do cristianismo ter sido, desde a origem, uma religião mais frequentada por mulheres (o que talvez esteja na base do surgimento de comunidades religiosas femininas dotadas de autogoverno, coisa que nunca houve antes).Como a Igreja Católica construiu a civilização ocidental, de Thomas Woods, é uma bela síntese: reúne informações preciosas sobre os esforços particulares, empreendidos por estudiosos das mais variadas áreas de pesquisa, de fundamentar cientificamente a apologética, defendendo a Igreja Católica com a melhor arma que existe: a verdade.

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