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AS ORIGENS OCULTAS DA REVOLUÇÃO

A gnose revolucionária A visão de mundo primitiva dos revolucionários como uma luta dualista entre as forças das trevas e da luz pode ter se originado na concepção dos seguidores de Weishaupt de que seu grupo de eleitos, de “iluminados”, travava uma batalha contra “os filhos das trevas”, o nome categórico que davam ao mundo exterior. O nome da ordem, no princípio, foi aparentemente indeterminado (Perfectibilistas chegou a ser usado e Abelhas, a ser considerado);5¹ mas o nome Iluministas foi escolhido, ao que parece, com base na imagem do sol que ilumina os círculos exteriores. No centro do círculo dos Areopagitas ficava acesa uma vela simbolizando a fonte solar de toda iluminação. Esse culto zoroastrista-maniqueu do fogo era de importância central para o ambiente em geral eclético de simbolismo dos Iluminados; o seu calendário era baseado no calendário persa, e não nos modelos clássico ou cristão.52 Pseudônimos e símbolos, cujo sentido esotérico era preciso nas lojas maçônicas, tornaram-se instrumentos deliberados de camuflagem para os Iluminados. Ingolstadt era ao mesmo tempo Elêusis e Éfeso; Munique era Atena; Viena, Roma. O nome do próprio Weishaupt na Ordem dos Iluminados, Espártaco, o líder de uma revolta de escravos na Roma antiga, serve de indicativo do seu comprometimento revolucionário; mas os seus principais colaboradores originais tomaram para si os nomes do grego Ajax e do egípcio Dánao, e outros nomes iam de Tamerlão a Confúcio, Os Iluminados tentaram utilizar a agitação e a confusão da maçonaria para os seus próprios objetivos. Weishaupt ingressou para uma loja maçônica de Munique em 1777; e tentou recrutar “comandos” (grupos de seguidores) dentro de lojas da capital bávara. Ao fim de 1780, a campanha de Weishaupt se espalhou por toda a Alemanha e às falsas ordens de cavalaria mais altas da maçonaria com a entrada de Weishaupt para o círculo próximo do Barão Adolph Knigge. Os Iluminados cooptaram a estrutura organizacional de seu rival maçônico conservador; no curso desse processo, adquiriram algo do charme misterioso que antes não possuíam em sua árida seita de intelectuais racionalistas. O Iluminismo também se tornou muito mais político. Weishaupt parece ter começado a ver a maçonaria como uma espécie de terreno intermediário de treino para os Iluminados – depois de terem entrado na ordem, mas antes que ingressassem nos círculos secretos mais internos. Assim, sob a liderança de Knigge, ele desenvolveu um sistema de três “classes” sucessivas que incorporava todos os “graus” existentes na maçonaria etapa preliminar a graus de uma classe superior dos Iluminados. As primeiras duas classes (a preparatória e a intermediária) incorporavam os três graus como tradicionais e os graus simbólicos mais altos da maçonaria, respectivamente. A terceira classe, a classe “administrativa”, era a mais original-e indicava, só pelo seu nome, as implicações políticas do projeto de Weishaupt para uma renovação moral da humanidade. Os seus primeiros dois graus, aqueles dos “pequenos mistérios” e dos “grandes mistérios” respectivamente, levavam a um terceiro e mais alto grau: o dos Areopagitas, onde todos os afinal irrelevantes simbolismos eram abandonados em prol do puro reino da liberdade e da igualdade. Nesse grau último totalmente secreto para os demais – , a “nobreza dos motivos”56 era total, o contrato social era restaurado e uma nova “política interior” proporcionaria o núcleo e o modelo para um mundo transformado. Essas divisões dentro da hierarquia iluminista eram descritas popularmente em termos eclesiásticos. As primeiras duas classes, que abrangiam todos os estágios maçônicos anteriores, eram a “Igreja”; os primeiros dois graus da classe administrativa, o “Sínodo”; e o último grau, o Areopagita, representava o homem liberto de toda a autoridade para viver em harmonia igualitária. Essa promessa de total libertação terrificou o mundo de fala alemã, e a ordem foi ridicularizada, perseguida e obrigada a se dissolver formalmente em 1785-1787. Weishaupt foi banido para Gotha e mantido sob vigilância. Mas a diáspora de uma ordem que chegara a ter 2.500 membros57 no seu auge no começo da década de 1780 gerou um impacto póstumo que foi muito maior, por toda a Europa, do que ordem alguma jamais conseguira durante sua efêmera vida como um movimento de intelectuais alemães. Na França, a publicação, pela polícia bávara, da correspondência de Weishaupt e de outros documentos, em 1787, provocou mais admiração que medo. O “Ensaio sobre a seita dos Iluminados”, publicado no ano seguinte pelo irmão de um ex-funcionário da corte prussiana, provocou mais perplexidade que horror. Nem mesmo a imaginação erótica do Palais-Royal teria sido capaz de aperfeiçoar a descrição de um suposto rito de iniciação dos Iluminados: marcas eram feitas sobre o corpo nu do candidato deitado. Seus testículos eram amarrados com uma fita cor de rosa e carmesim; e ele renunciava a quaisquer outros laços humanos antes que cinco fantasmas de capuz branco, com estandartes ensanguentados e postados à frente de uma “imagem colossal”, aparecessem numa fogueira. Por fim, as amarras e marcas eram removidas, e ele era aceito à ordem superior ao beber sangue diante de sete velas pretas. O livro que teve papel decisivo na popularização do ideal dos Iluminados foi a monarquia prussiana sob o governo de Frederico, o Grande, do Conde de Mirabeau, publicado em 1788. Com boa extensão sua escrita por um ex-membro dos Iluminados, Jakob Mauvillon, a obra de Mirabeau distinguia os Iluminados racionalistas dos ocultistas “místicos”, saudando os primeiros como líderes de um movimento cujo “grande objetivo” era “a melhoria do atual sistema de governos e legislações”. Mirabeau tirou muito de seu novo e abrangente conceito de “revolução” diretamente dos Iluminados; é quase quase certo que transmitiu algo desse ideal aos seus influentes protegidos, Camille Desmoulins e Etienne Dumont (o amigo e protetor de Thomas Paine em Londres), o qual depois foi seu secretário pessoal. Nicholas Bonneville, contudo, é que foi o canal decisivo de influência dos Iluminados. Foi convertido às idéias dos Iluminados durante a primeira de suas duas viagens a Paris (em junho de 1787) por um destacado colaborador de Weishaupt na última fase política do Iluminismo, Christian Bode. Amigo de Lessing e alguém bem-sucedido na tarefa de sustar a inclinação dos franceses ao ocultismo conservador, Bode aparentemente converteu Bonneville (à época trabalhando como advogado no Parlamento) a uma fé que combinava símbolos dos Iluminados e ideias radicais de soberania popular. Bonneville via a libertação popular como uma espécie de ingresso em massa, de olhos vendados, num santuário dos Iluminados: “Retirem a venda que cobre os olhos do Povo […]. Ponham a mão do Povo sobre o véu [.. ele em breve será rasgado”. Acusado por contemporâneos de tornar “o título de cidadão um grau de iniciação dos Iluminados”, Bonneville respondeu, à maneira dos Iluminados, que o homem integral é Deus” e que do centro do círculo social “emanará um círculo de luz que nos revelará o que jaz escondido no caos simbólico das inovações maçônicas”.64 Em seu extenso estudo de 1788, A expulsão dos jesuítas da maçonaria, Bonneville desenvolveu a idéia básica de Weishaupt e Bode de que a maçonaria tinha sido infiltrada pelos jesuítas, os quais deveriam ser expulsos por uma nova ordem que se opusesse aos tiranos e aos padres. Observamos que os jesuítas estavam buscando se infiltrar na maçonaria para destruir essa sociedade por dentro, na obra Les jésuites percebe-se isto, foi quase imediatamente publicado em tradução alemã de Bode, o qual, por sua vez, impressionara Friedrich Schiller com a história de uma conspiração jesuítica contra o Iluminismo (v.a carta de Schiller de 10 de setembro de 1787, “Die jetzige Anarchie der Aufklärung wäre hauptsächlich der Jesuiten Werk”, Grassl, p. 290). Devido a complexidade do tema “a infiltração dos jesuítas na maçonaria”, iremos tratar deste tema à parte em outras postagens.

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