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COMO NÃO FUI APROVADA EM ENTREVISTA DE EMPREGO, NA ÓPERA DE PARIS, POR TER TRABALHADO NUM SEMANÁRIO

[Estagiária por cinco meses na redação do semanário conservador francês Valleurs actuelles, Adélaïde foi recusada numa entrevista de emprego na Associação para a Promoção da Ópera de Paris (AROP – Association pour le Rayonnement de l’Opéra national de Paris), por causa de seu passado na imprensa de “extrema direita”. A seguir, ela relata como foi esse momento. O máximo de sectarismo imaginável].

Estagiária por vários meses no semanário Valeurs actuelles ​​e com recente título de mestrado, estou começando a procurar ofertas de emprego. Eu gostaria de trabalhar por algum tempo em grandes instituições culturais. Envio, assim, o meu currículo à Associação para a promoção da Ópera Nacional de Paris (AROP), “que reúne cerca de 4.500 entusiastas da ópera e do bailado, particulares e companhias, que desejam apoiar a Ópera de Paris”. A funcionária responsável pelo setor me responde e me oferece uma entrevista de emprego na terça-feira, 24 de maio.

No dia marcado, vou à Ópera Garnier, no 9º distrito da capital. A entrada é pela ala dos artistas, como me indicou Camille (nome falso), responsável pela entrevista. Estou cinco minutos adiantada. A secretária me faz esperar. No salão, vejo artistas que tive a oportunidade de admirar durante os espetáculos da Garnier ou da Bastille. São 11 da manhã. Eu ainda estou com o coração leve a esta hora.

A funcionária responsável, com quem tenho um encontro, me recebe com bastante frieza. Caminhamos pelos corredores do prédio, tombado como monumento histórico em 1923. Para aliviar o clima, digo a Camille que me sinto em L’Âge heureux, filme que se passa na Ópera Garnier e marcou minha infância. Ela sorri. Chegamos à lanchonete. Artistas e funcionários tomam ali alguma bebida. Camille, acho eu, toma um café com leite (ou um chocolate quente).

A entrevista vai começar. Ela pede que me apresente. Entusiasmada e honrada por estar ali, no coração desta instituição reconhecida em todo o mundo, digo-lhe:

— Meu nome é Adelaide. Eu tenho 23 anos de idade. Depois de uma dupla licenciatura em história e ciência política na Sorbonne, concluí um Mestrado I e um Mestrado II em ciência política com especialização em comunicação política e institucional, ainda no mesmo estabelecimento.

Ela sorri e parece feliz ao ver que provenho desta universidade parisiense. Continuo evocando longamente minha paixão pela arte e, em particular, pelo balé. Mostro à minha interlocutora que conheço bem o funcionamento da Ópera de Paris e que acompanho diariamente suas notícias.

Por sua vez, Camille me mostra um vídeo do AROP, no YouTube, em que artistas falam sobre a importância da arte em suas vidas e a abertura da Ópera de Paris. Já tinha visto este vídeo. Ela me pergunta o que eu acho. Em seguida, desenvolvo um argumento sobre a acessibilidade da Ópera de Paris e as questões que dela surgem (heterogeneidade social, comunicação, desmistificação em torno do elitismo da instituição). Ela balança a cabeça.

— Ela deve pensar que estou habilitada — pensei com meus botões.

Saliento também que devorei a obra de Jean-Philippe Thiellay, L’Opéra, s’il vous plait: plaidoyer pour l’art lyrique.

— Você está bem por dentro das questões do AROP — ela reconhece.

Minhas respostas e sua aquiescência me levam a acreditar que sou competente para o cargo.

Em seguida, porém, vêm os fatídicos cinco minutos:

— Acho surpreendente que você esteja se candidatando aqui, no meio cultural, com seu currículo — ela me disse.

Volto a falar:

— Sim, escrevi na imprensa de opinião, mas agora quero me abrir ao mundo do entretenimento.

Ela me interrompe:

— Sim, mas na imprensa de extrema direita.

(Além de Valeurs actuelles, também escrevi para o site do Boulevard Voltaire e a revista L’Incorrect). Vendo, sem dúvida, meu sorriso tenso, ela continua:

—  Eles mesmos assumem ser de extrema-direita.

No entanto, não querendo que “meu passado” interferisse na entrevista, expliquei a Camille que, tendo estudado por cinco anos na Sorbonne, e forjado laços preciosos com estudantes de esquerda, não tenho dificuldade em trabalhar com pessoas que defendem ideias opostas às minhas. Garanto-lhe que busco ser imparcial no meu trabalho. Meus anos estudando na Sorbonne me ensinaram a manter um perfil discreto.

Mas não adianta nada. Camille me diz que minhas convicções – que ela desconhece, por sinal – nada têm a ver com as defendidas por Alexander Neef, diretor da Ópera Nacional de Paris. Cheguei na hora errada. Em 2019-20, a instituição ganhou as manchetes com seu relatório sobre diversidade, de coautoria com Pap Ndiaye, o novo Ministro da Educação Nacional.

Mais uma vez, digo a Camille que sou profissional em meu trabalho e que a Ópera de Paris nunca ouvirá falar de minhas ideias políticas, mas ela se recusa a ouvir. Neste momento, percebo que de fato são realmente as minhas supostas opiniões, que Camille acredita ter adivinhado a partir do meu currículo, que selarão definitivamente o meu destino.

Ela continua e me diz que a equipe, “composta por algumas pessoas provindas da imigração”, teria dificuldade em trabalhar com alguém como “eu”. Seus colegas, a quem ela admite ter mostrado meu currículo, duvidaram da minha capacidade de promover a linha diversitária da Ópera de Paris, e também de crescer no trabalho em um ambiente de esquerda. Volto a responder que sei silenciar minhas inclinações políticas no contexto profissional; que sou bastante capaz de me relacionar e trabalhar em equipe, independentemente das convicções de cada um de seus membros.

Defendo-me, mais uma vez, evocando meus estudos na Sorbonne, que me permitiram aprender a conviver com colegas de ideias diferentes. Mas, para a funcionária-chefe que me entrevista, nada prova que eu poderia defender a linha da Ópera de Paris deixando minhas opiniões de lado. Camille confidencia que me fez vir a esta entrevista para que eu pudesse me explicar:

— Você realmente achou que, com um currículo assim, poderia ser contratada no mundo da cultura? — ela me diz, sarcasticamente, ao mesmo tempo em que parece me conceder uma certa forma de coragem (pois eu poderia ter ocultado minhas experiências na imprensa de opinião).

Tudo está claro: ela não tem mesmo a intenção de considerar seriamente minha candidatura.

— Mas vamos parar por aqui, para não desperdiçarmos o seu tempo e o meu — ela finalmente soltou, visivelmente cansada de seu próprio sadismo.

Surpresa com o rumo que a entrevista está tomando, calmamente eu digo:

— Espere aí, senhora. Antes de sair, eu gostaria de voltar a um ponto. Tudo isso é bastante paradoxal. A senhora defende com razão a diversidade e a inclusão, mas fecha suas portas para uma jovem habilitada ao cargo, apenas porque ela não tem as mesmas convicções políticas que as de sua equipe e a sua.

Camille me responde com um sorriso:

— Racismo não é opinião, mas crime.

Surpresa com sua insinuação e sectarismo, digo-lhe que é realmente hora de parar com a conversa.

— Concordo totalmente —, ela responde.

Ela me acompanha até a porta.

— Passar bem, senhora — disse-lhe eu com um último suspiro.

Saindo da Garnier, fico realmente mais triste pela falta de abertura de espírito da minha interlocutora, do que por não ter sido selecionada para o cargo. Lamento não ter dito a Camille que ela está a anos-luz do que alguns espectadores esperam. Nas redes sociais, grupos de discussão testemunham a decepção e insatisfação de alguns fiéis da Ópera de Paris, que apontam o dedo para o politicamente correto – às vezes em detrimento da meritocracia –, defendido por esta prestigiosa instituição, fundada por Luís XIV.

Lembro, por fim, que num certo ponto de nossa conversa Camille já me havia alertado:

—  O mundo da cultura é de esquerda. Não perca seu tempo se candidatando.

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