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AS IMAGENS NO CATOLICISMO: SUA IMPORTÂNCIA PARA A FÉ E A CULTURA

AS IMAGENS NO CATOLICISMO: SUA IMPORTÂNCIA PARA A FÉ E A CULTURA

• Vamos explorar o tema imagem na e sua importância em vários períodos da cristandade e sua importância para a fé, e cultura, vamos entender como os medievais se relacionavam com as imagens, uma questão que entra no âmbito antropológico cristão, social e político, a imagem medieval pode, desse modo, ser comparada a uma aparição, a uma epifania, portanto as marcas desta. Os largamente atestado do Dourado, que reflete a luz, não fazia mais do que sublinhar a mediação que a imagem trava entre o visível e o invisível. Ainda outros indícios concorrem para esta função epifânico das imagens medievais. Por exemplo, muito mais do que a iconografia da paixão, são as manchas vermelho-sangue, que se coagulam nos pigmentos e irrompem na superfície do afresco, que dão significado ao mistério da encarnação.

• É especialmente a estrutura da imagem pintada que explicita essa função. A partir do século 15, começa a se impor, em primeiro lugar na Itália e em Flandres e depois, pouco a pouco, nas demais regiões da cristandade, a perspectiva linear como princípio estruturante do espaço homogêneo do quadro. Toda pintura clássica conheceu essa forma de representação do espaço, até sua revisão radical na passagem do século 19 para o 20. Mas o período anterior, o tempo do que se convencionou designar de arte românica arte gótica, não deverá ser julgado a partir dos padrões do renascimento. A perspectiva não fazia falta na Idade Média, que sabia à sua maneira organizar os espaços da imagem. Esta, quer se tratar de um retábulo ou de uma miniatura num manuscrito, era construída na espessura de seus planos, desde o mais recuado (o folheado a ouro que irradia luz, sobre o qual vinho a se sobrepor figuras coloridas) até o mais próximo do espectador. Sem entrar aqui nos detalhes da organização interna da imagem — a posição em que os personagens estão figurados, a inclinação parcial de seus corpos, sua estatura, seus gestos, suas cores —, convém sublinhar a que ponto a sequência dos planos de trás para frente reforça a natureza da epifania destas imagens: elas parecem surgir fora do manuscrito, do retábulo ou da parede pintada, projetando-se para o espectador a quem interpelam, como só uma visão onírica pode fazer.

• Muito diferentes serão as imagens perspectvistas do renascimento, que, inversamente, convidam ou espectador a entrar no espaço ilusionista da figuração, através de uma janela. O movimento é exatamente o contrário, mas não se reduz a uma mudança de ótica. Significa que a iniciativa mudou de campo. Doravante, essa iniciativa não pertence mais a majesta domini ou a imagem do Santo, mas ao devoto que, não mas no âmbito do sonho, Mas na vida real, encontra tempo para contemplar a imagem “feita pela mão do homem”. Pela primeira vez, talvez, ele esteja em condições de reconhecer uma obra de arte.

• A imagem medieval se impõe como uma aparição, entra no visível. Numa palavra, ela se encarna, segundo o paradigma central da cultura Cristã, a encarnação de Cristo, que os clérigos invocam em toda parte para legitimar as imagens cristãs em Face dos judeus. Com efeito, foi porque o filho de Deus se encarnou, tornando-se homem, entrando na história, quero é possível e legítimo aos cristãos ultrapassar as interdições judaicas da representação e do culto das imagens enunciados pelo decálogo (Êxodo 20, 4-5): tu não fará nenhuma imagem esculpida, nada que pareça o que está lá no alto dos céus ou aqui embaixo na terra, ou nas águas embaixo da terra. Tu não te prostrarás diante destas imagens nem as servirá, porque eu Yahvé, teu Deus sou um Deus zeloso. Compreende-se a partir daí porque tantas imagens de Cristo, da viagem e dos Santos foram providas de relíquias, seladas na cabeça ou no ventre de certas imagens: Será preciso reforçar seu poder miraculoso beneficiando-as com as virtudes com feridas de longa data às relíquias e ao seu culto, talvez o mais importante fosse assegurar plenamente a presença corporal desses personagens celestiais entre os homens. Desde então, todo o conjunto de interações, feito de gestos, de palavras e de experiências visionárias, podia se estabelecer entre os homens e essas imagens-corpo, presença visíveis e carnais do invisível.

• Mediadoras, as imagens estavam entre os homens e o divino. Nesse aspecto, elas e levavam plenamente da teoria agostiniana da imaginatio. Em seu comentário em 12 livro do Gênesis, Santo Agostinho deteve-se longamente na distinção entre três espécies de visiones. Enquanto a visio corporalis não era outra senão o sentido da visão, que permite perceber corporalmente objetos corporais, a visio intellectualis, inversamente, é pura contemplação da alma racional, estando além de toda imagem. Entre as duas, a visio spiritualis atinge as aparências do ser, no sonho ou pela experiência visionária. Ela preenche a ausência, ultrapassa as barreiras da morte, desvela os últimos fins, antecipa o tempo da promessa. Por ela formam-se as imagines, que serão depois conservadas na memória.

• No século 12, a teoria da Imaginatio renova-se numa “pneumofantasmologia” em que se agregam saberes que só depois viriam a se separar: o da teologia Mística, da cosmologia, psicologia, ótica e medicina.

• Para as místicas do fim da Idade Média, a imagem de devoção (a de Cristo crucificado, imago pietatis que figura Cristo nu no seu sepulcro, os arma Christi que oferecem ao olhar o catálogo dos instrumentos da paixão — os cravos, a coroa de espinhos, a coluna da flagelação, etc. — ou então a Pietá tendo sobre seus olhos o corpo inanimado do filho) suscita a visão que, em troca, lhe dá as aparências da vida, a ilusão do movimento e da linguagem, aí fusão das lágrimas e do sangue divino, dito de outra forma, os sinais de uma presença real. Graças à imagem, os místicos estabelecem uma relação mediada com as personagens santas, com as quais procuram se assemelhar, interpondo-se entre a Virgem e o menino Jesus ou entre João e Cristo. Entre a imagem e o devoto, a troca de olhares e desde o primeiro momento determinante: ao fixar a imagem dos olhos, este último Center ser invadido por uma presença viva, antes de encontrar em sonho a confirmação de seu poder ativo.

• Essa interatividade entre a imagem e quem a vê — ou que, mais exatamente, é visto por ela — não era inteiramente nova nos séculos 13-15, mesmo que não tenha sido jamais tão intensa quanto nos meios de votos e místicos dessa época. Desde os séculos 0-10, quando o ocidente redescobre a escultura em três dimensões pelas majestades ou estátuas-relicário de Cristo, da virgem ou de Santos como Santa Fé de Conques, os peregrinos — monges, cavaleiros, camponeses — ficam fascinados pelo olhar desses personagens celestiais que parecem descer na terra.

• Uma vez delimitado o campo de pesquisa e definido o método de abordagem, convém desenhar a trama de uma história que se desdobra necessariamente na longa duração da cultura Cristã, de seu imaginário e de suas imagens, levando em conta não somente as formas iconográficas ou narrativas, mas suas funções e seus usos nos contextos sociais, políticos e ideológicos, em constante renovação. A esse respeito, essencial no tanque nossas imagens funcionam em espaços sociais articulados, organizando-se em torno de, pelo menos, dois polos: de um lado a universalidade da referência cristão; de outro, o locus particular, a igreja paroquial, o lugar de peregrinação, a cidade que se dedica ao seu santo patrono e ao culto de suas imagens. As mudanças históricas que afetam as relações entre estes dois polos, em geral complementares e por vezes antagónicos, devem ter desempenhado um papel importante no estatuto e nas funções diversas das imagens.

• O império de Constantino fundava-se, senão em torno da imagem, pelo menos em torno do sinal triunfal da Cruz, objeto primeiramente da visão do Imperador, e depois de uma reprodução material e de uma liturgia. Em seguida, toda renovação do ideal do império universal, com os carolingios e depois com os otônidas, foi traduzida numa nova exaltação do sinal original, em que pese todas as críticas ao culto de imagens particulares, como testemunho os libri carolini. Inversamente, as estátuas que aparece ao fim do primeiro milênio tiram sua capacidade de difusão de uma estrela segmentação da sociedade, os exemplos da Virgem de clermont e de Santa Fé de Conques bem o demonstram. Cada mosteiro e cada igreja possuem sua majestade, que rivaliza com todas as demais, mas que pode vir a se tornar potencial aliada no caso de uma ameaça comum. A função de uma majestas, que põe em Ação conjunta mente os poderes miraculosos de um corpo Santo e a força simbólica de sua efígie, é de defender uma igreja, suas terras e seus homens contra a cupidez dos Castelões da região. Na economia dos milagres, que asseguram a reputação da majestade, os sonhos desempenham um papel essencial, pois estabelece a relação mais íntima entre O peregrino e o santo ou Santa — que dia aparece em seu sono para ajudar, ameaçar ou castigar.

• Nos séculos 12 e 13, uma gama de imagens sacras se difunde e se diversifica. A reconstituição de vastos pedaços políticos confere vigor ao polo universal, que não tem melhor lugar de eleição do que Roma. Doravante, esse povo não mais precisava se afirmar apenas em torno da Cruz, mas também em torno de uma imagem miraculous não feita por mão humana, religando miticamente a sede pontifical ao lugar da paixão de Cristo: isso acontece com a Verônica (Vera icona), que Inocêncio III promove o verdadeiro culto no princípio do século 13. Localmente, outras imagens servem de Palladium diferentes cidades. Talvez o melhor exemplo disso seja volto Santo de Lucca. essas imagens adquirem uma reputação universal que as distinguem das majestades da sociedade segmentada e feudal dos séculos anteriores: a relação de equivalência entre o local e o universal, que leva diversos contemporâneos a comparar explicitamente a Verônica e o volto Santo, torna-se então a regra.

• através deste texto e de outros que virão vamos explorar os significados sociais do corpo e das formas de corporeidade na Idade Média. Vamos abordar como tema central a imagem na civilização cristã medieval. A questão primordial da legitimidade das imagens (como justificar que a imagem de um corpo ao invisível divino?) Perguntamos de que corpo — chorando, sangrando, sofrendo — são feitas as imagens, e como o imaginário — as visões, os sonhos, o desejo e o amor das imagens pode dar a matéria inerte a aparência da vida.

• SCHIMIT, Jean-Claude, o corpo das imagens, EDUSC, 2007

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