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AMOR MAQUIAVÉLICO – Fausto Zamboni

Carpeaux elaborou uma lista de 100 obras literárias básicas, que ele chamou de “obras para reler”. Uma delas é A mandrágora, de Maquiavel, que o próprio Carpeaux considera como a maior comédia da literatura italiana e uma das grandes da literatura ocidental. Nela, o jovem Calímaco deseja conquistar a mais bela mulher já vista, a florentina Lucrécia. Mas ela é casada, virtuosa e reservada, e nem sabe da sua existência. Calímaco, obstinado, e não desiste. Pede a ajuda de um oportunista que frequenta a família. Sabendo que são ricos e não têm um herdeiro, se oferece como médico que chegou de Paris com a fórmula capaz de acabar com a esterilidade: uma poção de mandrágora. À custa de muita astúcia e manipulação, consegue ser introduzido no leito nupcial pelo marido velho e ignorante, com apoio da sogra e o aval do confessor. Por que Carpeaux recomendaria a leitura e a releitura dessa obra, indicando-a como o resumo das experiências, inclusive políticas, de Maquiavel?

Houve uma Lucrécia na fundação de Roma: uma nobre e virtuosa senhora casada que, violentada por um rei etrusco, suicidou-se. Revoltados, os romanos puseram fim à monarquia e fundaram uma nova ordem republicana. Maquiavel quer criar uma ordem política grandiosa, uma nova Roma fundada por um príncipe que, munido de virtù (força de vontade) domina a fortuna (as condições adversas). N’O Príncipe, Maquiavel diz que a Fortuna é mulher e, como mulher, obedece aos jovens impetuosos, que a dominam com força e audácia.

A mandrágora que serviria para a poção também tem origens político-religiosas ilustres. Foi cedida por Lia para a irmã Raquel, em troca de uma noite com o marido de ambas, Jacó, o patriarca do povo de Israel. Lucrécia e a mandrágora remetem a um mito fundador, e ao utilizá-los Maquiavel impregna a sua comédia com estes símbolos, indicando uma nova ordem, fundada por jovens impetuosos e sem preconceitos, que trazem novos valores para substituir a impotência e a esterilidade da velha ordem.

A modernidade sem dúvida seguiu os caminhos vislumbrados por Maquiavel. Cada vez mais as relações humanas, comerciais e políticas são permeadas por técnicas de indução e manipulação do comportamento. A conquista de Lucrécia continua a parecer-se muito com um estupro aperfeiçoado por técnicas mais sutis de coação: é o mesmo ato perverso, mas assumido como um valor positivo.

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