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O FILÓSOFO KAROL WOJTYLA E SEU ASSOMBRO DIANTE DO SER HUMANO –  Antonio Tarallo


Para compreender a filosofia de Karol Wojtyla é necessário partir do ser humano. O homem, na mente e na alma de João Paulo II, ocupava um lugar privilegiado. O pensamento antropológico é de fundamental importância na obra do filósofo polonês.

Mas por que o homem é o centro de todo o seu pensamento? Obviamente, essa resposta acabará chegando até Deus, mas o ponto de partida é o seu conhecimento e estudo da humanidade. O valor do homem, feito “à imagem e semelhança de Deus” (é importante lembrar isso), foi repetidamente abordado por Wojtyla filósofo, para mais tarde ser examinado de perto no pontificado de João Paulo II, em seus documentos pontifícios, os quais — em muitas ocasiões — também podem ser considerado quase uma “extensão” de seus ensaios filosóficos anteriores. Ensaios que podem ter uma espécie de denominador comum: a antropologia.

Perambular pelos seus escritos não é tarefa simples: é preciso admitir. A monumental obra wojtyliana é complexa tanto pela quantidade e pelos temas, como por sua estrutura e conteúdo. Tentemos, então, rapidamente, sublinhar alguns pontos fundamentais. Retroceder pode ser uma forma de descrever seu pensamento. Consideremos sua primeira encíclica, Redemptor Hominis, de 1979. João Paulo II escreve:

O homem não pode viver sem amor. Ele permanece para si próprio um ser incompreensível e a sua vida é destituída de sentido, se não lhe for revelado o amor, se ele não se encontra com o amor, se o não experimenta e se o não torna algo seu próprio, se nele não participa vivamente. E por isto precisamente Cristo Redentor, como já foi dito acima, revela plenamente o homem ao próprio homem. Esta é — se assim é lícito exprimir-se — a dimensão humana do mistério da Redenção. Nesta dimensão o homem reencontra a grandeza, a dignidade e o valor próprios da sua humanidade. No mistério da Redenção o homem é novamente « reproduzido » e, de algum modo, é novamente criado.

A citação é um pouco longa. Mas fragmentá-la seria como trair o autor. Um primeiro elemento, que deve ser sublinhado, é essa consequencialidade dos conceitos no filósofo Wojtyla, como um rio intermitente de pensamentos, que chegam a uma conclusão bem definida.

Falando do valor do homem, devemos necessariamente citar outro texto fundamental do autor, que poderíamos definir como uma suma do seu pensamento. É o ensaio Pessoa e ato, de 1969. Deve ser destacada, antes de tudo, uma novidade neste ensaio, no que diz respeito ao panorama filosófico contemporâneo: o confronto sem preconceitos com o pensamento moderno e contemporâneo. Essas páginas densas tratam de coisas como a fenomenologia e até a psicanálise. O pensador Wojtyla não ignora os outros filósofos nem se fecha numa situação de incomunicabilidade, e isto sem renunciar ao seu próprio património cultural e filosófico, ou seja, o Cristo, para ficar numa única palavra. Wojtyla tenta sinceramente colocar a tradição aristotélico-tomista em diálogo com as instâncias da filosofia contemporânea, especialmente a fenomenologia, o personalismo, o pensamento dialógico. A introdução dessa obra imediatamente já nos faz compreender sua vivacidade de pensamento:

Quando se fala da experiência do homem, é preciso compreender, antes de tudo, que o homem se aproxima de si mesmo e, portanto, estabelece consigo próprio um contato cognitivo. Esse contato tem caráter experimental, de certa forma contínuo (…) Na verdade, não dura ininterruptamente, nem mesmo quando se refere ao próprio “eu”: ao nível da consciência, se interrompe pelo menos durante o sono. No entanto, o homem é sempre ele mesmo e, portanto, a experiência de si mesmo de alguma forma também perdura. Há, nela, momentos mais nítidos, bem como uma série de momentos menos nítidos que, no entanto, constituem uma específica totalidade de experiências do homem que eu sou (esse homem que é composto por múltiplas experiências e, de certa forma, constitui a sua suma ou, melhor, a sua resultante).

A partir dessa passagem, fica claro que a filosofia de Wojtyla não surge de uma reflexão impelida por doutas discussões acadêmicas, mas começa com a experiência, sobretudo a humana. É uma espécie de método que apoiará o filósofo polonês também em seu pontificado. A pessoa, portanto, é o centro de seu pensamento. Sem uma compreensão adequada da pessoa, os debates éticos não podem levar a nenhum resultado construtivo e verdadeiro. Não passam de ruminações mentais sem base na vida real. E um “cristão fiel”, como Wojtyla, obviamente não pode prescindir da verdade.

Em seus escritos, fica evidente a influência de uma das filósofas mais importantes do século XX: Edith Stein. Haverá muitos pontos em comum entre seu pensamento e o de Wojtyla, a começar pelo estudo da fenomenologia de Edmund Husserl e Max Scheler. Mas o grande mestre de ambos é São João da Cruz, sobre o qual o jovem estudante Wojtyla escreveu sua tese de doutorado, entre outras coisas.

Wojtyla, como papa, em 2003 escreverá em seu poema “Tríptico romano. Meditações” (2003): “Um riacho que flui não se espanta/ e vai descendo silenciosamente os bosques/ ao ritmo da sua torrente, / mas o ser humano se assombra.” O assombro, o espanto são características fundamentais de sua investigação filosófica. Sem isso, qualquer reflexão sobre seu pensamento filosófico seria em vão. Sua vocação filosófica, poética e sacerdotal deve ser procurada no espanto e admiração que experimenta diante do ser humano.

Em Pessoa e ato ele ainda escreveu estas palavras que representam o húmus de sua investigação:

“Nosso estudo nasceu do assombro diante do ser humano, que gera, como se sabe, o primeiro impulso cognitivo. Parece-me que esse assombro — que não é admiração, ainda que dela tenha algo — está na origem deste estudo. O maravilhar-se como função do intelecto se manifesta em uma série de respostas ou soluções. Desta forma, não só se desenvolve o processo de pensar sobre o homem, mas também satisfaz uma certa necessidade da existência humana. O homem não pode perder o lugar que lhe é próprio naquele mundo que ele mesmo configurou.”

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