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A POESIA COMO ANTÍDOTO PARA O RELATIVISMO MODERNO – Matthew Anderson

[Matthew Anderson é o diretor da Chesterton Academy of St. George, um colégio clássico de tradição católica que vai abrir em Jackson, Michigan, no Outono de 2022. É licenciado em Teologia Sistemática pela Christendom College Graduate School of Theology e reside em Jackson, Michigan, com a sua mulher Elizabeth e os seus cinco filhos, de onde escreve sobre fé e cultura].

Se queremos transmitir melhor a fé às próximas gerações, então a poesia tem de ter um maior protagonismo na educação católica. Não é segredo nenhum que grande parte da formação religiosa, que se dá na Igreja Católica, está em crise. As nossas escolas e paróquias são servidas muitas vezes por pessoas bem-intencionadas, que querem educar rapazes e moças para amar e servir o Senhor, mas parece haver uma desconexão entre as suas intenções e os resultados.

As mais recentes tendências revelam esta dinâmica. Apenas 39% dos católicos vão semanalmente à missa (isto antes da pandemia). Cerca de três quartos dos católicos acreditam que a Igreja devia mudar a sua posição sobre a contracepção (não obstante isto ser uma impossibilidade teológica). E ficou famosa a sondagem da Pew Research Center, em 2019, que revelou que 70% dos católicos não acreditam na Presença Real na Eucaristia, apesar de esta ser, nas palavras do Concílio Vaticano II, a “fonte e cume da vida cristã”.

Por que é que esta desconexão afeta tantos católicos modernos? E como é que a poesia pode ajudar? Dito de forma simples, a poesia introduz os estudantes num mundo simbólico, o que é uma condição essencial para a crença nos sacramentos.

Muitas vezes tentamos ensinar a fé a jovens que têm uma mundivisão moderna e relativista, mas essa é uma perspectiva que ataca na raiz a natureza intrínseca de elementos-chave do catolicismo, tais como os sacramentos.

Em Uma era secular, Charles Taylor fala da diferença entre a mundivisão moderna e a mundivisão sacramental em termos da origem do significado das coisas. Na visão moderna “as coisas só têm sentido na medida em que despertam em nós certas respostas”. Na visão pré-moderna e secular, “os sentidos não se encontram apenas nas mentes, mas também nas coisas, ou em vários sujeitos extra-humanos, mas intra-cósmicos”.

Atualmente, um jovem que esteja crescendo com uma mundivisão moderna tende a acreditar que o sentido das coisas é uma projeção da mente. As coisas não têm sentido em si; o único sentido que podem ter é aquele que lhes damos. Esta mentalidade está na raiz de assuntos tais como a redefinição do casamento e o fenómeno transgênero. Vendo os sacramentos dessa perspectiva, a Eucaristia é o Corpo de Cristo se assim quisermos, mas se não quisermos não é. Assim, os sacramentos tornam-se apenas símbolos, compostos apenas pelo sentido que lhes quisermos dar. Essa mentalidade é o sopro da morte para a fé.

Se queremos que os nossos jovens passem a acreditar na fé transcendente, conformando-se a ideais mais altos, temos de os ensinar que o sentido pode encontrar-se na realidade exterior a si. É aqui que entra a poesia. Não creio que seja uma coincidência que, quanto mais dominante se torna a mundivisão da auto-invenção, menos importância se dá à poesia na educação, porque a poesia comunica precisamente através de sentidos inerentes à realidade.

Tomemos, por exemplo, a primeira estrofe do poema “O tordo negro”. De Thomas Hardy:

I leant upon a coppice gate When Frost was specter-gray, And Winter’s dregs made desolate The weakening eye of day. The tangled bine-stems scored the sky Like strings of broken lyres, And all mankind that haunted nigh Had sought their household fires.

[Encostei-me ao portão de uma talhadia Quando a Geada era de um cinza espectral E os resquícios do Inverno punham desolado O olhar cansado do dia. Troncos entrelaçados rasgavam as alturas Como cordas de liras despedaçadas E os homens, que perturbavam as redondezas, Já tinham regressado às lareiras de suas casas].

Neste poema, Hardy recorre a imagens de espectros e de assombros, resquícios e troncos entrelaçados, para transmitir a imagem de uma paisagem desoladora, solitária e sem esperança. Usa também o som de palavras como “sky” e “nigh”, no original [“alturas” e “redondezas”, na tradução] para dar à cena alguma severidade. O efeito final é misterioso e sombrio, preparando assim a entrada em cena de um pequeno tordo que, mais adiante no poema, irá cantar uma melodia feliz no meio desta paisagem, como se estivesse preenchido de “alguma Esperança bendita, de que ele tinha conhecimento, mas eu ignorava”.

Com esta utilização de imagens e de sons, o poema depende da existência de um sentido intrínseco das coisas materiais em si mesmas, preparando assim o palco para a discrepância da esperança do tordo. Por outras palavras, depende de uma visão sacramental da realidade. Se usássemos a mundivisão subjetiva, o poema simplesmente deixaria de fazer sentido. Se os resquícios do inverno são uma realidade gloriosa, porque acontece eu gostar do inverno; e os troncos, entrelaçados como cordas de liras despedaçadas, são apenas uma opção paisagística avant-garde; então, o aparecimento do tordo e da esperança no meio da desolação já não tem qualquer significado. É precisamente o significado das coisas que conduz o leitor à compreensão da beleza da esperança.

Quando confrontamos os jovens com a poesia, é ela própria, através da sua natureza, que lhes ensina que as coisas têm sentido. A poesia funciona como um antídoto ao relativismo da modernidade. Conduz ao mundo encantado de que falava Taylor, um mundo em que as folhas e as árvores, o pôr-do-sol e as tempestades têm sentido. Porém, mais que tudo isso, prepara-os para aceitar uma Fé em que, como disse o Venerável Fulton Sheen, “a maior história de amor de todos os tempos está contida numa pequena hóstia branca”.

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