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AO LESTE DO HOMEM – Paulo Rónai


[Paulo Rónai é um intelectual húngaro, nascido em Budapeste em 1907, que fugiu do nazismo à época da Segunda Guerra e veio para o Brasil. Escreveu crítica literária, traduziu, deu aulas. Sua importância, nas letras brasileiras contemporâneas, já é reconhecida por todos. Colaborou na tradução do romance-memorialístico Ao leste do homem, do seu compatriota Aron Gabor, publicado no Brasil em 1972, embora seu nome não conste nos créditos da edição brasileira].

Ficção ou realidade? Uma e outra, como Um Dia da Vida de Ivan Denissovich, de Soljenitsin Obra de literatura ou de polémica? Uma e outra, como O Zero e o Infinito, de Arthur Koestler. As duas comparações esboçam coordenadas para situar este romance de Aron Gábor, agora publicado em tradução portuguesa.

O narrador conta uma história tão rocambolesca quanto pungente, dessas que só a vida sabe inventar, desenrolada paralelamente à de Ivan Denissovitch e de seus incontáveis companheiros no cenário trágico do universo de Stalin. Jornalista quando rebentou a Segunda Guerra Mundial, secretário-geral da Cruz Vermelha da Hungria depois do fim das hostilidades, num dia de setembro de 1945 ele foi convidado para ter uma conversa amistosa com o embaixador soviético na sede da embaixada em Budapeste. A conversa não chegou a realizar-se — mas o convidado desapareceu da circulação por quinze anos. Preso por suas atividades de correspondente de guerra, condenado à morte, mantido incomunicável durante quinze meses num cárcere da Hungria, agraciado, quando, só pele e ossos, já estava reduzido à própria sombra, levado a um hospital de presos na Polónia, restituído à vida, admitido no pessoal administrativo do hospital, atirado a um campo de concentração, assaltado por um bando de criminosos e absorvido por eles, viu-se afinal, enquadrado numa das levas de deportados, de rota marcada para a Sibéria.

E nesse ponto que se interrompem as reminiscências do narrador, cuja identidade com o autor é revelada como que acessoriamente pelo meio da história. Quem é ele? O nome de Aron Gábor tem ressonância mítica na história húngara, como sendo o de um dos participantes heroicos da frustrada guerra da independência de 1848-1849. O autor e o neto homónimo dessa figura lendária, vítima da repressão levada a efeito pelo exército russo que invadira a Hungria em 1849 para nela restabelecer a supremacia periclitante da Áustria aliada.

O romance relata uma sucessão estonteante de lances dramáticos, pesadelos que contrariam as leis da causalidade e as das sociedades civilizadas. Reviravoltas bruscas mudam de chofre as condições de vida do detento, trocando em seu redor cenários e comparsas que se diria caídos de um romance de Dostoievski, quando não de uma novela de Kafka. Vemo-nos introduzidos num mundo clandestino e monstruoso, existente à margem do mundo “normal”, mais de uma vez entremeado com ele, mas de uma ética e uma filosofia diametralmente opostas. Quem as formula é o ex-professor, ex-major e ex-homem Gavitski, condenado a 15 anos de trabalhos forçados por ter sido aprisionado pelos nazistas. “Você” — diz-lhe esse filósofo pragmático dos campos de concentração — “será urna simples máquina, máquina que não receberá outro combustível a não ser trezentas gramas de pão preto e um prato de sopa; máquina que não exige mecânico, mas apenas um supervisor de manutenção, prisioneiro como você, porém bem alimentado, forte e capaz de desmantelá-lo ou matá-lo quando lhe aprouver, sem sequer ser responsabilizado por esse ato. Máquina da qual existem milhões de exemplares, todos prontos para substituição. Não um homem-máquina, porém uma máquina-homem, barata e capaz de reproduzir sua espécie, pois germina em qualquer lugar, é onívora e pode suportar tudo, absolutamente tudo. É obediente, quieta e exige pouco. Se não recebe um pão inteiro, alguns pedaços lhe chegam ou nada. E se deixa de funcionar, os outros calcam-na sob os pés”.

O livro é o relato dessa maquinização através da confissão sem complacência de um homem criado nas ilusões do mundo ocidental e reduzido a mera rodagem. Arrancado a seu ambiente passa por uma fase de quase esquizofrenia, em que surge nele um ser novo, “o Prisioneiro”, daí em diante em luta constante com o que sobra do seu antigo ser, “o Cidadão”. Esse combate íntimo, analisado com exatidão impiedosa, é o cerne da história. Frequentemente o instinto de sobrevivência faz com que o cidadão se encolha ante o Prisioneiro, forçando o leitor a perguntar de si para si como ele próprio teria agido em transes semelhantes.

Não há como esquecermos o indivíduo atirado numa solitária, com a lenta agonia física e a solidão corrosiva a suscitarem-lhe em redor um universo irreal, povoado ao mesmo tempo dos fantasmas da sua mente e dos ratinhos, aranhas e moscas que lhe partilham a morada; o morto ressuscitado a quem sua passagem pelo hospital torna espectador de cenas grotescas, misto de episódios nojentos e gestos de autêntica grandeza; o participante interino dessa sociedade fechada que é a administração do hospital, conluio de burocratas privilegiados a se entregarem a um hedonismo frenético; o prisioneiro submetido à estranha hierarquia da peressilka, onde bandidos se substituem às autoridades; o parceiro à força de criminosos e mártires, de loucos varridos e racionadores implacáveis, o escravo de uma realidade horrível em cuja alma as lembranças da sua vida anterior permanecem apenas como os farrapos de um sonho.

Era preciso que este livro, através de uma versão inglesa, emergisse do isolamento da língua húngara, para que o Ocidente pudesse tomar conhecimento da obra pungente de um de seus escritores significativos; cabendo-lhe partilhar o destino amargo de milhões ignorados e descer no inferno da historia moderna, Aron Gábor soube testemunhar como os Silones e os Orwells.

Os dois outros volumes, cuja tradução se aguarda, hão de contar os anos do autor na Sibéria, com seu trânsito por um universo ignorado onde a vida dos presos e a dos homens livres se entrelaçam a ponto de, muitas vezes, não se distinguirem, mas onde, a par do homem e da miséria, já se vislumbrarem algumas centelhas de esperança.

[“Suplemento Literário” de O Estado de São Paulo, 22 de abril de 1973, p. 157]

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