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A utopia do mercado de trabalho no imaginário feminista

A utopia do mercado de trabalho no imaginário feminista

Nos dias atuais, não é estranho perguntar pra alguém que acabamos de conhecer o que essa pessoa faz da vida. Tendemos a exaltar o trabalho como parte fundamental da nossa identidade. À começar pela famosa pergunta que escutamos desde crianças: “o que você quer ser quando crescer?”. Parece que quando crescer não seremos pais, maridos, esposas, amigos, mas somente advogados, médicos ou engenheiros. É uma pergunta complexa a ser feita para um adulto, imagina à uma criança. No entanto, esse é um ponto de vista moderno. Durante a maior parte da história o trabalho foi considerado algo desagradável, difícil e até perigoso. Era um mal necessário à sobrevivência.

A palavra trabalho, em diversas línguas e culturas, sempre esteve associada à dor e sofrimento. Por exemplo o termo grego para trabalho, “ponos”, também pode significar “sofrimento” ou “punição”. A palavra latina “labor” também tem as acepções secundárias de “esforço”, “sofrimento”, “padecimento”, “agonia” — inclusive a agonia que as mulheres sofrem durante o trabalho de parto. O inglês “labor”, o italiano “lavoro” e o francês “travail” também conservam vários desses significados. (CREVELD, Martin Van, p.123)

A visão bíblica não é diferente. Após a queda, o lavrar da terra que teria sido a benção de Deus para cultivo do Éden, se torna em penoso castigo ao homem. “Maldita é a terra por sua causa; com sofrimento você se alimentará dela todos os dias da sua vida.[…] Com o suor do seu rosto você comerá o seu pão, até que volte à terra, visto que dela foi tirado…” (Gênesis 3:17 e 19)

O trabalho não era um privilégio, mas sim um fardo, e coube ao homem carregá-lo. Ao longo da história, por diversas culturas, sempre coube ao homem o dever do trabalho e de prover o sustento de sua família. Seja em ambientes degradantes, perigosos, inóspitos, desde a caça de animais selvagens na floresta, até profundezas de uma mina de carvão, era dever do homem trabalhar e ser responsável pelo cuidado da sua família.

Ao contrário do que as feministas afirmam, as mulheres não foram privadas desse ambiente, mas poupadas dele. Era de fato um privilégio, se comparado ao trabalho masculino, cuidar da casa e dos filhos. Isso de maneira nenhuma quer dizer que as mulheres nunca trabalhavam, mesmo fora de casa, mas apenas uma constatação histórica. Nenhuma mulher em sã consciência abriria mão por livre e espontânea vontade do trabalho no lar pelo trabalho nas minas de carvão. A não ser que houvesse necessidade extrema. Como no caso dos períodos de guerra, onde os homens iam para o front de batalha, e muitas mulheres tiveram que assumir as funções nas fábricas, mas isso é outro assunto.

O cenário começou a mudar após a industrialização. Quando as mulheres chegaram no mercado de trabalho, as condições, mesmo que ruins, eram muito superiores em relação ao que os homens enfrentaram ao longo dos séculos anteriores. E as mulheres chegaram nesse mercado não graças ao feminismo, mas devido as necessidades criadas por inovações industriais, guerras, calamidades e crises. Como a própria feminista russa Alexandra Kollontai admite: “Anteriormente, o homem era a única possibilidade de sustento da família. Porém, nos últimos cinquenta anos, temos visto na Rússia (e em outros países), que o regime capitalista obriga as mulheres a buscar o trabalho remunerado fora da família, fora de casa” (KOLLONTAI, Alexandra. A família e o comunismo p.23). Isso condiz com a crítica de Karl Marx faz ao capitalismo, dizendo que o capitalismo já havia destruído a família, pois devido ao excessivo trabalho as relações familiares haviam se deteriorado. A demanda por mão de obra causada pelas inovações industriais do século XVIII e XIX fez com que algumas mulheres tivessem que trabalhar para ajudar a sustentar a família. Nesse ponto, Marx e Kollontai fizeram uma crítica válida, porém, a proposta deles foi muito pior e a história do comunismo já demonstra isso.

Portanto, vemos que as mulheres de maneira geral, foram poupadas de trabalhos sujos e perigosos ao longo da história, e quando as coisas começaram a apresentar sinal de mudança, elas foram sendo inseridas no mercado de trabalho pela necessidade, devido a transformação social e tecnológica. O feminismo sequestrou essa mudança, e tomou para si o papel de mola impulsionadora da mulher. Além de sequestrar algo que não lhe pertence, iludiu as mulheres com um discurso enganador de que o trabalho as libertaria das amarras familiares e as completaria como mulher. Quanto engano!

O feminismo vendeu um caminhão de mentiras para as mulheres, e elas, muitas vezes já frustradas e ligadas a relacionamentos onde o homem não cumpria seu papel como Homem de fato, acabaram embarcando nesse ideal revolucionário. O feminismo cresce no vácuo deixado por homens fracos e displicentes, pouco parecidos com Cristo, que não cumprem seu papel e acabam dando margem para que esta doença se alastre. O feminismo usa o ódio, a insatisfação e o ressentimento como combustível de suas demandas, e busca explorar as fragilidades do universo feminino para usá-lo como plataforma ideológica. O movimento precisa que a mulher se sinta uma vítima, pois sem a vítima, não haveria um ponto no qual ele pudesse explorar e surgir como um “salvador dos fracos e oprimidos”.

Tomemos como exemplo a famosa feminista americana Betty Friedan. Após viver um casamento fracassado, escreveu livros comparando a vida doméstica aos campos de concentração nazistas (FRIEDAN, Betty. A mística feminina p. 262). E isso de fato influenciou uma geração de mulheres, que viram nas críticas dessas mulheres as suas próprias amarguras. A cultura foi se tornando cada vez mais secular, colocando os padrões morais cristãos de lado e buscando se alimentar não da palavra de Deus, mas dos manifestos ideológicos produzidos por feministas. E com a ajuda da mídia, a produção e distribuição dessa ideologia alcançou níveis globais.

O feminismo buscou desconstruir o casamento, a maternidade e a família, os tratando como opressões moralistas da religião cristã. Subverteu a natureza da mulher em prol de uma ideologia progressista, rompendo com séculos de tradição e abraçando o total desconhecido rumo ao caminho revolucionário. O problema não é a mulher trabalhar, mas o lugar que o trabalho ocupa em seu coração e o quanto ele faz parte da sua identidade como mulher. É mais ou menos como diz o escritor G.K Chesterton: “O feminismo trouxe a ideia confusa de que as mulheres são livres quando servem aos seus empregadores, mas são escravas quando ajudam seus maridos.” Simone Beauvoir chega até mesmo a afirmar: “ A dona-de-casa é parasitária. […] As mulheres não deveria ter essa escolha [de se dedicar a família]” BEAUVOIR, Simone. O Segundo Sexo p.411).

Existem pessoas que gostam dos seus trabalhos, outras nem tanto, mas é no mínimo estranho que a ideia do sonhado “mercado de trabalho” possa ser um ambiente mais confortável e aconchegante do que o próprio lar familiar. O feminismo é anti-cristão por natureza, sua maneira de enxergar a natureza do homem e da mulher, a instituição do matrimônio e a figura de Deus são opostas da visão cristã. A começar pela incapacidade de admitir as diferenças naturais entre ambos os sexos e o papel da submissão dos cônjuges dentro do casamento. A raiz da ideologia é a luta contra a realidade, é a tentativa de moldar o mundo segundo suas ideias, mesmo que esse mundo seja utópico e signifique destruir o mundo real na tentativa de implementá-lo. Entendemos o feminismo muito melhor não quando atentamos às suas demandas, mas quando analisamos o que elas desprezam e buscam destruir nesse processo.

A pretensa autonomia da mulher em relação ao homem faz a mulher se sacrificar cada vez mais na carreira, abraçando o discurso feminista diluído em nossa cultura moderna de que a mulher não pode depender de homem. Mas o estranho é que depender do homem é inadmissível, mas do Estado não há problema algum. Como Kollontai novamente afirma: “as mulheres devem acostumar-se a buscar e encontrar seu sustento em outro lugar, não na pessoa do homem, mas sim na pessoa do Estado.” (KOLLONTAI, Alexandra. A família e o comunismo p. 18) A idolatria ao Estado é tamanha, a ponto de personificá-lo, chamando de pessoa.

A questão não é a independência do homem, mas a dependência do Estado. Não à toa grupos feministas sempre foram ligados a pautas progressistas e esquerdistas. Ao demandar que o Estado crie leis em benefício da mulher, creches para seus filhos (já que elas não têm mais tempo para criá-los), facilidade para divórcio, ressignificação do conceito de família, eles colocam nas mãos do Estado a sua dependência.

Curiosamente, ao contrário do que muitas militantes feministas esperariam da autonomia da mulher, que agora está plenamente ativa no mercado de trabalho, o resultado foi desapontador e longe do paraíso esperado. Mesmo tendo atingido o que antes era considerado como objetivo supremo de felicidade, as mulheres modernas estão mais infelizes em relação aos homens, como demonstrado por Stevenson and Wolfers, 2009 em The Paradox of Declining Female Happiness.

Ao se deixar envolver pelo discurso feminista de entrega total ao trabalho e abandono da família, a mulher perdeu seu centro, e anda perdida em busca de si, sem saber por onde começar. Esse descasamento entre sua natureza feminina e suas crenças progressistas, cria um vazio gigante, que tem gerado inclusive depressão.

A mulher deve ser amada, cuidada e protegida, e isso é um dever masculino. Infelizmente nossa cultura está abandonando esse ideal bíblico. O feminismo tem uma visão totalmente utópica em relação ao trabalho. O trabalho é necessário, ajuda a formar caráter, a criar responsabilidades e amadurecer, mas está longe de ser uma forma de encontrar a felicidade, sentido de existência e propósito de vida.

Na prática, só serviu para criar um imaginário de idealização do trabalho, uma vida vazia e sem sentido, onde formar uma família não é mais necessário. Esse ataque a família foi uma cortina de fumaça para o ponto central do problema e verdadeira bandeira feminista, a revolução sexual. A revolução sexual na prática fracassou, trouxe apenas ainda mais amargura e solidão para as mulheres. Como a própria advogada da ideia admite: “Na prática, a nova liberdade sexual foi em grande parte o apanágio dos homens.[…] A situação das mulheres piorou nos primeiros decênios da revolução…” (MILLET, Kate. Política Sexual).

Assim é com a utopia do mercado de trabalho. Mostrando que as demandas feministas trouxeram piora para a vida da mulher. Elas estabelecem um objetivo, dizendo que quando o alcançarem será a plenitude da mulher. E quando alcançam, percebem que tudo não passou de uma ilusão. E assim estabelecem outro, e tudo se repete. É como construir uma casa na areia. O feminismo não se importa com a mulher, mas tem pauta própria e busca apenas seus próprios interesses, enganando muitas mulheres no caminho.

A conclusão que podemos chegar é, o feminismo vendeu uma mentira à mulher, de que a sua independência através do trabalho a tornaria mais feliz. A substituição do homem e da família pelo Estado é proposital e serve apenas aos fins políticos do movimento. O feminismo não se importa com a mulher, já que ignora sua essência feminina, ele apenas se importa com a revolução. Mas como consertar o mundo, se não entendem a si mesmas? Como dizer o que é melhor para a mulher, se o movimento não tem uma concepção correta da natureza humana e seus propósitos? Para conhecer a si, precisam conhecer sua natureza, e para conhecer sua natureza, precisam conhecer seu Criador. A idolatria do feminismo com o trabalho, é a revolta contra a ideia de Deus de que o lugar da mulher é como rainha de sua família, e não escrava de estranhos e dependente do Estado.

Curta: O Caminho

Autor: Ramon Serrano

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