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A REVELAÇÃO NOS PADRES DA IGREJA( OS CAPADÓCIOS)



O problema da revelação não preocupa os capadócios. Em seu horizonte o primeiro plano é ocupado pela trindade e pela cristologia, entretanto, a heresia de Eumônio oferece-lhes ocasião para apresentarem a doutrina tradicional. Os primeiros escritores > Justino, Irineu, Clemente de Alexandria, Orígenes > afirmavam que o conhecimento da essência divina está além das forças naturais do homem. Pelo fim do século quarto, Eumônio pretendia, pelo contrário, que a essência divina uma vez revelada, já não apresentaria nenhum mistério. Diante desse erro, Gregório de Nazianzo, Basílio, Gregório de Nissa insistem na imcompreensibilidade da essência divina, misteriosa mesmo para a inteligência iluminada pela revelação. A partir do mundo visível, pode o homem chegar a conhecer a Deus, sua existência e seus atributos, mas a essência mesma de Deus continua sendo trevas que não se podem penetrar totalmente.

1- são Basílio São Basílio ensina que somente o filho e o espírito santo conhecem intimamente o pai. Mesmos as testemunhas de Deus que receberam suas confidências, Davi, Isaías, Paulo, confessavam que a essência divina é inacessível. O que sabemos dos segredos se Deus, o sabemos pelo Cristo que nos faz conhecer o pai. “Aos que estão presos sob as trevas da ignorância, ele os ilumina: é por isso a luz verdadeira. Ele é a verdade. Dele, que é o mestre, recebemos uma “doutrina necessária e salutar”, que se deve guardar integra, à qual nos devemos agarrar. Essa doutrina se encontra na escritura, que é a palavra de verdade e na tradição oral, autorizada e garantida pela igreja. A São Basílio porém, mais do que o dom da doutrina revelada, interessa sua plena assimilação e frutificação na alma por uma iluminação da gnose. Gnose que é um elemento essencial da assimilação progressiva a Deus, da divinização do cristão. É um conhecimento superior de Deus, sob a influência do espírito santo. É de modo INTEIRAMENTE INTELECTUAL que Basílio entende a ação santificadora do espírito santo. Ele deifica iluminando, revelando, fazendo a alma participar de sua própria luz. Irradia sua luz na alma que assim se torna mais transparente e espiritual, mais penetrante, podemos chegar a uma inteligência maior das coisas divinas. Tal gnose não é privilégio de alguns iniciados, destina-se a todos os batizados. Pouco a pouco o espírito de verdade, de sabedoria, manifesta-lhes no Cristo a glória do filho vindo do pai. Sob a luz irradiante do espírito, a inteligência ergue-se, pelo filho, até ao pai, penetrando cada vez mais nos mistérios divinos. O espírito conhece as as profundezas de Deus e dele recebe a criatura a revelação dos mistérios.


SÃO GREGÓRIO DE NISSA




Como são Basílio, Gregório de Nissa insiste, contra Eumônio, na inacessibilidade da essência divina. Deve-se, contudo, distinguir entre conhecimento de Deus autor do mundo e o de sua essência. Gregório compara o universo a uma obra que permite reconhecer não a natureza, mas a existência e a arte do artifície. “Olhando a ordem da criação, podemos fazer uma idéia, não dá essência, mas da sabedoria de quem tudo dez sabiamente….; O invisível por natureza torna-se visível por sua atividade que algo nos manifesta acerca de sua natureza. É, pois, um conhecimento analógico de Deus a partir das perfeições visíveis de suas criaturas. Deus não apenas se deixa conhecer pela pregação silenciosa do universo, mas vem ao encontro do homem estabelecendo com ele uma comunicação pessoal. Tipo da testemunha das confidências de Deus no antigo testamento é Moisés. Foi “instruído….. Pelo ensinamento inefável de Deus”; foi iniciado nos segredos divinos; recebeu “o conhecimento dos mistérios ocultos”, os “mandamentos divinos”. Sobre a montanha santa, observa Gregório de Nissa, Moisés recebeu “pela palavra”, o mesmo ensinamento que lhe fora dado pelas trevas para que, penso eu, nossa fé nessa doutrina fosse garantida pelo testemunho da palavra divina”. “Os ensinamentos recebidos do mestre celeste “. Gregório nota muito bem que a doutrina revelada sobre a criação e a queda nos foi comunicada sob a forma de uma história. “Moisés narra mais como um historiador…. Apresentando-nos doutrina sob a forma de relatos”. Com o tempo, fez-se a palavra divina cada mais clara. Débil ainda, sob a lei e os profetas, brilha e ressoa na pregação do evangelho, levada pelo sopro do espírito santo até os confins da terra. No Cristo e nos apóstolos a revelação atinge seu auge. Com precisão Gregório descreve essa ação divina. Insistentemente repete que nossa fé é segura, instruídos e ensinados que fomos pelo próprio senhor “a fé dos cristãos….. não vem dos homens, nem pelos homens, nem pelos homens, mas por nosso senhor Jesus Cristo, que é o verbo de Deus, vida, luz e verdade, Deus e sabedoria, por sua própria natureza”. Encarnou-se o verbo para que os homens não mais se apoiassem nas suas próprias opiniões como se fossem verdades. “Certos de que Deus se manifestou na carne, acreditemos nesse único verdadeiro mistério de piedade, que nos foi transmitido pelo próprio verbo, que pessoalmente falou aos apóstolos”. Se “o verbo em pessoa nos dá um testemunho no evangelho”, devemos acreditar nele pois “que testemunha mais digna de fé que o próprio senhor poderemos encontrar? Muitas vezes Gregório de Nissa apresenta o idéia de revelação com o termo paulino de mistério, isto é, o segundo desde a eternidade oculto em Deus e manifestado pelo Cristo. É, como em são Paulo, o mistério da piedade” e o “mistério da economia da encarnação”. Mistério que diversamente dos mistérios pagãos, destina-se essencialmente a ser promulgado . Assim Pedro revela claramente a economia oculta do mistério. João é o arauto do mistério do conhecimento de Deus. O mistério, enquanto revelado, é essencialmente a boa nova, o “mistério evangélico”. Chega ao conhecimento dos homens pela palavra de Deus, a palavra do mistério, e os apóstolos são os “servidores do mistério”. No modo de falar de Gregório, a verdade trazida por Cristo aos homens é o ensinamento da religião, a doutrina nova, o evangelho, a doutrina de Deus, a graça do Evangelho, a doutrina do mistério, os ensinamentos revelados. Os capadócios, ao mesmo tempo que se opõe a Eumônio, reconhecem duplo caminho de acesso no conhecimento da fé. Por Cristo nos vem o conhecimento dos mistérios divinos. São Basílio vê no Cristo e no seu ensinamento a luz dos homens. Insiste, como Clemente de Alexandria, no movimento de frutificação que a adesão da fé inicia na alma. Sob a iluminação do espírito santo, a alma penetra mais nos mistérios do filho e do pai. Gregório de Nissa vê na revelação a iniciativa benévola de Deus que confia seus segredos a suas testemunhas, os profetas e os apóstolos, e por seu intermédio, à humanidade. No Cristo e no evangelho culmina a revelação. Então é o próprio verbo que testemunha e nos introduz nos segredos divinos. Aos apóstolos compete a missão de proclamar o mistério de piedade como uma Boa nova.


SÃO JOÃO CHRISOSTOMOS

Na esteira



de são Basílio, Gregório de Nissa e Cirillo de Jerusalém, são João Crisóstomo, escrevendo contra os anomeus, repete que Deus, mesmo depois da revelação, continua o Deus oculto e incompreensível. Fala, porém de forma mais pastoral. Deus é invisível, inenarrável, inescrutável, inacessível, incompreensível, irrepresentável: será para sempre o abismo, a escuridão. É radical essa imcompreensibilidade. Atinge todas as criaturas: o salmista, Isaías, Abraão, Moisés, os anjos. Inacessível não é apenas a essência divina, mas também sua presença no mundo, ou seja, o ministério de seus caminhos, de seus desígnios e de sua realização, tão impenetrável quanto sua transcendência quando os profetas afirmam ter visto a Deus, não viram senão sinais figurativos, na medida de sua fraqueza humana. Antes o incompreensível, deve o homem reconhecer que ele nada sabe, a menos que pretendesse poder chegar a um conhecimento completo da essência divina. O perfeito conhecimento de Deus é privilégio exclusivo do filho e do espírito( Hom. 15,1;59,98). Podem penetrar o próprio Deus apenas o espírito de verdade “que perscruta as profundezas de Deus” ( 1cor.2,10) e o filho unigênito que vive no seio do pai, conhece-o exata, plena, e inteiramente( Hom. 15, 2:59, 98-100). Apesar de tudo, sabemos algo a respeito de Deus, pois ele falou aos homens ” por si mesmo no começo”, (Gen.1, Hom.2,2:53,27-28), depois “pelos profetas”, finalmente “pelo filho”, que “falou aos apóstolos e por eles a muitos” (Heb. 1, Hom. 1,1:63,15-16). Em Jesus Cristo nos é dado o conhecimento do mistério oculto aos povos e aos anjos. O que somente Deus conhecia, ele nos revelou em seu filho Jesus Cristo. Foi Deus, e não um homem que nos ensinou a fé cristã. A doutrina anunciada por Cristo contém um conjunto de verdades que a inteligência humana não poderia nem atingir nem suspeitar. Mesmo após a revelação continuam impenetráveis os mistérios. Os profetas e os apóstolos que receberam a revelação dos segredos divinos proclamam, apesar de tudo, sua sabedoria incompreensível. Ante a imensidade de Deus, o homem é tomado pela admiração, pelo estupor como Zacarias, tremem os anjos num terror sagrado. Ante a santidade divina, a criatura adora, glorifica e se cala. Ante Deus que fala ou se revela, presta a homenagem da fé. Assim foi com Abraão, a seu exemplo, quando Deus fala, o homem deve apresentar-lhe um espírito disponível e desembaraçado de toda sabedoria profana; na fé, acolher as palavras divinas. “Quando Deus fala, ou quando faz milagres, devemos crer e obedecer”. S. João Crisóstomo não proíbe ao cristão aprofundar sua fé; recusa as especulações racionalistas. Se Deus fala, deve o homem conformar sua vida aos ensinamentos divinos. E, uma vez que Deus nos fala por seu filho, vivamos de uma forma que seja digna de tão grande honra. Seria ridículo, que dignando-se Jesus Cristo falar-nos por si mesmo e não mais por seus servos, não fizéssemos mais que aqueles que nos precederam. Tiveram Moisés por mestre, e nós temos por doutor o mestre de Moisés.. Jesus não nos trouxe uma doutrina celeste senão para que ao céu elevássemos o nosso pensamento e para que imitássemos nosso doutor, à medida de nossas forças e capacidades”. Os profetas, que reconhecem a Jesus Cristo antes mesmo de sua encarnação, que souberam e anunciaram que ele deveria vir para entre os homens(Jo. Hom. 8,1;59,66), em favor dele prestaram seu testemunho que a escritura conserva. Assim também os apóstolos são testemunhas do cristo, mas do cristo entre nós. Viram e ouviram o Cristo desde o começo, comeram e beberam em sua companhia, também eles testemunham o que viram e ouviram. Instrui-os Cristo, confiou-lhes seus segredos, comunicou-lhes sua doutrina. É missão deles divulgar no universo a doutrina que de Cristo receberam. O que anunciam é a palavra viva do cristo, o evangelho, a boa nova, “isto é, a libertação das penas, o perdão dos pecados, a justiça, a santificação, a redenção, a adoção dos filhos de Deus, a herança de seu reino e a glória de nos tornarmos irmãos de seu filho único” ( mt. Hom. 1, 1:57-15). Se todos os atos dos filhos tem por finalidade salvar o homem, podemos dizer que o tema do evangelho é o Cristo e a economia da salvação pela cruz. Numa palavra: É a história sagrada ou “a palavra da cruz”(Mt. Hom. 1,2:57,16). Os apóstolos, meros ministros do evangelho, transmitiram-no em sua pureza integral. Sua doutrina conserva-se, sem aliterações, na escritura é na tradição da igreja. São João Crisóstomo nada nos apresenta de sistemático sobre a revelação. Refutando os anomeus e nas suas homilias sobre a escritura tem, ocasião, se não de explicar, pelo menos de afirmar é descrever a revelação. Contra os anomeus insiste na imcompreensibilidade de Deus. Só o filho e o espírito santo conhecem perfeitamente a Deus. O que deles sabemos, nos vem pelos profetas e principalmente pelo Cristo, o filho do pai que veio trazer aos homens o conhecimento da economia salvífica oculta aos anjos e as nações. Anunciada por Cristo a boa-nova da salvação, os apóstolos, suas testemunhas, receberam a missão de pregá-la e transmiti-la à igreja. Os homens são convidados a dar resposta à mensagem de Cristo, crendo e conformando sua vida à doutrina ouvida.

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