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MARADONA, ÍCONE DE UMA SOCIEDADE SEM IDEAIS – Tommaso Scandroglio


[Tommaso Scandroglio, do jornal católico La Nuova Bussola Quotidiana, analisa com inteligência, do ponto de vista cristão, a carreira do grande jogador argentino. No entanto, os que nascemos na terra de Pelé não precisamos concordar quando o jornalista italiano afirma que Dieguito foi “o maior nº 10 de todos os tempos”].

A mão de Deus fez parar de bater o coração de Armando Maradona, depois de 60 primaveras. A iconografia que, ao longo do tempo, se cristalizou em torno de sua figura é dicotômica, e continua a ser mesmo depois de sua morte: um gênio da bola, um desastre na vida; talentoso no campo, cheio de vícios fora do gramado; no futebol, ninguém dominava a pelota como ele, mas em sua vida pessoal era dominado pela cocaína, o álcool, o estômago e um temperamento irado; um exemplo incomparável no esporte, um exemplo a não ser imitado em sua vida privada; amante fiel ao esporte que escolheu e mil “amores” quando não estava jogando: um divórcio e três outras mulheres de quem nasceram alguns filhos, para não falar de um número indeterminado, ao que parece, de descendentes não reconhecidos.

Nada é mais trivial do que dizer que Maradona é um ícone de nosso tempo. As pessoas hoje, mais que nunca, precisam de ídolos para ter esperança, aos quais se apegam porque encarnam o sucesso, o talento e a excelência que lhes faltam. Os ídolos surgem, talvez, quando as pessoas deixam de ter valores, ideais e as razões últimas para viver e morrer. Isto vale para o esporte como para no cinema, a música e as redes sociais (os influenciadores), o empreendedorismo (os vários empresários do Vale do Silício, como Steve Jobs), as batalhas ideológicas (Greta Thunberg).

O ídolo tem que ser perfeito? Não, em absoluto. O ícone vivo, para o senso comum, deve ser como a Lua: uma face luminosa onde brilham suas excelências, onde esplendem suas qualidades ímpares. E uma face oculta e escura onde se agitam os piores fantasmas, onde o ídolo rasteja e se alimenta de poeira, degradando-se até a ferocidade. É a tensão entre esses dois polos opostos que gera a vida dramática do ídolo, de que as pessoas tanto gostam. Essas duas faces antitéticas se complementam para traçar o perfil do herói, que no fundo é o herói romântico: ele é tão divino — para o L’Equipe, o jornal francês de futebol, a morte de Maradona é “a morte de um Deus” porque tão humano, mas humano em seus piores aspectos. Quanto mais ele tomba na sujeira de uma vida indigna, mais brilha a estrela do talento.

Jorge Valdano, o ex-campeão mundial pela seleção argentina, assim comentou a morte do baixinho de ouro: “Pobre Diego. Durante muitos anos, nós lhe repetimos: ‘Tu és um deus’, ‘Tu és uma estrela’, e esquecemos de lhe dizer o mais importante: ‘Tu és um homem’”. A força do mito é alimentada, na verdade, pela fraqueza do homem. Os artistas malditos — e Maradona foi um deles — não teriam sido geniais sem o preço da fragilidade que minava pela raiz toda a sua existência.

Maradona foi um ícone, porque o gênio do futebol se misturou à sua absoluta incapacidade de governar a própria vida. Na sensibilidade coletiva de hoje em dia, o herói é visto assim, porque o preço a pagar para se sobressair é sacrificar tudo no altar do sucesso: vida privada, entes queridos, saúde, dinheiro, etc., assim como Fausto vendeu sua alma a Mefistófeles em troca de conhecimento e juventude eterna. Ao mito se perdoa tudo, porque estamos convencidos de que, para se superar, é preciso viver no limite, ou até além de todo limite. Acredita-se que a vida desordenada — pela qual Maradona, em determinado momento de sua biografia, se tornou mais famoso do que por seus sucessos esportivos — seja uma consequência inevitável nos super-homens, cuja genialidade os colocam acima do bem e do mal. Maradona dissipou sua alma em excessos, porque (assim raciocina o imaginário coletivo) o peso incômodo do gênio não teria como não desequilibrar a sua existência.

O vício nas drogas e no álcool, o peso excessivo que deformou o corpo atlético do passado, as altercações coléricas com os repórteres, as brigas (inclusive com os fãs) — nada disto abalava o mito, antes contribuíam para a sua criação, porque são elementos necessários à sua natureza. Os que foram agraciados com dotes extraordinários, são atingidos pela maldição de permanecer fora do círculo comum da existência, com os prós e os contras que isto acarreta. O medíocre é aquele que caminha no meio do caminho da vida e, portanto, se mantém longe dos limites, dos excessos. O gênio, por definição, não é medíocre e vive constantemente no fio da navalha, no extremo limite do possível.

Enfim, um réquiem para o maior nº 10 de todos os tempos, que agora se encontra diante Daquele que sabe reunir perfeição e ordem, duas palavras que, para Dieguito, sempre foram inconciliáveis.

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