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POR QUE O SÉCULO XX MATOU TANTA GENTE? – Corrado Gnerre

Estamos no Dia da Memória. Mas não queremos falar sobre o Holocausto em si, como ocorreu e quantas vítimas fez. Outros o farão.

Antes, queremos fazer algumas reflexões a partir de uma pergunta: por que isso aconteceu no século XX?

Há um dado interessante que não deve escapar a ninguém que queira entender adequadamente a História. Desde a Revolução Francesa, a História conseguiu matar mais gente do que nos séculos anteriores. É um fato ao qual se deve dar uma resposta.

A Revolução Francesa representou a tradução política das ideias do Iluminismo, e esta, por sua vez, constitui o ápice da modernidade.

O Iluminismo tinha uma ideia precisa sobre o homem: ele não deveria mais ser considerado uma “criatura de Deus”. Alguns iluministas, como La Mettrie, afirmavam que o homem nada mais é do que uma “máquina”, ou seja, um organismo biológico e nada mais, sem qualquer dimensão espiritual.

Bem, essa concepção atingiu tragicamente o ser humano. Vamos ver em que sentido.

Só há uma maneira de considerar o homem como o mais alto dos valores existentes na terra: quando ele é considerado como um “reflexo” do Infinito, ou seja, como uma criatura de Deus. Se o homem é tido como uma realidade que deve encontrar o seu valor em si mesma, torna-se necessariamente um valor finito que, por mais nobre que seja, não é necessariamente considerado acima de todos os outros valores, ou seja, pode ser facilmente descartado.

Os vários Hitler, Stalin, Pol Pot não eram “loucos”, mas executores de uma lógica. Uma lógica perversa, mas lógica. Diziam respeitar o homem, mas antes do homem punham a raça, a ideologia, a revolução e assim por diante.

Em suma, o conceito de “genocídio” nasceu com a Revolução Francesa e com a antropologia iluminista. Não foi por acaso que o primeiro genocídio se deu na Vendeia francesa. O Comitê de Saúde Pública não ordenou que se encontrassem os “culpados” (do seu ponto de vista, é claro), mas sim que se eliminasse todo um povo, não interessado em distinguir entre culpados e inocentes.

Sem especificar a data e o local, leiam-se estas palavras: “Em Meudon a pele humana é bronzeada. A pele que provém vem dos homens tem textura e qualidade superior ao da camurça. A dos indivíduos femininos é mais suave, mas menos robusta (…).”

O leitor pensará que é algum diário que se refere aos campos de concentração nazistas. Não é: é Saint Just quem escreve ao Comitê de Saúde Pública em 14 de agosto de 1793.

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