top of page

CONY, CORÇÃO E ATUAL CULTURA DA DESFORRA


Navegando, um dia desses, por alguns sites de literatura, atraquei no porto da Academia Brasileira de Letras. Já levantava âncora, desanimado, quando esbarrei numa palestra do finado Carlos Heitor Cony sobre o romance brasileiro contemporâneo.

Era um depoimento de escritor sobre seus pares, descontraído, feito ao sabor das ondas da memória. Nada de muito solenemente sério. De qualquer modo, e apesar de todas as lacunas que possa haver em improviso dessa natureza, ainda agrada mais que os artigos corretos e quadrados produzidos em série pela universidade, em seus sisudos periódicos.

O que me chamou a atenção na palestra do ateu Cony foi a menção inesperada a um escritor católico, atualmente à margem da república da Letras, sem direito a cidadania literária na universidade: trata-se de Gustavo Corção, sobre quem, em suas crônicas lá dos anos sessenta, o esquerdista Cony sempre bateu pesado. Não perdoava, no católico direitista, as suas posições abertamente conservadoras, sobretudo seu apoio ao regime miliar de 1964.

Corção deve ter retribuído na mesma proporção. Também nunca deve ter visto com simpatia o ex-seminarista Carlos Heitor Cony, que quase ordenou-se sacerdote e perdeu a fé (experiência que contou em seu romance Informação ao crucificado), transformando-se num dos mais badalados romancistas de esquerda do período ditatorial.

Os dois escritores — Gustavo Corção e Carlos Heitor Cony — tinham motivos de sobra para se odiarem e, no entanto, era provável que se amassem literariamente. A prova, pelo menos da parte do Cony, está nessa palestra em que considera uma obra-prima o romance Lições de abismo, de Corção, segundo ele um dos romances mais bem realizados na literatura brasileira contemporânea.

Aqueles intelectuais têm muito a nos ensinar, a nós que vivemos nestes dias de inúteis polarizações, incapazes de convivência civilizada com os inimigos de ideias. Eles sabiam defender o próprio território, mas não recusavam ao adversário o aplauso que, honestamente, lhe fosse devido.

0 visualização0 comentário

Posts Relacionados

Ver tudo

Comments


bottom of page