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CANCELAMENTO LINGUÍSTICO

Artigo interessante de Chiara Pajetta, no jornal italiano Nuova Bussola Quotidiana, comentando o livro recém-lançado Manifesto del libero pensiero (“Manifesto do livre pensamento”), de Paola Mastrocola e Luca Ricolfi (Editora La Nave di Teseo, 128 p.).

O assunto é a linguagem politicamente correta e suas fórmulas mais “inclusivas”, que devem substituir as antigas palavras da tribo humana. No fundo, o espírito que move tudo isso é a velha fúria revolucionária, mas agora operando de modo mais suave e diabolicamente inteligente nas instituições sociais e culturais, no caso, a linguagem. É a hora da cancel culture.

Agora já não se pode mais dizer “sexo”, mas “gênero”. Velho é, definitivamente, idoso. Cego deve ser deficiente visual, mas há uma fórmula pretensamente menos discriminatória: “pessoa portadora de deficiência”. A palavra pátria, que é muito machista e patriarcal, deveria ser trocada por mátria (e, neste caso, não importa que seja matriarcal demais…).

Falar em útero ou barriga de aluguel é ofensivo: é preferível a forma soft “maternidade substitutiva”, que opera a mágica de tornar mais tecnicamente aceitável uma coisa sórdida, como a compra e venda de filhos.

A companhia aérea alemã Lufthansa é um exemplo de como a própria iniciativa privada está cavalgando no lombo do politicamente correto: não mais saudará os passageiros com “caras senhoras e senhores”, mas com um simples “bom dia”, para não ofender eventuais trans a bordo.

As palavras mágicas, hoje em dia, são “inclusão” e “sustentabilidade”, quer se trate de um show musical, de uma empresa ou até mesmo um simples vestido de mulher.

Ao lado desses exemplos já nossos conhecidos, a autora menciona algumas propostas verdadeiramente surrealistas, para dizer o mínimo. É o caso da palavra inglesa history (história), que deveria dar lugar a herstory, uma vez que o “his” de “history” sugere o pronome possessivo masculino “seu”, enquanto o “her” de “herstory” se referiria a uma pessoa feminina. De modo que uma historiadora feminista poderia designar sua atividade acadêmica com a palavra herstorian, em vez da forma machista historian (historiador).

Fala a autora das novas ferramentas de censura tecnológica baseadas em algoritmos e programas de inteligência artificial. Quem usa o editor de textos Word, do Bill Gates, frequentemente se depara com sugestões de trocas de palavras ou locuções propostas por Mister Algoritmo. Algumas vezes são sugestões até razoáveis, o que é um modo de criar confiabilidade nesse instrumento, que logo mais, certamente, pelo que conhecemos da mente do sr. Gates, começará a sugerir mudanças do tipo acima mencionado. “Só os regimes totalitários pretendem mudar a linguagem de cima para baixo”, diz com acerto a jornalista, e cita George Orwell, que com a novilíngua de seu famoso romance 1984 exemplifica-o de forma admirável.

A seguir, alguns trechos do artigo “Palavras proibidas: como a liberdade de pensamento é bloqueada”, de Chiara Pajetta, que pode ser lido inteiro aqui:

“Se até a década de 1970 a censura era “direita” e a liberdade de expressão era de ‘esquerda’, tendo em vista que a cultura dominante era considerada autoritária e conservadora, a partir da década de oitenta de 1980, o progressismo permeou cada vez mais a consciência coletiva, lenta mas seguramente, dando origem ao politicamente correto.”

“As palavras politicamente corretas têm hoje livre curso nas escolas, universidades, instituições, jornais, cinema e TV, empresas privadas e companhias aéreas e, claro, nos gigantes da web.”

Ser progressista, hoje, também significa tornar-se ‘legislador da linguagem’, ou seja, ditar regras no uso das palavras. Com a presunção arrogante de estabelecer como deveríamos chamar as coisas e as pessoas, a ‘intellighenzia’ de esquerda acredita estar gerando novos e virtuosos comportamentos (…) com a piedosa ilusão de que o desprezo pelos outros é eliminado com uma simples troca de palavras. (…) É pura hipocrisia pensar que chamar velhos de idosos os torna objeto de maior atenção e respeito.”

“Décadas de termos ‘atualizados’ mudaram as pessoas a tal ponto, que elas se tornaram cada vez mais sensíveis, e agora até se consideram vítimas, simplesmente porque ouvem uma palavra indesejada. Surgiu uma nova geração de jovens que temem ser agredidos em sua sensibilidade pessoal. Certas expressões, ou algumas passagens da literatura, poderiam perturbá-los: chegamos à inédita ‘era da suscetibilidade’.”

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