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COMO SERÁ O PARAÍSO? – Padre P. Gnarocas

A palavra Paraíso, como costuma ser chamado o lugar da felicidade eterna, deriva da palavra grega paràdeisos (jardim, lugar de delícias). Felicidade, ou bem-aventurança, é o gozo total, absoluto e eterno.

A felicidade do Paraíso é dividida em primária e secundária. A felicidade primária consiste em ver Deus como Ele é, em possuí-lo e amá-lo por toda a eternidade; a felicidade secundária consiste nos gozos sensíveis do universo criado, que deleitarão os bem-aventurados com seu corpo ressuscitado.

Ao expor a doutrina do Paraíso, dois obstáculos devem ser evitados:

1) a de materializá-lo demasiadamente, tendo como modelo a felicidade terrena, não levando em conta que — como diz São Paulo — ali foi semeado um corpo animal, que ressurgirá como corpo espiritual;

2) o de espiritualizá-lo de tal maneira, que se elimine a participação viva e sensível do corpo. Tal paraíso não provoca entusiasmo no alcançá-lo e não nos dá forças suficientes para aceitar as inevitáveis ​​cruzes terrenas e a morte. Depois de ter lido ou ouvido — como diz Santo Agostinho — alguns eruditos sermões sobre um paraíso excessivamente espiritualizado, os fiéis permanecem inquietos, com a preocupação de como irão poder suportar o eterno tédio de restar imóveis, a olhar para Deus e para Ele cantar, eternamente, “Amém, Aleluia”.

A este respeito, o Evangelho nos fornece muita luz. Em suas aparições, Jesus ressuscitado fala, deixa-se tocar, come com os apóstolos, seu corpo vive, embora seja espiritualizado ao ponto de cruzar as paredes, aparecer e desaparecer. Seu corpo não permanece imóvel e em êxtase. Sua inserção no eterno não o impede de continuar, no tempo, de forma real e ativa.

A Visão Beatífica de Deus também beatificará plenamente o nosso corpo, sem contudo imobilizá-lo numa condição em que a corporeidade material não tenha mais expansão e significado. Por isto, os Apóstolos, os Santos Padres e os Doutores da Igreja, depois de terem destacado a felicidade primária do Paraíso, descrevem as belezas e os gozos sensíveis do corpo ressuscitado; trata-se da felicidade secundária do Paraíso que, por estarmos imersos em nossa experiência terrena, nos atinge e nos atrai bastante.

Assim, apesar de a felicidade essencial do Paraíso ser a primeira (ou seja, a visão beatífica de Deus), não devemos subestimar a secundária, exigida pelos sentidos do corpo ressuscitado; é o que fazem aqueles que, com certo desprezo disfarçado, mencionam o assunto só de passagem. No entanto, a felicidade corporal, além de ter a sua importância, é aquela que sempre tem mais efeito sobre a grande maioria das pessoas, pouco acostumadas às abstrações sublimes da Visão Beatífica; é aquela que melhor compreendemos e que mais nos atrai. Por isso, antes de falar sobre a Visão Beatífica, é preciso falar sobre a felicidade corporal que desfrutaremos, no Céu, com nosso corpo ressuscitado.

Porém, para evitar as fantasias e exageros que poderiam fazer do Paraíso uma continuação de nossas festanças terrenas, ou que poderiam falsificar (e confundir) o verdadeiro Paraíso com o paraíso sensual de certas religiões, é recomendável frisar, por ora, que os corpos ressuscitados dos bem-aventurados não apresentarão mais a vida animal e vegetativa que tiveram nesta terra e, portanto, não haverá mais nenhuma luxúria carnal que satisfazer; não haverá mais fome e sede; as funções gerativa, nutricional e regenerativa estarão suspensas para sempre. As secreções internas e externas de nossas múltiplas glândulas, das quais deriva a maior parte dos estímulos animais, serão completamente eliminadas — como nos ensina Santo Tomás de Aquino —, razão pela qual será impossível qualquer paixão ou emoção com consequências orgânicas.

Mas então — pode-se perguntar — o que restaria para usufruir, sensivelmente, com um corpo nessas condições? À primeira vista, pareceria que pouco ou mesmo nada. Em vez disso, a realidade é completamente diferente, porque o corpo ressuscitado será capaz de prazeres sensíveis imensamente maiores do que quando estava na terra. Na verdade, aqui embaixo o gozo natural é limitado, fugaz e sempre mesclado de tristezas por sua curta duração, pelo cansaço que causa, pelos sacrifícios exigidos em seu usufruto.

No Paraíso, ao contrário, o gozo sobrenatural exclui todo sofrimento, contém toda alegria, satisfaz total e eternamente todas as nossas aspirações, todos os nossos desejos.

É justo que, no Céu, não só a alma, mas também o corpo seja feliz, porque na terra o homem sofre com todo o seu ser, alma e corpo; por isto, é justo que, no Céu, o bem-aventurado desfrute com todo o seu ser: com seu corpo e com sua alma.

Assim como na terra o corpo foi para a alma um meio de sofrimento, privação, mortificação etc., no Paraíso o corpo será para a alma um instrumento de alegria e gozo. Portanto, a felicidade do Paraíso, além da Visão Beatífica, pressupõe também o gozo sensível do corpo.

De onde o Paraíso, para saciar plenamente o homem por inteiro (corpo e alma), também deva ser provido de todas as belezas, todos os esplendores e todas as alegrias possíveis.

Até o dia do Juízo Final, o bem-aventurado, não tendo ainda corpo, terá no Paraíso apenas uma vida espiritual, à semelhança dos Anjos; mas, após a ressurreição dos corpos, o bem-aventurado também voltará a viver a vida corporal sensitiva.

Os corpos ressuscitados, embora permaneçam substancialmente os mesmos que na terra, serão renovados e integrados em sua perfeição natural; estarão enriquecidos com dons preternaturais e serão fortalecidos, potencializados, pelo influência da glória celeste. A vida do Paraíso será de absoluta impecabilidade, de perfeita santidade, de total e eterna felicidade.

Além disso, como já foi mencionado, no Paraíso a capacidade de fruição do corpo ressuscitado, tanto pela vivacidade das alegrias e prazeres sensíveis, quanto por sua intensidade, seu número e sua variedade inesgotável, será sem dúvida incomensuravelmente superior à capacidade de desfrute que possuía na terra. No plano de Deus, o homem e as coisas materiais são tão dependentes um do outro, e tão ordenados um ao outro, que é absurdo concebê-los separados, após a ressurreição final.

Na verdade, se a felicidade eterna fosse inteiramente espiritual, não seria mais humana, porque o homem é essencialmente composto de espírito e matéria, alma e corpo. Portanto, todo o universo material está destinado a tornar-se eternamente, para o homem glorificado, o ambiente efetivo e real do Paraíso.

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