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  • Escárnio contra os Católicos: Campanha da Fraternidade 2021

    Há muito tempo que nós católicos não conseguimos rezar uma quaresma como ela deve ser. No momento que deveria ser o ápice do ano para aqueles que desejam aproveitar este tempo propício para conversão, somos obrigados a refletir sobre temas políticos e ideológicos. Mais uma pergunta aos bispos: quando teremos a quaresma de volta? Clique aqui para assistir esta análise: Todo católico honesto que tem lido do Texto Base da Campanha da Fraternidade Ecumênica de 2021 e tomado ciência de alguns contextos e personagens envolvidos, têm se perguntando: COMO É POSSÍVEL QUE ISSO ESTEJA ACONTECENDO? Gostaríamos de perguntar aos quase 500 bispos que compõem a CNBB: 1 – COMO É POSSÍVEL que uma pastora que defende o aborto esteja à frente da elaboração de um documento que deve orientar as reflexões dos católicos em todas as paróquias e comunidades católicas do Brasil? 2 – COMO É POSSÍVEL que os bispos, renunciando a sua missão de conduzir o rebanho de Cristo, entreguem a condução do povo de Deus a uma Pastora abortista, auto declarada feminista, que defende a Ideologia de Gênero e TODAS as demais pautas da esquerda revolucionária? Leia também: Expor os erros da CNBB não significa atacar a Igreja – o silêncio não é a resposta 3 – COMO É POSSÍVEL que no Texto Base, nas palavras dessa mesma pastora abortista, os senhores bispos apresentem aos católicos a afirmação de que a celebração da Reforma Protestante foi um sopro do Espírito Santo? Então os bispos da CNBB acreditam que o que foi feito por Lutero foi inspirado pelo Espírito Santo, razão pela qual deve ser celebrado com alegria? E também querem que os católicos acreditem e celebrem isso? 4 – COMO É POSSÍVEL que os senhores bispos apresentem aos católicos a ativista Mariele Franco, como se fosse uma mártir e modelo de defensora dos Diretos Humanos, mesmo sendo essa senhora uma ardorosa defensora do assassinato de crianças que não nasceram, também da Ideologia de Gênero de TODAS as demais bandeiras defendidas pelo PSOL, partido anti cristão? 5 – COMO É POSSÍVEL que se apresente aos católicos, como exemplo de ações práticas a serem feitas, a visita e a celebração em um Terreiro de Mãe de Santo ou Candomblé? 6 – COMO É POSSÍVEL que os senhores bispos apresentem um texto onde acusa de serem sem caridade e sem consciência (como que fanáticos) os fiéis que não concordaram com o isolamento generalizado (que NÃO tem NENHUMA base científica) e reivindicaram o seu direito de encontrarem suas Igrejas abertas para receberem os Sacramentos? Assista também Bispo de Formosa comenta Campanha da Fraternidade: Não percam tempo com a Teologia da Libertação 7 – COMO É POSSÍVEL defenderem o ISOLAMENTO social e o irracional fechamento de tudo e depois acusarem o Governo (Federal evidentemente) de ser responsável pelo crescimento do desemprego, pelo aumento da violência doméstica e pela fome?!!! Quem pode explicar essa loucura??? 8 – COMO É POSSÍVEL que os Senhores bispos apresentem aos fiéis católicos um documento completamente ideológico, que reflete as ideias e a linguagem da esquerda revolucionária que tem sido repetida pela grande mídia a todo momento? Estaria também a CNBB se unindo ainda mais a esquerda para tentar colocar os católicos contra os valores conservadores e contra o atual governo pensando nas eleições de 2022? 9 – COMO É POSSÍVEL que os bispos apresentem aos católicos do Brasil a falsa ideia de que a Igreja é contra as pessoa terem armas para se defender, quando a doutrina e o Catecismo da Igreja afirmam que é lícito as pessoas possuírem armas para defenderem a si e aos seus entes queridos? Desde quando a Igreja concorda com a ideologia do Igualitarismo, com o Irenismo, com o relativismo e outras doutrinas ali expostas, todas já condenadas pela Igreja? 10 – COMO É POSSÍVEL que os bispos do Brasil apresentem aos fiéis um documento com informações falsas, que já foram desmentidas, como aquelas apresentadas pelo Grupo Gay da Bahia que diz terem sido assassinados 420 pessoas LGBTs em 2018 por motivações homofóbicas? Isso, sem dizer a menção feita ao Aquecimento Global como sendo causado pela ação do ser humano, tese já desmentida por numerosos cientistas… Assista também a denúncia do Tiba LGBTQI+ no texto-base da Campanha da Fraternidade 2021? 11 – COMO É POSSÍVEL que os senhores bispos, pastores do povo de Deus, relativizem de tal forma a doutrina ensinada pela Igreja, e sejam tão indiferentes a salvação eterna do rebanho confiado a seus cuidados? Que essa afronta a fé católica e o escárnio que foram expressos nessa Campanha da Fraternidade de 2021 ajudem os fiéis a perceberem a necessidade de se rezar pela conversão de nossos padres e bispos, bem como a necessidade de se estudar mais a Doutrina da Igreja para não serem enganados por aqueles, mesmo sendo autoridades, não possuem a fé da Igreja. Será que algum bispo, ou mesmo sacerdote, terá a coragem de dizer: “SOU CATÓLICO E CREIO NO QUE A IGREJA ENSINA, POR ISSO, ESSA CAMPANHA DA FRATERNIDADE NÃO ENTRA EM MINHA DIOCESE/PARÓQUIA!!!” ? Estamos no aguardo…. Discordar e rejeitar todos os erros e aberrações apresentados pelos bispos nessa Campanha da Fraternidade não é ato de desrespeito ou desobediência, mas é antes ato de fé e de amor a verdade, que nos conduz e nos faz permanecer unidos a Deus, Verdade Eterna. Templário de Maria Assista também a denúncia do Centro Dom Bosco: Quem está por trás da Campanha da Fraternidade? #CampanhadaFraternidade #CF2021 #CNBB

  • Escárnio contra os Católicos: Campanha da Fraternidade 2021

    Há muito tempo que nós católicos não conseguimos rezar uma quaresma como ela deve ser. No momento que deveria ser o ápice do ano para aqueles que desejam aproveitar este tempo propício para conversão, somos obrigados a refletir sobre temas políticos e ideológicos. Mais uma pergunta aos bispos: quando teremos a quaresma de volta? Clique aqui para assistir esta análise: Todo católico honesto que tem lido do Texto Base da Campanha da Fraternidade Ecumênica de 2021 e tomado ciência de alguns contextos e personagens envolvidos, têm se perguntando: COMO É POSSÍVEL QUE ISSO ESTEJA ACONTECENDO? Gostaríamos de perguntar aos quase 500 bispos que compõem a CNBB: 1 – COMO É POSSÍVEL que uma pastora que defende o aborto esteja à frente da elaboração de um documento que deve orientar as reflexões dos católicos em todas as paróquias e comunidades católicas do Brasil? 2 – COMO É POSSÍVEL que os bispos, renunciando a sua missão de conduzir o rebanho de Cristo, entreguem a condução do povo de Deus a uma Pastora abortista, auto declarada feminista, que defende a Ideologia de Gênero e TODAS as demais pautas da esquerda revolucionária? Leia também: Expor os erros da CNBB não significa atacar a Igreja – o silêncio não é a resposta 3 – COMO É POSSÍVEL que no Texto Base, nas palavras dessa mesma pastora abortista, os senhores bispos apresentem aos católicos a afirmação de que a celebração da Reforma Protestante foi um sopro do Espírito Santo? Então os bispos da CNBB acreditam que o que foi feito por Lutero foi inspirado pelo Espírito Santo, razão pela qual deve ser celebrado com alegria? E também querem que os católicos acreditem e celebrem isso? 4 – COMO É POSSÍVEL que os senhores bispos apresentem aos católicos a ativista Mariele Franco, como se fosse uma mártir e modelo de defensora dos Diretos Humanos, mesmo sendo essa senhora uma ardorosa defensora do assassinato de crianças que não nasceram, também da Ideologia de Gênero de TODAS as demais bandeiras defendidas pelo PSOL, partido anti cristão? 5 – COMO É POSSÍVEL que se apresente aos católicos, como exemplo de ações práticas a serem feitas, a visita e a celebração em um Terreiro de Mãe de Santo ou Candomblé? 6 – COMO É POSSÍVEL que os senhores bispos apresentem um texto onde acusa de serem sem caridade e sem consciência (como que fanáticos) os fiéis que não concordaram com o isolamento generalizado (que NÃO tem NENHUMA base científica) e reivindicaram o seu direito de encontrarem suas Igrejas abertas para receberem os Sacramentos? Assista também Bispo de Formosa comenta Campanha da Fraternidade: Não percam tempo com a Teologia da Libertação 7 – COMO É POSSÍVEL defenderem o ISOLAMENTO social e o irracional fechamento de tudo e depois acusarem o Governo (Federal evidentemente) de ser responsável pelo crescimento do desemprego, pelo aumento da violência doméstica e pela fome?!!! Quem pode explicar essa loucura??? 8 – COMO É POSSÍVEL que os Senhores bispos apresentem aos fiéis católicos um documento completamente ideológico, que reflete as ideias e a linguagem da esquerda revolucionária que tem sido repetida pela grande mídia a todo momento? Estaria também a CNBB se unindo ainda mais a esquerda para tentar colocar os católicos contra os valores conservadores e contra o atual governo pensando nas eleições de 2022? 9 – COMO É POSSÍVEL que os bispos apresentem aos católicos do Brasil a falsa ideia de que a Igreja é contra as pessoa terem armas para se defender, quando a doutrina e o Catecismo da Igreja afirmam que é lícito as pessoas possuírem armas para defenderem a si e aos seus entes queridos? Desde quando a Igreja concorda com a ideologia do Igualitarismo, com o Irenismo, com o relativismo e outras doutrinas ali expostas, todas já condenadas pela Igreja? 10 – COMO É POSSÍVEL que os bispos do Brasil apresentem aos fiéis um documento com informações falsas, que já foram desmentidas, como aquelas apresentadas pelo Grupo Gay da Bahia que diz terem sido assassinados 420 pessoas LGBTs em 2018 por motivações homofóbicas? Isso, sem dizer a menção feita ao Aquecimento Global como sendo causado pela ação do ser humano, tese já desmentida por numerosos cientistas… Assista também a denúncia do Tiba LGBTQI+ no texto-base da Campanha da Fraternidade 2021? 11 – COMO É POSSÍVEL que os senhores bispos, pastores do povo de Deus, relativizem de tal forma a doutrina ensinada pela Igreja, e sejam tão indiferentes a salvação eterna do rebanho confiado a seus cuidados? Que essa afronta a fé católica e o escárnio que foram expressos nessa Campanha da Fraternidade de 2021 ajudem os fiéis a perceberem a necessidade de se rezar pela conversão de nossos padres e bispos, bem como a necessidade de se estudar mais a Doutrina da Igreja para não serem enganados por aqueles, mesmo sendo autoridades, não possuem a fé da Igreja. Será que algum bispo, ou mesmo sacerdote, terá a coragem de dizer: “SOU CATÓLICO E CREIO NO QUE A IGREJA ENSINA, POR ISSO, ESSA CAMPANHA DA FRATERNIDADE NÃO ENTRA EM MINHA DIOCESE/PARÓQUIA!!!” ? Estamos no aguardo…. Discordar e rejeitar todos os erros e aberrações apresentados pelos bispos nessa Campanha da Fraternidade não é ato de desrespeito ou desobediência, mas é antes ato de fé e de amor a verdade, que nos conduz e nos faz permanecer unidos a Deus, Verdade Eterna. Templário de Maria Assista também a denúncia do Centro Dom Bosco: Quem está por trás da Campanha da Fraternidade? #CampanhadaFraternidade #CF2021 #CNBB

  • COMO PADRE PIO VIVEU A PANDEMIA DA GRIPE ESPANHOLA

    Hoje existe a Covid-19. Há um século, houve outra pandemia, a gripe espanhola, que entre 1918 e 1920 matou dezenas de milhões de pessoas em todo o mundo. O nome de espanhola foi dado à doença porque, a princípio, foi noticiada principalmente em jornais espanhóis. Como a Espanha não participou da Primeira Guerra Mundial, sua imprensa não foi submetida à censura de guerra que, em outros países, buscava ocultar notícias sobre a epidemia. Foi uma verdadeira pandemia, que afetou cerca de um quarto da população mundial, ou seja, 500 milhões de pessoas, causando a morte de 50 milhões. A taxa de mortalidade foi tão alta que a espanhola entrou para a história como a pandemia mais grave de todos os tempos. Nem todos sabem que a primeira pandemia do século XX atingiu também um jovem capuchinho do convento de San Giovanni Rotondo, o Padre Pio, além de sua família. Nestes dias apareceu um livro — La pandemia di Padre Pio. Discepolo dell’Addolorata (A pandemia do Padre Pio. Discípulo da Senhora das Dores) — que conta a história do santo de Pietrelcina no período da gripe espanhola. Foi escrito por Stefano Campanella, diretor da Tele Rádio Padre Pio e da TV Padre Pio. O autor foi entrevistado por Wlodzimierz Redzioch, para o jornal italiano La Nuova Bussola Quotidiana . Stefano Campanella, como surgiu a ideia do livro? A ideia nasceu quando o convento dos capuchinhos de San Giovanni Rotondo foi atingido pela Covid-19. No período entre 5 de novembro e o final do ano, 12 dos 20 frades foram infectados. Dois frades idosos, já doentes, morreram de complicações causadas pelo vírus. Eu, depois de ter tido contato com eles, fiquei em quarentena e, nesse período, comecei a procurar documentos sobre como o Padre Pio viveu a pandemia da gripe espanhola. Encontrei muito material e saiu um instant book [livro feito às pressas]. Então a família do Padre Pio foi atingida pela Espanhola? Sim, a espanhola também afetou sua família: sua irmã Felicita, de 29 anos, e seu filho Pellegrino, de 4 anos, morreram do vírus. O filho morreu três dias antes de sua mãe: ele em 22 e ela em 25 de setembro de 1918. Felicita morava com o marido e três filhos em Pietrelcina, cidade natal do Padre Pio. Quando a irmã adoeceu, a mãe foi até sua casa para cuidar da filha, do genro e dos netos. E a mãe do Padre Pio também ficou gravemente doente. Padre Pio rezava muito por sua família? Gostaria de relembrar um fato importante: o Padre Pio fez um voto ao Senhor, no qual se comprometia a rezar apenas pelos outros, isto é, não por si mesmo, nem pelos seus entes queridos mais próximos. Ele conseguiu obter a cura da gripe espanhola de muitas pessoas em San Giovanni Rotondo. Como não podia fazê-lo, ele pedia a suas filhas espirituais que rezassem por seus parentes (e, obviamente, também por sua mãe). Como se vê, as orações foram atendidas e sua mãe se recuperou. E o Padre Pio foi infectado? Padre Pio também adoeceu. Ele sentiu os primeiros sintomas da espanhola no início de setembro de 1918, mas depois se recuperou e já se sentia melhor por volta do dia 20 do mês. Foi precisamente na manhã do dia 20 de setembro, que ele celebrou a Missa que precedeu a sua estigmatização permanente. Mas depois de alguns dias teve uma recaída, que o levou a ficar indisposto até meados de dezembro. Durante a doença, teve febres muito altas e sofreu de broncopneumonia, causada pelo vírus. Mas sofreu muito mais com a morte de seus familiares. Onde se encontrava ele, no período da doença? Estava no convento de San Giovanni Rotondo, mas para não contagiar os outros frades e seminaristas (naquela época, o convento era também sede do seminário dos capuchinhos), foi forçado a ir dormir em um dos dois quartos da hospedaria do convento. Uma de suas filhas espirituais trazia-lhe comida: permanecia na outra sala, enquanto lhe passava a comida por uma pequena janela. O que sabemos da vida do Padre Pio, nessa época? Padre Pio viveu o período da pandemia com grande altruísmo, rezando pelos outros e não por si mesmo. E, nessa ocasião, deu provas da grande força da sua intercessão. Gostaria de mencionar um episódio: uma de suas filhas espirituais tinha uma irmã grávida, que estava morrendo com o vírus. Havia o risco de morrer a mãe e o nascituro, e parecia que não havia mais nada a fazer. A mulher correu até o Padre Pio e lhe pediu orações pela irmã moribunda. E ele respondeu: “Pode crer que ela vai se recuperar.” De fato, aquela mulher se curou e deu ao mundo uma bela menina. Por que você deu ao livro o subtítulo “Discípulo de Nossa Senhora das Dores”? Queria evitar que o livro permanecesse apenas como relato de uma série de fatos, embora fossem eloquentes por si mesmos. Pensei na melhor maneira de tornar mais clara a mensagem espiritual, que emerge da maneira como Padre Pio enfrentou os sofrimentos infligidos pela pandemia: mostra-lo aceitando a vontade de Deus e com o altruísmo que é a expressão típica do verdadeiro amor. E foi esta, exatamente, a atitude que caracterizou a existência da Virgem Maria, especialmente quando ela teve que testemunhar a paixão e a morte de seu Filho. Não era por acaso que o Padre Pio afirmava: “É debaixo da cruz que se aprende a amar”. Foi o que ele aprendeu com Nossa Senhora das Dores; e, depois de ser seu discípulo, tornou-se por sua vez o mestre de todos aqueles que querem ser seus autênticos devotos e discípulos. Há pessoas, autodefinidas como filhas espirituais do Padre Pio, que falam de predições apocalípticas sobre o mundo, atribuindo-as ao frade. Você pode confirmar essas previsões? Absolutamente, não. É preciso estar muito atento. Não basta dizer-se “filho espiritual” para ter credibilidade, se essa presumida filiação não for confirmada por uma comprovável convivência com Padre Pio. https://lanuovabq.it/it/padre-pio-e-la-spagnola-un-santo-di-fronte-alla-pandemia

  • Prof. Felipe Aquino responde fiéis sobre a Campanha da Fraternidade 2021

    “Os leigos tem o direito e até o dever de manifestar aos seus pastores sagrados a própria opinião sobre o que afeta o bem da Igreja e deem a conhecer essa sua opinião também aos outros fiéis!” Respondendo ao questionamento de muitos fiéis que o acompanham em seus programas de TV e pelas redes sociais, o Prof. Felipe Aquino trouxe a polêmica do momento, a Campanha da Fraternidade 2021. Ao iniciar sua resposta, ele lembrou que o Código de Direito Canônico dá aos leigos o direito e o dever de dar a sua opinião aos pastores: “De acordo com a ciência, a competência e o prestígio de que gozam, têm o direito e, às vezes, até o dever de manifestar aos pastores sagrados a própria opinião sobre o que afeta o bem da Igreja e, ressalvando a integridade da fé e dos costumes e a reverência para com os pastores, e levando em conta a utilidade comum e a dignidade das pessoas, deem a conhecer essa sua opinião também aos outros fiéis”. (CIC §907; Cânon 212,3) Clique aqui para assistir o vídeo: Leia também o texto abaixo que preparamos para indagar os membros da CNBB sobre os graves problemas da Campanha da Fraternidade 2021. O ESCÂNDALO DA CAMPANHA DA FRATERNIDADE 2021 Todo católico honesto que tem lido do Texto Base da Campanha da Fraternidade Ecumênica de 2021 e tomado ciência de alguns contextos e personagens envolvidos, têm se perguntando: COMO É POSSÍVEL QUE ISSO ESTEJA ACONTECENDO? Gostaríamos de perguntar aos quase 500 bispos que compõem a CNBB: 1 – COMO É POSSÍVEL que uma pastora que defende o aborto esteja à frente da elaboração de um documento que deve orientar as reflexões dos católicos em todas as paróquias e comunidades católicas do Brasil? 2 – COMO É POSSÍVEL que os bispos, renunciando a sua missão de conduzir o rebanho de Cristo, entreguem a condução do povo de Deus a uma Pastora abortista, auto declarada feminista, que defende a Ideologia de Gênero e TODAS as demais pautas da esquerda revolucionária? Assista também a seguinte análise: Escárnio contra os Católicos: Campanha da Fraternidade 2021 3 – COMO É POSSÍVEL que no Texto Base, nas palavras dessa mesma pastora abortista, os senhores bispos apresentem aos católicos a afirmação de que a celebração da Reforma Protestante foi um sopro do Espírito Santo? Então os bispos da CNBB acreditam que o que foi feito por Lutero foi inspirado pelo Espírito Santo, razão pela qual deve ser celebrado com alegria? E também querem que os católicos acreditem e celebrem isso? 4 – COMO É POSSÍVEL que os senhores bispos apresentem aos católicos a ativista Mariele Franco, como se fosse uma mártir e modelo de defensora dos Diretos Humanos, mesmo sendo essa senhora uma ardorosa defensora do assassinato de crianças que não nasceram, também da Ideologia de Gênero de TODAS as demais bandeiras defendidas pelo PSOL, partido anti cristão? 5 – COMO É POSSÍVEL que se apresente aos católicos, como exemplo de ações práticas a serem feitas, a visita e a celebração em um Terreiro de Mãe de Santo ou Candomblé? Leia também: Expor os erros da CNBB não significa atacar a Igreja – o silêncio não é a resposta 6 – COMO É POSSÍVEL que os senhores bispos apresentem um texto onde acusa de serem sem caridade e sem consciência (como que fanáticos) os fiéis que não concordaram com o isolamento generalizado (que NÃO tem NENHUMA base científica) e reivindicaram o seu direito de encontrarem suas Igrejas abertas para receberem os Sacramentos? 7 – COMO É POSSÍVEL defenderem o ISOLAMENTO social e o irracional fechamento de tudo e depois acusarem o Governo (Federal evidentemente) de ser responsável pelo crescimento do desemprego, pelo aumento da violência doméstica e pela fome?!!! Quem pode explicar essa loucura??? 8 – COMO É POSSÍVEL que os Senhores bispos apresentem aos fiéis católicos um documento completamente ideológico, que reflete as ideias e a linguagem da esquerda revolucionária que tem sido repetida pela grande mídia a todo momento? Estaria também a CNBB se unindo ainda mais a esquerda para tentar colocar os católicos contra os valores conservadores e contra o atual governo pensando nas eleições de 2022? Assista também Bispo de Formosa comenta Campanha da Fraternidade: Não percam tempo com a Teologia da Libertação 9 – COMO É POSSÍVEL que os bispos apresentem aos católicos do Brasil a falsa ideia de que a Igreja é contra as pessoa terem armas para se defender, quando a doutrina e o Catecismo da Igreja afirmam que é lícito as pessoas possuírem armas para defenderem a si e aos seus entes queridos? Desde quando a Igreja concorda com a ideologia do Igualitarismo, com o Irenismo, com o relativismo e outras doutrinas ali expostas, todas já condenadas pela Igreja? 10 – COMO É POSSÍVEL que os bispos do Brasil apresentem aos fiéis um documento com informações falsas, que já foram desmentidas, como aquelas apresentadas pelo Grupo Gay da Bahia que diz terem sido assassinados 420 pessoas LGBTs em 2018 por motivações homofóbicas? Isso, sem dizer a menção feita ao Aquecimento Global como sendo causado pela ação do ser humano, tese já desmentida por numerosos cientistas… 11 – COMO É POSSÍVEL que os senhores bispos, pastores do povo de Deus, relativizem de tal forma a doutrina ensinada pela Igreja, e sejam tão indiferentes a salvação eterna do rebanho confiado a seus cuidados? Assista também a denúncia do Tiba LGBTQI+ no texto-base da Campanha da Fraternidade 2021? Que essa afronta a fé católica e o escárnio que foram expressos nessa Campanha da Fraternidade de 2021 ajudem os fiéis a perceberem a necessidade de se rezar pela conversão de nossos padres e bispos, bem como a necessidade de se estudar mais a Doutrina da Igreja para não serem enganados por aqueles, mesmo sendo autoridades, não possuem a fé da Igreja. Será que algum bispo, ou mesmo sacerdote, terá a coragem de dizer: “SOU CATÓLICO E CREIO NO QUE A IGREJA ENSINA, POR ISSO, ESSA CAMPANHA DA FRATERNIDADE NÃO ENTRA EM MINHA DIOCESE/PARÓQUIA!!!” ? Estamos no aguardo…. Discordar e rejeitar todos os erros e aberrações apresentados pelos bispos nessa Campanha da Fraternidade não é ato de desrespeito ou desobediência, mas é antes ato de fé e de amor a verdade, que nos conduz e nos faz permanecer unidos a Deus, Verdade Eterna. Templário de Maria Assista também a denúncia do Centro Dom Bosco: Quem está por trás da Campanha da Fraternidade? #CampanhadaFraternidade #CF2021 #CNBB #ProfFelipeAquino

  • Prof. Felipe Aquino responde fiéis sobre a Campanha da Fraternidade 2021

    “Os leigos tem o direito e até o dever de manifestar aos seus pastores sagrados a própria opinião sobre o que afeta o bem da Igreja e deem a conhecer essa sua opinião também aos outros fiéis!” Respondendo ao questionamento de muitos fiéis que o acompanham em seus programas de TV e pelas redes sociais, o Prof. Felipe Aquino trouxe a polêmica do momento, a Campanha da Fraternidade 2021. Ao iniciar sua resposta, ele lembrou que o Código de Direito Canônico dá aos leigos o direito e o dever de dar a sua opinião aos pastores: “De acordo com a ciência, a competência e o prestígio de que gozam, têm o direito e, às vezes, até o dever de manifestar aos pastores sagrados a própria opinião sobre o que afeta o bem da Igreja e, ressalvando a integridade da fé e dos costumes e a reverência para com os pastores, e levando em conta a utilidade comum e a dignidade das pessoas, deem a conhecer essa sua opinião também aos outros fiéis”. (CIC §907; Cânon 212,3) Clique aqui para assistir o vídeo: Leia também o texto abaixo que preparamos para indagar os membros da CNBB sobre os graves problemas da Campanha da Fraternidade 2021. O ESCÂNDALO DA CAMPANHA DA FRATERNIDADE 2021 Todo católico honesto que tem lido do Texto Base da Campanha da Fraternidade Ecumênica de 2021 e tomado ciência de alguns contextos e personagens envolvidos, têm se perguntando: COMO É POSSÍVEL QUE ISSO ESTEJA ACONTECENDO? Gostaríamos de perguntar aos quase 500 bispos que compõem a CNBB: 1 – COMO É POSSÍVEL que uma pastora que defende o aborto esteja à frente da elaboração de um documento que deve orientar as reflexões dos católicos em todas as paróquias e comunidades católicas do Brasil? 2 – COMO É POSSÍVEL que os bispos, renunciando a sua missão de conduzir o rebanho de Cristo, entreguem a condução do povo de Deus a uma Pastora abortista, auto declarada feminista, que defende a Ideologia de Gênero e TODAS as demais pautas da esquerda revolucionária? Assista também a seguinte análise: Escárnio contra os Católicos: Campanha da Fraternidade 2021 3 – COMO É POSSÍVEL que no Texto Base, nas palavras dessa mesma pastora abortista, os senhores bispos apresentem aos católicos a afirmação de que a celebração da Reforma Protestante foi um sopro do Espírito Santo? Então os bispos da CNBB acreditam que o que foi feito por Lutero foi inspirado pelo Espírito Santo, razão pela qual deve ser celebrado com alegria? E também querem que os católicos acreditem e celebrem isso? 4 – COMO É POSSÍVEL que os senhores bispos apresentem aos católicos a ativista Mariele Franco, como se fosse uma mártir e modelo de defensora dos Diretos Humanos, mesmo sendo essa senhora uma ardorosa defensora do assassinato de crianças que não nasceram, também da Ideologia de Gênero de TODAS as demais bandeiras defendidas pelo PSOL, partido anti cristão? 5 – COMO É POSSÍVEL que se apresente aos católicos, como exemplo de ações práticas a serem feitas, a visita e a celebração em um Terreiro de Mãe de Santo ou Candomblé? Leia também: Expor os erros da CNBB não significa atacar a Igreja – o silêncio não é a resposta 6 – COMO É POSSÍVEL que os senhores bispos apresentem um texto onde acusa de serem sem caridade e sem consciência (como que fanáticos) os fiéis que não concordaram com o isolamento generalizado (que NÃO tem NENHUMA base científica) e reivindicaram o seu direito de encontrarem suas Igrejas abertas para receberem os Sacramentos? 7 – COMO É POSSÍVEL defenderem o ISOLAMENTO social e o irracional fechamento de tudo e depois acusarem o Governo (Federal evidentemente) de ser responsável pelo crescimento do desemprego, pelo aumento da violência doméstica e pela fome?!!! Quem pode explicar essa loucura??? 8 – COMO É POSSÍVEL que os Senhores bispos apresentem aos fiéis católicos um documento completamente ideológico, que reflete as ideias e a linguagem da esquerda revolucionária que tem sido repetida pela grande mídia a todo momento? Estaria também a CNBB se unindo ainda mais a esquerda para tentar colocar os católicos contra os valores conservadores e contra o atual governo pensando nas eleições de 2022? Assista também Bispo de Formosa comenta Campanha da Fraternidade: Não percam tempo com a Teologia da Libertação 9 – COMO É POSSÍVEL que os bispos apresentem aos católicos do Brasil a falsa ideia de que a Igreja é contra as pessoa terem armas para se defender, quando a doutrina e o Catecismo da Igreja afirmam que é lícito as pessoas possuírem armas para defenderem a si e aos seus entes queridos? Desde quando a Igreja concorda com a ideologia do Igualitarismo, com o Irenismo, com o relativismo e outras doutrinas ali expostas, todas já condenadas pela Igreja? 10 – COMO É POSSÍVEL que os bispos do Brasil apresentem aos fiéis um documento com informações falsas, que já foram desmentidas, como aquelas apresentadas pelo Grupo Gay da Bahia que diz terem sido assassinados 420 pessoas LGBTs em 2018 por motivações homofóbicas? Isso, sem dizer a menção feita ao Aquecimento Global como sendo causado pela ação do ser humano, tese já desmentida por numerosos cientistas… 11 – COMO É POSSÍVEL que os senhores bispos, pastores do povo de Deus, relativizem de tal forma a doutrina ensinada pela Igreja, e sejam tão indiferentes a salvação eterna do rebanho confiado a seus cuidados? Assista também a denúncia do Tiba LGBTQI+ no texto-base da Campanha da Fraternidade 2021? Que essa afronta a fé católica e o escárnio que foram expressos nessa Campanha da Fraternidade de 2021 ajudem os fiéis a perceberem a necessidade de se rezar pela conversão de nossos padres e bispos, bem como a necessidade de se estudar mais a Doutrina da Igreja para não serem enganados por aqueles, mesmo sendo autoridades, não possuem a fé da Igreja. Será que algum bispo, ou mesmo sacerdote, terá a coragem de dizer: “SOU CATÓLICO E CREIO NO QUE A IGREJA ENSINA, POR ISSO, ESSA CAMPANHA DA FRATERNIDADE NÃO ENTRA EM MINHA DIOCESE/PARÓQUIA!!!” ? Estamos no aguardo…. Discordar e rejeitar todos os erros e aberrações apresentados pelos bispos nessa Campanha da Fraternidade não é ato de desrespeito ou desobediência, mas é antes ato de fé e de amor a verdade, que nos conduz e nos faz permanecer unidos a Deus, Verdade Eterna. Templário de Maria Assista também a denúncia do Centro Dom Bosco: Quem está por trás da Campanha da Fraternidade? #CampanhadaFraternidade #CF2021 #CNBB #ProfFelipeAquino

  • CAPÍTULO I – PRINCÍPIOS GERAIS

    CAPÍTULO I PRINCÍPIOS GERAIS EM ORDEM À REFORMA E INCREMENTO DA LITURGIA I -NATUREZA DA SAGRADA LITURGIA E SUA IMPORTÂNCIA NA VIDA DA IGREJA Jesus Cristo salvador do mundo 5. Deus, que «quer que todos os homens se salvem e cheguem ao conhecimento da verdade» (I Tim. 2,4), «tendo falado outrora muitas vezes e de muitos modos aos nossos pais pelos profetas» (Hebr. 1,1), quando chegou a plenitude dos tempos, enviou o Seu Filho, Verbo feito carne, ungido pelo Espírito Santo, a evangelizar os pobres, curar os contritos de coração (8), como médico da carne e do espírito (9), mediador entre Deus e os homens (10). A sua humanidade foi, na unidade da pessoa do Verbo, o instrumento da nossa salvação. Por isso, em Cristo «se realizou plenamente a nossa reconciliação e se nos deu a plenitude do culto divino» (11). Esta obra da redenção dos homens e da glorificação perfeita de Deus, prefigurada pelas suas grandes obras no povo da Antiga Aliança, realizou-a Cristo Senhor, principalmente pelo mistério pascal da sua bem-aventurada Paixão, Ressurreição dos mortos e gloriosa Ascensão, em que «morrendo destruiu a nossa morte e ressurgindo restaurou a nossa vida» (12). Foi do lado de Cristo adormecido na cruz que nasceu o sacramento admirável de toda a Igreja (13). pelo sacrifício e pelos sacramentos 6. Assim como Cristo foi enviado pelo Pai, assim também Ele enviou os Apóstolos, cheios do Espírito Santo, não só para que, pregando o Evangelho a toda a criatura (14), anunciassem que o Filho de Deus, pela sua morte e ressurreição, nos libertara do poder de Satanás (15) e da morte e nos introduzira no Reino do Pai, mas também para que realizassem a obra de salvação que anunciavam, mediante o sacrifício e os sacramentos, à volta dos quais gira toda a vida litúrgica. Pelo Baptismo são os homens enxertados no mistério pascal de Cristo: mortos com Ele, sepultados com Ele, com Ele ressuscitados (16); recebem o espírito de adopção filial que «nos faz clamar: Abba, Pai» (Rom. 8,15), transformando-se assim nos verdadeiros adoradores que o Pai procura (17). E sempre que comem a Ceia do Senhor, anunciam igualmente a sua morte até Ele vir (18). Por isso foram baptizados no próprio dia de Pentecostes, em que a Igreja se manifestou ao mundo, os que receberam a palavra de Pedro. E «mantinham-se fiéis à doutrina dos Apóstolos, à participação na fracção do pão e nas orações… louvando a Deus e sendo bem vistos pelo povo» (Act. 2, 41-47). Desde então, nunca mais a Igreja deixou de se reunir em assembleia para celebrar o mistério pascal: lendo «o que se referia a Ele em todas as Escrituras» (Lc. 24,27), celebrando a Eucaristia, na qual «se torna presente o triunfo e a vitória da sua morte» (19), e dando graças «a Deus pelo Seu dom inefável (2 Cor. 9,15) em Cristo Jesus, «para louvor da sua glória» (Ef. 1,12), pela virtude do Espírito Santo. presença de Cristo na Liturgia 7. Para realizar tão grande obra, Cristo está sempre presente na sua igreja, especialmente nas acções litúrgicas. Está presente no sacrifício da Missa, quer na pessoa do ministro – «O que se oferece agora pelo ministério sacerdotal é o mesmo que se ofereceu na Cruz» (20) -quer e sobretudo sob as espécies eucarísticas. Está presente com o seu dinamismo nos Sacramentos, de modo que, quando alguém baptiza, é o próprio Cristo que baptiza (21). Está presente na sua palavra, pois é Ele que fala ao ser lida na Igreja a Sagrada Escritura. Está presente, enfim, quando a Igreja reza e canta, Ele que prometeu: «Onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, Eu estou no meio deles» (Mt. 18,20). Em tão grande obra, que permite que Deus seja perfeitamente glorificado e que os homens se santifiquem, Cristo associa sempre a si a Igreja, sua esposa muito amada, a qual invoca o seu Senhor e por meio dele rende culto ao Eterno Pai. Com razão se considera a Liturgia como o exercício da função sacerdotal de Cristo. Nela, os sinais sensíveis significam e, cada um à sua maneira, realizam a santificação dos homens; nela, o Corpo Místico de Jesus Cristo – cabeça e membros – presta a Deus o culto público integral. Portanto, qualquer celebração litúrgica é, por ser obra de Cristo sacerdote e do seu Corpo que é a Igreja, acção sagrada por excelência, cuja eficácia, com o mesmo título e no mesmo grau, não é igualada por nenhuma outra acção da Igreja. A Liturgia terrena, antecipação da Liturgia celeste 8. Pela Liturgia da terra participamos, saboreando-a já, na Liturgia celeste celebrada na cidade santa de Jerusalém, para a qual, como peregrinos nos dirigimos e onde Cristo está sentado à direita de Deus, ministro do santuário e do verdadeiro tabernáculo (22); por meio dela cantamos ao Senhor um hino de glória com toda a milícia do exército celestial, esperamos ter parte e comunhão com os Santos cuja memória veneramos, e aguardamos o Salvador, Nosso Senhor Jesus Cristo, até Ele aparecer como nossa vida e nós aparecermos com Ele na glória (23). Lugar da Liturgia na vida da Igreja 9. A sagrada Liturgia não esgota toda a acção da Igreja, porque os homens, antes de poderem participar na Liturgia, precisam de ouvir o apelo à fé e à conversão: «Como hão-de invocar aquele em quem não creram? Ou como hão-de crer sem o terem ouvido? Como poderão ouvir se não houver quem pregue? E como se há-de pregar se não houver quem seja enviado?» (Rom. 10, 14-15). É por este motivo que a Igreja anuncia a mensagem de salvação aos que ainda não têm fé, para que todos os homens venham a conhecer o único Deus verdadeiro e o Seu enviado, Jesus Cristo, e se convertam dos seus caminhos pela penitência (24). Aos que crêem, tem o dever de pregar constantemente a fé e a penitência, de dispó-los aos Sacramentos, de ensiná-los a guardar tudo o que Cristo mandou (25), de estimulá-los a tudo o que seja obra de caridade, de piedade e apostolado, onde os cristãos possam mostrar que são a luz do mundo, embora não sejam deste mundo, e que glorificam o Pai diante dos homens. 10. Contudo, a Liturgia é simultâneamente a meta para a qual se encaminha a acção da Igreja e a fonte de onde promana toda a sua força. Na verdade, o trabalho apostólico ordena-se a conseguir que todos os que se tornaram filhos de Deus pela fé e pelo Baptismo se reunam em assembleia para louvar a Deus no meio da Igreja, participem no Sacrifício e comam a Ceia do Senhor. A Liturgia, por sua vez, impele os fiéis, saciados pelos «mistérios pascais», a viverem «unidos no amor» (26); pede «que sejam fiéis na vida a quanto receberam pela fé» (27); e pela renovação da aliança do Senhor com os homens na Eucaristia, e aquece os fiéis na caridade urgente de Cristo. Da Liturgia, pois, em especial da Eucaristia, corre sobre nós, como de sua fonte, a graça, e por meio dela conseguem os homens com total eficácia a santificação em Cristo e a glorificação de Deus, a que se ordenam, como a seu fim, todas as outras obras da Igreja. A participação dos fiéis 11. Para assegurar esta eficácia plena, é necessário, porém, que os fiéis celebrem a Liturgia com rectidão de espírito, unam a sua mente às palavras que pronunciam, cooperem com a graça de Deus, não aconteça de a receberem em vão (28). Por conseguinte, devem os pastores de almas vigiar por que não só se observem, na acção litúrgica, as leis que regulam a celebração válida e lícita, mas também que os fiéis participem nela consciente, activa e frutuosamente. Vida espiritual extra-litúrgica 12. A participação na sagrada Liturgia não esgota, todavia, a vida espiritual. O cristão, chamado a rezar em comum, deve entrar também no seu quarto para rezar a sós (29) ao Pai, segundo ensina o Apóstolo, deve rezar sem cessar (30). E o mesmo Apóstolo nos ensina a trazer sempre no nosso corpo os sofrimentos da morte de Jesus, para que a sua vida se revele na nossa carne mortal (31). É essa a razão por que no Sacrifício da Missa pedimos ao Senhor que, tendo aceite a oblação da vítima espiritual, faça de nós uma «oferta eterna» (32) a si consagrada. 13. São muito de recomendar os exercícios piedosos do povo cristão, desde que estejam em conformidade com as leis e as normas da Igreja, e especialmente quando se fazem por mandato da Sé Apostólica. Gozam também de especial dignidade as práticas religiosas das Igrejas particulares, celebradas por mandato dos Bispos e segundo os costumes ou os livros legitimamente aprovados. Importa, porém, ordenar essas práticas tendo em conta os tempos litúrgicos, de modo que se harmonizem com a sagrada Liturgia, de certo modo derivem dela, e a ela, que por sua natureza é muito superior, conduzam o povo. II- EDUCAÇÃO LITÚRGICA E PARTICIPAÇÃO ACTIVA Normas gerais 14. É desejo ardente na mãe Igreja que todos os fiéis cheguem àquela plena, consciente e activa participação nas celebrações litúrgicas que a própria natureza da Liturgia exige e que é, por força do Baptismo, um direito e um dever do povo cristão, «raça escolhida, sacerdócio real, nação santa, povo adquirido» (1 Ped. 2,9; cfr. 2, 4-5). Na reforma e incremento da sagrada Liturgia, deve dar-se a maior atenção a esta plena e activa participação de todo o povo porque ela é a primeira e necessária fonte onde os fiéis hão-de beber o espírito genuìnamente cristão. Esta é a razão que deve levar os pastores de almas a procurarem-na com o máximo empenho, através da devida educação. Mas, porque não há qualquer esperança de que tal aconteça, se antes os pastores de almas se não imbuírem plenamente. do espírito e da virtude da Liturgia e não se fizerem mestres nela, é absolutamente necessário que se providencie em primeiro lugar à formação litúrgica do clero. Por tal razões este sagrado Concílio determinou quanto segue: Formação dos professores de Liturgia 15. Os professores que se destinam a ensinar a sagrada Liturgia nos seminários, nas casas de estudos dos religiosos e nas faculdades de teologia, devem receber a formação conveniente em ordem ao seu múnus em institutos para isso especialmente destinados. O ensino da Liturgia nos Seminários 16. A sagrada Liturgia deve ser tida, nos seminários e casas de estudo dos religiosos, como uma das disciplinas necessárias e mais importantes, nas faculdades de teologia como disciplina principal, e ensinar-se nos seus aspectos quer teológico e histórico, quer espiritual, pastoral e jurídico. Mais: procurem os professores das outras disciplinas, sobretudo de teologia dogmática, Sagrada Escritura, teologia espiritual e pastoral, fazer ressaltar, a partir das exigências intrínsecas de cada disciplina, o mistério de Cristo e a história da salvação, para que se veja claramente a sua conexão com a Liturgia e a unidade da formação sacerdotal. A formação litúrgica dos seminaristas, sacerdotes e fiéis 17. Nos seminários e casas religiosas, adquiram os clérigos uma formação litúrgica da vida espiritual, mediante uma conveniente iniciação que lhes permita penetrar no sentido dos ritos sagrados e participar perfeitamente neles, mediante a celebração dos sagrados mistérios, como também mediante outros exercícios de piedade penetrados do espírito da sagrada Liturgia. Aprendam também a observar as leis litúrgicas, de modo que nos seminários e institutos religiosos a vida seja totalmente impregnada de espírito litúrgico. 18. Ajudem-se os sacerdotes, quer seculares quer religiosos, que já trabalham na vinha do Senhor, por todos os meios oportunos, a penetrarem cada vez melhor o sentido do que fazem nas funções sagradas, a viverem a vida litúrgica, e a partilharem-na com os fiéis que lhes estão confiados. 19. Procurem os pastores de almas fomentar com persistência e zelo a educação litúrgica e a participação activa dos fiéis, tanto interna como externa, segundo a sua idade, condição, género de vida e grau de cultura religiosa, na convicção de que estão cumprindo um dos mais importantes múnus do dispensador fiel dos mistérios de Deus. Neste ponto guiem o rebanho não só com palavras mas também com o exemplo. O uso dos meios de comunicação 20. Façam-se com discrição e dignidade, e sob a direcção de pessoa competente, para tal designada pelos Bispos, as transmissões radiofónicas ou televisivas das acções sagradas, especialmente da Missa. III – REFORMA DA SAGRADA LITURGIA Razão e sentido da reforma 21. A santa mãe Igreja, para permitir ao povo cristão um acesso mais seguro à abundância de graça que a Liturgia contém, deseja fazer uma acurada reforma geral da mesma Liturgia. Na verdade, a Liturgia compõe-se duma parte imutável, porque de instituição divina, e de partes susceptíveis de modificação, as quais podem e devem variar no decorrer do tempo, se porventura se tiverem introduzido nelas elementos que não correspondam tão bem à natureza íntima da Liturgia ou se tenham tornado menos apropriados. Nesta reforma, proceda-se quanto aos textos e ritos, de tal modo que eles exprimam com mais clareza as coisas santas que significam, e, quanto possível, o povo cristão possa mais fàcilmente apreender-lhes o sentido e participar neles por meio de uma celebração plena, activa e comunitária. Para tal fim, o sagrado Concílio estabeleceu estas normas gerais: A. Normas gerais A autoridade competente 22. § 1. Regular a sagrada Liturgia compete ùnicamente à autoridade da Igreja, a qual reside na Sé Apostólica e, segundo as normas do direito, no Bispo. § 2. Em virtude do poder concedido pelo direito, pertence também às competentes assembleias episcopais territoriais de vário género legitimamente constituídas regular, dentro dos limites estabelecidos, a Liturgia. § 3. Por isso, ninguém mais, mesmo que seja sacerdote, ouse, por sua iniciativa, acrescentar, suprimir ou mudar seja o que for em matéria litúrgica. Trabalho prudente 23. Para conservar a sã tradição e abrir ao mesmo tempo o caminho a um progresso legítimo, faça-se uma acurada investigação teológica, histórica e pastoral acerca de cada uma das partes da Liturgia que devem ser revistas. Tenham-se ainda em consideração às leis gerais da estrutura e do espírito da Liturgia, a experiência adquirida nas recentes reformas litúrgicas e nos indultos aqui e além concedidos. Finalmente, não se introduzam inovações, a não ser que uma utilidade autêntica e certa da Igreja o exija, e com a preocupação de que as novas formas como que surjam a partir das já existentes. Evitem-se também, na medida do possível, diferenças notáveis de ritos entre regiões confinantes. O lugar da Sagrada Escritura 24. É enorme a importância da Sagrada Escritura na celebração da Liturgia. Porque é a ela que se vão buscar as leituras que se explicam na homilia e os salmos para cantar; com o seu espírito e da sua inspiração nasceram as preces, as orações e os hinos litúrgicos; dela tiram a sua capacidade de significação as acções e os sinais. Para promover a reforma, o progresso e adaptação da sagrada Liturgia, é necessário, por conseguinte, desenvolver aquele amor suave e vivo da Sagrada Escritura de que dá testemunho a venerável tradição dos ritos tanto orientais como ocidentais. A revisão dos livros 25. Faça-se o mais depressa possível a revisão dos livros litúrgicos, utilizando o trabalho de pessoas competentes e consultando Bispos de diversos países do mundo. B. Normas que derivam da natureza hierárquica e comunitária da Liturgia A liturgia, acção da Igreja comunitária 26. As acções litúrgicas não são acções privadas, mas celebrações da Igreja, que é «sacramento de unidade», isto é, Povo santo reunido e ordenado sob a direcção dos Bispos (33). Por isso, tais acções pertencem a todo o Corpo da Igreja, manifestam-no, atingindo, porém, cada um dos membros de modo diverso, segundo a variedade de estados, funções e participação actual. 27. Sempre que os ritos comportam, segundo a natureza particular de cada um, uma celebração comunitária, caracterizada pela presença e activa participação dos fiéis, inculque-se que esta deve preferir-se, na medida do possível, à celebração individual e como que privada. Isto é válido sobretudo para a celebração da Missa e para a administração dos sacramentos, ressalvando-se sempre a natureza pública e social de toda a Missa. 28. Nas celebrações litúrgicas, limite-se cada um, ministro ou simples fiel, exercendo o seu ofício, a fazer tudo e só o que é de sua competência, segundo a natureza do rito e as leis litúrgicas. Os ministros inferiores 29. Os que servem ao altar, os leitores, comentadores e elementos do grupo coral desempenham também um autêntico ministério litúrgico. Exerçam, pois, o seu múnus com piedade autêntica e do modo que convêm a tão grande ministério e que o Povo de Deus tem o direito de exigir. É, pois, necessário imbuí-los de espírito litúrgico, cada um a seu modo, e formá-los para executarem perfeita e ordenadamente a parte que lhes compete. A participação do povo 30. Para fomentar a participação activa, promovam-se as aclamações dos fiéis, as respostas, a salmodia, as antífonas, os cânticos, bem como as acções, gestos e atitudes corporais. Não deve deixar de observar-se, a seu tempo, um silêncio sagrado. 31. Na revisão dos livros litúrgicas, procure-se que as rubricas tenham em conta a parte que compete aos fiéis. A não-acepção das pessoas 32. Na Liturgia, à excepção da distinção que deriva da função litúrgica e da sagrada Ordem e das honras devidas às autoridades civis segundo as leis litúrgicas, não deve fazer-se qualquer acepção de pessoas ou classes sociais, quer nas cerimónias, quer nas solenidades externas. C. Normas que derivam da natureza didáctica e pastoral da Liturgia O valor didático da Liturgia 33. Embora a sagrada Liturgia seja principalmente culto da majestade divina, é também abundante fonte de instrução para o povo fiel (34). Efectivamente, na Liturgia Deus fala ao Seu povo, e Cristo continua a anunciar o Evangelho. Por seu lado, o povo responde a Deus com o canto e a oração. Mais: as orações dirigidas a Deus pelo sacerdote que preside, em representação de Cristo, à assembleia, são ditas em nome de todo o Povo santo e de todos os que estão presentes. Os próprios sinais visíveis que a sagrada Liturgia utiliza para simbolizar as realidades invisíveis foram escolhidos por Cristo ou pela Igreja. Por isso, não é só quando se faz a leitura «do que foi escrito para nossa instrução» (Rom. 15,4), mas também quando a Igreja reza, canta ou age, que a fé dos presentes é alimentada e os espíritos se elevam a Deus, para se lhe submeterem de modo racional e receberem com mais abundância a sua graça. Por isso, na reforma da Liturgia, observem-se as seguintes normas gerais: Aplicação aos diversos ritos 34. Brilhem os ritos pela sua nobre simplicidade, sejam claros na brevidade e evitem repetições inúteis; devem adaptar-se à capacidade de compreensão dos fiéis, e não precisar, em geral, de muitas explicações. A conexão entre a palavra e o rito 35. Para se poder ver claramente que na Liturgia o rito e a palavra estão ìntimamente unidos: 1) Seja mais abundante, variada e bem adaptada a leitura da Sagrada Escritura nas celebrações litúrgicas. 2) Indiquem as rubricas o momento mais apto para a pregação, que é parte da acção litúrgica, quando o rito a comporta. O ministério da palavra deve ser exercido com muita fidelidade e no modo devido. A pregação deve ir beber à Sagrada Escritura e à Liturgia, e ser como que o anúncio das maravilhas de Deus na história da salvação, ou seja, no mistério de Cristo, o qual está sempre presente e operante em nós, sobretudo nas celebrações litúrgicas. 3) Procure-se também inculcar por todos os modos uma catequese mais directamente litúrgica, e prevejam-se nos próprios ritos, quando necessário, breves admonições, feitas só nos momentos mais oportunos, pelo sacerdote ou outro ministro competente, com as palavras prescritas ou semelhantes. 4) Promova-se a celebração da Palavra de Deus nas vigílias das festas mais solenes, em alguns dias feriais do Advento e da Quaresma e nos domingos e dias de festa, especialmente onde não houver sacerdote; neste caso, será um diácono, ou outra pessoa delegada pelo Bispo, a dirigir a celebração. A língua litúrgica: traduções 36. § 1. Deve conservar-se o uso do latim nos ritos latinos, salvo o direito particular. § 2. Dado, porém, que não raramente o uso da língua vulgar pode revestir-se de grande utilidade para o povo, quer na administração dos sacramentos, quer em outras partes da Liturgia, poderá conceder-se à língua vernácula lugar mais amplo, especialmente nas leituras e admonições, em algumas orações e cantos, segundo as normas estabelecidas para cada caso nos capítulos seguintes. § 3. Observando estas normas, pertence à competente autoridade eclesiástica territorial, a que se refere o artigo 22 § 2, consultados, se for o caso, os Bispos das regiões limítrofes da mesma língua, decidir acerca do uso e extensão da língua vernácula. Tais decisões deverão ser aprovadas ou confirmadas pela Sé Apostólica. § 4. A tradução do texto latino em língua vulgar para uso na Liturgia, deve ser aprovada pela autoridade eclesiástica territorial competente, acima mencionada. D. Normas para a adaptação da Liturgia à índole e tradições dos povos A adaptação da Igreja 37. Não é desejo da Igreja impor, nem mesmo na Liturgia, a não ser quando está em causa a fé e o bem de toda a comunidade, uma forma única e rígida, mas respeitar e procurar desenvolver as qualidades e dotes de espírito das várias raças e povos. A Igreja considera com benevolência tudo o que nos seus costumes não está indissolùvelmente ligado a superstições e erros, e, quando é possível, mantem-no inalterável, por vezes chega a aceitá-lo na Liturgia, se se harmoniza com o verdadeiro e autêntico espírito litúrgico. Aplicação à Liturgia 38. Mantendo-se substancialmente a unidade do rito romano, dê-se possibilidade às legítimas diversidades e adaptações aos vários grupos étnicos, regiões e povos, sobretudo nas Missões, de se afirmarem, até na revisão dos livros litúrgicos; tenha-se isto oportunamente diante dos olhos ao estruturar os ritos e ao preparar as rubricas. A autoridade competente 39. Será da atribuição da competente autoridade eclesiástica territorial, de que fala o art. 22 § 2, determinar as várias adaptações a fazer, especialmente no que se refere à administração dos sacramentos, aos sacramentais, às procissões, à língua litúrgica, à música sacra e às artes, dentro dos limites estabelecidos nas edições típicas dos livros litúrgicos e sempre segundo as normas fundamentais desta Constituição. Casos especiais 40. Mas como em alguns lugares e circunstâncias é urgente fazer uma adaptação mais profunda da Liturgia, que é, por isso, mais difícil: 1) Deve a competente autoridade eclesiástica territorial, a que se refere o art. 22 § 2, considerar com muita prudência e atenção o que, neste aspecto, das tradições e génio de cada povo, poderá oportunamente ser aceite na Liturgia. Proponham-se à Sé Apostólica as adaptações julgadas úteis ou necessárias, para serem introduzidas com o seu consentimento. 2) Para se fazer a adaptação com a devida cautela, a Sé Apostólica poderá dar, se for necessário, à mesma autoridade eclesiástica territorial a faculdade de permitir e dirigir as experiências prévias que forem precisas, em alguns grupos que sejam aptos para isso e por um tempo determinado. 3) Como as leis litúrgicas criam em geral dificuldades especiais quanto à adaptação, sobretudo nas Missões, haja, para a sua elaboração, pessoas competentes na matéria de que se trata. IV – PROMOÇÃO DA VIDA LITÚRGICA NA DIOCESE E NA PARÓQUIA O Bispo, centro de unidade de vida na diocese 41. O Bispo deve ser considerado como o sumo-sacerdote do seu rebanho, de quem deriva e depende, de algum modo, a vida de seus fiéis em Cristo. Por isso, todos devem dar a maior importância à vida litúrgica da diocese que gravita em redor do Bispo, sobretudo na igreja catedral, convencidos de que a principal manifestação da Igreja se faz numa participação perfeita e activa de todo o Povo santo de Deus na mesma celebração litúrgica, especialmente na mesma Eucaristia, numa única oração, ao redor do único altar a que preside o Bispo rodeado pelo presbitério e pelos ministros (35). O pároco seu representante 42. Impossibilitado como está o Bispo de presidir pessoalmente sempre e em toda a diocese a todo o seu rebanho, vê-se na necessidade de reunir os fiéis em grupos vários, entre os quais têm lugar proeminente as paróquias, constituídas localmente sob a presidência dum pastor que faz as vezes do Bispo. As paróquias representam, de algum modo, a Igreja visível estabelecida em todo o mundo. Por consequência, deve cultivar-se no espírito e no modo de agir dos fiéis e dos sacerdotes a vida litúrgica da paróquia e a sua relação com ó Bispo, e trabalhar para que floresça o sentido da comunidade paroquial, especialmente na celebração comunitária da missa dominical. V – INCREMENTO DA ACÇÃO PASTORAL LITÚRGICA Sinal providencial 43. O interesse pelo incremento e renovação da Liturgia é justamente considerado como um sinal dos desígnios providenciais de Deus sobre o nosso tempo, como uma passagem do Espírito Santo pela sua Igreja, e imprime uma nota distintiva à própria vida da Igreja, a todo o modo religioso de sentir e de agir do nosso tempo. Em ordem a desenvolver cada vez mais na Igreja esta acção pastoral litúrgica, o sagrado Concílio determina: Comissões de Liturgia, música e arte sacra 44. Convém que a autoridade eclesiástica territorial competente, a que se refere o art. 22 § 2, crie uma Comissão litúrgica, que deve servir-se da ajuda de especialistas em liturgia, música, arte sacra e pastoral. A Comissão deverá contar, se possível, com o auxílio dum Instituto de Liturgia Pastoral, de cujos membros não se excluirão leigos particularmente competentes, se for necessário. Será atribuição da dita Comissão dirigir, guiada pela autoridade eclesiástica territorial, a pastoral litúrgica no território da sua competência, promover os estudos e as experiências necessárias sempre que se trate de adaptações a propor à Santa Sé. 45. Crie-se igualmente em cada diocese a Comissão litúrgica, em ordem a promover, sob a direcção do Bispo, a pastoral litúrgica. Poderá suceder que seja oportuno que várias dioceses formem uma só Comissão para promover em conjunto o apostolado litúrgico. 46. Criem-se em cada diocese, se possível, além da Comissão litúrgica, Comissões de música sacra e de arte sacra. É necessário que estas três Comissões trabalhem em conjunto, e não raro poderá ser oportuno que formem uma só Comissão. #constituiçoes #papapaulovi #PauloVI #SACROSANCTUMCONCILIUM

  • SACROSANCTUM CONCILIUM

    CONSTITUIÇÃO CONCILIAR  SACROSANCTUM CONCILIUM SOBRE A SAGRADA LITURGIA PROÉMIO Fim do Concílio e sua relação com a reforma litúrgica 1. O sagrado Concílio propõe-se fomentar a vida cristã entre os fiéis, adaptar melhor às necessidades do nosso tempo as instituições susceptíveis de mudança, promover tudo o que pode ajudar à união de todos os crentes em Cristo, e fortalecer o que pode contribuir para chamar a todos ao seio da Igreja. Julga, por isso, dever também interessar-se de modo particular pela reforma e incremento da Liturgia. 2. A Liturgia, pela qual, especialmente no sacrifício eucarístico, «se opera o fruto da nossa Redenção» (1), contribui em sumo grau para que os fiéis exprimam na vida e manifestem aos outros o mistério de Cristo e a autêntica natureza da verdadeira Igreja, que é simultâneamente humana e divina, visível e dotada de elementos invisíveis, empenhada na acção e dada à contemplação, presente no mundo e, todavia, peregrina, mas de forma que o que nela é humano se deve ordenar e subordinar ao divino, o visível ao invisível, a acção à contemplação, e o presente à cidade futura que buscamos (2). A Liturgia, ao mesmo tempo que edifica os que estão na Igreja em templo santo no Senhor, em morada de Deus no Espírito (3), até à medida da idade da plenitude de Cristo (4), robustece de modo admirável as suas energias para pregar Cristo e mostra a Igreja aos que estão fora, como sinal erguido entre as nações (5), para reunir à sua sombra os filhos de Deus dispersos (6), até que haja um só rebanho e um só pastor (7). Aplicação aos diversos ritos 3. Entende, portanto, o sagrado Concílio dever recordar os princípios e determinar as normas práticas que se seguem, acerca do incremento e da reforma da Liturgia. Entre estes princípios e normas, alguns podem e devem aplicar-se não só ao rito romano mas a todos os outros ritos, muito embora as normas práticas que se seguem devam entender-se referidas só ao rito romano, a não ser que se trate de coisas que, por sua própria natureza, digam respeito também aos outros ritos. 4. O sagrado Concílio, guarda fiel da tradição, declara que a santa mãe Igreja considera iguais em direito e honra todos os ritos legitimamente reconhecidos, quer que se mantenham e sejam por todos os meios promovidos, e deseja que, onde for necessário, sejam prudente e integralmente revistos no espírito da sã tradição e lhes seja dado novo vigor, de acordo com as circunstâncias e as necessidades do nosso tempo. #constituiçoes #SAGRADALITURGIA #papapaulovi #PauloVI #SACROSANCTUMCONCILIUM

  • NOTAS

    Notas Cfr. S. Agostinho, De catechizandis rudibus , c. IV, 8: PL 40, 316. Cfr. Mt. 11,27; Jo. 1,14 e 17; 14,6; 17, 1-3; 2 Cor. 3,16 e 4,6; Ef. 1, 3-14. Epist. ad Diognetum , c. VII, 4: Funk, Patres Apostolici, I, p. 403. Conc. Vat. I, Const. dogmatica De fide catholica, Dei Filius , cap. 3: Denz. 1789 (3008). Conc. Araus. II, can. 7: Denz, 180 (377); Conc. Vat. I, 1. c.: Denz. 1791 (3010). Conc. Vat. I, Const. dogmatica De fide catholica, Dei Filius , cap. 2 Denz. 1786 (3005). Ibid.: Denz. 1785 e 1786 (3004 e 3005). Capítulo II Cfr. Mt. 28, 19-20 e Mc. 16,15; Concilio Tridentino decr. De canonicis Scripturis : Denz. 783 (1501). Cfr. Concílio Tridentino, I. c.; Concílio Vat I, sess. III, Const. dogmatica De fide catholica, Dei Filius , cap. 2. Denz. 1787 (3006). S. Ireneu, Adv. Haer . III, 3, 1: PG 7, 848: Harvey, 2, p. 9. Cfr. II Concílio Niceno, Denz. 303 (602); IV Concilio Constantinopolitano, sess. X, can. 1: Denz. 336 (650-652). Cfr. Concílio Vat. I, Const. dogm. De fide catholica, Dei Filius , cap. 4: Denz. 1800 (3020). Cfr. Concílio Tridentino, Decr. De canonicis scripturis : Denz. 783 (1501). Cfr. Pio XII, Const. apost. Munificentissimus Deus , 1 nov. 1950: AAS 42 (1950) 756; conforme as palavras de S. Cipriano, Epist. 66,8: CSEL, 3,2, 733: «A Igreja e o povo unido ao sacerdote e o rebanho unido ao seu pastor». Cfr. Concilio Vat. I, Const. dogmatica De fide catholica, Dei Filius , cap. 3: Denz. 1792 (3011). Cfr. Pio XII, Enciclica Humani generis , 12 ago. 1950: AAS 42 (1950) 568-569: Denz. 2314 (3886). Capítulo III Cfr. Conc. Vat. I, Const. dogm. de fide cath., Dei Filius , cap. 2: Denz. 1787 (3006). Denz. da Comissão Biblica, 18 jun. 1915: Denz. 2180 (3629) ; EB 420. Santo Officio, Epist .; 22 dez. 1923: EB 499. Cfr. Pio XII, Encíclica Divino afflante Spiritu , 30 set. 1944: AAS 35 (1943) 314; EB 556. Em o por o homem : cfr. Hebr . 1,1 e 4,7 ( Em); 2 Sam. 23,2; Mt. 1,22 e passim ( por ); Conc. Vat. I: schema de doctr. cath., nota 9 : Coll. Lac. VII, 522. Leão XIII, Encíclica Providentissimus Deus , 18 nov. 1893: Denz. 1952 (3293) EB 125. Cfr. S. Agostinho, De Gen. ad Litt . 2, 9, 20: PL 34, 270-271; CSEL 28, 1, 46-47 e Epist . 82, 3: PL 33, 277: CSEL 34, 2, p. 354.—S. Tomás, De Ver . q. 12, a. 2 c. —Conc. de Trento, decr. De canonicis Scripturis : Denz. 783 (1501) —Ledo XIII, Enc. Providentissimus : EB 121, 124, 126-127—Pio XII, Enc. Divino afflante Spiritu : EB 539. S. Agostinho, De civ. Dei , XVII, 6, 2: PL 41, 537: CSEL XL 2, 228. S. Agostinho, De doct. christ ., III, 18, 26: PL 34, 75-76; CSEL 80, 95. Pio XII, 1. c.: Denz. 2294 (3829-3830); EB 557-562. Cfr. Bento XV, Enc. Spiritus Paraclitus , 15 set. 1920: EB 469.- S. Jerónimo, In Gal. , 5, 19-21: PL 26, 417 A. Cfr. Conc. Vat. I, Const. dogm. De fide catholica, Dei Filius , cap. 2: Denz. 1788 (3007). S. João Crisóstomo, In Gen. 3,8 (hom. 17,1): PG 53, 134. «Acomodação», em grego synkatábasis. Capítulo IV Pio XI, Enc. Mit brennender Sorge , 14 mar. 1937: AAS 29 (1937) 151. S. Agostinho, Quaest. in Hept . 2, 73: PL 34, 623. S. Ireneu, Adv.: Haer . III, 21, 3: PG 7, 950: ( = 25, 1: Harvey 2, p. 115). S. Cirilo de Jerusalém, Caech . 4, 35: PG 33, 497, Teodoro de Mopsuesta, In Soph. 1, 4-6: PG 66, 452 D-453 A. Capítulo V Cfr. S, Ireneu, Adv. Haer . III, 11, 8: PG. 7, 885; ed. Sagnard, p. 194. Cfr. Jo. 14,26; 16,13, Cfr. Jo. 2,22; 12,16; de acordo com 14,26; 16, 12-13; 7,39. Cfr. Instrução Sancta Mater Ecclesia , da Pontifícia Comissão Bíblica: AAS 56 (1964) 715. Capítulo VI Cfr. Pio XII, Enc. Divino afflante , 30. set. 1943: EB 551, 553, 567. — Pontifícia Comissão Bíblica, Instructio de S. Scriptura in Clericorum seminariis et Religiosorum Collegiis recte docenda , 13 maio 1950: AAS 42 (1950) 495-505. Cfr. Pio XII, 1. c.: EB 569. Cfr. Leão XIII, Enc. Providentissimus Deus : EB 114; Bento XV, Enc., Spiritus Paraclitus , 15. set. 1920: EB 483. S. Agostinho, Serm . 179, 1: PL 38, 966. S. Jerónimo, Comm. in Is . Prol.: PL 24, 17. — Cfr. Bento XV, Enc. Spiritus Paraclitus : EB 475-480; Pio XII, Enc. Divino afflante : EB 544. S. Ambrósio, De officiis ministrorum I, 20, 88: PL 16, 50. S. Ireneu, Adv. Haer. IV, 32, 1: PG 7, 1071; ( = 49, 2), Harvey, 2, p. 255. CONSTITUIÇÃO DOGMÁTICA DEI VERBUM CAPÍTULO I A REVELAÇÃO EM SI MESMA     Natureza e objecto da revelação Aprouve a Deus. na sua bondade CAPÍTULO II – A TRANSMISSÃO DA REVELAÇÃO DIVINA CAPÍTULO II A TRANSMISSÃO DA REVELAÇÃO DIVINA Os apóstolos e seus sucessores, transmissores do Evangelho 7. Deus dispôs amorosamente que CAPÍTULO III – A INSPIRAÇÃO DIVINA DA SAGRADA ESCRITURA E A SUA INTERPRETAÇÃO CAPÍTULO III A INSPIRAÇÃO DIVINA DA SAGRADA ESCRITURAE A SUA INTERPRETAÇÃO   Natureza da inspiração e verdade da Sagrada Escritura CAPÍTULO IV – O ANTIGO TESTAMENTO CAPÍTULO IV O ANTIGO TESTAMENTO A história da salvação consignada nos livros do Antigo Testamento Deus amantíssimo, desejando e preparando com CAPÍTULO V – O NOVO TESTAMENTO CAPÍTULO V O NOVO TESTAMENTO Excelência do Novo Testamento A palavra de Deus, que é virtude de Deus para a CAPÍTULO VI – A SAGRADA ESCRITURA NA VIDA DA IGREJA CAPÍTULO VI A SAGRADA ESCRITURA NA VIDA DA IGREJA A Igreja venera as Sagradas Escrituras A Igreja venerou sempre as NOTAS Notas Cfr. S. Agostinho,De catechizandis rudibus, c. IV, 8: PL 40, 316. Cfr. Mt. 11,27; Jo. 1,14 e 17; 14,6; #constituiçoes #papapaulovi #CONSTITUIÇÃODOGMÁTICA #PauloVI #DEIVERBUM

  • Censura: Canal do LifeSiteNews é removido do YouTube

    O canal do YouTube do maior site católico de notícias sobre a vida, fé e família dos EUA foi excluido. Nesta quarta-feira (10) o site americano de notícias católico, pró-vida, LifeSiteNews comunicou que tiveram seu canal completamente removido do YouTube. Ao que parece esta atividade de censura das grandes redes sociais contra os conservadores está se tornando cada vez mais recorrente. Na semana passada um importante canal de notícias conservador/católico brasileiro, Terça Livre, também foi removido pela plataforma de vídeos que alegou descumprimento dos Termos de Serviço. Outro caso que ficou mundialmente conhecido, foi a censura praticada pela plataforma Twitter na conta do ex-presidente norte-americano. Após restringirem por diversas vezes suas postagens, no início deste ano, decidiram banir definitivamente Donald Trump da plataforma de mensagens. Após a censura, o presidente Donald Trump sugeriu que teria rede social própria. Veja o comunicado do LifeSiteNews: “O YouTube removeu completamente o canal LifeSiteNews no YouTube. Esta não é uma proibição temporária; cada um de nossos vídeos se foi completamente. Felizmente, temos backups de todos os nossos vídeos, mas isso significa que centenas de milhares de pessoas perderam o acesso ao nosso conteúdo revelador. Assine a manchetes diárias de LifeSiteSE INSCREVERNOS Canadá Mundo católico Você pode assistir nossos vídeos atuais no Rumble aqui: https://rumble.com/user/LifeSiteNews Ou em nosso canal LifeSiteNews Catholic Rumble, aqui: https://rumble.com/user/LifeSiteNewsCatholic Você também pode se inscrever para receber alertas por e-mail sobre nossos vídeos recentes aqui: https://bit.ly/LifeSiteVideoSub“ #Censura

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    O canal do YouTube do maior site católico de notícias sobre a vida, fé e família dos EUA foi excluido. Nesta quarta-feira (10) o site americano de notícias católico, pró-vida, LifeSiteNews comunicou que tiveram seu canal completamente removido do YouTube. Ao que parece esta atividade de censura das grandes redes sociais contra os conservadores está se tornando cada vez mais recorrente. Na semana passada um importante canal de notícias conservador/católico brasileiro, Terça Livre, também foi removido pela plataforma de vídeos que alegou descumprimento dos Termos de Serviço. Outro caso que ficou mundialmente conhecido, foi a censura praticada pela plataforma Twitter na conta do ex-presidente norte-americano. Após restringirem por diversas vezes suas postagens, no início deste ano, decidiram banir definitivamente Donald Trump da plataforma de mensagens. Após a censura, o presidente Donald Trump sugeriu que teria rede social própria. Veja o comunicado do LifeSiteNews: “O YouTube removeu completamente o canal LifeSiteNews no YouTube. Esta não é uma proibição temporária; cada um de nossos vídeos se foi completamente. Felizmente, temos backups de todos os nossos vídeos, mas isso significa que centenas de milhares de pessoas perderam o acesso ao nosso conteúdo revelador. Assine a manchetes diárias de LifeSiteSE INSCREVERNOS Canadá Mundo católico Você pode assistir nossos vídeos atuais no Rumble aqui: https://rumble.com/user/LifeSiteNews Ou em nosso canal LifeSiteNews Catholic Rumble, aqui: https://rumble.com/user/LifeSiteNewsCatholic Você também pode se inscrever para receber alertas por e-mail sobre nossos vídeos recentes aqui: https://bit.ly/LifeSiteVideoSub“ #Censura

  • CAPÍTULO VI – A SAGRADA ESCRITURA NA VIDA DA IGREJA

    CAPÍTULO VI A SAGRADA ESCRITURA NA VIDA DA IGREJA A Igreja venera as Sagradas Escrituras A Igreja venerou sempre as divinas Escrituras como venera o próprio Corpo do Senhor, não deixando jamais, sobretudo na sagrada Liturgia, de tomar e distribuir aos fiéis o pão da vida, quer da mesa da palavra de Deus quer da do Corpo de Cristo. Sempre as considerou, e continua a considerar, juntamente com a sagrada Tradição, como regra suprema da sua fé; elas, com efeito, inspiradas como são por Deus, e exaradas por escrito duma vez para sempre, continuam a dar-nos imutàvelmente a palavra do próprio Deus, e fazem ouvir a voz do Espírito Santo através das palavras dos profetas e dos Apóstolos. É preciso, pois, que toda a pregação eclesiástica, assim como a própria religião cristã, seja alimentada e regida pela Sagrada Escritura. Com efeito, nos livros sagrados, o Pai que está nos céus vem amorosamente ao encontro de Seus filhos, a conversar com eles; e é tão grande a força e a virtude da palavra de Deus que se torna o apoio vigoroso da Igreja, solidez da fé para os filhos da Igreja, alimento da alma, fonte pura e perene de vida espiritual. Por isso se devem aplicar por excelência à Sagrada Escritura as palavras: «A palavra de Deus é viva e eficaz» (Hebr. 4,12), «capaz de edificar e dar a herança a todos os santificados», (Act. 20,32; cfr. 1 Tess. 2,13). Traduções da Sagrada Escritura É preciso que os fiéis tenham acesso patente à Sagrada Escritura. Por esta razão, a Igreja logo desde os seus começos fez sua aquela tradução grega antiquíssima do Antigo Testamento chamada dos Setenta; e sempre tem em grande apreço as outras traduções, quer orientais quer latinas, sobretudo a chamada Vulgata. Mas, visto que a palavra de Deus deve estar sempre acessível a todos, a Igreja procura com solicitude maternal que se façam traduções aptas e fiéis nas várias línguas, sobretudo a partir dos textos originais dos livros sagrados. Se porém, segundo a oportunidade e com a aprovação da autoridade da Igreja, essas traduções se fizerem em colaboração com os irmãos separados, poderão ser usadas por todos os cristãos. Investigação Bíblica A esposa do Verbo encarnado, isto é, a Igreja, ensinada pelo Espírito Santo, esforça-se por conseguir uma inteligência cada vez mais profunda da Sagrada Escritura, para poder alimentar contìnuamente os seus filhos com os divinos ensinamentos; por isso, vai fomentando também convenientemente o estudo dos santos Padres do Oriente e do Ocidente, bem como das sagradas liturgias. É preciso, porém, que os exegetas católicos e os demais estudiosos da sagrada teologia, trabalhem em íntima colaboração de esforços, para que, sob a vigilância do sagrado magistério, lançando mão de meios aptos, estudem e expliquem as divinas Letras de modo que o maior número possível de ministros da palavra de Deus possa oferecer com fruto ao Povo de Deus o alimento das Escrituras, que ilumine o espírito, robusteça as vontades, e inflame os corações dos homens no amor de Deus (1). O sagrado Concilio encoraja os filhos da Igreja que cultivam as ciências bíblicas para que continuem a realizar com todo o empenho, segundo o sentir da Igreja, a empresa felizmente começada, renovando constantemente as suas forças (2). Importância da Sagrada Escritura para a Teologia A sagrada Teologia apoia-se, como em seu fundamento perene, na palavra de Deus escrita e na sagrada Tradição, e nela se consolida firmemente e sem cessar se rejuvenesce, investigando, à luz da fé, toda a verdade contida no mistério de Cristo. As Sagradas Escrituras contêm a palavra de Deus, e, pelo facto de serem inspiradas, são verdadeiramente a palavra de Deus; e por isso, o estudo destes sagrados livros deve ser como que a alma da sagrada teologia (3). Também o ministério da palavra, isto é, a pregação pastoral, a catequese, e toda a espécie de instrução cristã, na qual a homilia litúrgica deve ter um lugar principal, com proveito se alimenta e santamente se revigora com a palavra da Escritura. Leitura da Sagrada Escritura É necessário, por isso, que todos os clérigos e sobretudo os sacerdotes de Cristo e outros que, como os diáconos e os catequistas, se consagram legìtimamente ao ministério da palavra, mantenham um contacto íntimo com as Escrituras, mediante a leitura assídua e o estudo aturado, a fim de que nenhum deles se torne «pregador vão e superficial da palavra de Deus. por não a ouvir de dentro» (4), tendo, como têm, a obrigação de comunicar aos fiéis que lhes estão confiados as grandíssimas riquezas da palavra divina, sobretudo na sagrada Liturgia. Do mesmo modo, o sagrado Concílio exorta com ardor e insistência todos os fiéis, mormente os religiosos, a que aprendam «a sublime ciência de Jesus Cristo» (Fil. 3,8) com a leitura frequente das divinas Escrituras, porque «a ignorância das Escrituras é ignorância de Cristo» (5). Debrucem-se, pois, gostosamente sobre o texto sagrado, quer através da sagrada Liturgia, rica de palavras divinas, quer pela leitura espiritual, quer por outros meios que se vão espalhando tão louvàvelmente por toda a parte, com a aprovação e estímulo dos pastores da Igreja. Lembrem-se, porém, que a leitura da Sagrada Escritura deve ser acompanhada de oração para que seja possível o diálogo entre Deus e o homem; porque «a Ele falamos, quando rezamos, a Ele ouvimos, quando lemos os divinos oráculos» (6). Compete aos sagrados pastores «depositários da doutrina apostólica» (7), ensinar oportunamente os fiéis que lhes foram confiados no uso recto dos livros divinos, de modo particular do Novo Testamento, e sobretudo dos Evangelhos. E isto por meio de traduções dos textos sagrados, que devem ser acompanhadas das explicações necessárias e verdadeiramente suficientes, para que os filhos da Igreja se familiarizem dum modo seguro e. útil com a Sagrada Escritura, e se penetrem do seu espírito. Além disso, façam-se edições da Sagrada Escritura, munidas das convenientes anotações, para uso também dos não cristãos, e adaptadas às suas condições; e tanto os pastores de almas como os cristãos de qualquer estado procuram difundi-las com zelo e prudência. Influência e importância da renovação escriturística Deste modo, pois, com a leitura e estudo dos livros sagrados, «a palavra de Deus se difunda e resplandeça (2 Tess. 3,1), e o tesouro da revelação confiado à Igreja encha cada vez mais os corações dos homens. Assim como a vida da Igreja cresce com a assídua frequência do mistério eucarístico, assim também é lícito esperar um novo impulso de vida espiritual, se fizermos crescer a veneração pela palavra de Deus, que «permanece para sempre» (Is. 40,8; cfr. l Pedr. 1, 23-25). Roma, 18 de Novembro de 1965 PAPA PAULO VI CONSTITUIÇÃO DOGMÁTICA DEI VERBUM CAPÍTULO I A REVELAÇÃO EM SI MESMA     Natureza e objecto da revelação Aprouve a Deus. na sua bondade CAPÍTULO II – A TRANSMISSÃO DA REVELAÇÃO DIVINA CAPÍTULO II A TRANSMISSÃO DA REVELAÇÃO DIVINA Os apóstolos e seus sucessores, transmissores do Evangelho 7. Deus dispôs amorosamente que CAPÍTULO III – A INSPIRAÇÃO DIVINA DA SAGRADA ESCRITURA E A SUA INTERPRETAÇÃO CAPÍTULO III A INSPIRAÇÃO DIVINA DA SAGRADA ESCRITURAE A SUA INTERPRETAÇÃO   Natureza da inspiração e verdade da Sagrada Escritura CAPÍTULO IV – O ANTIGO TESTAMENTO CAPÍTULO IV O ANTIGO TESTAMENTO A história da salvação consignada nos livros do Antigo Testamento Deus amantíssimo, desejando e preparando com CAPÍTULO V – O NOVO TESTAMENTO CAPÍTULO V O NOVO TESTAMENTO Excelência do Novo Testamento A palavra de Deus, que é virtude de Deus para a CAPÍTULO VI – A SAGRADA ESCRITURA NA VIDA DA IGREJA CAPÍTULO VI A SAGRADA ESCRITURA NA VIDA DA IGREJA A Igreja venera as Sagradas Escrituras A Igreja venerou sempre as NOTAS Notas Cfr. S. Agostinho,De catechizandis rudibus, c. IV, 8: PL 40, 316. Cfr. Mt. 11,27; Jo. 1,14 e 17; 14,6;

  • CAPÍTULO V – O NOVO TESTAMENTO

    CAPÍTULO V O NOVO TESTAMENTO Excelência do Novo Testamento A palavra de Deus, que é virtude de Deus para a salvação de todos os crentes (cfr. Rom. 1,16), apresenta-se e manifesta o seu poder dum modo eminente nos escritos do Novo Testamento. Com efeito, quando chegou a plenitude dos tempos (cfr. Gál. 4,4), o Verbo fez-se carne e habitou entre nós cheio de graça e verdade (cfr. Jo. 1,14). Cristo estabeleceu o reino de Deus na terra, manifestou com obras e palavras o Pai e a Si mesmo, e levou a cabo a Sua obra com a Sua morte, ressurreição, e gloriosa ascensão, e com o envio do Espírito Santo. Sendo levantado da terra, atrai todos a si (cfr. Jo. 12,32 gr.), Ele que é o único que tem palavras de vida eterna (cfr. Jo. 6,68). Este mistério, porém, não foi descoberto a outras gerações como foi agora revelado aos seus santos Apóstolos e aos profetas no Espírito Santo (cfr. Ef. 3, 46 gr.) para que pregassem o Evangelho, e despertassem a fé em Jesus Cristo e Senhor, e congregassem a Igreja. Os escritos do Novo Testamento são um testemunho perene e divino de todas estas coisas. Origem apostólica dos Evangelhos Ninguém ignora que entre todas as Escrituras, mesmo do Novo Testamento, os Evangelhos têm o primeiro lugar, enquanto são o principal testemunho da vida e doutrina do Verbo encarnado, nosso salvador. A Igreja defendeu e defende sempre e em toda a parte a origem apostólica dos quatro Evangelhos. Com efeito, aquelas coisas que os Apóstolos, por ordem de Cristo, pregaram, foram depois, por inspiração do Espírito Santo, transmitidas por escrito por eles mesmos e por varões apostólicos como fundamento da fé, ou seja, o Evangelho quadriforme, segundo Mateus, Marcos, Lucas e João (1). Carácter histórico dos Evangelhos A santa mãe Igreja defendeu e defende firme e constantemente que estes quatro Evangelhos, cuja historicidade afirma sem hesitação, transmitem fielmente as coisas que Jesus, Filho de Deus. durante a sua vida terrena, realmente operou e ensinou para salvação eterna dos homens, até ao dia em que subiu ao céu (cfr. Act. 1. 1-2). Na verdade, após a ascensão do Senhor, os Apóstolos transmitiram aos seus ouvintes, com aquela compreensão mais plena de que eles, instruídos pelos acontecimentos gloriosos de Cristo e iluminados pelo Espírito de verdade (2) gozavam (3), as coisas que Ele tinha dito e feito. Os autores sagrados, porém, escreveram os quatro Evangelhos, escolhendo algumas coisas entre as muitas transmitidas por palavra ou por escrito, sintetizando umas, desenvolvendo outras, segundo o estado das igrejas, conservando, finalmente, o carácter de pregação, mas sempre de maneira a comunicar-nos coisas autênticas e verdadeiras acerca de Jesus (4). Com efeito, quer relatassem aquilo de que se lembravam e recordavam, quer se baseassem no testemunho daqueles «que desde o princípio foram testemunhas oculares e ministros da palavra», fizeram-no sempre com intenção de que conheçamos a «verdade» das coisas a respeito das quais fomos instruídos (cfr. Lc. 1, 2-4). Os restantes escritos do Novo Testamento O cânon do Novo Testamento contém igualmente além dos quatro Evangelhos, as Epístolas de S. Paulo e outros escritos apostólicos redigidos por inspiração do Espírito Santo, com os quais, segundo o plano da sabedoria divina, é confirmado o que diz respeito a Cristo Senhor, é explicada mais e mais a sua genuína doutrina, é pregada a virtude salvadora da obra divina de Cristo, são narrados os começos da Igreja e a sua admirável difusão, e é anunciada a sua consumação gloriosa. Com efeito, o Senhor Jesus assistiu os seus Apóstolos como tinha prometido (cfr. Mt. 28,20) e enviou-lhes o Espírito consolador que os devia introduzir na plenitude da verdade (cfr. Jo. 16,13). CONSTITUIÇÃO DOGMÁTICA DEI VERBUM CAPÍTULO I A REVELAÇÃO EM SI MESMA     Natureza e objecto da revelação Aprouve a Deus. na sua bondade CAPÍTULO II – A TRANSMISSÃO DA REVELAÇÃO DIVINA CAPÍTULO II A TRANSMISSÃO DA REVELAÇÃO DIVINA Os apóstolos e seus sucessores, transmissores do Evangelho 7. Deus dispôs amorosamente que CAPÍTULO III – A INSPIRAÇÃO DIVINA DA SAGRADA ESCRITURA E A SUA INTERPRETAÇÃO CAPÍTULO III A INSPIRAÇÃO DIVINA DA SAGRADA ESCRITURAE A SUA INTERPRETAÇÃO   Natureza da inspiração e verdade da Sagrada Escritura CAPÍTULO IV – O ANTIGO TESTAMENTO CAPÍTULO IV O ANTIGO TESTAMENTO A história da salvação consignada nos livros do Antigo Testamento Deus amantíssimo, desejando e preparando com CAPÍTULO V – O NOVO TESTAMENTO CAPÍTULO V O NOVO TESTAMENTO Excelência do Novo Testamento A palavra de Deus, que é virtude de Deus para a CAPÍTULO VI – A SAGRADA ESCRITURA NA VIDA DA IGREJA CAPÍTULO VI A SAGRADA ESCRITURA NA VIDA DA IGREJA A Igreja venera as Sagradas Escrituras A Igreja venerou sempre as NOTAS Notas Cfr. S. Agostinho,De catechizandis rudibus, c. IV, 8: PL 40, 316. Cfr. Mt. 11,27; Jo. 1,14 e 17; 14,6; #constituiçoes #papapaulovi #CONSTITUIÇÃODOGMÁTICA #PauloVI #DEIVERBUM

  • CAPÍTULO IV – O ANTIGO TESTAMENTO

    CAPÍTULO IV O ANTIGO TESTAMENTO A história da salvação consignada nos livros do Antigo Testamento Deus amantíssimo, desejando e preparando com solicitude a salvação de todo o género humano, escolheu por especial providência um povo a quem confiar as suas promessas. Tendo estabelecido aliança com Abraão (cfr. Gén. 15,18), e com o povo de Israel por meio de Moisés (cfr. Ex. 24,8), revelou-se ao Povo escolhido como único Deus verdadeiro e vivo, em palavras e obras, de tal modo que Israel pudesse conhecer por experiência os planos de Deus sobre os homens, os compreendesse cada vez mais profunda e claramente, ouvindo o mesmo Deus falar por boca dos profetas, e os difundisse mais amplamente entre os homens (cfr. Salm. 21, 28-29; 95, 1-3; Is. 2, 1-4; Jer. 3,17). A «economia» da salvação de antemão anunciada, narrada e explicada pelos autores sagrados, encontra-se nos livros do Antigo Testamento como verdadeira palavra de Deus. Por isso, estes livros divinamente inspirados conservam um valor perene: «Tudo quanto está escrito, para nossa instrução está escrito, para que, por meio da paciência e consolação que nos vem da Escritura, tenhamos esperança» (Rom. 15,4). Importância do Antigo Testamento para os cristãos A «economia» do Antigo Testamento destinava-se sobretudo a preparar, a anunciar profèticamente (cfr. Lc. 24,44; Jo. 5,39; 1 Ped. 1,10) e a simbolizar com várias figuras (cfr. 1 Cor. 10,11) o advento de Cristo, redentor universal, e o do reino messiânico. Mas os livros do Antigo Testamento, segundo a condição do género humano antes do tempo da salvação estabelecida por Cristo, manifestam a todos o conhecimento de Deus e do homem, e o modo com que Deus justo e misericordioso trata os homens. Tais livros, apesar de conterem também coisas imperfeitas e transitórias, revelam, contudo, a verdadeira pedagogia divina (1). Por isso, os fieis devem receber com devoção estes livros que exprimem o vivo sentido de Deus, nos quais se encontram sublimes doutrinas a respeito de Deus, uma sabedoria salutar a respeito da vida humana, bem como admiráveis tesouros de preces, nos quais, finalmente, está latente o mistério da nossa salvação. Unidade de ambos ao Testamentos Foi por isso que Deus, inspirador e autor dos livros dos dois Testamentos, dispôs tão sàbiamente as coisas, que o Novo Testamento está latente no Antigo, e o Antigo está patente no Novo (2). Pois, apesar de Cristo ter alicerçado à nova Aliança no seu sangue (cfr. Lc. 22,20; 1 Cor. 11,25), os livros do Antigo Testamento, ao serem integralmente assumidos na pregação evangélica (3) adquirem e manifestam a sua plena significação no Novo Testamento (cfr. Mt. 5,17; Lc. 24,27; Rom. 16, 25-26; 2 Cor. 3, 1416), que por sua vez iluminam e explicam. CONSTITUIÇÃO DOGMÁTICA DEI VERBUM CAPÍTULO I A REVELAÇÃO EM SI MESMA     Natureza e objecto da revelação Aprouve a Deus. na sua bondade CAPÍTULO II – A TRANSMISSÃO DA REVELAÇÃO DIVINA CAPÍTULO II A TRANSMISSÃO DA REVELAÇÃO DIVINA Os apóstolos e seus sucessores, transmissores do Evangelho 7. Deus dispôs amorosamente que CAPÍTULO III – A INSPIRAÇÃO DIVINA DA SAGRADA ESCRITURA E A SUA INTERPRETAÇÃO CAPÍTULO III A INSPIRAÇÃO DIVINA DA SAGRADA ESCRITURAE A SUA INTERPRETAÇÃO   Natureza da inspiração e verdade da Sagrada Escritura CAPÍTULO IV – O ANTIGO TESTAMENTO CAPÍTULO IV O ANTIGO TESTAMENTO A história da salvação consignada nos livros do Antigo Testamento Deus amantíssimo, desejando e preparando com CAPÍTULO V – O NOVO TESTAMENTO CAPÍTULO V O NOVO TESTAMENTO Excelência do Novo Testamento A palavra de Deus, que é virtude de Deus para a CAPÍTULO VI – A SAGRADA ESCRITURA NA VIDA DA IGREJA CAPÍTULO VI A SAGRADA ESCRITURA NA VIDA DA IGREJA A Igreja venera as Sagradas Escrituras A Igreja venerou sempre as NOTAS Notas Cfr. S. Agostinho,De catechizandis rudibus, c. IV, 8: PL 40, 316. Cfr. Mt. 11,27; Jo. 1,14 e 17; 14,6; #constituiçoes #papapaulovi #CONSTITUIÇÃODOGMÁTICA #PauloVI #DEIVERBUM

  • CAPÍTULO III – A INSPIRAÇÃO DIVINA DA SAGRADA ESCRITURA E A SUA INTERPRETAÇÃO

    CAPÍTULO III A INSPIRAÇÃO DIVINA DA SAGRADA ESCRITURA E A SUA INTERPRETAÇÃO Natureza da inspiração e verdade da Sagrada Escritura 11. As coisas reveladas por Deus, contidas e manifestadas na Sagrada Escritura, foram escritas por inspiração do Espírito Santo. Com efeito, a santa mãe Igreja, segundo a fé apostólica, considera como santos e canónicos os livros inteiros do Antigo e do Novo Testamento com todas as suas partes, porque, escritos por inspiração do Espírito Santo (cfr. Jo. 20,31; 2 Tim. 3,16; 2 Ped. 1, 19-21; 3, 15-16), têm Deus por autor, e como tais foram confiados à própria Igreja (1). Todavia, para escrever os livros sagrados, Deus escolheu e serviu-se de homens na posse das suas faculdades e capacidades (2), para que, agindo Ele neles e por eles (3), pusessem por escrito, como verdadeiros autores, tudo aquilo e só aquilo que Ele queria (4). E assim, como tudo quanto afirmam os autores inspirados ou hagiógrafos deve ser tido como afirmado pelo Espírito Santo, por isso mesmo se deve acreditar que os livros da Escritura ensinam com certeza, fielmente e sem erro a verdade que Deus, para nossa salvação, quis que fosse consignada nas sagradas Letras (5). Por isso, «toda a Escritura é divinamente inspirada e útil para ensinar, para corrigir, para instruir na justiça: para que o homem de Deus seja perfeito, experimentado em todas as obras boas» ( Tim. 3, 7-17 gr.). RERUM NOVARUM Interpretação da Sagrada Escritura 12. Como, porém, Deus na Sagrada Escritura falou por meio dos homens e à maneira humana (6), o intérprete da Sagrada Escritura, para saber o que Ele quis comunicar-nos, deve investigar com atenção o que os hagiógrafos realmente quiseram significar e que aprouve a Deus manifestar por meio das suas palavras. Para descobrir a intenção dos hagiógrafos, devem ser tidos também em conta, entre outras coisas, os «géneros literários». Com efeito, a verdade é proposta e expressa de modos diversos, segundo se trata de géneros histéricos, proféticos, poéticos ou outros. Importa, além disso, que o intérprete busque o sentido que o hagiógrafo em determinadas circunstâncias, segundo as condições do seu tempo e da sua cultura, pretendeu exprimir e de facto exprimiu servindo se os géneros literários então usados (7). Com efeito, para entender rectamente o que autor sagrado quis afirmar, deve atender-se convenientemente, quer aos modos nativos de sentir, dizer ou narrar em uso nos tempos do hagiógrafo, quer àqueles que costumavam empregar-se frequentemente nas relações entre os homens de então (8). Mas, como a Sagrada Escritura deve ser lida e interpretada com o mesmo espírito com que foi escrita (9), não menos atenção se deve dar, na investigação do recto sentido dos textos sagrados, ao contexto e à unidade de toda a Escritura, tendo em conta a Tradição viva de toda a Igreja e a analogia da fé. Cabe aos exegetas trabalhar, de harmonia com estas regras, por entender e expor mais profundamente o sentido da Escritura, para que, mercê deste estudo de algum modo preparatório, amadureça o juízo da Igreja. Com efeito, tudo quanto diz respeito à interpretação da Escritura, está sujeito ao juízo último da Igreja, que tem o divino mandato e o ministério de guardar e interpretar a palavra de Deus (10). 1210-1211 | SEGUNDA SECÇÃO Condescendência de Deus 13. Portanto, na Sagrada Escritura, salvas sempre a verdade e a santidade de Deus, manifesta-se a admirável «condescendência» da eterna sabedoria, «para conhecermos a inefável benignidade de Deus e com quanta acomodação Ele falou, tomando providência e cuidado da nossa natureza» (11). As palavras de Deus com efeito, expressas por línguas humanas, tornaram-se ìntimamente semelhantes à linguagem humana, como outrora o Verbo do eterno Pai se assemelhou aos homens tomando a carne da fraqueza humana. CONSTITUIÇÃO DOGMÁTICA DEI VERBUM CAPÍTULO I A REVELAÇÃO EM SI MESMA     Natureza e objecto da revelação Aprouve a Deus. na sua bondade CAPÍTULO II – A TRANSMISSÃO DA REVELAÇÃO DIVINA CAPÍTULO II A TRANSMISSÃO DA REVELAÇÃO DIVINA Os apóstolos e seus sucessores, transmissores do Evangelho 7. Deus dispôs amorosamente que CAPÍTULO III – A INSPIRAÇÃO DIVINA DA SAGRADA ESCRITURA E A SUA INTERPRETAÇÃO CAPÍTULO III A INSPIRAÇÃO DIVINA DA SAGRADA ESCRITURAE A SUA INTERPRETAÇÃO   Natureza da inspiração e verdade da Sagrada Escritura CAPÍTULO IV – O ANTIGO TESTAMENTO CAPÍTULO IV O ANTIGO TESTAMENTO A história da salvação consignada nos livros do Antigo Testamento Deus amantíssimo, desejando e preparando com CAPÍTULO V – O NOVO TESTAMENTO CAPÍTULO V O NOVO TESTAMENTO Excelência do Novo Testamento A palavra de Deus, que é virtude de Deus para a CAPÍTULO VI – A SAGRADA ESCRITURA NA VIDA DA IGREJA CAPÍTULO VI A SAGRADA ESCRITURA NA VIDA DA IGREJA A Igreja venera as Sagradas Escrituras A Igreja venerou sempre as NOTAS Notas Cfr. S. Agostinho,De catechizandis rudibus, c. IV, 8: PL 40, 316. Cfr. Mt. 11,27; Jo. 1,14 e 17; 14,6; #CONSTITUIÇÃODOGMÁTICA #constituiçoes #DEIVERBUM #papapaulovi

  • CAPÍTULO II – A TRANSMISSÃO DA REVELAÇÃO DIVINA

    CAPÍTULO II A TRANSMISSÃO DA REVELAÇÃO DIVINA Os apóstolos e seus sucessores, transmissores do Evangelho 7. Deus dispôs amorosamente que permanecesse integro e fosse transmitido a todas as gerações tudo quanto tinha revelado para salvação de todos os povos. Por isso, Cristo Senhor, em quem toda a revelação do Deus altíssimo se consuma (cfr. 2 Cor. 1,20; 3,16-4,6), mandou aos Apóstolos que pregassem a todos, como fonte de toda a verdade salutar e de toda a disciplina de costumes, o Evangelho prometido antes pelos profetas e por Ele cumprido e promulgado pessoalmente (1), comunicando-lhes assim os dons divinos. Isto foi realizado com fidelidade, tanto pelos Apóstolos que, na sua pregação oral, exemplos e instituições, transmitiram aquilo que tinham recebido dos lábios, trato e obras de Cristo, e o que tinham aprendido por inspiração do Espírito Santo, como por aqueles Apóstolos e varões apostólicos que, sob a inspiração do mesmo Espírito Santo, escreveram a mensagem da salvação (2). Porém, para que o Evangelho fosse perenemente conservado integro e vivo na Igreja, os Apóstolos deixaram os Bispos como seus sucessores, «entregando lhes o seu próprio ofício de magistério» (3). Portanto, esta sagrada Tradição e a Sagrada Escritura dos dois Testamentos são como um espelho no qual a Igreja peregrina na terra contempla a Deus, de quem tudo recebe, até ser conduzida a vê-lo face a face tal qual Ele é (cfr. 1 Jo. 3,2). A sagrada Tradição 8. E assim, a pregação apostólica, que se exprime de modo especial nos livros inspirados, devia conservar-se, por uma sucessão contínua, até à consumação dos tempos. Por isso, os Apóstolos, transmitindo o que eles mesmos receberam, advertem os fiéis a que observem as tradições que tinham aprendido quer por palavras quer por escrito (cfr. 2 Tess. 2,15), e a que lutem pela fé recebida dama vez para sempre (cfr. Jud. 3)(4). Ora, o que foi transmitido pelos Apóstolos, abrange tudo quanto contribui para a vida santa do Povo de Deus e para o aumento da sua fé; e assim a Igreja, na sua doutrina, vida e culto, perpetua e transmite a todas as gerações tudo aquilo que ela é e tudo quanto acredita. Esta tradição apostólica progride na Igreja sob a assistência do Espírito Santo (5). Com efeito, progride a percepção tanto das coisas como das palavras transmitidas, quer mercê da contemplação e estudo dos crentes, que as meditam no seu coração (cfr. Lc. 2, 19. 51), quer mercê da íntima inteligência que experimentam das coisas espirituais, quer mercê da pregação daqueles que, com a sucessão do episcopado, receberam o carisma da verdade. Isto é, a Igreja, no decurso dos séculos, tende contìnuamente para a plenitude da verdade divina, até que nela se realizem as palavras de Deus. Afirmações dos santos Padres testemunham a presença vivificadora desta Tradição, cujas riquezas entram na prática e na vida da Igreja crente e orante. Mediante a mesma Tradição, conhece a Igreja o cânon inteiro dos livros sagrados, e a própria Sagrada Escritura entende-se nela mais profundamente e torna-se incessantemente operante; e assim, Deus, que outrora falou, dialoga sem interrupção com a esposa do seu amado Filho; e o Espírito Santo – por quem ressoa a voz do Evangelho na Igreja e, pela Igreja, no mundo – introduz os crentes na verdade plena e faz com que a palavra de Cristo neles habite em toda a sua riqueza (cfr. Col. 3,16). Relação entre a sagrada Tradição e a Sagrada Escritura 9. A sagrada Tradição, portanto, e a Sagrada Escritura estão ìntimamente unidas e compenetradas entre si. Com efeito, derivando ambas da mesma fonte divina, fazem como que uma coisa só e tendem ao mesmo fim. A Sagrada Escritura é a palavra de Deus enquanto foi escrita por inspiração do Espírito Santo; a sagrada Tradição, por sua vez, transmite integralmente aos sucessores dos Apóstolos a palavra de Deus confiada por Cristo Senhor e pelo Espírito Santo aos Apóstolos, para que eles, com a luz do Espírito de verdade, a conservem, a exponham e a difundam fielmente na sua pregação; donde resulta assim que a Igreja não tira só da Sagrada Escritura a sua certeza a respeito de todas as coisas reveladas. Por isso, ambas devem ser recebidas e veneradas com igual espírito de piedade e reverência (6). Relação de uma e outra com a Igreja e com o Magistério eclesiástico 10. A sagrada Tradição e a Sagrada Escritura constituem um só depósito sagrado da palavra de Deus, confiado à Igreja; aderindo a este, todo o Povo santo persevera unido aos seus pastores na doutrina dos Apóstolos e na comunhão, na fracção do pão e na oração (cfr. Act. 2,42 gr.), de tal modo que, na conservação, actuação e profissão da fé transmitida, haja uma especial concordância dos pastores e dos fiéis (7). Porém, o encargo de interpretar autênticamente a palavra de Deus escrita ou contida na Tradição (8), foi confiado só ao magistério vivo da Igreja (9), cuja autoridade é exercida em nome de Jesus Cristo. Este magistério não está acima da palavra de Deus, mas sim ao seu serviço, ensinando apenas o que foi transmitido, enquanto, por mandato divino e com a assistência do Espírito Santo, a ouve piamente, a guarda religiosamente e a expõe fielmente, haurindo deste depósito único da fé tudo quanto propõe à fé como divinamente revelado. É claro, portanto, que a sagrada Tradição, a sagrada Escritura e o magistério da Igreja, segundo o sapientíssimo desígnio de Deus, de tal maneira se unem e se associam que um sem os outros não se mantém, e todos juntos, cada um a seu modo, sob a acção do mesmo Espírito Santo, contribuem eficazmente para a salvação das almas. CONSTITUIÇÃO DOGMÁTICA DEI VERBUM CAPÍTULO I A REVELAÇÃO EM SI MESMA     Natureza e objecto da revelação Aprouve a Deus. na sua bondade CAPÍTULO II – A TRANSMISSÃO DA REVELAÇÃO DIVINA CAPÍTULO II A TRANSMISSÃO DA REVELAÇÃO DIVINA Os apóstolos e seus sucessores, transmissores do Evangelho 7. Deus dispôs amorosamente que CAPÍTULO III – A INSPIRAÇÃO DIVINA DA SAGRADA ESCRITURA E A SUA INTERPRETAÇÃO CAPÍTULO III A INSPIRAÇÃO DIVINA DA SAGRADA ESCRITURAE A SUA INTERPRETAÇÃO   Natureza da inspiração e verdade da Sagrada Escritura CAPÍTULO IV – O ANTIGO TESTAMENTO CAPÍTULO IV O ANTIGO TESTAMENTO A história da salvação consignada nos livros do Antigo Testamento Deus amantíssimo, desejando e preparando com CAPÍTULO V – O NOVO TESTAMENTO CAPÍTULO V O NOVO TESTAMENTO Excelência do Novo Testamento A palavra de Deus, que é virtude de Deus para a CAPÍTULO VI – A SAGRADA ESCRITURA NA VIDA DA IGREJA CAPÍTULO VI A SAGRADA ESCRITURA NA VIDA DA IGREJA A Igreja venera as Sagradas Escrituras A Igreja venerou sempre as NOTAS Notas Cfr. S. Agostinho,De catechizandis rudibus, c. IV, 8: PL 40, 316. Cfr. Mt. 11,27; Jo. 1,14 e 17; 14,6; #constituiçoes #papapaulovi #CONSTITUIÇÃODOGMÁTICA #PauloVI #DEIVERBUM

  • CONSTITUIÇÃO DOGMÁTICA DEI VERBUM

    CAPÍTULO I A REVELAÇÃO EM SI MESMA Natureza e objecto da revelação Aprouve a Deus. na sua bondade e sabedoria, revelar-se a Si mesmo e dar a conhecer o mistério da sua vontade (cfr. Ef. 1,9), segundo o qual os homens, por meio de Cristo, Verbo encarnado, têm acesso ao Pai no Espírito Santo e se tornam participantes da natureza divina (cfr. Ef. 2,18; 2 Ped. 1,4). Em virtude desta revelação, Deus invisível (cfr. Col. 1,15; 1 Tim. 1,17), na riqueza do seu amor fala aos homens como amigos (cfr. Ex. 33, 11; Jo. 15,1415) e convive com eles (cfr. Bar. 3,38), para os convidar e admitir à comunhão com Ele. Esta «economia» da revelação realiza-se por meio de acções e palavras ìntimamente relacionadas entre si, de tal maneira que as obras, realizadas por Deus na história da salvação, manifestam e confirmam a doutrina e as realidades significadas pelas palavras; e as palavras, por sua vez, declaram as obras e esclarecem o mistério nelas contido. Porém, a verdade profunda tanto a respeito de Deus como a respeito da salvação dos homens, manifesta-se-nos, por esta revelação, em Cristo, que é, simultâneamente, o mediador e a plenitude de toda a revelação (2). Preparação da revelação evangélica Deus, criando e conservando todas as coisas pelo Verbo (cfr. Jo. 1,3), oferece aos homens um testemunho perene de Si mesmo na criação (cfr. Rom. 1, 1-20) e, além disso, decidindo abrir o caminho da salvação sobrenatural, manifestou-se a Si mesmo, desde o princípio, aos nossos primeiros pais. Depois da sua queda, com a promessa de redenção, deu-lhes a esperança da salvação (cfr. Gén. 3,15), e cuidou contìnuamente do género humano, para dar a vida eterna a todos aqueles que, perseverando na prática das boas obras, procuram a salvação (cfr. Rom. 2, 6-7). No devido tempo chamou Abraão, para fazer dele pai dum grande povo (cfr. Gén. 12,2), povo que, depois dos patriarcas, ele instruiu, por meio de Moisés e dos profetas, para que o reconhecessem como único Deus vivo e verdadeiro, pai providente e juiz justo, e para que esperassem o Salvador prometido; assim preparou Deus através dos tempos o caminho ao Evangelho. Consumação e plenitude da revelação em Cristo Depois de ter falado muitas vezes e de muitos modos pelos profetas, falou-nos Deus nestes nossos dias, que são os últimos, através de Seu Filho (Heb. 1, 1-2). Com efeito, enviou o Seu Filho, isto é, o Verbo eterno, que ilumina todos os homens, para habitar entre os homens e manifestar-lhes a vida íntima de Deus (cfr. Jo. 1, 1-18). Jesus Cristo, Verbo feito carne, enviado «como homem para os homens» (3), «fala, portanto, as palavras de Deus» (Jo. 3,34) e consuma a obra de salvação que o Pai lhe mandou realizar (cfr. Jo. 5,36; 17,4). Por isso, Ele, vê-lo a Ele é ver o Pai (cfr. Jo. 14,9), com toda a sua presença e manifestação da sua pessoa, com palavras e obras, sinais e milagres, e sobretudo com a sua morte e gloriosa ressurreição, enfim, com o envio do Espírito de verdade, completa totalmente e confirma com o testemunho divino a revelação, a saber, que Deus está connosco para nos libertar das trevas do pecado e da morte e para nos ressuscitar para a vida eterna. Portanto, a economia cristã, como nova e definitiva aliança, jamais passará, e não se há-de esperar nenhuma outra revelação pública antes da gloriosa manifestação de nosso Senhor Jesus Cristo (cfr. 1 Tim. 6,14; Tit. 2,13). Aceitação da revelação pela fé A Deus que revela é devida a «obediência da fé» (Rom. 16,26; cfr. Rom. 1,5; 2 Cor. 10, 5-6); pela fé, o homem entrega-se total e livremente a Deus oferecendo «a Deus revelador o obséquio pleno da inteligência e da vontade» (4) e prestando voluntário assentimento à Sua revelação. Para prestar esta adesão da fé, são necessários a prévia e concomitante ajuda da graça divina e os interiores auxílios do Espírito Santo, o qual move e converte a Deus o coração, abre os olhos do entendimento, e dá «a todos a suavidade em aceitar e crer a verdade» (5). Para que a compreensão da revelação seja sempre mais profunda, o mesmo Espírito Santo aperfeiçoa sem cessar a fé mediante os seus dons Necessidade da revelação Pela revelação divina quis Deus manifestar e comunicar-se a Si mesmo e os decretos eternos da Sua vontade a respeito da salvação dos homens, «para os fazer participar dos bens divinos, que superam absolutamente a capacidade da inteligência humana»(6). O sagrado Concílio professa que Deus, princípio e fim de todas as coisas, se pode conhecer com certeza pela luz natural da razão a partir das criaturas» (cfr. Rom. 1,20); mas ensina também que deve atribuir-se à Sua revelação «poderem todos os homens conhecer com facilidade, firme certeza e sem mistura de erro aquilo que nas coisas divinas não é inacessível à razão humana, mesmo na presente condição do género humano» (7). CONSTITUIÇÃO DOGMÁTICA DEI VERBUM CAPÍTULO I A REVELAÇÃO EM SI MESMA     Natureza e objecto da revelação Aprouve a Deus. na sua bondade CAPÍTULO II – A TRANSMISSÃO DA REVELAÇÃO DIVINA CAPÍTULO II A TRANSMISSÃO DA REVELAÇÃO DIVINA Os apóstolos e seus sucessores, transmissores do Evangelho 7. Deus dispôs amorosamente que CAPÍTULO III – A INSPIRAÇÃO DIVINA DA SAGRADA ESCRITURA E A SUA INTERPRETAÇÃO CAPÍTULO III A INSPIRAÇÃO DIVINA DA SAGRADA ESCRITURAE A SUA INTERPRETAÇÃO   Natureza da inspiração e verdade da Sagrada Escritura CAPÍTULO IV – O ANTIGO TESTAMENTO CAPÍTULO IV O ANTIGO TESTAMENTO A história da salvação consignada nos livros do Antigo Testamento Deus amantíssimo, desejando e preparando com CAPÍTULO V – O NOVO TESTAMENTO CAPÍTULO V O NOVO TESTAMENTO Excelência do Novo Testamento A palavra de Deus, que é virtude de Deus para a #papapaulovi #CONSTITUIÇÃODOGMÁTICA #CAPÍTULOIAREVELAÇÃOEMSIMESMA #PauloVI #DEIVERBUM #AREVELAÇÃODIVINA

  • DEI VERBUM

    CONSTITUIÇÃO DOGMÁTICA DEI VERBUM SOBRE A REVELAÇÃO DIVINA PROÉMIO Intenção do Concílio 1. O sagrado Concilio, ouvindo religiosamente a Palavra de Deus proclamando-a com confiança, faz suas as palavras de S. João: «anunciamo-vos a vida eterna, que estava junto do Pai e nos apareceu: anunciamo-vos o que vimos e ouvimos, para que também vós vivais em comunhão conosco, e a nossa comunhão seja com o Pai e com o seu Filho Jesus Cristo” (1 Jo. 1, 2-3). Por isso, segundo os Concílios Tridentino e Vaticano I, entende propor a genuína doutrina sobre a Revelação divina e a sua transmissão, para que o mundo inteiro, ouvindo, acredite na mensagem da salvação, acreditando espere, e esperando ame (1). #papapaulovi #CONSTITUIÇÃODOGMÁTICA #PauloVI #DEIVERBUM #AREVELAÇÃODIVINA

  • O ‘caminho sinodal’ alemão apresenta propostas revolucionárias ao Vaticano

    Roma está analisando uma série de propostas radicais apresentadas para aprovação pela assembleia geral da ‘via sinodal’ alemã, relata o novo portal de informação católico The Pillar . Entre as propostas que a assembleia alemã está estudando e submetendo ao Vaticano para revisão estão a eleição de bispos e pastores pelos fiéis, comitês eleitos de leigos com o poder de anular as decisões dos bispos e votar entre os católicos da Alemanha. de ordenação feminina. As propostas constam de um documento denominado ‘Texto Fundamental’ do Fórum I do Sínodo, grupo de trabalho voltado para propor mudanças nas estruturas de governo da Igreja Católica, que foi enviado aos responsáveis ​​eclesiais da Alemanha e aos quais acessou o Pilar. O texto foi aprovado em dezembro por este grupo de trabalho liderado por Franz-Josef Overbeck, Bispo de Essen, que expressou sua abertura ao sacerdócio feminino, e Claudia Luecking-Miche, da poderosa organização leiga que participa com os bispos da organização e o desenvolvimento deste ‘caminho sinodal’ aberto pelo então presidente da Conferência Episcopal da Alemanha, Cardeal Reinhard Marx. Os organizadores ainda não submeteram o Texto Básico à assembleia antes de se tornar uma resolução oficial do Sínodo. A linguagem é abertamente revolucionária. Assim, em relação ao governo da Igreja, o texto indica que “deve ser superada a estrutura monista de poder, segundo a qual os poderes legislativo, executivo e judiciário se concentram exclusivamente no cargo de bispo e, a nível paroquial , toda a autoridade cabe ao pároco, que pode delegá-la parcialmente a outros, mas também pode retirá-la a qualquer momento em caso de conflito ”. No nível paroquial e diocesano, ele defende dar aos comitês paroquianos poder de veto sobre as decisões tomadas por pastores e bispos. “Os comitês devem ter legitimidade democrática … Eles devem controlar o poder executivo. Se estiver previsto que o bispo ou pastor pode vetar uma decisão, deve ser estabelecida uma maioria qualificada para anular o veto, se necessário ”. #Alemanha #AssembléiaSinodalAlemã #SínododaAlemanha

  • O ‘caminho sinodal’ alemão apresenta propostas revolucionárias ao Vaticano

    Roma está analisando uma série de propostas radicais apresentadas para aprovação pela assembleia geral da ‘via sinodal’ alemã, relata o novo portal de informação católico The Pillar . Entre as propostas que a assembleia alemã está estudando e submetendo ao Vaticano para revisão estão a eleição de bispos e pastores pelos fiéis, comitês eleitos de leigos com o poder de anular as decisões dos bispos e votar entre os católicos da Alemanha. de ordenação feminina. As propostas constam de um documento denominado ‘Texto Fundamental’ do Fórum I do Sínodo, grupo de trabalho voltado para propor mudanças nas estruturas de governo da Igreja Católica, que foi enviado aos responsáveis ​​eclesiais da Alemanha e aos quais acessou o Pilar. O texto foi aprovado em dezembro por este grupo de trabalho liderado por Franz-Josef Overbeck, Bispo de Essen, que expressou sua abertura ao sacerdócio feminino, e Claudia Luecking-Miche, da poderosa organização leiga que participa com os bispos da organização e o desenvolvimento deste ‘caminho sinodal’ aberto pelo então presidente da Conferência Episcopal da Alemanha, Cardeal Reinhard Marx. Os organizadores ainda não submeteram o Texto Básico à assembleia antes de se tornar uma resolução oficial do Sínodo. A linguagem é abertamente revolucionária. Assim, em relação ao governo da Igreja, o texto indica que “deve ser superada a estrutura monista de poder, segundo a qual os poderes legislativo, executivo e judiciário se concentram exclusivamente no cargo de bispo e, a nível paroquial , toda a autoridade cabe ao pároco, que pode delegá-la parcialmente a outros, mas também pode retirá-la a qualquer momento em caso de conflito ”. No nível paroquial e diocesano, ele defende dar aos comitês paroquianos poder de veto sobre as decisões tomadas por pastores e bispos. “Os comitês devem ter legitimidade democrática … Eles devem controlar o poder executivo. Se estiver previsto que o bispo ou pastor pode vetar uma decisão, deve ser estabelecida uma maioria qualificada para anular o veto, se necessário ”. #Alemanha #AssembléiaSinodalAlemã #SínododaAlemanha

  • REFLEXÕES SOBRE TEORIA DA CONSPIRAÇÃO – Guillaume de Thieulloy

    A acusação de “teórico da conspiração” tornou-se, em particular graças à crise sanitária e às eleições americanas, o mais recente “argumento” da moda para desqualificar o discurso politicamente incorreto. É preciso dizer que a acusação de “fascismo” ou “nazismo”, à força de ser repetida continuamente por décadas, começou a perder a eficácia — embora ainda preste serviços inegáveis à oligarquia. Mas voltemos à teoria da conspiração. Quando as pessoas me perguntam se sou um “complotista”, minhas raízes normandas me levam a responder em dialeto: “Pode ser que sim, pode ser que não; depende do complô”. Há complôs em que eu dificilmente acredito. Por outro lado, estou certo de que complôs existiram e ainda existem: é tão antigo quanto o próprio mundo e qualquer centro de poder provoca irresistivelmente uma boa intriga. Além disso, é bastante curioso que se admitam sem dificuldade os complôs de outrora, mas se soltem gritos de espanto quando o assunto são os complôs contemporâneos. Embora seja fácil falar no caso dos venenos dos quais a corte de Luís XIV foi palco, por que seria escandaloso questionar sobre conspirações na corte de “Júpiter”? No entanto, por definição, falar sobre um complô é sempre muito complicado, pois uma dimensão importante da trama permanece oculta do público em geral. Pelo menos, podemos ver os efeitos públicos de tais segredinhos (acrescentando que não acredito muito em coincidências). Dessa forma, parece-me difícil duvidar de que a última eleição presidencial francesa foi palco de travessuras para derrubar François Fillon e eleger Emmanuel Macron. O que, porém, nem sempre me convence, no “complotismo”, é esse viés ideológico que consiste em supor que tudo foi escrito em um plano perfeitamente racional, o que é fazer pouco caso das rivalidades existentes nos círculos de poder e a natureza frequentemente imprevisível das decisões humanas. Para dar um exemplo, é bem sabido que, entre os círculos discretos em torno do poder, a Maçonaria gosta de encorajar uma série de transgressões “sociais”. No entanto, em 2011, testemunhei com meus próprios olhos um apelo maçônico para impedir o voto do Senado pelo direito à pesquisa com embriões: um senador, notoriamente a favor da pesquisa com embrião, foi “convidado” a ir tomar um café no momento fatídico. Obviamente, suas amizades políticas tinham, desta vez, vencido suas convicções ideológicas. Da mesma forma, devemos levar em conta a “universal conspiração da estupidez”: é vão buscar procurar decisões racionais em tudo e, portanto, a fortiori , um plano sofisticado escrito com bastante antecedência. Em suma, não tenho dificuldade em acreditar na existência de conspirações. Mas também não acho que elas devam ser vistas em tudo quanto é lugar — o que me faz lembrar daquilo que um de meus professores, certa vez, chamou de “teorema do gato invisível” (a prova de que ele existe, é que ele não pode ser visto!). Eu realmente não gosto de lutar contra moinhos de vento e tenho feito o suficiente para resistir aos “complôs”, cujos atores falam com seus rostos descobertos. Assim, quando o fundador do Fórum de Davos, o Sr. Schwab, explica, em um livro amplamente lido, o que ele se propõe a fazer com a crise sanitária e redefinir a humanidade (nada menos que isto!), denunciar seus projetos talvez seja visto como “teoria da conspiração”, segundo os cânones da mídia, mas acima de tudo acredito que se trate do confronto de duas visões inconciliáveis ​​do homem e da sociedade! La théorie sur … la théorie du complot

  • DIVINI ILLIUS MAGISTRI

    CARTA ENCÍCLICA DIVINI ILLIUS MAGISTRI DE SUA SANTIDADE PAPA PIO XI AOS PATRIARCAS, PRIMAZES, ARCEBISPOS, BISPOS E OUTROS ORDINÁRIOS EM PAZ E COMUNHÃO COM A SANTA SÉ APOSTÓLICA E A TODOS OS FIÉIS DO ORBE CATÓLICO ACERCA DA EDUCAÇÃO CRISTÃ DA JUVENTUDE Veneráveis Irmãos e Amados filhos Saúde e Bênção Apostólica INTRODUÇÃO REPRESENTANTE na terra d’Aquele Divino Mestre que, apesar de abraçar com a imensidade do seu amor a todos os homens, mesmo os pecadores e indignos, mostrou no entanto amar com ternura muito peculiar as crianças, exprimindo-se por aquelas tão comoventes palavras: « deixai vir a mim as criancinhas »(1), Nós temos procurado mostrar também em todas as ocasiões a predileção verdadeiramente paternal que lhes consagramos, especialmente com os assíduos cuidados e oportunos ensinamentos que se referem à educação cristã da juventude. a) Motivos da publicação desta Encíclica Deste modo, fazendo-Nos eco do Divino Mestre, temos dirigido salutares palavras, ora de advertência, ora de incitamento, ora de direção, não só aos jovens e aos educadores, mas também aos pais e mães de família, acerca de vários problemas da educação cristã, com aquela solicitude que convém ao Pai comum de todos os fiéis, e com a oportuna e importuna insistência que é própria do ofício pastoral, (2) recomendada pelo Apóstolo : « Insiste no tempo quer oportuno quer importuno : repreende, exorta, admoesta, com grande paciência e doutrina », reclamada pelos nossos tempos em que infelizmente se deplora uma tão grande falta de claros e sãos princípios, até acerca dos mais fundamentais problemas. Porém, a mesma condição geral dos tempos, a que aludimos, as variadas discussões do problema escolar e pedagógico nos diversos países, e o conseqüente desejo que muitos d’entre vós e dos vossos fiéis Nos tendes manifestado com filial confiança, Veneráveis Irmãos, e o Nosso tão intenso afecto para com a juventude, como dissemos, impelem-Nos a voltar mais propositadamente ao assunto, senão para o tratar em toda a sua quase inexaurível amplitude de doutrina e de prática, pelo menos para reassumir os seus princípios supremos, pôr em evidencia as suas principais conclusões, e indicar as aplicações praticas dos mesmos. Seja esta a lembrança que do Nosso Jubileu sacerdotal, com muito particular intenção e afecto, dedicamos à cara juventude, e recomendamos a todos os que têm por especial missão e dever de ocupar-se da sua educação. Na verdade, nunca como nos tempos presentes, se discutiu tanto acerca da educação; por isso se multiplicam os mestres de novas teorias pedagógicas, se excogitam, se propõem e discutem métodos e meios, não só para facilitar, mas também para criar uma nova educação de infalível eficácia que possa preparar as novas gerações para a suspirada felicidade terrena. É que os homens criados por Deus à sua imagem e semelhança, e destinados para Ele, perfeição infinita, assim como notam a insuficiência dos bens terrestres para a verdadeira felicidade dos indivíduos e dos povos, encontrando-se hoje, mais que nunca, na abundância do progresso material hodierno, assim também sentem em si mais vivo o estímulo infundido pelo Criador na mesma natureza racional, para uma perfeição mais alta, e querem consegui-la principalmente com a educação. Todavia, muitos deles, quase insistindo excessivamente no sentido etimológico da palavra, pretendem derivá-la da própria natureza humana e atuá-la só com as suas forças. Daqui o errarem facilmente nisto, pois que se concentram e imobilizam em si mesmos, atacando-se exclusivamente às coisas terrenas e temporais, em vez de dirigirem o alvo para Deus, primeiro principio e ultimo fim de todo o universo; desta maneira será a sua agitação contínua e incessante, enquanto não voltarem os olhos e os esforços para a única meta da perfeição, Deus, segundo a profunda sentença de S. Agostinho: « Criaste-nos Senhor, para Vós, e o nosso coração está inquieto enquanto não repousa em Vós »(3). b) Essência, importância e excelência da Educação Cristã É portanto da máxima importância não errar na educação, como não errar na direção para o fim ultimo com o qual está conexa intima e necessariamente toda a obra da educação. Na verdade, consistindo a educação essencialmente na formação do homem como ele deve ser e portar-se, nesta vida terrena, em ordem a alcançar o fim sublime para que foi criado, é claro que, assim como não se pode dar verdadeira educação sem que esta seja ordenada para o fim ultimo, assim na ordem actual da Providencia, isto é, depois que Deus se nos revelou no Seu Filho Unigênito que é o único « caminho, verdade e vida », não pode dar-se educação adequada e perfeita senão a cristã. Daqui ressalta, com evidencia, a importância suprema da educação cristã, não só para cada um dos indivíduos, mas também para as famílias e para toda a sociedade humana, visto que a perfeição desta, resulta necessariamente da perfeição dos elementos que a compõem. Dos princípios indicados aparece, de modo semelhante, clara e manifesta, a excelência (que bem pode dizer-se insuperável) da obra da educação cristã, como aquela que tem em vista, em ultima análise, assegurar o Sumo Bem, Deus, às almas dos educandos, e a máxima felicidade possível, neste mundo, à sociedade humana. E isto no modo mais eficaz que é possível ao homem, isto é, cooperando com Deus para o aperfeiçoamento dos indivíduos e da sociedade, enquanto a educação imprime nos espíritos a primeira, a mais poderosa e duradoura direção na vida, segundo a sentença muito conhecida do Sábio: « o jovem mesmo ao envelhecer, não se afastará do caminho trilhado na sua juventude » (4). Por isso, com razão, dizia S. João Crisóstomo: « Que há de mais sublime do que governar os espíritos e formar os costumes dos jovens? » (5). Mas não há palavras que nos revelem tão bem a grandeza, a beleza, a excelência sobrenatural da obra da educação cristã, como a sublime expressão de amor com a qual Nosso Senhor Jesus Cristo, identificando-se com os meninos, declara: « Todo aquele que receber em meu nome um destes pequeninos, a mim me recebe » (6). c) Divisão da matéria Portanto, para não errar nesta obra de suma importância e para a dirigir do melhor modo possível, com o auxílio da graça divina, é preciso ter uma ideia clara e exacta da educação cristã nas suas razões essenciais, a saber: a quem compete a missão de educar, qual o sujeito da educação, quais as circunstancias necessárias do ambiente e qual o fim e a forma própria da educação cristã, segundo a ordem estabelecida por Deus na economia da Sua Providencia. A QUEM PERTENCE A EDUCAÇÃO A) Em geral A educação é obra necessariamente social e não singular. Ora, são três as sociedades necessárias, distintas e também unidas harmonicamente por Deus, no meio das quais nasce o homem: duas sociedades de ordem natural, que são a família e a sociedade civil; a terceira, a Igreja, de ordem sobrenatural. Primeiramente a família, instituída imediatamente por Deus para o seu fim próprio que é a procriação e a educação da prole, a qual por isso tem a prioridade de natureza, e portanto uma prioridade de direitos relativamente à sociedade civil. Não obstante, a família é uma sociedade imperfeita, porque não possui em si todos os meios para o próprio aperfeiçoamento, ao passo que a sociedade civil é uma sociedade perfeita, tendo em si todos os meios para o próprio fim que é o bem comum temporal, pelo que, sob este aspecto, isto é, em ordem ao bem comum, ela tem a preeminência sobre a família que atinge precisamente na sociedade civil a sua conveniente perfeição temporal. A terceira sociedade em que nasce o homem, mediante o Baptismo, para a vida divina da graça, é a Igreja, sociedade de ordem sobrenatural e universal, sociedade perfeita, porque reúne em si todos os meios para o seu fim que é a salvação eterna dos homens, e portanto suprema na sua ordem. Por conseqüência, a educação que considera todo o homem individual e socialmente, na ordem da natureza e da graça, pertence a estas três sociedades necessárias, em proporção diversa e correspondente, segundo a actual ordem de providência estabelecida por Deus, à coordenação do seus respectivos fins. B) Em especial: À Igreja A E primeiro que tudo ela pertence de modo sobreeminente à Igreja, por dois títulos de ordem sobrenatural que lhe foram exclusivamente conferidos, pelo próprio Deus, e por isso absolutamente superiores a qualquer outro título de ordem natural. a) De modo sobreeminente O primeiro provém da expressa missão e autoridade suprema de magistério que lhe foi dada pelo seu Divino fundador : « Todo o poder me foi dado no céu e na terra. Ide pois, ensinai todos os povos, batizando-os em nome do Padre, do Filho e do Espírito Santo: ensinando-os a observar tudo o que vos mandei. E eu estarei convosco até á consumação dos séculos » (7). A este magistério foi conferida por Cristo a infalibilidade juntamente com o preceito de ensinar a sua doutrina; assim a Igreja « foi constituída pelo seu Divino Autor coluna e fundamento de verdade, a fim de que ensine aos homens a fé divina cujo deposito lhe foi confiado para que o guarde íntegro e inviolável, e dirija e prepare os homens, as suas associações e acções em ordem à honestidade de costumes, integridade de vida, segundo a norma da doutrina revelada » (8). b) Maternidade sobrenatural O segundo título é a maternidade sobrenatural, pela qual a Igreja, Esposa imaculada de Cristo, gela, nutre, educa as almas na vida divina da graça, com os seus sacramentos e o seu ensino. Pelo que, com razão, afirma S. Agostinho: « Não terá Deus como Pai quem se tiver recusado a ter a Igreja como Mãe » (9). Portanto, no próprio objecto da sua missão educativa, isto é: « na fé e na instituição dos costumes, o próprio Deus fez a Igreja participante do magistério divino e, por benefício seu, imune de erro; por isso é ela mestra suprema e seguríssima dos homens, e lhe é natural o inviolável direito à liberdade de magistério (10)». E por necessária conseqüência a Igreja é independente de qualquer autoridade terrena, tanto na origem como no exercício da sua missão educativa, não só relativamente ao seu próprio objecto, mas também acerca dos meios necessários e convenientes para dela se desempenhar. Por isso em relação a qualquer outra disciplina, e ensino humano, que considerado em si é patrimônio de todos, indivíduos e sociedades, a Igreja tem direito independente de usar dele, e sobretudo de julgar em que possa ser favorável ou contrário à educação cristã. E isto, já porque a Igreja, como sociedade perfeita, tem direito aos meios para o seu fim, já porque todo o ensino, como toda a acção humana, tem necessária relação de dependência do fim ultimo do homem, e por isso não pode subtrair-se às normas da lei divina, da qual a Igreja é guarda, interprete e mestra infalível. É isto mesmo que Pio X, de s. m., declara com esta límpida sentença: « Em tudo o que fizer o cristão, não lhe é licito desprezar os bens sobrenaturais, antes, segundo os ensinamentos da sabedoria cristã, deve dirigir todas as coisas ao bem supremo como a fim último: além disso todas as suas acções, enquanto são boas ou más em ordem aos bons costumes, isto é, enquanto concordam ou não com o direito natural e divino, estão sujeitas ao juízo e à jurisdição da Igreja (11)». É digno de nota como um leigo, escritor tanto admirável quanto ` profundo e consciencioso pensador, haja sabido bem compreender e exprimir esta fundamental doutrina católica: « A Igreja não diz que a moral lhe pertença puramente (no sentido de exclusivamente), mas sim que lhe pertence totalmente. Jamais pretendeu que fora do seu seio e dos seus ensinamentos, o homem não possa conhecer alguma verdade moral, antes, reprovou por mais duma vez, esta opinião, visto que ela apareceu sob diversas formas. Diz sim, como disse e dirá sempre, que em virtude da instituição que recebeu de Jesus Cristo, e em virtude do Espírito Santo que lhe foi enviado em nome d’Ele pelo Padre, só ela possui originária e imperecivelmente, em toda a sua plenitude, a verdade moral (omnem veritatem) na qual estão compreendidas todas as verdades particulares de ordem moral, tanto as que o homem pode chegar a conhecer guiado pelo único meio. da razão, quanto as que fazem parte da revelação ou desta se podem deduzir » (12). c) Extensão dos Direitos da Igreja É pois com pleno direito que a Igreja promove as letras, as ciências e as artes, enquanto necessárias ou úteis à educação cristã, e a toda a sua obra para a salvação das almas, fundando e mantendo até escolas e instituições próprias em todo o género de disciplina e em todo o grau de cultura (13). Nem se deve considerar estranha ao seu maternal magistério a mesma educação física, como hoje a apelidam, precisamente porque é um meio que pode auxiliar ou prejudicar a educação cristã. E esta obra da Igreja, em todo o género de cultura, assim como presta relevantes serviços às famílias e às nações, que sem Cristo se perdem, como justamente repete S. Hilário: « Que coisa há mais perigosa para o mundo do que não receber a Jesus Cristo? » (14), assim também não causa o menor obstáculo às disposições civis, pois que a Igreja, com a sua prudência materna, não se opõe a que as suas escolas e institutos para leigos se conformem, em cada nação, com as legitimas disposições da autoridade civil, mas está sempre disposta a entender-se com esta, e a proceder de comum acordo, onde surjam dificuldades. Além disso é direito inalienável da Igreja, e simultaneamente seu dever indispensável vigiar por toda a educação de seus filhos, os fiéis, em qualquer instituição, quer pública quer particular, não só no atinente ao ensino aí ministrado, mas em qualquer outra disciplina ou disposição, enquanto estão relacionadas com a religião e a moral (15). O exercício deste direito não pode considerar-se ingerência indevida, antes é preciosa providência maternal da Igreja tutelando os seus filhos contra os graves perigos de todo o veneno doutrinal e moral. E até esta vigilância da Igreja, assim como não pode criar algum verdadeiro inconveniente, assim não pode deixar de produzir eficaz incitamento à ordem e bem estar das famílias e da sociedade civil, afastando para longe da juventude aquele veneno moral que nesta idade, inexperiente e volúvel, costuma ter mais fácil aceitação e mais rápida extensão na prática. Pois que sem a recta instrução religiosa e moral, como sapientemente adverte Leão XIII, « toda a cultura dos espíritos será doentia: os jovens sem o hábito de respeitar a Deus não poderão suportar disciplina alguma de vida honesta, e acostumados a não negar jamais coisa alguma às suas tendências, facilmente serão induzidos a perturbar os estados » (16). Quanto à extensão da missão educativa da Igreja, estende-se esta a todos os povos, sem restrição alguma, segundo o preceito de Cristo: « Ensinai todas as gentes » (17); nem há poder terreno que a possa legitimamente contrastar ou impedir. E estende-se primeiramente sobre todos os fiéis, pelos quais — como mãe carinhosíssima — tem solícito cuidado. Por isso é que para eles criou e promoveu, em todos os séculos, uma imensa multidão de escolas e institutos, em todos os ramos do saber; porque, como dizíamos não há muito ainda, até na longínqua Idade Média, em que eram tão numerosos (houve até quem quisesse dizer que eram excessivamente numerosos) os mosteiros, os conventos, as igrejas, as colegiadas, os cabidos catedrais e não catedrais, junto de cada uma destas instituições tinha a Igreja uma família escolar, um foco de instrução e de educação cristã. E a tudo isto é mister ajuntar todas as Universidades espalhadas por toda a parte e sempre por iniciativa e sob a guarda da Santa Sé e da Igreja. Aquele espetáculo magnífico que agora vemos melhor, porque mais perto de nós e em condições mais grandiosas, como o facultam as condições do tempo, foi o espetáculo de todas as épocas; e aqueles que estudam e comparam os acontecimentos, maravilham-se do que a Igreja soube realizar nesta ordem de coisas, maravilham-se do modo por que a Igreja soube corresponder à missão que Deus lhe confiou de educar as gerações humanas na vida cristã, maravilham-se dos frutos e resultados magníficos que a Igreja soube atingir. Mas, se causa admiração que a Igreja, em todos os tempos, tenha sabido reunir em volta de si centenas, milhares e milhões de discípulos da sua missão educadora, não deve impressionar-nos menos o reflectir naquilo que a Igreja soube fazer, não só no campo da educação, mas também no da verdadeira e própria instrução. Pois que, se tantos tesouros de cultura, de civilização, de literatura puderam conservar-se, isto deve-se àquela atitude pela qual a Igreja, ainda mesmo nos mais remotos e bárbaros tempos, soube irradiar tanta luz no campo das letras, da filosofia, da arte e particularmente da arquitectura (18). E a Igreja pode e soube realizar uma tal obra, porque a sua missão educativa estende-se mesmo aos infiéis, — sendo chamados todos os homens a entrar no Reino de Deus e a conseguir a salvação eterna. Como em nossos dias em que as suas Missões espalham escolas aos milhares por todas as regiões e países, ainda não cristãos, — desde as duas margens do Ganges até ao rio Amarelo e às grandes ilhas e arquipélagos do Oceano, desde o Continente negro até à Terra do Fogo e à gélida Alasca, assim também, em todos os tempos, a Igreja com os seus Missionários, educou, para a vida cristã e para a civilização, os diversos povos que hoje constituem as nações cristãs do mundo civilizado. Fica assim demonstrado até à evidência como, de direito e de facto, pertence à Igreja dum modo sobreeminente a missão educativa, e como toda a inteligência livre de preconceitos não possa conceber motivo algum racional para combater, ou impedir à Igreja, aquela mesma obra de cujos benéficos frutos goza agora o mundo. d)Harmonia dos direitos da Igreja com os da Família e do Estado Tanto mais que não só não estão em oposição com tal supereminência da Igreja, mas estão até em perfeita harmonia, os direitos da Família e do Estado, bem como os direitos de cada indivíduo relativamente à justa liberdade da ciência, dos métodos científicos e de toda a cultura profana em geral. Visto que, para indicar imediatamente a razão fundamental de tal harmonia, a ordem sobrenatural, a que pertencem os direitos da Igreja, não só não destrói nem diminui a ordem natural, à qual pertencem os outros mencionados direitos, mas pelo contrario, a eleva e aperfeiçoa, e ambas as ordens se prestam mutuo auxílio e como que complemento proporcionado respectivamente à natureza e dignidade de cada uma, precisamente porque ambas procedem de Deus que se não pode contra-dizer: « As obras de Deus são perfeitas, todos os seus caminhos são justos (19) ». Isto ver-se-há mais claramente, considerando, em separado e mais atentamente, a missão educativa da família e do Estado. À FAMÍLIA Em primeiro lugar, com a missão educativa da Igreja concorda admiravelmente a missão educativa da família, porque de Deus procedem ambas, de maneira muito semelhante. À família, de facto, na ordem natural, Deus comunica imediatamente a fecundidade, que é princípio de vida, e por isso princípio de educação para a vida, simultaneamente com a autoridade que é princípio de ordem. a) Direito anterior ao do Estado Diz o Doutor Angélico com a sua costumada clareza de pensamento e precisão de estilo: « O pai segundo a carne participa dum modo particular da razão de principio que, dum modo universal se encontra em Deus… O pai é princípio da geração, da educação e da disciplina, de tudo o que se refere ao aperfeiçoamento da vida humana » (20). A família recebe portanto imediatamente do Criador a missão e consequentemente o direito de educar a prole, direito inalienável porque inseparavelmente unido com a obrigação rigorosa, direito anterior a qualquer direito da sociedade civil e do Estado, e por isso inviolável da parte de todo e qualquer poder terreno. b) Direito inviolável, mas não despótico A razão da inviolabilidade deste direito é-nos dada pelo Angélico: « De facto o filho é naturalmente alguma coisa do pai… daí o ser de direito natural que o filho antes do uso da razão esteja sob os cuidados do pai. Seria portanto contra a justiça natural subtrair a criança antes do uso da razão ao cuidado dos pais, ou de algum modo dispor dela contra a sua vontade » (21). E porque a obrigação do cuidado da parte dos pais continua até que a prole esteja em condições de cuidar de si, também o mesmo inviolável direito educativo dos pais perdura. « Pois que a natureza não tem em vista somente a geração da prole, mas também o seu desenvolvimento e progresso até ao perfeito estado de homem, enquanto homem, isto é, até ao estado de virtude »,. diz o mesmo Doutor Angélico (22). Portanto a sabedoria jurídica da Igreja, assim se exprime, tratando desta matéria com precisão e clareza sintética no Código de Direito Canônico, cân. 1113: « os pais são gravemente obrigados a cuidar por todos os meios possíveis da educação, quer religiosa e moral quer física e civil, da prole, e também a prover ao bem temporal da mesma » (23). Sobre este ponto é de tal modo unânime o sentir comum do género humano que estariam em aberta contradição com ele, quantos ousassem sustentar que a prole pertence primeiro ao Estado do que à família, e que o Estado tenha sobre a educação direito absoluto. Insubsistente é pois a razão que estes aduzem, dizendo que o homem nasce cidadão e por isso pertence primeiramente ao Estado, não reflectindo que o homem, antes de ser cidadão, deve primeiro existir, e a existência não a recebe do Estado mas dos pais, como sabiamente declara Leão XIII: « os filhos são alguma coisa do pai e como que uma extensão da pessoa paterna: e se quisermos falar com rigor, não por si mesmos, mas mediante a comunidade domestica no seio da qual foram gerados, começam eles a fazer parte da sociedade civil » (24). Portanto: « o poder dos pais é de tal natureza que não pode ser nem suprimido nem absorvido pelo Estado, porque tem o mesmo princípio comum com a mesma vida dos homens », (25) diz na mesma Encíclica Leão XIII. Do que porem não se segue que o direito educativo dos pais seja absoluto ou despótico, pois que está inseparavelmente subordinado ao fim ultimo e à lei natural e divina, como declara o mesmo Leão XIII noutra memorável Encíclica «sobre os principais deveres dos cidadãos Cristãos », onde assim expõe em síntese a súmula dos direitos e deveres dos pais : « Por natureza os pais têm direito à formação dos filhos, com esta obrigação a mais, que a educação e instrução da criança esteja de harmonia com o fim em virtude do qual, por benefício de Deus, tiveram prole. Devem portanto os pais esforçar-se e trabalhar energicamente por impedir qualquer atentado nesta matéria, e assegurar de um modo absoluto que lhes fique o poder de educar cristãmente os filhos, como é da sua obrigação, e principalmente o poder de negá-los àquelas escolas em que há o perigo de beberem o triste veneno da impiedade » (26). Importa notar, além disso, que a educação da família compreende não só a educação religiosa e moral, mas também a física e civil (27), principalmente enquanto têm relação com a religião e a moral. c) Reconhecido pela Jurisprudência civil Tal direito incontestável da família tem sido várias vezes reconhecido, juridicamente, em nações onde se tem cuidado de respeitar o direito natural na legislação civil. Assim, para citar um exemplo, a Corte Suprema da República Federal dos Estados Unidos da América do Norte, na decisão de uma importantíssima controvérsia, declarou: «não competir ao Estado nenhum poder geral de estabelecer um tipo uniforme de educação para a juventude, obrigando-a a receber a instrução somente nas escolas públicas », acrescentando a isto a razão de direito natural: « A criança não é uma mera criatura do Estado; aqueles que a sustentam e dirigem têm o direito, unido ao alto dever, de a educar e preparar para o cumprimento dos seus deveres » (28). d) Tutelado pela Igreja A história, particularmente nos tempos modernos, atesta como se tem dado e se dá, da parte do Estado, a violação dos direitos conferidos pelo Criador à família, ao mesmo tempo que demonstra, esplendidamente, como a Igreja os tem sempre tutelado e defendido; e a melhor prova, de facto, está na confiança especial das famílias nas escolas da Igreja, como escrevemos na Nossa recente carta ao Cardeal Secretario de Estado : « A família compreendeu imediatamente que assim é, e desde os primeiros tempos do Cristianismo até aos nossos dias, pais e mães, mesmo pouco ou nada crentes, mandam e levam, aos milhões, os seus filhos aos institutos de educação fundados e dirigidos pela Igreja » (29). É que o instinto paterno, que vem de Deus, orienta-se com confiança para a Igreja, seguro de encontrar aí a tutela dos direitos da família, numa palavra, aquela concórdia que Deus pôs na ordem das coisas. A Igreja, com efeito, embora consciente, como está, da sua missão divina e universal, e da obrigação que todos os homens têm de seguir a única religião verdadeira, não se cansa de reivindicar para si o direito de recordar aos pais o dever de mandarem batizar e educar cristãmente os filhos de pais católicos: é porém tão ciosa da inviolabilidade do direito natural educativo da família, que não consente, a não ser sob determinadas condições e cautelas, que sejam batizados os filhos dos infiéis, ou de qualquer modo se disponha da sua educação, contra a vontade dos pais, enquanto os filhos não puderem determinar-se por si a abraçar livremente a fé (30). Temos portanto, como já notamos, no Nosso citado discurso, dois factos de altíssima importância: « a Igreja que põe à disposição das famílias o seu ofício de mestra e educadora, e as famílias que correm a aproveitar-se dele, e dão à Igreja, a centenas e a milhares, os seus filhos, e estes dois factos recordam e proclamam uma grande verdade, importantíssima na ordem social e moral. Eles dizem que a missão de educar pertence antes de tudo e acima de tudo, em primeiro lugar à Igreja e à família, pertence-lhes por direito natural e divino, e por isso de um modo irrevogável, inatacável, e insubstituível »(31). AO ESTADO Como grandíssimas vantagens derivam para toda a sociedade de um tal primado da missão educadora da Igreja e da família, como temos visto, assim também nenhum dano pode ele causar aos verdadeiros e próprios direitos do Estado relativamente à educação dos cidadãos, segundo a ordem estabelecida por Deus. a) Em ordem ao bem comum Estes direitos são concedidos à sociedade civil pelo próprio autor da Natureza, não a título de paternidade, como à Igreja e à família, mas sim em razão da autoridade que lhe compete para promover o bem comum e temporal, que é precisamente o seu fim próprio. Por conseqüência a educação não pode pertencer à sociedade civil do mesmo modo por que pertence à Igreja e à família, mas de maneira diversa, correspondente ao seu próprio fim. Ora este fim; o bem comum de ordem temporal, consiste na paz e segurança de que as famílias e os cidadãos gozam no exercício dos seus direitos, e simultaneamente no maior bem-estar espiritual e material de que seja capaz a vida presente mediante a união e o coordenamento do esforço de todos. b) Duas funções Dupla é portanto a função da autoridade civil, que reside no Estado: proteger e promover, e de modo nenhum absorver a família e o indivíduo, ou substituir-se-lhes. Portanto relativamente à educação, é direito, ou melhor, é dever do Estado proteger com as suas leis o direito anterior da família sobre a educação cristã da prole, como acima indicamos, e por conseqüência respeitar o direito sobrenatural da Igreja a tal educação cristã. Dum modo semelhante pertence ao Estado proteger o mesmo direito na prole, quando viesse a faltar, física ou moralmente, a acção dos pais, por defeito, incapacidade ou indignidade, visto que o seu direito de educadores, como acima declaramos, não é absoluto ou despótico, mas dependente da lei natural e divina, e por isso sujeito à autoridade e juízo da Igreja, e outrossim à vigilância e tutela jurídica do Estado em ordem ao bem comum, tanto mais que a família não é sociedade perfeita que tenha em si todos os meios necessários ao seu aperfeiçoamento. Em tal caso, excepcional de resto, o Estado não se substitui já à família, mas supre as deficiências e providência com os meios apropriados, sempre de harmonia com os direitos naturais da prole e com os sobrenaturais da Igreja. Em geral pois, é direito e dever do Estado proteger, em harmonia com as normas da recta razão e da Fé, a educação moral e religiosa da juventude, removendo as causas publicas que lhe sejam contrárias. Principalmente pertence ao Estado em ordem ao bem comum, promover por muitos modos a mesma instrução e educação da juventude. Primeiramente e por si, favorecendo e ajudando a iniciativa e esforço da Igreja e das famílias; e, quanto eficaz isso seja, demonstram-no a história e a experiência. Depois disso completando este esforço, quando ele não chegue ou não baste, também por meio de escolas e instituições próprias, porque o Estado, mais que ninguém, possui meios de que pode dispor para as necessidades de todos, e é justo que deles use para vantagem daqueles mesmos de quem derivam (32). Além disso o Estado pode exigir e por isso procurar que todos os cidadãos tenham o necessário conhecimento dos próprios deveres cívicos e nacionais, e um certo grau de cultura intelectual, moral e física, que, dadas as condições dos nossos tempos, seja verdadeiramente reclamada pelo bem comum. Todavia, é claro que, em todos estes modos de promover a educação e instrução pública e privada, o Estado atêm de observar a justiça distributiva, deve também respeitar os direitos congénitos da Igreja e da família sobre a educação cristã. Portanto é injusto e ilícito todo o monopólio educativo ou escolástico, que física ou moralmente constrinja as famílias a frequentar as escolas do Estado, contra as obrigações da consciência cristã ou mesmo contra as suas legítimas preferências. c) Qual educação pode reservar-se Isto porém não impede que para a recta administração do Estado e para a defesa externa e interna da paz, coisas tão necessárias ao bem comum e que requerem especiais aptidões e peculiar preparação, o Estado se reserve a instituição e direção de escolas preparatórias para o exercício dalgumas das suas funções, e nomeadamente para o exercito, desde que não ofenda os direitos da Igreja e da família naquilo que lhes pertence. Não é inútil repetir aqui, dum modo particular, esta advertência, visto que nos nossos tempos (em que se vai difundindo um nacionalismo tão exagerado e falso quanto inimigo da verdadeira paz e prosperidade) costuma o Estado ultrapassar os justos limites, organizando militarmente a chamada educação física dos jovens (e às vezes mesmo das meninas, contra a própria natureza das coisas humanas), absorvendo muitas vezes desmesuradamente, no dia do Senhor, o tempo que deve ser dedicado aos deveres religiosos e ao santuário da vida familiar. Não queremos, de resto, censurar o que pode haver de bom relativamente ao espírito de disciplina e de legitima ousadia, em tais métodos, mas semente todo o excesso, qual é por exemplo o espírito de violência, que não deve confundir-se com o espírito de intrepidez nem com o nobre sentimento do valor militar em defesa da Pátria e da ordem publica, qual é ainda a exaltação do atletismo que marcou a decadência e a degenerescência da verdadeira educação física, mesmo na época clássica pagã. Em geral pois, pertence à sociedade civil e ao Estado a educação que pode chamar-se cívica, não só da juventude mas também a de todas as idades e condições, que consiste na arte de apresentar publicamente tais objectos de conhecimento racional, de imaginação e de sensibilidade, que atraiam a vontade para o honesto e lho inculquem por uma necessidade moral, tanto pela apresentação da parte positiva de tais objectos, como pela da negativa, que impede os contrários (33). Tal educação cívica, tão ampla e múltipla que compreende quase toda a acção do Estado pelo bem comum, assim como deve ser informada pelas normas da rectidão, assim também não pode contradizer a doutrina da Igreja que foi divinamente constituída e é mestra destas normas. d) Relações entre a Igreja e o Estado Tudo o que dissemos até agora da acção do Estado na educação, baseia-se no fundamento seguríssimo e imutável da doutrina católica De Civitatum constitutione christiana, tão egregiamente exposta pelo Nosso Predecessor Leão XIII, especialmente nas encíclicas Immortale Dei e Sapientiae christianae, da seguinte forma: «Deus dividiu entre dois poderes o governo do gênero humano, o eclesiástico e o civil, um para prover às coisas divinas e outro às humanas: ambos supremos, cada um na sua esfera; ambos têm confins determinados, que lha limitam, e marcados pela própria natureza e fim próximo de cada um; de modo que chega a descrever-se como que uma esfera dentro da qual se exerce, com exclusivo direito, a ação de cada um. Mas como a estes dois poderes estão sujeitos os mesmos subditos, podendo dar-se que a mesma matéria, embora sob aspectos diversos pertença à competência e juízo de cada um deles, Deus providentíssimo, de Quem ambos dimanam, deve ter marcado a cada um os seus caminhos. Os poderes que existem são regulados por Deus» (34). Ora a educação da juventude é precisamente uma daquelas coisas que pertencem à Igreja e ao Estado, « embora de modo diverso », como acima indicamos. a Portanto — prossegue Leão XIII — deve reinar entre os dois poderes uma ordenada harmonia; a qual é comparada e com razão àquela pela qual a alma e o corpo se unem no homem. Qual e quão grande esta seja, não se pode avaliar doutro modo senão reflectindo, como dizemos, na natureza de cada um deles, atendendo à excelência e nobreza do fim, sendo próximos e propriamente ordenados, um para procurar o útil das coisas mortais, e outro, pelo contrário, para procurar os bens celestes e sempiternos. Portanto tudo o que há, dalgum modo sagrado nas coisas humanas, tudo o que se refere à salvação das almas e ao culto de Deus, quer seja tal por sua natureza, quer tal se considere em razão do fim a que tende, tudo isso está sujeito ao poder e às disposições da Igreja: o resto que fica na ordem civil e política, é justo que dependa da autoridade civil, tendo Jesus Cristo mandado que se dê a César o que é de César e a Deus o que é de Deus » (35). Se alguém recusasse admitir estes princípios e consequentemente aplicá-los à educação, chegaria necessariamente a negar que Cristo fundou a sua Igreja para a eterna salvação dos homens, e a sustentar que a sociedade civil e o Estado não estão sujeitos a Deus e à sua lei natural e divina. Ora isto é evidentemente ímpio, contrário à sua razão e principalmente em matéria de educação extremamente pernicioso à recta formação da juventude e seguramente ruinoso para a mesma sociedade civil e para o bem-estar social. E ao contrário, da aplicação destes princípios não pode deixar de resultar o máximo auxílio para a recta formação dos cidadãos. Isto demonstram superabundantemente os factos, em todas as épocas, e por isso assim como Tertuliano nos primeiros tempos do Cristianismo assim também S. Agostinho na sua época, podia desafiar todos os adversários da Igreja Católica — e Nós em nosso tempo podemos repetir com ele: — « Pois bem, aqueles que dizem ser a doutrina de Cristo inimiga do Estado, que nos dêem um exército tal como a doutrina de Cristo ensina que devem ser os soldados; que nos dêem subditos, maridos, esposas, pais, filhos, patrões, criados, reis, juízes, finalmente contribuintes e empregados fiscais, como a doutrina cristã manda que sejam, e atrevam-se depois a dizer que é nocivo ao Estado, ou melhor, não hesitem um instante em proclamá-la a grande salvadora do mesmo Estado em que ela se observa » (36). e) Necessidade e vantagens do acordo com a Igreja E tratando-se de educação, vem agora a propósito fazer notar, como, no período da Renascença, exprimiu bem esta verdade católica, confirmada pelos factos, nos tempos mais recentes, um escritor eclesiástico, grande benemérito da educação cristã, o piíssimo e douto Cardeal Silvio Antoniano, discípulo do admirável educador que foi S. Filipe de Nery, e mestre e secretário das cartas latinas de S. Carlos Borromeu, a instancias e sob a inspiração do qual escreveu o áureo tratado Della educazione cristiana dei figliuoli, no qual assim discorre: « Quanto mais o governo temporal se coordena com o espiritual e mais o favorece e promove, tanto mais concorre para a conservação do Estado. Pois que, enquanto o superior eclesiástico procura formar um bom cristão com a autoridade e os meios espirituais, segundo o seu fim, procura ao mesmo tempo e por necessária conseqüência formar um bom cidadão, como ele deve ser sob o governo político. O que verdadeiramente se dá, porque na Santa Igreja Católica Romana, cidade de Deus, é absolutamente uma e a mesma coisa, o bom cidadão e o homem de bem. Pelo que grave é o erro daqueles que separam coisas tão unidas e pensam poder conseguir bons cidadãos por outras normas e por meios diversos daqueles que contribuem para formar o bom cristão. Diga-se portanto, discorra a prudência humana como lhe aprouver, que não é possível que produza verdadeira paz e tranquilidade temporal, tudo o que repugna e se afasta da paz e felicidade eterna » (37). Assim como o Estado, também a ciência, o método e a investigação científica, nada têm a temer do pleno e perfeito mandato educativo da Igreja. Os institutos católicos, a qualquer grau de ensino e de ciência a que pertençam, não têm necessidade de apologias. O favor de que gozam, os louvores que recebem, as produções científicas que promovem e multiplicam, e mais que tudo, os sujeitos, plena e excelentemente preparados que oferecem à magistratura, às várias profissões, ao ensino, e à vida em todas as suas actividades, depõem mais que suficientemente em seu favor (38). Estes factos, de resto, não são mais que uma confirmação cabal da doutrina católica definida pelo Concilio Vaticano: « A Fé e a razão não só não podem contradizer-se nunca, mas auxiliam-se mutuamente, visto que a recta razão demonstra os fundamentos da Fé, e iluminada pela sua luz, cultiva a ciência das coisas divinas, ao passo que a Fé livra e protege dos erros a razão e enriquece-a com vários conhecimentos. Por isso a Igreja está tão longe de se opor à cultura das artes e das disciplinas humanas que até a auxilia e promove, porque não ignora nem despreza as vantagens que delas provêm para a vida da humanidade e até ensina que elas, assim como provêm de Deus, Senhor das ciências, assim também, se tratadas rectamente, conduzem a Deus com a sua graça. E de nenhum modo ela proíbe que tais disciplinas, cada uma na sua esfera, usem do método e princípios próprios, mas reconhecida esta justa liberdade, provê cuidadosamente a que não caiam em erro, opondo-se aventurosamente à doutrina divina, ou ultrapassando os próprios limites, ocupem e revolucionem o campo da fé » (39). E esta norma de justa liberdade científica é também norma inviolável de justa liberdade didática ou de ensino, quando bem compreendida; e deve ser observada em qualquer comunicação doutrinal feita a outrem, mormente por dever muito mais grave de justiça no ensino da juventude quer porque sobre ela, nenhum professor, seja público seja particular tem direito educativo absoluto mas participado, quer porque toda a criança ou jovem cristão tem direito estrito ao ensino conforme à doutrina da Igreja, coluna e fundamento da verdade, e lhe causaria um grave dano quem perturbasse a sua fé, abusando da confiança dos jovens nos seus professores, e da sua natural inexperiência e desordenada inclinação para uma liberdade absoluta, ilusória e falsa. SUJEITO DA EDUCAÇÃO a) Todo o homem decaído, mas remido Com efeito nunca deve perder-se de vista que o sujeito da educação cristã é o homem, o homem todo, espírito unido ao corpo em unidade de natureza, com todas as suas faculdades naturais e sobrenaturais, como no-lo dão a conhecer a recta razão e a Revelação: por isso o homem decaído do estado original, mas remido por Cristo, e reintegrado na condição sobrenatural de filho de Deus, ainda que o não tenha sido nos privilégios preternaturais da imortalidade do corpo e da integridade ou equilíbrio das suas inclinações. Permanecem portanto na natureza humana os efeitos do pecado original, particularmente o enfraquecimento da vontade e as tendências desordenadas. « A estultícia está no coração da criança e a vara da disciplina dali a expulsará » (40). Devem-se portanto corrigir as inclinações desordenadas, excitar e ordenar as boas, desde a mais tenra infância, e sobretudo deve iluminar-se a inteligência e fortalecer-se a vontade com as verdades sobrenaturais e os auxílios da graça, sem a qual não se pode, nem dominar as inclinações perversas, nem conseguir a devida perfeição educativa da Igreja, perfeita e completamente dotada por Cristo com a divina doutrina e os Sacramentos, meios eficazes da Graça. b) Falsidade e danos do naturalismo pedagógico É falso portanto todo o naturalismo pedagógico que, na educação da juventude, exclui ou menospreza por todos os meios a formação sobrenatural cristã; é também errado todo o método de educação que, no todo ou em parte se funda sobre a negação ou esquecimento do pecado original e da graça, e, por conseguinte, unicamente sobre as forças da natureza humana. Tais são na sua generalidade aqueles sistemas modernos, de vários nomes, que apelam para uma pretendida autonomia e ilimitada liberdade da criança, e que diminuem ou suprimem até, a autoridade e a acção do educador, atribuindo ao educando um primado exclusivo de iniciativa e uma actividade independente de toda a lei superior natural e divina, na obra da sua educação. Diriam, sim, a verdade, se com algumas daquelas expressões quisessem indicar, ainda que impropriamente, a necessidade cada vez mais consciente, da cooperação activa do aluno na sua educação, e se entendessem afastar desta o despotismo e a violência (a qual, de resto, não é a justa correcção), mas não diriam absolutamente nada de novo e que a Igreja não tenha já ensinado e atuado na prática da educação cristã tradicional, à semelhança do que faz o próprio Deus com as criaturas que chama a uma activa cooperação, segundo a natureza própria de cada uma, visto que a sua Sabedoria « se estende com firmeza de um a outro extremo, e tudo governa com bondade » (41). Infelizmente com o significado óbvio das expressões, e com o mesmo facto, pretendem muitos subtrair a educação a toda a dependência da lei divina. Por isso em nossos dias se dá o caso, realmente bastante estranho, de educadores e filósofos que se afadigam à procura de um código moral e universal de educação, como se não existisse nem o Decálogo, nem a lei evangélica, nem tão pouco a lei natural, esculpida por Deus no coração do homem, promulgada pela recta razão, codificada com revelação positiva pelo mesmo Deus no Decálogo. E da mesma forma, costumam tais inovadores, como por desprezo, denominar « heterônoma », « passiva », « atrasada », a educação cristã, porque esta se funda na autoridade divina e na sua santa lei. Estes iludem-se miseravelmente com a pretensão de libertar, como dizem, a criança, enquanto que antes a tornam escrava do seu orgulho cego e das suas paixões desordenadas, visto que estas, por uma conseqüência lógica daqueles falsos sistemas, vêm a ser justificadas como legítimas exigências da natureza pseudo-autónoma. Mas há pior ainda, na pretensão falsa, irreverente e perigosa, além de vã, de querer submeter a indagações, a experiências e juízos de ordem natural e profana, os factos de ordem sobrenatural concernentes à educação, como por exemplo, a vocação sacerdotal ou religiosa, e em geral as ocultas operações da graça que, não obstante elevar as forças naturais, excede-as todavia infinitamente, e não pode de manei. ta nenhuma estar sujeita às leis físicas, porque « o espírito sopra onde lhe apraz » (42). c) Educação sexual Mormente perigoso é portanto aquele naturalismo que, em nossos tempos, invade o campo da educação em matéria delicadíssima como é a honestidade dos costumes. Assaz difuso é o erro dos que, com pretensões perigosas e más palavras, promovem a pretendida educação sexual, julgando erradamente poderem precaver os jovens contra os perigos da sensualidade, com meios puramente naturais, tais como uma temerária iniciação e instrução preventiva, indistintamente para todos, e até publicamente, e pior ainda, expondo-os por algum tempo às ocasiões para os acostumar, como dizem, e quase fortalecer-lhes o espírito contra aqueles perigos. Estes erram gravemente, não querendo reconhecer a natural fragilidade humana e a lei de que fala o Apóstolo: contrária à lei do espírito, (43) e desprezando até a própria experiência dos factos, da qual consta que, nomeadamente nos jovens, as culpas contra os bons costumes são efeito, não tanto da ignorância intelectual, quanto e principalmente da fraqueza da vontade, exposta às ocasiões e não sustentada pelos meios da Graça. Se consideradas todas as circunstâncias se torna necessária, em tempo oportuno, alguma instrução individual, acerca deste delicadíssimo assunto, deve, quem recebeu de Deus a missão educadora e a graça própria desse estado, tomar todas as precauções, conhecidíssimas da educação cristã tradicional, e suficientemente descritas pelo já citado Antoniano, quando diz: « Tal e tão grande é a nossa miséria e a inclinação para o mal, que muitas vezes até as coisas que se dizem para remédio dos pecados são ocasião e incitamento para o mesmo pecado. Por isso importa sumamente que um bom pai quando discorre com o filho em matéria tão lúbrica, esteja bem atento, e não desça a particularidades e aos vários modos pelos quais esta hidra infernal envenena uma tão grande parte do mundo; não seja o caso que, em vez de extinguir este fogo, o sopre ou acenda imprudentemente no coração simples e tenro da criança. Geralmente falando, enquanto perdura a infância, bastará usar daqueles remédios que juntamente com o próprio efeito, inoculam a virtude da castidade e fecham a entrada ao vício » (44). d) Co-educação De modo semelhante, erróneo e pernicioso à educação cristã é o chamado método da « co-educação », baseado também para muitos no naturalismo negador do pecado original, e ainda para todos os defensores deste método, sobre uma deplorável confusão de idéias que confunde a legítima convivência humana com a promiscuidade e igualdade niveladora. O Criador ordenou e dispôs a convivência perfeita dos dois sexos somente na unidade do matrimônio e gradualmente distinta na família e na sociedade. Além disso não há na própria natureza, que os faz diversos no organismo, nas inclinações e nas aptidões, nenhum argumento donde se deduza que possa ou deva haver promiscuidade, e muito menos igualdade na formação dos dois sexos. Estes, segundo os admiráveis desígnios do Criador, são destinados a completar-se mutuamente na família e na sociedade, precisamente pela sua diversidade, a qual, portanto, deve ser mantida e favorecida na formação educativa, com a necessária distinção e correspondente separação, proporcionada às diversas idades e circunstâncias. Apliquem-se estes princípios no tempo e lugar oportunos, segundo as normas da prudência cristã, em todas as escolas, nomeadamente no período mais delicado e decisivo da formação, qual é o da adolescência; e nos exercícios ginásticos e desportivos, com particular preferência à modéstia cristã na juventude feminina, à qual fica muito mal toda a exibição e publicidade. Recordando as tremendas palavras do Divino Mestre: « Ai do mundo por causa dos escândalos! » (45) exortamos vivamente a vossa solicitude e vigilância, Veneráveis Irmãos, sobre estes perniciosíssimos erros, que largamente se vão difundindo entre o povo cristão com imenso dano da juventude. AMBIENTE DA EDUCAÇÃO Para obter uma educação perfeita é de suma importância cuidar em que as condições de tudo o que rodeia o educando, no período da sua formação, isto é, o complexo de todas as circunstâncias que costuma denominar-se « ambiente », corresponda bem ao fim em vista. a) Família cristã O primeiro ambiente natural e necessário da educação é a família, precisamente a isto destinada pelo Criador. De modo que, em geral, a educação mais eficaz e duradoira é aquela que se recebe numa família cristã bem ordenada e disciplinada, tanto mais eficaz quanto mais clara e constantemente aí brilhar sobretudo o bom exemplo dos pais e dos outros domésticos. Não é Nossa intenção querer tratar aqui propositadamente da educação doméstica, nem sequer referindo só os seus pontos principais, tão vasta é a materia, sobre a qual, de resto, não faltam especiais tratados antigos e modernos, de autores de sã doutrina católica, entre os quais avulta, digno de especial menção, o já citado e áureo tratado de Antoniano: Della educazione cristiana dei figliuoli, que S. Carlos Borromeu mandava ler publicamente aos pais reunidos nas igrejas. Queremos porém chamar dum modo especial a vossa atenção, Veneráveis Irmãos e amados Filhos, sobre a lastimável decadência hodierna da educação familiar. Para os ofícios e profissões da vida temporal e terrena, com certeza de menor importância, fazem-se longos estudos e uma cuidadosa preparação, quando, para o ofício e dever fundamental da educação dos filhos, estão hoje pouco ou nada preparados muitos pais demasiadamente absorvidos pelos cuidados temporais. Para enervar a influência do ambiente familiar, acresce hoje o facto de que, quase por toda a parte, se tende a afastar cada vez mais da família a juventude, desde os mais tenros anos, sob vários pretextos, quer económicos, industriais ou comerciais, quer mesmo políticos; e há regiões aonde se arrancam as crianças do seio da família para as formar ou com mais verdade para as deformar e depravar em associações e escolas sem Deus, na irreligiosidade, no ódio, segundo as avançadas teorias socialistas, repetindo-se um novo e mais horroroso massacre dos inocentes. Portanto rogamos instantemente, pelas entranhas de Jesus Cristo, aos Pastores de almas, que nas instruções e catequeses, pela palavra e por escritos largamente divulgados, empreguem todos os meios para recordar aos pais cristãos as suas gravíssimas obrigações não só teórica ou genericamente, mas também praticamente e em particular cada uma das suas obrigações relativas à educação religiosa, moral e civil dos filhos e os métodos mais apropriados para atuá-la eficazmente, além do exemplo da sua vida. A tais instruções práticas não desdenhou descer o Apóstolo das gentes nas suas epistolas, particularmente naquela aos Efésios onde, entre outras coisas, adverte: « O’ pais, não provoqueis à ira os vossos filhos », (46) o que é efeito não tanto de excessiva severidade quanto principalmente da impaciência, da ignorância dos modos mais adequados à frutuosa correcção e ainda do já demasiado e comum relaxamento da disciplina familiar, aonde crescem indómitas as paixões dos adolescentes. Cuidem por isso os pais e com eles todos os educadores, de usar retamente da autoridade a eles dada por Deus, de Quem são verdadeiramente vigários, não para vantagem própria, mas para a reta educação dos filhos no santo e filial « temor de Deus, principio da sabedoria » sobre o qual se funda exclusiva e solidamente o respeito à autoridade, sem o qual não pode subsistir nem ordem, nem tranquilidade, nem bem-estar algum na família e na sociedade. b) A Igreja e suas obras educativas À fraqueza das forças da natureza humana decaída, providenciou a Divina Bondade, com os abundantes auxílios da sua Graça e com os múltiplos meios de que é rica a Igreja, grande família de Cristo, a qual é por isso o ambiente educativo mais estrito e harmoniosamente unido com o da família cristã. O qual ambiente educativo da Igreja não compreende somente os seus sacramentos, meios divinamente eficazes da graça, e os seus ritos, todos maravilhosamente educativos, nem só o recinto material do templo cristão, também ele admiravelmente educativo, na linguagem da liturgia e da arte, mas também a grande multiplicidade e variedade de escolas, associações e todo o gênero de instituições tendentes a formar a juventude na piedade religiosa, juntamente com o estudo das letras e das ciências e com a mesma recreação e cultura física. E nesta inexaurível fecundidade de obras educativas, como é admirável, ao mesmo tempo que insuperável, a providência maternal da Igreja, admirável é a harmonia acima indicada, que ela sabe manter com a família cristã, a ponto de poder dizer-se com verdade, que a Igreja e a família constituem um único templo de educação cristã. c) Escola E sendo necessário que as novas gerações sejam instruídas nas artes e disciplinas com as quais aproveita e prospera a convivência civil, e sendo para esta obra a família, por si só, insuficiente, daí vem a instituição social da escola, primeiramente, note-se bem, por iniciativa da família e da Igreja, e só mais tarde por obra do Estado. Por esta razão, a escola, considerada até nas suas origens históricas, é por sua natureza instituição subsidiária e complementar da família e da Igreja, e portanto, por lógica necessidade moral deve não somente não contraditar, mas harmonizar-se positivamente com os outros dois ambientes, na mais perfeita unidade moral possível, a ponto de poder constituir juntamente com a família e com a Igreja, um único santuário, sacro para a educação cristã, sob pena de falir no seu escopo, e de converter-se, em caso contrário, em obra de destruição. E isto foi manifestamente reconhecido até por um leigo, tão falado pelos seus escritos pedagógicos (não totalmente louváveis porque eivados de liberalismo) o qual sentenciou: « a escola se não é templo é caverna »; e ainda: « Quando a educação literária, social, domestica, religiosa, se não harmonizam mutuamente, o homem é infeliz, impotente » (47). – Neutra, laica Daqui resulta precisamente que a escola chamada neutra ou laica, donde é excluída a religião, é contrária aos princípios fundamentais da educação. De resto uma tal escola é praticamente impossível, porque de fato torna-se irreligiosa. Não ocorre repetir aqui quanto acerca deste assunto disseram os Nossos Predecessores, nomeadamente Pio IX e Leão XIII, em cujos tempos começou particularmente a dominar o laicismo na escola pública. Nós renovamos e confirmamos as suas declarações, (48) e juntamente as prescrições dos Sagrados Cânones pelas quais é proibida aos jovens católicos a freqüência de escolas acatólicas, neutras ou mistas, isto é, daquelas que são abertas indiferentemente para católicos e não católicos, sem distinção, e só pode tolerar-se tal freqüência unicamente em determinadas circunstâncias de lugar e de tempo, e sob especiais cautelas de que é juiz o Ordinário (49). – Mista, única E não pode admitir-se para os católicos a escola mista (pior se única e obrigatória para todos), na qual, dando-se-lhes em separado a instrução religiosa, eles recebem o resto do ensino em comum com os alunos não católicos de professores acatólicos. Pois que uma escola não se torna conforme aos direitos da Igreja e da família cristã e digna da freqüência dos alunos católicos, pelo simples fato de que nela se ministra a instrução religiosa, e muitas vezes com bastante parcimônia. – Católica Para este efeito é indispensável que todo o ensino e toda a organização da escola: mestres, programas, livros, em todas as disciplinas, sejam regidos pelo espírito cristão, sob a direção e vigilância maternal da Igreja católica, de modo que a Religião seja verdadeiramente fundamento e coroa de toda a instrução, em todos os graus, não só elementar, mas também media e superior. « É mister, para Nos servirmos das palavras de Leão XIII, que não só em determinadas horas se ensine aos jovens a religião, mas que toda a restante formação respire a fragrância da piedade cristã. Porque, se isto falta, se este hálito sagrado não penetra e rescalda os ânimos dos mestres e dos discípulos, muito pouca utilidade se poderá tirar de qualquer doutrina; pelo contrário, virão daí danos e não pequenos » (50). Nem se diga ser impossível ao Estado, numa nação dividida em várias crenças, prover à instrução pública por outro modo que não seja a escola neutra ou a escola mista, devendo o Estado mais razoavelmente, e podendo também mais facilmente, prover, deixando livre e favorecendo até com subsídios a iniciativa e obra da Igreja e das famílias. E que isto seja realizável com satisfação das famílias, com utilidade da instrução, da paz e tranquilidade publica, bem o demonstra o facto de haver nações divididas em várias confissões religiosas, onde a organização escolástica corresponde ao direito educativo das familiar, não só quanto ao ensino, particularmente com a escola inteiramente católica, para os católicos, mas também quanto à justiça distributiva, com o subsídio financeiro da parte do Estado, a cada uma das escolas desejadas pelas famílias. Noutros países de religião mista procede-se diferentemente com não leve encargo dos católicos que, sob os auspícios e direção do Episcopado, e pela ação indefessa do clero secular e regular, sustentam à própria custa a escola católica para os seus filhos, qual a reclama a gravíssima obrigação da sua consciência, e com generosidade e constância, dignas de louvor, perseveram no propósito de assegurar inteiramente, como eles proclamam à maneira de divisa: « educação católica, para toda a juventude católica, nas escolas católicas ». O que, se não é auxiliado pelo erário público, como por si exige a justiça distributiva, não pode ser impedido pela autoridade civil, que tem a consciência dos direitos da família e das condições indispensáveis da legítima liberdade. Onde quer que esta liberdade é impedida ou de vários modos dificultada, nunca os católicos se esforçarão demais, ainda à custa de grandes sacrifícios, para sustentar e defender as suas escolas, e para procurar que se promulguem leis escolares justas. – Acção Católica em favor da Escola Tudo o que fazem os fiéis para promover e defender a escola católica para seus filhos, é obra genuinamente religiosa, e por isso especialíssimo dever da « Acção católica »; pelo que são particularmente caras ao Nosso coração paterno e dignas de grandes encómios aquelas associações especiais que, em várias nações, com tanto zelo, se dedicam a obra tão necessária. Por esta razão, procurando para seus filhos a escola católica (proclame-se bem alto e seja bem compreendido por todos) os católicos de qualquer nação do mundo não exercem uma acção política de partido, mas sim uma acção religiosa indispensável à sua consciência; e não entendem já separar os seus filhos do corpo e do espírito nacional, mas antes educá-los dum modo mais perfeito e mais conducente à prosperidade da nação, pois que o bom católico, precisamente em virtude da doutrina católica, é por isso mesmo o melhor cidadão, amante da sua Pátria e lealmente submisso à autoridade civil constituída em qualquer legítima forma de governo. Nesta escola, em harmonia com a Igreja e com a família cristã, não acontecerá que, nos vários ramos de ensino, se contradiga, com evidente dano da educação, o que os discípulos aprendem na instrução religiosa; e se for necessário fazer-lhes conhecer, por escrupulosa consciência de magistério, as obras erróneas para as refutar, que seja isso feito com tal preparação e tal antídoto de sã doutrina que resulte para a formação cristã da juventude grande vantagem e não prejuízo. Igualmente, nesta escola, nunca o estudo da língua pátria e das letras clássicas redundará em detrimento da santidade dos costumes; pois que o professor cristão seguirá o exemplo das abelhas, que das flores colhem a parte mais pura, deixando o resto, como ensina S. Basílio no seu discurso aos jovens acerca da leitura dos clássicos. (51) E esta necessária cautela, sugerida também pelo pagão Quintiliano, (52) não impede de modo nenhum que o mestre cristão acolha e aproveite quanto de verdadeiramente bom produzem os nossos tempos na disciplina e nos métodos, lembrado do que diz o Apostolo: « Examinai tudo: conservai o que é bom » (53). Acolhendo, pois, o que é novo, terá o cuidado de não abandonar facilmente o antigo, demonstrado bom e eficaz pela experiência de muitos séculos, mormente no estudo da latinidade, que vemos, em nossos dias em progressiva decadência, exatamente pelo inqualificável abandono dos métodos tão frutuosamente usados pelo são humanismo que obteve grande florescência principalmente nas escolas da Igreja. Estas nobres tradições exigem que a juventude confiada às escolas católicas, seja, sem duvida, plenamente instruída nas letras e ciências, segundo as exigências dos nossos tempos, mas ao mesmo tempo sólida e profundamente, em especial na sã filosofia, longe da confusa superficialidade daqueles que « talvez tivessem encontrado o necessário, se não houvessem buscado o supérfluo » (54). Deve pois todo o mestre cristão ter sempre presente o que diz Leão XIII em compendiosa sentença: « … com maior diligencia é necessário esforçar-se para que não somente se aplique um método de ensino apto e sólido, mas ainda para que o próprio ensino nas letras e nas ciências seja em tudo conforme à fé católica, principalmente na filosofia, da qual depende em grande parte a reta direção das outras ciências (55) ». -Bons mestres As boas escolas são fruto, não tanto dos bons regulamentos, como principalmente dos bons mestres que, egregiamente preparados e instruídos, cada qual na disciplina que deve ensinar, e adornados das qualidades intelectuais e morais exigidas pelo seu importantíssimo ofício, se abrasam dum amor puro e divino para com os jovens que lhes foram confiados, precisamente porque amam Jesus Cristo e a sua Igreja de quem eles são filhos prediletos, e por isso mesmo têm verdadeiramente a peito o bem das famílias e da sua Pátria. É por isso que Nos enche a alma de consolação e de gratidão para com a Bondade Divina, o ver como juntamente com os religiosos e religiosas que se dedicam ao ensino, tão grande número de tais bons mestres e mestras — outrossim unidos em congregação e associações especiais para cada vez melhor cultivarem o espírito, as quais são bem dignas de serem louvadas e promovidas como poderosas e nobilíssimas auxiliares de « Ação Católica » — trabalham desinteressadamente, com zelo e constância, naquela que S. Gregorio Nazianzeno chamou « Arte das artes, ciência das ciências », (56) de dirigir e formar a juventude. E contudo também para eles vale o dito do Divino Mestre: « A messe é verdadeiramente copiosa, porém os operários são poucos »; (57) supliquemos portanto o Senhor da messe para que mande ainda muitos desses operários da educação cristã, cuja formação devem ter sumamente a peito os Pastores das almas e os Superiores maiores das Ordens religiosas. É igualmente necessário dirigir e vigiar a educação do adolescente, « mole como a cera para inclinar-se ao vício », (58) em qualquer outro ambiente em que venha a encontrar-se, removendo as más ocasiões, proporcionando-lhe as boas, quer nas recreações quer mesmo nas companhias, já que « as más conversas corrompem os bons costumes » (59). d) Mundo e seus perigos Na verdade nos nossos tempos torna-se necessária uma vigilância tanto mais extensa e cuidadosa, quanto mais têm aumentado as ocasiões de naufrágio moral e religioso para a juventude inexperiente, especialmente nos livros ímpios e licenciosos, muitos dos quais diabolicamente espalhados, a preço ridículo e desprezível, nos espetáculos do cinematógrafo, e agora também nas audições radiofónicas, que multiplicam e facilitam toda a espécie de leituras, como o cinematógrafo toda a sorte de espectáculos. Estes potentíssimos meios de vulgarização que podem ser, se bem dirigidos pelos sãos princípios, duma grande utilidade para a instrução e educação, aparecem infelizmente, na maior parte das vezes, como incentivos das más paixões e da avidez do lucro. Santo Agostinho lamentava-se da paixão pela qual eram arrastados até os cristãos do seu tempo para os espectáculos do circo, e narra-nos com vivacidade dramática a perversão, felizmente temporânea, do seu amigo e aluno Alípio. (60) Quantas depravações juvenis, por causa dos espetáculos modernos e das leituras infames, não têm hoje que chorar os pais e os educadores! São pois dignas de louvor e incremento todas as obras educativas que, com espírito sinceramente cristão de zelo pelas almas dos jovens, atendem com determinados livros e publicações periódicas, a tornar conhecidos, especialmente aos pais e educadores, os perigos morais e religiosos muitas vezes traiçoeiramente insinuados nos livros e espectáculos, e se consagram a difundir boas leituras e a promover espectáculos verdadeiramente educativos, criando até, com não pequenos sacrifícios, teatros e cinematógrafos em que a virtude não só não tenha nada a perder, mas até muito a ganhar. Desta necessária vigilância não se segue contudo que a juventude deva ser segregada da sociedade, na qual, apesar de tudo, deve viver e salvar a alma, mas outrossim que hoje, mais que nunca, deve estar cristãmente premunida e fortalecida contra as seduções e erros do mundo, que, como adverte uma divina sentença « é todo concupiscência da carne, concupiscência dos olhos e soberba da vida »; (61) de modo que, como dizia Tertuliano dos primeiros cristãos, sejam eles quais devem ser os verdadeiros cristãos de todos os tempos, « possuidores do mundo, que não do erro ». (62) Com esta sentença de Tertuliano chegamos a versar aquilo que Nos propusemos tratar em último lugar, embora da máxima importância, a saber: a verdadeira substância da educação cristã qual se deduz do seu fim próprio, e em cuja consideração se torna cada vez mais clara (mais que a luz do meio-dia) a sublime missão educativa da Igreja. FIM E FORMA DA EDUCAÇÃO CRISTÃ O fim próprio e imediato da educação cristã é cooperar com a graça divina na formação do verdadeiro e perfeito cristão, isto é, formar o mesmo Cristo nos regenerados pelo Baptismo, segundo a viva expressão do Apóstolo: « Meus filhinhos, a quem eu trago no meu coração até que seja formado em vós Cristo ». (63) Pois que o verdadeiro cristão deve viver a vida sobrenatural em Cristo: « Cristo que é a vossa vida », (64) e manifestá-la em todas as suas acções: « a fim que também a vida de Jesus se manifeste na vossa carne mortal » (65). a) Formar o verdadeiro cristão Precisamente por isso a educação cristã abraça toda a extensão da vida humana, sensível, espiritual, intelectual e moral, individual, doméstica e social, não para diminuí-la de qualquer maneira, mas para a elevar, regular e aperfeiçoar segundo os exemplos e doutrina de Cristo. Por isso o verdadeiro cristão, fruto da verdadeira educação cristã, é o homem sobrenatural que pensa, julga e opera constantemente e coerentemente, segundo a sã razão iluminada pela luz sobrenatural dos exemplos e doutrina de Cristo; ou antes, servindo-Nos da expressão, agora em uso, o verdadeiro e completo homem de carácter. Pois que não é qualquer coerência e rigidez de procedimento, segundo princípios subjectivos, o que constitui o verdadeiro caráter, mas tão somente a constância em seguir os eternos princípios da justiça, como confessa o próprio poeta pagão quando louva, inseparavelmente, « o homem justo e firme em seu propósito » (66). Por outro lado não pode haver justiça perfeita senão dando a Deus o que é de Deus, como faz o verdadeiro cristão. Tal fim eterno da educação cristã afigura-se aos profanos uma abstracção, ou antes, irrealizável, sem a supressão ou atrofiamento das faculdades naturais, e sem a renuncia às obras da vida terrena, e por conseqüência alheio à vida social e prosperidade temporal, adverso a todo o progresso das letras, ciências e artes, e a qualquer outra obra de civilização. A semelhante objecção nascida da ignorância e preconceito dos pagãos, mesmo cultos, de outrora — repetida infelizmente com freqüência e insistência nos tempos modernos — havia já respondido Tertuliano: «Nós não somos alheios à vida. Recordamo-nos bem do dever de gratidão para com Deus, Nosso Senhor e Criador; não repudiamos nenhum fruto das suas obras; somente nos moderamos para não usar deles mal ou descomedidamente. E assim não vivemos neste mundo sem foro, sem talhos, sem balneários, sem casas, sem negócios, sem estábulos, sem os vossos mercados e todos os outros tráficos. Nós também convosco navegamos e combatemos, cultivamos os campos e negociamos, e por isso trocamos os trabalhos e pomos à vossa disposição as nossas obras. Verdadeiramente não vejo como podemos parecer inúteis aos vossos negócios com os quais e dos quais vivemos (67). b) Que é também o cidadão mais nobre e útil Por conseqüência o verdadeiro cristão, em vez de renunciar às obras da vida terrena ou diminuir as suas faculdades naturais, antes as desenvolve e aperfeiçoa, coordenando-as com a vida sobrenatural, de modo a enobrecer a mesma vida natural, e a procurar-lhe utilidade mais eficaz, não só de ordem espiritual e eterna, mas também material e temporal. Isto é provado por toda a história do cristianismo e das suas instituições, a qual se identifica com a história da verdadeira civilização e do genuíno progresso até aos nossos dias; e particularmente pelos Santos de que é fecundíssima a Igreja, e só ela, os quais conseguiram em grau perfeitíssimo, o fim ou escopo da educação cristã, e enobreceram e elevaram a convivência humana em toda a espécie de bens. De facto, os Santos foram, são e serão sempre os maiores benfeitores da sociedade humana, como também os modelos mais perfeitos em todas as classes e profissões, em todos os estados e condições de vida, desde o camponês simples e rude até ao sábio e letrado, desde o humilde artista até ao general do exército, desde o particular pai de família até ao monarca, chefe de povos e nações, desde as simples donzelas e esposas do lar domestico até às rainhas e imperatrizes. E que dizer da imensa obra, mesmo em prol da felicidade temporal, dos missionários evangélicos que juntamente com a luz da fé levaram elevam aos povos bárbaros os bens da civilização, dos fundadores de muitas e variadas obras de caridade e de assistência social, da interminável série de santos educadores e santas educadoras que perpetuaram e multiplicaram a sua obra, nas suas fecundas instituições de educação cristã, para auxílio das famílias e benefício inapreciável das nações? c) Jesus, Mestre e Modelo de Educação São estes os frutos benéficos sobre todos os aspectos da educação cristã, precisamente pela vida e virtude sobrenatural em Cristo que ela desenvolve e forma no homem; pois que Jesus Cristo, Nosso Senhor, Mestre Divino, é igualmente fonte e dador de tal vida e virtude, e ao mesmo tempo modelo universal e acessível a todas as condições do gênero humano, com o seu exemplo, particularmente à juventude, no período da sua vida oculta, laboriosa, obediente, aureolada de todas as virtudes individuais, domesticas e sociais, diante de Deus e dos homens. CONCLUSÃO E todo o complexo dos tesouros educativos de infinito valor, que acabamos de mencionar, embora de passagem, é de tal modo próprio da Igreja que constitui a sua substância, sendo ela o corpo místico de Cristo, a Esposa imaculada de Cristo, e por isso mesmo Mãe fecundíssima e Educadora soberana e perfeita. À vista disto o grande e genial S. Agostinho — de cuja feliz morte estamos para celebrar o décimo quinto centenário — prorrompia, cheio de santo afeto por tal Mãe, nestas expressões: «Ó Igreja Católica, Mãe veríssima dos Cristãos, vós com razão pregais, não só que se deve honrar puríssima e castíssimamente o próprio Deus, cuja consecução é vida felicíssima, mas também de tal modo exerceis o vosso amor e caridade para com o próximo que, junto de vós, se encontra poderosamente eficaz, todo o remédio para os muitos males de que por causa dos pecados sofrem as almas. Vós adestrais e ensinais, com simplicidade as crianças, com fortaleza os jovens, com delicadeza os velhos, segundo as necessidades do corpo e do espírito. Vós, quase diria, por livre escravidão submeteis os filhos aos pais e dais aos filhos, como superiores, os pais com domino de piedade. Vós, com o vínculo da Religião, mais forte e mais intimo que o do sangue, unis irmãos a irmãos… Vós não só com o vínculo de sociedade, mas também de uma certa fraternidade, ligais cidadãos a cidadãos, povos a povos, numa palavra, todos os homens com a lembrança dos comuns protoparentes. Ensinais aos reis que atendam bem aos povos; admoestais os povos que obedeçam aos reis. Com solicitude ensinais a quem se deve honra, a quem afecto, a quem respeito, a quem temor, a quem conforto, a quem advertência, a quem exortação, a quem correcção, a quem censura, a quem castigo, mostrando em que modo, mas não a todos, tudo se deve, a todos porém a caridade, a ninguém a ofensa (68). Elevemos, ó Veneráveis Irmãos, os corações e as mãos suplicantes ao Céu, « ao Pastor e Bispo das nossas almas », (69) ao Rei Divino, « que .dá leis aos governantes », a fim de que nele com a sua virtude omnipotente faça que estes esplêndidos frutos da educação cristã se colham e multipliquem « em todo o mundo », sempre para maior vantagem dos indivíduos e das nações. Como augúrio destas graças celestes, com paternal afeto, a Vós, Veneráveis Irmãos, ao Vosso Clero e ao Vosso povo, concedemos a Bênção Apostólica. Dado em Roma, em S. Pedro, a 31 de Dezembro de 1929, ano oitavo do Nosso Pontificado. PIO PP. XI. Notas (1) Marc., X, 14: Sinite parvulos venire ad me. (2) II Tim., IV, 2: Insta opportune, importune: argue, obsecra, increpa, in omni patientia et doctrina. (3) Confess., I, 1: Fecisti nos, Domine, ad Te, et inquietum est cor nostrum donec requiescat in Te. (4) Prov., XXII, 6: Adolescens iuxta viam suam etiam cum senuerit non recedet ab ea. (5) Hom. 60, in c. 18 Matth.: Quid maius quam animis moderari, quam adolescentulorum fingere mores? (6) Marc., IX, 36: Quisquis unum ex huiusmodi pueris receperit in nomine meo, me recipit. (7) Matth., XXVIII, 18-20: Data est mihi omnis potestas in caelo et in terra. Euntes ergo docete omnes gentes, baptizantes eos in nomine Patris, et Filii, et Spiritus Sancti: docentes eos servare omnia quaecumque mandavi vobis. Et ecce ego vobiscum sum omnibus diebus usque ad consummationem saeculi. (8) Pius IX, Ep. Quum non sine, 14 Iul. 1864: Columna et firmamentum veritatis a Divino suo Auctore fuit constituta, ut omnes homines divinam edoceat fidem, eiusque depositum sibi traditum integrum inviolatumque custodiat, ac homines eorumque consortia et actiones ad morum honestatem vitaeque integritatem, iuxta revelatae doctrinae normam, dirigat et fingat. (9) De Symbolo ad catech., XIII: Non habebit Deum patrem, qui Ecclesiam noluerit habere matrem. (10) Ep. enc. Libertas, 20 Iun. 1888: in fide atque in institutione morum, divini magisterii Ecclesiam fecit Deus ipse participem, eamdemque divino eius beneficio falli nesciam: quare magistra mortalium est maxima ac tutissima, in eaque inest non violabile ius ad magisterii libertatem. (11) Ep. enc. Singulari quadam, 24 Sept. 1912: Quidquid homo christianus agat, etiam in ordine rerum terrenarum, non ei licet bona negligere quae sunt supra naturam, immo oportet ad summum bonum, tamquam ad ultimum finem, ex christianae sapientiae praescriptis omnia dirigat: omnes autem actiones eius, quatenus bonae aut malae sunt in genere morum, id est cum iure naturali et divino congruunt aut discrepant, iudicio et iurisdictioni Ecclesiae subsunt. (12) A. Manzoni, Observações sobre a Moral Católica, c. III. (13) Codex Iuris Canonici, c. 1375. (14) Commentar. in Matth., cap. 18: Quid mundo tam periculosum quam non recepisse Christum? (15) Cod. I. C., cc. 1381, 1382. (16) Ep. enc. Nobilissima Gallorum Gens., 8 Febr. 1884: male sana omnis futura est animorum cultura: insueti ad verecundiam Dei adolescentes nullam ferre poterunt honeste vivendi disciplinam, suisque cupiditatibus nihil unquam negare ausi, facile ad miscendas civitates pertrahentur. (17) Matth., XXVIII, 19: docete omnes gentes. (18) Discurso aos alunos do Mondragone, 14 de Maio de 1929. (19) « Deut., XXXII, 4: Dei perfecta sunt opera, et omnes viae eius indicia. (20) S. Th., 2-2, Q. CII, a. 1: Carnalis pater particulariter participat rationem principii quae universaliter invenitur in Deo… Pater est principiam et generationis et educationis et discipline, et omnium quae ad perfectionem humane vitae pertinent. (21) S. Th., 2-2, Q. X, a. 12: Filius enim naturaliter est aliquid patris…; ita de iure naturali est quod filius, antequam habeat usum rationis, sit sub cura patris. Unde contra iustitiam naturalem esset, si puer, antequam habeat usum rationis, a cura parentum subtrahatur, vel de eo aliquid ordinetur invitis parentibus. (22) Suppl. S. Th. 3. p. Q. 41, a. 1: Non enim intendit natura solum generationem prolis, sed etiam traductionem et promotionem usque ad perfectum statum hominis in quantum homo est, qui est virtutis status. (23) Cod. I. C., e. 1113: Parentes gravissima obligatione tenentur prolis educationem tum religiosam et moralem, tum physicam et civilem pro viribus curandi, et etiam temporali corum bono providendi. (24) Ep. enc. Rerum novarum, 15 Maii 1891: Filii sunt aliquid patris, et velut paternae amplificatio quaedam personae, proprieque loqui si volumus, non ipsi per se, sed per communitatem domesticam, in qua generati sunt, civilem ineunt ac participant societatem. (25) Ep. enc. Rerum novarum, 15 Maii 1891: Patria potestas est eiusmodi, ut nec extingui, neque absorberi a republica possit, quia idem et commune habet cum ipsa hominum vita principium. (26) Ep. enc. Sapientiae christianae, 10 Ian. 1890: Natura parentes habent ius suum instituendi, quos procrearint, hoc adiuncto officio, ut cum fine, cuius gratia sobolem Dei beneficio susceperunt, ipsa educatio conveniat et doctrina puerilis. Igitur parentibus est necessarium eniti et contendere, ut omnem in hoc genere propulsent iniuriam, omninoque pervincant ut sua in potestate sit educere liberos, uti par est, more christiano, maximeque prohibere scholis iis a quibus periculum est ne malum venenum imbibant impietatis. (27) Cod. I. C., c. 1113. (28) « The fundamental theory of liberty upon which all governments in this union repose excludes any general power of the State to standardize its children by forcing them to accept instruction from public teachers only. The child is not the mere creature of the State; those who nurture him and direct his destiny have the right coupled with the high duty, to recognize, and prepare him for additional duties ». U. S. Supreme Court Decision in the Oregon School Cases, June 1, 1925. (29) Carta ao Card. Secretario de Estado, 30 de Maio de 1929. (30) Cod. I. C., c. 750, § 2. S. TH., 2, 2. q. X, a. 12. (31). Discurso aos alunos de Mondragone, 14 de Maio de 1929. (32) Discurso aos alunos de Mondragone, 14 de Maio de 1929. (33) P. L. Taparelli, Saggio teor. di Diritto Naturale, n. 922; Obra nunca assaz louvada e recomendada ao estudo dos jovens universitários (cfr. o Nosso discurso de 18 de Dezembro de 1927). (34) Ep. enc. Immortale Dei, 1 Nov. 1885: Deus humani generis procurationem inter duas potestates partitus est, scilicet ecclesiasticam et civilem, alteram quidem divinis, alteram humania reines praepositam. Utraque est in suo genere maxima: habet utraque certos, quibus contineatur, terminos, eosque sua cuiusque natura causaque proxime definitos; unde aliquis velut orbis circumscribitur, in quo sua cuiusque actio iure proprio versetur. Sed quia utriusque imperium est in eosdem, cum usuvenire possit, ut res una atque eadem quamquam aliter atque aliter, sed tamen eadem res, ad utriusque ius iudiciumque pertineat, debet providentissimus Deus, a quo sunt ambae constitutae, utriusque itinera recte atque ordine composuisse. Quae autem sunt, a Deo ordinatae sunt (Rom., XIII, 1). (35) Ep. enc. Immortale Dei, 1 Nov. 1885: Itaque inter utramque potestatem quaedam intercedant necesse est ordinata colligatio: quae quidem coniunctioni non immerito comparatur, per quam anima et corpus in homine copulantur. Qualis autem et quanta ea sit, aliter iudicari non potest, nisi respiciendo, uti diximus, ad utriusque naturam, habendaque ratione excellentiae et nobilitatis causarum; cum alteri proxime maximeque propositum sit rerum mortalium curare commoda, alteri caelestia ac sempiterna bona comparare. Quidquid igitur est in rebus humanis quoquo modo sacrum, quidquid ad salutem animorum cultumve Dei pertinet, sive tale illud sit natura sua, sive rursus tale intelligatur propter causam ad quam refertur, id est omne in potestate arbitrioque Ecclesiae: cetera vero, quae civile et politicum genus complectitur, rectum est civili auctoritati esse subiecta, cum Iesus Christus iusserit, quae Caesaris sint, reddi Caesari, quae Dei, Deo. (36) Ep. 138: Proinde qui doctrinam Christi adversam dicunt esse reipublicae, dent exercitam talem, quales doctrina Christi esse milites iussit; dent tales provinciales, tales maritos, tales coniuges, tales parentes, tales filios, tales dominos, tales servos, tales reges, tales iudices, tales denique debitorum ipsius fisci redditores et exactores, quales esse praecipit doctrina christiana, et audeant eam dicere adversam esse reipublicae; imo vero non dubitent sam confiteri magnam, si obtemperetur, salutem esse reipublicae. (37) Della educazione cristiana, liv. I, e. 43. (38) Carta ao Card. Secretário de Estado, 30 de Maio de 1929. (39) Conc. Vat., Sess. 3, cap. 4. Neque solam fides et ratio inter se dissidere nunquam possunt, sed opera quoque sibi mutuam ferunt, cum recta ratio fidei fundamenta demonstret eiusque lumine illustrata rerum divinarum scientiam excolat, fides vero rationem ab erroribus liberet ac tueatur eamque multiplici cognitione instruat. Quapropter tantum abest, ut Ecclesia humanaram artium et disciplinaram culturae obsistat, ut hanc multis modie iuvet atque promoveat. Non enim commoda ab iis ad hominum vitam dimanantia aut ignorat aut despicit; fatetur immo, eas, quemadmodum a Deo scientiarum Domino profectae sunt, ita, si rite pertractentur, ad Deum iuvante eius gratia perducere. Nec sane ipsa vetat, ne huiusmodi discipline in suo quaeque ambitu propriis utantur principiis et propria methodo; sed instam hanc libertatem agnoscens, id sedulo cavet, ne divinae doetrinae repugnando errores in se suscipiant, aut fines proprios transgressae ea, quae sunt fidei, occupent et perturbent. (40) Prov., XXII, 15: Stultitia colligata est in corde pueri: et virga discipline fugabit eam. (41) Sap., VIII, 1: attingit a fine usque ad finem fortiter, et disponit omnia suaviter. (42) Io., III, 8: Spiritus ubi vult spirat. (43) Rom., VII, 23. (44) Silvio Antoniano, Dell’educazione cristiana dei figliuoli, lib. II, c. 88. (45) Matth., XVIII, 7; Vae munde a scandalis! (46) Eph., VI, 4: Patres, nolite ad iracundiam provocare filios vestros. (47) Nic. Tommaseo, Pensieri sull’educazione, Parte I, 3, 6. (48) Pius IX, Ep. Quum non sine, 14 Iul. 1864. — Syllabus, Prop. 48. —Leo XIII, alloc. Summi Pontificatus, 20 Aug. 1880, Ep. enc. Nobilissima, 8 Febr. 1884, Ep. enc. Quod multum, 22 Aug. 1886, Ep. Officio sanctissimo, 22 Dec. 1887, Ep. enc. Caritatis, 19 Mart. 1894, etc. (cfr. Cod I. C. cum Fontium Annot., c. 1374). (49) Cod. I. C., c. 1374. (50) Ep. enc. Militantis Ecclesiae, 1 Aug. 1897: Necesse est non modo certis horis doceri iuvenes religionem, sed reliquam institutionem omnem christianae pietatis sensus redolere. Id si desit, si sacer hic halitus non doctorum animos ac discentium pervadat joveatque, exiguae capientur ex qualibet doctrina utilitates; damna saepe consequentur hauri exigua. (51) P. G., t. 31, 570. (52) Inst. Or., I, 8. (53) I Thess., V, 21: omnia probate; quod bonum est tenete. (54) Seneca, Epist. 45: invenissent forsitan necessaria nisi et superflua quaesiissent. (55) Leo XIII, Ep. enc. Inscrutabili, 21 Apr. 1878: … alacrius adnitendum est, ut non solum apta ac solida institutionis methodus, sed maxime institutio ipsa catholicae fidei omnino conformis in litteris et disciplinis vigeat, praesertim autem in philosophia, ex qua recta aliarum scientiarum ratio magna ex parte dependet. (56) Oratio II, P. G., t. 35, 426: ars artium et scientia scientiarum. (57) Matth., IX, 37: Messis quidem multa, operarii autem pauei. (58) Horat., Art. poet., v. 163: cereus in vitium flecti. (59) I Cor., XV, 33: corrumpunt mores bonos colloquia mala. (60) Conf., VI, 8. (61) I Io., II, 16: concupiscentia carnis, concupiscentia oculorum et superbia vitae. (62) De Idololatria, 14: compossessores mundi, non erroris. (63) Gal., IV, 19: Filioli mei, quos iterum parturio, donec formetur Christus in vobis. (64) I Col., III, 4: Christus, vita vestra. (65) II Cor., IV, 11: ut et vita Iesu manifestetur in carne nostra mortali. (66) Horat., Od. 1. III, od. 3, v. 1: Iustum et tenacem propositi virum. (67) Apol., 42: Non sumus exules vitae. Meminimus gratiam nos debere Deo Domino Creatori; nullum fructum operum eius repudiamus; plante temperamus, ne ultra modula aut perperam utamur. Baque non sine foro, non sine macello, non sine balneis, tabernis, officinis, stabulis, nundinis vestris, caeterisque commerciis cohabitamus in hoc saeculo. Navigamus et nos vobiscum et mibitamus, et rusticamur, et mercamur, proinde miscemus artes, operas nostras publicamus usui vestro. Quomodo infructuosi videamur negotiis vestris, cum quibus et de quibus vivimus, non scio. (68) De moribus Ecclesiae catholicae, lib. I, c. 30: Merito Eccelesia catholica Mater christianorum verissima, non solum ipsum Deum, cuius adeptio vita est beatissima, purisime atque castissime colendum praedicas; sed etiam proximi dilectionem atque charitatem ta complecteris, ut variorum morborum, quibus pro peccatis suis animae aegrotant, munis apud te medicina praepolleat. Tu pueriliter pueros, fortiter iuvenes, quiete senes prout cuiusque non corporis tantum, sed et animi aetas est, exerces ac doces. Tu parentibus filios libera quadam servitute subiungis, parentes filiis pia dominatione praeponis. Tu fratribus fratres religionis vinculo firmiore atque arctiore quam sanguinis nectis… Tu ives civibus, gentes gentibus, et prorsus homines primorum parentum recordatione, non societate tantum, sed quadam etiam fraternitate coniungis. Doces Reges prospicere populis; mones populos se subdere Regibus. Quibus honor debeatur, quibus affectus, quibus reverencia, quibus timor, quibus consolatio, quibus admonitio, quibus cohortatio, quibus disciplina, quibus obiurgatio, quibus supplicium, sedulo doces; ostendens quemadmodum et non omnibus omnia, et omnibus charitas, et nulli debeatur iniuria. (69) Cfr. I Petr., II, 25: ad Pastorem et Episcopum animarum vestrarum. #JUVENTUDE #educação #EDUCAÇÃOCRISTÃDAJUVENTUDE #EDUCAÇÃOCRISTÃ #pioxi #PAPAPIOXI #DIVINIILLIUSMAGISTRI

  • CASTI CONNUBII

    CASTI CONNUBII ENCYCLICAL OF POPE PIUS XI ON CHRISTIAN MARRIAGE TO THE VENERABLE BRETHREN, PATRIARCHS, PRIMATES, ARCHBISHOPS, BISHOPS, AND OTHER LOCAL ORDINARIES ENJOYING PEACE AND COMMUNION WITH THE APOSTOLIC SEE. Venerable Brethren and Beloved Children, Health and Apostolic Benediction. How great is the dignity of chaste wedlock, Venerable Brethren, may be judged best from this that Christ Our Lord, Son of the Eternal Father, having assumed the nature of fallen man, not only, with His loving desire of compassing the redemption of our race, ordained it in an especial manner as the principle and foundation of domestic society and therefore of all human intercourse, but also raised it to the rank of a truly and great sacrament of the New Law, restored it to the original purity of its divine institution, and accordingly entrusted all its discipline and care to His spouse the Church. In order, however, that amongst men of every nation and every age the desired fruits may be obtained from this renewal of matrimony, it is necessary, first of all, that men’s minds be illuminated with the true doctrine of Christ regarding it; and secondly, that Christian spouses, the weakness of their wills strengthened by the internal grace of God, shape all their ways of thinking and of acting in conformity with that pure law of Christ so as to obtain true peace and happiness for themselves and for their families. Yet not only do We, looking with paternal eye on the universal world from this Apostolic See as from a watch-tower, but you, also, Venerable Brethren, see, and seeing deeply grieve with Us that a great number of men, forgetful of that divine work of redemption, either entirely ignore or shamelessly deny the great sanctity of Christian wedlock, or relying on the false principles of a new and utterly perverse morality, too often trample it under foot. And since these most pernicious errors and depraved morals have begun to spread even amongst the faithful and are gradually gaining ground, in Our office as Christ’s Vicar upon earth and Supreme Shepherd and Teacher We consider it Our duty to raise Our voice to keep the flock committed to Our care from poisoned pastures and, as far as in Us lies, to preserve it from harm. We have decided therefore to speak to you, Venerable Brethren, and through you to the whole Church of Christ and indeed to the whole human race, on the nature and dignity of Christian marriage, on the advantages and benefits which accrue from it to the family and to human society itself, on the errors contrary to this most important point of the Gospel teaching, on the vices opposed to conjugal union, and lastly on the principal remedies to be applied. In so doing We follow the footsteps of Our predecessor, Leo XIII, of happy memory, whose EncyclicalArcanum,[1] published fifty years ago, We hereby confirm and make Our own, and while We wish to expound more fully certain points called for by the circumstances of our times, nevertheless We declare that, far from being obsolete, it retains its full force at the present day. And to begin with that same Encyclical, which is wholly concerned in vindicating the divine institution of matrimony, its sacramental dignity, and its perpetual stability, let it be repeated as an immutable and inviolable fundamental doctrine that matrimony was not instituted or restored by man but by God; not by man were the laws made to strengthen and confirm and elevate it but by God, the Author of nature, and by Christ Our Lord by Whom nature was redeemed, and hence these laws cannot be subject to any human decrees or to any contrary pact even of the spouses themselves. This is the doctrine of Holy Scripture;[2] this is the constant tradition of the Universal Church; this the solemn definition of the sacred Council of Trent, which declares and establishes from the words of Holy Writ itself that God is the Author of the perpetual stability of the marriage bond, its unity and its firmness.[3] Yet although matrimony is of its very nature of divine institution, the human will, too, enters into it and performs a most noble part. For each individual marriage, inasmuch as it is a conjugal union of a particular man and woman, arises only from the free consent of each of the spouses; and this free act of the will, by which each party hands over and accepts those rights proper to the state of marriage,[4] is so necessary to constitute true marriage that it cannot be supplied by any human power.[5] This freedom, however, regards only the question whether the contracting parties really wish to enter upon matrimony or to marry this particular person; but the nature of matrimony is entirely independent of the free will of man, so that if one has once contracted matrimony he is thereby subject to its divinely made laws and its essential properties. For the Angelic Doctor, writing on conjugal honor and on the offspring which is the fruit of marriage, says: “These things are so contained in matrimony by the marriage pact itself that, if anything to the contrary were expressed in the consent which makes the marriage, it would not be a true marriage.”[6] By matrimony, therefore, the souls of the contracting parties are joined and knit together more directly and more intimately than are their bodies, and that not by any passing affection of sense of spirit, but by a deliberate and firm act of the will; and from this union of souls by God’s decree, a sacred and inviolable bond arises. Hence the nature of this contract, which is proper and peculiar to it alone, makes it entirely different both from the union of animals entered into by the blind instinct of nature alone in which neither reason nor free will plays a part, and also from the haphazard unions of men, which are far removed from all true and honorable unions of will and enjoy none of the rights of family life. From this it is clear that legitimately constituted authority has the right and therefore the duty to restrict, to prevent, and to punish those base unions which are opposed to reason and to nature; but since it is a matter which flows from human nature itself, no less certain is the teaching of Our predecessor, Leo XIII of happy memory:[7] “In choosing a state of life there is no doubt but that it is in the power and discretion of each one to prefer one or the other: either to embrace the counsel of virginity given by Jesus Christ, or to bind himself in the bonds of matrimony. To take away from man the natural and primeval right of marriage, to circumscribe in any way the principal ends of marriage laid down in the beginning by God Himself in the words ‘Increase and multiply,'[8] is beyond the power of any human law.” Therefore the sacred partnership of true marriage is constituted both by the will of God and the will of man. From God comes the very institution of marriage, the ends for which it was instituted, the laws that govern it, the blessings that flow from it; while man, through generous surrender of his own person made to another for the whole span of life, becomes, with the help and cooperation of God, the author of each particular marriage, with the duties and blessings annexed thereto from divine institution. Now when We come to explain, Venerable Brethren, what are the blessings that God has attached to true matrimony, and how great they are, there occur to Us the words of that illustrious Doctor of the Church whom We commemorated recently in Our EncyclicalAd salutemon the occasion of the fifteenth centenary of his death:[9] “These,” says St. Augustine, “are all the blessings of matrimony on account of which matrimony itself is a blessing; offspring, conjugal faith and the sacrament.”[10] And how under these three heads is contained a splendid summary of the whole doctrine of Christian marriage, the holy Doctor himself expressly declares when he said: “By conjugal faith it is provided that there should be no carnal intercourse outside the marriage bond with another man or woman; with regard to offspring, that children should be begotten of love, tenderly cared for and educated in a religious atmosphere; finally, in its sacramental aspect that the marriage bond should not be broken and that a husband or wife, if separated, should not be joined to another even for the sake of offspring. This we regard as the law of marriage by which the fruitfulness of nature is adorned and the evil of incontinence is restrained.”[11] Thus amongst the blessings of marriage, the child holds the first place. And indeed the Creator of the human race Himself, Who in His goodness wishes to use men as His helpers in the propagation of life, taught this when, instituting marriage in Paradise, He said to our first parents, and through them to all future spouses: “Increase and multiply, and fill the earth.”[12] As St. Augustine admirably deduces from the words of the holy Apostle Saint Paul to Timothy[13] when he says: “The Apostle himself is therefore a witness that marriage is for the sake of generation: ‘I wish,’ he says, ‘young girls to marry.’ And, as if someone said to him, ‘Why?,’ he immediately adds: ‘To bear children, to be mothers of families’.”[14] How great a boon of God this is, and how great a blessing of matrimony is clear from a consideration of man’s dignity and of his sublime end. For man surpasses all other visible creatures by the superiority of his rational nature alone. Besides, God wishes men to be born not only that they should live and fill the earth, but much more that they may be worshippers of God, that they may know Him and love Him and finally enjoy Him for ever in heaven; and this end, since man is raised by God in a marvelous way to the supernatural order, surpasses all that eye hath seen, and ear heard, and all that hath entered into the heart of man.[15] From which it is easily seen how great a gift of divine goodness and how remarkable a fruit of marriage are children born by the omnipotent power of God through the cooperation of those bound in wedlock. But Christian parents must also understand that they are destined not only to propagate and preserve the human race on earth, indeed not only to educate any kind of worshippers of the true God, but children who are to become members of the Church of Christ, to raise up fellow-citizens of the Saints, and members of God’s household,[16] that the worshippers of God and Our Savior may daily increase. For although Christian spouses even if sanctified themselves cannot transmit sanctification to their progeny, nay, although the very natural process of generating life has become the way of death by which original sin is passed on to posterity, nevertheless, they share to some extent in the blessings of that primeval marriage of Paradise, since it is theirs to offer their offspring to the Church in order that by this most fruitful Mother of the children of God they may be regenerated through the laver of Baptism unto supernatural justice and finally be made living members of Christ, partakers of immortal life, and heirs of that eternal glory to which we all aspire from our inmost heart. If a true Christian mother weigh well these things, she will indeed understand with a sense of deep consolation that of her the words of Our Savior were spoken: “A woman . . . when she hath brought forth the child remembereth no more the anguish, for joy that a man is born into the world”;[17] and proving herself superior to all the pains and cares and solicitudes of her maternal office with a more just and holy joy than that of the Roman matron, the mother of the Gracchi, she will rejoice in the Lord crowned as it were with the glory of her offspring. Both husband and wife, however, receiving these children with joy and gratitude from the hand of God, will regard them as a talent committed to their charge by God, not only to be employed for their own advantage or for that of an earthly commonwealth, but to be restored to God with interest on the day of reckoning. The blessing of offspring, however, is not completed by the mere begetting of them, but something else must be added, namely the proper education of the offspring. For the most wise God would have failed to make sufficient provision for children that had been born, and so for the whole human race, if He had not given to those to whom He had entrusted the power and right to beget them, the power also and the right to educate them. For no one can fail to see that children are incapable of providing wholly for themselves, even in matters pertaining to their natural life, and much less in those pertaining to the supernatural, but require for many years to be helped, instructed, and educated by others. Now it is certain that both by the law of nature and of God this right and duty of educating their offspring belongs in the first place to those who began the work of nature by giving them birth, and they are indeed forbidden to leave unfinished this work and so expose it to certain ruin. But in matrimony provision has been made in the best possible way for this education of children that is so necessary, for, since the parents are bound together by an indissoluble bond, the care and mutual help of each is always at hand. Since, however, We have spoken fully elsewhere on the Christian education of youth,[18] let Us sum it all up by quoting once more the words of St. Augustine: “As regards the offspring it is provided that they should be begotten lovingly and educated religiously,”[19] – and this is also expressed succinctly in the Code of Canon Law – “The primary end of marriage is the procreation and the education of children.”[20] Nor must We omit to remark, in fine, that since the duty entrusted to parents for the good of their children is of such high dignity and of such great importance, every use of the faculty given by God for the procreation of new life is the right and the privilege of the married state alone, by the law of God and of nature, and must be confined absolutely within the sacred limits of that state. The second blessing of matrimony which We said was mentioned by St. Augustine, is the blessing of conjugal honor which consists in the mutual fidelity of the spouses in fulfilling the marriage contract, so that what belongs to one of the parties by reason of this contract sanctioned by divine law, may not be denied to him or permitted to any third person; nor may there be conceded to one of the parties anything which, being contrary to the rights and laws of God and entirely opposed to matrimonial faith, can never be conceded. Wherefore, conjugal faith, or honor, demands in the first place the complete unity of matrimony which the Creator Himself laid down in the beginning when He wished it to be not otherwise than between one man and one woman. And although afterwards this primeval law was relaxed to some extent by God, the Supreme Legislator, there is no doubt that the law of the Gospel fully restored that original and perfect unity, and abrogated all dispensations as the words of Christ and the constant teaching and action of the Church show plainly. With reason, therefore, does the Sacred Council of Trent solemnly declare: “Christ Our Lord very clearly taught that in this bond two persons only are to be united and joined together when He said: ‘Therefore they are no longer two, but one flesh’.”[21] Nor did Christ Our Lord wish only to condemn any form of polygamy or polyandry, as they are called, whether successive or simultaneous, and every other external dishonorable act, but, in order that the sacred bonds of marriage may be guarded absolutely inviolate, He forbade also even willful thoughts and desires of such like things: “But I say to you, that whosoever shall look on a woman to lust after her hath already committed adultery with her in his heart.”[22] Which words of Christ Our Lord cannot be annulled even by the consent of one of the partners of marriage for they express a law of God and of nature which no will of man can break or bend.[23] Nay, that mutual familiar intercourse between the spouses themselves, if the blessing of conjugal faith is to shine with becoming splendor, must be distinguished by chastity so that husband and wife bear themselves in all things with the law of God and of nature, and endeavor always to follow the will of their most wise and holy Creator with the greatest reverence toward the work of God. This conjugal faith, however, which is most aptly called by St. Augustine the “faith of chastity” blooms more freely, more beautifully and more nobly, when it is rooted in that more excellent soil, the love of husband and wife which pervades all the duties of married life and holds pride of place in Christian marriage. For matrimonial faith demands that husband and wife be joined in an especially holy and pure love, not as adulterers love each other, but as Christ loved the Church. This precept the Apostle laid down when he said: “Husbands, love your wives as Christ also loved the Church,”[24] that Church which of a truth He embraced with a boundless love not for the sake of His own advantage, but seeking only the good of His Spouse.[25] The love, then, of which We are speaking is not that based on the passing lust of the moment nor does it consist in pleasing words only, but in the deep attachment of the heart which is expressed in action, since love is proved by deeds.[26] This outward expression of love in the home demands not only mutual help but must go further; must have as its primary purpose that man and wife help each other day by day in forming and perfecting themselves in the interior life, so that through their partnership in life they may advance ever more and more in virtue, and above all that they may grow in true love toward God and their neighbor, on which indeed “dependeth the whole Law and the Prophets.”[27] For all men of every condition, in whatever honorable walk of life they may be, can and ought to imitate that most perfect example of holiness placed before man by God, namely Christ Our Lord, and by God’s grace to arrive at the summit of perfection, as is proved by the example set us of many saints. This mutual molding of husband and wife, this determined effort to perfect each other, can in a very real sense, as the Roman Catechism teaches, be said to be the chief reason and purpose of matrimony, provided matrimony be looked at not in the restricted sense as instituted for the proper conception and education of the child, but more widely as the blending of life as a whole and the mutual interchange and sharing thereof. By this same love it is necessary that all the other rights and duties of the marriage state be regulated as the words of the Apostle: “Let the husband render the debt to the wife, and the wife also in like manner to the husband,”[28] express not only a law of justice but of charity. Domestic society being confirmed, therefore, by this bond of love, there should flourish in it that “order of love,” as St. Augustine calls it. This order includes both the primacy of the husband with regard to the wife and children, the ready subjection of the wife and her willing obedience, which the Apostle commends in these words: “Let women be subject to their husbands as to the Lord, because the husband is the head of the wife, and Christ is the head of the Church.”[29] This subjection, however, does not deny or take away the liberty which fully belongs to the woman both in view of her dignity as a human person, and in view of her most noble office as wife and mother and companion; nor does it bid her obey her husband’s every request if not in harmony with right reason or with the dignity due to wife; nor, in fine, does it imply that the wife should be put on a level with those persons who in law are called minors, to whom it is not customary to allow free exercise of their rights on account of their lack of mature judgment, or of their ignorance of human affairs. But it forbids that exaggerated liberty which cares not for the good of the family; it forbids that in this body which is the family, the heart be separated from the head to the great detriment of the whole body and the proximate danger of ruin. For if the man is the head, the woman is the heart, and as he occupies the chief place in ruling, so she may and ought to claim for herself the chief place in love. Again, this subjection of wife to husband in its degree and manner may vary according to the different conditions of persons, place and time. In fact, if the husband neglect his duty, it falls to the wife to take his place in directing the family. But the structure of the family and its fundamental law, established and confirmed by God, must always and everywhere be maintained intact . With great wisdom Our predecessor Leo XIII, of happy memory, in the Encyclical on Christian marriage which We have already mentioned, speaking of this order to be maintained between man and wife, teaches: “The man is the ruler of the family, and the head of the woman; but because she is flesh of his flesh and bone of his bone, let her be subject and obedient to the man, not as a servant but as a companion, so that nothing be lacking of honor or of dignity in the obedience which she pays. Let divine charity be the constant guide of their mutual relations, both in him who rules and in her who obeys, since each bears the image, the one of Christ, the other of the Church.”[30] These, then, are the elements which compose the blessing of conjugal faith: unity, chastity, charity, honorable noble obedience, which are at the same time an enumeration of the benefits which are bestowed on husband and wife in their married state, benefits by which the peace, the dignity and the happiness of matrimony are securely preserved and fostered. Wherefore it is not surprising that this conjugal faith has always been counted amongst the most priceless and special blessings of matrimony. But this accumulation of benefits is completed and, as it were, crowned by that blessing of Christian marriage which in the words of St. Augustine we have called the sacrament, by which is denoted both the indissolubility of the bond and the raising and hallowing of the contract by Christ Himself, whereby He made it an efficacious sign of grace. In the first place Christ Himself lays stress on the indissolubility and firmness of the marriage bond when He says: “What God hath joined together let no man put asunder,”[31] and: “Everyone that putteth away his wife and marrieth another committeth adultery, and he that marrieth her that is put away from her husband committeth adultery.”[32] And St. Augustine clearly places what he calls the blessing of matrimony in this indissolubility when he says: “In the sacrament it is provided that the marriage bond should not be broken, and that a husband or wife, if separated, should not be joined to another even for the sake of offspring.”[33] And this inviolable stability, although not in the same perfect measure in every case, belongs to every true marriage, for the word of the Lord: “What God hath joined together let no man put asunder,” must of necessity include all true marriages without exception, since it was spoken of the marriage of our first parents, the prototype of every future marriage. Therefore although before Christ the sublimeness and the severity of the primeval law was so tempered that Moses permitted to the chosen people of God on account of the hardness of their hearts that a bill of divorce might be given in certain circumstances, nevertheless, Christ, by virtue of His supreme legislative power, recalled this concession of greater liberty and restored the primeval law in its integrity by those words which must never be forgotten, “What God hath joined together let no man put asunder.” Wherefore, Our predecessor Pius VI of happy memory, writing to the Bishop of Agria, most wisely said: “Hence it is clear that marriage even in the state of nature, and certainly long before it was raised to the dignity of a sacrament, was divinely instituted in such a way that it should carry with it a perpetual and indissoluble bond which cannot therefore be dissolved by any civil law. Therefore although the sacramental element may be absent from a marriage as is the case among unbelievers, still in such a marriage, inasmuch as it is a true marriage there must remain and indeed there does remain that perpetual bond which by divine right is so bound up with matrimony from its first institution that it is not subject to any civil power. And so, whatever marriage is said to be contracted, either it is so contracted that it is really a true marriage, in which case it carries with it that enduring bond which by divine right is inherent in every true marriage; or it is thought to be contracted without that perpetual bond, and in that case there is no marriage, but an illicit union opposed of its very nature to the divine law, which therefore cannot be entered into or maintained.”[34] And if this stability seems to be open to exception, however rare the exception may be, as in the case of certain natural marriages between unbelievers, or amongst Christians in the case of those marriages which though valid have not been consummated, that exception does not depend on the will of men nor on that of any merely human power, but on divine law, of which the only guardian and interpreter is the Church of Christ. However, not even this power can ever affect for any cause whatsoever a Christian marriage which is valid and has been consummated, for as it is plain that here the marriage contract has its full completion, so, by the will of God, there is also the greatest firmness and indissolubility which may not be destroyed by any human authority. If we wish with all reverence to inquire into the intimate reason of this divine decree, Venerable Brethren, we shall easily see it in the mystical signification of Christian marriage which is fully and perfectly verified in consummated marriage between Christians. For, as the Apostle says in his Epistle to the Ephesians,[35] the marriage of Christians recalls that most perfect union which exists between Christ and the Church: “Sacramentum hoc magnum est, ego autem dico, in Christo et in ecclesia;” which union, as long as Christ shall live and the Church through Him, can never be dissolved by any separation. And this St. Augustine clearly declares in these words: “This is safeguarded in Christ and the Church, which, living with Christ who lives for ever may never be divorced from Him. The observance of this sacrament is such in the City of God . . . that is, in the Church of Christ, that when for the sake of begetting children, women marry or are taken to wife, it is wrong to leave a wife that is sterile in order to take another by whom children may be hand. Anyone doing this is guilty of adultery, just as if he married another, guilty not by the law of the day, according to which when one’s partner is put away another may be taken, which the Lord allowed in the law of Moses because of the hardness of the hearts of the people of Israel; but by the law of the Gospel.”[36] Indeed, how many and how important are the benefits which flow from the indissolubility of matrimony cannot escape anyone who gives even a brief consideration either to the good of the married parties and the offspring or to the welfare of human society. First of all, both husband and wife possess a positive guarantee of the endurance of this stability which that generous yielding of their persons and the intimate fellowship of their hearts by their nature strongly require, since true love never falls away.[37] Besides, a strong bulwark is set up in defense of a loyal chastity against incitements to infidelity, should any be encountered either from within or from without; any anxious fear lest in adversity or old age the other spouse would prove unfaithful is precluded and in its place there reigns a calm sense of security. Moreover, the dignity of both man and wife is maintained and mutual aid is most satisfactorily assured, while through the indissoluble bond, always enduring, the spouses are warned continuously that not for the sake of perishable things nor that they may serve their passions, but that they may procure one for the other high and lasting good have they entered into the nuptial partnership, to be dissolved only by death. In the training and education of children, which must extend over a period of many years, it plays a great part, since the grave and long enduring burdens of this office are best borne by the united efforts of the parents. Nor do lesser benefits accrue to human society as a whole. For experience has taught that unassailable stability in matrimony is a fruitful source of virtuous life and of habits of integrity. Where this order of things obtains, the happiness and well being of the nation is safely guarded; what the families and individuals are, so also is the State, for a body is determined by its parts. Wherefore, both for the private good of husband, wife and children, as likewise for the public good of human society, they indeed deserve well who strenuously defend the inviolable stability of matrimony. But considering the benefits of the Sacrament, besides the firmness and indissolubility, there are also much higher emoluments as the word “sacrament” itself very aptly indicates; for to Christians this is not a meaningless and empty name. Christ the Lord, the Institutor and “Perfecter” of the holy sacraments,[38] by raising the matrimony of His faithful to the dignity of a true sacrament of the New Law, made it a sign and source of that peculiar internal grace by which “it perfects natural love, it confirms an indissoluble union, and sanctifies both man and wife.”[39] And since the valid matrimonial consent among the faithful was constituted by Christ as a sign of grace, the sacramental nature is so intimately bound up with Christian wedlock that there can be no true marriage between baptized persons “without it being by that very fact a sacrament.”[40] By the very fact, therefore, that the faithful with sincere mind give such consent, they open up for themselves a treasure of sacramental grace from which they draw supernatural power for the fulfilling of their rights and duties faithfully, holily, perseveringly even unto death. Hence this sacrament not only increases sanctifying grace, the permanent principle of the supernatural life, in those who, as the expression is, place no obstacle (obex) in its way, but also adds particular gifts, dispositions, seeds of grace, by elevating and perfecting the natural powers. By these gifts the parties are assisted not only in understanding, but in knowing intimately, in adhering to firmly, in willing effectively, and in successfully putting into practice, those things which pertain to the marriage state, its aims and duties, giving them in fine right to the actual assistance of grace, whensoever they need it for fulfilling the duties of their state. Nevertheless, since it is a law of divine Providence in the supernatural order that men do not reap the full fruit of the Sacraments which they receive after acquiring the use of reason unless they cooperate with grace, the grace of matrimony will remain for the most part an unused talent hidden in the field unless the parties exercise these supernatural powers and cultivate and develop the seeds of grace they have received. If, however, doing all that lies with their power, they cooperate diligently, they will be able with ease to bear the burdens of their state and to fulfill their duties. By such a sacrament they will be strengthened, sanctified and in a manner consecrated. For, as St. Augustine teaches, just as by Baptism and Holy Orders a man is set aside and assisted either for the duties of Christian life or for the priestly office and is never deprived of their sacramental aid, almost in the same way (although not by a sacramental character), the faithful once joined by marriage ties can never be deprived of the help and the binding force of the sacrament. Indeed, as the Holy Doctor adds, even those who commit adultery carry with them that sacred yoke, although in this case not as a title to the glory of grace but for the ignominy of their guilty action, “as the soul by apostasy, withdrawing as it were from marriage with Christ, even though it may have lost its faith, does not lose the sacrament of Faith which it received at the laver of regeneration.”[41] These parties, let it be noted, not fettered but adorned by the golden bond of the sacrament, not hampered but assisted, should strive with all their might to the end that their wedlock, not only through the power and symbolism of the sacrament, but also through their spirit and manner of life, may be and remain always the living image of that most fruitful union of Christ with the Church, which is to venerated as the sacred token of most perfect love. All of these things, Venerable Brethren, you must consider carefully and ponder over with a lively faith if you would see in their true light the extraordinary benefits on matrimony – offspring, conjugal faith, and the sacrament. No one can fail to admire the divine Wisdom, Holiness and Goodness which, while respecting the dignity and happiness of husband and wife, has provided so bountifully for the conservation and propagation of the human race by a single chaste and sacred fellowship of nuptial union. When we consider the great excellence of chaste wedlock, Venerable Brethren, it appears all the more regrettable that particularly in our day we should witness this divine institution often scorned and on every side degraded. For now, alas, not secretly nor under cover, but openly, with all sense of shame put aside, now by word again by writings, by theatrical productions of every kind, by romantic fiction, by amorous and frivolous novels, by cinematographs portraying in vivid scene, in addresses broadcast by radio telephony, in short by all the inventions of modern science, the sanctity of marriage is trampled upon and derided; divorce, adultery, all the basest vices either are extolled or at least are depicted in such colors as to appear to be free of all reproach and infamy. Books are not lacking which dare to pronounce themselves as scientific but which in truth are merely coated with a veneer of science in order that they may the more easily insinuate their ideas. The doctrines defended in these are offered for sale as the productions of modern genius, of that genius namely, which, anxious only for truth, is considered to haveemancipateditself from all those old-fashioned and immature opinions of the ancients; and to the number of these antiquated opinions they relegate the traditional doctrine of Christian marriage. These thoughts are instilled into men of every class, rich and poor, masters and workers, lettered and unlettered, married and single, the godly and godless, old and young, but for these last, as easiest prey, the worst snares are laid. Not all the sponsors of these new doctrines are carried to the extremes of unbridled lust; there are those who, striving as it were to ride a middle course, believe nevertheless that something should be conceded in our times as regards certain precepts of the divine and natural law. But these likewise, more or less wittingly, are emissaries of the great enemy who is ever seeking to sow cockle among the wheat.[42] We, therefore, whom the Father has appointed over His field, We who are bound by Our most holy office to take care lest the good seed be choked by the weeds, believe it fitting to apply to Ourselves the most grave words of the Holy Ghost with which the Apostle Paul exhorted his beloved Timothy: “Be thou vigilant . . . Fulfill thy ministry . . . Preach the word, be instant in season, out of season, reprove, entreat, rebuke in all patience and doctrine.”[43] And since, in order that the deceits of the enemy may be avoided, it is necessary first of all that they be laid bare; since much is to be gained by denouncing these fallacies for the sake of the unwary, even though We prefer not to name these iniquities “as becometh saints,”[44] yet for the welfare of souls We cannot remain altogether silent. To begin at the very source of these evils, their basic principle lies in this, that matrimony is repeatedly declared to be not instituted by the Author of nature nor raised by Christ the Lord to the dignity of a true sacrament, but invented by man. Some confidently assert that they have found no evidence of the existence of matrimony in nature or in her laws, but regard it merely as the means of producing life and of gratifying in one way or another a vehement impulse; on the other hand, others recognize that certain beginnings or, as it were, seeds of true wedlock are found in the nature of man since, unless men were bound together by some form of permanent tie, the dignity of husband and wife or the natural end of propagating and rearing the offspring would not receive satisfactory provision. At the same time they maintain that in all beyond this germinal idea matrimony, through various concurrent causes, is invented solely by the mind of man, established solely by his will. How grievously all these err and how shamelessly they leave the ways of honesty is already evident from what we have set forth here regarding the origin and nature of wedlock, its purposes and the good inherent in it. The evil of this teaching is plainly seen from the consequences which its advocates deduce from it, namely, that the laws, institutions and customs by which wedlock is governed, since they take their origin solely from the will of man, are subject entirely to him, hence can and must be founded, changed and abrogated according to human caprice and the shifting circumstances of human affairs; that the generative power which is grounded in nature itself is more sacred and has wider range than matrimony – hence it may be exercised both outside as well as within the confines of wedlock, and though the purpose of matrimony be set aside, as though to suggest that the license of a base fornicating woman should enjoy the same rights as the chaste motherhood of a lawfully wedded wife. Armed with these principles, some men go so far as to concoct new species of unions, suited, as they say, to the present temper of men and the times, which various new forms of matrimony they presume to label “temporary,” “experimental,” and “companionate.” These offer all the indulgence of matrimony and its rights without, however, the indissoluble bond, and without offspring, unless later the parties alter their cohabitation into a matrimony in the full sense of the law. Indeed there are some who desire and insist that these practices be legitimatized by the law or, at least, excused by their general acceptance among the people. They do not seem even to suspect that these proposals partake of nothing of the modern “culture” in which they glory so much, but are simply hateful abominations which beyond all question reduce our truly cultured nations to the barbarous standards of savage peoples. And now, Venerable Brethren, we shall explain in detail the evils opposed to each of the benefits of matrimony. First consideration is due to the offspring, which many have the boldness to call the disagreeable burden of matrimony and which they say is to be carefully avoided by married people not through virtuous continence (which Christian law permits in matrimony when both parties consent) but by frustrating the marriage act. Some justify this criminal abuse on the ground that they are weary of children and wish to gratify their desires without their consequent burden. Others say that they cannot on the one hand remain continent nor on the other can they have children because of the difficulties whether on the part of the mother or on the part of family circumstances. But no reason, however grave, may be put forward by which anything intrinsically against nature may become conformable to nature and morally good. Since, therefore, the conjugal act is destined primarily by nature for the begetting of children, those who in exercising it deliberately frustrate its natural power and purpose sin against nature and commit a deed which is shameful and intrinsically vicious. Small wonder, therefore, if Holy Writ bears witness that the Divine Majesty regards with greatest detestation this horrible crime and at times has punished it with death. As St. Augustine notes, “Intercourse even with one’s legitimate wife is unlawful and wicked where the conception of the offspring is prevented. Onan, the son of Juda, did this and the Lord killed him for it.”[45] Since, therefore, openly departing from the uninterrupted Christian tradition some recently have judged it possible solemnly to declare another doctrine regarding this question, the Catholic Church, to whom God has entrusted the defense of the integrity and purity of morals, standing erect in the midst of the moral ruin which surrounds her, in order that she may preserve the chastity of the nuptial union from being defiled by this foul stain, raises her voice in token of her divine ambassadorship and through Our mouth proclaims anew: any use whatsoever of matrimony exercised in such a way that the act is deliberately frustrated in its natural power to generate life is an offense against the law of God and of nature, and those who indulge in such are branded with the guilt of a grave sin. We admonish, therefore, priests who hear confessions and others who have the care of souls, in virtue of Our supreme authority and in Our solicitude for the salvation of souls, not to allow the faithful entrusted to them to err regarding this most grave law of God; much more, that they keep themselves immune from such false opinions, in no way conniving in them. If any confessor or pastor of souls, which may God forbid, lead the faithful entrusted to him into these errors or should at least confirm them by approval or by guilty silence, let him be mindful of the fact that he must render a strict account to God, the Supreme Judge, for the betrayal of his sacred trust, and let him take to himself the words of Christ: “They are blind and leaders of the blind: and if the blind lead the blind, both fall into the pit.[46] As regards the evil use of matrimony, to pass over the arguments which are shameful, not infrequently others that are false and exaggerated are put forward. Holy Mother Church very well understands and clearly appreciates all that is said regarding the health of the mother and the danger to her life. And who would not grieve to think of these things? Who is not filled with the greatest admiration when he sees a mother risking her life with heroic fortitude, that she may preserve the life of the offspring which she has conceived? God alone, all bountiful and all merciful as He is, can reward her for the fulfillment of the office allotted to her by nature, and will assuredly repay her in a measure full to overflowing.[47] Holy Church knows well that not infrequently one of the parties is sinned against rather than sinning, when for a grave cause he or she reluctantly allows the perversion of the right order. In such a case, there is no sin, provided that, mindful of the law of charity, he or she does not neglect to seek to dissuade and to deter the partner from sin. Nor are those considered as acting against nature who in the married state use their right in the proper manner although on account of natural reasons either of time or of certain defects, new life cannot be brought forth. For in matrimony as well as in the use of the matrimonial rights there are also secondary ends, such as mutual aid, the cultivating of mutual love, and the quieting of concupiscence which husband and wife are not forbidden to consider so long as they are subordinated to the primary end and so long as the intrinsic nature of the act is preserved. We are deeply touched by the sufferings of those parents who, in extreme want, experience great difficulty in rearing their children. However, they should take care lest the calamitous state of their external affairs should be the occasion for a much more calamitous error. No difficulty can arise that justifies the putting aside of the law of God which forbids all acts intrinsically evil. There is no possible circumstance in which husband and wife cannot, strengthened by the grace of God, fulfill faithfully their duties and preserve in wedlock their chastity unspotted. This truth of Christian Faith is expressed by the teaching of the Council of Trent. “Let no one be so rash as to assert that which the Fathers of the Council have placed under anathema, namely, that there are precepts of God impossible for the just to observe. God does not ask the impossible, but by His commands, instructs you to do what you are able, to pray for what you are not able that He may help you.”[48] This same doctrine was again solemnly repeated and confirmed by the Church in the condemnation of the Jansenist heresy which dared to utter this blasphemy against the goodness of God: “Some precepts of God are, when one considers the powers which man possesses, impossible of fulfillment even to the just who wish to keep the law and strive to do so; grace is lacking whereby these laws could be fulfilled.”[49] But another very grave crime is to be noted, Venerable Brethren, which regards the taking of the life of the offspring hidden in the mother’s womb. Some wish it to be allowed and left to the will of the father or the mother; others say it is unlawful unless there are weighty reasons which they call by the name of medical, social, or eugenic “indication.” Because this matter falls under the penal laws of the state by which the destruction of the offspring begotten but unborn is forbidden, these people demand that the “indication,” which in one form or another they defend, be recognized as such by the public law and in no way penalized. There are those, moreover, who ask that the public authorities provide aid for these death-dealing operations, a thing, which, sad to say, everyone knows is of very frequent occurrence in some places. As to the “medical and therapeutic indication” to which, using their own words, we have made reference, Venerable Brethren, however much we may pity the mother whose health and even life is gravely imperiled in the performance of the duty allotted to her by nature, nevertheless what could ever be a sufficient reason for excusing in any way the direct murder of the innocent? This is precisely what we are dealing with here. Whether inflicted upon the mother or upon the child, it is against the precept of God and the law of nature: “Thou shalt not kill:”[50] The life of each is equally sacred, and no one has the power, not even the public authority, to destroy it. It is of no use to appeal to the right of taking away life for here it is a question of the innocent, whereas that right has regard only to the guilty; nor is there here question of defense by bloodshed against an unjust aggressor (for who would call an innocent child an unjust aggressor?); again there is not question here of what is called the “law of extreme necessity” which could even extend to the direct killing of the innocent. Upright and skillful doctors strive most praiseworthily to guard and preserve the lives of both mother and child; on the contrary, those show themselves most unworthy of the noble medical profession who encompass the death of one or the other, through a pretense at practicing medicine or through motives of misguided pity. All of which agrees with the stern words of the Bishop of Hippo in denouncing those wicked parents who seek to remain childless, and failing in this, are not ashamed to put their offspring to death: “Sometimes this lustful cruelty or cruel lust goes so far as to seek to procure a baneful sterility, and if this fails the fetus conceived in the womb is in one way or another smothered or evacuated, in the desire to destroy the offspring before it has life, or if it already lives in the womb, to kill it before it is born. If both man and woman are party to such practices they are not spouses at all; and if from the first they have carried on thus they have come together not for honest wedlock, but for impure gratification; if both are not party to these deeds, I make bold to say that either the one makes herself a mistress of the husband, or the other simply the paramour of his wife.”[51] What is asserted in favor of the social and eugenic “indication” may and must be accepted, provided lawful and upright methods are employed within the proper limits; but to wish to put forward reasons based upon them for the killing of the innocent is unthinkable and contrary to the divine precept promulgated in the words of the Apostle: Evil is not to be done that good may come of it.[52] Those who hold the reins of government should not forget that it is the duty of public authority by appropriate laws and sanctions to defend the lives of the innocent, and this all the more so since those whose lives are endangered and assailed cannot defend themselves. Among whom we must mention in the first place infants hidden in the mother’s womb. And if the public magistrates not only do not defend them, but by their laws and ordinances betray them to death at the hands of doctors or of others, let them remember that God is the Judge and Avenger of innocent blood which cried from earth to Heaven.[53] Finally, that pernicious practice must be condemned which closely touches upon the natural right of man to enter matrimony but affects also in a real way the welfare of the offspring. For there are some who over solicitous for the cause of eugenics, not only give salutary counsel for more certainly procuring the strength and health of the future child – which, indeed, is not contrary to right reason – but put eugenics before aims of a higher order, and by public authority wish to prevent from marrying all those whom, even though naturally fit for marriage, they consider, according to the norms and conjectures of their investigations, would, through hereditary transmission, bring forth defective offspring. And more, they wish to legislate to deprive these of that natural faculty by medical action despite their unwillingness; and this they do not propose as an infliction of grave punishment under the authority of the state for a crime committed, not to prevent future crimes by guilty persons, but against every right and good they wish the civil authority to arrogate to itself a power over a faculty which it never had and can never legitimately possess. Those who act in this way are at fault in losing sight of the fact that the family is more sacred than the State and that men are begotten not for the earth and for time, but for Heaven and eternity. Although often these individuals are to be dissuaded from entering into matrimony, certainly it is wrong to brand men with the stigma of crime because they contract marriage, on the ground that, despite the fact that they are in every respect capable of matrimony, they will give birth only to defective children, even though they use all care and diligence. Public magistrates have no direct power over the bodies of their subjects; therefore, where no crime has taken place and there is no cause present for grave punishment, they can never directly harm, or tamper with the integrity of the body, either for the reasons of eugenics or for any other reason. St. Thomas teaches this when inquiring whether human judges for the sake of preventing future evils can inflict punishment, he admits that the power indeed exists as regards certain other forms of evil, but justly and properly denies it as regards the maiming of the body. “No one who is guiltless may be punished by a human tribunal either by flogging to death, or mutilation, or by beating.”[54] Furthermore, Christian doctrine establishes, and the light of human reason makes it most clear, that private individuals have no other power over the members of their bodies than that which pertains to their natural ends; and they are not free to destroy or mutilate their members, or in any other way render themselves unfit for their natural functions, except when no other provision can be made for the good of the whole body. We may now consider another class of errors concerning conjugal faith. Every sin committed as regards the offspring becomes in some way a sin against conjugal faith, since both these blessings are essentially connected. However, we must mention briefly the sources of error and vice corresponding to those virtues which are demanded by conjugal faith, namely the chaste honor existing between man and wife, the due subjection of wife to husband, and the true love which binds both parties together. It follows therefore that they are destroying mutual fidelity, who think that the ideas and morality of our present time concerning a certain harmful and false friendship with a third party can be countenanced, and who teach that a greater freedom of feeling and action in such external relations should be allowed to man and wife, particularly as many (so they consider) are possessed of an inborn sexual tendency which cannot be satisfied within the narrow limits of monogamous marriage. That rigid attitude which condemns all sensual affections and actions with a third party they imagine to be a narrowing of mind and heart, something obsolete, or an abject form of jealousy, and as a result they look upon whatever penal laws are passed by the State for the preserving of conjugal faith as void or to be abolished. Such unworthy and idle opinions are condemned by that noble instinct which is found in every chaste husband and wife, and even by the light of the testimony of nature alone, – a testimony that is sanctioned and confirmed by the command of God: “Thou shalt not commit adultry,”[55] and the words of Christ: “Whosoever shall look on a woman to lust after her hath already committed adultery with her in his heart.”[56] The force of this divine precept can never be weakened by any merely human custom, bad example or pretext of human progress, for just as it is the one and the same “Jesus Christ, yesterday and today and the same for ever,”[57] so it is the one and the same doctrine of Christ that abides and of which no one jot or tittle shall pass away till all is fulfilled.[58] The same false teachers who try to dim the luster of conjugal faith and purity do not scruple to do away with the honorable and trusting obedience which the woman owes to the man. Many of them even go further and assert that such a subjection of one party to the other is unworthy of human dignity, that the rights of husband and wife are equal; wherefore, they boldly proclaim the emancipation of women has been or ought to be effected. This emancipation in their ideas must be threefold, in the ruling of the domestic society, in the administration of family affairs and in the rearing of the children. It must be social, economic, physiological: – physiological, that is to say, the woman is to be freed at her own good pleasure from the burdensome duties properly belonging to a wife as companion and mother (We have already said that this is not an emancipation but a crime); social, inasmuch as the wife being freed from the cares of children and family, should, to the neglect of these, be able to follow her own bent and devote herself to business and even public affairs; finally economic, whereby the woman even without the knowledge and against the wish of her husband may be at liberty to conduct and administer her own affairs, giving her attention chiefly to these rather than to children, husband and family. This, however, is not the true emancipation of woman, nor that rational and exalted liberty which belongs to the noble office of a Christian woman and wife; it is rather the debasing of the womanly character and the dignity of motherhood, and indeed of the whole family, as a result of which the husband suffers the loss of his wife, the children of their mother, and the home and the whole family of an ever watchful guardian. More than this, this false liberty and unnatural equality with the husband is to the detriment of the woman herself, for if the woman descends from her truly regal throne to which she has been raised within the walls of the home by means of the Gospel, she will soon be reduced to the old state of slavery (if not in appearance, certainly in reality) and become as amongst the pagans the mere instrument of man. This equality of rights which is so much exaggerated and distorted, must indeed be recognized in those rights which belong to the dignity of the human soul and which are proper to the marriage contract and inseparably bound up with wedlock. In such things undoubtedly both parties enjoy the same rights and are bound by the same obligations; in other things there must be a certain inequality and due accommodation, which is demanded by the good of the family and the right ordering and unity and stability of home life. As, however, the social and economic conditions of the married woman must in some way be altered on account of the changes in social intercourse, it is part of the office of the public authority to adapt the civil rights of the wife to modern needs and requirements, keeping in view what the natural disposition and temperament of the female sex, good morality, and the welfare of the family demands, and provided always that the essential order of the domestic society remain intact, founded as it is on something higher than human authority and wisdom, namely on the authority and wisdom of God, and so not changeable by public laws or at the pleasure of private individuals. These enemies of marriage go further, however, when they substitute for that true and solid love, which is the basis of conjugal happiness, a certain vague compatibility of temperament. This they call sympathy and assert that, since it is the only bond by which husband and wife are linked together, when it ceases the marriage is completely dissolved. What else is this than to build a house upon sand? – a house that in the words of Christ would forthwith be shaken and collapse, as soon as it was exposed to the waves of adversity “and the winds blew and they beat upon that house. And it fell: and great was the fall thereof.”[59] On the other hand, the house built upon a rock, that is to say on mutual conjugal chastity and strengthened by a deliberate and constant union of spirit, will not only never fall away but will never be shaken by adversity. We have so far, Venerable Brethren, shown the excellency of the first two blessings of Christian wedlock which the modern subverters of society are attacking. And now considering that the third blessing, which is that of the sacrament, far surpasses the other two, we should not be surprised to find that this, because of its outstanding excellence, is much more sharply attacked by the same people. They put forward in the first place that matrimony belongs entirely to the profane and purely civil sphere, that it is not to be committed to the religious society, the Church of Christ, but to civil society alone. They then add that the marriage contract is to be freed from any indissoluble bond, and that separation and divorce are not only to be tolerated but sanctioned by the law; from which it follows finally that, robbed of all its holiness, matrimony should be enumerated amongst the secular and civil institutions. The first point is contained in their contention that the civil act itself should stand for the marriage contract (civil matrimony, as it is called), while the religious act is to be considered a mere addition, or at most a concession to a too superstitious people. Moreover they want it to be no cause for reproach that marriages be contracted by Catholics with non-Catholics without any reference to religion or recourse to the ecclesiastical authorities. The second point which is but a consequence of the first is to be found in their excuse for complete divorce and in their praise and encouragement of those civil laws which favor the loosening of the bond itself. As the salient features of the religious character of all marriage and particularly of the sacramental marriage of Christians have been treated at length and supported by weighty arguments in the encyclical letters of Leo XIII, letters which We have frequently recalled to mind and expressly made our own, We refer you to them, repeating here only a few points. Even by the light of reason alone and particularly if the ancient records of history are investigated, if the unwavering popular conscience is interrogated and the manners and institutions of all races examined, it is sufficiently obvious that there is a certain sacredness and religious character attaching even to the purely natural union of man and woman, “not something added by chance but innate, not imposed by men but involved in the nature of things,” since it has “God for its author and has been even from the beginning a foreshadowing of the Incarnation of the Word of God.”[60] This sacredness of marriage which is intimately connected with religion and all that is holy, arises from the divine origin we have just mentioned, from its purpose which is the begetting and education of children for God, and the binding of man and wife to God through Christian love and mutual support; and finally it arises from the very nature of wedlock, whose institution is to be sought for in the farseeing Providence of God, whereby it is the means of transmitting life, thus making the parents the ministers, as it were, of the Divine Omnipotence. To this must be added that new element of dignity which comes from the sacrament, by which the Christian marriage is so ennobled and raised to such a level, that it appeared to the Apostle as a great sacrament, honorable in every way.[61] This religious character of marriage, its sublime signification of grace and the union between Christ and the Church, evidently requires that those about to marry should show a holy reverence towards it, and zealously endeavor to make their marriage approach as nearly as possible to the archetype of Christ and the Church. They, therefore, who rashly and heedlessly contract mixed marriages, from which the maternal love and providence of the Church dissuades her children for very sound reasons, fail conspicuously in this respect, sometimes with danger to their eternal salvation. This attitude of the Church to mixed marriages appears in many of her documents, all of which are summed up in the Code of Canon Law: “Everywhere and with the greatest strictness the Church forbids marriages between baptized persons, one of whom is a Catholic and the other a member of a schismatical or heretical sect; and if there is, add to this, the danger of the falling away of the Catholic party and the perversion of the children, such a marriage is forbidden also by the divine law.”[62] If the Church occasionally on account of circumstances does not refuse to grant a dispensation from these strict laws (provided that the divine law remains intact and the dangers above mentioned are provided against by suitable safeguards), it is unlikely that the Catholic party will not suffer some detriment from such a marriage. Whence it comes about not unfrequently, as experience shows, that deplorable defections from religion occur among the offspring, or at least a headlong descent into that religious indifference which is closely allied to impiety. There is this also to be considered that in these mixed marriages it becomes much more difficult to imitate by a lively conformity of spirit the mystery of which We have spoken, namely that close union between Christ and His Church. Assuredly, also, will there be wanting that close union of spirit which as it is the sign and mark of the Church of Christ, so also should be the sign of Christian wedlock, its glory and adornment. For, where there exists diversity of mind, truth and feeling, the bond of union of mind and heart is wont to be broken, or at least weakened. From this comes the danger lest the love of man and wife grow cold and the peace and happiness of family life, resting as it does on the union of hearts, be destroyed. Many centuries ago indeed, the old Roman law had proclaimed: “Marriages are the union of male and female, a sharing of life and the communication of divine and human rights.”[63] But especially, as We have pointed out, Venerable Brethren, the daily increasing facility of divorce is an obstacle to the restoration of marriage to that state of perfection which the divine Redeemer willed it should possess. The advocates of the neo-paganism of today have learned nothing from the sad state of affairs, but instead, day by day, more and more vehemently, they continue by legislation to attack the indissolubility of the marriage bond, proclaiming that the lawfulness of divorce must be recognized, and that the antiquated laws should give place to a new and more humane legislation. Many and varied are the grounds put forward for divorce, some arising from the wickedness and the guilt of the persons concerned, others arising from the circumstances of the case; the former they describe as subjective, the latter as objective; in a word, whatever might make married life hard or unpleasant. They strive to prove their contentions regarding these grounds for the divorce legislation they would bring about, by various arguments. Thus, in the first place, they maintain that it is for the good of either party that the one who is innocent should have the right to separate from the guilty, or that the guilty should be withdrawn from a union which is unpleasing to him and against his will. In the second place, they argue, the good of the child demands this, for either it will be deprived of a proper education or the natural fruits of it, and will too easily be affected by the discords and shortcomings of the parents, and drawn from the path of virtue. And thirdly the common good of society requires that these marriages should be completely dissolved, which are now incapable of producing their natural results, and that legal reparations should be allowed when crimes are to be feared as the result of the common habitation and intercourse of the parties. This last, they say must be admitted to avoid the crimes being committed purposely with a view to obtaining the desired sentence of divorce for which the judge can legally loose the marriage bond, as also to prevent people from coming before the courts when it is obvious from the state of the case that they are Iying and perjuring themselves, – all of which brings the court and the lawful authority into contempt. Hence the civil laws, in their opinion, have to be reformed to meet these new requirements, to suit the changes of the times and the changes in men’s opinions, civil institutions and customs. Each of these reasons is considered by them as conclusive, so that all taken together offer a clear proof of the necessity of granting divorce in certain cases. Others, taking a step further, simply state that marriage, being a private contract, is, like other private contracts, to be left to the consent and good pleasure of both parties, and so can be dissolved for any reason whatsoever. Opposed to all these reckless opinions, Venerable Brethren, stands the unalterable law of God, fully confirmed by Christ, a law that can never be deprived of its force by the decrees of men, the ideas of a people or the will of any legislator: “What God hath joined together, let no man put asunder.”[64] And if any man, acting contrary to this law, shall have put asunder, his action is null and void, and the consequence remains, as Christ Himself has explicitly confirmed: “Everyone that putteth away his wife and marrieth another, committeth adultery: and he that marrieth her that is put away from her husband committeth adultery.”[65] Moreover, these words refer to every kind of marriage, even that which is natural and legitimate only; for, as has already been observed, that indissolubility by which the loosening of the bond is once and for all removed from the whim of the parties and from every secular power, is a property of every true marriage. Let that solemn pronouncement of the Council of Trent be recalled to mind in which, under the stigma of anathema, it condemned these errors: “If anyone should say that on account of heresy or the hardships of cohabitation or a deliberate abuse of one party by the other the marriage tie may be loosened, let him be anathema;”[66] and again: “If anyone should say that the Church errs in having taught or in teaching that, according to the teaching of the Gospel and the Apostles, the bond of marriage cannot be loosed because of the sin of adultery of either party; or that neither party, even though he be innocent, having given no cause for the sin of adultery, can contract another marriage during the lifetime of the other; and that he commits adultery who marries another after putting away his adulterous wife, and likewise that she commits adultery who puts away her husband and marries another: let him be anathemae.”[67] If therefore the Church has not erred and does not err in teaching this, and consequently it is certain that the bond of marriage cannot be loosed even on account of the sin of adultery, it is evident that all the other weaker excuses that can be, and are usually brought forward, are of no value whatsoever. And the objections brought against the firmness of the marriage bond are easily answered. For, in certain circumstances, imperfect separation of the parties is allowed, the bond not being severed. This separation, which the Church herself permits, and expressly mentions in her Canon Law in those canons which deal with the separation of the parties as to marital relationship and co-habitation, removes all the alleged inconveniences and dangers.[68] It will be for the sacred law and, to some extent, also the civil law, in so far as civil matters are affected, to lay down the grounds, the conditions, the method and precautions to be taken in a case of this kind in order to safeguard the education of the children and the well-being of the family, and to remove all those evils which threaten the married persons, the children and the State. Now all those arguments that are brought forward to prove the indissolubility of the marriage tie, arguments which have already been touched upon, can equally be applied to excluding not only the necessity of divorce, but even the power to grant it; while for all the advantages that can be put forward for the former, there can be adduced as many disadvantages and evils which are a formidable menace to the whole of human society. To revert again to the expression of Our predecessor, it is hardly necessary to point out what an amount of good is involved in the absolute indissolubility of wedlock and what a train of evils follows upon divorce. Whenever the marriage bond remains intact, then we find marriages contracted with a sense of safety and security, while, when separations are considered and the dangers of divorce are present, the marriage contract itself becomes insecure, or at least gives ground for anxiety and surprises. On the one hand we see a wonderful strengthening of goodwill and cooperation in the daily life of husband and wife, while, on the other, both of these are miserably weakened by the presence of a facility for divorce. Here we have at a very opportune moment a source of help by which both parties are enabled to preserve their purity and loyalty; there we find harmful inducements to unfaithfulness. On this side we find the birth of children and their tuition and upbringing effectively promoted, many avenues of discord closed amongst families and relations, and the beginnings of rivalry and jealousy easily suppressed; on that, very great obstacles to the birth and rearing of children and their education, and many occasions of quarrels, and seeds of jealousy sown everywhere. Finally, but especially, the dignity and position of women in civil and domestic society is reinstated by the former; while by the latter it is shamefully lowered and the danger is incurred “of their being considered outcasts, slaves of the lust of men.”[69] To conclude with the important words of Leo XIII, since the destruction of family life “and the loss of national wealth is brought about more by the corruption of morals than by anything else, it is easily seen that divorce, which is born of the perverted morals of a people, and leads, as experiment shows, to vicious habits in public and private life, is particularly opposed to the well-being of the family and of the State. The serious nature of these evils will be the more clearly recognized, when we remember that, once divorce has been allowed, there will be no sufficient means of keeping it in check within any definite bounds. Great is the force of example, greater still that of lust; and with such incitements it cannot but happen that divorce and its consequent setting loose of the passions should spread daily and attack the souls of many like a contagious disease or a river bursting its banks and flooding the land.”[70] Thus, as we read in the same letter, “unless things change, the human family and State have every reason to fear lest they should suffer absolute ruin.”[71] All this was written fifty years ago, yet it is confirmed by the daily increasing corruption of morals and the unheard of degradation of the family in those lands where Communism reigns unchecked. Thus far, Venerable Brethren, We have admired with due reverence what the all wise Creator and Redeemer of the human race has ordained with regard to human marriage; at the same time we have expressed Our grief that such a pious ordinance of the divine Goodness should today, and on every side, be frustrated and trampled upon by the passions, errors and vices of men. It is then fitting that, with all fatherly solicitude, We should turn Our mind to seek out suitable remedies whereby those most detestable abuses which We have mentioned, may be removed, and everywhere marriage may again be revealed. To this end, it behooves Us, above all else, to call to mind that firmly established principle, esteemed alike in sound philosophy and sacred theology: namely, that whatever things have deviated from their right order, cannot he brought back to that original state which is in harmony with their nature except by a return to the divine plan which, as the Angelic Doctor teaches,[72] is the exemplar of all right order. Wherefore, Our predecessor of happy memory, Leo XIII, attacked the doctrine of the naturalists in these words: “It is a divinely appointed law that whatsoever things are constituted by God, the Author of nature, these we find the more useful and salutary, the more they remain in their natural state, unimpaired and unchanged; inasmuch as God, the Creator of all things, intimately knows what is suited to the constitution and the preservation of each, and by his will and mind has so ordained all this that each may duly achieve its purpose. But if the boldness and wickedness of men change and disturb this order of things, so providentially disposed, then, indeed, things so wonderfully ordained, will begin to be injurious, or will cease to be beneficial, either because, in the change, they have lost their power to benefit, or because God Himself is thus pleased to draw down chastisement on the pride and presumption of men.”[73] In order, therefore, to restore due order in this matter of marriage, it is necessary that all should bear in mind what is the divine plan and strive to conform to it. Wherefore, since the chief obstacle to this study is the power of unbridled lust, which indeed is the most potent cause of sinning against the sacred laws of matrimony, and since man cannot hold in check his passions, unless he first subject himself to God, this must be his primary endeavor, in accordance with the plan divinely ordained. For it is a sacred ordinance that whoever shall have first subjected himself to God will, by the aid of divine grace, be glad to subject to himself his own passions and concupiscence; while he who is a rebel against God will, to his sorrow, experience within himself the violent rebellion of his worst passions. And how wisely this has been decreed St. Augustine thus shows: “This indeed is fitting, that the lower be subject to the higher, so that he who would have subject to himself whatever is below him, should himself submit to whatever is above him. Acknowledge order, seek peace. Be thou subject to God, and thy flesh subject to thee. What more fitting! What more fair! Thou art subject to the higher and the lower is subject to thee. Do thou serve Him who made thee, so that that which was made for thee may serve thee. For we do not commend this order, namely, ‘The flesh to thee and thou to God,’ but ‘Thou to God, and the flesh to thee.’ If, however, thou despisest the subjection of thyself to God, thou shalt never bring about the subjection of the flesh to thyself. If thou dost not obey the Lord, thou shalt be tormented by thy servant.”[74] This right ordering on the part of God’s wisdom is mentioned by the holy Doctor of the Gentiles, inspired by the Holy Ghost, for in speaking of those ancient philosophers who refused to adore and reverence Him whom they knew to be the Creator of the universe, he says: “Wherefore God gave them up to the desires of their heart, unto uncleanness, to dishonor their own bodies among themselves;” and again: “For this same God delivered them up to shameful affections.”[75] And St. James says: “God resisteth the proud and giveth grace to the humble,”[76] without which grace, as the same Doctor of the Gentiles reminds us, man cannot subdue the rebellion of his flesh.[77] Consequently, as the onslaughts of these uncontrolled passions cannot in any way be lessened, unless the spirit first shows a humble compliance of duty and reverence towards its Maker, it is above all and before all needful that those who are joined in the bond of sacred wedlock should be wholly imbued with a profound and genuine sense of duty towards God, which will shape their whole lives, and fill their minds and wills with a very deep reverence for the majesty of God. Quite fittingly, therefore, and quite in accordance with the defined norm of Christian sentiment, do those pastors of souls act who, to prevent married people from failing in the observance of God’s law, urge them to perform their duty and exercise their religion so that they should give themselves to God, continually ask for His divine assistance, frequent the sacraments, and always nourish and preserve a loyal and thoroughly sincere devotion to God. They are greatly deceived who having underestimated or neglected these means which rise above nature, think that they can induce men by the use and discovery of the natural sciences, such as those of biology, the science of heredity, and the like, to curb their carnal desires. We do not say this in order to belittle those natural means which are not dishonest; for God is the Author of nature as well as of grace, and He has disposed the good things of both orders for the beneficial use of men. The faithful, therefore, can and ought to be assisted also by natural means. But they are mistaken who think that these means are able to establish chastity in the nuptial union, or that they are more effective than supernatural grace. This conformity of wedlock and moral conduct with the divine laws respective of marriage, without which its effective restoration cannot be brought about, supposes, however, that all can discern readily, with real certainty, and without any accompanying error, what those laws are. But everyone can see to how many fallacies an avenue would be opened up and how many errors would become mixed with the truth, if it were left solely to the light of reason of each to find it out, or if it were to be discovered by the private interpretation of the truth which is revealed. And if this is applicable to many other truths of the moral order, we must all the more pay attention to those things, which appertain to marriage where the inordinate desire for pleasure can attack frail human nature and easily deceive it and lead it astray; this is all the more true of the observance of the divine law, which demands sometimes hard and repeated sacrifices, for which, as experience points out, a weak man can find so many excuses for avoiding the fulfillment of the divine law. On this account, in order that no falsification or corruption of the divine law but a true genuine knowledge of it may enlighten the minds of men and guide their conduct, it is necessary that a filial and humble obedience towards the Church should be combined with devotedness to God and the desire of submitting to Him. For Christ Himself made the Church the teacher of truth in those things also which concern the right regulation of moral conduct, even though some knowledge of the same is not beyond human reason. For just as God, in the case of the natural truths of religion and morals, added revelation to the light of reason so that what is right and true, “in the present state also of the human race may be known readily with real certainty without any admixture of error,”[78] so for the same purpose he has constituted the Church the guardian and the teacher of the whole of the truth concerning religion and moral conduct; to her therefore should the faithful show obedience and subject their minds and hearts so as to be kept unharmed and free from error and moral corruption, and so that they shall not deprive themselves of that assistance given by God with such liberal bounty, they ought to show this due obedience not only when the Church defines something with solemn judgment, but also, in proper proportion, when by the constitutions and decrees of the Holy See, opinions are prescribed and condemned as dangerous or distorted.[79] Wherefore, let the faithful also be on their guard against the overrated independence of private judgment and that false autonomy of human reason. For it is quite foreign to everyone bearing the name of a Christian to trust his own mental powers with such pride as to agree only with those things which he can examine from their inner nature, and to imagine that the Church, sent by God to teach and guide all nations, is not conversant with present affairs and circumstances; or even that they must obey only in those matters which she has decreed by solemn definition as though her other decisions might be presumed to be false or putting forward insufficient motive for truth and honesty. Quite to the contrary, a characteristic of all true followers of Christ, lettered or unlettered, is to suffer themselves to be guided and led in all things that touch upon faith or morals by the Holy Church of God through its Supreme Pastor the Roman Pontiff, who is himself guided by Jesus Christ Our Lord. Consequently, since everything must be referred to the law and mind of God, in order to bring about the universal and permanent restoration of marriage, it is indeed of the utmost importance that the faithful should be well instructed concerning matrimony; both by word of mouth and by the written word, not cursorily but often and fully, by means of plain and weighty arguments, so that these truths will strike the intellect and will be deeply engraved on their hearts. Let them realize and diligently reflect upon the great wisdom, kindness and bounty God has shown towards the human race, not only by the institution of marriage, but also, and quite as much, by upholding it with sacred laws; still more, in wonderfully raising it to the dignity of a Sacrament by which such an abundant fountain of graces has been opened to those joined in Christian wedlock, that these may be able to serve the noble purposes of wedlock for their own welfare and for that of their children, of the community and also for that of human relationship. Certainly, if the latter day subverters of marriage are entirely devoted to misleading the minds of men and corrupting their hearts, to making a mockery of matrimonial purity and extolling the filthiest of vices by means of books and pamphlets and other innumerable methods, much more ought you, Venerable Brethren, whom “the Holy Ghost has placed as bishops, to rule the Church of God, which He hath purchased with His own blood,”[80] to give yourselves wholly to this, that through yourselves and through the priests subject to you, and, moreover, through the laity welded together by Catholic Action, so much desired and recommended by Us, into a power of hierarchical apostolate, you may, by every fitting means, oppose error by truth, vice by the excellent dignity of chastity, the slavery of covetousness by the liberty of the sons of God,[81] that disastrous ease in obtaining divorce by an enduring love in the bond of marriage and by the inviolate pledge of fidelity given even to death. Thus will it come to pass that the faithful will wholeheartedly thank God that they are bound together by His command and led by gentle compulsion to fly as far as possible from every kind of idolatry of the flesh and from the base slavery of the passions. They will, in a great measure, turn and be turned away from these abominable opinions which to the dishonor of man’s dignity are now spread about in speech and in writing and collected under the title of “perfect marriage” and which indeed would make that perfect marriage nothing better than “depraved marriage,” as it has been rightly and truly called. Such wholesome instruction and religious training in regard to Christian marriage will be quite different from that exaggerated physiological education by means of which, in these times of ours, some reformers of married life make pretense of helping those joined in wedlock, laying much stress on these physiological matters, in which is learned rather the art of sinning in a subtle way than the virtue of living chastely. So, Venerable Brethren, we make entirely Our own the words which Our predecessor of happy memory, Leo XIII, in his encyclical letter on Christian marriage addressed to the bishops of the whole world: “Take care not to spare your efforts and authority in bringing about that among the people committed to your guidance that doctrine may be preserved whole and unadulterated which Christ the Lord and the apostles, the interpreters of the divine will, have handed down, and which the Catholic Church herself has religiously preserved, and commanded to be observed by the faithful of every age.”[82] Even the very best instruction given by the Church, however, will not alone suffice to bring about once more conformity of marriage to the law of God; something more is needed in addition to the education of the mind, namely a steadfast determination of the will, on the part of husband and wife, to observe the sacred laws of God and of nature in regard to marriage. In fine, in spite of what others may wish to assert and spread abroad by word of mouth or in writing, let husband and wife resolve: to stand fast to the commandments of God in all things that matrimony demands; always to render to each other the assistance of mutual love; to preserve the honor of chastity; not to lay profane hands on the stable nature of the bond; to use the rights given them by marriage in a way that will be always Christian and sacred, more especially in the first years of wedlock, so that should there be need of continency afterwards, custom will have made it easier for each to preserve it. In order that they may make this firm resolution, keep it and put it into practice, an oft-repeated consideration of their state of life, and a diligent reflection on the sacrament they have received, will be of great assistance to them. Let them constantly keep in mind, that they have been sanctified and strengthened for the duties and for the dignity of their state by a special sacrament, the efficacious power of which, although it does not impress a character, is undying. To this purpose we may ponder over the words full of real comfort of holy Cardinal Robert Bellarmine, who with other well-known theologians with devout conviction thus expresses himself: “The sacrament of matrimony can be regarded in two ways: first, in the making, and then in its permanent state. For it is a sacrament like to that of the Eucharist, which not only when it is being conferred, but also whilst it remains, is a sacrament; for as long as the married parties are alive, so long is their union a sacrament of Christ and the Church.”[83] Yet in order that the grace of this sacrament may produce its full fruit, there is need, as we have already pointed out, of the cooperation of the married parties; which consists in their striving to fulfill their duties to the best of their ability and with unwearied effort. For just as in the natural order men must apply the powers given them by God with their own toil and diligence that these may exercise their full vigor, failing which, no profit is gained, so also men must diligently and unceasingly use the powers given them by the grace which is laid up in the soul by this sacrament. Let not, then, those who are joined in matrimony neglect the grace of the sacrament which is in them;[84] for, in applying themselves to the careful observance, however laborious, of their duties they will find the power of that grace becoming more effectual as time goes on. And if ever they should feel themselves to be overburdened by the hardships of their condition of life, let them not lose courage, but rather let them regard in some measure as addressed to them that which St. Paul the Apostle wrote to his beloved disciple Timothy regarding the sacrament of holy Orders when the disciple was dejected through hardship and insults: “I admonish thee that thou stir up the grace which is in thee by the imposition of my hands. For God hath not given us the spirit of fear; but of power, and of love, and of sobriety.”[85] All these things, however, Venerable Brethren, depend in large measure on the due preparation remote and proximate, of the parties for marriage. For it cannot be denied that the basis of a happy wedlock, and the ruin of an unhappy one, is prepared and set in the souls of boys and girls during the period of childhood and adolescence. There is danger that those who before marriage sought in all things what is theirs, who indulged even their impure desires, will be in the married state what they were before, that they will reap that which they have sown;[86] indeed, within the home there will be sadness, lamentation, mutual contempt, strifes, estrangements, weariness of common life, and, worst of all, such parties will find themselves left alone with their own unconquered passions. Let then, those who are about to enter on married life, approach that state well disposed and well prepared, so that they will be able, as far as they can, to help each other in sustaining the vicissitudes of life, and yet more in attending to their eternal salvation and in forming the inner man unto the fullness of the age of Christ.[87] It will also help them, if they behave towards their cherished offspring as God wills: that is, that the father be truly a father, and the mother truly a mother; through their devout love and unwearying care, the home, though it suffer the want and hardship of this valley of tears, may become for the children in its own way a foretaste of that paradise of delight in which the Creator placed the first men of the human race. Thus will they be able to bring up their children as perfect men and perfect Christians; they will instill into them a sound understanding of the Catholic Church, and will give them such a disposition and love for their fatherland as duty and gratitude demand. Consequently, both those who are now thinking of entering upon this sacred married state, as well as those who have the charge of educating Christian youth, should, with due regard to the future, prepare that which is good, obviate that which is bad, and recall those points about which We have already spoken in Our encyclical letter concerning education: “The inclinations of the will, if they are bad, must be repressed from childhood, but such as are good must be fostered, and the mind, particularly of children, should be imbued with doctrines which begin with God, while the heart should be strengthened with the aids of divine grace, in the absence of which, no one can curb evil desires, nor can his discipline and formation be brought to complete perfection by the Church. For Christ has provided her with heavenly doctrines and divine sacraments, that He might make her an effectual teacher of men.”[88] To the proximate preparation of a good married life belongs very specially the care in choosing a partner; on that depends a great deal whether the forthcoming marriage will be happy or not, since one may be to the other either a great help in leading a Christian life, or, a great danger and hindrance. And so that they may not deplore for the rest of their lives the sorrows arising from an indiscreet marriage, those about to enter into wedlock should carefully deliberate in choosing the person with whom henceforward they must live continually: they should, in so deliberating, keep before their minds the thought first of God and of the true religion of Christ, then of themselves, of their partner, of the children to come, as also of human and civil society, for which wedlock is a fountain head. Let them diligently pray for divine help, so that they make their choice in accordance with Christian prudence, not indeed led by the blind and unrestrained impulse of lust, nor by any desire of riches or other base influence, but by a true and noble love and by a sincere affection for the future partner; and then let them strive in their married life for those ends for which the State was constituted by God. Lastly, let them not omit to ask the prudent advice of their parents with regard to the partner, and let them regard this advice in no light manner, in order that by their mature knowledge and experience of human affairs, they may guard against a disastrous choice, and, on the threshold of matrimony, may receive more abundantly the divine blessing of the fourth commandment: “Honor thy father and thy mother (which is the first commandment with a promise) that it may be well with thee and thou mayest be long-lived upon the earth.”[89] Now since it is no rare thing to find that the perfect observance of God’s commands and conjugal integrity encounter difficulties by reason of the fact that the man and wife are in straitened circumstances, their necessities must be relieved as far as possible. And so, in the first place, every effort must be made to bring about that which Our predecessor Leo Xlll, of happy memory, has already insisted upon,[90] namely, that in the State such economic and social methods should be adopted as will enable every head of a family to earn as much as, according to his station in life, is necessary for himself, his wife, and for the rearing of his children, for “the laborer is worthy of his hire.”[91] To deny this, or to make light of what is equitable, is a grave injustice and is placed among the greatest sins by Holy Writ;[92] nor is it lawful to fix such a scanty wage as will be insufficient for the upkeep of the family in the circumstances in which it is placed. Care, however, must be taken that the parties themselves, for a considerable time before entering upon married life, should strive to dispose of, or at least to diminish, the material obstacles in their way. The manner in which this may be done effectively and honestly must be pointed out by those who are experienced. Provision must be made also, in the case of those who are not self-supporting, for joint aid by private or public guilds.[93] When these means which We have pointed out do not fulfill the needs, particularly of a larger or poorer family, Christian charity towards our neighbor absolutely demands that those things which are lacking to the needy should be provided; hence it is incumbent on the rich to help the poor, so that, having an abundance of this world’s goods, they may not expend them fruitlessly or completely squander them, but employ them for the support and well-being of those who lack the necessities of life. They who give of their substance to Christ in the person of His poor will receive from the Lord a most bountiful reward when He shall come to judge the world; they who act to the contrary will pay the penalty.[94] Not in vain does the Apostle warn us: “He that hath the substance of this world and shall see his brother in need, and shall shut up his bowels from him: how doth the charity of God abide in him?”[95] If, however, for this purpose, private resources do not suffice, it is the duty of the public authority to supply for the insufficient forces of individual effort, particularly in a matter which is of such importance to the common weal, touching as it does the maintenance of the family and married people. If families, particularly those in which there are many children, have not suitable dwellings; if the husband cannot find employment and means of livelihood; if the necessities of life cannot be purchased except at exorbitant prices; if even the mother of the family to the great harm of the home, is compelled to go forth and seek a living by her own labor; if she, too, in the ordinary or even extraordinary labors of childbirth, is deprived of proper food, medicine, and the assistance of a skilled physician, it is patent to all to what an extent married people may lose heart, and how home life and the observance of God’s commands are rendered difficult for them; indeed it is obvious how great a peril can arise to the public security and to the welfare and very life of civil society itself when such men are reduced to that condition of desperation that, having nothing which they fear to lose, they are emboldened to hope for chance advantage from the upheaval of the state and of established order. Wherefore, those who have the care of the State and of the public good cannot neglect the needs of married people and their families, without bringing great harm upon the State and on the common welfare. Hence, in making the laws and in disposing of public funds they must do their utmost to relieve the needs of the poor, considering such a task as one of the most important of their administrative duties. We are sorry to note that not infrequently nowadays it happens that through a certain inversion of the true order of things, ready and bountiful assistance is provided for the unmarried mother and her illegitimate offspring (who, of course must be helped in order to avoid a greater evil) which is denied to legitimate mothers or given sparingly or almost grudgingly. But not only in regard to temporal goods, Venerable Brethren, is it the concern of the public authority to make proper provision for matrimony and the family, but also in other things which concern the good of souls. just laws must be made for the protection of chastity, for reciprocal conjugal aid, and for similar purposes, and these must be faithfully enforced, because, as history testifies, the prosperity of the State and the temporal happiness of its citizens cannot remain safe and sound where the foundation on which they are established, which is the moral order, is weakened and where the very fountainhead from which the State draws its life, namely, wedlock and the family, is obstructed by the vices of its citizens. For the preservation of the moral order neither the laws and sanctions of the temporal power are sufficient, nor is the beauty of virtue and the expounding of its necessity. Religious authority must enter in to enlighten the mind, to direct the will, and to strengthen human frailty by the assistance of divine grace. Such an authority is found nowhere save in the Church instituted by Christ the Lord. Hence We earnestly exhort in the Lord all those who hold the reins of power that they establish and maintain firmly harmony and friendship with this Church of Christ so that through the united activity and energy of both powers the tremendous evils, fruits of those wanton liberties which assail both marriage and the family and are a menace to both Church and State, may be effectively frustrated. Governments can assist the Church greatly in the execution of its important office, if, in laying down their ordinances, they take account of what is prescribed by divine and ecclesiastical law, and if penalties are fixed for offenders. For as it is, there are those who think that whatever is permitted by the laws of the State, or at least is not punished by them, is allowed also in the moral order, and, because they neither fear God nor see any reason to fear the laws of man, they act even against their conscience, thus often bringing ruin upon themselves and upon many others. There will be no peril to or lessening of the rights and integrity of the State from its association with the Church. Such suspicion and fear is empty and groundless, as Leo XIII has already so clearly set forth: “It is generally agreed,” he says, “that the Founder of the Church, Jesus Christ, wished the spiritual power to be distinct from the civil, and each to be free and unhampered in doing its own work, not forgetting, however, that it is expedient to both, and in the interest of everybody, that there be a harmonious relationship. . . If the civil power combines in a friendly manner with the spiritual power of the Church, it necessarily follows that both parties will greatly benefit. The dignity of the State will be enhanced, and with religion as its guide, there will never be a rule that is not just; while for the Church there will be at hand a safeguard and defense which will operate to the public good of the faithful.”[96] To bring forward a recent and clear example of what is meant, it has happened quite in consonance with right order and entirely according to the law of Christ, that in the solemn Convention happily entered into between the Holy See and the Kingdom of Italy, also in matrimonial affairs a peaceful settlement and friendly cooperation has been obtained, such as befitted the glorious history of the Italian people and its ancient and sacred traditions. These decrees, are to be found in the Lateran Pact: “The Italian State, desirous of restoring to the institution of matrimony, which is the basis of the family, that dignity conformable to the traditions of its people, assigns as civil effects of the sacrament of matrimony all that is attributed to it in Canon Law.”[97] To this fundamental norm are added further clauses in the common pact. This might well be a striking example to all of how, even in this our own day (in which, sad to say, the absolute separation of the civil power from the Church, and indeed from every religion, is so often taught), the one supreme authority can be united and associated with the other without detriment to the rights and supreme power of either thus protecting Christian parents from pernicious evils and menacing ruin. All these things which, Venerable Brethren, prompted by Our past solicitude We put before you, We wish according to the norm of Christian prudence to be promulgated widely among all Our beloved children committed to your care as members of the great family of Christ, that all may be thoroughly acquainted with sound teaching concerning marriage, so that they may be ever on their guard against the dangers advocated by the teachers of error, and most of all, that “denying ungodliness and worldly desires, they may live soberly and justly, and godly in this world, looking for the blessed hope and coming of the glory of the great God and Our Savior Jesus Christ.”[98] May the Father, “of whom all paternity in heaven and earth is named,”[99] Who strengthens the weak and gives courage to the pusillanimous and fainthearted; and Christ Our Lord and Redeemer, “the Institutor and Perfecter of the holy sacraments,”[100] Who desired marriage to be and made it the mystical image of His own ineffable union with the Church; and the Holy Ghost, Love of God, the Light of hearts and the Strength of the mind, grant that all will perceive, will admit with a ready will, and by the grace of God will put into practice, what We by this letter have expounded concerning the holy Sacrament of Matrimony, the wonderful law and will of God respecting it, the errors and impending dangers, and the remedies with which they can be counteracted, so that that fruitfulness dedicated to God will flourish again vigorously in Christian wedlock. We most humbly pour forth Our earnest prayer at the Throne of His Grace, that God, the Author of all graces, the inspirer of all good desires and deeds,[101] may bring this about, and deign to give it bountifully according to the greatness of His liberality and omnipotence, and as a token of the abundant blessing of the same Omnipotent God, We most lovingly grant to you, Venerable Brethren, and to the clergy and people committed to your watchful care, the Apostolic Benediction. Given at Rome, in Saint Peter’s, this 31st day of December, of the year 1930, the ninth of Our Pontificate. PIUS XI Encycl.Arcanum divinae sapientiae, 10 Febr. 1880. Gen., I, 27-28; II, 22-23; Matth., XIX, 3 sqq.;Eph., V, 23 sqq . Conc. Trid., Sess. XXIV. Cod. iur. can., c. 1081 & 2. Cod. iur. can., c. 1081 & 1. S. Thom Aquin.,Summa theol., p. III Supplem 9, XLIX, art.3. Encycl.Rerum novarum, 15 May 1891. Gen., I, 28. Encycl.Ad salutem,20 April 1930 St. August.,De bono coniug., cap. 24, n. 32. St. August.,De Gen. ad litt.,lib. IX, cap. 7, n. 12. Gen., I, 28. I Tim., V, 14. St. August.,De bono coniug., cap. 24 n. 32. ICor., II, 9 Eph., II, 19. John, XVI, 21. Encycl.Divini illius Magistri,31 Dec. 1929. St. August.,De Gen. ad litt., lib. IX, cap. 7, n. 12. Cod. iur. can., c. 1013 & 7. Conc. Trid., Sess. XXIV. Matth., V, 28. Decr. S. Officii, 2 March 1679, propos. 50. Eph., V, 25; Col., III, 19. Catech. Rom., II, cap. VIII q. 24. St Greg the Great,Homii. XXX in Evang(John XIV,23-31), n.1. Matth., XXII, 40. ICor., VII, 3. Eph., V, 22-23. Encycl.Arcanum divinae sapientiae, 10 Febr. 1880. Matth., XIX, 6. Luke, XVI, 18. St. August.,De Gen. ad litt.Iib. IX, cap. 7, n. 12. Pius VI,Rescript. ad Episc. Agriens., 11 July 1789. Eph., V, 32. St. August.,De nupt. et concup., lib. I, cap. 10. ICor., XIII, 8. Conc. Trid., Sess. XXIV. Conc. Trid. Sess., XXIV. Cod. iur. can., c. 1012. St. August.,De nupt. et concup., lib. I, cap. 10. Matth., XIII, 25. IITim., IV, 2-5. Eph., V, 3. St. August.,De coniug. adult., lib. II, n. 12,Gen, XXXVIII, 8-10. Matth., XV, 14. Luke, VI, 38. Conc. Trid., Sess. VI, cap. 11. Const. Apost.Cum occasione,31 May 1653, prop. 1. Exod., XX, 13; cfr. Decr. S. Offic. 4 May 1897, 24 July 1895; 31 May 1884. St. August.,De nupt. et concupisc., cap. XV. Rom., III, 8. Gen., IV, 10. Summ. theol., 2a 2ae, q. 108 a 4 ad 2um. Exod., XX, 14. Matth., V, 28. Hebr., XIII, 8. Matth., V, 18. Matth., VII. 27. Leo XIII, Encycl.Arcanum, 10 Febr. 1880. Eph., V, 32:Hebr. XIII, 4. Cod. iur. can., c. 1060. Modestinus, in Dig. (Lib. XXIII, II:De ritu nuptiarum), lib. I, Regularum. Matth., XIX, 6. Luke, XVI, 18. Conc. Trid., Sess. XXIV, cap. 5 Conc. Trid., Sess. XXIV, cap. 7 Cod. iur. can., c. 1128 sqq. Leo XIII, Encycl.Arcanum divinae sapientiae10 Febr. 1880. Encycl.Arcanum, 10 Febr. 1880. Encycl.Arcanum,10 Febr. 1880. St. Thom. of Aquin, Summ theolog., la 2ae, q. 91, a. I-2 . Encycl.Arcanum divinae sapientiae,10 Febr. 1880. St. August.,Enarrat. in Ps. 143. Rom.I, 24, 26. James IV, 6. Rom., VII, VIII. Conc. Vat., Sess. III, cap. 2. Conc. Vat., Sess. III, cap. 4; Cod. iur. can., c. 1324. Acta, XX, 28. John, VIII, 32 sqq.; Gal., V, 13. Encycl.Arcanum. 10 Febr. 1880. St. Rob. Bellarmin.,De controversiis, tom. III,De Matr., controvers. II, cap. 6. ITim., IV,14. IITim., 1, 6-7. Gal., Vl. 9. Eph., IV, 13. Encycl.Divini illius Magistri, 31 Dec. 1929. Eph., VI, 2-3;Exod., XX, 12. Encycl.Rerum novarum, 15 May 1891. Luke, X, 7. Deut. XXIV, 14, 15. Leo XIII, Encycl.Rerum novarum, 15 May 1891. Matth., XXV, 34 sqq. I John, III, 17. Encycl.Arcanum divinae sapientiae, 10 Febr. 1880. Concord., art. 34; Act.Apost. Sed., XXI (1929), pag. 290. Tit., II, 12-13. Eph., I III, 15. Conc. Trid., Sess. XXIV. Phil., II, 13. #cartaencíclica #PioX #CASTICONNUBII #pioxi #PAPAPIOXI

  • QUAS PRIMAS

    QUAS PRIMAS ENCYCLICAL OF POPE PIUS XI ON THE FEAST OF CHRIST THE KING TO OUR VENERABLE BRETHREN THE PATRIARCHS, PRIMATES, ARCHBISHOPS, BISHOPS, AND OTHER ORDINARIES IN PEACE AND COMMUNION WITH THE APOSTOLIC SEE. Venerable Brethren, Greeting and the Apostolic Benediction. In the first Encyclical Letter which We addressed at the beginning of Our Pontificate to the Bishops of the universal Church, We referred to the chief causes of the difficulties under which mankind was laboring. And We remember saying that these manifold evils in the world were due to the fact that the majority of men had thrust Jesus Christ and his holy law out of their lives; that these had no place either in private affairs or in politics: and we said further, that as long as individuals and states refused to submit to the rule of our Savior, there would be no really hopeful prospect of a lasting peace among nations. Men must look for the peace of Christ in the Kingdom of Christ; and that We promised to do as far as lay in Our power. In the Kingdom of Christ, that is, it seemed to Us that peace could not be more effectually restored nor fixed upon a firmer basis than through the restoration of the Empire of Our Lord. We were led in the meantime to indulge the hope of a brighter future at the sight of a more widespread and keener interest evinced in Christ and his Church, the one Source of Salvation, a sign that men who had formerly spurned the rule of our Redeemer and had exiled themselves from his kingdom were preparing, and even hastening, to return to the duty of obedience. The many notable and memorable events which have occurred during this Holy Year have given great honor and glory to Our Lord and King, the Founder of the Church. At the Missionary Exhibition men have been deeply impressed in seeing the increasing zeal of the Church for the spread of the kingdom of her Spouse to the most far distant regions of the earth. They have seen how many countries have been won to the Catholic name through the unremitting labor and self-sacrifice of missionaries, and the vastness of the regions which have yet to be subjected to the sweet and saving yoke of our King. All those who in the course of the Holy Year have thronged to this city under the leadership of their Bishops or priests had but one aim – namely, to expiate their sins – and at the tombs of the Apostles and in Our Presence to promise loyalty to the rule of Christ. A still further light of glory was shed upon his kingdom, when after due proof of their heroic virtue, We raised to the honors of the altar six confessors and virgins. It was a great joy, a great consolation, that filled Our heart when in the majestic basilica of St. Peter Our decree was acclaimed by an immense multitude with the hymn of thanksgiving,Tu Rex gloriae Christe. We saw men and nations cut off from God, stirring up strife and discord and hurrying along the road to ruin and death, while the Church of God carries on her work of providing food for the spiritual life of men, nurturing and fostering generation after generation of men and women dedicated to Christ, faithful and subject to him in his earthly kingdom, called by him to eternal bliss in the kingdom of heaven. Moreover, since this jubilee Year marks the sixteenth centenary of the Council of Nicaea, We commanded that event to be celebrated, and We have done so in the Vatican basilica. There is a special reason for this in that the Nicene Synod defined and proposed for Catholic belief the dogma of the Consubstantiality of the Onlybegotten with the Father, and added to the Creed the words “of whose kingdom there shall be no end,” thereby affirming the kingly dignity of Christ. Since this Holy Year therefore has provided more than one opportunity to enhance the glory of the kingdom of Christ, we deem it in keeping with our Apostolic office to accede to the desire of many of the Cardinals, Bishops, and faithful, made known to Us both individually and collectively, by closing this Holy Year with the insertion into the Sacred Liturgy of a special feast ofthe Kingship of Our Lord Jesus Christ. This matter is so dear to Our heart, Venerable Brethren, that I would wish to address to you a few words concerning it. It will be for you later to explain in a manner suited to the understanding of the faithful what We are about to say concerning the Kingship of Christ, so that the annual feast which We shall decree may be attended with much fruit and produce beneficial results in the future. It has long been a common custom to give to Christ the metaphorical title of “King,” because of the high degree of perfection whereby he excels all creatures. So he is said to reign “in the hearts of men,” both by reason of the keenness of his intellect and the extent of his knowledge, and also because he is very truth, and it is from him that truth must be obediently received by all mankind. He reigns, too,in the wills of men, for in him the human will was perfectly and entirely obedient to the Holy Will of God, and further by his grace and inspiration he so subjects our free-will as to incite us to the most noble endeavors. He isKing of hearts, too, by reason of his “charity which exceedeth all knowledge.” And his mercy and kindness[1] which draw all men to him, for never has it been known, nor will it ever be, that man be loved so much and so universally as Jesus Christ. But if we ponder this matter more deeply, we cannot but see that the title and the power of King belongs to Christ as man in the strict and proper sense too. For it is only as man that he may be said to have received from the Father “power and glory and a kingdom,”[2] since the Word of God, as consubstantial with the Father, has all things in common with him, and therefore has necessarily supreme and absolute dominion over all things created. Do we not read throughout the Scriptures that Christ is the King? He it is that shall come out of Jacob to rule,[3] who has been set by the Father as king over Sion, his holy mount, and shall have the Gentiles for his inheritance, and the utmost parts of the earth for his possession.[4] In the nuptial hymn, where the future King of Israel is hailed as a most rich and powerful monarch, we read: “Thy throne, O God, is for ever and ever; the scepter of thy kingdom is a scepter of righteousness.”[5] There are many similar passages, but there is one in which Christ is even more clearly indicated. Here it is foretold that his kingdom will have no limits, and will be enriched with justice and peace: “in his days shall justice spring up, and abundance of peace…And he shall rule from sea to sea, and from the river unto the ends of the earth.”[6] The testimony of the Prophets is even more abundant. That of Isaias is well known: “For a child is born to us and a son is given to us, and the government is upon his shoulder, and his name shall be called Wonderful, Counselor, God the mighty, the Father of the world to come, the Prince of Peace. His empire shall be multiplied, and there shall be no end of peace. He shall sit upon the throne of David and upon his kingdom; to establish it and strengthen it with judgment and with justice, from henceforth and for ever.”[7] With Isaias the other Prophets are in agreement. So Jeremias foretells the “just seed” that shall rest from the house of David – the Son of David that shall reign as king, “and shall be wise, and shall execute judgment and justice in the earth.”[8] So, too, Daniel, who announces the kingdom that the God of heaven shall found, “that shall never be destroyed, and shall stand for ever.”[9] And again he says: “I beheld, therefore, in the vision of the night, and, lo! one like the son of man came with the clouds of heaven. And he came even to the Ancient of days: and they presented him before him. And he gave him power and glory and a kingdom: and all peoples, tribes, and tongues shall serve him. His power is an everlasting power that shall not be taken away, and his kingdom shall not be destroyed.”[10] The prophecy of Zachary concerning the merciful King “riding upon an ass and upon a colt the foal of an ass” entering Jerusalem as “the just and savior,” amid the acclamations of the multitude,[11] was recognized as fulfilled by the holy evangelists themselves. This same doctrine of the Kingship of Christ which we have found in the Old Testament is even more clearly taught and confirmed in the New. The Archangel, announcing to the Virgin that she should bear a Son, says that “the Lord God shall give unto him the throne of David his father, and he shall reign in the house of Jacob for ever; and of his kingdom there shall be no end.”[12] Moreover, Christ himself speaks of his own kingly authority: in his last discourse, speaking of the rewards and punishments that will be the eternal lot of the just and the damned; in his reply to the Roman magistrate, who asked him publicly whether he were a king or not; after his resurrection, when giving to his Apostles the mission of teaching and baptizing all nations, he took the opportunity to call himself king,[13] confirming the title publicly,[14] and solemnly proclaimed that all power was given him in heaven and on earth.[15] These words can only be taken to indicate the greatness of his power, the infinite extent of his kingdom. What wonder, then, that he whom St. John calls the “prince of the kings of the earth”[16] appears in the Apostle’s vision of the future as he who “hath on his garment and on his thigh written ‘King of kings and Lord of lords!’.”[17] It is Christ whom the Father “hath appointed heir of all things”;[18] “for he must reign until at the end of the world he hath put all his enemies under the feet of God and the Father.”[19] It was surely right, then, in view of the common teaching of the sacred books, that the Catholic Church, which is the kingdom of Christ on earth, destined to be spread among all men and all nations, should with every token of veneration salute her Author and Founder in her annual liturgy as King and Lord, and as King of Kings. And, in fact, she used these titles, giving expression with wonderful variety of language to one and the same concept, both in ancient psalmody and in the Sacramentaries. She uses them daily now in the prayers publicly offered to God, and in offering the Immaculate Victim. The perfect harmony of the Eastern liturgies with our own in this continual praise of Christ the King shows once more the truth of the axiom:Legem credendi lex statuit supplicandi. The rule of faith is indicated by the law of our worship. The foundation of this power and dignity of Our Lord is rightly indicated by Cyril of Alexandria. “Christ,” he says, “has dominion over all creatures, a dominion not seized by violence nor usurped, but his by essence and by nature.”[20] His kingship is founded upon the ineffable hypostatic union. From this it follows not only that Christ is to be adored by angels and men, but that to him as man angels and men are subject, and must recognize his empire; by reason of the hypostatic union Christ has power over all creatures. But a thought that must give us even greater joy and consolation is this that Christ is our King by acquired, as well as by natural right, for he is our Redeemer. Would that they who forget what they have cost their Savior might recall the words: “You were not redeemed with corruptible things, but with the precious blood of Christ, as of a lamb unspotted and undefiled.”[21] We are no longer our own property, for Christ has purchased us “with a great price”;[22] our very bodies are the “members of Christ.”[23] Let Us explain briefly the nature and meaning of this lordship of Christ. It consists, We need scarcely say, in a threefold power which is essential to lordship. This is sufficiently clear from the scriptural testimony already adduced concerning the universal dominion of our Redeemer, and moreover it is a dogma of faith that Jesus Christ was given to man, not only as our Redeemer, but also as a law-giver, to whom obedience is due.[24] Not only do the gospels tell us that he made laws, but they present him to us in the act of making them. Those who keep them show their love for their Divine Master, and he promises that they shall remain in his love.[25] He claimed judicial power as received from his Father, when the Jews accused him of breaking the Sabbath by the miraculous cure of a sick man. “For neither doth the Father judge any man; but hath given all judgment to the Son.”[26] In this power is included the right of rewarding and punishing all men living, for this right is inseparable from that of judging. Executive power, too, belongs to Christ, for all must obey his commands; none may escape them, nor the sanctions he has imposed. This kingdom is spiritual and is concerned with spiritual things. That this is so the above quotations from Scripture amply prove, and Christ by his own action confirms it. On many occasions, when the Jews and even the Apostles wrongly supposed that the Messiah would restore the liberties and the kingdom of Israel, he repelled and denied such a suggestion. When the populace thronged around him in admiration and would have acclaimed him King, he shrank from the honor and sought safety in flight. Before the Roman magistrate he declared that his kingdom wasnot of this world. The gospels present this kingdom as one which men prepare to enter by penance, and cannot actually enter except by faith and by baptism, which, though an external rite, signifies and produces an interior regeneration. This kingdom is opposed to none other than to that of Satan and to the power of darkness. It demands of its subjects a spirit of detachment from riches and earthly things, and a spirit of gentleness. They must hunger and thirst after justice, and more than this, they must deny themselves and carry the cross. Christ as our Redeemer purchased the Church at the price of his own blood; as priest he offered himself, and continues to offer himself as a victim for our sins. Is it not evident, then, that his kingly dignity partakes in a manner of both these offices? It would be a grave error, on the other hand, to say that Christ has no authority whatever in civil affairs, since, by virtue of the absolute empire over all creatures committed to him by the Father, all things are in his power. Nevertheless, during his life on earth he refrained from the exercise of such authority, and although he himself disdained to possess or to care for earthly goods, he did not, nor does he today, interfere with those who possess them.Non eripit mortalia qui regna dat caelestia.[27] Thus the empire of our Redeemer embraces all men. To use the words of Our immortal predecessor, Pope Leo XIII: “His empire includes not only Catholic nations, not only baptized persons who, though of right belonging to the Church, have been led astray by error, or have been cut off from her by schism, but also all those who are outside the Christian faith; so that truly the whole of mankind is subject to the power of Jesus Christ.”[28] Nor is there any difference in this matter between the individual and the family or the State; for all men, whether collectively or individually, are under the dominion of Christ. In him is the salvation of the individual, in him is the salvation of society. “Neither is there salvation in any other, for there is no other name under heaven given to men whereby we must be saved.”[29] He is the author of happiness and true prosperity for every man and for every nation. “For a nation is happy when its citizens are happy. What else is a nation but a number of men living in concord?”[30] If, therefore, the rulers of nations wish to preserve their authority, to promote and increase the prosperity of their countries, they will not neglect the public duty of reverence and obedience to the rule of Christ. What We said at the beginning of Our Pontificate concerning the decline of public authority, and the lack of respect for the same, is equally true at the present day. “With God and Jesus Christ,” we said, “excluded from political life, with authority derived not from God but from man, the very basis of that authority has been taken away, because the chief reason of the distinction between ruler and subject has been eliminated. The result is that human society is tottering to its fall, because it has no longer a secure and solid foundation.”[31] When once men recognize, both in private and in public life, that Christ is King, society will at last receive the great blessings of real liberty, well-ordered discipline, peace and harmony. Our Lord’s regal office invests the human authority of princes and rulers with a religious significance; it ennobles the citizen’s duty of obedience. It is for this reason that St. Paul, while bidding wives revere Christ in their husbands, and slaves respect Christ in their masters, warns them to give obedience to them not as men, but as the vicegerents of Christ; for it is not meet that men redeemed by Christ should serve their fellow-men. “You are bought with a price; be not made the bond-slaves of men.”[32] If princes and magistrates duly elected are filled with the persuasion that they rule, not by their own right, but by the mandate and in the place of the Divine King, they will exercise their authority piously and wisely, and they will make laws and administer them, having in view the common good and also the human dignity of their subjects. The result will be a stable peace and tranquillity, for there will be no longer any cause of discontent. Men will see in their king or in their rulers men like themselves, perhaps unworthy or open to criticism, but they will not on that account refuse obedience if they see reflected in them the authority of Christ God and Man. Peace and harmony, too, will result; for with the spread and the universal extent of the kingdom of Christ men will become more and more conscious of the link that binds them together, and thus many conflicts will be either prevented entirely or at least their bitterness will be diminished. If the kingdom of Christ, then, receives, as it should, all nations under its way, there seems no reason why we should despair of seeing that peace which the King of Peace came to bring on earth – he who cameto reconcile all things, who came not to be ministered unto but to minister, who, though Lord of all, gave himself to us as a model of humility, and with his principal law united the precept of charity; who said also: “My yoke is sweet and my burden light.” Oh, what happiness would be Ours if all men, individuals, families, and nations, would but let themselves be governed by Christ! “Then at length,” to use the words addressed by our predecessor, Pope Leo XIII, twenty-five years ago to the bishops of the Universal Church, “then at length will many evils be cured; then will the law regain its former authority; peace with all its blessings be restored. Men will sheathe their swords and lay down their arms when all freely acknowledge and obey the authority of Christ, and every tongue confesses that the Lord Jesus Christ is in the glory of God the Father.”[33] That these blessings may be abundant and lasting in Christian society, it is necessary that the kingship of our Savior should be as widely as possible recognized and understood, and to the end nothing would serve better than the institution of a special feast in honor of the Kingship of Christ. For people are instructed in the truths of faith, and brought to appreciate the inner joys of religion far more effectually by the annual celebration of our sacred mysteries than by any official pronouncement of the teaching of the Church. Such pronouncements usually reach only a few and the more learned among the faithful; feasts reach them all; the former speak but once, the latter speak every year – in fact, forever. The church’s teaching affects the mind primarily; her feasts affect both mind and heart, and have a salutary effect upon the whole of man’s nature. Man is composed of body and soul, and he needs these external festivities so that the sacred rites, in all their beauty and variety, may stimulate him to drink more deeply of the fountain of God’s teaching, that he may make it a part of himself, and use it with profit for his spiritual life. History, in fact, tells us that in the course of ages these festivals have been instituted one after another according as the needs or the advantage of the people of Christ seemed to demand: as when they needed strength to face a common danger, when they were attacked by insidious heresies, when they needed to be urged to the pious consideration of some mystery of faith or of some divine blessing. Thus in the earliest days of the Christian era, when the people of Christ were suffering cruel persecution, the cult of the martyrs was begun in order, says St. Augustine, “that the feasts of the martyrs might incite men to martyrdom.”[34] The liturgical honors paid to confessors, virgins and widows produced wonderful results in an increased zest for virtue, necessary even in times of peace. But more fruitful still were the feasts instituted in honor of the Blessed Virgin. As a result of these men grew not only in their devotion to the Mother of God as an ever-present advocate, but also in their love of her as a mother bequeathed to them by their Redeemer. Not least among the blessings which have resulted from the public and legitimate honor paid to the Blessed Virgin and the saints is the perfect and perpetual immunity of the Church from error and heresy. We may well admire in this the admirable wisdom of the Providence of God, who, ever bringing good out of evil, has from time to time suffered the faith and piety of men to grow weak, and allowed Catholic truth to be attacked by false doctrines, but always with the result that truth has afterwards shone out with greater splendor, and that men’s faith, aroused from its lethargy, has shown itself more vigorous than before. The festivals that have been introduced into the liturgy in more recent years have had a similar origin, and have been attended with similar results. When reverence and devotion to the Blessed Sacrament had grown cold, the feast of Corpus Christi was instituted, so that by means of solemn processions and prayer of eight days’ duration, men might be brought once more to render public homage to Christ. So, too, the feast of the Sacred Heart of Jesus was instituted at a time when men were oppressed by the sad and gloomy severity of Jansenism, which had made their hearts grow cold, and shut them out from the love of God and the hope of salvation. If We ordain that the whole Catholic world shall revere Christ as King, We shall minister to the need of the present day, and at the same time provide an excellent remedy for the plague which now infects society. We refer to the plague of anti-clericalism, its errors and impious activities. This evil spirit, as you are well aware, Venerable Brethren, has not come into being in one day; it has long lurked beneath the surface. The empire of Christ over all nations was rejected. The right which the Church has from Christ himself, to teach mankind, to make laws, to govern peoples in all that pertains to their eternal salvation, that right was denied. Then gradually the religion of Christ came to be likened to false religions and to be placed ignominiously on the same level with them. It was then put under the power of the state and tolerated more or less at the whim of princes and rulers. Some men went even further, and wished to set up in the place of God’s religion a natural religion consisting in some instinctive affection of the heart. There were even some nations who thought they could dispense with God, and that their religion should consist in impiety and the neglect of God. The rebellion of individuals and states against the authority of Christ has produced deplorable consequences. We lamented these in the EncyclicalUbi arcano; we lament them today: the seeds of discord sown far and wide; those bitter enmities and rivalries between nations, which still hinder so much the cause of peace; that insatiable greed which is so often hidden under a pretense of public spirit and patriotism, and gives rise to so many private quarrels; a blind and immoderate selfishness, making men seek nothing but their own comfort and advantage, and measure everything by these; no peace in the home, because men have forgotten or neglect their duty; the unity and stability of the family undermined; society in a word, shaken to its foundations and on the way to ruin. We firmly hope, however, that the feast of the Kingship of Christ, which in future will be yearly observed, may hasten the return of society to our loving Savior. It would be the duty of Catholics to do all they can to bring about this happy result. Many of these, however, have neither the station in society nor the authority which should belong to those who bear the torch of truth. This state of things may perhaps be attributed to a certain slowness and timidity in good people, who are reluctant to engage in conflict or oppose but a weak resistance; thus the enemies of the Church become bolder in their attacks. But if the faithful were generally to understand that it behooves them ever to fight courageously under the banner of Christ their King, then, fired with apostolic zeal, they would strive to win over to their Lord those hearts that are bitter and estranged from him, and would valiantly defend his rights. Moreover, the annual and universal celebration of the feast of the Kingship of Christ will draw attention to the evils which anticlericalism has brought upon society in drawing men away from Christ, and will also do much to remedy them. While nations insult the beloved name of our Redeemer by suppressing all mention of it in their conferences and parliaments, we must all the more loudly proclaim his kingly dignity and power, all the more universally affirm his rights. The way has been happily and providentially prepared for the celebration of this feast ever since the end of the last century. It is well known that this cult has been the subject of learned disquisitions in many books published in every part of the world, written in many different languages. The kingship and empire of Christ have been recognized in the pious custom, practiced by many families, of dedicating themselves to the Sacred Heart of Jesus; not only families have performed this act of dedication, but nations, too, and kingdoms. In fact, the whole of the human race was at the instance of Pope Leo XIII, in the Holy Year 1900, consecrated to the Divine Heart. It should be remarked also that much has been done for the recognition of Christ’s authority over society by the frequent Eucharistic Congresses which are held in our age. These give an opportunity to the people of each diocese, district or nation, and to the whole world of coming together to venerate and adore Christ the King hidden under the Sacramental species. Thus by sermons preached at meetings and in churches, by public adoration of the Blessed Sacrament exposed and by solemn processions, men unite in paying homage to Christ, whom God has given them for their King. It is by a divine inspiration that the people of Christ bring forth Jesus from his silent hiding-place in the church, and carry him in triumph through the streets of the city, so that he whom men refused to receive when he came unto his own, may now receive in full his kingly rights. For the fulfillment of the plan of which We have spoken, the Holy Year, which is now speeding to its close, offers the best possible opportunity. For during this year the God of mercy has raised the minds and hearts of the faithful to the consideration of heavenly blessingswhich are above all understanding, has either restored them once more to his grace, or inciting them anew to strive for higher gifts, has set their feet more firmly in the path of righteousness. Whether, therefore, We consider the many prayers that have been addressed to Us, or look to the events of the Jubilee Year, just past, We have every reason to think that the desired moment has at length arrived for enjoining that Christ be venerated by a special feast as King of all mankind. In this year, as We said at the beginning of this Letter, the Divine King,truly wonderful in all his works, has been gloriously magnified, for another company of his soldiers has been added to the list of saints. In this year men have looked upon strange things and strange labors, from which they have understood and admired the victories won by missionaries in the work of spreading his kingdom. In this year, by solemnly celebrating the centenary of the Council of Nicaea. We have commemorated the definition of the divinity of the word Incarnate, the foundation of Christ’s empire over all men. Therefore by Our Apostolic Authority We institute the Feast of the Kingship of Our Lord Jesus Christ to be observed yearly throughout the whole world on the last Sunday of the month of October – the Sunday, that is, which immediately precedes the Feast of All Saints. We further ordain that the dedication of mankind to the Sacred Heart of Jesus, which Our predecessor of saintly memory, Pope Pius X, commanded to be renewed yearly, be made annually on that day. This year, however, We desire that it be observed on the thirty-first day of the month on which day We Ourselves shall celebrate pontifically in honor of the kingship of Christ, and shall command that the same dedication be performed in Our presence. It seems to Us that We cannot in a more fitting manner close this Holy Year, nor better signify Our gratitude and that of the whole of the Catholic world to Christ the immortal King of ages, for the blessings showered upon Us, upon the Church, and upon the Catholic world during this holy period. It is not necessary, Venerable Brethren, that We should explain to you at any length why We have decreed that this feast of the Kingship of Christ should be observed in addition to those other feasts in which his kingly dignity is already signified and celebrated. It will suffice to remark that although in all the feasts of our Lord the material object of worship is Christ, nevertheless their formal object is something quite distinct from his royal title and dignity. We have commanded its observance on a Sunday in order that not only the clergy may perform their duty by saying Mass and reciting the Office, but that the laity too, free from their daily tasks, may in a spirit of holy joy give ample testimony of their obedience and subjection to Christ. The last Sunday of October seemed the most convenient of all for this purpose, because it is at the end of the liturgical year, and thus the feast of the Kingship of Christ sets the crowning glory upon the mysteries of the life of Christ already commemorated during the year, and, before celebrating the triumph of all the Saints, we proclaim and extol the glory of him who triumphs in all the Saints and in all the Elect. Make it your duty and your task, Venerable Brethren, to see that sermons are preached to the people in every parish to teach them the meaning and the importance of this feast, that they may so order their lives as to be worthy of faithful and obedient subjects of the Divine King. We would now, Venerable Brethren, in closing this letter, briefly enumerate the blessings which We hope and pray may accrue to the Church, to society, and to each one of the faithful, as a result of the public veneration of the Kingship of Christ. When we pay honor to the princely dignity of Christ, men will doubtless be reminded that the Church, founded by Christ as a perfect society, has a natural and inalienable right to perfect freedom and immunity from the power of the state; and that in fulfilling the task committed to her by God of teaching, ruling, and guiding to eternal bliss those who belong to the kingdom of Christ, she cannot be subject to any external power. The State is bound to extend similar freedom to the orders and communities of religious of either sex, who give most valuable help to the Bishops of the Church by laboring for the extension and the establishment of the kingdom of Christ. By their sacred vows they fight against the threefold concupiscence of the world; by making profession of a more perfect life they render the holiness which her divine Founder willed should be a mark and characteristic of his Church more striking and more conspicuous in the eyes of all. Nations will be reminded by the annual celebration of this feast that not only private individuals but also rulers and princes are bound to give public honor and obedience to Christ. It will call to their minds the thought of the last judgment, wherein Christ, who has been cast out of public life, despised, neglected and ignored, will most severely avenge these insults; for his kingly dignity demands that the State should take account of the commandments of God and of Christian principles, both in making laws and in administering justice, and also in providing for the young a sound moral education. The faithful, moreover, by meditating upon these truths, will gain much strength and courage, enabling them to form their lives after the true Christian ideal. If to Christ our Lord is given all power in heaven and on earth; if all men, purchased by his precious blood, are by a new right subjected to his dominion; if this power embraces all men, it must be clear that not one of our faculties is exempt from his empire. He must reign in our minds, which should assent with perfect submission and firm belief to revealed truths and to the doctrines of Christ. He must reign in our wills, which should obey the laws and precepts of God. He must reign in our hearts, which should spurn natural desires and love God above all things, and cleave to him alone. He must reign in our bodies and in our members, which should serve as instruments for the interior sanctification of our souls, or to use the words of the Apostle Paul,as instruments of justice unto God.[35] If all these truths are presented to the faithful for their consideration, they will prove a powerful incentive to perfection. It is Our fervent desire, Venerable Brethren, that those who are without the fold may seek after and accept the sweet yoke of Christ, and that we, who by the mercy of God are of the household of the faith, may bear that yoke, not as a burden but with joy, with love, with devotion; that having lived our lives in accordance with the laws of God’s kingdom, we may receive full measure of good fruit, and counted by Christ good and faithful servants, we may be rendered partakers of eternal bliss and glory with him in his heavenly kingdom. Let this letter, Venerable Brethren, be a token to you of Our fatherly love as the Feast of the Nativity of Our Lord Jesus Christ draws near; and receive the Apostolic Benediction as a pledge of divine blessings, which with loving heart, We impart to you, Venerable Brethren, to your clergy, and to your people. Given at St. Peter’s Rome, on the eleventh day of the month of December, in the Holy Year 1925, the fourth of Our Pontificate. PIUS XI Eph. iii, 9. Dan. vii, 13-14. Num. xxiv, 19. Ps. ii. Ps. xliv. Ps. Ixxi. Isa. ix, 6-7. Jer. xxiii, 5. Dan. ii, 44. Dan. vii, 13-14. Zach. ix, 9. Luc. i, 32-33. Matt. xxv, 31-40. Joan. xviii, 37. Matt. xxviii, 18. Apoc. 1, 5. Apoc. xix, 16. Heb. 1, 2. Cf. 1 Cor. xv, 25. In huc. x. I Pet. i, 18-19. 1 Cor. vi, 20. I Cor. vi, 15. Conc. Trid.Sess. Vl, can. 21. Joan. xiv, 15; xv, 10. Joan. v, 22. Hymn for the Epiphany. Enc.Annum Sacrum,May 25, 1899. Acts iv, 12. S. Aug.Ep. ad Macedonium,c. iii. Enc.Ubi Arcano. I Cor.vii,23. Enc.Annum Sanctum, May 25, 1899. Sermo 47de Sanctis. Rom. vi, 13. #CARTAENCÍCLICADOPAPAPIOXINAFESTADECRISTOOREI #FESTADECRISTOOREI #QUASPRIMAS #QUASPRIMASCARTAENCÍCLICADOPAPAPIOXINAFESTADECRISTOOREI

  • RERUM NOVARUM

    CARTA ENCÍCLICA «RERUM NOVARUM» DO SUMO PONTÍFICE PAPA LEÃO XIII A TODOS OS NOSSOS VENERÁVEIS IRMÃOS, OS PATRIARCAS, PRIMAZES, ARCEBISPOS E BISPOS DO ORBE CATÓLICO, EM GRAÇA E COMUNHÃO COM A SÉ APOSTÓLICA SOBRE A CONDIÇÃO DOS OPERÁRIOS INTRODUÇÃO 1. A sede de inovações, que há muito tempo se apoderou das sociedades e as tem numa agitação febril, devia, tarde ou cedo, passar das regiões da política para a esfera vizinha da economia social. Efectivamente, os progressos incessantes da indústria, os novos caminhos em que entraram as artes, a alteração das relações entre os operários e os patrões, a influência da riqueza nas mãos dum pequeno número ao lado da indigência da multidão, a opinião enfim mais avantajada que os operários formam de si mesmos e a sua união mais compacta, tudo isto, sem falar da corrupção dos costumes, deu em resultado final um temível conflito. Por toda a parte, os espíritos estão apreensivos e numa ansiedade expectante, o que por si só basta para mostrar quantos e quão graves interesses estão em jogo. Esta situação preocupa e põe ao mesmo tempo em exercício o génio dos doutos, a prudência dos sábios, as deliberações das reuniões populares, a perspicácia dos legisladores e os conselhos dos governantes, e não há, presentemente, outra causa que impressione com tanta veemência o espírito humano. É por isto que, Veneráveis Irmãos, o que em outras ocasiões temos feito, para bem da Igreja e da salvação comum dos homens, em Nossas Encíclicas sobre a soberania política, a liberdade humana, a constituição cristã dos Estados [*] e outros assuntos análogos, refutando, segundo Nos pareceu oportuno, as opiniões erróneas e falazes, o julgamos dever repetir hoje e pelos mesmos motivos, falando-vos da Condição dos Operários. Já temos tocado esta matéria muitas vezes, quando se Nos tem proporcionado o ensejo; mas a consciência do Nosso cargo Apostólico impõe-Nos como um dever tratá-la nesta Encíclica mais explicitamente e com maior desenvolvimento, a fim de pôr em evidência os princípios duma solução, conforme à justiça e à equidade. O problema nem é fácil de resolver, nem isento de perigos. E difícil, efectivamente, precisar com exactidão os direitos e os deveres que devem ao mesmo tempo reger a riqueza e o proletariado, o capital e o trabalho. Por outro lado, o problema não é sem perigos, porque não poucas vezes homens turbulentos e astuciosos procuram desvirtuar-lhe o sentido e aproveitam-no para excitar as multidões e fomentar desordens. Causas do conflito 2. Em todo o caso, estamos persuadidos, e todos concordam nisto, de que é necessário, com medidas prontas e eficazes, vir em auxílio dos homens das classes inferiores, atendendo a que eles estão, pela maior parte, numa situação de infortúnio e de miséria imerecida. O século passado destruiu, sem as substituir por coisa alguma, as corporações antigas, que eram para eles uma protecção; os princípios e o sentimento religioso desapareceram das leis e das instituições públicas, e assim, pouco a pouco, os trabalhadores, isolados e sem defesa, têm-se visto, com o decorrer do tempo, entregues à mercê de senhores desumanos e à cobiça duma concorrência desenfreada. A usura voraz veio agravar ainda mais o mal. Condenada muitas vezes pelo julgamento da Igreja, não tem deixado de ser praticada sob outra forma por homens ávidos de ganância, e de insaciável ambição. A tudo isto deve acrescentar-se o monopólio do trabalho e dos papéis de crédito, que se tornaram o quinhão dum pequeno número de ricos e de opulentos, que impõem assim um jugo quase servil à imensa multidão dos proletários. A solução socialista 3. Os Socialistas, para curar este mal, instigam nos pobres o ódio invejoso contra os que possuem, e pretendem que toda a propriedade de bens particulares deve ser suprimida, que os bens dum indivíduo qualquer devem ser comuns a todos, e que a sua administração deve voltar para – os Municípios ou para o Estado. Mediante esta transladação das propriedades e esta igual repartição das riquezas e das comodidades que elas proporcionam entre os cidadãos, lisonjeiam-se de aplicar um remédio eficaz aos males presentes. Mas semelhante teoria, longe de ser capaz de pôr termo ao conflito, prejudicaria o operário se fosse posta em prática. Pelo contrário, é sumamente injusta, por violar os direitos legítimos dos proprietários, viciar as funções do Estado e tender para a subversão completa do edifício social. A propriedade particular 4. De facto, como é fácil compreender, a razão intrínseca do trabalho empreendido por quem exerce uma arte lucrativa, o fim imediato visado pelo trabalhador, é conquistar um bem que possuirá como próprio e como pertencendo-lhe; porque, se põe à disposição de outrem as suas forças e a sua indústria, não é, evidentemente, por outro motivo senão para conseguir com que possa prover à sua sustentação e às necessidades da vida, e espera do seu trabalho, não só o direito ao salário, mas ainda um direito estrito e rigoroso para usar dele como entender. Portanto, se, reduzindo as suas despesas, chegou a fazer algumas economias, e se, para assegurar a sua conservação, as emprega, por exemplo, num campo, torna-se evidente que esse campo não é outra coisa senão o salário transformado: o terreno assim adquirido será propriedade do artista com o mesmo título que a remuneração do seu trabalho. Mas, quem não vê que é precisamente nisso que consiste o direito da propriedade mobiliária e imobiliária? Assim, esta conversão da propriedade particular em propriedade colectiva, tão preconizada pelo socialismo, não teria outro efeito senão tornar a situação dos operários mais precária, retirando-lhes a livre disposição do seu salário e roubando-lhes, por isso mesmo, toda a esperança e toda a possibilidade de engrandecerem o seu património e melhorarem a sua situação. 5. Mas, e isto parece ainda mais grave, o remédio proposto está em oposição flagrante com a justiça, porque a propriedade particular e pessoal é, para o homem, de direito natural. Há, efectivamente, sob este ponto de vista, uma grandíssima diferença entre o homem e os animais destituídos de razão. Estes não se governam a si mesmos; são dirigidos e governados pela natureza, mediante um duplo instinto, que, por um lado, conserva a sua actividade sempre viva e lhes desenvolve as forças; por outro, provoca e circunscreve ao mesmo tempo cada um dos seus movimentos. O primeiro instinto leva-os à conservação e à defesa da sua própria vida; o segundo, à propagação da espécie; e este duplo resultado obtêm-no facilmente pelo uso das coisas presentes e postas ao seu alcance. Por outro lado, seriam incapazes de transpor esses limites, porque apenas são movidos pelos sentidos e por cada objecto particular que os sentidos percebem. Muito diferente é a natureza humana. Primeiramente, no homem reside, em sua perfeição, toda a virtude da natureza sensitiva, e desde logo lhe pertence, não menos que a esta, gozar dos objectos físicos e corpóreos. Mas a vida sensitiva mesmo que possuída em toda a sua plenitude, não só não abraça toda a natureza humana, mas é-lhe muito inferior e própria para lhe obedecer e ser-lhe sujeita. O que em nós se avantaja, o que nos faz homens, nos distingue essencialmente do animal, é a razão ou a inteligência, e em virtude desta prerrogativa deve reconhecer-se ao homem não só a faculdade geral de usar das coisas exteriores, mas ainda o direito estável e perpétuo de as possuir, tanto as que se consomem pelo uso, como as que permanecem depois de nos terem servido. Uso comum dos bens criados e propriedade particular deles Uma consideração mais profunda da natureza humana vai fazer sobressair melhor ainda esta verdade. O homem abrange pela sua inteligência uma infinidade de objectos, e às coisas presentes acrescenta e prende as coisas futuras; além disso, é senhor das suas acções; também sob a direcção da lei eterna e sob o governo universal da Providência divina, ele é, de algum modo, para si a sua lei e a sua providência. É por isso que tem o direito de escolher as coisas que julgar mais aptas, não só para prover ao presente, mas ainda ao futuro. De onde se segue que deve ter sob o seu domínio não só os produtos da terra, mas ainda a própria terra, que, pela sua fecundidade, ele vê estar destinada a ser a sua fornecedora no futuro. As necessidades do homem repetem-se perpetuamente: satisfeitas hoje, renascem amanhã com novas exigências. Foi preciso, portanto, para que ele pudesse realizar o seu direito em todo o tempo, que a natureza pusesse à sua disposição um elemento estável e permanente, capaz de lhe fornecer perpetuamente os meios. Ora, esse elemento só podia ser a terra, com os seus recursos sempre fecundos. E não se apele para a providência do Estado, porque o Estado é posterior ao homem, e antes que ele pudesse formar-se, já o homem tinha recebido da natureza o direito de viver e proteger a sua existência. Não se oponha também à legitimidade da propriedade particular o facto de que Deus concedeu a terra a todo o género humano para a gozar, porque Deus não a concedeu aos homens para que a dominassem confusamente todos juntos. Tal não é o sentido dessa verdade. Ela significa, unicamente, que Deus não assinou uma parte a nenhum homem em particular, mas quis deixar a limitação das propriedades à indústria humana e às instituições dos povos. Aliás, posto que dividida em propriedades particulares, a terra não deixa de servir à utilidade comum de todos, atendendo a que não há ninguém entre os mortais que não se alimente do produto dos campos. Quem os não tem, supre-os pelo trabalho, de maneira que se pode afirmar, com toda a verdade, que o trabalho é o meio universal de prover às necessidades da vida, quer ele se exerça num terreno próprio, quer em alguma parte lucrativa cuja remuneração, sai apenas dos produtos múltiplos da terra, com os quais ela se comuta. De tudo isto resulta, mais uma vez, que a propriedade particular é plenamente conforme à natureza. A terra, sem dúvida, fornece ao homem com abundância as coisas necessárias para a conservação da sua vida e ainda para o seu aperfeiçoamento, mas não poderia fornecê-las sem a cultura e sem os cuidados do homem. Ora, que faz o homem, consumindo os recursos do seu espírito e as forças do seu corpo em procurar esses bens da natureza? Aplica, para assim dizer, a si mesmo a porção da natureza corpórea que cultiva e deixa nela como que um certo cunho da sua pessoa, a ponto que, com toda a justiça, esse bem será possuído de futuro como seu, e não será lícito a ninguém violar o seu direito de qualquer forma que seja. A propriedade sancionada pelas leis humanas e divinas A força destes raciocínios é duma evidência tal, que chegamos a admirar como certos partidários de velhas opiniões podem ainda contradizê-los, concedendo sem dúvida ao homem particular o uso do solo e os frutos dos campos, mas recusando-lhe o direito de possuir, na qualidade de proprietário, esse solo em que edificou, a porção da terra que cultivou. Não vêem, pois, que despojam assim esse homem do fruto do seu trabalho; porque, afinal, esse campo amanhado com arte pela mão do cultivador, mudou completamente de natureza: era selvagem, ei-lo arroteado; de infecundo, tornou-se fértil; o que o tornou melhor, está inerente ao solo e confunde-se de tal forma com ele, que em grande parte seria impossível separá-lo. Suportaria a justiça que um estranho viesse então a atribuir-se esta terra banhada pelo suor de quem a cultivou? Da mesma forma que o efeito segue a causa, assim é justo que o fruto do trabalho pertença ao trabalhador. É, pois, com razão, que a universalidade do género humano, sem se deixar mover pelas opiniões contrárias dum pequeno grupo, reconhece, considerando atentamente a natureza, que nas suas leis reside o primeiro fundamento da repartição dos bens e das propriedades particulares; foi com razão que o costume de todos os séculos sancionou uma situação tão conforme à natureza do homem e à vida tranquila e pacífica das sociedades. Por seu lado, as leis civis, que recebem o seu valor [1], quando são justas, da lei natural, confirmam esse mesmo direito e protegem-no pela força. Finalmente, a autoridade das leis divinas vem pôr-lhe o seu selo, proibindo, sob perla gravíssima, até mesmo o desejo do que pertence aos outros: «Não desejarás a mulher do teu próximo, nem a sua casa, nem o seu campo, nem o seu boi, nem a sua serva, nem o seu jumento, nem coisa alguma que lhe pertença» [2] . A família e o Estado 6. Entretanto, esses direitos, que são inatos a cada homem considerado isoladamente, apresentam-se mais rigorosos ainda, quando se consideram nas suas relações e na sua conexão com os deveres da vida doméstica. Ninguém põe em dúvida que, na escolha dum género de vida, seja lícito cada um seguir o conselho de Jesus Cristo sobre a virgindade, ou contrair um laço conjugal. Nenhuma lei humana poderia apagar de qualquer forma o direito natural e primordial de todo o homem ao casamento, nem circunscrever o fim principal para que ele foi estabelecido desde a origem: «Crescei e multiplicai-vos»[3]. Eis, pois, a família, isto é, a sociedade doméstica, sociedade muito pequena certamente, mas real e anterior a toda a sociedade civil, à qual, desde logo, será forçosamente necessário atribuir certos direitos e certos deveres absolutamente independentes do Estado. Assim, este direito de propriedade que Nós, em nome da natureza, reivindicamos para o indivíduo, é preciso agora transferi-lo para o homem constituído chefe de família. Isto não basta: passando para a sociedade doméstica, este direito adquire aí tanto maior força quanto mais extensão lá recebe a pessoa humana. A natureza não impõe somente ao pai de família o dever sagrado de alimentar e sustentar seus filhos; vai mais longe. Como os filhos reflectem a fisionomia de seu pai e são uma espécie de prolongamento da sua pessoa, a natureza inspira-lhe o cuidado do seu futuro e a criação dum património que os ajude a defender-se, na perigosa jornada da vida, contra todas as surpresas da má fortuna. Mas, esse património poderá ele criá-lo sem a aquisição e a posse de bens permanentes e produtivos que possam transmitir-lhes por via de herança? Assim como a sociedade civil, a família, conforme atrás dissemos, é uma sociedade propriamente dita, com a sua autoridade e o seu governo paterno, é por isso que sempre indubitavelmente na esfera que lhe determina o seu fim imediato, ela goza, para a escolha e uso de tudo o que exigem a sua conservação e o exercício duma justa independência, de direitos pelo menos iguais aos da sociedade civil. Pelo menos iguais, dizemos Nós, porque a sociedade doméstica tem sobre a sociedade civil uma prioridade lógica e uma prioridade real, de que participam necessariamente os seus direitos e os seus deveres. E se os indivíduos e as famílias, entrando na sociedade, nela achassem, em vez de apoio, um obstáculo, em vez de protecção, uma diminuição dos seus direitos, dentro em pouco a sociedade seria mais para se evitar do que para se procurar. Querer, pois, que o poder civil invada arbitrariamente o santuário da família, é um erro grave e funesto. Certamente, se existe algures uma família que se encontre numa situação desesperada, e que faça esforços vãos para sair dela, é justo que, em tais extremos, o poder público venha em seu auxílio, porque cada família é um membro da sociedade. Da mesma forma, se existe um lar doméstico que seja teatro de graves violações dos direitos mútuos, que o poder público intervenha para restituir a cada um os seus direitos. Não é isto usurpar as atribuições dos cidadãos, mas fortalecer os seus direitos, protegê-los e defendê-los como convém. Todavia, a acção daqueles que presidem ao governo público não deve ir mais além; a natureza proíbe-lhes ultrapassar esses limites. A autoridade paterna não pode ser abolida, nem absorvida pelo Estado, porque ela tem uma origem comum com a vida humana. «Os filhos são alguma coisa de seu pai»; são de certa forma uma extensão da sua pessoa, e, para falar com justiça, não é imediatamente por si que eles se agregam e se incorporam na sociedade civil, mas por intermédio da sociedade doméstica em que nasceram. Porque os «filhos são naturalmente alguma coisa de seu pai… devem ficar sob a tutela dos pais até que tenham adquirido o livre arbítrio» [4]. Assim, substituindo a providência paterna pela providência do Estado, os socialistas vão contra a justiça natural e quebram os laços da família. O comunismo, princípio de empobrecimento 7. Mas, além da injustiça do seu sistema, vêem-se bem todas as suas funestas consequências, a perturbação em todas as classes da sociedade, uma odiosa e insuportável servidão para todos os cidadãos, porta aberta a todas as invejas, a todos os descontentamentos, a todas as discórdias; o talento e a habilidade privados dos seus estímulos, e, como consequência necessária, as riquezas estancadas na sua fonte; enfim, em lugar dessa igualdade tão sonhada, a igualdade na nudez, na indigência e na miséria. Por tudo o que Nós acabamos de dizer, se compreende que a teoria socialista da propriedade colectiva deve absolutamente repudiar-se como prejudicial àqueles membros a que se quer socorrer, contrária aos direitos naturais dos indivíduos, como desnaturando as funções do Estado e perturbando a tranquilidade pública. Fique, pois, bem assente que o primeiro fundamento a estabelecer por todos aqueles que querem sinceramente o bem do povo é a inviolabilidade da propriedade particular. Expliquemos agora onde convém procurar o remédio tão desejado. A Igreja e a questão social 8. É com toda a confiança que Nós abordamos este assunto, e em toda a plenitude do Nosso direito; porque a questão de que se trata é de tal natureza, que, se não apelamos para a religião e para a Igreja, é impossível encontrar-lhe uma solução eficaz. Ora, como é principalmente a Nós que estão confiadas a salvaguarda da religião e a dispensação do que é do domínio da Igreja, calarmo-nos seria aos olhos de todos trair o Nosso dever. Certamente uma questão desta gravidade demanda ainda de outros a sua parte de actividade e de esforços; isto é, dos governantes, dos senhores e dos ricos, e dos próprios operários, de cuja sorte se trata. Mas, o que Nós afirmamos sem hesitação, é a inanidade da sua acção fora da Igreja. E a Igreja, efectivamente, que haure no Evangelho doutrinas capazes de pôr termo ao conflito ou ao menos de o suavizar, expurgando-o de tudo o que ele tenha de severo e áspero; a Igreja, que se não contenta em esclarecer o espírito de seus ensinos, mas também se esforça em regular, de harmonia com eles a vida e os costumes de cada um; a Igreja, que, por uma multidão de instituições eminentemente benéficas, tende a melhorar a sorte das classes pobres; a Igreja, que quer e deseja ardentemente que todas as classes empreguem em comum as suas luzes e as suas forças para dar à questão operária a melhor solução possível; a Igreja, enfim, que julga que as leis e a autoridade pública devem levar a esta solução, sem dúvida com medida e com prudência, a sua parte do consenso. Não luta, mas concórdia das classes 9. O primeiro princípio a pôr em evidência é que o homem deve aceitar com paciência a sua condição: é impossível que na sociedade civil todos sejam elevados ao mesmo nível. É, sem dúvida, isto o que desejam os Socialistas; mas contra a natureza todos os esforços são vãos. Foi ela, realmente, que estabeleceu entre os homens diferenças tão multíplices como profundas; diferenças de inteligência, de talento, de habilidade, de saúde, de força; diferenças necessárias, de onde nasce espontaneamente a desigualdade das condições. Esta desigualdade, por outro lado, reverte em proveito de todos, tanto da sociedade como dos indivíduos; porque a vida social requer um organismo muito variado e funções muito diversas, e o que leva precisamente os homens a partilharem estas funções é, principalmente, a diferença das suas respectivas condições. Pelo que diz respeito ao trabalho em particular, o homem, mesmo no estado de inocência, não era destinado a viver na ociosidade, mas, ao que a vontade teria abraçado livremente como exercício agradável, a necessidade lhe acrescentou, depois do pecado, o sentimento da dor e o impôs como uma expiação: «A terra será maldita por tua causa; é pelo trabalho que tirarás com que alimentar-te todos os dias da vida» [5]. O mesmo se dá com todas as outras calamidades que caíram sobre o homem: neste mundo estas calamidades não terão fim nem tréguas, porque os funestos frutos do pecado são amargos, acres, acerbos, e acompanham necessariamente o homem até ao derradeiro suspiro. Sim, a dor e o sofrimento são o apanágio da humanidade, e os homens poderão ensaiar tudo, tudo tentar para os banir; mas não o conseguirão nunca, por mais recursos que empreguem e por maiores forças que para isso desenvolvam. Se há quem, atribuindo-se o poder fazê-lo, prometa ao pobre uma vida isenta de sofrimentos e de trabalhos, toda de repouso e de perpétuos gozos, certamente engana o povo e lhe prepara laços, onde se ocultam, para o futuro, calamidades mais terríveis que as do presente. O melhor partido consiste em ver as coisas tais quais são, e, como dissemos, em procurar um remédio que possa aliviar os nossos males. O erro capital na questão presente é crer que as duas classes são inimigas natas uma da outra, como se a natureza tivesse armado os ricos e os pobres para se combaterem mutuamente num duelo obstinado. Isto é uma aberração tal, que é necessário colocar a verdade numa doutrina contrariamente oposta, porque, assim como no corpo humano os membros, apesar da sua diversidade, se adaptam maravilhosamente uns aos outros, de modo que formam um todo exactamente proporcionado e que se poderá chamar simétrico, assim também, na sociedade, as duas classes estão destinadas pela natureza a unirem-se harmoniosamente e a conservarem-se mutuamente em perfeito equilíbrio. Elas têm imperiosa necessidade uma da outra: não pode haver capital sem trabalho, nem trabalho sem capital. A concórdia traz consigo a ordem e a beleza; ao contrário, dum conflito perpétuo só podem resultar confusão e lutas selvagens. Ora, para dirimir este conflito e cortar o mal na sua raiz, as Instituições possuem uma virtude admirável e múltipla. E, primeiramente, toda a economia das verdades religiosas, de que a Igreja é guarda e intérprete, é de natureza a aproximar e reconciliar os ricos e os pobres, lembrando às duas classes os seus deveres mútuos e, primeiro que todos os outros, os que derivam da justiça. Obrigações dos operários e dos patrões 10. Entre estes deveres, eis os que dizem respeito ao pobre e ao operário: deve fornecer integral e fielmente todo o trabalho a que se comprometeu por contrato livre e conforme à equidade; não deve lesar o seu patrão, nem nos seus bens, nem na sua pessoa; as suas reivindicações devem ser isentas de violências e nunca revestirem a forma de sedições; deve fugir dos homens perversos que, nos seus discursos artificiosos, lhe sugerem esperanças exageradas e lhe fazem grandes promessas, as quais só conduzem a estéreis pesares e à ruína das fortunas. Quanto aos ricos e aos patrões, não devem tratar o operário como escravo, mas respeitar nele a dignidade do homem, realçada ainda pela do Cristão. O trabalho do corpo, pelo testemunho comum da razão e da filosofia cristã, longe de ser um objecto de vergonha, honra o homem, porque lhe fornece um nobre meio de sustentar a sua vida. O que é vergonhoso e desumano é usar dos homens como de vis instrumentos de lucro, e não os estimar senão na proporção do vigor dos seus braços. O cristianismo, além disso, prescreve que se tenham em consideração os interesses espirituais do operário e o bem da sua alma. Aos patrões compete velar para que a isto seja dada plena satisfação, para que o operário não seja entregue à sedução e às solicitações corruptoras, que nada venha enfraquecer o espírito de família nem os hábitos de economia. Proíbe também aos patrões que imponham aos seus subordinados um trabalho superior às suas forças ou em desarmonia com a sua idade ou o seu sexo. Mas, entre os deveres principais do patrão, é necessário colocar, em primeiro lugar, o de dar a cada um o salário que convém. Certamente, para fixar a justa medida do salário, há numerosos pontos de vista a considerar. Duma maneira geral, recordem-se o rico e o patrão de que explorar a pobreza e a miséria e especular com a indigência, são coisas igualmente reprovadas pelas leis divinas e humanas; que cometeria um crime de clamar vingança ao céu quem defraudasse a qualquer no preço dos seus labores: «Eis que o salário, que tendes extorquido por fraude aos vossos operários, clama contra vós: e o seu clamor subiu até aos ouvidos do Deus dos Exércitos»[6]. Enfim, os ricos devem precaver-se religiosamente de todo o acto violento, toda a fraude, toda a manobra usurária que seja de natureza a atentar contra a economia do pobre, e isto mais ainda, porque este é menos apto para defender-se, e porque os seus haveres, por serem de mínima importância, revestem um carácter mais sagrado. A obediência a estas leis — pergunta-mos Nós — não bastaria, só de per si, para fazer cessar todo o antagonismo e suprimir-lhe as causas? 11. Todavia a Igreja, instruída e dirigida por Jesus Cristo, eleva o seu olhar ainda para mais alto; propõe um conjunto de preceitos mais completo, porque ambiciona estreitar a união das duas classes até as unir uma à outra por laços de verdadeira amizade. Ninguém pode ter uma verdadeira compreensão da vida mortal, nem estimá-la no seu devido valor, se não se eleva à consideração da outra vida que é imortal. Suprimi esta, e imediatamente toda a forma e toda a verdadeira noção de honestidade desaparecerá; mais ainda: todo o universo se tornará um impenetrável mistério. Quando tivermos abandonado esta vida, só então começaremos a viver: esta verdade, que a mesma natureza nos ensina, é um dogma cristão sobre o qual assenta, como sobre o seu primeiro fundamento, toda a economia da religião. Não, Deus não nos fez para estas coisas frágeis e caducas, mas para as coisas celestes e eternas; não nos deu esta terra como nossa morada fixa, mas como lugar de exílio. Que abundeis em riquezas ou outros bens, chamados bens de fortuna, ou que estejais privados deles, isto nada importa à eterna beatitude: o uso que fizerdes deles é o que interessa. Pela Sua superabundante redenção, Jesus Cristo não suprimiu as aflições que formam quase toda a trama da vida mortal; fez delas estímulos de virtude e fontes de mérito, de sorte que não há homem que possa pretender as recompensas eternas, se não caminhar sobre os traços sanguinolentos de Jesus Cristo: «Se sofremos com Ele, com Ele reinaremos»[7]. Por outra parte, escolhendo Ele mesmo a cruz e os tormentos, minorou-lhes singularmente o peso e a amargura, e, a fim de nos tornar ainda mais suportável o sofrimento, ao exemplo acrescentou a Sua graça e a promessa duma recompensa sem fim: «Porque o momento tão curto e tão ligeiro das aflições, que sofremos nesta vida, produz em nós o peso eterno duma glória soberana incomparável» [8]. Assim, os afortunados deste mundo são advertidos de que as riquezas não os isentam da dor; que elas não são de nenhuma utilidade para a vida eterna, mas antes um obstáculo[9]; que eles devem tremer diante das ameaças severas que Jesus Cristo profere contra os ricos [10]; que, enfim, virá um dia em que deverão prestar a Deus, seu juiz, rigorosíssimas contas do uso que hajam feito da sua fortuna. Posse e uso das riquezas 12. Sobre o uso das riquezas, já a pura filosofia pôde delinear alguns ensinamentos de suma excelência e extrema importância; mas só a Igreja no-los pode dar na sua perfeição, e fazê-los descer do conhecimento à prática. O fundamento dessa doutrina está na distinção entre a justa posse das riquezas e o seu legítimo uso. A propriedade particular, já o dissemos mais acima, é de direito natural para o homem: o exercício deste direito é coisa não só permitida, sobretudo a quem vive em sociedade, mas ainda absolutamente necessária[11]. Agora, se se pergunta em que é necessário fazer consistir o uso dos bens, a Igreja responderá sem hesitação: «A esse respeito o homem não deve ter as coisas exteriores por particulares, mas sim por comuns, de tal sorte que facilmente dê parte delas aos outros nas suas necessidades. É por isso que o Apóstolo disse: «Ordena aos ricos do século… dar facilmente, comunicar as suas riquezas» [12]. Ninguém certamente é obrigado a aliviar o próximo privando-se do seu necessário ou do de sua família; nem mesmo a nada suprimir do que as conveniências ou decência Impõem à sua pessoa: «Ninguém com efeito deve viver contrariamente às conveniências»[13]. Mas, desde que haja suficientemente satisfeito à necessidade e ao decoro, é um dever lançar o supérfluo no seio dos pobres: «Do supérfluo dai esmolas» [14]. É um dever, não de estrita justiça, excepto nos casos de extrema necessidade, mas de caridade cristã, um dever, por consequência, cujo cumprimento se não pode conseguir pelas vias da justiça humana. Mas, acima dos juízos do homem e das leis, há a lei e o juízo de Jesus Cristo, nosso Deus, que nos persuade de todas as maneiras a dar habitualmente esmola: «É mais feliz», diz Ele, «aquele que dá do que aquele que recebe» [15], e o Senhor terá como dada ou recusada a Si mesmo a esmola que se haja dado ou recusado aos pobres: «Todas as vezes que tenhais dado esmola, a um de Meus irmãos, é a Mim que a haveis dado» [16]. Eis, aliás, em algumas palavras, o resumo desta doutrina: Quem quer que tenha recebido da divina Bondade maior abundância, quer de bens externos e do corpo, quer de bens da alma, recebeu-os com o fim de os fazer servir ao seu próprio aperfeiçoamento, e, ao mesmo tempo, como ministro da Providência, ao alívio dos outros. «E por isso, que quem tiver o talento da palavra tome cuidado em se não calar; quem possuir superabundância de bens, não deixe a misericórdia entumecer-se no fundo do seu coração; quem tiver a arte de governar, aplique-se com cuidado a partilhar com seu irmão o seu exercício e os seus frutos» [17]. Dignidade do trabalho 13. Quanto aos deserdados da fortuna, aprendam da Igreja que, segundo o juízo do próprio Deus, a pobreza não é um opróbrio e que não se deve corar por ter de ganhar o pão com o suor do seu rosto. É o que Jesus Cristo Nosso Senhor confirmou com o Seu exemplo. Ele, que «de muito rico que era, Se fez indigente» [18] para a salvação dos homens; que, Filho de Deus e Deus Ele mesmo, quis passar aos olhos do mundo por filho dum artesão; que chegou até a consumir uma grande parte da Sua vida em trabalho mercenário: «Não é Ele o carpinteiro, o Filho de Maria?» [19]. Quem tiver na sua frente o modelo divino, compreenderá mais facilmente o que Nós vamos dizer: que a verdadeira dignidade do homem e a sua excelência reside nos seus costumes, isto é, na sua virtude; que a virtude é o património comum dos mortais, ao alcance de todos, dos pequenos e dos grandes, dos pobres e dos ricos; só a virtude e os méritos, seja qual for a pessoa em quem se encontrem, obterão a recompensa da eterna felicidade. Mais ainda: é para as classes desafortunadas que o coração de Deus parece inclinar-se mais. Jesus Cristo chama aos pobres bem-aventurados [20]: convida com amor a virem a Ele, a fim de consolar a todos os que sofrem e que choram [21]; abraça com caridade mais terna os pequenos e os oprimidos. Estas doutrinas foram, sem dúvida alguma, feitas para humilhar a alma altiva do rico e torná-lo mais condescendente, para reanimar a coragem daqueles que sofrem e inspirar-lhes resignação. Com elas se acharia diminuído um abismo causado pelo orgulho, e se obteria sem dificuldade que as duas classes se dessem as mãos e as vontades se unissem na mesma amizade. Comunhão de bens de natureza e de graça 14. Mas é ainda demasiado pouco a simples amizade: se se obedecer aos preceitos do cristianismo, será no amor fraterno que a união se operará. Duma parte e doutra se saberá e compreenderá que os homens são todos absolutamente nascidos de Deus, seu Pai comum; que Deus é o seu único e comum fim, que só Ele é capaz de comunicar aos anjos e aos homens uma felicidade perfeita e absoluta; que todos eles foram igualmente resgatados por Jesus Cristo e restabelecidos por Ele na sua dignidade de filhos de Deus, e que assim um verdadeiro laço de fraternidade os une,-quer entre si, quer a Cristo, seu Senhor, que é «o primogénito de muitos irmãos»[22]. Eles saberão, enfim, que todos os bens da natureza, todos os tesouros da graça, pertencem em comum e indistintamente a todo o género humano e que só os indignos é que são deserdados dos bens celestes: «Se vós sois filhos, sois também herdeiros, herdeiros de Deus, co-herdeiros de Jesus Cristo» [23] . Tal é a economia dos direitos e dos deveres que ensina a filosofia cristã. Não se veria em breve prazo estabelecer-se a pacificação, se estes ensinamentos pudessem vir a prevalecer nas sociedades? Exemplo e magistério da Igreja 15. Entretanto, a Igreja não se contenta com indicar o caminho que leva à salvação; ela conduz a esta e com a sua própria mão aplica ao mal o conveniente remédio. Ela dedica-se toda a instruir e a educar os homens segundo os seus princípios e a sua doutrina, cujas águas vivificantes ela tem o cuidado de espalhar, tão longe e tão largamente quanto lhe é possível, pelo ministério dos Bispos e do Clero. Depois, esforça-se por penetrar nas almas e por obter das vontades que se deixem conduzir e governar pela regra dos preceitos divinos. Este ponto é capital e de grandíssima importância, porque encerra como que o resumo de todos os interesses .que estão em litígio, e aqui a acção da Igreja é soberana. Os instrumentos de que ela dispõe para tocar as almas, recebeu-os, para este fim, de Jesus Cristo, e trazem em si a eficácia duma virtude divina. São os únicos aptos para penetrar até às profundezas do coração humano, que são capazes de levar o homem a obedecer às imposições do dever, a dominar as suas paixões, a amar a Deus e ao seu próximo com uma caridade sem limites, a ultrapassar corajosamente todos os obstáculos que dificultam o seu caminho na estrada da virtude. Neste ponto, basta passar ligeiramente em revista pelo pensamento os exemplos da antiguidade. As coisas e factos que vamos lembrar estão isentos de controvérsia. Assim, não é duvidoso que a sociedade civil foi essencialmente renovada pelas instituições cristãs, que esta renovação teve por efeito elevar o nível do género humano, ou, para melhor dizer, chamá-lo da morte à vida, e guindá-lo a um alto grau de perfeição, como se não viu semelhante nem antes nem depois, e não se verá jamais em todo o decurso dos séculos. Que, enfim, destes benefícios foi Jesus Cristo o princípio e deve ser o seu fim: porque, assim como tudo partiu d’Ele, assim também tudo Lhe deve ser referido. Quando, pois, o Evangelho raiou no mundo, quando os povos tiveram conhecimento do grande mistério da encarnação do Verbo e da redenção dos homens, a vida de Jesus Cristo, Deus e homem, invadiu as sociedades e impregnou-as inteiramente com a Sua fé, com as Suas máximas e com as Suas leis. E por isso que, se a sociedade humana deve ser curada, não o será senão pelo regresso à vida e às instituições do cristianismo. A quem quer regenerar uma sociedade qualquer em decadência, se prescreve com razão que a reconduza às suas origens [24]. Porque a perfeição de toda a sociedade consiste em prosseguir e atingir o fim para o qual foi fundada, de modo que todos os movimentos e todos os actos da vida social nasçam do mesmo princípio de onde nasceu a sociedade. Por isso, afastar-se do fim é caminhar para a morte, e voltar a ele é readquirir a vida. E o que Nós-dizemos de todo o corpo social aplica-se igualmente a essa classe de cidadãos que vivem do seu trabalho e que formam a grandíssima maioria. Nem se pense que a Igreja se deixa absorver de tal modo pelo cuidado das almas, que põe de parte o que se relaciona com a vida terrestre e mortal. Pelo que em particular diz respeito à classe dos trabalhadores, ela faz todos os esforços para os arrancar à miséria e procurar-lhes uma sorte melhor. E, certamente, não é um fraco apoio que ela dá a esta obra só pelo facto de trabalhar, por palavras e actos, para reconduzir os homens à virtude. Os costumes cristãos, desde que entram em acção, exercem naturalmente sobre a prosperidade temporal a sua parte de benéfica influência; porque eles atraem o favor de Deus, princípio e fonte de todo o bem; reduzem o desejo excessivo das riquezas e a sede dos prazeres, esses dois flagelos que frequentes vezes lançam a amargura e o desgosto no próprio seio da opulência [25]; contentam-se enfim com uma vida e alimentação frugal, e suprem pela economia a modicidade do rendimento, longe desses vícios que consomem não só as pequenas, mas as grandes fortunas, e dissipam os maiores patrimónios. A Igreja e a caridade durante os séculos 16. A Igreja, além disso, provê também directamente à felicidade das classes deserdadas, pela fundação e sustentação de instituições que ela julga próprias para aliviar a sua miséria; e, mesmo neste género de benefícios, ela tem sobressaído de tal modo, que os seus próprios inimigos lhe fizeram o seu elogio. Assim, entre os primeiros cristãos, era tal a virtude da caridade mútua, que não raro se viam os mais ricos despojarem-se do seu património em favor dos pobres. Por isso, a indigência não era conhecida entre eles [26]; os Apóstolos tinham confiado aos Diáconos, cuja ordem fora especialmente instituída para esse fim, a distribuição quotidiana das esmolas, e o próprio S. Paulo, apesar de absorvido por uma solicitude que abraçava todas as Igrejas, não hesitava em empreender penosas viagens para ir em pessoa levar socorros aos cristãos indigentes. Socorros do mesmo género eram espontaneamente oferecidos pelos fiéis em cada uma das suas assembleias: o que Tertuliano chama os «depósitos da piedade», porque eram empregados «em sustentar e sepultar as pessoas indigentes, os órfãos pobres de ambos os sexos, os domésticos velhos, as vítimas de naufrágio» [27]. Eis como pouco a pouco se formou esse património, que a Igreja sempre guardou com religioso cuidado como um bem próprio da família dos pobres. Ela chegou até a assegurar socorros aos infelizes, poupando-lhes a humilhação de estender a mão; porque esta mãe comum dos ricos e dos pobres, aproveitando maravilhosamente rasgos de caridade que ela havia provocado por toda a parte, fundou sociedades religiosas e uma multidão doutras instituições úteis que, pouco tempo depois, não deviam deixar sem alívio nenhum género de miséria. Há hoje, sem dúvida, um certo número de homens que, fiéis ecos dos pagãos de outrora, chegam a fazer, mesmo dessa caridade tão maravilhosa, uma arma para atacar a Igreja; e viu-se uma beneficência estabelecida pelas leis civis substituir-se à caridade cristã; mas esta caridade, que se dedica toda e sem pensamento reservado à utilidade do próximo, não pode ser suprida por nenhuma invenção humana. Só a Igreja possui essa virtude, porque não se pode haurir senão no Sagrado Coração de Jesus Cristo, e é errar longe de Jesus Cristo estar afastado da Sua Igreja. O concurso do Estado 17. Todavia não há dúvida de que, para obter o resultado desejado, não é de mais recorrer aos meios humanos. Assim, todos aqueles a quem a questão diz respeito, devem visar ao mesmo fim e trabalhar de harmonia cada um na sua esfera. Nisto há como que uma imagem da Providência governando o mundo: porque nós vemos de ordinário que os factos e os acontecimentos que dependem de causas diversas são a resultante da sua acção comum. Ora, que parte de acção e de remédio temos nós o direito de esperar do Estado? Diremos, primeiro, que por Estado entendemos aqui, não tal governo estabelecido entre tal povo em particular, mas todo o governo que corresponde aos preceitos da razão natural e dos ensinamentos divinos, ensinamentos que Nós todos expusemos, especialmente na Nossa Carta Encíclica sobre a constituição cristã das sociedades [28]. Origem da prosperidade nacional 18. O que se pede aos governantes é um curso de ordem geral, que consiste em toda a economia das leis e das instituições; queremos dizer que devem fazer de modo que da mesma organização e do governo da sociedade brote espontaneamente e sem esforço a prosperidade, tanto pública como particular. Tal é, com efeito, o ofício da prudência civil e o dever próprio de todos aqueles que governam. Ora o que torna uma nação próspera, são os costumes puros, as famílias fundadas sobre bases de ordem e de moralidade, a prática e o respeito da justiça, uma imposição moderada e uma repartição equitativa dos encargos públicos, o progresso da indústria e, do comércio, uma agricultura florescente e outros elementos, se os há, do mesmo género: todas as coisas que se não podem aperfeiçoar, sem fazer subir outro tanto a vida e a felicidade dos cidadãos. Assim como, pois, por todos estes meios, o Estado pode tornar-se útil às outras classes, assim também pode melhorar muitíssimo a sorte da classe operária, e isto em todo o rigor do seu direito, e sem ter a temer a censura de ingerência; porque, em virtude mesmo do seu ofício, o Estado deve servir o interesse comum. E é evidente que, quanto mais se multiplicarem as vantagens resultantes desta acção de ordem geral, tanto menos necessidade haverá de recorrer a outros expedientes para remediar a condição dos trabalhadores. Mas há outra consideração que atinge mais profundamente ainda o nosso assunto. A razão formal de toda a sociedade é só uma e é comum a todos os seus membros, grandes e pequenos. Os pobres, com o mesmo título que os ricos, são, por direito natural, cidadãos; isto é, pertencem ao número das partes vivas de que se compõe, por intermédio das famílias, o corpo inteiro da Nação, para não dizer que em todas as cidades são o grande número. Como, pois, seria desrazoável prover a uma classe de cidadãos e negligenciar outra, torna-se evidente que a autoridade pública deve também tomar as medidas necessárias para salvaguardar a salvação e os interesses da classe operária. Se ela faltar a isto, viola a estrita justiça que quer que a cada um seja dado o que lhe é devido. A esse respeito S. Tomás diz muito sabiamente: «Assim como a parte e o todo são em certo modo uma mesma coisa, assim o que pertence ao to-do pertence de alguma sorte a cada parte» [29]. E por isso que, entre os graves e numerosos deveres dos governantes que querem prover, como convém, ao público, o principal dever, que domina lodos os outros, consiste em cuidar igualmente de todas as classes de cidadãos, observando rigorosamente as leis da justiça, chamada distributiva. Mas, ainda que todos os cidadãos, sem excepção, devam contribuir para a massa dos bens comuns, os quais, aliás, por um giro natural, se repartem de novo entre os indivíduos, todavia as constituições respectivas não podem ser nem as mesmas, nem de igual medida. Quaisquer que sejam as vicissitudes pelas quais as formas do governo são chamadas a passar, haverá sempre entre os cidadãos essas desigualdades de condições, sem as quais uma sociedade não pode existir nem conceber-se. Sem dúvida são necessários homens que governem, que façam leis, que administrem justiça, que, enfim, por seus conselhos ou por via da autoridade, administrem os negócios da paz e as coisas da guerra. Que estes homens devem ter a proeminência em toda a sociedade e ocupar nela o primeiro lugar, ninguém o pode duvidar, pois eles trabalham directamente para o bem comum e duma maneira tão excelente. Os homens que, pelo contrário, se aplicam às coisas da indústria, não podem concorrer para este bem comum nem na mesma medida, nem pelas mesmas vias; mas, entretanto, também eles, ainda que de maneira menos directa, servem muitíssimo os interesses da sociedade. Sem dúvida alguma, o bem comum, cuja aquisição deve ter por efeito aperfeiçoar os homens, é principalmente um bem moral. Mas numa sociedade regularmente constituída deve encontrar-se ainda uma certa abundância de bens exteriores «cujo uso é reclamado para exercício da virtude»[30]. Ora, a fonte fecunda e necessária de todos estes bens é principalmente o trabalho do operário, o trabalho dos campos ou da oficina. Mais ainda: nesta ordem de coisas, o trabalho tem uma tal fecundidade e tal eficácia, que se pode afirmar, sem receio de engano, que ele é a fonte única de onde procede a riqueza das nações. A equidade manda, pois, que o Estado se preocupe com os trabalhadores, e proceda de modo que, de todos os bens que eles proporcionam à sociedade, lhes seja dada uma parte razoável, como habitação e vestuário, e que possam viver à custa de menos trabalho e privações [31]. De onde resulta que o Estado deve favorecer tudo o que, de perto ou de longe, pareça de natureza a melhorar-lhes a sorte. Esta solicitude, longe de prejudicar alguém, tornar-se-á, ao contrário, em proveito de todos, porque importa soberanamente à nação que homens, que são para ela o princípio de bens tão indispensáveis, não se encontrem continuamente a braços com os horrores da miséria. O Governo é para os governados e não vice-versa 19. Dissemos que não é justo que o indivíduo ou a família sejam absorvidos pelo Estado, mas é justo, pelo contrário, que aquele e esta tenham a faculdade de proceder com liberdade, contando que não atentem contra o bem geral, e não prejudiquem ninguém. Entretanto, aos governantes pertence proteger a comunidade e as suas partes: a comunidade, porque a natureza confiou a sua conservação ao poder soberano, de modo que a salvação pública não é somente aqui a lei suprema, mas é a própria a causa e a razão de ser do principado; as partes, porque, de direito natural, o governo não deve visar só os interesses daqueles que têm o poder nas mãos, mas ainda o bem dos que lhe estão submetidos. Tal é o ensino da filosofia, não menos que da fé cristã. Por outra parte, a autoridade vem de Deus e é uma participação da Sua autoridade suprema; desde então, aqueles que são os depositários dela devem exercê-la à imitação de Deus, cuja paternal solicitude se não estende menos a cada uma das criaturas em particular do que a todo o seu conjunto. Se, pois, os interesses gerais, ou o interesse duma classe em particular, se encontram ou lesa-dós ou simplesmente ameaçados, e se não for possível remediar ou obviar a isso doutro modo, é de toda a necessidade recorrer à autoridade pública. Obrigações e limites da intervenção do Estado 20. Ora, importa à salvação comum e particular que a ordem e a paz reinem por toda a parte; que toda a economia da vida doméstica seja regulada segundo os mandamentos de Deus e os princípios da lei natural; que a religião seja honrada e observada; que se vejam florescer os costumes públicos e particulares; que a justiça seja religiosamente graduada, e que nunca uma classe possa oprimir impunemente a outra; que cresçam robustas gerações, capazes de ser o sustentáculo, e, se necessário for, o baluarte da Pátria. É por isso que os operários, abandonando o trabalho ou suspendendo-o por greves, ameaçam a tranquilidade pública; que os laços naturais da família afrouxam entre os trabalhadores; que se calca aos pés a religião dos operários, não lhes facilitando o cumprimento dos seus deveres para com Deus; que a promiscuidade dos sexos e outras excitações ao vício constituem nas oficinas um perigo para a moralidade; que os patrões esmagam os trabalhadores sob o peso de exigências iníquas, ou desonram neles a pessoa humana por condições indignas e degradantes; que atentam contra a sua saúde por um trabalho excessivo e desproporcionado com a sua idade e sexo: em todos estes casos é absolutamente necessário aplicar em certos limites a força e autoridade das leis. Esses limites serão determinados pelo mesmo fim que reclama o socorro das leis, isto é, que eles não devem avançar nem empreender nada além do que for necessário para reprimir os abusos e afastar os perigos. Os direitos, em que eles se encontram, devem ser religiosamente respeitados e o Estado deve assegurá-los a todos os cidadãos, prevenindo ou vingando a sua violação. Todavia, na protecção dos direitos particulares, deve preocupar-se, de maneira especial, dos fracos e dos indigentes. A classe rica faz das suas riquezas uma espécie de baluarte e tem menos necessidade da tutela pública. A classe indigente, ao contrário, sem riquezas que a ponham a coberto das injustiças, conta principalmente com a protecção do Estado. Que o Estado se faça, pois, sob um particularíssimo título, a providência dos trabalhadores, que em geral pertencem à classe pobre [32]. O Estado deve proteger a propriedade particular 21. Mas, é conveniente descer expressamente a algumas particularidades. É um dever principalíssimo dos governos o assegurar a propriedade particular por meio de leis sábias. Hoje especialmente, no meio de tamanho ardor de cobiças desenfreadas, é preciso que o povo se conserve no seu dever; porque, se a justiça lhe concede o direito de empregar os meios de melhorar a sua sorte, nem a justiça nem o bem público consentem que danifiquem alguém na sua fazenda nem que se invadam os direitos alheios sob pretexto de não que igualdade. Por certo que a maior parte dos operários quereriam melhorar de condição por meios honestos sem prejudicar a ninguém; todavia, não poucos há que, embebidos de máximas falsas e desejosos de novidade, procuram a todo o custo excitar e impelir os outros a violências. Intervenha portanto a autoridade do Estado, e, reprimindo os agitadores, preserve os bons operários do perigo da sedução e os legítimos patrões de serem despojados do que é seu. Impedir as greves 22. O trabalho muito prolongado e pesado e uma retribuição mesquinha dão, não poucas vezes, aos operários ocasião de greves. E preciso que o Estado ponha cobro a esta desordem grave e frequente, porque estas greves causam dano não só aos patrões e aos mesmos operários, mas também ao comércio e aos interesses comuns; e em razão das violências e tumultos, a que de ordinário dão ocasião, põem muitas vezes em risco a tranquilidade pública. O remédio, portanto, nesta parte, mais eficaz e salutar é prevenir o mal com a autoridade das leis, e impedir a explosão, removendo a tempo as causas de que se prevê que hão–de nascer os conflitos entre os operários e os patrões. Proteger os bens da alma 23. Muitas outras coisas deve igualmente o Estado proteger ao operário, e em primeiro lugar os bens da alma. A vida temporal, posto que boa e desejável, não é o fim para que fomos criados; mas é a via e o meio para aperfeiçoar, com o conhecimento da verdade e com a prática do bem, a vida do espírito. O espírito é o que tem em si impressa a semelhança divina, e no qual reside aquele principado em virtude do qual foi dado ao homem o direito de dominar as criaturas inferiores e de fazer servir à sua utilidade toda a terra e todo o mar: «Enchei a terra e tornai-vo-la sujeita, dominai sobre os peixes do mar e sobre as aves do céu e sobre todos os animais que se movem sobre a terra»[33]. Nisto todos os homens são iguais, e não há diferença alguma entre ricos e pobres, patrões e criados, monarcas e súbditos, «porque é o mesmo o Senhor de todos»[34]. A ninguém é lícito violar impunemente a dignidade do homem, do qual Deus mesmo dispõe, com grande reverência, nem pôr-lhe impedimentos, para que ele siga o caminho daquele aperfeiçoamento que é ordenado para o conseguimento da vida interna; pois, nem mesmo por eleição livre, o homem pode renunciar a ser tratado segundo a sua natureza e aceitar a escravidão do espírito; porque não se trata de direitos cujo exercício seja livre, mas de deveres para com Deus que são absolutamente invioláveis. 24. Daqui vem, como consequência, a necessidade do repouso festivo. Isto, porém, não quer dizer que se deve estar em ócio por mais largo espaço de tempo, e muito menos significa uma inacção total, como muitos desejam, e que é a fonte de vícios e ocasião de dissipação; mas um repouso consagrado à religião. Unido à religião, o repouso tira o homem dos trabalhos e das ocupações da vida ordinária para o chamar ao pensamento dos bens celestes e ao culto devido à Majestade divina. Eis aqui a principal natureza e fim do repouso festivo que Deus, com lei especial, prescreveu ao homem no Antigo Testamento, dizendo-lhe: «Recorda-te de santificar o sábado» [35]; e que ensinou com o Seu exemplo, quando no sétimo dia, de-pois de criado o homem, repousou: «Repousou no sétimo dia .de todas as Suas obras que tinha feito» [36]. Protecção do trabalho dos operários, das mulheres e das crianças 25. No que diz respeito aos bens naturais e exteriores, primeiro que tudo é um dever da autoridade pública subtrair o pobre operário à desumanidade de ávidos especuladores, que abusam, sem nenhuma descrição, tanto das pessoas como das coisas. Não é justo nem humano exigir do homem tanto trabalho a ponto de fazer pelo excesso da fadiga embrutecer o espírito e enfraquecer o corpo. A actividade do homem, restrita como a sua natureza, tem limites que se não podem ultrapassar. O exercício e o uso aperfeiçoam-na, mas é preciso que de quando em quando se suspenda para dar lugar ao repouso. Não deve, portanto, o trabalho prolongar-se por mais tempo do que as forças permitem. Assim, o número de horas de trabalho diário não deve exceder a força dos trabalhadores, e a quantidade de repouso deve ser proporcionada à qualidade do trabalho, às circunstâncias do tempo e do lugar, à compleição e saúde dos operários. O trabalho, por exemplo, de extrair pedra, ferro, chumbo e outros materiais escondidos debaixo da terra, sendo mais pesa-do e nocivo à saúde, deve ser compensado com uma duração mais curta. Deve-se também atender às estações, porque não poucas vezes um trabalho que facilmente se suportaria numa estação, noutra é de facto insuportável ou somente se vence com dificuldade. 26. Enfim, o que um homem válido e na força da idade pode fazer, não será equitativo exigi-lo duma mulher ou duma criança. Especialmente a infância — e isto deve ser estritamente observado — não deve entrar na oficina senão quando a sua idade tenha suficientemente desenvolvido nela as forças físicas, intelectuais e morais: de contrário, como uma planta ainda tenra, ver-se-á murchar com um trabalho demasiado precoce, e dar-se-á cabo da sua educação. Trabalhos há também quê se não adaptam tanto à mulher, a qual a natureza destina de preferência aos arranjos domésticos, que, por outro lado, salvaguardam admiravelmente a honestidade do sexo, e correspondem melhor, pela sua natureza, ao que pede a boa educação dos filhos e a prosperidade da família. Em geral, a duração do descanso deve medir-se pelo dispêndio das forças que ele deve restituir. O direito ao descanso de cada dia assim como à cessação do trabalho no dia do Senhor, deve ser a condição expressa ou tácita de todo o contrato feito entre patrões e operários. Onde esta condição não entrar, o contrato não será justo, pois ninguém pode exigir ou prometer a violação dos deveres do homem para com Deus e para consigo mesmo. O quantitativo do salário dos operários 27. Passemos agora a outro ponto da questão e de não menor importância, que, para evitar os extremos, demanda uma definição precisa. Referimo-nos à fixação do salário. Uma vez livremente aceite o salário por uma e outra parte, assim se raciocina, o patrão cumpre todos os seus compromissos desde que o pague e não é obrigado a mais nada. Em tal hipótese, a justiça só seria lesada, se ele se recusasse a saldar a dívida ou o operário a concluir todo o seu trabalho, e a satisfazer as suas condições; e neste último caso, com exclusão de qualquer outro, é que o poder público teria que intervir para fazer valer o direito de qual quer deles. Semelhante raciocínio não encontrará um juiz equitativo que consinta em o abraçar sem reserva, pois não abrange todos os lados da questão e omite um deveras importante. Trabalhar é exercer a actividade com o fim de procurar o que requerem as diversas necessidades do homem, mas principalmente a sustentação da própria vida. «Comerás o teu pão com o suor do teu rosto» [37]. Eis a razão por que o trabalho recebeu da natureza como que um duplo cunho: é pessoal, porque a força activa é inerente à pessoa, e porque a propriedade daquele que a exerce e a recebeu para sua utilidade; e é necessário, porque o homem precisa da sua existência, e porque a deve conservar para obedecer às ordens incontestáveis da natureza. Ora, se não se encarar o trabalho senão pelo seu lado pessoal , não há dúvida de que o operário pode a seu bel-prazer restringir a taxa do salário. A mesma vontade que dá o trabalho pode contentar-se com uma pequena remuneração ou mesmo não exigir nenhuma. Mas já é outra coisa, se ao carácter de personalidade se juntar o de necessidade, que o pensamento pode abstrair, mas que na realidade não se pode separar. Efectivamente, conservar a existência é um dever imposto a todos os homens e ao qual se não podem subtrair sem crime. Deste dever nasce necessariamente o direito de procurar as coisas necessárias à subsistência, e que o pobre as não procure senão mediante o salário do seu trabalho. Façam, pois, o patrão e o operário todas as convenções que lhes aprouver, cheguem, inclusivamente, a acordar na cifra do salário: acima da sua livre vontade está uma lei de justiça natural, mais elevada e mais antiga, a saber, que o salário não deve ser insuficiente para assegurar a subsistência do operário sóbrio e honrado. Mas se, constrangido pela necessidade ou forçado pelo receio dum mal maior, aceita condições duras que por outro lado lhe não seria permitido recusar, porque lhe são impostas pelo patrão ou por quem faz oferta do trabalho, então é isto sofrer uma violência contra a qual a justiça protesta. Mas, sendo de temer que nestes casos e em outros análogos, como no que diz respeito às horas diárias de trabalho e à saúde dos operários, a intervenção dos poderes públicos seja importuna, sobretudo por causa da variedade das circunstâncias, dos témpos e dos lugares, será preferível que a solução seja confiada às corporações ou sindicatos de que falaremos, mais adiante, ou que se recorra a outros meios de defender os interesses dos operários, mesmo com o auxílio e apoio do Estado, se a questão o reclamar [38]. A economia como meio de conciliação das classes 28. O operário que receber um salário suficiente para ocorrer com desafogo às suas necessidades e às da sua família, se for prudente, seguirá o conselho que parece dar-lhe a própria natureza: aplicar-se-á a ser parcimonioso e agirá de forma que, com. prudentes economias, vá juntando um pequeno pecúlio, que lhe permita chegar um dia a adquirir um modesto património. Já vimos que a presente questão não podia receber solução verdadeiramente eficaz, se se não começasse por estabelecer como princípio fundamental a inviolabilidade da propriedade particular. Importa, pois, que as leis favoreçam o espírito de propriedade, o reanimem e desenvolvam, tanto quanto possível, entre as massas populares. Uma vez obtido, este resultado seria a fonte dos mais preciosos benefícios, e em primeiro lugar duma repartição dos bens certamente mais equitativa. A violência das revoluções políticas dividiu o corpo social em duas classes e cavou entre elas um imenso abismo. Dum lado, a omnipotência na opulência: uma facção que, senhora absoluta da indústria e do comércio, desvia o curso das riquezas e faz correr para o seu lado todos os mananciais; facção que aliás tem na sua mão mais dum motor da administração pública. Do outro, a fraqueza na indigência: uma multidão com a alma dilacerada, sempre pronta para a desordem. Ah, estimule-se a industriosa actividade do povo com a perspectiva da sua participação na prosperidade do solo, e ver-se-á nivelar pouco a pouco o abismo que separa a opulência da miséria, o operar-se a aproximação das duas classes. Demais, a terra produzirá tudo em maior abundância, pois o homem é assim feito: o pensamento de que trabalha em terreno que é seu redobra o seu ardor e a sua aplicação. Chega a pôr todo o seu amor numa terra que ele mesmo cultivou, que lhe promete a si e aos seus não só o estritamente necessário, mas ainda uma certa fartura. Não há quem não descubra sem esforço os efeitos desta duplicação da actividade sobre a fecundidade da terra e sobre a riqueza das nações. A terceira utilidade será a suspensão do movimento de emigração; ninguém, com efeito, quereria trocar por uma região estrangeira a sua pátria e a sua terra natal, se nesta encontrasse os meios de levar uma vida mais tolerável. Mas uma condição indispensável para que todas estas vantagens se convertam em realidades, é que a propriedade particular não seja esgotada por um excesso de encargos e de impostos. Não é das leis humanas, mas da natureza, que emana o direito de propriedade individual; a autoridade pública não o pode pois abolir; o que ela pode é regular-lhe o uso e conciliá-lo com o bem comum. É por isso que ela age contra a justiça e contra a humanidade quando, sob o nome de impostos, sobrecarrega desmedidamente os bens dos particulares. Benefício das corporações 29. Em último lugar, diremos que os próprios patrões e operários podem singularmente auxiliar a solução, por meio de todas as obras capazes de aliviar eficazmente a indigência e de operar uma aproximação entre as duas classes. Pertencem a este número as associações de socorros mútuos; as diversas instituições, devidas à iniciativa particular, que têm por fim socorrer os operários, bem como as suas viúvas e órfãos, em caso de morte, de acidentes ou de enfermidades; os patronatos que exercem uma protecção benéfica para com as crianças dos dois sexos, os adolescentes e os homens feitos. Mas o primeiro lugar pertence às corporações operárias, que abrangem quase todas as outras. Os nossos antepassados experimentaram por muito tempo a benéfica influência destas associações. Ao mesmo tempo que os artistas encontravam nelas inapreciáveis vantagens, as artes receberam delas novo brilho e nova vida, como o proclama grande quantidade de monumentos. Sendo hoje mais cultas as gerações, mais polidos os costumes, mais numerosas as exigências da vida quotidiana, é fora de dúvida que se não podia deixar de adaptar as associações a estas novas condições. Assim, com prazer vemos Nós irem-se formando por toda a parte sociedades deste género, quer compostas só de operários, quer mistas, reunindo ao mesmo tempo operários e patrões: é para desejar que aumentem a sua acção. Conquanto nos tenhamos ocupado delas mais duma vez [39], queremos expor aqui a sua oportunidade e o seu direito de existência e indicar como devem organizar-se é qual deve ser o seu programa de acção. As associações particulares e o Estado 30. A experiência que o homem adquire todos os dias da exiguidade das suas forças, obriga-o e impele-o a agregar-se a uma cooperação estranha. É nas Sagradas Letras que se lê esta máxima: «Mais valem dois juntos que um só, pois tiram vantagem da sua associação. Se um cai, o outro sustenta-o. Desgraçado do homem só, pois; quando cair, não terá ninguém que o levante» [40]. E estoutra: «O irmão que é ajudado por seu irmão, é como uma cidade forte» [41]. Desta propensão natural, como dum único germe, nasce, primeiro, a sociedade civil; depois, no próprio seio desta, outras sociedades que, por serem restritas e imperfeitas, não deixam de ser sociedades verdadeiras. Entre as pequenas sociedades e a grande, há profundas diferenças, que resultam do seu fim próximo. O fim da sociedade civil abrange universalmente todos os cidadãos, pois este fim está no bem comum, isto é, num bem do qual todos e cada um têm o direito de participar em medida proporcional. Por isso se chama público, porque «reúne os homens para formarem uma nação»[42]. Ao contrário, as sociedades que se constituem no seu seio são frágeis, porque são particulares, e o são com efeito, pois a sua razão de ser imediata é a utilidade particular e exclusiva dos seus membros: «A sociedade particular é aquela que se forma com um fim particular, como quando dois ou três indivíduos se associam para exercerem em comum o comércio» [43]. Ora, pelo facto de as sociedades particulares não terem existência senão no seio da sociedade civil, da qual são como outras tantas partes, não se segue, falando em geral e considerando apenas a sua natureza, que o Estado possa negar-lhes a existência. O direito de existência foi-lhes outorgado pela própria natureza; e a sociedade civil foi instituída para proteger o direito natural, não para o aniquilar. Por esta razão, uma sociedade civil que proibisse as sociedades públicas e particulares, atacar-se-ia a si mesma, pois todas as sociedades públicas e particulares tiram a sua origem dum mesmo princípio: a natural sociabilidade do homem. Certamente se dão conjunturas que autorizam as leis a opor-se à fundação duma sociedade deste género. Se uma sociedade, em virtude mesmo dos seus estatutos orgânicos, trabalhasse para um fim em oposição flagrante com a probidade, com a justiça, com a segurança do Estado, os poderes públicos teriam o direito de lhe impedir a formação, ou o direito de a dissolver, se já estivesse formada. Mas deviam em tudo isto proceder com grande circunspecção para evitar usurpação dos direitos dos cidadãos, e para não determinar, sob a cor da utilidade pública, alguma coisa que a razão houvesse de desaprovar. Pois uma lei não merece obediência, senão enquanto é conforme com a recta razão e a lei eterna de Deus [44]. 31. Aqui, apresentam-se ao Nosso espírito as confrarias, as congregações e as ordens religiosas de todo o género, nascidas da autoridade da Igreja e da piedade dos fiéis. Quais foram os seus frutos de salvação para o género humano até aos nossos dias, a História o diz suficientemente. Considerando simplesmente o ponto de vista da razão, estas sociedades aparecem como fundadas com um fim honesto, e, consequentemente, sob os auspícios do direito natural: no que elas têm de relativo à religião, não dependem senão da Igreja. Os poderes públicos não podem, pois, legitimamente, arrogar-se nenhum direito sobre elas, atribuir-se a sua administração; a sua obrigação é antes respeitá-las, protegê-las e, em caso de necessidade, defendê-las. Justamente o contrário é o que Nós temos sido condenados a ver, principalmente nestes últimos tempos. Em não poucos países, o Estado tem deitado a mão a estas sociedades, e tem acumulado a este respeito injustiça sobre injustiça: sujeição às leis civis, privações do direito legítimo de personalidade, espoliação dos bens. Sobre estes bens, a Igreja tinha todavia os seus direitos: cada um dos membros tinha os seus; os doadores, que lhe haviam dado uma aplicação, e aqueles, enfim, que delas auferiam socorros e alívio, tinham os seus. Assim não podemos deixar de deplorar amargamente espoliações tão iníquas e tão funestas; tanto mais que se ferem de proscrição as sociedades católicas na mesma ocasião em que se afirma a legalidade das sociedades particulares, e que, aquilo que se recusa a homens pacíficos e que não têm em vista senão a utilidade pública, se concede, e por certo muito amplamente, a homens que meditam planos funestos para a religião e também para o Estado. As associações operárias católicas 32. Certamente em nenhuma outra época se viu tão grande multiplicidade de associações de todo o género, principalmente de associações operárias. Não é, porém, aqui, o lugar para investigar qual é a origem de muitas delas, qual o seu fim e quais os meios com que tendem para esse fim. Mas é uma opinião, confirmada por numerosos indícios, que elas são ordinariamente governadas por chefes ocultos, e que obedecem a uma palavra de ordem igualmente hostil ao nome cristão e à segurança das nações: que, depois de terem açambarcado todas as empresas, se há operários que recusam entrar em seu seio, elas fazem-lhe expiar a sua recusa pela miséria. Neste estado de coisas, os operários cristãos não têm remédio senão escolher entre estes dois partidos: ou darem os seus nomes a sociedades de que a religião tem tudo a temer, ou organizarem-se eles próprios e unirem as suas forças para poderem sacudir denodadamente um jugo tão injusto e tão intolerável. Haverá homens, verdadeiramente empenhados em arrancar o supremo bem da humanidade a um perigo iminente, que possam ter a menor dúvida de que é necessário optar por esse último partido? É altamente louvável o zelo de grande número dos nossos, que, conhecendo perfeitamente as necessidades da hora presente, sondam cuidadosamente o terreno, para aí descobrirem uma vereda honesta que conduz à reabilitação da classe operária. Constituindo-se protectores das pessoas dedicadas ao trabalho, esforçam-se por aumentar a sua prosperidade, tanto doméstica como individual, e regular com equidade as relações recíprocas dos patrões e dos operários; por manter e enraizar nuns e noutros a lembrança dos seus deveres e a observância dos preceitos que, conduzindo o homem à moderação e coordenando todos os excessos, mantêm nas nações, e entre elementos tão diversos de pessoas e de coisas, a concórdia e a harmonia mais perfeita. Sob a inspiração dos mesmos pensamentos, homens de grande mérito se reúnem em congresso, para comunicarem mutuamente as ideias, unirem as suas forças, ordenarem programas de acção. Outros ocupam-se em fundar corporações adequadas às diversas profissões e em fazer entrar nelas os artistas: coadjuvam-nos com os seus conselhos e a sua fortuna, e providenciam para que lhes não falte nunca um trabalho honrado e proveitoso. Os Bispos, por seu lado, animam estes esforços e colocam-nos sob a sua protecção: por sua autoridade e sob os seus auspícios, membros do clero tanto secular como regular se dedicam, em grande número, aos interesses espirituais das corporações. Finalmente, não faltam católicos que, possuidores de abundantes riquezas, convertidos de algum modo em companheiros voluntários dos trabalhadores, não olham a despesas para fundar e propagar sociedades, onde estas possam encontrar, a par com certa abastança para o presente, a promessa de honroso descanso para o futuro. Tanto zelo, tantos e tão engenhosos esforços têm já feito entre os povos um bem muito considerável, e demasiado conhecido para que seja necessário falar deles mais nitidamente. É a nossos olhos feliz prognóstico para o futuro, e esperamos destas corporações os mais benéficos frutos, conquanto que continuem a desenvolver-se e que a prudência presida à sua organização. Proteja o Estado estas sociedades fundadas segundo o direito; mas não se intrometa no seu governo interior e não toque nas molas íntimas que lhes dão vida; pois o movimento vital procede essencialmente dum princípio interno, e extingue-se facilmente sob a acção duma causa externa. Disciplina e finalidade destas associações 33. Precisam evidentemente estas corporações, para que nelas haja unidade de acção e acordo de vontades, duma sábia e prudente disciplina. Se, pois, como é certo, os cidadãos são livres de se associarem, devem sê-lo igualmente de se dotarem com os estatutos e regulamentos que lhes pareçam mais apropriados ao fim que visam. Quais devem ser estes estatutos e regulamentos? Não cremos que se possam dar regras certas e precisas para lhes determinar os pormenores; tudo depende do génio de cada nação, das tentativas feitas e da experiência adquirida, do género de trabalho, da expansão do comércio e doutras circunstâncias de coisas e de tempos que se devem pesar com ponderação. Tudo quanto se pode dizer em geral é que se deve tomar como regra universal e constante o organizar e governar por tal forma as cooperações que proporcionem a cada um dos seus membros os meios aptos para lhes fazerem atingir, pelo caminho mais cómodo e mais curto, o fim que eles se propõem, e que consiste no maior aumento possível dos bens do corpo, do espírito e da fortuna. Mas é evidente que se deve visar antes de tudo o objecto principal, que’é o aperfeiçoamento moral e religioso. E principalmente este fim que deve regular toda a economia destas sociedades; doutro modo, elas degenerariam bem depressa e cairiam, por pouco que fosse, na linha das sociedades em que não tem lugar a religião. Ora, de que serviria ao artista ter encontrado no seio da corporação a abundância material, se a falta de alimentos espirituais pusesse em perigo a salvação da sua alma? «Que vale ao homem possuir o universo inteiro, se vier a perder a sua alma?»[45]. Eis o carácter com que Nosso Senhor Jesus Cristo quis que se distinguisse o cristão do pagão: «Os pagãos procuram todas estas coisas… procurai primeiro o reino de Deus, e todas estas coisas vos serão dadas por acréscimo»[46]. Assim, pois, tomando a Deus por ponto de partida, dê-se amplo lugar à instrução religiosa a fim de que todos conheçam os seus deveres para com Ele; o que é necessário crer, o que é necessário esperar, o que é necessário fazer para obter a salvação eterna, tudo isto lhes deve ser cuidadosamente recomendado; premunam-se com particular solicitude contra as opiniões erróneas e contra todas as variedades do vício. Guie-se o operário ao culto de Deus, incite-se nele o espírito de piedade, faça-se principalmente fiel à observância dos domingos e dias festivos. Aprenda ele a amar e a respeitar a Igreja, mãe comum de todos os cristãos, a aquiescer aos seus preceitos, a frequentar os seus sacramentos, que são fontes divinas onde a alma se purifica das suas manchas e bebe a santidade. Constituída assim a religião em fundamento de todas as leis sociais, não é difícil determinar as relações mútuas a estabelecer entre os membros para obter a paz e a prosperidade da sociedade. As diversas funções devem ser distribuídas da maneira mais proveitosa aos interesses comuns, e de tal modo, que a desigualdade não prejudique a concórdia. Importa grandemente que os encargos sejam distribuídos com inteligência, e claramente definidos, a fim de que ninguém sofra injustiça. Que a massa comum seja administrada com integridade, e que se de-termine previamente, pelo grau de indigência de cada um dos membros, a quantidade de auxílio que deve ser concedido; que os direitos e os deveres dos patrões sejam perfeitamente conciliados com os direitos e deveres dos operários. A fim de atender às reclamações eventuais que se levantem numa ou noutra classe a respeito dos direitos lesados, seria muito para desejar que os próprios estatutos encarregassem homens prudentes e íntegros, tirados do seu seio, para regularem o litígio na qualidade de árbitros. Convite para os operários católicos se associarem 34. É necessário ainda prover de modo especial a que em nenhum tempo falte trabalho ao operário; e que haja um fundo de reserva destinado a fazer face, não somente aos acidentes súbitos e fortuitos inseparáveis do trabalho industrial, mas ainda à doença, à velhice e aos reveses da fortuna. Estas leis, contanto que sejam aceites de boa vontade, bastam para assegurar aos fracos a subsistência e um certo bem-estar; mas as corporações católicas são chamadas ainda a prestar os seus bons serviços à prosperidade geral. Pelo passado podemos sem temeridade julgar o futuro. Uma época cede o lugar a outra; mas o curso das coisas apresenta maravilhosas semelhanças, preparadas por essa Providência que tudo dirige e faz convergir para o fim que Deus se propôs ao criar a humanidade. Sabemos que nas primeiras idades da Igreja lhe imputavam como crime a indigência dos seus membros, condenados a viver de esmolas ou do trabalho: Mas, despidos como estavam de riquezas e de poder, souberam conciliar o favor dos ricos e a protecção dos poderosos. Viam-nos diligentes, laboriosos, modelos de justiça e principalmente de caridade. Com o espectáculo duma vida tão perfeita e de costumes tão puros, todos os preconceitos se dissiparam, o sarcasmo caiu e as ficções duma superstição inveterada desvaneceram-se pouco a pouco ante a verdade cristã. A sorte da classe operária, tal é a questão de que hoje se trata, será resolvida pela razão ou sem ela e não pode ser indiferente às nações quer o seja dum modo ou doutro. Os operários cristãos resolvê-la-ão facilmente pela razão, se, unidos em sociedades e obedecendo a uma direcção prudente, entrarem no caminho em que os seus antepassados encontraram o seu bem e o dos povos. Qualquer que seja nos homens a força dos preconceitos e das paixões, se uma vontade pervertida não afogou ainda inteiramente o sentido do que é justo e honesto, será indispensável que, cedo ou tarde, a benevolência pública se volte para esses operários, que se tenham visto activos e modestos, pondo a equidade acima da ganância, e preferindo a tudo a religião do dever. Daqui, resultará esta outra vantagem: que a esperança de salvação e grandes facilidades para a atingir, serão oferecidas a esses operários que vivem no desprezo da fé cristã, ou nos hábitos que ela reprova. Compreendem, geralmente, esses operários que têm sido joguete de esperanças enganosas e de aparências mentirosas. Pois sentem, pelo tratamento desumano que recebem dos seus patrões, que quase não são avaliados senão pelo peso do ouro produzido pelo seu trabalho; quanto às sociedades que os aliciaram, eles bem vêem que, em lugar da caridade e do amor, não encontram nelas senão discórdias intestinas, companheiras inseparáveis da pobreza insolente e incrédula. A alma embotada, o corpo extenuado, quanto não desejariam sacudir um jugo tão humilhante! Mas, ou por causa do respeito humano ou pelo receio da indigência, não ousam fazê-lo. Ah, para todos esses operários podem as sociedades católicas ser de maravilhosa utilidade, se convidarem os hesitantes a vir procurar no seu seio um remédio para todos os males, e acolherem pressurosas os arrependidos e lhes assegurarem defesa e protecção. Solução definitiva: a caridade 35. Vede, Veneráveis Irmãos, por quem e por que meios esta questão tão difícil demanda ser tratada e resolvida. Tome cada um a tarefa que lhe pertence; e isto sem demora, para que não suceda que, adiando o remédio, se tome incurável o mal, já de si tão grave. Façam os governantes uso da autoridade protectora das leis e das instituições; lembrem-se os ricos e os patrões dos seus deveres; tratem os operários, cuja sorte está em jogo, dos seus interesses pelas vias legítimas; e, visto que só a religião, como dissemos no princípio, é capaz de arrancar o mal pela raiz, lembrem-se todos de que a primeira coisa a fazer é a restauração dos costumes cristãos, sem os quais os meios mais eficazes sugeridos pela prudência humana serão pouco aptos para produzir salutares resultados. Quanto à Igreja, a sua acção jamais faltará por qualquer modo, e será tanto mais fecunda, quanto mais livremente se possa desenvolver. Nós desejamos que compreendam isto sobretudo aqueles cuja missão é velar pelo bem público. Em-preguem neste ponto os Ministros do Santuário toda a energia da sua alma e generosidade do seu zelo, e guiados pela vossa autoridade e pelo vosso exemplo, Veneráveis Irmãos, não se cansem de inculcar a todas as classes da sociedade as máximas do Evangelho; façamos tudo quanto estiver ao nosso alcance para salvação dos povos, e, sobretudo, alimentem em si e acendam nos outros, nos grandes e nos pequenos a caridade, senhora e rainha de todas as virtudes. Portanto, a salvação desejada deve ser principalmente o fruto duma grande efusão de caridade, queremos dizer, daquela caridade que compendia em si todo o Evangelho, e que, sempre pronta a sacrificar-se pelo próximo, é o antídoto mais seguro contra o orgulho e o egoísmo do século. Desta virtude, descreveu S. Paulo as feições características com as seguintes palavras: «A caridade é paciente, é benigna, não cuida do seu interesse; tudo sofre; a tudo se resigna»[47]. Como sinal dos favores celestes e penhor da Nossa benevolência, a cada um de vós, Veneráveis Irmãos, ao vosso Clero e ao vosso Povo, com grande afecto no Senhor, concedemos a Bênção Apostólica. Dada em Roma, junto de S. Pedro, a 15 de Maio de 1891, no décimo quarto ano do Nosso Pontificado. PAPA LEÃO XIII Notas [*] Alude-se aqui às Encíclicas «Diuturnum» (1831), «Immortale Dei» (1885), «Libertas» (1888). [1] Veja-se S. Tomás, Sum. Teol., I-II, q. 95, a. 4. [2] Dt 5,21. [3] Gn 1,28. [4] S. Tomás, Sum. Teol., 11-II, q. 10, a. 12. [5] Gn 3,17. [6] Tg 5,4. [7] 2 Tm 2,12. [8] 2 Cor 4,7. [9] Mt 19,23-24. [10] Lc 6,24-25. [11] S. Tomás, Sum. Teol., II-II, q. 66, a. 2. [12] Ibidem, q. 65, a. 2. [13] S. Tomás, Sum. Teol., 11-11, q. 32, a. 6. [14] Lc 11,41. [15] Act 20,35. [16] Mt 25,40. [17] S. Gregório Magno, in Evang., Hom. IX, n. 7. [18] 2 Cor 8,9. [19] Mc 6,3. [20] Mt 5,3. [21] Ibidem, 11,18. [22] Rm 8,29. [23] Ibidem, VIII, 17. [24] Também Maquiavel, Discorsi, III, 1, afirma este princípio. [25] 1 Tm 6,10. [26] Act 4,34. [27] Apolog., II, 39. [28] Trata-se da Encíclica «Immortale Dei». [29] S. Tomás, Sum. Teol., II-II, q. 61, a. 1 ad 2. [30] S. Tomás, De regimine princ. I, 15. [31] Veja-se o n. 12 desta Encíclica: Posse e uso das riquezas. [32] Veja-se o n. 17 e segs. desta Encíclica. [33] Gn 1,28. [34] Rm 10,12. [35] Ex 20,8. [36] Gn 2,2. [37] Gn 3,19. [38] Veja-se o n. 29 e segs. [39] Veja-se a Encíclica Libertas. [40] Eclo 4,9-12. [41]Pr 18,19. [42] S. Tomás, Contra impugn. Dei cultum et relig., II, 8. [43] Ibidem. [44] S. Tomás, Sum. Teol., I-II, q. 93, a. 3 ad 2. [45] Mt 16,26. [46] Mt 6,32-33. [47] 1 Cor 13,4-7. #PAPALEÃOXIII #cartaencíclica #RERUMNOVARUM #LEÃOXIII #encíclica #SOBREACONDIÇÃODOSOPERÁRIOS

  • QUADRAGESIMO ANNO

    CARTA ENCÍCLICA QUADRAGESIMO ANNO DE SUA SANTIDADE PAPA PIO XI AOS VENERÁVEIS IRMÃOS, PATRIARCAS, PRIMAZES, ARCEBISPOS, BISPOS E DEMAIS ORDINÁRIOS EM PAZ E COMUNHÃO COM A SÉ APOSTÓLICA BEM COMO A TODOS OS FIÉIS DO ORBE CATÓLICO SOBRE A RESTAURAÇÃO E APERFEIÇOAMENTO DA ORDEM SOCIAL EM CONFORMIDADE COM A LEI EVANGÉLICA NO XL ANIVERSÁRIO DA ENCÍCLICA DE LEÃO XIII «RERUM NOVARUM» Veneráveis Irmãos e Amados Filhos Saúde e Bênção Apostólica No 40º aniversário da magistral encíclica de Leão XIII « Rerum novarum », todo o orbe católico, movido dos sentimentos da mais viva gratidão, propõe-se comemorá-la com a devida solenidade. A Encíclica « Rerum novarum ». Já antes, em certo modo, haviam preparado o caminho àquele documento de solicitude pastoral, as encíclicas do mesmo Nosso Predecessor sobre o princípio da sociedade humana que é a família e o santo sacramento do Matrimónio, (1) sobre a origem da autoridade civil, (2) e a devida ordem das suas relações com a Igreja, (3) sobre os principais deveres dos fieis como cidadãos, (4) contra os princípios do socialismo, (5) contra as falsas teorias da liberdade humana, (6) e outras do mesmo género que plenamente revelaram o modo de pensar de Leão XIII; contudo a encíclica « Rerum novarum » distingue-se das demais por ter dado a todo o género humano regras seguríssimas para a boa solução do espinhoso problema do consórcio humano, a chamada « Questão social », precisamente quando isso mais oportuno e necessário era. Sua ocasião Com efeito ao fim do século XIX, em consequência de um novo género de economia, que se ia formando, e dos grandes progressos da indústria em muitas nações, aparecia a sociedade cada vez mais dividida em duas classes: das quais uma, pequena em número, gozava de quase todas as comodidades que as invenções modernas fornecem em abundância; ao passo que a outra, composta de uma multidão imensa de operários, a gemer na mais calamitosa miséria, debalde se esforçava por sair da penúria, em que se debatia. Com tal estado de coisas facilmente se resignavam os que, nadando em riquezas, o supunham efeito inevitável das leis económicas, e por isso queriam que se deixasse à caridade todo o cuidado de socorrer os miseráveis; como se a caridade houvesse de capear as violações da justiça, não só toleradas, mas por vezes até impostas pelos legisladores. Ao contrário só a duras penas o toleravam os operários, vítimas da fortuna adversa, e tentavam sacudir o jugo duríssimo: uns, levados na fúria de maus conselhos, aspiravam a tudo subverter, os outros, a quem a educação cristã demovia d’esses maus intentos, estavam contudo firmemente convencidos de que nesta matéria era necessária uma reforma urgente e radical. O mesmo pensavam todos os católicos, sacerdotes ou leigos, que, impelidos por uma caridade admirável, já de há muito trabalhavam em aliviar a miséria imerecida dos operários, não podendo de modo nenhum persuadir-se de que uma diferença tão grande e tão iníqua na distribuição dos bens temporais correspondesse verdadeiramente aos desígnios sapientíssimos do Criador. Procuravam eles com toda a lealdade um remédio eficaz a esta lamentável desordem da sociedade e uma firme defesa contra os perigos ainda maiores que a ameaçavam; mas tal é a fraqueza mesmo das melhores inteligências humanas, que ora se viam repelidos como inovadores perigosos, ora obstaculados por companheiros de acção mas de ideais diversos: e assim hesitantes entre várias opiniões, nem sabiam para onde voltar-se. No meio de tão grande luta de espíritos, quando de uma parte e doutra ferviam disputas nem sempre pacíficas, todos os olhos se volviam, como tantas outras vezes, para a cátedra de Pedro, para este depósito sagrado de toda a verdade, donde se difundem pelo mundo inteiro palavras de salvação; e todos, sociólogos, patrões, operários, acorrendo com frequência desusada aos pés do Vigário de Cristo na terra, suplicavam a uma voz que se lhes indicasse enfim o caminho seguro. Prudentíssimo como era o Pontífice, tudo ponderou longamente diante de Deus, chamou a conselho homens de reconhecida ciência, pesou bem as razões por uma parte e outra, e finalmente movido « pela consciência do múnus Apostólico », (7) para que não parecesse, que descurava os seus deveres calando por mais tempo, (8) decidiu-se a falar a toda a Igreja de Cristo, antes a todo o género humano, no exercício do magistério divino a ele confiado. Ressoou por tanto no dia 15 de maio de 1891 aquela voz há tanto suspirada, ressoou robusta e clara, sem que a intimidassem as dificuldades, nem a enfraquecesse a velhice, e ensinou à família humana, a empreender novos caminhos no terreno social. Tópicos principais Conheceis, veneráveis Irmãos e amados Filhos, e sabeis perfeitamente a admirável doutrina, que tornou a encíclica « Rerum novarum » digna de eterna memória. Nela o bom Pastor, condoído ao ver « a miserável e desgraçada condição, em que injustamente viviam » tão grande parte dos homens, tomou animoso a defesa dos operários, que « as condições do tempo tinham entregado e abandonado indefesos à crueldade de patrões desumanos e à cobiça de uma concorrência desenfreada ».(9) Não pediu auxílio nem ao liberalismo nem ao socialismo, pois que o primeiro se tinha mostrado de todo incapaz de resolver convenientemente a questão social, e o segundo propunha um remédio muito pior que o mal, que lançaria a sociedade em perigos mais funestos. O Pontífice no uso do seu direito e convencido de que a ele principalmente fora confiada a salvaguarda da religião e de tudo o que com ela está estreitamente vinculado, pois se tratava de um problema « a que não se podia encontrar solução plausível sem o auxílio da religião e da Igreja », (10) apoiando-se unicamente nos princípios imutáveis tirados do tesoiro da recta razão e da revelação divina, confiadamente e « como quem tinha autoridade », (11) expôs com inexcedível clareza e proclamou não só « os direitos e os deveres que devem reger as relações mútuas dos ricos e dos proletários, dos capitalistas e dos trabalhadores », (12) mas também a parte que deviam tomar a Igreja, a autoridade civil e os próprios interessados na solução dos conflitos sociais. Nem a voz Apostólica ressoou debalde; antes, com assombro a ouviram e a aplaudiram com suma benevolência, além dos filhos obedientes da Igreja, muitos dos que viviam longe da verdade e da unidade da fé e quase todos os que depois se ocuparam de sociologia e economia tanto no estudo teórico como na pública legislação. Foram porém os operários cristãos os que com maior alegria acolheram a encíclica ao verem-se assim vingados e defendidos pela suprema Autoridade da terra e com eles todas as almas generosas, que, já de há muito empenhadas em aliviar a sorte dos operários, não tinham encontrado senão indiferença em muitos, suspeitas odientas e até manifesta hostilidade em muitos outros. E é por isso que todos estes tiveram depois em tanta estima aquelas letras Apostólicas, que todos os anos costumam celebrar-lhe a memória com demonstrações de gratidão diversas nas diversas terras. No meio de tanta harmonia de sentimentos não faltaram vozes discordantes de alguns, mesmo de católicos, a quem a doutrina de Leão XIII, tão nobre e elevada, tão nova para humanos ouvidos pareceu suspeita e até escandalizou. Ela assaltava ousadamente e derribava os ídolos do liberalismo, não fazia caso de preconceitos inveterados, prevenia inopinadamente o futuro: que muito que os rotineiros desdenhassem aprender esta nova filosofia social e os tímidos receassem subir a tais alturas, ao passo que outros, admirando aquela luz, a reputavam perfeição ideal, mais para desejar que para realizar? Fim da presente Encíclica Por isso é que Nós, veneráveis Irmãos e amados Filhos, agora que todo o mundo e sobretudo os operários católicos, que de toda a parte acodem a esta Alma Cidade, comemoram com tanta solenidade e entusiasmo o quadragésimo aniversário da encíclica « Rerum novarum », julgamos dever Nosso aproveitar esta ocasião para recordar os grandes. benefícios que dela advieram à Igreja católica e a toda a humanidade; defender a doutrina social e económica de tão grande Mestre satisfazendo a algumas dúvidas, desenvolvendo mais e precisando alguns pontos; finalmente, chamando a juízo o regime económico moderno e instaurando processo ao socialismo, apontar a raiz do mal estar da sociedade contemporânea e mostrar-lhe ao mesmo tempo a única via de uma restauração salutar, que é a reforma cristã dos costumes. Eis os três pontos da presente encíclica. I. BENEFÍCIOS DA «RERUM NOVARUM » Para começarmos pelo que em primeiro lugar propusemos, seguindo a advertência de S. Ambrósio, (13) que a gratidão é o primeiro e mais imperioso dos deveres, não podemos conter-Nos que não demos a Deus as maiores acções de graças pelos imensos benefícios que da encíclica de Leão XIII advieram à Igreja e a todo o género humano. Se Nós os quiséssemos enumerar, mesmo de passagem, deveríamos por assim dizer, recordar toda a história dos últimos quarenta anos, na parte relativa à questão social. Mas tudo se pode reduzir a três pontos, conforme ao tríplice concurso que o Nosso Predecessor desejava, para poder levar a efeito a sua obra grandiosa de restauração. 1. – ACÇÃO DA IGREJA Em primeiro lugar o que da Igreja se podia esperar, declarou-o eloquentemente o mesmo Leão XIII : « A Igreja é a que aufere do Evangelho a única doutrina capaz de pôr termo à luta, ou ao menos de a suavizar, tirando-lhe toda a aspereza; é ela que com seus preceitos instrui as inteligências e se esforça por moralizar a vida dos indivíduos; que com utilíssimas instituições melhora continuamente a sorte dos proletários ». (14) a) No campo doutrinal Ora a Igreja não deixou estagnar no seu seio esta linfa preciosa, senão que a fez correr em abundância para o bem comum da suspirada paz. O próprio Leão XIII e seus Sucessores não cessaram de proclamar de viva voz e por escrito a doutrina social e económica da encíclica  « Rerum novarum », urgindo-a e aplicando-a segundo a ocasião às circunstâncias de tempo e lugar, com aquela caridade paterna e constância pastoral, que sempre os distinguiu na defesa dos pobres e desvalidos. (15) Nem foi outro o proceder de grande parte do Episcopado, que com assiduidade e maestria declarou e comentou a mesma doutrina, adaptando-a às condições dos diversos países, segundo a mente e as directivas da Santa Sé. (16) Não é pois de admirar, que muitos sábios quer eclesiásticos quer leigos se aplicassem diligentemente, seguindo a orientação dada pela Igreja, a desenvolver a ciência social e económica, conforme às exigências do nosso tempo, levados sobretudo do desejo de tornar a doutrina inalterada e inalterável da Igreja mais eficaz para remediar as necessidades modernas. Foi assim que à luz e sob o impulso da encíclica de Leão XIII nasceu uma verdadeira ciência social católica, cultivada e enriquecida continuamente pela indefessa aplição d’aquêles varões escolhidos, que chamámos cooperadores da Igreja. Nem eles a deixam escondida na sombra de simples discussões eruditas, mas expõem-na à luz do sol em públicas palestras, como o demonstram exuberantemente os cursos, tão úteis e tão frequentados, instituídos nas universidades católicas, academias e seminários, os congressos ou « semanas sociais » celebrados frequentemente e com grande fruto, os círculos de estudos, os escritos repletos de oportuna e sã doutrina, por toda a parte e por todos os modos divulgados. E não são estes apenas os frutos do documento Leoniano : a doutrina ensinada na encíclica « Rerum novarum » impôs-se insensivelmente à atenção d’aqueles mesmos que, separados da unidade católica, não reconhecem a autoridade da Igreja ; e assim os princípios de sociologia católica entraram pouco a pouco no património de toda a sociedade humana ; e as verdades eternas, tão altamente proclamadas pela santa memória do Nosso Predecessor, vemo-las frequentemente citadas e defendidas não só em jornais e livros mesmo acatólicos, mas até nos parlamentos e tribunais. E quando após a grande guerra os governantes das principais potências, trataram de restabelecer a paz sobre as bases de uma completa renovação social, entre as leis, feitas para regular o trabalho dos operários segundo a justiça e a equidade, decretaram muitas tão conformes com os princípios e directivas de Leão XIII, que parecem intencionalmente copiadas. É que a encíclica « Rerum novarum » é um documento tão notável, que bem se pode dizer com palavras de Isaias : « Estandarte arvorado à face das nações »! (17) b) Na prática Assim se iam divulgando cada vez mais à luz das investigações científicas os preceitos de Leão XIII ; ao mesmo tempo passava-se à sua aplicação prática. E primeiramente com actividade e benevolência fizeram-se todos os esforços para. elevar aquela classe, que os recentes progressos da indústria tinham aumentado desmedidamente sem lhe darem na sociedade o lugar que lhe competia, e que por isso jazia em quase completa desconsideração e abandono : falamos dos operários., a cuja cultura zelosos sacerdotes de um e outro clero, apesar de sobrecarregados com outros cuidados pastorais, se aplicaram desde logo, sob a guia dos respectivos Prelados e com grande fruto d’aquelas almas. Este trabalho constante vara embeber de espírito cristão as almas dos operários contribuiu também muitíssimo para lhes dar a verdadeira consciência da própria dignidade, e para habilitá-los, pela compreensão clara dos direitos e deveres da sua classe, a progredir honrada e felizmente no campo social e económico, a ponto de servirem de guias aos outros. Daqui os meios de subsistência melhor assegurados e em maior cópia : por quanto não só começaram a multiplicar-se segundo as exortações do grande Pontífice as obras de caridade e beneficência, mas também foram surgindo por toda a parte e cada vez mais numerosas as associações de mútuo socorro para operários, artistas, agricultores e jornaleiros de toda a espécie, fundadas segundo os conselhos e directivas da Igreja e ordinariamente sob a direcção do clero. 2. – ACÇÃO DA AUTORIDADE CIVIL Quanto à autoridade civil, Leão XIII, ultrapassando com audácia os confins impostos pelo liberalismo, ensina impertérrito, que ela não deve limitar-se a tutelar os direitos e a ordem pública, mas antes fazer o possível « para que as leis e instituições sejam tais… , que da própria organização do Estado dimane espontaneamente a prosperidade da nação e dos indivíduos ». (18) Deve sim deixar-se tanto aos particulares como às famílias a justa liberdade de acção, mas contanto que se salve o bem comum e não se faça injúria a ninguém. Aos governantes compete defender toda a nação e os membros que a constituem, tendo sempre cuidado especial dos fracos e deserdados da fortuna ao proteger os direitos dos particulares. « Por quanto a classe abastada, munida dos seus próprios recursos, carece menos do auxílio público; pelo contrário a classe indigente, desprovida de meios pessoais, esteia-se sobre tudo na protecção do Estado. Por conseguinte deve ele atender com particular cuidado e providência aos operários, visto serem eles do número da classe pobre ». (19) Não negamos que alguns governantes, já antes da encíclica de Leão XIII, tivessem provido às necessidades mais urgentes dos obreiros e reprimido as injustiças de maior vulto a estes feitas. Mas foi só depois que a palavra Apostólica ressoou ao mundo inteiro desde a cátedra de Pedro, que os governos, capacitando-se mais da sua missão, se aplicaram a desenvolver uma política social mais activa. E na verdade, em quanto vacilavam os princípios do liberalismo, que havia muito paralisavam a obra eficaz dos governos, a encíclica « Rerum novarum» produziu no seio das nações uma grande corrente favorável a uma política francamente social, e de tal modo excitou os melhores católicos a cooperar com as autoridades, que não raro foram eles os defensores mais ilustres da nova legislação nos próprios parlamentos. Mais ainda : foram ministros da Igreja compenetrados da doutrina de Leão XIII que propuseram às câmaras muitas das leis sociais recentemente promulgadas, e que depois mais urgiram e promoveram a sua execução. Deste contínuo e indefesso trabalho nasceu aquela jurisprudência completamente desconhecida nos séculos passados, que se propõe defender com ardor os sagrados direitos do operário, provenientes da sua dignidade de homem e de cristão : de facto estas leis protegem a alma, a saúde, as forças, a família, as casas, as oficinas, o salário, abrangem os acidentes de trabalho, numa palavra, tudo aquilo que interessa a classe trabalhadora, principalmente as mulheres e crianças. E se uma tal legislação não condiz de todo nem em toda a parte com as normas de Leão XIII, não se pode contudo negar haver nela muitas reminiscências da encíclica  « Rerum novarum » e que à mesma por conseguinte se deve atribuir em grande parte a melhorada condição dos operários. 3. – ACÇÃO DOS INTERESSADOS Mostra enfim muito prudentemente o Pontífice, que os patrões e os próprios operários podem fazer muito nesta matéria, « com as instituições destinadas a levar auxílio oportuno aos indigentes e a aproximar mais uma classe da outra ». (20) Entre estas dá Leão XIII o primeiro lugar às associações que abrangem quer somente os operários, quer operários e patrões; e alarga-se em recomendá-las e ilustrá-las, declarando a sua natureza, razão de ser, conveniência, direitos, deveres, leis, com sabedoria verdadeiramente admirável. Nem estes ensinamentos podiam vir em ocasião mais oportuna : com efeito nesse tempo os que tinham na mão em muitas nações o leme do Estado, totalmente impregnados de liberalismo, não só não eram favoráveis às associações operárias, mas até abertamente as hostilizavam ; e quando reconheciam de boa vontade e tutelavam instituições análogas entre outras classes, negavam com injustiça flagrante o direito natural de associação àqueles, que mais necessitavam dele, para se defender das vexações dos poderosos ; nem faltou ainda mesmo entre os católicos quem visse de maus olhos, acoimando-os de socialistas ou anárquicos, os esforços dos operários em associar-se. A) Associações operárias São por tanto dignas dos maiores encómios as normas emanadas da autoridade de Leão XIII, que lograram derribar tais obstáculos, e desfazer tais suspeitas ; mas tornaram-se ainda mais importantes, por terem exortado os operários cristãos a associarem-se segundo os vários misteres, ensinando-lhes o meio de o conseguirem, e por terem ainda consolidado no caminho do dever muitos, a quem as associações socialistas seduziam fortemente, apregoando-se a si mesmas únicos defensores e propugnadores dos humildes e oprimidos. Quanto à erecção destas associações, a encíclica « Rerum novarum» observa muito a propósito, « que as corporações devem organizar-se e governar-se de modo que forneçam a cada um de seus membros os meios mais fáceis e expeditos para conseguirem seguramente o fim proposto, isto é : a maior cópia possível, para cada um, de bens do corpo, do espírito e da fortuna »; porém é claro « que sobretudo se deve ter em vista, como mais importante, a perfeição moral e religiosa; e que por ela se deve orientar todo o regulamento destas sociedades ». (21) Com efeito « constituída assim a religião como fundamento de todas as leis sociais, não é difícil determinar as relações que devem existir entre os membros para que possam viver em paz e prosperar . (22) Desejosos de levar a efeito a aspiração de Leão XIII, muitos do clero e do laicado dedicaram-se por toda a parte com louvável empenho a fundar estas associações; as quais protegidas pela religião, embebidas do seu espírito, formaram operários verdadeiramente cristãos, que uniam em boa harmonia o exercício diligente da própria arte com os preceitos salutares da religião e defendiam eficaz e tenazmente os próprios direitos e interesses temporais, tendo sempre em conta a justiça e o sincero desejo de colaborar com as outras classes para a restauração cristã de toda a vida social. Diverso segundo as várias circunstâncias locais foi o esforço em realizar os desígnios e as normas de Leão XIII. De facto nalgumas regiões a mesma associação abraçava todos os fins visados pelo Pontífice ; noutras ao contrário chegou-se a uma certa divisão de actividade; e formaram-se associações distintas, umas para zelar os direitos e interesses legítimos dos sócios nos contractos de trabalho, outras para organizar o mútuo auxílio económico, outras finalmente para o desempenho dos deveres religiosos e morais e de outras obrigações análogas. Este segundo método prevaleceu sobretudo nos países, onde as leis pátrias, as instituições económicas, ou a discórdia de inteligências e corações tão deploravelmente enraizada na sociedade moderna ou ainda a, necessidade urgente de opor uma frente única aos inimigos da ordem, impediam aos católicos a fundação de sindicatos próprios. Num tal estado de coisas os católicos vêem-se quase obrigados a inscrever-se em sindicatos neutros, uma vez que façam profissão de justiça e equidade e deixem aos sócios católicos plena liberdade de obedecer à própria consciência e cumprir os preceitos da Igreja. Pertence aos Bispos, se reconhecerem que tais associações são impostas pelas circunstâncias e não oferecem perigo para a religião, permitir que os operários católicos se inscrevam nelas, observando contudo a este respeito as normas e precauções recomendadas por Nosso Predecessor Pio X, de santa memória. (23) Primeira e a mais importante é, que ao lado dos sindicatos existam sempre outros grupos com o fim de dar a seus membros uma séria formação religiosa e moral, para que eles depois infiltrem nas organizações sindicais o bom espírito que deve animar toda a sua actividade. Sucederá assim que estes grupos exercerão benéfica influencia mesmo fora do próprio âmbito. Por isso deve atribuir-se à encíclica Leoniana o terem florescido tanto por toda a parte estas associações operárias, que já hoje, apesar de serem, infelizmente, ainda inferiores em número às dos socialistas e comunistas, agrupam notável multidão de sócios e podem defender energicamente os direitos e aspirações legítimas do operariado católico e propugnar os salutares princípios da sociedade cristã, quer fronteiras a dentro da pátria, quer em congressos internacionais. B) Associações não operárias Acresce ao sobredito, que a doutrina relativa ao direito natural de associação tão sabiamente exposta e com tanto valor defendida por Leão XIII, começou naturalmente a aplicar-se também a associações não operárias; pelo quê deve-se em grande parte mesma encíclica, que até entre os agricultores e outros membros da classe média se vejam florescer e multiplicar de dia para dia estas utilíssimas corporações e outros institutos similares, que aliam felizmente os interesses económicos à formação espiritual. C) Associações de industriais E se não pode dizer-se o mesmo das associações que o Nosso Predecessor tão ardentemente desejava ver instituídas entre patrões e industriais, e que lamentamos sejam tão poucas, não deve isso atribuir-se completamente à má vontade dos homens, mas a dificuldades muito maiores que se opõem à sua realização, dificuldades que Nós muito bem conhecemos e avaliamos na devida conta. Temos porém segura esperança de que para breve até essas dificuldades desaparecerão e saudamos já com íntimo júbilo da alma alguns esforços envidados com vantagem neste particular, cujos frutos abundantes prometem messe ainda mais copiosa para o futuro. (24) CONCLUSÃO: A « MAGNA CHARTA » DOS OPERÁRIOS Todos estes benefícios da encíclica de Leão XIII que Nós, veneráveis Irmãos e amados Filhos, acabamos de recordar, acenando-os mais do que descrevendo-os, são tais e tão grandes, que mostram claramente como o imortal documento não era apenas a expressão de um ideal magnífico mas irrealizável. Ao contrário o Nosso ilustre Predecessor hauriu no Evangelho, e portanto numa fonte sempre viva e vivificante a doutrina que pode, senão resolver já de vez, ao menos abrandar muito a luta fatal em que mutuamente se digladia a família humana. Os frutos de salvação recolhidos pela Igreja de Cristo e por todo o género humano, com a graça de Deus, mostram bem que a boa. semente, espalhada há quarenta anos em tão larga cópia, caiu em grande parte numa terra fértil ; nem é temeridade afirmar que a encíclica de Leão XIII se demonstrou com a longa experiência do tempo a « Magna Charta » em que deve basear-se como em sólido fundamento toda a actividade cristã no campo social. Por isso os que mostram fazer pouco da mesma encíclica e da sua comemoração, estes ou blasfemam do que não conhecem, ou não percebem nada do que conhecem, ou, se percebem, praticam uma solene injustiça, e ingratidão. Mas como durante estes anos surgiram dúvidas sobre a recta interpretação de vários passos da encíclica ou sobre as consequências a deduzir deles, dando ocasião entre os próprios católicos a discussões nem sempre amigáveis ; e como por outra parte as novas exigências do nosso tempo e as mudadas condições sociais tornam necessária uma aplicação mais esmerada da doutrina Leoniana e mesmo algumas adições, aproveitamos de boa vontade esta ocasião, para, em virtude do Nosso múnus Apostólico, que a todos Nos faz devedores, (25) satisfazermos, quanto é da Nossa parte, a estas dúvidas e exigências. II. AUTORIDADE DA IGREJA NA QUESTÃO SOCIAL E ECONÓMICA Mas antes de entrarmos neste assunto, devemos pressupor, o que já provou abundantemente Leão XIII, que julgar das questões sociais e económicas é dever e direito da Nossa suprema autoridade. (26) Não foi é certo confiada à Igreja, a missão de encaminhar os homens à conquista de uma felicidade apenas transitória e caduca, mas da eterna; antes « a Igreja crê não dever intrometer-se sem motivo nos negócios terrenos ». (27) O que não pode, é renunciar ao ofício de que Deus a investiu, de interpor a sua autoridade não em assuntos técnicos, para os quais lhe faltam competência e meios, mas em tudo o que se refere à moral. Dentro deste campo, o depósito da verdade que Deus Nos confiou e o gravíssimo encargo de divulgar toda a lei moral, interpretá-la e urgir o seu cumprimento oportuna e importunamente, sujeitam e subordinam ao Nosso juízo a ordem social e as mesmas questões económicas. Pois ainda que a economia e a moral « se regulam, cada uma no seu âmbito, por princípios próprios », (28) é erro julgar a ordem económica e a moral tão encontradas e alheias entre si, que de modo nenhum aquela dependa desta. Com efeito, as chamadas leis económicas, deduzidas da própria natureza das coisas e da índole do corpo e da alma, determinam os fins que a actividade humana se não pode propor, e os que pode procurar com todos os meios no campo económico ; e a. razão mostra claramente, da mesma natureza das coisas e da natureza individual e social do homem, o fim imposto pelo Criador a toda a ordem económica. Por sua parte a lei moral manda-nos prosseguir tanto o fim supremo e último em todo o exercício da nossa actividade, como, nos diferentes domínios por onde ela se reparte, os fins particulares impostos pela natureza, ou melhor, por Deus autor da mesma; subordinando sempre estes fins aquele, como pede a boa ordem. Se seguirmos fielmente esta regra, sucederá, que os fins particulares da economia, sejam eles individuais ou sociais, se inserirão facilmente na ordem geral dos fins, e nós subindo por eles, como por uma escada, chegaremos ao fim último de todos os seres, que é Deus, bem supremo e inexaurível para si e para nós. 1. – DO DIREITO DE PROPRIEDADE Para vir agora ao particular, começamos pelo direito de propriedade. Sabeis, veneráveis Irmãos e amados Filhos, que Leão XIII de feliz memória defendeu tenazmente o direito de propriedade contra as aberrações dos socialistas do seu tempo, mostrando que a destruição do domínio particular reverteria, não em vantagem, mas em ruína da classe operária. Mas como não falta quem com flagrante injustiça calunie o Sumo Pontífice e a Igreja de ter zelado e zelar somente os interesses dos ricos contra os proletários, e os mesmos católicos não concordam na interpretação do genuíno e verdadeiro modo de pensar de Leão XIII, pareceu-Nos bem vingar de tais calúnias a sua doutrina que é a católica e defendê-la de falsas interpretações. Sua índole individual e social Primeiramente tenha-se por certo, que nem Leão XIII, nem os teólogos, que ensinaram seguindo a doutrina e direcção da Igreja, negaram jamais ou puseram em dúvida a dupla espécie de domínio, que chamam individual e social, segundo diz respeito ou aos particulares ou ao bem comum ; pelo contrário foram unânimes em afirmar que a natureza ou o próprio Criador deram ao homem o direito do domínio particular, não só para que ele possa prover às necessidades próprias e da família, mas para que sirvam verdadeiramente ao seu fim os bens destinados pelo Criador a toda a família humana : ora nada disto se pode obter, se não se observa uma ordem certa e bem determinada. Deve portanto evitar-se cuidadosamente um duplo escolho, em que se pode cair. Pois como o negar ou cercear o direito de propriedade social e pública precipita no chamado « individualismo » ou dele muito aproxima, assim também rejeitar ou atenuar o direito de propriedade privada ou individual leva rapidamente ao « colectivismo » ou pelo menos à necessidade de admitir-lhe os princípios. Sem a luz destas verdades ante os olhos, cair-se-á depressa nas sirtes do modernismo moral, jurídico e social, que denunciámos com letras Apostólicas no princípio do Nosso Pontificado; (29) tenham-no presente sobretudo aqueles espíritos desordeiros, que com infames calúnias ousam acusar a Igreja de ter permitido, que se introduzisse na doutrina teológica o conceito pagão do domínio, ao qual desejam a todo o custo substituir outro, por eles com pasmosa ignorância apelidado de cristão. Obrigações inerentes ao domínio E a fim de pôr termo às controvérsias, que acerca do domínio e deveres a ele inerentes começaram a agitar-se, note-se em primeiro lugar o fundamento assente por Leão XIII, de que o direito de propriedade é distinto do seu uso. (30) Com efeito, a chamada justiça comutativa obriga a conservar inviolável a divisão dos bens e a não invadir o direito alheio excedendo os limites do próprio domínio; que porém os proprietários não usem do que é seu, senão honestamente, é da alçada não da justiça, mas de outras virtudes, cujo cumprimento « não pode urgir-se por vias jurídicas ». (31) Pelo quê sem razão afirmam alguns, que o domínio e o seu honesto uso são uma e a mesma coisa; e muito mais ainda é alheio à verdade dizer, que se extingue ou se perde o direito de propriedade com o não uso ou abuso dele. Prestam portanto grande serviço à boa causa e são dignos de todo o elogio os que, salva a concórdia dos ânimos e a integridade da doutrina tradicional da Igreja, se empenham em definir a natureza íntima destas obrigações e os limites, com que as necessidades do convívio social circunscrevem tanto o direito de propriedade, como o uso ou exercício do domínio. Pelo contrário muito se enganam e erram aqueles, que tentam reduzir o domínio individual a ponto de o abolirem praticamente. Poderes do Estado Efectivamente, que deva o homem atender não só ao próprio interesse, mas também ao bem comum, deduz-se da própria índole, a um tempo individual e social, do domínio, a que nos referimos. Definir porém estes deveres nos seus pormenores e segundo as circunstâncias, compete, já que a lei natural de ordinário o não faz, aos que estão à frente do Estado. E assim a autoridade pública, iluminada sempre pela luz natural e divina, e pondo os olhos só no que exige o bem comum, pode decretar mais minuciosamente o que aos proprietários seja lícito ou ilícito no uso de seus bens. Já Leão XIII ensinou sabiamente que « Deus confiou à indústria dos homens e às instituições dos povos a demarcação da propriedade individual ». (32) E realmente o regime da propriedade não é mais imutável, que qualquer outra instituição da vida social, como o demonstra a história e Nós mesmo notámos em outra ocasião : « Que variedade de formas concretas não revestiu a propriedade desde a forma primitiva dos povos selvagens, de que ainda há hoje vestígios, até à forma de propriedade dos tempos patriarcais, e depois sucessivamente desde as diversas formas tirânicas (usamos esta palavra no seu sentido clássico), através das feudais e logo das monárquicas, até às formas existentes na idade moderna »! (33) É evidente porém que a autoridade pública não tem direito de desempenhar-se arbitrariamente desta função; devem sempre permanecer intactos o direito natural de propriedade e o que tem o proprietário de legar dos seus bens. São direitos estes, que ela não pode abolir, porque « o homem é anterior ao Estado », (34) e « a sociedade doméstica tem sobre a sociedade civil uma prioridade lógica e uma prioridade real ». (35) Eis porque o sábio Pontífice declarava também, que o Estado não tem direito de esgotar a propriedade particular com excessivas contribuições : « Não é das leis humanas, mas da natureza, que dimana o direito da propriedade individual; a autoridade pública não a pode portanto abolir : o mais que pode é moderar-lhe o uso e harmonizá-lo com o bem comum ». (36) Quando ela assim concilia o direito de propriedade com as exigências do bem comum, longe de mostrar-se inimiga dos proprietários presta-lhes benévolo apoio; de facto, fazendo isto, impede eficazmente que a posse particular dos bens, estatuída com tanta sabedoria pelo Criador em vantagem da vida humana, gere desvantagens intoleráveis e venha assim a arruinar-se : não oprime a propriedade, mas defende-a; não a enfraquece, mas reforça-a. Deveres relativos aos rendimentos livres Nem ficam de todo ao arbítrio do homem os seus rendimentos livres, isto é aqueles de que não precisa para sustentar a vida convenientemente e com decoro : ao contrário as sagradas Escrituras e os santos Padres da Igreja intimam continuamente e com a maior clareza aos ricos o gravíssima dever da esmola e de praticar a beneficência e magnificência. Empregar grandes capitais disponíveis para oferecer em abundância trabalho lucrativo, com tanto que este se empregue em obras realmente úteis, não só não é vício ou imperfeição moral, mas até se deve julgar acto preclaro da virtude da magnificência muito em harmonia com as necessidades dos tempos, como se deduz argumentando dos princípios do Doutor Angélico. (37) Títulos de aquisição do domínio Títulos de aquisição do domínio são a ocupação de coisas sem dono, a indústria ou a chamada especificação, como o demonstram abundantemente a tradição de todos os séculos e a doutrina do Nosso Predecessor Leão XIII. De facto não faz injustiça a ninguém, por mais que alguns digam o contrário, quem se apodera de uma coisa abandonada ou sem dono; de outra parte a indústria que alguém exerce em nome próprio, e com a qual as coisas se transformam ou aumentam de valor, dá-lhe direito sobre os produtos do seu trabalho. Capital e trabalho Muito diversa é a condição do trabalho, que vendido a outrem se exerce em coisa alheia. A ele particularmente visava Leão XIII, quando escrevia « poder-se afirmar sem perigo de erro, que o trabalho é a fonte única da riqueza nacional ». (38) Com efeito, não vemos com os próprios olhos, que a abundância dos bens, que constituem a riqueza, se formam e brotam das mãos dos obreiros, quer trabalhem sós, quer armadas de instrumentos e máquinas, com o que aumentam admiravelmente a sua actividade? Ninguém ignora, que nunca um país se ergueu da miséria e pobreza a uma fortuna melhor e mais elevada sem a colaboração ingente de todos os cidadãos, tanto dos que dirigem o trabalho, como dos que o executam. Não é porém menos certo que estes grandes esforços seriam imiteis e vãos, que nem sequer poderiam tentar-se, se Deus Criador do universo não tivesse na sua bondade fornecido antes as matérias primas e as forças da natureza. Pois que é trabalhar, senão aplicar ou exercer as forças do corpo e do espírito nestas mesmas coisas ou por meio delas? Exige porém a lei natural ou a vontade de Deus por ela promulgada, que se mantenha a devida ordem na aplicação dos bens naturais aos usos humanos : ora semelhante ordem consiste em ter cada coisa o seu dono. D’aqui vem que, a não ser que um trabalhe no que é seu, deverão aliar-se as forças de uns com as coisas dos outros; pois que umas sem as outras nada produzem. Isto precisamente tinha em vista Leão XIII, quando escrevia : « de nada vale o capital sem o trabalho, nem o trabalho sem o capital ». (39) Por conseguinte é inteiramente falso atribuir ou só ao capital ou só ao trabalho o produto do concurso de ambos; e é injustíssimo que um deles, negando a eficácia do outro, se arrogue a si todos os frutos. Pretensões injustas do capital É certo que por muito tempo pôde o capital arrogar-se direitos demasiados. Todos os produtos e todos os lucros reclamava-os ele para si, deixando ao operário unicamente o bastante para restaurar e reproduzir as forças. Apregoava-se, que por fatal lei económica pertencia aos patrões acumular todo o capital, e que a mesma lei condenava e acorrentava os operários a perpétua pobreza e vida miserável. E bem verdade, que as obras nem sempre estavam de acordo com semelhantes monstruosidades dos chamados liberais de Manchester : não se pode contudo negar que para elas tendia com passo certeiro e constante o regime económico e social. Por isso não é para admirar que estas opiniões erróneas e estes postulados falsos fossem energicamente impugnados, e não só por aqueles a quem privavam do direito natural de adquirir melhor fortuna. Injustas pretensões do trabalho De facto aos operários assim mal tratados apresentaram-se os chamados « intelectuais », contrapondo a uma lei falsa um não menos falso princípio moral : « os frutos e rendimentos, descontado apenas o que baste a amortizar e reconstituir o capital, pertencem todos de direito aos operários ». Erro mais capcioso que o de alguns socialistas, para os quais tudo o que é produtivo deve passar a ser propriedade do Estado ou « socializar-se »; mas por isso mesmo erro muito mais perigoso e próprio a embair os incautos : veneno suave que tragaram avidamente muitos, a quem o socialismo sem rebuço não pudera enganar. Princípio directivo da justa distribuição A premuni-los contra estes falsos princípios, com que a si próprios fechavam o caminho da justiça e da paz, deviam bastar as palavras sapientíssimas do Nosso Predecessor : « de qualquer modo que seja distribuída entre os particulares, não cessa a terra de servir à utilidade pública ». (40) O mesmo ensinámos Nós pouco antes, quando declarávamos, que a própria natureza exige a repartição dos bens em domínios particulares, precisamente a fim de poderem as coisas criadas servir ao bem comum de modo ordenado e constante. Este princípio deve ter continuamente diante dos olhos, quem não quer desviar-se da recta senda da verdade. Ora nem toda a distribuição dos bens ou riquezas entre os homens é apta para obter totalmente ou com a devida perfeição o fim estabelecido por Deus. E necessário que as riquezas, em contínuo incremento com o progresso da economia social, sejam repartidas pelos indivíduos ou pelas classes particulares de tal maneira, que se salve sempre a utilidade comum, de que falava Leão XIII, ou, por outras palavras, que em nada se prejudique o bem geral de toda a sociedade. Esta lei de justiça social proíbe, que uma classe seja pela outra excluída da participação dos lucros. Violam-na por conseguinte tanto os ricos que, felizes por se verem livres de cuidados em meio da sua fortuna, têm por muito natural embolsarem eles tudo e os operários nada, como a classe proletária que, irritada por tantas injustiças e demasiadamente propensa a exagerar os próprios direitos, reclama para si tudo, porque fruto do trabalho das suas mãos, e combate e pretende suprimir toda a propriedade e rendas ou proventos, qualquer que seja a sua natureza e função social, uma vez que se obtenham e pela simples razão de serem obtidos sem trabalho. A este propósito cita-se às vezes o Apóstolo, lá onde diz : « quem não quer trabalhar, não coma ». (41) Citação descabida e falsa. O Apóstolo repreende os ociosos, que podendo e devendo trabalhar, não o fazem, e admoesta-nos a que aproveitemos diligentemente o tempo e as forças do corpo e do espírito, nem queiramos ser de peso aos outros, quando podemos bastar-nos a nós mesmos. Agora, que o trabalho seja o único título para receber o sustento ou perceber rendimentos, isso não o ensina, nem podia ensinar o Apóstolo. (42) Cada um deve pois ter a sua parte nos bens materiais; e deve procurar-se que a sua repartição seja pautada pelas normas do bem comum e da justiça social. Hoje porém, à vista do contraste estridente, que há entre o pequeno número dos ultra-ricos e a multidão inumerável dos pobres, não há homem prudente, que não reconheça os gravíssimos inconvenientes da actual repartição da riqueza. 3. – REDENÇÃO DOS PROLETÁRIOS Esta é aquela « Redenção dos proletários », que o Nosso Predecessor dizia dever procurar-se a todo o custo. O mesmo afirmamos e repetimos Nós com tanto maior energia e insistência, quanto mais frequentemente vemos votadas ao esquecimento as recomendações daquele grande Pontífice, ou porque intencionalmente se não falava, delas, ou porque as julgavam impossíveis de actuar, sendo que não só podem, mas devem realizar-se. Nem elas no nosso tempo perderam nada da aia, força e oportunidade, apesar de hoje não ser tão geral e horrendo o pauperismo, como era ao tempo de Leão XIII. Sem dúvida que a condição dos operários melhorou e se tornou mais tolerável, sobretudo nas cidades mais progredidas e populosas, onde os operários já não podem todos sem excepção ser considerados como indigentes e miseráveis. Mas desde que as artes mecânicas e a indústria moderna em pouquíssimo tempo invadiram completamente e dominaram regiões inumeráveis, tanto as terras chamadas novas, como os reinos do remoto Oriente cultivados já na antiguidade, cresceu desmesuradamente o número dos proletários pobres, cujos gemidos bradam ao céu. Acresce o ingente exército dos jornaleiros relegados à ínfima condição e sem a mínima esperança de se verem jamais senhores de um pedaço de terra; (43) se não se empregam remédios oportunos e eficazes, ficarão perpetuamente na condição de proletários. É verdade, que a condição proletária não se deve confundir com o pauperismo; contudo basta o facto de a multidão dos proletários ser imensa, enquanto as grandes fortunas se acumulam nas mãos de poucos ricos, para provar à evidência que as riquezas, produzidas em tanta abundância neste nosso século de industrialismo, não estão bem distribuídas pelas diversas classes da sociedade. Os operários devem poder formar um património É pois necessário envidar energicamente todos os esforços, para que ao menos de futuro as riquezas grangeadas se acumulem em justa proporção nas mãos dos ricos, e com suficiente largueza se distribuam pelos operários; não para que estes se dêem ao ócio, — já que o homem nasceu para trabalhar como a ave para voar, — mas para que, vivendo com parcimônia, aumentem os seus haveres, aumentados e bem administrados provejam aos encargos da família; e livres assim de uma condição precária e incerta qual é a dos proletários, não só possam fazer frente a todas as eventualidades durante a vida, mas deixem ainda por morte alguma coisa, aos que lhes sobrevivem. Toda esta doutrina já por Nosso Predecessor, não só insinuada, mas abertamente proclamada, Nós de novo e com mais insistência a inculcamos com esta Nossa encíclica : pois desenganem-se todos, que se não se põe em prática quanto antes e com todas as veras, será impossível defender eficazmente a ordem pública, a paz e a tranquilidade da sociedade humana contra os maquinadores de revoluções. 4. – O JUSTO SALÁRIO Ora não se poderá pôr em prática, se não se procura, que os proletários, trabalhando e vivendo com parcimónia, adquiram o seu modesto pecúlio, como já acima indicamos desenvolvendo os ensinamentos de Nosso Predecessor. Mas, a não ser da própria jorna, d’onde poderá tirar esse pouco que vai economizando, o que não tem outra fonte de receita senão o seu trabalho? Entremos portanto nesta questão do salário, que Leão XIII apelidou « de grande importância », (44) declarando e desenvolvendo, onde for necessário, a sua doutrina e preceitos. O salário não é de sua natureza injusto E primeiramente os que dizem ser de sua natureza injusto o contrato de compra e venda do trabalho e pretendem substituí-lo por um contrato de sociedade, dizem um absurdo e caluniam malignamente o Nosso Predecessor que na encíclica « Rerum novarum » não só admite a legitimidade do salário, mas se difunde em regulá-lo segundo as leis da justiça. Julgamos contudo que nas presentes condições sociais é preferível, onde se possa, mitigar os contratos de trabalho combinando-os com os de sociedade, como já começou a fazer-se de diversos modos com não pequena vantagem dos operários e dos patrões. Deste modo operários e oficiais são considerados sócios no domínio ou na gerência, ou compartilham os lucros. O justo valor da paga deve ser avaliado não por um, senão por vários princípios, como sabiamente dizia Leão XIII por estas palavras : « para determinar equitativamente o salário devem ter-se em vista várias considerações ». (45) Com estas palavras confuta a leviandade dos que pensam resolver facilmente tão momentoso problema, empregando uma única medida e essa mesma disparatada. Erram certamente os que não receiam enunciar este princípio, que tanto vale o trabalho e tanto deve importar a paga, quanto é o valor dos seus frutos; e que por isso na locação do próprio trabalho tem o operário direito de exigir por ele tudo o que produzir. Asserção infundada, como basta a demonstrá-lo o que acima dissemos ao tratar da relação entre o trabalho e o capital. Carácter individual e social do trabalho Como o domínio, assim também o trabalho, sobretudo o contratado, deve considerar-se não só relativamente aos indivíduos, mas também em função da sociedade. A razão é clara. Se a sociedade não forma realmente um corpo organizado, se a ordem social e jurídica não protege o exercício da actividade, se as várias artes, dependentes como são entre si, não trabalham de concerto e não se ajudam mutuamente, se enfim e mais ainda, não se associam e colaboram juntos a inteligência, o capital, e o trabalho, não pode a actividade humana produzir fruto : logo não pode ela ser com justiça avaliada nem remunerada equitativamente, se não se tem em conta a sua natureza social e individual. Tríplice relação do salário Destas duas propriedades naturais do trabalho humano derivam consequências gravíssimas, pelas quais se deve regular e determinar o salário. A) O sustento do operário e da família Primeiro ao operário deve dar-se remuneração que baste para o sustento seu e da família. (46) É justo que toda a mais família, na medida das suas forças, contribua para o seu mantimento, como vemos que fazem as famílias dos lavradores, e também muitas de artistas e pequenos negociantes. Mas é uma iniquidade abusar da idade infantil ou da fraqueza feminina. As mães de família devem trabalhar em casa ou nas suas adjacências, dando-se aos cuidados domésticos. É um péssimo abuso, que deve a todo o custo cessar, o de as obrigar, por causa da mesquinhez do salário paterno, a ganharem a vida fora das paredes domésticas, descurando os cuidados e deveres próprios e sobretudo a educação dos filhos. Deve pois procurar-se com todas as veras, que os pais de família recebam uma paga bastante a cobrir as despesas ordinárias da casa. E se as actuais condições não permitem, que isto se possa sempre efectuar, exige contudo a justiça social, que se introduzam quanto antes as necessárias reformas, para que possa assegurar-se um tal salário a todo o operário adulto. — São pois dignos de louvor todos aqueles, que com prudente e utilíssima iniciativa tem já experimentado vários métodos para tornar o salário proporcionado aos encargos domésticos de tal modo que, aumentando estes, cresça também aquele; antes seja tal, que possa bastar a qualquer necessidade extraordinária e imprevista. B) Situação da empresa É preciso atender também ao empresário e a empresa no determinar a importância dos salários; seria injustiça exigir salários demasiados, que eles não pudessem pagar sem se arruinarem e arruinarem consigo os operários. Mas se a deficiência dos lucros dependesse da negligência, inércia, ou descuido em procurar o progresso técnico e económico, não seria essa uma causa justa para cercear a paga aos operários. Se porém a causa de a empresa não render quanto baste para retribuir aos operários equitativamente, são contribuições injustas ou o ver-se forçada a vender os artefactos por um preço inferior ao justo, os que assim a vexam, tornam-se réus de culpa grave; pois que privam do justo salário os trabalhadores, que forçados da necessidade se vêem obrigados a aceitar uma paga inferior à devida. Trabalhem por conseguinte de comum acordo operários e patrões para vencer as dificuldades e obstáculos, e sejam em obra tão salutar ajudados prudente e providamente pela autoridade pública. Mas se apesar de tudo os negócios correrem mal, será então o caso de ver se a empresa poderá continuar, ou se será melhor prover aos operários de outro modo. Nessas gravíssimas conjunturas é, mais que nunca, necessário, que reine e se sinta entre operários e patrões a união e concórdia cristã. C) Exigências do bem comum Enfim a grandeza do salário deve ser proporcionada ao bem da economia pública. Já atrás declarámos, quanto importa ao bem comum, que os operários e oficiais possam formar um modesto pecúlio com a parte do salário economizada. Mas não podemos passar em silêncio outro ponto de não menor importância e grandemente necessário nos nossos tempos, e é, que todos os que têm vontade e forças, possam encontrar trabalho. Ora isto depende em boa parte da determinação do salário : a qual como será vantajosa, se bem feita, assim se tornará nociva, se exceder os devidos limites. Quem não sabe, que foram os salários demasiadamente pequenos ou exageradamente grandes a causa de muitos operários se verem sem trabalho? É este mal, formidavelmente agravado nos anos do nosso Pontificado, que lança aos operários nas maiores misérias e tentações, que arruína a prosperidade dos estados e põe em perigo a ordem pública, a paz e tranquilidade do mundo inteiro. É portanto contra a justiça social diminuir ou aumentar demasiadamente os salários em vista só das próprias conveniências e sem ter em conta o bem comum; e a mesma justiça exige, que em pleno acordo de inteligências e vontades, quanto seja possível, se regulem os salários de tal modo, que o maior número de operários possa encontrar trabalho e ganhar o necessário para o sustento da vida. É também importante para o mesmo efeito a boa proporção entre as diversas categorias de salários; com a qual está intimamente relacionada a justa proporção entre os preços de venda dos produtos das diversas artes, como a agricultura, a indústria, etc. Se tudo isto se observar como convêm, unir-se-ão as diversas artes e se organizarão num corpo união, prestando-se como membros mútuo e benéfico auxílio. Só então estará solidamente constituído o organismo económico e social e será capaz de obter os seus fins, quando todos e cada um tiverem todos os bens, que as riquezas naturais, a arte técnica, e a boa administração económica podem proporcionar. Estes bens devem bastar não só à estrita necessidade e à honesta comodidade, senão também a elevar o homem a um certo grau de cultura, o qual, uma vez que não falte a prudência, longe de obstar, grandemente favorece a virtude. (47) 5. – RESTAURAÇÃO DA ORDEM SOCIAL O que fica exposto sobre a equitativa repartição dos bens e sobre o justo salário, diz respeito aos indivíduos, nem visa senão acessóriamente a ordem social, que o Nosso Predecessor Leão XIII desejou e procurou restaurar pelos princípios da sã filosofia e aperfeiçoar segundo as normas sublimes da lei evangélica. Já alguma coisa se fez neste sentido; mas para realizar o muito que ainda está por fazer e para que a família humana colha vantagens melhores e mais abundantes, são de absoluta necessidade duas coisas : a reforma das instituições e a emenda dos costumes. Ao falarmos na reforma das instituições temos em vista sobretudo o Estado; não porque dele só deva esperar-se todo o remédio, mas porque o vício do já referido « individualismo » levou as coisas a tal extremo, que enfraquecida e quase extinta aquela vida social outrora rica e harmónicamente manifestada em diversos géneros de agremiações, quase só restam os indivíduos e o Estado. Esta deformação do regime social não deixa de prejudicar o próprio Estado, sobre o qual recaem todos os serviços das agremiações suprimidas e que verga ao peso de negócios e encargos quase infinitos. Verdade é, e a história o demonstra abundantemente, que, devido à mudança de condições, só as grandes sociedades podem hoje levar a efeito o que antes podiam até mesmo as pequenas; permanece contudo imutável aquele solene princípio da filosofia social : assim como é injusto subtrair aos indivíduos o que eles podem efectuar com a própria iniciativa e indústria, para o confiar à colectividade, do mesmo modo passar para uma sociedade maior e mais elevada o que sociedades menores e inferiores podiam conseguir, é uma injustiça, um grave dano e perturbação da boa ordem social. O fim natural da sociedade e da sua acção é coadjuvar os seus membros, não destruí-los nem absorvê-los. Deixe pois a autoridade pública ao cuidado de associações inferiores aqueles negócios de menor importância, que a absorveriam demasiado; poderá então desempenhar mais livre, enérgica e eficazmente o que só a ela compete, porque só ela o pode fazer : dirigir, vigiar, urgir e reprimir, conforme os casos e a necessidade requeiram. Persuadam-se todos os que governam : quanto mais perfeita ordem jerárquica reinar entre as varias agremiações, segundo este princípio da função « supletiva » dos poderes públicos, tanto maior influência e autoridade terão estes, tanto mais feliz e lisonjeiro será o estado da nação. Harmonia entre as diversas profissões O primeiro objectivo que devem propor-se tanto o Estado como o escol dos cidadãos, o ponto em que devem concentrar todos os esforços, é por termo ao conflito, que divide as classes, suscitar e promover uma cordial harmonia entre as diversas profissões. E em primeiro lugar deve a política social aplicar-se toda a reconstituí-las. Actualmente a sociedade continua num estado violento e por isso instável e vacilante, pois se funda sobre classes, que se movem por apetites desencontrados e por isso, dada a fraqueza humana, com facilidade tendem para o ódio e para a guerra. Com efeito embora o trabalho, como muito bem expôs o Nosso Predecessor na sua encíclica , (48) não seja um simples género comercial, mas deva reconhecer-se nele a dignidade humana do operário, e não possa permutar-se como qualquer mercadoria, de facto hoje no mercado do trabalho a oferta e a procura dividem os contratadores em duas classes ou campos opostos, que encarniçadamente se digladiam. Esta grave desordem leva a sociedade à ruína, se não se lhe dá pronto e eficaz remédio. Mas a cura só então será perfeita, quando a estas classes opostas, se substituírem organismos bem constituídos, ordens ou profissões, que agrupem os indivíduos, não segundo a sua categoria no mercado do trabalho, mas segundo as funções sociais, que desempenham. Assim como as relações de vizinhança dão origem aos municípios, assim os que exercem a mesma profissão ou arte são pela própria natureza impelidos a formar colégios ou corporações; tanto que muitos julgam estes organismos autónomos, senão essenciais, ao menos naturais à sociedade civil. E como a ordem, segundo egregiamente explica S. Tomás, (49) é a unidade resultante da disposição conveniente de muitas coisas, o corpo social não será verdadeiramente ordenado, se não há um vínculo comum, que una solidamente num só todo os membros que o constituem. Ora este princípio de unidade encontra-se, — para cada arte, na produção dos bens ou prestação dos serviços a que visa a actividade combinada de patrões e operários ocupados no mesmo ofício, — para o conjunto das profissões, no bem comum, a que todas e cada uma devem tender com esforços combinados. Esta união será tanto mais forte e eficaz, quanto mais fielmente se aplicarem os indivíduos e as próprias profissões a exercitar a sua especialidade e a assinalar-se nela. Do que precede é fácil concluir, que no seio destas corporações estão em primeiro lugar os interesses comuns à profissão; entre os quais o mais importante é vigiar por que a actividade colectiva se oriente sempre para o bem comum de toda a sociedade. As questões, que se refiram aos interesses particulares dos patrões ou operários poder-se-ão tratar e resolver separadamente. Apenas é preciso recordar, que os ensinamentos de Leão XIII sobre a forma do governo político se aplicam também na devida proporção aos colégios ou corporações profissionais : é lícito aos seus membros eleger a forma que lhes aprouver, com tanto que atendam às exigências da justiça e do bem comum. (50) E como os habitantes de um município costumam formar associações autónomas para fins muito diversos, às quais cada um é livre de dar ou não o seu nome, assim os que exercem a mesma profissão, conservam a liberdade de se associarem para fins de algum modo relacionados com o exercício da sua arte. Mas porque o Nosso Predecessor tratou distinta e claramente na sua encíclica destas associações livres, basta-Nos agora inculcar um ponto : os cidadãos podem livremente não só instituir associações de direito e carácter particular, mas ainda « eleger livremente para elas aqueles estatutos e regulamentos, que julgarem mais convenientes ao fim proposto ». (51) Idêntica liberdade deve reconhecer-se às sociedades, cujo objectivo ultrapassa os confins das diversas profissões. Proponham-se as associações livres já florescentes e que tão bons frutos produzem, abrir caminho, segundo os princípios da filosofia social cristã, a estes colégios ou corporações mais vastos de que falamos, e ponham todo o empenho, cada uma na medida das suas forças, em atingir este ideal. Princípio directivo da economia Resta ainda outro ponto estreitamente ligado com o precedente. Como não pode a unidade social basear-se na luta de classes, assim a recta ordem da economia não pode nascer da livre concorrência de forças. Deste princípio como de fonte envenenada derivaram para a economia universal todos os erros da ciência económica « individualista »; olvidando esta ou ignorando, que a economia é juntamente social e moral, julgou que a autoridade pública a devia deixar em plena liberdade, visto que no mercado ou livre concorrência possuía um princípio directivo capaz de a reger muito mais perfeitamente, que qualquer inteligência criada. Ora a livre concorrência, ainda que dentro de certos limites é justa e vantajosa, não pode de modo nenhum servir de norma reguladora à vida económica. Aí estão a comprová-lo os factos desde que se puseram em prática as teorias de espírito individualista. Urge por tanto sujeitar e subordinar de novo a economia a um princípio directivo, que seja seguro e eficaz. A prepotência económica, que sucedeu à livre concorrência não o pode ser; tanto mais que, indómita e violenta por natureza, precisa, para ser útil a humanidade, de ser energicamente enfreada e governada com prudência; ora não pode enfrear-se nem governar-se a si mesma. Força é portanto recorrer a princípios mais nobres e elevados : à justiça e caridade sociais. E preciso que esta justiça penetre completamente as instituições dos povos e toda a vida da sociedade; é sobre tudo preciso que esse espírito de justiça manifeste a sua. eficácia constituindo uma ordem jurídica e social que informe toda a economia, e cuja alma seja a caridade. Em defender e reivindicar eficazmente esta ordem jurídica e social deve insistir a autoridade pública; e fá-lo-á com menos dificuldade se se desembaraçar daqueles encargos, que já antes declarámos não serem próprios dela. Mais : é muito para desejar que as várias nações, pois que tanto dependem umas das outras e se completam economicamente, se dêem com todo o empenho, em união de vistas e de esforços, a promover com prudentes tratados e instituições uma vantajosa e feliz cooperação económica internacional. Se deste modo se restaurarem os membros do corpo social e se restabelecer o princípio regulador da economia, poder-se-lhe-á aplicar de alguma forma o que o Apóstolo dizia do corpo místico de Cristo : « todo o corpo organizado e unido pelas articulações de um mútuo obséquio, segundo a medida de actividade de cada membro, cresce e se desenvolve na caridade ». (52) Recentemente iniciou-se, como todos sabem, uma nova organização sindical e corporativa, à qual, vista a matéria desta Nossa carta encíclica não podemos deixar de Nos referir, com alguma consideração oportuna. O Estado reconheceu juridicamente o « sindicato », dando-lhe porém carácter de monopólio, já que só ele, assim reconhecido, pode representar respectivamente operários e patrões, só ele concluir contractos e pactos de trabalho. A inscrição no sindicato é facultativa, e só neste sentido se pode dizer, que a organização sindical é livre; pois a quota sindical e certas taxas especiais são obrigatórias para todos os que pertencem a uma dada categoria, sejam eles operários ou patrões; como obrigatórios para todos são também os contratos de trabalho estipulados pelo sindicato jurídico. Verdade é que nas regiões oficiais se declarou, que o sindicato jurídico não exclui a existência de facto de associações profissionais. As corporações são constituídas pelos representantes dos sindicatos dos operários e dos patrões pertencentes à mesma arte e profissão, e, como verdadeiros e próprios órgãos e instituições do Estado, dirigem e coordenam os sindicatos nas coisas de interesse comum. É proibida a greve; se as partes não podem chegar a um acordo, intervém a autoridade. Basta reflectir um pouco, para ver as vantagens desta organização, embora apenas sumariamente indicada : a pacífica colaboração das classes, a repressão das organizações e violências socialistas, a acção moderadora de uma magistratura especial. Para não omitir nada em matéria de tanta importância, e em harmonia com os princípios gerais acima recordados e com o que em breve acrescentaremos, devemos contudo dizer, que não falta quem receie, que o Estado se substitua às livres actividades, em vez de se limitar à necessária e suficiente assistência e auxílio; que a nova organização sindical e corporativa tem carácter excessivamente burocrático e político; e que, não obstante as vantagens gerais acenadas, pode servir a particulares intentos políticos mais que à preparação e início de uma ordem social melhor. Nós cremos, que para conseguir este outro intento nobilíssimo, com benefício geral verdadeiro e duradoiro, é necessária antes de tudo e sobre tudo a bênção de Deus e depois a colaboração de todas as boas vontades. Cremos também e por necessária consequência, que o mesmo intento se conseguirá tanto mais seguramente, quanto maior for a contribuição das competências técnicas., profissionais e sociais, e mais ainda da doutrina e prática dos princípios católicos por parte, não da Acção Católica (que não pretende desenvolver actividade meramente sindical ou política), mas por parte d’aqueles Nossos filhos a quem a Acção Católica admiravelmente forma naqueles princípios e no seu apostolado sob a guia e magistério da Igreja; da Igreja, que mesmo no terreno supra acenado, como em qualquer outro onde se agitem e regulem questões morais, não pode esquecer ou descurar o mandato de guardar e ensinar, que lhe foi divinamente conferido. Tudo o que temos ensinado acerca da restauração e aperfeiçoamento da ordem social, de modo nenhum poderá realizar-se sem a reforma dos costumes, como até a mesma história eloquentemente demonstra. De facto houve já uma ordem social que, apesar de imperfeita e incompleta, era, de algum modo, dadas as circunstâncias e exigências do tempo, conforme à recta razão. E se essa ordem já de há muito se extinguiu, não foi de certo por ser incapaz de evolucionar e alargar-se com as novas condições sociais; mas porque os homens, ou obcecados pelo amor próprio se recusaram a abrir como convinha, o seio das suas organizações à multidão sempre crescente, que desejava entrar nelas, ou porque iludidos pela aparência de uma falsa liberdade e por outros erros, rebeldes a toda a sujeição, trabalharam por sacudir o jugo de qualquer autoridade. Só Nos resta por conseguinte citar de novo a juízo o vigente sistema económico, e o seu mais violento acusador, o socialismo, para sobre eles proferirmos uma sentença clara e justa; e ao mesmo tempo, indagada a última raiz de tantos males, apontar o primeiro e mais necessário remédio, que é a reforma dos costumes. III. NOTÁVEIS MUDANÇAS DESDE A ENCÍCLICA DE LEÃO XIII Grandes foram as transformações, que desde os tempos de Leão XIII sofreram tanto a economia, como o socialismo. 1. – EVOLUÇÃO DA ECONOMIA E primeiramente todos vêem, quão mudada está hoje a situação económica. Sabeis, veneráveis Irmãos e amados Filhos, que o Nosso Predecessor de feliz memória na sua encíclica se referia principalmente àquele sistema, em que ordinariamente uns contribuem com o capital, os outros com o trabalho para o comum exercício da economia, qual ele próprio a definiu na frase lapidar : « Nada vale o capital sem o trabalho, nem o trabalho sem o capital ». (53) Foi esta espécie de economia, que Leão XIII procurou com todas as veras regular segundo as normas da justiça; donde se segue que de per si não é condenável. E realmente de sua natureza não é viciosa : só então viola a recta ordem, quando o capital escraviza aos operários ou à classe proletária com o fim e condição de que os negócios e todo o andamento económico estejam nas suas mãos e revertam em sua vantagem, desprezando a dignidade humana dos operários, a função social da economia e a própria justiça social e o bem comum. Verdade é que mesmo hoje não é esta a única forma de economia, que reina por toda a parte; há outra forma, que ainda abraça uma numerosa e importante fracção da humanidade, como é por exemplo a classe agrícola, na qual a maior parte do género humano ganha honradamente a sua vida. Também esta se vê a braços com estreitezas e dificuldades, às quais alude Nosso Predecessor em muitos passos da sua encíclica e Nós nesta Nossa já mais de uma vez Nos referimos. Mas o regime capitalista da economia, desde a publicação da « Rerum novarum », com o propagar-se da indústria alastrou em todas as direcções, de tal maneira que se infiltrou e invadiu completamente todos os outros campos da produção, cujas condições sociais e económicas afecta realmente e informa com suas vantagens, desvantagens e vícios. Por consequência não é só o bem dos habitantes das regiões industriais, mas o de todos os homens, que Nós procuramos, ao dirigirmos a Nossa atenção principalmente para as mudanças, que sofreu a economia capitalista desde os tempos de Leão XIII. Despotismo económico É coisa manifesta, como nos nossos tempos não só se amontoam riquezas, mas acumula-se um poder imenso e um verdadeiro despotismo económico nas mãos de poucos, que as mais das vezes não são senhores, mas simples depositários e administradores de capitais alheios, com que negoceiam a seu talante. Este despotismo torna-se intolerável naqueles que, tendo nas suas mãos o dinheiro, são também senhores absolutos do crédito e por isso dispõem do sangue de que vive toda a economia, e manipulam de tal maneira a alma da mesma, que não pode respirar sem sua licença. Este acumular de poderio e recursos, nota característica da economia actual, é consequência lógica da concorrência desenfreada, à qual só podem sobreviver os mais fortes, isto é, ordinariamente os mais violentos competidores e que menos sofrem de escrúpulos de consciência. Por outra parte este mesmo acumular de poderio gera três espécies de luta pelo predomínio : primeiro luta-se por alcançar o predomínio económico; depois combate-se renhidamente por obter predomínio no governo da nação, a fim de poder abusar do seu nome, forças e autoridade nas lutas económicas; enfim lutam os Estados entre si, empregando cada um deles a força e influência política para promover as vantagens económicas dos seus cidadãos, ou ao contrário empregando as forças e predomínio económico para resolver as questões políticas, que surgem entre as nações. Funestas consequências As últimas consequências deste espírito individualista no campo económico são essas que vós, veneráveis Irmãos e amados Filhos, vedes e lamentais : a livre concorrência matou-se a si própria; à liberdade do mercado sucedeu o predomínio económico; à avidez do lucro seguiu-se a desenfreada ambição de predomínio; toda a economia se tornou horrendamente dura, cruel, atroz. Acrescem os danos gravíssimos originados da malfadada confusão dos empregos e atribuições da pública autoridade e da economia, quais são : primeiro e um dos mais funestos, o aviltamento da majestade do Estado, a qual do trono onde livre de partidarismos e atenta só ao bem comum e à justiça, se sentava como rainha e árbitra suprema dos negócios públicos, se vê feita escrava, entregue e acorrentada ao capricho de paixões desenfreadas; depois, no campo das relações internacionais, dois rios brotados da mesma fonte : de um lado o Nacionalismo ou Imperialismo económico, do outro o Internacionalismo ou Imperialismo internacional bancário, não menos funesto e execrável, cuja pátria é o interesse. Remédios Na parte doutrinal desta encíclica indicámos já os remédios, com que se pode combater um mal tão profundo. Agora basta recordar a substância do Nosso ensinamento. Visto como o regime económico moderno se baseia principalmente no capital e no trabalho, é preciso que as normas da recta razão ou da filosofia social cristã, relativas a estes dois elementos e à sua colaboração, sejam melhor conhecidas e postas em prática. Para, evitar o escolho quer do individualismo quer do socialismo, ter-se-á em conta o duplo carácter individual e social tanto do capital ou propriedade, como do trabalho. As relações mútuas de um com o outro devem ser reguladas segundo as leis de uma rigorosa justiça comutativa, apoiada na caridade cristã. A livre concorrência contida dentro de justos e razoáveis limites e mais ainda o poderio económico devem estar efectivamente sujeitos à autoridade pública, em tudo o que é da sua alçada. Enfim as públicas instituições adaptarão a sociedade inteira às exigências do bem comum, isto é, às regras da justiça; donde necessariamente resultará, que esta função tão importante da vida social, qual é a actividade económica, se encontrará por sua vez reconduzida a uma ordem sã e bem equilibrada. 2. – EVOLUÇÃO DO SOCIALISMO Não menos profunda que a da economia, foi desde o tempo de Leão XIII a evolução do socialismo, contra o qual principalmente terçou armas o Nosso Predecessor. Então podia ele dizer-se único, defendia uma doutrina bem definida e reduzida a sistema; depois dividiu-se em duas facções principais, de tendências pela maior parte contrárias, e irreconciliáveis entre si, conservando porém ambas o princípio fundamental do socialismo primitivo, contrário à fé cristã. O partido da violência ou comunismo Uma das facções seguiu uma evolução paralela à da economia capitalista, que antes descrevemos, e precipitou no comunismo, que ensina duas coisas e as procura realizar, não oculta ou solapadamente, mas à luz do dia, francamente e por todos os meios ainda os mais violentos : guerra de classes sem tréguas nem quartel e completa destruição da propriedade particular. Na prossecução destes objectivos a tudo se atreve, nada respeita; uma vez no poder, é incrível e espantoso quão bárbaro e desumano se monstra. Aí estão a atestá-lo as mortandades e ruínas de que alastrou vastíssimas regiões da Europa oriental e da Ásia; e então o ódio declarado contra a santa Igreja e contra o mesmo Deus demasiado o provam essas monstruosidades sacrílegas bem conhecidas de todo o mundo. Por isso, se bem julgamos supérfluo chamar a atenção dos filhos obedientes da Igreja para a impiedade e iniquidade do comunismo, contudo não é sem uma dor profunda, que vemos a apatia dos que parecem desprezar perigos tão iminentes, e com desleixo pasmoso deixam propagar por toda a parte doutrinas, que porão a sociedade a ferro e fogo. Sobretudo digna de censura é a inércia daqueles, que não tratam de suprimir ou mudar um estado de coisas, que, exasperando os ânimos, abre caminho à subversão e ruína completa da sociedade. O socialismo propriamente dito, ou mitigado Mais moderada é a outra facção, que conservou o nome de socialismo : porque não só professa abster-se da violência, mas abranda e limita de algum modo, embora não as suprima de todo, a luta de classes e a extinção da propriedade particular. Dir-se-ia que o socialismo, aterrado com as consequências que o comunismo deduziu de seus próprios princípios, tende para as verdades que a tradição cristã sempre solenemente ensinou, e delas em certa maneira se aproxima; por quanto é inegável que as suas revindicações concordam às vezes muitíssimo com as reclamações dos católicos que trabalham na reforma social. Com efeito a luta de classes, quando livre de inimizades e ódio mútuo, transforma-se pouco a pouco numa concorrência honesta, fundada no amor da justiça, que se bem não é aquela bem-aventurada paz social, por que todos suspiramos, pode e deve ser o princípio da mútua colaboração. Do mesmo modo a guerra à propriedade particular, afrouxando pouco a pouco, chega a limitar-se a ponto de já não agredir a posse do necessário à produção dos bens, mas aquele despotismo social, que a propriedade contra todo o direito se arrogou. E de facto um tal poder não pertence aos simples proprietários mas à autoridade pública. Por este caminho podem os princípios deste socialismo mitigado vir pouco a pouco a coincidir com os votos e reclamações dos que procuram reformar a sociedade segundo os princípios cristãos. Estes com razão pretendem que certos géneros de bens sejam reservados ao Estado, quando o poderio que trazem consigo é tal, que, sem perigo do mesmo Estado, não pode deixar-se em mãos dos particulares. Tão justos desejos e revindicações em nada se opõem à verdade cristã, e muito menos são exclusivos do socialismo. Por isso quem só por eles luta, não tem razão para declarar-se socialista. Mas não se vá julgar que os partidos socialistas, não filiados ainda no comunismo, professam já todos teórica e praticamente esta moderação. Em geral não renegam a luta de classes nem a abolição da propriedade, apenas a mitigam. Ora se os falsos princípios assim se mitigam e obliteram, pergunta-se, ou melhor perguntam alguns sem razão, se não será bem que também os princípios católicos se mitiguem e moderem, para sair ao encontro do socialismo e congraçar-se com ele a meio caminho? Não falta quem se deixe levar da esperança de atrair por este modo os socialistas. Esperança vã! Quem quer ser apóstolo entre os socialistas, é preciso que professe franca e lealmente toda a verdade cristã, e que de nenhum modo feche os olhos ao erro. Esforcem-se antes, se querem ser verdadeiros arautos do Evangelho, por mostrar aos socialistas, que as suas reclamações, na parte que tem de justas, se defendem muito mais vigorosamente com os princípios da fé e se promovem muito mais eficazmente com as forças da caridade. Contrasta com a doutrina católica E se o socialismo estiver realmente tão moderado no tocante à luta de classes e à propriedade particular, que já não mereça nisto a mínima censura? Terá renunciado por isso à sua natureza essencialmente anticristã? Eis uma dúvida, que a muitos traz suspensos. Muitíssimos católicos convencidos de que os princípios cristãos não podem jamais abandonar-se nem obliterar-se, volvem os olhos para esta Santa Sé e suplicam instantemente, que definamos se este socialismo repudiou de tal maneira as suas falsas doutrinas, que já se possa abraçar e quase baptizar, sem prejuízo de nenhum princípio cristão. Para lhes respondermos, como pede a Nossa paterna solicitude, declaramos : O socialismo quer se considere como doutrina, quer como facto histórico, ou como « acção », se é verdadeiro socialismo, mesmo depois de se aproximar da verdade e da justiça nos pontos sobreditos, não pode conciliar-se com a doutrina católica; pois concebe a sociedade de modo completamente avesso à verdade cristã. Com efeito : segundo a doutrina cristã o homem sociável por natureza é colocado nesta terra, para que, vivendo em sociedade e sob a autoridade ordenada por Deus, 54 cultive e desenvolva plenamente todas as suas faculdades, para louvor e glória do Criador, e pelo fiel cumprimento dos deveres da sua profissão ou vocação, qualquer que ela seja, grangeie a felicidade temporal e eterna. Ora o socialismo, ignorando por completo ou desprezando este fim sublime dos indivíduos e da sociedade, opina que o consórcio humano foi instituído só pela vantagem material que oferece. E na verdade do facto que o trabalho convenientemente organizado é muito mais produtivo que os esforços isolados, os socialistas concluem, que a actividade económica deve necessariamente revestir uma forma social. Desta necessidade segue-se, segundo eles, que os homens por amor da produção são obrigados a entregar-se e sujeitar-se completamente à sociedade. Mais : estimam tanto os bens materiais, que servem à comodidade da vida, que afirmam deverem pospor-se e mesmo sacrificar-se quaisquer outros bens superiores e em particular a liberdade às exigências de uma produção activíssima. Esta perda da dignidade humana, inevitável no sistema da produção « socializada », julgam-na bem compensada com a abundância dos bens que, produzidos socialmente, serão distribuídos pelos indivíduos, e estes poderão livremente aplicar a uma vida mais cómoda e faustosa. Em consequência a sociedade sonhada pelo socialismo não pode existir nem conceber-se sem violências manifestas; por outra parte goza de uma liberdade não menos falsa, pois carece de verdadeira autoridade social; esta não pode fundar-se nos cómodos materiais, mas provém somente de Deus Criador e fim último de todas as coisas. (55) Católicos e socialistas termos contraditórios E se este erro, como todos os mais, encerra algo de verdade, o que os Sumos Pontífices nunca negaram, funda-se contudo numa própria concepção da sociedade humana, diametralmente oposta à verdadeira doutrina católica. Socialismo religioso, socialismo católico são termos contraditórios : ninguém pode ser ao mesmo tempo bom católico e verdadeiro socialista. Socialismo educador Estas doutrinas que Nós de novo com a Nossa suprema autoridade solenemente declaramos e confirmamos, devem aplicar-se também a um novo sistema de socialismo prático, ainda mal conhecido, mas que se vai propagando nos meios socialistas. Propõe-se ele a formação das inteligências e dos costumes; e ainda que se faz particular amigo da infância e procura aliciá-la, abraça todas as idades e condições, para formar o homem « socialista » que há de constituir mais tarde a sociedade humana plasmada pelo ideal do socialismo. Na Nossa encíclica « Divini illius Magistri » ensinámos desenvolvidamente os princípios, em que se funda, os fins, a que se dirige a pedagogia cristã. (56) Quão contrários lhes sejam a teoria e a prática do socialismo educador, é tão claro e evidente, que é inútil insistir. Parecem porém ignorar ou não ter na devida conta os gravíssimos e funestos perigos deste socialismo, os que não tratam de lhe resistir forte e energicamente, como o pede a gravidade das circunstâncias. É dever do Nosso múnus pastoral chamar-lhes a atenção para a gravidade e eminência do perigo : lembrem-se todos, que deste socialismo educador foi pai o liberalismo, será herdeiro legítimo o bolchevismo. Católicos desertores nos arraiais socialistas Pôsto isto, compreendeis facilmente, veneráveis Irmãos, com quanta dor vemos em algumas regiões não poucos dos Nossos filhos, de cuja fé e boa vontade não queremos duvidar, desertar dos arraiais da Igreja e passar às fileiras do socialismo; uns ostentando abertamente o nome e professando as doutrinas socialistas, outros indiferentes ou talvez forçados entrando em associações, que teórica ou praticamente professam o socialismo. Ora Nós com paterna solicitude ansiosamente vamos considerando e indagando como foi possível, que chegassem a tal aberração; e parece-Nos ouvir a resposta, com que muitos se escusam : a Igreja e todos os que se lhe proclamam obedientes, favorecem os ricos, desprezam os operários, nem têm deles o mínimo cuidado; por isso é que se viram na necessidade de se inscrever no socialismo para salvaguardar os próprios interesses. É muito para lamentar, veneráveis Irmãos, que houvesse um tempo e haja ainda quem, dizendo-se católico, apenas se lembra da sublime lei da justiça, e caridade, que nos obriga não só a dar a cada um o que lhe pertence, mas também a socorrer os pobres, nossos irmãos, como ao próprio Jesus Cristo; (57) quem não teme oprimir os operários por cobiça de sórdido lucro e, o que é mais grave, quem abusa da mesma religião para paliar as suas iníquas extorsões e defender-se contra as justíssimas reclamações dos operários. Por Nossa parte não deixaremos nunca de censurar severamente um tal proceder; são eles os culpados de a Igreja se ver injustamente (mas com certa aparência de verdade) acusada de patrocinar a causa dos ricos, e de não se compadecer das necessidades e angústias dos pobres, defraudados da sua parte de bem-estar nesta vida. Aparências infundadas e acusações caluniosas, como demonstra toda a história da Igreja. Bastava a encíclica, cujo quadragésimo aniversário celebramos, para provar exuberante mente, que, só com a maior das injustiças, se podem assacar à Igreja tais calúnias e contumélias. Oxalá voltem à casa paterna Porém nem a injúria Nos ofende, nem a magna desalenta o Nosso coração paterno a ponto de repelirmos para longe de Nós estes filhos tristemente enganados e saídos do caminho da verdade e da salvação; ao contrário com toda a possível solicitude os convidamos, a que voltem ao seio da Santa Madre Igreja. Oxalá que dêem ouvidos à Nossa voz! Oxalá que voltem à casa paterna donde saíram e aí permaneçam no seu posto, nas fileiras daqueles que, fieis às directivas promulgadas por Leão XIII e por Nós hoje solenemente renovadas, procuram reformar a sociedade segundo o espírito da Igreja, fazendo reflorescer a justiça e a caridade sociais. E persuadam-se que em parte nenhuma podem encontrar maior felicidade, até mesmo temporal, que junto d’Aquele que por nós se fez pobre sendo rico, para nos enriquecer com a sua pobreza, (58) que viveu pobre e em trabalhos desde a sua juventude, que chama a si todos os que trabalham e se vêem oprimidos, para os aliviar na caridade do seu Coração, (59) que finalmente sem aceitação de pessoas exigirá mais d’aqueles a quem foi dado mais (60) e retribuirá a cada um segundo as suas obras. (61) 3. – REFORMA DOS COSTUMES Mas se examinarmos as coisas mais a fundo, veremos à evidência, que esta restauração social tão ardentemente desejada, não se pode obter sem prévia e completa renovação do espírito cristão, do qual miseravelmente desertaram tantos economistas; porque sem ela seriam inúteis todos os esforços e fabricariam não sobre a rocha, mas sobre a areia movediça. (62) E realmente, veneráveis Irmãos e amados Filhos, acabamos de estudar a economia actual, e achámo-la profundamente viciada. Citámos novamente a juízo o comunismo e o socialismo, e vimos quanto as suas formas ainda as mais mitigadas, se desviam dos ditames do Evangelho. « Portanto, para usar das palavras do Nosso Predecessor, se pode curar-se a sociedade humana, só se curará voltando à vida e instituições cristãs ». (63) Só estas podem dar remédio eficaz à demasiada solicitude das coisas caducas origem de todos os vícios ; só estas podem fazer, que os homens, fascinados pelos bens deste mundo transitório, desviem deles os olhos e os levantem ao céu. Quem dirá, que este remédio não é hoje, mais que nunca, necessário à família humana? A ruína das almas Todos se preocupam quase unicamente com as revoluções, calamidades e ruínas temporais. Mas, se vemos as coisas à luz da fé, que é tudo isto em comparação da ruína das almas? Bem pode dizer-se, que tais são hoje as condições da vida social e económica, que se torna muito difícil a uma grande multidão de homens ganharem o único necessário, a salvação eterna. Nós, a quem o Príncipe dos Pastores constituiu Pastor e Guarda destas inumeráveis ovelhas, remidas com o seu sangue, não podemos contemplar a olhos enxutos o gravíssimo perigo, que elas correm. Senão que, lembrados do Nosso dever pastoral, com solicitude paterna, meditamos continuamente no modo de as ajudar, chamando em auxílio o zelo indefesso dos que a isso estão obrigados por justiça ou caridade. Pois que aproveita aos homens poderem mais facilmente lucrar o mundo inteiro com uma distribuição e uso mais racional das riquezas, se com isso mesmo vem a perder a alma? (64) Que aproveita ensinar-lhes os princípios da boa economia, se com avareza sórdida e desenfreada se deixam arrebatar de tal maneira do amor dos próprios bens, que « ouvindo os mandamentos do Senhor, fazem tudo o contrário »? (65) Causa desta ruína A raiz e fonte desta defecção da lei cristã na vida social e económica, e da consequente apostasia da fé católica para muitos operários é a desordem das paixões, triste efeito do pecado original; foi ele que destruiu a admirável harmonia das faculdades humanas e dispõe o homem a deixar-se facilmente arrastar das más paixões e a preferir os bens caducos da terra aos eternos do céu. D’aqui aquela sede inextinguível de riquezas e bens temporais, que, se em todos os tempos arrastou os homens a quebrar a lei de Deus e conculcar os direitos do próximo, nas actuais condições económicas arma à fragilidade humana laços ainda mais numerosos. Com efeito a incerteza da economia e mais ainda a sua complicação exigem dos que a ela se aplicam, uma contenção de forças suma e contínua; em consequência algumas consciências calejaram de tal maneira, que julgam lícitos todos os meios de aumentar os lucros e defender contra os vaivens da fortuna a riqueza adquirida à custa de tantos esforços e cancerais. A facilidade dos lucros, que oferece a anarquia do mercado, leva muitos a darem-se ao comércio desejosos unicamente de enriquecer sem grande trabalho; os quais, com desenfreada especulação, levantam e diminuem os preços a capricho da própria cobiça e com tal frequência, que desconcertam todos os cálculos dos produtores. As instituições jurídicas destinadas a favorecer a colaboração dos capitais, por isso que dividem e diminuem os riscos, dão lugar muitas vezes aos mais repreensíveis excessos; com efeito vemos a responsabilidade tão atenuada, que já a poucos impressiona; sob a tutela de um nome colectivo praticam-se as maiores injustiças e fraudes; os gerentes destas sociedades económicas, esquecidos dos seus deveres, atraiçoam os direitos daqueles, cujas economias deviam administrar. Nem se devem finalmente deixar em silêncio os traficantes que, sem olharem à honestidade das suas artes, não temem estimular os caprichos da clientela para deles abusarem em própria vantagem. Somente uma rígida disciplina dos costumes, energicamente apoiada pela autoridade pública, poderia ter afastado ou mesmo prevenido tão graves inconvenientes; mas infelizmente essa faltou. Quando começou a aparecer o novo regime económico, tinha o nacionalismo penetrado e lançado raízes em muitas inteligências; por isso e ciência económica, que então se formou, prescindindo da lei moral, soltava as rédeas às paixões humanas. E assim sucedeu, que mais do que antes, muitíssimos não pensavam senão em aumentar por todos os modos as suas riquezas; e procurando-se a si mais que tudo e acima de todos, de nada tinham escrúpulo, nem sequer dos maiores delitos contra o próximo. Os primeiros a entrar por este caminho largo que leva à perdição, (66) grangearam por sua vez e facilmente muitos imitadores da sua maldade, já pelo exemplo de um êxito aparente, já pela insolente pompa das suas riquezas, ora metendo a ridículo a consciência dos outros, como se estivesse agitada de vãos escrúpulos, ora finalmente conculcando os competidores mais conscienciosos. Desviados do bom caminho os dirigentes da economia, devia logicamente precipitar-se no mesmo abismo a multidão operária; e isto tanto mais, que muitos directores de oficinas usavam dos operários como de meros instrumentos, em nada solícitos da sua alma, não pensando sequer no sobrenatural. Sentimo-Nos horrorizados ao pensar nos gravíssimos perigos a que estão expostos nas fábricas modernas os costumes dos operários (sobre tudo jovens) e o pudor das mulheres e donzelas; ao lembrarmo-Nos de que muitas vezes o sistema económico hodierno e sobre tudo as más condições da habitação criam obstáculos à união e intimidade da vida de família; ao recordarmos os muitos e grandes impedimentos opostos à devida santificação dos domingos e festas de guarda; ao considerarmos enfim como diminuiu aquele sentimento verdadeiramente cristão, com que até os rudes e ignorantes aspiravam aos bens superiores, para dar lugar à solicitude única de procurar tão somente e por todos os meios o pão quotidiano. Deste modo o trabalho corporal, ordenado pela divina Providência, depois da. culpa de origem, para remédio do corpo e da alma, converte-se frequentemente em instrumento de perversão : da oficina só a matéria sai enobrecida, os homens ao contrário corrompem-se e aviltam-se. REMÉDIOS A) Cristianização da vida económica A esta tão deplorável crise das almas, que, enquanto dure, tornará inúteis todos os esforços de regeneração social, não pode dar-se outro remédio, mais que reconduzir os homens à profissão franca e sincera da doutrina evangélica, aos ensinamentos d’Aquele, que tem ele só palavras de vida eterna, (67) e palavras tais, que hão de perdurar eternamente, ainda depois de passarem os céus e a terra. (68) É certo que todos os verdadeiramente entendidos em sociologia, anseiam por uma reforma moldada pelas normas da razão, que restitua a vida económica à sã e recta ordem. Mas esta ordem, que também Nós ardentemente desejamos, e procuramos com o maior empenho, será de todo falha e imperfeita, se não tenderem de concerto todas as energias humanas a Imitar a admirável unidade do divino conselho e a consegui-la, quanto ao homem é dado : chamamos perfeita aquela ordem apregoada pela Igreja com grande força e tenacidade, pedida mesmo pela razão humana, isto é : que tudo se encaminhe para Deus fim primário e supremo de toda a actividade criada, e que todos os bens criados por Deus se considerem como instrumentos dos quais o homem deve usar tanto, quanto lhe sirvam a conseguir o último fim. Nem deve julgar-se que esta filosofia rebaixa as artes lucrativas ou as considera menos conformes à dignidade humana; pelo contrário ensina a reconhecer e venerar nelas a vontade manifesta do divino Criador, que colocou o homem sobre a terra para a cultivar e usar dela segundo as suas múltiplas precisões. Nem é vedado aos que se empregam na produção, aumentar justa e devidamente a sua fortuna; antes a Igreja ensina ser justo que quem serve a sociedade e lhe aumenta os bens, se enriqueça também desses mesmos bens conforme a sua condição, contanto que isto se faça com o respeito devido à lei de Deus e salvos os direitos do próximo, e os bens se empreguem segundo os princípios da fé e da recta razão. Se esta doutrina fosse por todos, em toda a parte e sempre observada, não somente a produção e aquisição dos bens, mas também o uso das riquezas, agora tantas vezes desordenado, voltaria depressa aos limites da equidade e justa distribuição; à única e tão sórdida preocupação dos próprios interesses, que é a desonra e o grande pecado do nosso tempo, opõr-se-ia na verdade e de facto a suavíssima e igualmente poderosa lei da moderação cristã, que manda ao homem buscar primeiro o reino de Deus e a sua justiça, seguro de que também na medida do necessário a liberalidade divina, fiel às suas promessas, lhe dará por acréscimo os bens temporais. (69) B) A lei da caridade Mas isto só não basta : à lei da justiça deve juntar-se a da caridade, « que é o vínculo da perfeição ». (70) Quanto se enganam por tanto os reformadores incautos, que atendendo somente a guardar a justiça comutativa, rejeitam com orgulho o concurso da caridade! De certo não pode a caridade substituir a justiça, quando o devido se nega iniquinamente. Contudo ainda que o homem alcance enfim quanto lhe é devido, restará sempre um campo imenso aberto à caridade : a justiça, bem que praticada com todo o rigor, se pode extirpar as raízes das lutas sociais, não poderá nunca sozinha congraçar os ânimos e unir os corações. Ora todas as instituições criadas para consolidar a paz e promover a colaboração social, por mais perfeitas que pareçam, tem o fundamento da sua estabilidade principalmente no vínculo que une as almas; se este falta, tornam-se ineficazes os melhores estatutos, como tantas vezes a experiência no-lo ensinou. Por isso só haverá uma verdadeira cooperação de todos para o bem comum, quando as diversas partes da sociedade sentirem intimamente, que são membros de uma só e grande família, filhos do mesmos Pai celeste, antes um só corpo em Cristo e « membros uns dos outros », (71) de modo que « se um membro sofre, todos os membros sofrem com ele ». (72) Então os ricos e senhores converterão em amor solícito e operoso o antigo desprezo pelos irmãos mais pobres; acolherão os seus justos pedidos com bom rosto e coração aberto, perdoar-lhes-ão até sinceramente as culpas e os erros. Por sua vez os operários, reprimindo qualquer sentimento de ódio e inveja, de que abusam com tanta astúcia os fautores da luta de classes, não desdenharão o posto que a divina Providência lhes assinou na sociedade humana, antes o terão em grande apreço, bem persuadidos de que no seu emprego e ofício trabalham útil e honrosamente para o bem comum, e seguem mais de perto Aquele que, sendo Deus, quis na terra fazer-se operário e ser considerado como filho de operário. É desta nova difusão do espírito evangélico no mundo, do espírito de moderação cristã e de caridade universal, que há de brotar, como esperamos, aquela tão desejada e completa restauração da sociedade humana em Cristo, e aquela « Paz de Cristo no reino de Cristo », a que desde o início do nosso Pontificado firmemente propusemos consagrai todo o Nosso cuidado e solicitude pastoral. (73) A esta obra primordial e hoje absolutamente necessária, também vós, veneráveis Irmãos, posto. pelo Espírito Santo a governar comNosco a Igreja de Deus (74) consagrais incansavelmente o melhor do vosso zelo em todas as partes do mundo, inclusivamente nas terras de missões entre infiéis. A vós o merecido louvor e comvosco a todos esses valorosos colaboradores na mesma grande empresa, clérigos ou leigos, aos Nossos amados Filhos da Acção Católica, que Nós com tanto prazer vemos dedicarem-se generosamente comNosco à solução dos problemas sociais, na persuasão de que a Igreja por força da sua divina instituição tem o direito e o dever de se ocupar d’eles. A todos estes instantemente exortamos no Senhor, que não se poupem a nenhum trabalho, não se deixem vencer das dificuldades, mas cada vez cobrem maior ânimo e sejam fortes. (75) É árdua efectivamente a empresa que lhes propomos : conhecemos muito bem, que de ambas as partes surgem inúmeros obstáculos, quer das classes superiores, quer das inferiores da sociedade. Não desanimem porém; a vida do cristão é uma contínua milícia; mas assinalar-se em empresas difíceis é próprio dos que, como bons soldados, (76) mais de perto seguem a Cristo. Portanto unicamente confiados no auxílio omnipotente d’Aquele que « a todos os homens quer salvar », (77) esforcemo-nos em ajudar estas pobres almas, afastadas de Deus, e arrancando-as aos cuidados temporais, em que vivem enredadas, ensinemos-lhes a aspirar confiadamente às coisas eternas. Nem isto é sempre tão difícil de obter, como à primeira vista parece : se nos recônditos do coração, ainda o mais perdido, como brasas debaixo da cinza, se ocultam maravilhosas energias de espírito, testemunho seguro d’aquela « alma naturalmente cristã », quanto mais as haverá nos corações d’aqueles, e são a maior parte, que mais por ignorância ou por influências externas, do que por malícia, se deixaram arrastar para o erro? Além disto apresentam-nos já sinais lisonjeiros de restauração social as mesmas fileiras dos operários, nas quais vemos com indizível gozo da alma poderosos núcleos de jovens, que escutam com docilidade as inspirações da graça divina e se empenham com zelo incrível em ganhar a Cristo a alma de seus irmãos. E não são menos dignos de elogio os dirigentes das organizações operárias que, esquecidos dos seus interesses e solícitos sobre tudo do bem dos companheiros, procuram harmonizar prudentemente as suas justas reclamações com a prosperidade de toda a indústria, nem por nenhumas dificuldades ou suspeitas se deixam demover de tão nobre procedimento. Podem ver-se até muitos jovens destinados a ocupar brevemente ou pelo engenho ou pelas riquezas um posto de realce nas primeiras camadas da sociedade, que se consagram com o mais intenso cuidado a estas questões, dando risonha esperança de virem a dedicar-se todos à restauração social. Caminho a seguir As circunstâncias, veneráveis Irmãos, mostram bem qual a via a trilhar. Como noutras épocas da Igreja, temos de defrontar-nos com um mundo quase recaído no paganismo. Para reconduzir a Cristo, a quem renegaram, essas classes inteiras de homens, devem escolher-se e formar-se de entre elas soldados auxiliares da Igreja, que conheçam bem os mesmos homens, os seus pensamentos e aspirações, e possam pela caridade fraterna penetrar-lhes suavemente no coração. Os primeiros e imediatos apóstolos dos operários devem ser operários; os apóstolos dos artistas e comerciantes devem sair dentre eles. Procurar cuidadosamente estes apóstolos dos operários e patrões, escolhê-los com prudência, formá-los e educá-los como convém, é principalíssimo dever vosso e do vosso clero, veneráveis Irmãos. É de certo um pesado múnus imposto aos sacerdotes, para cujo desempenho devem preparar-se devidamente com aturado estudo das questões sociais os levitas que formam a esperança da Igreja; mas é sobre tudo necessário que os escolhidos em particular para este ofício sejam dotados de um tão apurado sentimento de justiça, que resistam varonilmente a qualquer reclamação iníqua ou acção injusta; se avantagem na prudência e numa discrição não inclinada a extremos; que estejam mais que tudo penetrados da caridade de Cristo, que só pode render forte e suavemente os corações e as vontades dos homens às leis da justiça e da equidade. Não há duvida que este caminho, abonado já por felizes resultados, é o que se deve seguir denodadamente. A esses Nossos amados filhos, escolhidos para tão grande empresa, exoramos vivamente no Senhor, que se dêem todos ao cultivo dos homens a si confiados, e que no desempenho desse ofício eminentemente sacerdotal e apostólico usem como convêm da força da educação cristã, ensinando os jovens, fundando associações católicas, criando círculos, onde se cultive o estudo segundo os princípios da fé. Tenham sobretudo em grande apreço e saibam usar para bem dos seus dirigidos aquele preciosíssimo instrumento de restauração individual e social, que são os Exercícios espirituais por Nós encarecidos na Nossa encíclica « Mens Nostra », na qual lembrámos espressamente e recomendámos os exercícios como utilíssimos para todas as classes do laicado e em particular para os operários : com efeito nesta escola do espírito não só se cultivam ótimos cristãos, mas formam-se e inflamam-se no fogo do Coração de Jesus verdadeiros apóstolos para todos os estados da vida. Desta escola, como os Apóstolos do Cenáculo de Jerusalém, sairão fortes na fé, constantes nas perseguições, ardentes de zelo, unicamente solícitos de propagar por toda a parte o reino de Cristo. E certamente agora, mais que nunca, são precisos estes valorosos soldados de Cristo, que trabalhem com todas as forças por preservar a família humana da pavorosa catástrofe, em que viria a precipitar-se, se o desprezo das doutrinas do Evangelho deixasse triunfar uma ordem de coisas, que conculca as leis da natureza, não menos que as de Deus. A Igreja de Cristo, alicerçada na rocha inabalável, nada tem que temer por si, pois sabe muito bem, que as portas do inferno não prevalecerão contra ela; (78) e uma experiência de vinte séculos prova-lhe, que das tempestades mais violentas sai cada vez mais forte e coroada de novos triunfos. Mas o seu coração de Mãe estremece de horror ao pensar nos males sem número, em que estas tempestades afogariam milhares de homens e mais ainda nos gravíssimos danos espirituais, que daí resultariam em ruína de tantas almas resgatadas com o sangue de Cristo. Devem pois envidar-se todos os esforços para desviar da sociedade humana males tão grandes : a isto devem endereçar-se os nossos trabalhos, a nossa solicitude, as nossas orações a Deus, assíduas e fervorosas. Com o socorro da graça divina temos em nossas mãos a sorte da família humana. Não consintamos, veneráveis Irmãos e amados Filhos, que os filhos deste século se mostrem na sua geração mais prudentes do que nós, que somos, por mercê divina, filhos da luz. (79) Vemos com quanta sagacidade eles escolhem adeptos militantes e os formam, para que espalhem os seus erros cada vez mais largamente, em todas as classes e sobre todos os pontos do globo. E quando se trata de combater mais violentamente a Igreja de Cristo, vemos que, dando tréguas às discórdias intestinas, cerram fileiras num só exército, e unidos trabalham com todas as forças por levar a efeito o comum intento. União das forças católicas Ninguém ignora quantas e quão grandes obras empreenda por toda a parte o zelo infatigável dos católicos, tanto no campo social e económico, como no do ensino e da religião. Não raro porém esta actividade admirável e laboriosa se torna menos eficaz devido à demasiada dispersão de forças. Unam-se pois todos os homens de boa vontade, que sob a direcção dos Pastores da Igreja querem combater este bom e pacífico combate de Cristo; e todos, seguindo as directivas e ensinamentos da Igreja, se esforcem por contribuir na medida do seu engenho, forças e condição para aquele renovamento cristão da sociedade, que Leão XIII inaugurou com a imortal encíclica « Rerum novarum » : não se procurando a si mesmos nem os seus próprios interesses, mas os de Jesus Cristo; (80) não teimando em fazer triunfar as suas ideias, por boas que sejam, mas dispostos a sacrificá-las ao bem comum; para que em tudo e sobre tudo reine e impere Cristo, a quem seja honra, glória e poder por todos os séculos. (81) Para que isto se realize, a todos vós, veneráveis Irmãos e amados Filhos, quantos sois membros da grande família católica a Nós confiada, mas com particular afecto aos operários e aos outros trabalhadores de artes mecânicas, a Nós mais especialmente recomendados pela divina Providência, e também aos patrões e empresários cristãos damos de coração a Bênção Apostólica. Dado em Roma, junto de S. Pedro, aos XV de maio de MCMXXXI, ano X do Nosso Pontificado. PIO PP. XI. Notas (1) Encícl. Arcanum 10 de Fevereiro de 1880. (2) Encícl. Diuturnum 29 de Junho de 1881. (3) Encícl. Immortale Dei 1 de Novembro de 1885. (4) Encícl. Sapientiae christianae 10 de Janeiro de 1890. (5) Encícl. Quod apostolici muneris 28 de Dezembro de 1878. (6) Encícl. Libertas 20 de Junho de 1888. (7) Encícl. Rerum novarum, 15 de Maio de 1891, n. 1. (8) Cfr. Encícl. Rerum novarum, n. 13. (9) Encícl. Rerum novarum, n. 2. (10) Encícl. Rerum novarum, D. 13. (11) Mt., 7, 29. (12) Encícl. Rerum novarum, n. 1. (13) S. Ambrósio, de excessu fratris sui Satyri, I, 44. (14) Encícl. Rerum novarum, n. 13. (15) Baste mencionar: Leão XIII, Letras Apostólicas Praeclara 20 de Junho de 1894. Leão XIII Graves de communi 18 de Janeiro de 1901. Pio X Motu proprio sobre a Acção-popular cristã 8 de Dezembro de 1903. Bento XV, Enciclica Ad Beatissimi 1 de Novembro de 1914. Pio XI, Enciclica Ubi arcano 23 de Dezembro de 1922. Pio XI, Enciclica Rite expiatis 30 de Abril de 1926. (16) Cfr. La Hierarchie Catholique et le Problème social depuis l’Encyclique « Rerum novarum » 1891-1931, pp. XVI-335, publicado pela « Union internationale d’études sociales fondée à Malines, en 1920, sons la présidence du Card. Mercier ». (Paris, éditions Spes », 1931). (17) Cfr. Is. 11, 12. (18) Encícl. Rerum novarum, n. 25. (19) Encícl. Rerum novarum, n. 29. (20) Encícl. Rerum novarum, n. 36. (21) Encícl. Rerum novarum, n. 42. (22) Encícl. Rerum novarum, n. 43. (23) Encícl. Singulari quadam de 24 de Setembro de 1912. (24) Carta da S. Congregação do Concilio ao Bispo de Lille, 5 de Junho de 1929. (25) Cfr. Rom., 1, 14. (26) Cfr. Rerum novarum, n. 13. (27) Encícl. Ubi arcano, 23 de Dezembro de 1922. (28) Cfr. Conc. Vaticano, Sess. 3, c. 4. (29) Encícl. Ubi arcano, 23 de Dezembro de 1922. (30) Encícl. Rerum novarum, n. 19. (31) Cfr. Encícl. Rerum novarum, n. 19. (32) Encícl. Rerum novarum, n. 7. (33) Alocução aos membros de Acção Católica italiana, 16 de Maio de 1926. (34) Encícl. Rerum novarum, n. 6. (35) Encícl. Rerum novarum, n. 10. (36) Encícl. Rerum novarum, n. (37) S. Thomas, S. Th., II, II, q. 97 e 134. (38) Encícl. Rerum novarum, n. 27. (39) Encícl. Rerum novarum, n. 15. (40) Encícl. Rerum novarum, n. 7. (41) II Thess., 3, 10. (42) Cfr. II Thess., 3, 8-10. (43) Encícl. Rerum novarum, n. 35. (44) Encícl. Rerum novarum, n. 34. (45) Encícl. Rerum novarum, n. 17. (46) Cfr. Encícl. Casti connubii, 31 de Dezembro de 1930. (47) Cfr. S. Thomas, De regimine principum, 1, 15. Encícl. Rerum novarum, n. 27. (48) Encícl. Rerum novarum, n. 16. (49) Cfr. S. Thomas, Contra Gentes 3, 71; Summa Theol. I, 9, 65 art. 2 i. c. (50) Cfr. Encícl. Immortale Dei, 1 de Novembro de 1885. (51) Encícl. Rerum novarum, n. 42. (52) Eph., 4, 16. (53) Encícl. Rerum novarum, n. 15. (54) Cfr. Rom., 13, 1. (55) Cfr. Encícl. Diuturnum, 29 de Junho de 1881. (56) Encícl. Divini illius Magistri, 31 de Dezembro de 1929. (57) Cfr. Jac., 2. (58) II Cor., 8, 9. (59) Mt., 11, 28. (60) Cfr. Lc., 12, 48. (61) Mr., 16, 27. (62) Cfr. Mr, 7, 24 ss. (63) Encícl. Rerum novarum, n. 22. (64) Cfr. Mt., 16, 26. (65) Cfr. Judic., 2, 17. (66) Cfr. Mt., 7, 13. (67) Cfr. Joh., 6, 70. (68) Cfr. Mt., 24, 35. (69) Mt., 6, 33. (70) Col., 3, 14.. (71) Rom, 12, 5. (72) I Cor., 12, 26. (73) Cfr. Encícl. Ubi arcano, de 23 de Dezembro de 1922. (74) Cfr. Act., 20, 28. (75) Cfr. Deut., 31, 7. (76) Cfr. II Tim., 2, 3. (77) I Tim., 2, 4. (78) Mt., 16, 18. (79) Cfr. Lc., 16, 8. (80) Cfr. Phil., 2, 21. (81) Apoc., 5, 13. #cartaencíclica #encíclica #QUADRAGESIMOANNO #pioxi #PAPAPIOXI

  • Aprenda a rezar a Coroinha da Santíssima Virgem

    Aprenda a rezar essa a Coroinha da Santíssima Virgem, oração tão tradicional da Igreja e recomendada pelos santos! No livro do Apocalipse, São João registra ter visto “uma mulher vestida de sol, com a lua sob os pés e na cabeça uma coroa de doze estrelas” (Apocalipse 12: 1). Tradicionalmente, esta imagem está associada à Bem-Aventurada Virgem Maria e, ao longo da história, ela tem sido representada na arte com uma coroa de 12 estrelas. No século 17, o padre espanhol St. Joseph Calasanz tinha uma profunda devoção à Virgem Maria e compôs “A Coroa das Doze Estrelas”. É uma oração em honra da Mãe Santíssima e é uma referência direta a esta passagem do Apocalipse. Freqüentemente, essas orações são feitas em uma coroa especial projetada para isso, embora ela não seja necessária. Veja o que São Luís Maria Grignion de Montfort ensina aos devotos de Nossa Senhora: “Rezarão todos os dias de sua vida, mas sem a isso se obrigarem, a coroinha da Santíssima Virgem. Esta compõe-se de três Pai-Nossos e doze Ave-Marias, em honra dos doze privilégios e grandezas da Santíssima Virgem. Esta prática é muito antiga e fundamenta-se na Sagrada Escritura. São João viu uma mulher coroada de doze estrelas, vestida de Sol e tendo a Lua debaixo dos pés (Ap 12, 1). Segundo os intérpretes, essa mulher é a Santíssima Virgem. Há várias maneiras de recitar bem esta coroinha, e seria demasiado longo mencioná-las. O Espírito Santo as ensinará aos que forem mais fiéis a esta Devoção.” Coroinha de Nossa Senhora V. Dignai-Vos conceder-me que Vos louve, Virgem Sagrada. R. Dai-me valor contra os vossos inimigos. Credo… (Creio em Deus Pai Todo Poderoso…) I – Coroa de Excelência Pai Nosso … Ave Maria … Sois Bem-aventurada, Virgem Maria, que levastes em vosso seio o Senhor, Criador do mundo; destes à luz a Quem Vos formou, e Sois Virgem perpétua. V. Alegrai-Vos, Virgem Maria. R. Alegrai-Vos mil vezes. Ave Maria… Ó Santa e imaculada virgindade, não sei com que louvores Vos possa exaltar; pois quem os céus não puderam conter, Vós O levastes em vosso seio. V. Alegrai-Vos, Virgem Maria. R. Alegrai-Vos mil vezes. Ave Maria… Sois toda formosa, Virgem Maria, e não há mancha original em vós. V. Alegrai-Vos, Virgem Maria. R. Alegrai-Vos mil vezes. Ave Maria… Possuís, ó Virgem Maria, tantos privilégios, quantas são as estrelas no céu. V. Alegrai-Vos, Virgem Maria. R . Alegrai-Vos mil vezes. Glória ao Pai… II – Coroa de Poder Pai Nosso… Ave Maria… Glória a Vós, imperatriz do céu, conduzi-nos convosco aos gozos do paraíso. V. Alegrai-Vos, Virgem Maria R . Alegrai-Vos mil vezes. Ave Maria… Glória a Vós, tesoureira das graças do Senhor, dai-nos parte no vosso tesouro. V. Alegrai-Vos, Virgem Maria. R . Alegrai-Vos mil vezes. Ave Maria… Glória a Vós, medianeira entre Deus e os homens, tornai-nos propício o Todo-poderoso. V. Alegrai-Vos, Virgem Maria. R . Alegrai-Vos mil vezes. Ave Maria… Glória a Vós, que esmagais as heresias e o demônio: sede nossa guia piedosa. V. Alegrai-Vos, Virgem Maria. R . Alegrai-Vos mil vezes. Glória ao Pai… III – Coroa de Bondade Pai Nosso… Ave Maria… Glória a Vós, refúgio dos pecadores; intercedei por nós junto do Senhor. V. Alegrai-Vos, Virgem Maria. R . Alegrai-Vos mil vezes. Ave Maria… Glória a Vós, Mãe dos órfãos; fazei que nos seja propício o Pai Todo-Poderoso. V. Alegrai-Vos, Virgem Maria. R . Alegrai-Vos mil vezes. Ave Maria… Glória a Vós, alegria dos justos; conduzi-nos convosco às alegrias do céu. V. Alegrai-Vos, Virgem Maria. R . Alegrai-Vos mil vezes. Ave Maria… Glória a Vós, nossa auxiliadora mui prestimosa na vida e na morte; conduzi-nos convosco para o reino do céu. V. Alegrai-Vos, Virgem Maria. R. Alegrai-Vos mil vezes. Glória ao Pai… Oremos: Ave, Maria, Filha de Deus Pai; Ave, Maria, Mãe de Deus Filho; Ave, Maria, Esposa do Espírito Santo; Ave, Maria, templo da Santíssima Trindade; Ave, Maria, Senhora minha, meu bem, meu amor, Rainha do meu coração, Mãe, vida, doçura e esperança minha mui querida, meu coração e minha alma. Sou todo vosso, e tudo o que possuo é vosso, ó Virgem sobre todos bendita. Esteja, pois, a mim a vossa alma para engrandecer o Senhor; esteja em mim vosso espírito para rejubilar em Deus. Colocai-Vos, ó Virgem fiel, como selo sobre o meu coração, para que, em Vós e por Vós, seja eu achado fiel a Deus. Concedei, ó Mãe de misericórdia, que me encontre no número daqueles que amais, ensinais, guiais, sustentais e protegeis como filhos. Fazei que, por vosso amor, despreze todas as consolações da terra e aspire só as celestes; até que, para glória do Pai, Jesus Cristo, Vosso Filho, seja formado em mim, pelo Espírito Santo, vosso Esposo fidelíssimo, e por Vós, sua Esposa mui fiel. Assim seja. SUB TUUM À vossa proteção recorremos, santa Mãe de Deus; não desprezeis as nossas súplicas em nossas necessidades; mas livrai-nos sempre de todos os perigos, ó Virgem gloriosa e bendita. 👉 Clique aqui se deseja voltar para a Oração da Noite Reze conosco, todos os dias “Quem reza se salva, quem não reza certamente se condena!” Santo Afonso Maria de Ligório Orações da Manhã Orações da Noite Santo Terço Terço da Misericórdia Angelus (6h|12h|18h) Via Sacra Comunhão Espiritual Conheça o Devocionário 📚 Esta oração e muitas outras fazem parte do livro Devocionário. Este livro reúne as mais importante orações católicas, e são um auxílio para o dia-a-dia de quem deseja ter uma vida de oração. Nele há orações para manhã, tarde, e noite. Além do Santo Terço meditado por São Luís, novenas, ladainhas, orações à Nossa Senhora, exorcismos, hora santa, via sacra, cânticos católicos e muito mais. Grande parte das orações possui a tradução também para o Latim. 🛒 Clique aqui para adquirir | Assista o vídeo e conheça mais sobre o livro Devocionário: #Oração #Vidadeoração

  • Aprenda a rezar a Coroinha da Santíssima Virgem

    Aprenda a rezar essa a Coroinha da Santíssima Virgem, oração tão tradicional da Igreja e recomendada pelos santos! No livro do Apocalipse, São João registra ter visto “uma mulher vestida de sol, com a lua sob os pés e na cabeça uma coroa de doze estrelas” (Apocalipse 12: 1). Tradicionalmente, esta imagem está associada à Bem-Aventurada Virgem Maria e, ao longo da história, ela tem sido representada na arte com uma coroa de 12 estrelas. No século 17, o padre espanhol St. Joseph Calasanz tinha uma profunda devoção à Virgem Maria e compôs “A Coroa das Doze Estrelas”. É uma oração em honra da Mãe Santíssima e é uma referência direta a esta passagem do Apocalipse. Freqüentemente, essas orações são feitas em uma coroa especial projetada para isso, embora ela não seja necessária. Veja o que São Luís Maria Grignion de Montfort ensina aos devotos de Nossa Senhora: “Rezarão todos os dias de sua vida, mas sem a isso se obrigarem, a coroinha da Santíssima Virgem. Esta compõe-se de três Pai-Nossos e doze Ave-Marias, em honra dos doze privilégios e grandezas da Santíssima Virgem. Esta prática é muito antiga e fundamenta-se na Sagrada Escritura. São João viu uma mulher coroada de doze estrelas, vestida de Sol e tendo a Lua debaixo dos pés (Ap 12, 1). Segundo os intérpretes, essa mulher é a Santíssima Virgem. Há várias maneiras de recitar bem esta coroinha, e seria demasiado longo mencioná-las. O Espírito Santo as ensinará aos que forem mais fiéis a esta Devoção.” Coroinha de Nossa Senhora V. Dignai-Vos conceder-me que Vos louve, Virgem Sagrada. R. Dai-me valor contra os vossos inimigos. Credo… (Creio em Deus Pai Todo Poderoso…) I – Coroa de Excelência Pai Nosso … Ave Maria … Sois Bem-aventurada, Virgem Maria, que levastes em vosso seio o Senhor, Criador do mundo; destes à luz a Quem Vos formou, e Sois Virgem perpétua. V. Alegrai-Vos, Virgem Maria. R. Alegrai-Vos mil vezes. Ave Maria… Ó Santa e imaculada virgindade, não sei com que louvores Vos possa exaltar; pois quem os céus não puderam conter, Vós O levastes em vosso seio. V. Alegrai-Vos, Virgem Maria. R. Alegrai-Vos mil vezes. Ave Maria… Sois toda formosa, Virgem Maria, e não há mancha original em vós. V. Alegrai-Vos, Virgem Maria. R. Alegrai-Vos mil vezes. Ave Maria… Possuís, ó Virgem Maria, tantos privilégios, quantas são as estrelas no céu. V. Alegrai-Vos, Virgem Maria. R . Alegrai-Vos mil vezes. Glória ao Pai… II – Coroa de Poder Pai Nosso… Ave Maria… Glória a Vós, imperatriz do céu, conduzi-nos convosco aos gozos do paraíso. V. Alegrai-Vos, Virgem Maria R . Alegrai-Vos mil vezes. Ave Maria… Glória a Vós, tesoureira das graças do Senhor, dai-nos parte no vosso tesouro. V. Alegrai-Vos, Virgem Maria. R . Alegrai-Vos mil vezes. Ave Maria… Glória a Vós, medianeira entre Deus e os homens, tornai-nos propício o Todo-poderoso. V. Alegrai-Vos, Virgem Maria. R . Alegrai-Vos mil vezes. Ave Maria… Glória a Vós, que esmagais as heresias e o demônio: sede nossa guia piedosa. V. Alegrai-Vos, Virgem Maria. R . Alegrai-Vos mil vezes. Glória ao Pai… III – Coroa de Bondade Pai Nosso… Ave Maria… Glória a Vós, refúgio dos pecadores; intercedei por nós junto do Senhor. V. Alegrai-Vos, Virgem Maria. R . Alegrai-Vos mil vezes. Ave Maria… Glória a Vós, Mãe dos órfãos; fazei que nos seja propício o Pai Todo-Poderoso. V. Alegrai-Vos, Virgem Maria. R . Alegrai-Vos mil vezes. Ave Maria… Glória a Vós, alegria dos justos; conduzi-nos convosco às alegrias do céu. V. Alegrai-Vos, Virgem Maria. R . Alegrai-Vos mil vezes. Ave Maria… Glória a Vós, nossa auxiliadora mui prestimosa na vida e na morte; conduzi-nos convosco para o reino do céu. V. Alegrai-Vos, Virgem Maria. R. Alegrai-Vos mil vezes. Glória ao Pai… Oremos: Ave, Maria, Filha de Deus Pai; Ave, Maria, Mãe de Deus Filho; Ave, Maria, Esposa do Espírito Santo; Ave, Maria, templo da Santíssima Trindade; Ave, Maria, Senhora minha, meu bem, meu amor, Rainha do meu coração, Mãe, vida, doçura e esperança minha mui querida, meu coração e minha alma. Sou todo vosso, e tudo o que possuo é vosso, ó Virgem sobre todos bendita. Esteja, pois, a mim a vossa alma para engrandecer o Senhor; esteja em mim vosso espírito para rejubilar em Deus. Colocai-Vos, ó Virgem fiel, como selo sobre o meu coração, para que, em Vós e por Vós, seja eu achado fiel a Deus. Concedei, ó Mãe de misericórdia, que me encontre no número daqueles que amais, ensinais, guiais, sustentais e protegeis como filhos. Fazei que, por vosso amor, despreze todas as consolações da terra e aspire só as celestes; até que, para glória do Pai, Jesus Cristo, Vosso Filho, seja formado em mim, pelo Espírito Santo, vosso Esposo fidelíssimo, e por Vós, sua Esposa mui fiel. 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  • CATECISMO ANTICOMUNISTA – DOM GERALDO SIGAUD

    CATECISMO ANTICOMUNISTA D. Geraldo de Proença Sigaud I. O QUE É O COMUNISMO E O QUE ELE ENSINA 1. Que é o comunismo? O comunismo e uma seita internacional, que segue a doutrina de Karl Marx, e trabalha para destruir a sociedade humana baseada na, lei de Deus e no Evangelho, bem como para instaurar o reino de Satanás neste mundo, implantando um Estado ímpio e revolucionário, e organizando a vida dos homens de sorte que se esqueçam de Deus e da eternidade. 2. Qual é a doutrina que a seita comunista ensina? A seita comunista ensina a doutrina do mais completo materialismo. 3. Que ensina o materialismo comunista a, respeito de Deus? O materialismo comunista ensina que Deus não existe, e que só existe a matéria. 4. Contenta-se a seita comunista em ensinar que não há Deus e que só existe a matéria? A seita comunista dá grande importância a um materialismo pratico, em que o homem cogita se Deus existe ou não, mas procede, pensa e organiza sua vida sem se incomodar com Deus nem se lembrar dEle. Assim; aos poucos chega também ao materialismo teórico. O comunista verdadeiro é materialista teórico e prático, para poder levar seus prosélitos ao caminho aludido. 5. Que pensa a seita comunista a respeito da alma? Para a seita comunista o homem é só matéria, e a alma não existe. 6. Que pensa a seita comunista a respeito da eternidade? Para a seita comunista o homem desaparece totalmente após a morte. Não há Céu nem inferno, não há felicidade nem castigo depois desta vida. 7. Que pensa a seita comunista a respeito da natureza humana? Para a seita comunista o homem é um simples animal; embora mais evoluído do que o boi e o macaco, não passa de animal. 8. Qual e a primeira conseqüência prática desta doutrina? A primeira conseqüência prática deste materialismo é que o homem deve procurar sua felicidade somente nesta terra, e no gozo dos prazeres que a vida terrena oferece. 9. O homem, segundo pendi de Deus e da sua lei? Não. Uma vez que só há mataria, o homem não depende de Deus, que não existe; ele é supremo senhor de si mesmo. II. ATITUDES DO COMUNISMO PERANTE A RELIGIÃO 10. A seita comunista dá importância à Religião? Embora negue a existência de Deus, e afirme que a Religião é coisa quimérica, o comunismo dá grande importância ao fato de que existe Religião no mundo, porque vê nela o seu maior inimigo. Lenine a chama de “ópio do povo”. 11. Por que a Religião é inimiga do comunismo? A verdadeira Religião, que é a Religião Católica, é inimiga mortal do comunismo,  porque ensina exatamente o contrario do que ele ensina, e inspira os fieis a preferirem a morte às doutrinas e ao regime comunista. 12. Que faz o comunismo com a Religião? Com a Religião Católica a luta do comunismo é de morte: só poderia cessar se chegasse a destruir em todo o mundo a Igreja verdadeira (o que e impossível). Quanto às outras religiões, a seita usa de duas táticas: quando sente que uma delas é um empecilho para a sua vitoria, ataca-a; mas se vem a perceber que se pode servir de alguma religião para se propagar, ou mesmo pala matá-la, então a tolera e até favorece na aparência, para a destruir mais radicalmente. 13. Para conquistar o poder, que faz a seita comunista com referência à Igreja Católica? Para conquistar o poder, a seita comunista procede da seguinte maneira com relação à Igreja Católica: a) Procura persuadir os católicos de que não há oposição entre os objetivos da seita e a doutrina da Igreja. Procura até apresentar as idéias comunistas como a realização da doutrina do Evangelho. b) Procura criar urna corrente intitulada de “católicos progressistas” , “católicos socialistas” ou “católicos comunistas”, para desorientar e desunir os católicos. c) Procura atirar as organizações católicas contra os outros adversários naturais do comunismo, como os proprietários, os militares, as autoridades constituídas, para dividir e destruir os que se opõem a conquista do poder pelo Partido Comunista. d) Favorece as modas e costumes imorais para minar a família e portanto a civilização cristã da qual a família é viga mestra. e) Mantém nas nações cristãs a sociedade em constante agitação, fomentando antagonismo entre as classes, as regiões do mesmo pais, etc. 14 Depois de conquistado o poder, que faz a seita • comunista com a Igreja Católica? Sua tática com a Igreja Católica, depois de conquistado o poder, varia de acordo com as circunstâncias. Mas os passos da luta em geral são os seguintes: a) envolver os católicos nos movimentos promovidos pelo Partido Comunista; b) afastar os Bispos, Sacerdotes e Religiosos que resistem; se preciso, matá-los; c) liquidar os líderes católicos; d) separar a Igreja do país, da obediência ao Santo Padre. 15 Pode um católico colaborar com os movimentos comunistas? A coisa que os comunistas mais desejam é que os católicos colaborem com eles. Quem começar a colaborar, terminará comunista. “Colaborou? Morreu!” 16 Se o comunismo ensinasse que Deus existe, e tolerasse a Religião, os católicos poderiam ser comunistas? No dia em que o comunismo admitisse que Deus existe, e que ele é Senhor nosso, já não seria propriamente comunismo. III. PONTOS BÁSICOS DA DIVERGENCIA ENTRE COMUNISMO E CATOLICISMO 17 Então a divergência entre a seita comunista e o Catolicismo se verifica só no campo religioso? Não. Além do campo religioso, há muitos outros campos em que as divergências entre a seita comunista e o Catolicismo são irredutíveis. 18 Em que outros pontos fundamentais existe esta divergência radical? Esta divergência existe em todos os pontos. Mas ela é mais fundamental em relação à verdade e a moral, a família, a propriedade e a desigualdade social. 19 Que ensina o comunismo a respeito da verdade? Ensina a Igreja que Deus criou o mundo e criou a alma humana, que é inteligente. A alma conhece a verdade das coisas. Ela afirma que urna coisa é idêntica a si mesma, dizendo o que é, é; o que não é, não é. O comunismo ensina que não há verdade. Uma coisa pode ser e não ser, ao mesmo tempo. Uma coisa é ela e o contrário dela. 20 Então o comunismo não admite a verdade? Não. Para o comunista não interessa que uma afirmação corresponda à realidade ou não. Para ele, “verdade” é o que ajuda a fazer a Revolução. A mesma afirmação pode ser hoje e amanhã, sucessivamente, “verdade” e “mentira”, de acordo com a conveniência do Partido. As sim, houve tempo em que Stalin era um herói para a seita comunista. Hoje é um bandido declarado. Não há verdade objetiva. 21 Que outra grande divergência existe entre o comunismo e o Catolicismo? O Catolicismo ensina que Deus é absolutamente santo. E por isto, as ações humanas que estão de acordo com Deus são boas; e as que vão contra a ordem que Ele estabeleceu são más. O comunismo, – que é materialista, ensina que não existe moral. Quando uma ação e útil ao Partido, é boa; quando prejudica o Partido, e má. 22 Dê um exemplo. Para o católico as boas relações dos filhos com os pais constituem um bem. Para o comunista, essas boas relações podem ser um bem, e podem ser um mal. Se os pais se opõem à Revolução, o filho deve odiá-los, denunciá-los, e, se for preciso, depor nos processos contra eles e até matá-los. Se os pais trabalham para a Revolução, o filho deve mostrar-lhes amor e colaborar com eles. 23 Poderia dar outro exemplo? Outro exemplo seria o seguinte. Se o Brasil entrar em guerra contra a Rússia, o comunismo ensina que os brasileiros deverão trair sua Pátria, trabalhar para que os nossos soldados sejam derrotados e o Brasil dominado pelos soviéticos. Mas, se por desgraça o Brasil passar a aliado da Rússia, os brasileiros deverão mudar de orientação e lutar pela vitória do Brasil. Em resumo: é bom o que ajuda a Revolução, é mau o que a combate ou prejudica. 24 o comunismo ensina a respeitar as famílias? Como o homem é um animal, a família vale tanto como um casal de bichos. Por isto o comunismo ensina a dissolver as famílias, a violentar as mulheres dos povos que não são comunistas, e a respeitar as “famílias” dos que o são. 25 Que aconteceria às nossas famílias católicas se o comunismo dominasse o Brasil? Os pais que resistissem à profanação do seu lar poderiam ser mortos; as filhas e esposas ficariam expostas à violação; as famílias perderiam suas propriedades e seriam arruinadas e destruídas. 26 O comunismo acha que o Direito é sagrado? Como não admite a existência de Deus nem da alma, o comunismo não reconhece a dignidade do homem e nega que o Direito exista. Somente reconhece a força. 27 Pode dar um exemplo? Se eu der um osso a um cão, este não adquire um direito ao osso. Posso lhe tirar o osso sem ferir nenhum direito. A razão é a seguinte: não tendo alma, o cão não é uma pessoa. Não sendo pessoa, não tem direito. Uma vez que para o comunismo o homem não é pessoa, e sim animal, ele não tem direito. O Estado lhe dá o que quiser, e quando quiser lhe tira. O homem é menos que um escravo; é uma rês. 28 Qual é a definição do homem? Para o católico: o homem é um animal racional, dotado de personalidade e de direitos. Para o comunista: o homem é um animal trabalhador. IV. A ESSÊNCIA DO HOMEM É SER TRABALHADOR 29 Qual é o papel do trabalho na vida? Para o católico; o trabalho é meio de conseguir certos recursos que possibilitam ao homem gozar dos bens que Deus criou para ele. O trabalho existe para o homem. Segundo o comunismo, o homem existe para o trabalho. O trabalho é o fim da vida. 30 Se o homem é um animal trabalhador, deve ele trabalhar sempre? Para a seita comunista quem não trabalha não é homem. Quanto mais o homem trabalha; mais homem é. Assim, ele pode mudar a sua própria natureza, vivendo somente para o trabalho. 31 Então o homem não tem uma natureza estável, que Deus lhe deu? Segundo a doutrina católica, tem. Deus constituiu a natureza humana imutável. Para o comunista, uma lei universal levou a matéria até a forma humana. Esta forma está em evolução. É o homem que dá a si mesmo a sua natureza, mediante o trabalho. O homem é o criador de si próprio. 32 Quem deve, então, ser adorado? Para o católico, Deus deve ser adorado, porque é o Criador do céu e da terra. O comunista recusa adoração a Deus. Em vez de adorar ao Criador, ele adora o Estado comunista e totalitário. V. A REVOLUÇÃO E A CRISTANDADE 33 Qual é para o comunismo o critério supremo da verdade, da moral e do direito? O critério supremo da verdade, da moral e do direito é para o comunismo a ação revolucionária. Assim como para o católico o fim supremo é a vida eterna, para o comunista o fim supremo da vida é a Revolução. 34 Que e a Revolução? Revolução, com maiúscula, é a rejeição de Deus, de Cristo, da Igreja, e de tudo o que deles provém, é a organização da vida humana somente segundo a razão humana e as paixões humanas. Seu ideal é a Cidade do homem sem Deus, oposta à Cristandade e à ordem natural, que é a Cidade de Deus. 35 Que é a Cristandade? Cristandade é a sociedade temporal organizada segundo Deus, isto é, de acordo com o direito natural e a palavra de Deus, revelada por Jesus Cristo, transmitida, interpretada e aplicada à vida pela Igreja Católica. 36 Quais são os fundamentos da Cristandade? Os fundamentos da Cristandade são dois: o direito natural e a Revelação, trazida por Jesus Cristo e transmitida pela Igreja Católica. VI. VIRTUDES QUE FUNDAMENTAM A CRISTANDADE E PAIXÕES QUE MOVEM A REVOLUÇÃO 37 Sobre que virtudes se baseia a Cristandade? A Cristandade se baseia principalmente sobre as seguintes virtudes: a fé, a castidade e a humildade. 38 Que paixões desordenadas são a mola da Revolução? O orgulho, que rejeita a fé; a sensualidade que rejeita a castidade; a soberba, que rejeita a humildade, são as molas principais da Revolução. 39 Quais são as conseqüências destas paixões? Do orgulho, que rejeita a fé, nasce a negação da vida eterna como fim da existência terrena, bem como a negação de Deus, e de Cristo como Senhor do homem. Da sensualidade, que rejeita a castidade, nas ce o desejo de gozar esta vida de todas as formas, e em conseqüência ela conduz ao desprezo e a dissolução da família. E da soberba, que rejeita a humildade, nasce a revolta contra a autoridade divina e humana, e contra todas as limitações que o homem pode sofrer. De modo especial ela conduz ao igualitarismo, isto é, ao ideal comunista de uma sociedade sem classes. 40 Que se entende ai por classe social? Classe social e um conjunto de pessoas — e suas respectivas famílias — cujas funções na sociedade são diversas, porém iguais em dignidade. Exemplo: advogados, médicos, engenheiros, fazendeiros, oficiais das Forças Armadas, apesar da diversidade de suas funções, constituem com suas famílias uma mesma classe social. — Todas as classes sociais são dignas, mas não iguais em dignidade. Por exemplo: o trabalho manual é digno e foi até exercido pelo Verbo Encarnado; todavia, a dignidade do trabalho intelectual é intrinsecamente maior: o espírito é mais do que a matéria. 41 A que titulo a família faz parte da classe social? De acordo com a lei natural e a doutrina da Igreja, a família participa de algum modo, não só do patrimônio, como da dignidade, honra e consideração de seu chefe, com o qual forma um só todo e a cuja classe social pertence. Sendo inerente à família a transmissão aos filhos, não só do patrimônio dos pais, como também, de certo modo, da honra e consideração que se prende ao nome paterno, a presença da família na classe social dá a esta um certo caráter de continuidade hereditária. 42 Então uma pessoa não pode passar pare uma classe a que não pertence a sua família? Pode. Não se deve confundir classe social com casta. No regime pagão das castas existe entre estas uma barreira intransponível. Cada pessoa pertence necessariamente, por toda a vida, à casta em que nasceu. Isto, quaisquer que sejam suas ações, boas ou más. Na civilização cristã, não há castas impermeáveis, mas classes sociais permeáveis. Ou seja, a pessoa pertence à classe em que nasceu, mas pode elevar-se a outra se tiver um mérito saliente. Bem como pode decair, em razão de seu mau procedimento. Assim, o princípio da hereditariedade se harmoniza com o postulado da justiça. O comunismo, ao invés, quer uma sociedade sem classes, em que todos sejam iguais, no que contraria o princípio natural da hereditariedade e as exigências da justiça. VII. O PROLETÁRIO É O ÚNICO HOMEM IDEAL, SEGUNDO O COMUNISMO 43 Se não há Direito, como pode, segundo os comunistas, existir a sociedade? A sociedade, segundo os comunistas, existirá sem Direito: existirá pela força. 44 Em mãos de quem ficará a força na sociedade? Aqueles que representam o homem mais perfeito hão de ter em suas mãos a força na sociedade. 45 Quem representa o homem mais per feito, de acordo com o comunismo? Segundo o comunismo, os proletários não tem nenhuma raiz que os prenda ao passado ou a sociedade presente, e portanto são os homens mais livres de limitações; são eles que, unidos, constituem a maior força revolucionaria. Para a seita comunista o proletário é, pois, o homem mais perfeito. De fato, em sua mentalidade não existem os “entraves” e as “degenerescências” que ligam as outras classes à ordem social vigente. Por isso mesmo, a seita o considera como o instrumento ideal da Revolução. 46 Que devem fazer os proletários, de acordo com o comunismo? De acordo com o comunismo, os proletários devem mover guerra às outras classes, e implantar a ditadura do proletariado, que pela violência extermine a Igreja, o Clero, os nobres, os ricos, os proprietários, os que se realçam pela inteligência, todos os homens independentes, e assim destrua tudo o que se opõe á Revolução. VIII. A LUTA DE CLASSES 47 Como se chama esta oposição entre os proletários e os demais cidadãos? Esta oposição se chama luta de classes. 48 Esta luta durará muito? Para os comunistas, esta luta não terminará senão quando no mundo inteiro só houver a classe dos proletários, isto é, dos trabalhadores que não têm nada de próprio. IX. A PROPRIEDADE, A VIDA HUMANA E A ESCRAVIDÃO DO OPERARIADO 49 O indivíduo, no regime comunista, não pode possuir nada? No regime comunista o indivíduo não é dono de nada. Tudo é do Estado. 50 O comunismo não admite por vezes o direito de propriedade? Quando está no poder, o comunismo às vezes concede o uso de algum imóvel a um ou outro trabalhador. Mas não reconhece o direito de propriedade, pois pode tomar tudo a todos, quando quiser. O homem, no regime comunista, não tem sequer direito ao fruto do seu trabalho. 51 No regime comunista ninguém é, então, dono de nada? No regime comunista ninguém é dono de nada: nem do dinheiro, nem da fábrica, nem do campo, nem da casa, nem da profissão, nem de si mesmo. Tudo é do Estado, tudo depende do Estado. 52 Então o regime comunista é de escravidão? O regime comunista estabelece a mais completa escravidão, pois não reconhece ao homem nenhum direito. 53 O comunismo respeita a vida humana? Não. Uma vez que o homem não passa de animal, o comunismo trata a vida humana como nós tratamos a dos bois. Se fôr preciso, mata-se. Assim, para dominar a Rússia foi preciso assassinar cerca de 20 milhões de russos, ou fuzilando-os, ou deixando-os morrer de fome. Nos campos de concentração da União Soviética, ao tempo de Stalin, calcula-se que havia 16 milhões de homens e mulheres de todas as categorias, padres, intelectuais, operários, que trabalhavam como escravos e acabaram morrendo de miséria. Para conquistar o poder, os comunistas chineses assassinaram vários milhões de pessoas. Para dominar os católicos da Espanha, as milícias bolchevistas mataram onze Bispos e 16.852 Sacerdotes e Religiosos, bem como muitos milhares de pais de família. 54 No regime comunista, o operário pode se queixar, fazer greve, trocar de serviço? Não. O Partido marca onde o operário deve trabalhar. Neste trabalho ele deve produzir o máximo. Não pode reclamar, e nem é bom pensar em greve, porque quem pensar vai para o degredo na Sibéria, para um campo de concentração ou para a forca. No regime comunista o operário não tem direito algum. 55 Os comunistas mantêm sempre os operários na miséria? Até hoje a situação material dos operários em todos os países comunistas é em geral miserável. Todavia, a Rússia promete que no ano 2000 os trabalhadores russos terão a mesma situação que têm atualmente os seus colegas ocidentais. O comunismo não se interessa pelo bem-estar dos operários senão enquanto ele é útil para a Revolução, por isso, se os operários, obtido o bem-estar, começam a desobedecer, volta de novo a miséria. O comunismo trata os trabalhadores como reses, ou como escravos. O senhor de es cravos dava-lhes comida porque lhe interessava que eles fossem fortes e sadios, para poderem trabalhar. Mas, se em dado momento parecer necessário às autoridades comunistas reduzir gravemente o padrão de vida da classe trabalhadora, em favor do desenvolvimento das industrias do Estado ou do seu poderio militar, fá-lo-ão sem hesitação, pois para elas o operário é escravo e o escravo não tem direito. 56 Nos países não comunistas, o comunismo quer melhorar a situação dos operários? Não. Nos países não comunistas o comunismo quer que os operários fiquem tão miseráveis, que cheguem ao desespero, e assim provoquem greves e desordens, as quais os comunistas aproveitarão para derrubar o governo legítimo e implantar a sua ditadura. 57 Nos países dominados pelos comunistas não há diferenças de riqueza e de classe social? O comunismo promete abolir as diferenças de riqueza e de classe. Mas isto é contra a natureza humana. Destruindo a moral e o direito, o comunismo favorece um grupo de dirigentes e de membros do Partido, que dispõem de grandes riquezas e vivem com fartura e luxo em casas suntuosas, enquanto o operário em geral passa privações, e obrigado a trabalhar onde o Partido manda, tem para morar somente um quarto, onde se amontoam os pais, os filhos e todos os membros da família, sem cozinha, nem banheiro próprios. A diferença entre os que mandam e os outros é muito maior que entre os capitalistas e os operários. X. O PAPEL DE SATANÁS 58 Quem inventou este regime? Quem inventou este regime foi Satanás, que sabe que o melhor meio de levar os homens à perdição eterna e fazê-los rebelarem-se contra a ordem constituída por Deus. 59 Como que Satanás consegue adeptos para este regime? Prometendo aos homens o paraíso na terra se eles renunciarem a Deus e ao Céu, Satanás consegue enganá-los como o fez a nossos primeiros pais, e o resultado é o inferno na terra e na eternidade. XI. A VIOLÊNCIA E A LIBERDADE 60 Como se implanta o regime comunista? O regime comunista é implantado, em geral, pela violência. Os comunistas procuram chegar ao poder de qualquer modo: por eleições, por pressão de tropas estrangeiras, por golpes arma dos. Uma vez no poder, destroem toda oposição, e implantam a ditadura, em nome do proletariado. 61 Então são os operários que passam a mandar? Não. Os operários não mandam. Eles passam a situação de escravos, trabalham onde o governo os manda trabalhar, não podem se afastar dali; recebem o salário que o governo quer e, se reclamam, podem até ser fuzilados. 62 O comunismo admite direito, à greve? Nos países que quer dominar, o comunismo exige que a lei estabeleça o direito de greve; e organiza paredes para desmantelar a economia nacional. Mas, uma vez dominado o país, não tolera a greve em nenhuma hipótese, e sujeita o operário à mais tirânica escravidão 63 É somente pela violência que o comunismo é implantado? Em geral o comunismo é implantado pela violência; mas ele é preparado por muitas atitudes dos cristãos. XII. O MATERIALISMO DO OCIDENTE PREPARA O CAMINHO DO COMUNISMO 64 Que atitudes dos cristãos preparam a vitória do comunismo? Como o comunismo nasce do materialismo, da sensualidade e do orgulho, o materialismo prático dos cristãos que vivem como se não houvesse a eternidade cria o caldo de cultura em que o bacilo comunista prolifera. 65 Dê alguns exemplos destes materialistas práticos. Posso dar os seguintes exemplos: quem só se preocupa com ganhar dinheiro; quem pro cura gozar dos prazeres da vida, embora lícitos, sem se interessar pela prática da oração e da penitência; quem se entrega ao jogo; quem freqüenta lugares suspeitos; quem se veste com sensualidade, sem modéstia; quem dança as danças modernas; quem lê revistas obscenas ou sensuais; os freqüentadores do cinema e da televisão imorais; quem se desinteressa pela graça santificante, pecando como se não houvesse pecado. XIII. A IGREJA E OS OPERARIOS 66 Que tem feito a Igreja pelos pobres e operários? A Igreja, ao longo da Historia, aboliu a escravatura, defendeu os fracos e pobres, ensinou os ricos e poderosos a amparar os humildes, difundiu a justiça e a caridade. Organizou os trabalha dores em grandes sociedades chamadas corporações, que cuidavam de sua formação técnica, de sua prosperidade material, do bem espiritual deles e de sua família, lhes davam assistência na doença e cuidavam dos seus filhos em caso de morte. Estas associações sofreram um golpe de morte com a Revolução Francesa, mas duraram em muitos países até as agitações do ano de 1848; na Alemanha elas ainda existem. 67 Depois de 1848 a Igreja não fez mais fada pelos operários? O individualismo introduzido pela Revolução Francesa destruiu as corporações católicas e deixou os operários entregues à própria sorte. Então a Igreja empreendeu um grande trabalho em favor deles, simultaneamente em três pontos. 68 Qual foi a primeira frente que a Igreja atacou? A Igreja Católica procurou, de início, principalmente minorar a miséria das pessoas. Para este fim multiplicou as Santas Casas, os orfanatos, asilos para velhos, Oratórios festivos, creches, e obras de assistência social. Assim é que, para dar um exemplo, no Estado de São Paulo, atualmente, de cada cem instituições de caridade ou de assistência, oitenta são mantidas pela Igreja Católica. Os comunistas não mantêm nenhuma. As vinte restantes pertencem a outras igrejas, às organizações leigas e ao Poder público. Nos outros Estados do Brasil, a proporção de obras mantidas pela Igreja é ainda maior. E note-se que as instituições de caridade e assistência mantidas e dirigidas pela Igreja funcionam admiravelmente. Basta ver um hospital dirigido por Religiosas. 69 Qual foi a segunda frente que a Igreja atacou? Enquanto fundava e organizava instituições de caridade e de assistência, a Igreja lutava para corrigir os defeitos da sociedade que geravam tanta miséria. Desde o Papa Pio IX, e principalmente no pontificado de Leão XIII, Ela insistiu com os ricos, os patrões, o Estado e os trabalhadores para que se lembrassem da ordem social que Deus quer e Jesus Cristo fundou, e se aplicassem a  melhorar as condições de vida do operário. Os Papas ensinaram que o trabalho não é mercadoria, e que o homem que trabalha tem direito a um salário nas seguintes condições: a) que lhe permita viver com dignidade; b) que dê para criar e educar os filhos; c) que possibilite ao trabalhador diligente e econômico formar um pecúlio que melhore a sua situação e lhe garanta o futuro. 70 Os ensinamentos dos Papas tiveram resultado? Os ensinamentos dos Papas já modificaram completamente, em muitos países, a mentalidade dos patrões e dos operários, e melhoraram felizmente as condições destes últimos. Mas a Igreja continua a insistir, e o atual Pontífice, Sua Santidade o Papa João XXIII, publicou há pouco a Encíclica “Mater et Magistra”, em que ensina mais uma vez como os patrões devem tratar os trabalhadores, para que haja justiça, caridade e paz. 71 Qual foi a terceira frente em que a Igreja empreendeu o grande trabalho em favor dos operários? A Igreja, enquanto atendia as misérias mais gritantes e imediatas, e ensinava aos patrões e operários como devia ser as suas relações de acordo com a justiça e a caridade, promovia a organização destes e daqueles em associações, que se chamam corporações, círculos operários, etc. Estas organizações formam nos vários países grandes confederações, como na França a Confederação dos Trabalhadores Cristãos, na Itália a Associação Católica dos Trabalhadores Italianos, no Brasil a Confederação dos Círculos Operários, etc. 72 Em que mais os Papas insistiram? Os Papas insistiram em que os operários se unam, para juntos defenderem os seus direitos, respeitando, porém, os direitos dos patrões. Os Papas aconselham a estes que, na medida do possível, melhorem o salário e as condições dos trabalhadores, dando-lhes mais do que o estritamente justo. 73 Quais os Papas que mais se salientaram , na ação em favor dos direitos do operário, e da justiça e harmonia entre as classes sociais? Todos os Papas se têm desvelado pela melhora da dura situação que começou para os operários com a Revolução Francesa. De um modo especial devem-se mencionar os seguintes Pontífices: Leão XIII, autor da Encíclica “Rerum Novarum”; Pio XI, autor da Encíclica “Quadragesimo Anno”; João XXIII, autor da Encíclica “Mater et Magistra”. 74 Que Papas se salientaram na luta contra o comunismo? Todos os Papas, de Pio IX a João XXIII, tem condenado o comunismo. A Encíclica “Divini Redemptoris” de Pio XI trata especialmente do assunto, com grande, clareza e vigor. Durante o pontificado de Pio XII, a Suprema Sagrada Congregação do Santo Ofício fulminou com a pena de excomunhão quem pertence ao Partido Comunista ou colabora com ele. 75 Quais as conseqüências práticas desta excomunhão? Os membros do Partido Comunista e os que com ele colaboram não podem receber os Sacramentos nem ser padrinhos de batismo, confirmação e casamento, ficam privados de enterro religioso e sepultura eclesiástica, e não se pode celebrar em público: missa em sufrágio de suas almas. 76 Os comunistas têm direito de divulgar suas doutrinas, de viva voz, ou pela imprensa, rádio e outros meios de propaganda? Não. Segundo a doutrina católica o erro não tem direito de ser difundido. Cumpre ao Poder Público proibir-lhe a propaganda. XIV. O SOCIALISMO 77 Haverá outro meio de preparar os homens para o comunismo? Outro meio de preparar os homens para o comunismo é o socialismo. 78 Que vem a ser o socialismo? O socialismo é o sistema que professa que todos os meios de produção, de transporte, o ensino, a assistência, toda a propriedade, devem pertencer ao Estado. 79 Para o socialismo, qual é o papel do individuo? Para o socialismo o individuo é meio e não fim da sociedade. Por isto o Estado deve se ocupar de tudo, e cuidar do indivíduo em todos os setores, deixando a este somente aquilo que o Estado mesmo não pode fazer. 80 Neste caso, o socialismo é o mesmo que o comunismo? Não. O fim de um e outro é o mesmo o estabelecimento de uma sociedade sem classes, a abolição da propriedade privada e da iniciativa privada, e a entrega ao Estado de todos os meios de produção. A diferença está em que o socialismo procura alcançar estes objetivos com meios brandos, usando da propaganda doutrinária e das eleições, enquanto que o comunismo prefere recorrer à violência. Os meios são diferentes, mas o fim é o mesmo. O socialismo é como uma rampa pela qual o mundo desliza suavemente da ordem natural e divina para o comunismo. 81 Há formas moderadas de socialismo? Há formas moderadas de socialismo. Tais formas existem sempre que se exagera, em medida maior ou menor, a ação do Estado, em detrimento da iniciativa individual ou da propriedade privada. 82 Pode o católico ser socialista? O católico não pode ser socialista, porque o socialismo contradiz a doutrina da Igreja, que estabelece o seguinte princípio: o Estado existe para realizar as tarefas de bem comum de que nem os indivíduos, nem as famílias, nem as sociedades intermediárias são capazes por si mesmos. Este princípio defendido pela Santa Igreja, e de modo especial pelo Santo Padre João XXIII na Encíclica “Mater et Magistra”, chama-se o “princípio da subsidiariedade” . 83 Que dizem os Papas sobre o socialismo moderado? Os Papas dizem que, consistindo o socialismo, ainda que moderado, no exagero da ação estatal, é sempre condenado, porque incompatível com a justiça e a ordem natural estabelecida por Deus. Por isto disse Pio XI que o socialismo — mesmo quando moderado — “não pode conciliar-se com a doutrina católica” (Encíclica “Quadragesimo Anno”). 84 Que dizer então do chamado “socialismo cristão” ou “católico”? O chamado “socialismo cristão” ou “socialismo católico” e uma aberração tão grande como se alguém falasse de um protestantismo católico ou de um círculo quadrado. XV. A CONQUISTA DO POVO — AS ELITES E A MASSA 85 Qual a técnica que o comunismo usa para conquistar as elites? A técnica usada pelo comunismo para conquistar as elites consiste em promover o convívio e a colaboração delas com núcleos da seita. Os comunistas aos poucos as vão levando a pensar à maneira materialista. Levam-nas primeiro a agir como materialistas, para terminarem pensando como materialistas. Os comunistas usam também um processo de mudança da maneira de pensar, em geral sem discutir, que denominam de “lavagem cerebral”. 86 Que meios usa o comunismo para conquistar as massas? Os grandes meios utilizados pelos comunistas para conquistar as massas são a revolta e as promessas. Pela revolta, o comunismo açula a classe operária contra os ricos. Pelas promessas desperta nos corações a inveja e a cobiça. Para conquistar as inteligências do povo usa da propaganda, menos para convencer do que para saturar os cérebros com as idéias que convêm ao Partido, e tirar as que lhe são contrárias. Ao Partido não interessa se a propaganda diz verdades ou menti ras: o que interessa é martelar até que a idéia pegue. XVI. OS PONTOS MAIS VISADOS; A REFORMA AGRÁRIA 87 Quais são os pontos mais visados pela seita comunista em sua campanha para dominar um país? Os pontos mais visados pela campanha comunista no primeiro período, que e o da destruição da sociedade católica, são os seguintes: direito de propriedade, forças armadas, pátria, família, e sobretudo a Religião. Para quebrar todas as resistências, procura-se encher o povo de ódio contra tudo isto. 88 Que reformas o comunismo apregoa, para dominar um país? Para dominar um país o comunismo apregoa a necessidade de várias reformas. A primeira é a reforma agrária, depois vem a reforma urbana, a comercial e a industrial, todas elas de caráter mais ou menos acentuadamente expropria tório e socialista. 89 Em que consiste a reforma agrária que os comunistas querem? Os comunistas, tomando por pretexto a situação não raras vezes lamentável do trabalha dor rural, e a conveniência de favorecer-lhe o acesso à condição de proprietário, promovem o confisco das propriedades rurais grandes e médias. Desde que haja só propriedades pequenas, caem todas sob o controle absoluto do Estado. 90 De que maneira uma tal reforma agrária prepara a Revolução desejada pelo comunismo? De tal reforma agrária o comunismo tira diversas vantagens: a) ela destrói as elites rurais, coluna indispensável da ordem social; b) cria uma grande desordem no campo, com lutas, violências, homicídios; c) daí nasce uma grande penúria e grande fome no campo e na cidade; d) assim se enfraquece a nação e se leva o povo ao desespero. Com isto as resistências anticomunistas ficam prejudicadas, e o Partido pode dar o golpe da Revolução. 91 A Igreja concorda com uma reforma agrária que viole o direito de propriedade? A Igreja condena toda reforma agrária que não respeite como sagrado o direito da propriedade, seja do grande fazendeiro, como do pequeno sitiante. Em ambos os casos este direito é sagrado. 92 Que reforma agraria a Igreja abençoa? A Igreja abençoa uma reforma agrária que atenda aos seguintes pontos fundamentais: a) respeito pela legítima propriedade, qual quer que seja o seu tamanho; b) fornecimento por parte do Estado, de assistência técnica, social e financeira ao lavrador; c) colonização da imensa reserva de terras inaproveitadas da União, Estados e Municípios; d) concessão de crédito aos grandes proprietários que queiram dividir e colonizar suas terras; e) concessão de crédito a juros baixos e prazo longo, para os agricultores que queiram adquirir terras, montar suas fazendas ou sítios; f) assistência religiosa e educacional aos homens do campo; g) facilitar a formação de cooperativas agrícolas, livres, de iniciativa particular; h) facilitar o armazenamento e transporte dos produtos da agricultura. 93 A Igreja proíbe a expropriação de uma gleba para fins sociais? A Igreja admite a expropriação de uma gleba para fins sociais, mas com grandes cautelas: a) é preciso que se trate de alcançar um bem comum proporcionadamente grande, ou de afastar um mal proporcionadamente grande; b) é preciso que não haja outra solução que não seja dispor da gleba; c) é necessário que se tenha antes tentado, sem êxito, a aquisição amigável do imóvel; d) é necessário que o dono receba, no ato da desapropriação, e em dinheiro, o preço justo, correspondente ao valor real e atual do imóvel, seja esse valor grande ou pequeno. 94 Há casos especiais de desapropriação? Sim. Por exemplo, se a finalidade da obra a ser executada em determinada gleba o exigir, o Estado poderá desapropriar, além desta, as glebas vizinhas, a fim de que a obra aproveite ao maior número de pessoas. XVII. O IDEAL DO COMUNISMO: A SOCIEDADE SEM CLASSES; O IGUALITARISMO 95 Qual o ideal remoto da sociedade comunista? A sociedade comunista ideal, diz a seita, será, depois dos horrores da ditadura do proletariado, uma sociedade sem classes nem proprietários, onde todos serão iguais, todos trabalharão, cada qual segundo as suas forças, e cada um receberá da sociedade tudo o de que precisar. Será este o paraíso na terra. 96 Este ideal corresponde de Deus? Este ideal á oposto à vontade aos planos de Deus em pontos essenciais: a) Deus não quer que este mundo seja um paraíso, e sim um lugar em que ao lado de puras alegrias nós encontremos grandes sofrimentos, e assim, carregando a nossa cruz, nos santifiquemos. Nosso paraíso nos espera na outra vida. b) Deus quer que cada indivíduo procure o seu bem-estar por seu esforço pessoal, amparado pelo Estado, mas não substituído por ele. c) Deus quer que entre os homens haja desigualdades, as famílias formem classes distintas, umas mais altas que as outras, sem hostilidade recíproca, com caridade, e sem exagerada diferença: não deve haver alguns miseráveis, e outros excessivamente ricos. 97 Deus quer então que haja pobres e ricos, nobres e plebeus? Está de acordo com os planos de Deus que existam pobres e ricos, gente humilde e gente importante, mas baseada toda esta hierarquia na justiça e na caridade. 98 Qual a ultima causa da desigualdade entre os homens? A última causa da desigualdade entre os homens é a sua liberdade. Dada a natural desigualdade de talentos e virtudes entre os homens, estes só podem ser mantidos num mesmo nível econômico diante uma ditadura de ferro, que suprima toda liberdade e toda iniciativa. 99 Como se chama a tendência que leva o homem a odiar as diferenças sociais, a querer uma sociedade sem classes? A tendência que leva a querer que todos sejam iguais e a odiar as diferenças de classe chama-se: igualitarismo. 100 Quais são os vícios que alimentam o igualitarismo? Os vícios que alimentam o igualitarismo são: a) a inveja, que não tolera que o próximo seja melhor, ou mais sábio, ou mais rico; b) o orgulho, que não tolera ninguém acima de nós; c) a soberba, que não se conforma com os planos de Deus. 101 Que manda a justiça social? A justiça social manda que o Estado providencie que cada família possa conseguir por seu trabalho o necessário para seu sustento, educação de seus filhos e formação de uma reserva para o futuro, de modo que haja o menor número possível de miseráveis, e os ricos não sejam demasiadamente ricos. Assim a sociedade será como uma pirâmide: com pessoas que vivem só de seu trabalho, pequenos proprietários, pessoas remediadas, ricos, e alguns muito ricos. 102 A justiça social manda que todos sejam iguais em fortuna e posição social? Não. Que todos os indivíduos e famílias fossem iguais seria uma injustiça social, porque importaria na destruição da liberdade, da iniciativa privada e do direito dos filhos a herdar dos pais. A boa sociedade católica e humana é desigual, hierarquizada. 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  • UBI ARCANO DEI CONSILIO (EM INGLÊS)

    UBI ARCANO DEI CONSILIO ENCYCLICAL OF POPE PIUS XI ON THE PEACE OF CHRIST IN THE KINGDOM OF CHRIST TO OUR VENERABLE BRETHREN THE PATRIARCHS, PRIMATES, ARCHBISHOPS, BISHOPS, AND OTHER ORDINARIES IN PEACE AND COMMUNION WITH THE APOSTOLIC SEE. From the very hour when in the inscrutable designs of God, We though unworthy, were elevated to this Chair of Truth and Love, We earnestly desired to address a heartfelt message to you, Venerable Brothers, and to all Our beloved children who are under your immediate direction and care. This Our desire found its inspiration in the solemn benediction – Urbi et Orbi – which We gave to an immense multitude from the balcony of the Vatican Basilica following Our election to the Supreme Pontificate. This blessing of Ours was received with every manifestation of joy and gratitude by you, by people from every part of the world, and by the Sacred College of Cardinals. This fact was for Us a most comforting assurance, added to that other which comes from Our trust in the divine assistance, in preparing Us to take up the tremendous office which quite unexpectedly We have been called upon to assume. 2. We, therefore, write to you now, “our mouth is open to you” (II Cor. vi, 11) as the birthday of Our Lord Jesus Christ and the New Year approach, and wish this letter to be not only a message of glad greetings but a Christmas gift as well from a father to his loving children. 3. Many reasons prevented Us up to this time from fulfilling Our wish to write. In the first place, there was what one might call a contest of filial devotion by reason of which there came to us in letters without number the good wishes of Our brothers and children from every quarter of the globe, messages which bespoke a welcome to the newly elected Successor of St. Peter and offered him the well-wishes born of a devoted homage. 4. Following close upon these messages We were called upon to experience personally and for the first time what St. Paul has called “my daily instance, the solicitude for all the churches.” (II Cor. xi, 28) To Our everyday duties there were added many extraordinary ones, as for example, those most important affairs already well advanced towards a solution before Our election and which We had to rush to completion, which had to do with the Holy Places, which affected the welfare of Christianity itself, or the status of dioceses numbered among the most important of the Catholic world. Then there were to be considered international meetings and treaties which deeply influenced the future of whole peoples and of nations. Faithful to the ministry of peace and reconciliation which has been confided to Our care by God, We strove to make known far and wide the law of justice, tempered always by charity, and to obtain merited consideration for those values and interests which, because they are spiritual, are none the less grave and important. As a matter of fact, they are much more serious and important than any merely material thing whatsoever. We were occupied, too, with the almost unbelievable sufferings of those peoples, living in districts far remote from Us, who had been stricken with famine and every kind of calamity. We hastened to send them all the help which Our own straitened circumstances permitted, and did not fail to call upon the whole world to assist Us in this task. Finally, there did not escape Us those uprisings accompanied by acts of violence which had broken out in the very midst of Our own beloved people, here where We were born, here where the hand of Divine Providence has set down the Chair of St. Peter. For a time these troubles seemed to threaten the very future of Our country, nor could We rest until We had done everything within Our power to quiet such serious disorders. There were, on the other hand, certain extraordinary events which filled Our soul with joy. Such were, for example, the Twenty-Sixth International Eucharistic Congress and the Three Hundredth Anniversary of the establishment of the Sacred Congregation of the Propagation of the Faith. These celebrations brought to Us such inexpressible consolation and such great spiritual joy that We never imagined such a thing possible at the very outset of Our Pontificate. We also saw at that time practically all the members of the hundreds of bishops who had come to Rome from every part of the world. Under normal circumstances it would have taken several years to interview a like number of bishops. We gave audience also to many thousands of the faithful and blessed with Our fatherly blessing large and dignified representations of that immense family “from every tribe, tongue, people, and nation” as we read in the Book of the Apocalypse, (v, 9) which God has confided to Us. Together with them We were privileged to assist at spectacles which were little short of divine, for We witnessed Our Blessed Redeemer reassume His rightful place as King of all men, of all states, and of all nations when, though hidden behind the veils of the Eucharistic species, He was carried in a magnificent and truly royal triumph of faith through the streets of Our own city, Rome, accompanied by an immense concourse of people representing every nation on earth. We beheld, too, the Holy Spirit, as it were, descend into the hearts of both priests and faithful as He did on the first Pentecost Sunday, to rekindle in them the spirit of prayer and of the apostolate. We were overjoyed to behold the fervent faith of the inhabitants of Rome proclaimed once again to the world, to the great glory of God and to the edification of souls. 5. The Blessed Virgin Mary, Mother of God and Our own dear Mother, who had most lovingly looked down on us at the Sanctuaries of Czestochowa and of Ostrabrama as well as at the miraculous grotto of Lourdes and from the lofty spires of Our own city of Milan, to say nothing of that most holy Sanctuary of the Rho, deigned to accept the homage of Our love on the occasion when We gave back to the Venerable Basilica of Loreto, which had been restored after the serious damage caused to it by fire, her beautiful statue which had been not only done over at Our behest but had been blessed and crowned as well by Our own hands. That occasion was without question a veritable triumph for Mary. During the passage of her statue from Rome to Loreto, the faithful of each town rivaled one another in acclaiming her by a spontaneous and continuous outburst of profoundly religious sentiment, which showed forth a most tender affection for Our Blessed Lady, as well as a devoted attachment to the Vicar of Jesus Christ. 6. These different events, some sad and some joyful, the history of which We wish to record for the edification of posterity, spoke most eloquently to Us, making more and more clear to Our mind those objectives which seem to claim the foremost place in Our Apostolic Ministry and of which it behooves Us to speak now in as solemn a manner as possible in this, Our very first message to you. 7. One thing is certain today. Since the close of the Great War individuals, the different classes of society, the nations of the earth have not as yet found true peace. They do not enjoy, therefore, that active and fruitful tranquillity which is the aspiration and the need of mankind. This is a sad truth which forces itself upon us from every side. For anyone who, as We do, desires profoundly to study and successfully to apply the means necessary to overcome such evils, it is all-important that he recognize both the fact and the gravity of this state of affairs and attempt beforehand to discover its causes. This duty is imposed upon Us in commanding fashion by the very consciousness which We have of Our Apostolic Office. We cannot but resolve to fulfill that which is so clearly Our duty. This We shall do now by this Our first encyclical, and afterward with all solicitude in the course of Our sacred ministry. 8. Since the selfsame sad conditions continue to exist in the world today which were the object of constant and almost heartbreaking preoccupation on the part of Our respected Predecessor, Benedict XV, during the whole period of his pontificate, naturally We have come to make his thoughts and his solutions of these problems Our own. May they become, too, the thoughts and ideals of everyone, as they are Our thoughts, and if this should happen we would certainly see, with the help of God and the co-operation of all men of good will, the most wonderful effects come to pass by a true and lasting reconciliation of men one with another. 9. The inspired words of the Prophets seem to have been written expressly for our own times: “We looked for peace and no good came: for a time of healing, and behold fear,” (Jer. viii, 15) “for the time of healing, and behold trouble.” (Jer. xiv, 19) “We looked for light, and behold darkness . . . we have looked for judgment, and there is none: for salvation, and it is far from us.” (Isaias lix, 9, 11) 10. The belligerents of yesterday have laid down their arms but on the heels of this act we encounter new horrors and new threats of war in the Near East. The conditions in many sections of these devastated regions have been greatly aggravated by famine, epidemics, and the laying waste of the land, all of which have not failed to take their toll of victims without number, especially among the aged, women and innocent children. In what has been so justly called the immense theater of the World War, the old rivalries between nations have not ceased to exert their influence, rivalries at times hidden under the manipulations of politics or concealed beneath the fluctuations of finance, but openly appearing in the press, in reviews and magazines of every type, and even penetrating into institutions devoted to the cultivation of the arts and sciences, spots where otherwise the atmosphere of quiet and peace would reign supreme. 11. Public life is so enveloped, even at the present hour, by the dense fog of mutual hatreds and grievances that it is almost impossible for the common people so much as freely to breathe therein. If the defeated nations continue to suffer most terribly, no less serious are the evils which afflict their conquerors. Small nations complain that they are being oppressed and exploited by great nations. The great powers, on their side, contend that they are being judged wrongly and circumvented by the smaller. All nations, great and small, suffer acutely from the sad effects of the late War. Neither can those nations which were neutral contend that they have escaped altogether the tremendous sufferings of the War or failed to experience its evil results almost equally with the actual belligerents. These evil results grow in volume from day to day because of the utter impossibility of finding anything like a safe remedy to cure the ills of society, and this in spite of all the efforts of politicians and statesmen whose work has come to naught if it has not unfortunately tended to aggravate the very evils they tried to overcome. Conditions have become increasingly worse because the fears of the people are being constantly played upon by the ever-present menace of new wars, likely to be more frightful and destructive than any which have preceded them. Whence it is that the nations of today live in a state of armed peace which is scarcely better than war itself, a condition which tends to exhaust national finances, to waste the flower of youth, to muddy and poison the very fountainheads of life, physical, intellectual, religious, and moral. 12. A much more serious and lamentable evil than these threats of external aggression is the internal discord which menaces the welfare not only of nations but of human society itself. In the first place, we must take cognizance of the war between the classes, a chronic and mortal disease of present-day society, which like a cancer is eating away the vital forces of the social fabric, labor, industry, the arts, commerce, agriculture – everything in fact which contributes to public and private welfare and to national prosperity. This conflict seems to resist every solution and grows worse because those who are never satisfied with the amount of their wealth contend with those who hold on most tenaciously to the riches which they have already acquired, while to both classes there is common the desire to rule the other and to assume control of the other’s possessions. From this class war there result frequent interruptions of work, the causes for which most often can be laid to mutual provocations. There result, too, revolutions, riots, and forcible repression of one side or other by the government, all of which cannot but end in general discontent and in grave damage to the common welfare. To these evils we must add the contests between political parties, many of which struggles do not originate in a real difference of opinion concerning the public good or in a laudable and disinterested search for what would best promote the common welfare, but in the desire for power and for the protection of some private interest which inevitably result in injury to the citizens as a whole. From this course there often arise robberies of what belongs rightly to the people, and even conspiracies against and attacks on the supreme authority of the state, as well as on its representatives. These political struggles also beget threats of popular action and, at times, eventuate in open rebellion and other disorders which are all the more deplorable and harmful since they come from a public to whom it has been given, in our modern democratic states, to participate in very large measure in public life and in the affairs of government. Now, these different forms of government are not of themselves contrary to the principles of the Catholic Faith, which can easily be reconciled with any reasonable and just system of government. Such governments, however, are the most exposed to the danger of being overthrown by one faction or another. 13. It is most sad to see how this revolutionary spirit has penetrated into that sanctuary of peace and love, the family, the original nucleus of human society. In the family these evil seeds of dissension, which were sown long ago, have recently been spread about more and more by the fact of the absence of fathers and sons from the family fireside during the War and by the greatly increased freedom in matters of morality which followed on it as one of its effects. Frequently we behold sons alienated from their fathers, brothers quarreling with brothers, masters with servants, servants with masters. Too often likewise have we seen both the sanctity of the marriage tie and the duties to God and to humankind, which this tie imposes upon men, forgotten. 14. Just as the smallest part of the body feels the effect of an illness which is ravaging the whole body or one of its vital organs, so the evils now besetting society and the family afflict even individuals. In particular, We cannot but lament the morbid restlessness which has spread among people of every age and condition in life, the general spirit of insubordination and the refusal to live up to one’s obligations which has become so widespread as almost to appear the customary mode of living. We lament, too, the destruction of purity among women and young girls as is evidenced by the increasing immodesty of their dress and conversation and by their participation in shameful dances, which sins are made the more heinous by the vaunting in the faces of people less fortunate than themselves their luxurious mode of life. Finally, We cannot but grieve over the great increase in the number of what might be called social misfits who almost inevitably end by joining the ranks of those malcontents who continually agitate against all order, be it public or private. 15. It is surprising, then, that we should no longer possess that security of life in which we can place our trust and that there remains only the most terrible uncertainty, and from hour to hour added fears for the future? Instead of regular daily work there is idleness and unemployment. That blessed tranquillity which is the effect of an orderly existence and in which the essence of peace is to be found no longer exists, and, in its place, the restless spirit of revolt reigns. As a consequence industry suffers, commerce is crippled, the cultivation of literature and the arts becomes more and more difficult, and what is worse than all, Christian civilization itself is irreparably damaged thereby. In the face of our much praised progress, we behold with sorrow society lapsing back slowly but surely into a state of barbarism. 16. We wish to record, in addition to the evils already mentioned, other evils which beset society and which occupy a place of prime importance but whose very existence escapes the ordinary observer, the sensual man – he who, as the Apostle says, does not perceive “the things that are of the Spirit of God” (I Cor. ii, 14), yet which cannot but be judged the greatest and most destructive scourges of the social order of today. We refer specifically to those evils which transcend the material or natural sphere and lie within the supernatural and religious order properly so-called; in other words, those evils which affect the spiritual life of souls. These evils are all the more to be deplored since they injure souls whose value is infinitely greater than that of any merely material object. 17. Over and above the laxity in the performance of Christian duties which is so widespread, We cannot but sorrow with you, Venerable Brothers, over the fact that very many churches, which during the War had been turned to profane uses, have not yet been restored to their original purpose as temples of prayer and of divine worship; moreover, that many seminaries whose existence is vital for the preparation and formation of worthy leaders and teachers of the religious life have not yet been reopened; that the ranks of the clergy in almost every country have been decimated, either because so many priests have died on the battlefield in the exercise of their sacred ministry or have been lost to the Church because they proved faithless to their holy vocation, due to the unfavorable conditions under which they were compelled to live for so long; and, finally, that in many places even the preaching of the Word of God, so necessary and so fruitful for “the edifying of the body of Christ” (Ephesians iv, 12) has been silenced. 18. The evil results of the Great War, as they affect the spiritual life, have been felt all over the world, even in out-of-the-way and lonely sections of far-off continents. Missionaries have been forced to abandon the field of their apostolic labors, and many have been unable to return to their work, thus causing interruptions to and even abandonment of those glorious conquests of the Faith which have done so much to raise the level of civilization, moral, material, and religious. It is quite true that there have been some worthwhile compensations for these great spiritual misfortunes. Among these compensations is one which stands out in bold relief and gives the lie to many ancient calumnies, namely, that a pure love of country and a generous devotion to duty burn brightly in the souls of those consecrated to God, and that through their sacred ministry the consolations of religion were brought to thousands dying on the fields of battle wet with human blood. Thus, many, in spite of their prejudices, were led to honor again the priesthood and the Church by reason of the wonderful examples of sacrifice of self, with which they had become acquainted. For these happy results we are indebted solely to the infinite goodness and wisdom of God, Who draws good from evil. 19. Our letter so far has been devoted to a recital of the evils which afflict present-day society. We must now search out, with all possible care, the causes of these disorders, some of which have already been referred to. At this point, Venerable Brothers, there seems to come to Us the voice of the Divine Consoler and Physician Who, speaking of these human infirmities says: “All these evil things come from within.” (Mark vii, 23.) 20. Peace indeed was signed in solemn conclave between the belligerents of the late War. This peace, however, was only written into treaties. It was not received into the hearts of men, who still cherish the desire to fight one another and to continue to menace in a most serious manner the quiet and stability of civil society. Unfortunately the law of violence held sway so long that it has weakened and almost obliterated all traces of those natural feelings of love and mercy which the law of Christian charity has done so much to encourage. Nor has this illusory peace, written only on paper, served as yet to reawaken similar noble sentiments in the souls of men. On the contrary, there has been born a spirit of violence and of hatred which, because it has been indulged in for so long, has become almost second nature in many men. There has followed the blind rule of the inferior parts of the soul over the superior, that rule of the lower elements “fighting against the law of the mind,” which St. Paul grieved over. (Rom. vii, 23) 21. Men today do not act as Christians, as brothers, but as strangers, and even enemies. The sense of man’s personal dignity and of the value of human life has been lost in the brutal domination begotten of might and mere superiority in numbers. Many are intent on exploiting their neighbors solely for the purpose of enjoying more fully and on a larger scale the goods of this world. But they err grievously who have turned to the acquisition of material and temporal possessions and are forgetful of eternal and spiritual things, to the possession of which Jesus, Our Redeemer, by means of the Church, His living interpreter, calls mankind. 22. It is in the very nature of material objects that an inordinate desire for them becomes the root of every evil, of every discord, and in particular, of a lowering of the moral sense. On the one hand, things which are naturally base and vile can never give rise to noble aspirations in the human heart which was created by and for God alone and is restless until it finds repose in Him. On the other hand, material goods (and in this they differ greatly from those of the spirit which the more of them we possess the more remain to be acquired) the more they are divided among men the less each one has and, by consequence, what one man has another cannot possibly possess unless it be forcibly taken away from the first. Such being the case, worldly possessions can never satisfy all in equal manner nor give rise to a spirit of universal contentment, but must become perforce a source of division among men and of vexation of spirit, as even the Wise Man Solomon experienced: “Vanity of vanities, and vexation of spirit.” (Ecclesiastes i, 2, 14) 23. The same effects which result from these evils among individuals may likewise be expected among nations. “From whence are wars and contentions among you?” asks the Apostle St. James. “Are they not hence from your concupiscences, which war in your members?” (James iv, 1, 2) 24. The inordinate desire for pleasure, concupiscence of the flesh, sows the fatal seeds of division not only among families but likewise among states; the inordinate desire for possessions, concupiscence of the eyes, inevitably turns into class warfare and into social egotism; the inordinate desire to rule or to domineer over others, pride of life, soon becomes mere party or factional rivalries, manifesting itself in constant displays of conflicting ambitions and ending in open rebellion, in the crime of lese majeste, and even in national parricide. 25. These unsuppressed desires, this inordinate love of the things of the world, are precisely the source of all international misunderstandings and rivalries, despite the fact that oftentimes men dare to maintain that acts prompted by such motives are excusable and even justifiable because, forsooth, they were performed for reasons of state or of the public good, or out of love for country. Patriotism – the stimulus of so many virtues and of so many noble acts of heroism when kept within the bounds of the law of Christ – becomes merely an occasion, an added incentive to grave injustice when true love of country is debased to the condition of an extreme nationalism, when we forget that all men are our brothers and members of the same great human family, that other nations have an equal right with us both to life and to prosperity, that it is never lawful nor even wise, to dissociate morality from the affairs of practical life, that, in the last analysis, it is “justice which exalteth a nation: but sin maketh nations miserable.” (Proverbs xiv, 34) 26. Perhaps the advantages to one’s family, city, or nation obtained in some such way as this may well appear to be a wonderful and great victory (this thought has been already expressed by St. Augustine), but in the end it turns out to be a very shallow thing, something rather to inspire us with the most fearful apprehensions of approaching ruin. “It is a happiness which appears beautiful but is brittle as glass. We must ever be on guard lest with horror we see it broken into a thousand pieces at the first touch.” (St. Augustine de Civitate Dei, Book iv, Chap. 3) 27. There is over and above the absence of peace and the evils attendant on this absence, another deeper and more profound cause for present-day conditions. This cause was even beginning to show its head before the War and the terrible calamities consequent on that cataclysm should have proven a remedy for them if mankind had only taken the trouble to understand the real meaning of those terrible events. In the Holy Scriptures we read: “They that have forsaken the Lord, shall be consumed.” (Isaias i, 28) No less well known are the words of the Divine Teacher, Jesus Christ, Who said: “Without me you can do nothing” (John xv, 5) and again, “He that gathereth not with me, scattereth.” (Luke xi, 23) 28. These words of the Holy Bible have been fulfilled and are now at this very moment being fulfilled before our very eyes. Because men have forsaken God and Jesus Christ, they have sunk to the depths of evil. They waste their energies and consume their time and efforts in vain sterile attempts to find a remedy for these ills, but without even being successful in saving what little remains from the existing ruin. It was a quite general desire that both our laws and our governments should exist without recognizing God or Jesus Christ, on the theory that all authority comes from men, not from God. Because of such an assumption, these theorists fell very short of being able to bestow upon law not only those sanctions which it must possess but also that secure basis for the supreme criterion of justice which even a pagan philosopher like Cicero saw clearly could not be derived except from the divine law. Authority itself lost its hold upon mankind, for it had lost that sound and unquestionable justification for its right to command on the one hand and to be obeyed on the other. Society, quite logically and inevitably, was shaken to its very depths and even threatened with destruction, since there was left to it no longer a stable foundation, everything having been reduced to a series of conflicts, to the domination of the majority, or to the supremacy of special interests. 29. Again, legislation was passed which did not recognize that either God or Jesus Christ had any rights over marriage – an erroneous view which debased matrimony to the level of a mere civil contract, despite the fact that Jesus Himself had called it a “great sacrament” (Ephesians v, 32) and had made it the holy and sanctifying symbol of that indissoluble union which binds Him to His Church. The high ideals and pure sentiments with which the Church has always surrounded the idea of the family, the germ of all social life, these were lowered, were unappreciated, or became confused in the minds of many. As a consequence, the correct ideals of family government, and with them those of family peace, were destroyed; the stability and unity of the family itself were menaced and undermined, and, worst of all, the very sanctuary of the home was more and more frequently profaned by acts of sinful lust and soul-destroying egotism – all of which could not but result in poisoning and drying up the very sources of domestic and social life. 30. Added to all this, God and Jesus Christ, as well as His doctrines, were banished from the school. As a sad but inevitable consequence, the school became not only secular and non-religious but openly atheistical and anti-religious. In such circumstances it was easy to persuade poor ignorant children that neither God nor religion are of any importance as far as their daily lives are concerned. God’s name, moreover, was scarcely ever mentioned in such schools unless it were perchance to blaspheme Him or to ridicule His Church. Thus, the school forcibly deprived of the right to teach anything about God or His law could not but fail in its efforts to really educate, that is, to lead children to the practice of virtue, for the school lacked the fundamental principles which underlie the possession of a knowledge of God and the means necessary to strengthen the will in its efforts toward good and in its avoidance of sin. Gone, too, was all possibility of ever laying a solid groundwork for peace, order, and prosperity, either in the family or in social relations. Thus the principles based on the spiritualistic philosophy of Christianity having been obscured or destroyed in the minds of many, a triumphant materialism served to prepare mankind for the propaganda of anarchy and of social hatred which was let loose on such a great scale. 31. Is it to be wondered at then that, with the widespread refusal to accept the principles of true Christian wisdom, the seeds of discord sown everywhere should find a kindly soil in which to grow and should come to fruit in that most tremendous struggle, the Great War, which unfortunately did not serve to lessen but increased, by its acts of violence and of bloodshed, the international and social animosities which already existed? 32. Up to this We have analyzed briefly the causes of the ills which afflict present-day society, the recital of which however, Venerable Brothers, should not cause us to lose hope of finding their appropriate remedy, since the evils themselves seem to suggest a way out of these difficulties. 33. First, and most important of all, for mankind is the need of spiritual peace. We do not need a peace that will consist merely in acts of external or formal courtesy, but a peace which will penetrate the souls of men and which will unite, heal, and reopen their hearts to that mutual affection which is born of brotherly love. The peace of Christ is the only peace answering this description: “let the peace of Christ rejoice in your hearts.” (Colossians iii, 15) Nor is there any other peace possible than that which Christ gave to His disciples (John xiv, 27) for since He is God, He “beholdeth the heart” (I Kings xvi, 7) and in our hearts His kingdom is set up. Again, Jesus Christ is perfectly justified when He calls this peace of soul His own for He was the first Who said to men, “all you are brethren.” (Matt. xxiii, 8) He gave likewise to us, sealing it with His own life’s blood, the law of brotherly love, of mutual forbearance – “This is my commandment, that you love one another, as I have loved you.” (John xv, 12) “Bear ye one another’s burdens; and so you shall fulfill the law of Christ.” (Galatians vi, 2) 34. From this it follows, as an immediate consequence, that the peace of Christ can only be a peace of justice according to the words of the prophet “the work of justice shall be peace” (Isaias xxxii, 17) for he is God “who judgest justice.” (Psalms ix, 5) But peace does not consist merely in a hard inflexible justice. It must be made acceptable and easy by being compounded almost equally of charity and a sincere desire for reconciliation. Such peace was acquired for us and the whole world by Jesus Christ, a peace which the Apostle in a most expressive manner incarnates in the very person of Christ Himself when he addresses Him, “He is our peace,” for it was He Who satisfied completely divine justice by his death on the cross, destroying thus in His own flesh all enmities toward others and making peace and reconciliation with God possible for mankind. (Ephesians ii, 14) Therefore, the Apostle beholds in the work of Redemption, which is a work of justice at one and the same time, a divine work of reconciliation and of love. “God indeed was in Christ, reconciling the world to himself.” (II Corinthians v, 19) “God so loved the world, as to give his only begotten Son.” (John iii, 16) 35. Thomas Aquinas, the Angel of the Schools, also discovered in this fact the very formula and essence of our belief, for he writes that a true and lasting peace is more a matter of love than of justice. The reason for his statement is that it is the function of justice merely to do away with obstacles to peace, as for example, the injury done or the damage caused. Peace itself, however, is an act and results only from love. (Summa Theologica, II-II, Q. 29 Art. 3, Ad. III) 36. Of this peace of Christ, which dwells in our hearts and is, in effect, the love of God, We can repeat what the Apostle has said of the kingdom of God which also rules by love – “the kingdom of Christ is not meat and drink.” (Romans xiv, 17) In other words, the peace of Christ is not nourished on the things of earth, but on those of heaven. Nor could it well be otherwise, since it is Jesus Christ Who has revealed to the world the existence of spiritual values and has obtained for them their due appreciation. He has said, “For what doth it profit a man, if he gain the whole world, and suffer the loss of his own soul?” (Matt. xvi, 26) He also taught us a divine lesson of courage and constancy when He said, “Fear ye not them that kill the body, and are not able to kill the soul: but rather fear him that can destroy both soul and body in hell.” (Matt. x, 28; Luke xii, 14) 37. This does not mean that the peace of Christ, which is the only true peace, exacts of us that we give up all worldly possessions. On the contrary, every earthly good is promised in so many words by Christ to those who seek His peace: “Seek ye first the kingdom of God, and his justice, and all these things shall be added unto you.” (Matt. vi, 33; Luke xii, 31) 38. This peace of Christ, however, surpasses all human understanding – “the peace of God which surpasseth all understanding” (Philippians iv, 7), and for this very reason dominates our sinful passions and renders such evils as division, strife, and discord, which result solely from the unrestrained desire for earthly possessions, impossible. If the desire for worldly possessions were kept within bounds and the place of honor in our affections given to the things of the spirit, which place undoubtedly they deserve, the peace of Christ would follow immediately, to which would be joined in a natural and happy union, as it were, a higher regard for the value and dignity of human life. Human personality, too, would be raised to a higher level, for man has been ennobled by the Blood of Christ and made kin to God Himself by means of holiness and the bond of brotherly love which unites us closely with Christ, by prayer and by the reception of the Sacraments, means infallibly certain to produce this elevation to and participation in the life of God, by the desire to attain everlasting possession of the glory and happiness of heaven which is held out to all by God as our goal and final reward. 39. We have already seen and come to the conclusion that the principal cause of the confusion, restlessness, and dangers which are so prominent a characteristic of false peace is the weakening of the binding force of law and lack of respect for authority, effects which logically follow upon denial of the truth that authority comes from God, the Creator and Universal Law-giver. 40. The only remedy for such state of affairs is the peace of Christ since the peace of Christ is the peace of God, which could not exist if it did not enjoin respect for law, order, and the rights of authority. In the Holy Scriptures We read: “My children, keep discipline in peace.” (Ecclesiasticus xli, 17) “Much peace have they that love the law, O Lord.” (Psalms cxviii, 165) “He that feareth the commandment, shall dwell in peace.” (Proverbs xiii, 13) Jesus Christ very expressly states: “Render to Caesar the things that are Caesar’s.” (Matt. xxii, 21) He even recognized that Pilate possessed authority from on High (John xiv, 11) as he acknowledged that the scribes and Pharisees who though unworthy sat in the chair of Moses (Matt. xxiii, 2) were not without a like authority. In Joseph and Mary, Jesus respected the natural authority of parents and was subject to them for the greater part of His life. (Luke ii, 51) He also taught, by the voice of His Apostle, the same important doctrine: “Let every soul be subject to higher powers: for there is no power but from God.” (Romans xiii, 1; cf. also 1 Peter ii, 13, 18) 41. If we stop to reflect for a moment that these ideals and doctrines of Jesus Christ, for example, his teachings on the necessity and value of the spiritual life, on the dignity and sanctity of human life, on the duty of obedience, on the divine basis of human government, on the sacramental character of matrimony and by consequence the sanctity of family life – if we stop to reflect, let Us repeat, that these ideals and doctrines of Christ (which are in fact but a portion of the treasury of truth which He left to mankind) were confided by Him to His Church and to her alone for safekeeping, and that He has promised that His aid will never fail her at any time for she is the infallible teacher of His doctrines in every century and before all nations, there is no one who cannot clearly see what a singularly important role the Catholic Church is able to play, and is even called upon to assume, in providing a remedy for the ills which afflict the world today and in leading mankind toward a universal peace. 42. Because the Church is by divine institution the sole depository and interpreter of the ideals and teachings of Christ, she alone possesses in any complete and true sense the power effectively to combat that materialistic philosophy which has already done and, still threatens, such tremendous harm to the home and to the state. The Church alone can introduce into society and maintain therein the prestige of a true, sound spiritualism, the spiritualism of Christianity which both from the point of view of truth and of its practical value is quite superior to any exclusively philosophical theory. The Church is the teacher and an example of world good-will, for she is able to inculcate and develop in mankind the “true spirit of brotherly love” (St. Augustine, De Moribus Ecclesiae Catholicae, i, 30) and by raising the public estimation of the value and dignity of the individual’s soul help thereby to lift us even unto God. 43. Finally, the Church is able to set both public and private life on the road to righteousness by demanding that everything and all men become obedient to God “Who beholdeth the heart,” to His commands, to His laws, to His sanctions. If the teachings of the Church could only penetrate in some such manner as We have described the inner recesses of the consciences of mankind, be they rulers or be they subjects, all eventually would be so apprised of their personal and civic duties and their mutual responsibilities that in a short time “Christ would be all, and in all.” (Colossians iii, 11) 44. Since the Church is the safe and sure guide to conscience, for to her safe-keeping alone there has been confided the doctrines and the promise of the assistance of Christ, she is able not only to bring about at the present hour a peace that is truly the peace of Christ, but can, better than any other agency which We know of, contribute greatly to the securing of the same peace for the future, to the making impossible of war in the future. For the Church teaches (she alone has been given by God the mandate and the right to teach with authority) that not only our acts as individuals but also as groups and as nations must conform to the eternal law of God. In fact, it is much more important that the acts of a nation follow God’s law, since on the nation rests a much greater responsibility for the consequences of its acts than on the individual. 45. When, therefore, governments and nations follow in all their activities, whether they be national or international, the dictates of conscience grounded in the teachings, precepts, and example of Jesus Christ, and which are binding on each and every individual, then only can we have faith in one another’s word and trust in the peaceful solution of the difficulties and controversies which may grow out of differences in point of view or from clash of interests. An attempt in this direction has already and is now being made; its results, however, are almost negligible and, especially so, as far as they can be said to affect those major questions which divide seriously and serve to arouse nations one against the other. No merely human institution of today can be as successful in devising a set of international laws which will be in harmony with world conditions as the Middle Ages were in the possession of that true League of Nations, Christianity. It cannot be denied that in the Middle Ages this law was often violated; still it always existed as an ideal, according to which one might judge the acts of nations, and a beacon light calling those who had lost their way back to the safe road. 46. There exists an institution able to safeguard the sanctity of the law of nations. This institution is a part of every nation; at the same time it is above all nations. She enjoys, too, the highest authority, the fullness of the teaching power of the Apostles. Such an institution is the Church of Christ. She alone is adapted to do this great work, for she is not only divinely commissioned to lead mankind, but moreover, because of her very make-up and the constitution which she possesses, by reason of her age-old traditions and her great prestige, which has not been lessened but has been greatly increased since the close of the War, cannot but succeed in such a venture where others assuredly will fail. 47. It is apparent from these considerations that true peace, the peace of Christ, is impossible unless we are willing and ready to accept the fundamental principles of Christianity, unless we are willing to observe the teachings and obey the law of Christ, both in public and private life. If this were done, then society being placed at last on a sound foundation, the Church would be able, in the exercise of its divinely given ministry and by means of the teaching authority which results therefrom, to protect all the rights of God over men and nations. 48. It is possible to sum up all We have said in one word, “the Kingdom of Christ.” For Jesus Christ reigns over the minds of individuals by His teachings, in their hearts by His love, in each one’s life by the living according to His law and the imitating of His example. Jesus reigns over the family when it, modeled after the holy ideals of the sacrament of matrimony instituted by Christ, maintains unspotted its true character of sanctuary. In such a sanctuary of love, parental authority is fashioned after the authority of God, the Father, from Whom, as a matter of fact, it originates and after which even it is named. (Ephesians iii, 15) The obedience of the children imitates that of the Divine Child of Nazareth, and the whole family life is inspired by the sacred ideals of the Holy Family. Finally, Jesus Christ reigns over society when men recognize and reverence the sovereignty of Christ, when they accept the divine origin and control over all social forces, a recognition which is the basis of the right to command for those in authority and of the duty to obey for those who are subjects, a duty which cannot but ennoble all who live up to its demands. Christ reigns where the position in society which He Himself has assigned to His Church is recognized, for He bestowed on the Church the status and the constitution of a society which, by reason of the perfect ends which it is called upon to attain, must be held to be supreme in its own sphere; He also made her the depository and interpreter of His divine teachings, and, by consequence, the teacher and guide of every other society whatsoever, not of course in the sense that she should abstract in the least from their authority, each in its own sphere supreme, but that she should really perfect their authority, just as divine grace perfects human nature, and should give to them the assistance necessary for men to attain their true final end, eternal happiness, and by that very fact make them the more deserving and certain promoters of their happiness here below. 49. It is, therefore, a fact which cannot be questioned that the true peace of Christ can only exist in the Kingdom of Christ – “the peace of Christ in the Kingdom of Christ.” It is no less unquestionable that, in doing all we can to bring about the re-establishment of Christ’s kingdom, we will be working most effectively toward a lasting world peace. Pius X in taking as his motto “To restore all things in Christ” was inspired from on High to lay the foundations of that “work of peace” which became the program and principal task of Benedict XV. These two programs of Our Predecessors We desire to unite in one – the re-establishment of the Kingdom of Christ by peace in Christ – “the peace of Christ in the Kingdom of Christ.” With might and main We shall ever strive to bring about this peace, putting Our trust in God, Who when He called Us to the Chair of Peter, promised that the divine assistance would never fail Us. We ask that all assist and co-operate with Us in this Our mission. Particularly We ask you to aid us, Venerable Brothers, you, His sheep, whom Our leader and Lord, Jesus Christ, has called to feed and to watch over as the most precious portion of His flock, which comprises all mankind. For, it is you whom the “Holy Ghost hath placed to rule the Church of God” (Acts xx, 28), you to whom above all, and principally, God “hath given the ministry of reconciliation, and who for Christ therefore are ambassadors.” (II Cor. v, 18, 20) You participate in His teaching power and are “the dispensers of the mysteries of God.” (I Cor. iv, 1) You have been called by Him “the salt of the earth,” “the light of the world” (Matt. v, 13, 14), fathers and teachers of Christian peoples, “a pattern of the flock from the heart” (I Peter v, 3), and “you shall be called great in the kingdom of heaven.” (Matt. v, 19) In fine, you are the links of gold, as it were, by which “the whole body of Christ, which is the Church, is held compacted and fitly joined together” (Ephesians iv, 15, 16), built as it is on the solid rock of Peter. 50. Of your praiseworthy industry, We have had a quite recent proof on the occasion of the International Eucharistic Congress held in Rome and of the celebration of the Centenary of the Sacred Congregation of the Propagation of the Faith, when several hundred bishops from all sections of the globe were reunited with Us before the tomb of the Holy Apostles. That brotherly reunion, so solemn, because of the great number and high dignity of the bishops who were present, carried our thoughts to the possibility of another similar meeting of the whole episcopate here in the center of Catholic unity, and of the many effective results which might follow such a meeting toward the re-establishment of the social order after the terrible disorders through which we have just passed. The very proximity of the Holy Year fills Us with the solemn hope that this Our desire may be fully realized. 51. We scarcely dare to include, in so many words, in the program of Our Pontificate the reassembling of the Ecumenical Council which Pius IX, the Pontiff of Our youth, had called but had failed to see through except to the completion of a part, albeit most important, of its work. We as the leader of the chosen people must wait and pray for an unmistakable sign from the God of mercy and of love of His holy will in this regard. (Judges vi, 17) 52. In the meantime, though We are quite conscious that it is not necessary for Us to exhort you to greater and more zealous efforts but rather to bestow on you the praise which you so richly deserve, yet the very consciousness of Our Apostolic Office, of the fact that We are the Common Father of all, constrains Us to beseech you to exhibit at all times a very special and tender love toward that large family of spiritual children which is, in a very special way, committed to your immediate supervision. From the reports received from you by Us and by public fame, which is amply confirmed in the press and in many other ways, We know only too well what thanks we should, in union with you, render to the Good God for the great work which, as the occasion permitted, He has done through you and through your predecessors, both for your clergy and for your faithful people, a work which has come to maturity in our own times and which We see being multiplied on all sides in a most fruitful manner. 53. In particular, We refer to the numberless and diverse activities initiated for the education and development, as well as for the sanctification of both the clergy and laity, the organizations of clergy and laity formed to aid the missions in their manifold activities, both physical and moral, of the natural and the supernatural order, by the spreading far and wide of the Kingdom of Christ. We refer to the various organizations of young people which have helped to develop such ardent and true love for the Holy Eucharist and such tender devotion for the Blessed Virgin, virtues which have made certain their faith, their purity, and their union one with another: to the solemn celebrations in honor of the Blessed Sacrament, at which the Divine Prince of Peace is honored by truly royal triumphal processions, for about the Sacred Host, center of peace and love, gather multitudes from every country and the representatives of all peoples and nations, joined together in a union most wonderful by one and the same faith, in adoration, in prayer, and in the enjoyment of all heavenly graces. 54. The fruits of such piety are manifest, the widespread diffusion and great activity of the apostolate which, by prayer, word of mouth, by the religious press, by personal example, by works of charity seeks in every way possible to lead souls to the Sacred Heart of Jesus and to restore to the same Sacred Heart His sovereign rule over the family and over society. We refer also to the holy battle waged on so many fronts to vindicate for the family and the Church the natural and divinely given rights which they possess over education and the school. Finally, We include among these fruits of piety that whole group of movements, organizations, and works so dear to Our fatherly heart which passes under the name of “Catholic Action,” and in which We have been so intensely interested. 55. All these organizations and movements ought not only to continue in existence, but ought to be developed more and more, always of course as the conditions of time and place seem to demand. There can be no question of the fact that these conditions are at times very difficult and exact of both pastors and the faithful a great and increasing amount of sacrifice and labor. But since such work is vitally necessary, it is without question an essential part of our Christian life and of the sacred ministry and is therefore indissolubly bound up with the restoration of the Kingdom of Christ and the re-establishment of that true peace which can be found only in His Kingdom – “the peace of Christ in the Kingdom of Christ.” 56. Tell, therefore, your clergy, Venerable Brothers, whom We know have labored so devotedly in these different fields of activity for the Church of Christ, and whose work We have seen at close range and have even participated in and which We appreciate so highly, tell them that when they co-operate with you, they are united with Christ and guided by Him through you; that at the same time they also co-operate with Us, and that We bless them with Our fatherly blessing. 57. It is scarcely necessary to add, Venerable Brothers, how much We depend on the regular clergy to aid in the successful execution of the different parts of Our program. You know as well as We what a magnificent contribution they have made to the interior life of the Church and to the spread of the Kingdom of Christ. They are actuated not only by the precepts but by the counsels of Christ. Both in the holy silence of the cloister and in pious works outside convent walls they exhibit the high ideals of Christian perfection by their works of true piety, by their keeping uppermost in the minds of Christian people the pure ideals of Christ, by the example which they give due to their self-sacrificing renunciation of all worldly comforts and material goods, by their acquisition of spiritual treasures. Because of the consecration of their whole being to the common good, they undertake truly miraculous activities which succor every ill spiritual and bodily, and help all in finding a sure remedy or assistance from the evils which we must encounter. As the history of the Church bears witness, members of the religious orders under the inspiration of God’s love, have often gone to such lengths in their work of preaching the Gospel that they have given up their lives for the salvation of souls, thus by their death spreading the unity of the faith and the doctrine of Christian brotherhood and at the same time extending farther and farther the boundaries of the Kingdom of Christ. 58. Tell your faithful children of the laity that when, united with their pastors and their bishops, they participate in the works of the apostolate, both individual and social, the end purpose of which is to make Jesus Christ better known and better loved, then they are more than ever “a chosen generation, a kingly priesthood, a holy nation, a purchased people,” of whom St. Peter spoke in such laudatory terms. (I Peter ii, 9) Then, too, they are more than ever united with Us and with Christ, and become great factors in bringing about world peace because they work for the restoration and spread of the Kingdom of Christ. Only in this Kingdom of Christ can we find that true human equality by which all men are ennobled and made great by the selfsame nobility and greatness, for each is ennobled by the precious blood of Christ. As for those who are in authority, they are, according to the example of our Lord Jesus Christ, but ministers of the good, servants of the servants of God, particularly of the sick and of those in need. 59. However, these very social changes, which have created and increased the need of cooperation between the clergy and laity to which We have just referred, have themselves brought along in their wake new and most serious problems and dangers. As an after-effect of the upheaval caused by the Great War and of its political and social consequences, false ideas and unhealthy sentiments have, like a contagious disease, so taken possession of the popular mind that We have grave fears that even some among the best of our laity and of the clergy, seduced by the false appearance of truth which some of these doctrines possess, have not been altogether immune from error. 60. Many believe in or claim that they believe in and hold fast to Catholic doctrine on such questions as social authority, the right of owning private property, on the relations between capital and labor, on the rights of the laboring man, on the relations between Church and State, religion and country, on the relations between the different social classes, on international relations, on the rights of the Holy See and the prerogatives of the Roman Pontiff and the Episcopate, on the social rights of Jesus Christ, Who is the Creator, Redeemer, and Lord not only of individuals but of nations. In spite of these protestations, they speak, write, and, what is more, act as if it were not necessary any longer to follow, or that they did not remain still in full force, the teachings and solemn pronouncements which may be found in so many documents of the Holy See, and particularly in those written by Leo XIII, Pius X, and Benedict XV. 61. There is a species of moral, legal, and social modernism which We condemn, no less decidedly than We condemn theological modernism. 62. It is necessary ever to keep in mind these teachings and pronouncements which We have made; it is no less necessary to reawaken that spirit of faith, of supernatural love, and of Christian discipline which alone can bring to these principles correct understanding, and can lead to their observance. This is particularly important in the case of youth, and especially those who aspire to the priesthood, so that in the almost universal confusion in which we live they at least, as the Apostle writes, will not be “tossed to and fro, and carried about with every wind of doctrine by the wickedness of men, by cunning craftiness, by which they lie in wait to deceive.” (Ephesians iv, 14) 63. From this Apostolic Center of the Church of Christ, We turn Our eyes toward those who, unfortunately in great numbers, are either ignorant of Christ and His Redemption or do not follow in their entirety His teachings, or who are separated from the unity of His Church and thus are without His Fold, although they too have been called by Christ to membership in His Church. The Vicar of the Good Shepherd, seeing so many of his sheep gone astray, cannot but recall and make his own the simple but expressive words of Christ, words which are permeated through and through by the longings born of divine desire: “And other sheep I have, that are not of this fold: them also I must bring.” (John x, 16) He cannot but rejoice in the wonderful prophecy which filled even the Sacred Heart of Jesus with joy. “And they shall hear my voice, and there shall be one fold and one shepherd.” May God, and We join with you and with all the faithful in this prayer, shortly bring to fulfillment His prophecy by transforming this consoling vision of the future into a present reality. 64. One of the outstanding manifestations of this religious unity, and a happy augury for the future, is that altogether unexpected, but well-known fact of which you have knowledge, Venerable Brothers, a fact not pleasing to some perhaps, but certainly very consoling both to us and to you, namely, that recently the representatives and rulers of practically every nation, motivated by a common and instinctive desire for union and peace, have turned to this Apostolic See in order to bind themselves closer to Us or to renew in some cases the bonds of amity and friendship which had joined us together previously. We rejoice at this fact, not merely because it increases the prestige of Holy Church, but because it is becoming increasingly evident on all sides, and especially from actual experience, what great possibilities for peace and happiness, even here below, such a union with Us possesses for human society. Although the Church is committed by God, first of all, to the attainment of spiritual and imperishable purposes, because of the very intimate and necessary connection of things one with another, such a mission serves likewise to advance the temporal prosperity of nations and individuals, even more so than if she were instituted primarily to promote such ends. 65. The Church does not desire, neither ought she to desire, to mix up without a just cause in the direction of purely civil affairs. On the other hand, she cannot permit or tolerate that the state use the pretext of certain laws of unjust regulations to do injury to the rights of an order superior to that of the state, to interfere with the constitution given the Church by Christ, or to violate the rights of God Himself over civil society. 66. We make Our very own, Venerable Brothers, the words which Benedict XV, of happy memory, used in the last allocution which he pronounced at the Consistory of November twenty-first of last year, when he spoke of the treaties asked for or proposed to Us by various states: “We cannot possibly permit that anything harmful to the dignity or liberty of the Church creep into these treaties, for it is all-important that the safety and freedom of the Church be guarded at all times, and especially in our own days, and this in the lasting interests of human society itself.” 67. It is scarcely necessary to say here how painful it is to Us to note that from this galaxy of friendly powers which surround Us one is missing, Italy, Our own dear native land, the country where the hand of God, who guides the course of history, has set down the Chair of His Vicar on earth, in this city of Rome which, from being the capital of the wonderful Roman Empire, was made by Him the capital of the whole world, because He made it the seat of a sovereignty which, since it extends beyond the confines of nations and states, embraces within itself all the peoples of the whole world. The very origin and divine nature of this sovereignty demands, the inviolable rights of conscience of millions of the faithful of the whole world demand that this sacred sovereignty must not be, neither must it ever appear to be, subject to any human authority or law whatsoever, even though that law be one which proclaims certain guaranties for the liberty of the Roman Pontiff. 68. The true guaranties of liberty, in no way injurious, but on the contrary of incalculable benefit to Italy, which Divine Providence, the ruler and arbiter of mankind, has conferred upon the sovereignty of the Vicar of Christ here below, these guaranties which for centuries have fitted in so marvelously with the divine designs in order to protect the liberty of the Roman Pontiff, neither Divine Providence itself has manifested nor human ingenuity has as yet discovered any substitute which would compensate for the loss of these rights; these guaranties We declare have been and are still being violated. Whence it is that there has been created a certain abnormal condition of affairs which has grievously troubled and, up to the present hour, continues to trouble the consciences of the Catholics of Italy and of the entire world. 69. We, therefore, who are now the heirs and depositories of the ideals and sacred duties of Our Venerated Predecessors, and like them alone invested with competent authority in such a weighty matter and responsible to no one but God for Our decisions, We protest, as they have protested before Us, against such a condition of affairs in defense of the rights and of the dignity of the Apostolic See, not because We are moved by any vain earthly ambition of which We should be ashamed, but out of a sense of Our duty to the dictates of conscience itself, mindful always of the fact that We too must one day die and of the awful account which We must render to the Divine Judge of the ministry which He has confided to Our care. 70. At all events, Italy has not nor will she have in the future anything to fear from the Holy See. The Pope, no matter who he shall be, will always repeat the words: “I think thoughts of peace not of affliction” (Jeremias xxix, 11), thoughts of a true peace which is founded on justice and which permit him truthfully to say: “Justice and Peace have kissed.” (Psalms lxxxiv, 11) It is God’s task to bring about this happy hour and to make it known to all; men of wisdom and of good-will surely will not permit it to strike in vain. When it does arrive, it will turn out to be a solemn hour, one big with consequences not only for the restoration of the Kingdom of Christ, but for the pacification of Italy and the world as well. 71. We pray most fervently, and ask others likewise to pray for this much-desired pacification of society, especially at this moment when after twenty centuries the day and hour approach when all over the world men will celebrate the humble and meek coming among us of the Sweet Prince of Peace, at whose birth the heavenly hosts sang: “Glory be to God in the highest; and on ,earth peace to men of good will.” (Luke ii, 14) 72. As an augury of this peace for mankind, may the Apostolic Blessing, which We invoke upon you and your flock, on your clergy, your people, on their families and homes bring happiness to the living, peace and eternal rest to the dead. From the depths of Our heart as a sign of Our fatherly love, We impart to you, to your clergy, and to your people, the Apostolic Blessing. Given at Rome, at St. Peter’s, on the twenty-third day of December, in the year 1922, the first of Our Pontificate. PIUS XI #cartaencíclica #encíclica #PAPAPIOXI #UBIARCANODEICONSILIO

  • EXSURGE DOMINE – CARTA INDICANDO OS ERROS DE LUTERO

    EXSURGE DOMINE Leão X 15.06.1520 VIDE: DECET ROMANUM PONTIFICEM Erguei-vos, Senhor, e julgai vossa própria causa. Lembrai-vos de vossas censuras àqueles que estão o dia todo cheios de insensatez. Ouvi nossas preces, pois raposas avançam procurando destruir a vinha em cujo lagar só Vós tendes pisado. Quando estáveis perto de subir a vosso Pai, entregastes o cuidado, norma e administração da vinha, uma imagem da igreja triunfante, a Pedro, como cabeça e vosso vigário e a seus sucessores. O javali da floresta procura destrui-la e toda fera selvagem vem devastá-la. Erguei-vos, Pedro, e realizai o serviço pastoral divinamente confiado a Vós, como já dito. Prestai atenção à causa da santa Igreja Romana, mãe de todas as igrejas e mestra da fé, que Vós por ordem de Deus santificastes com vosso sangue. Bem que avisastes que viriam falsos mestres contra a Igreja Romana, para introduzir seitas ruinosas, atraindo sobre eles rápidas condenações. Suas línguas são de fogo, mal incansável, cheias de mortal veneno. Eles possuem zelo amargo, discórdia em seus corações, vangloriam-se e mentem contra a verdade. Suplicamos a vós também, Paulo, para erguer-vos. Fostes vós que esclarecestes e iluminastes a Igreja com vossa doutrina e com vosso martírio, como o de Pedro, Agora, um novo Porfírio se levanta que, como o outro do passado, cheio de erros assediou os santos apóstolos, e agora ataca os santos pontífices, nossos predecessores. Ele os reprova por violação a vosso ensinamento, em vez de implorá-los, e não tem pudor de atacá-los, de lamentá-los, e quando se desespera de sua causa, de rebaixar-se aos insultos. Ele é como os hereges” cuja última defesa” ,como disse Jerônimo” é pôr-se a vomitar veneno de serpente com sua língua, quando vêem que suas causas estão para ser condenadas, e explodem em insultos quando se vêem vencidos”. Embora tenhais dito que deveria haver heresias para testar a fé, ainda assim eles devem ser destruídos no próprio berço por vossa intercessão e ajuda, e, assim, não crescerão nem se tornarão fortes como vossos lobos. Finalmente, que se levante toda a Igreja dos santos e a Igreja universal. Alguns, pondo de lado a verdadeira interpretação da Sagrada Escritura, estão ensandecidos pelo pai das mentiras. Sábios a seus próprios olhos, de conformidade com a antiga prática dos heréticos, interpretam essas mesmas Escrituras de modo diferente do inspirado pelo Espírito Santo, mas antes inspirados somente por seu próprio sentido de ambição, em consideração ao aplauso popular, como diz o Apóstolo. Realmente, torcem e adulteram as Escrituras. Consequentemente, de acordo com Jerônimo, “Não persiste mais o Evangelho de Cristo , mas um do homem, ou o que é pior, do demônio. Que toda a santa Igreja de Deus, eu clamo, se levante, e com os santos apóstolos interceda perante o Deus Todo-Poderoso para estirpar os erros de sua ovelha, para banir todas as heresias dos campos da fé, e para que seja de seu agrado manter a paz e a unidade de sua santa Igreja. Custa-nos expressar, em nossa tristeza e aflição, o que chegou aos nossos ouvidos, desde há algum tempo, através de notícias de homens de confiança e do rumor geral. Ai de nós, vimos ainda com nossos olhos e lemos os muitos e diversos erros. Alguns deles já foram condenados por concílios e constituições de nossos predecessores, e formalmente contêm até a heresia dos Gregos e Boêmios. Outros erros são ou heréticos, falsos, escandalosos, ou ofensivos ao ouvidos piedosos, assim como sedutores das mentes simples, originando-se de falsos intérpretes da fé que em sua orgulhosa curiosidade almejam a glória do mundo, e contrários ao ensinamento dos Apóstolos, desejam ser mais sábios do que poderiam ser. A loquacidade deles, não amparada pela autoridade das Escrituras, como disse Jerônimo, não ganharia confiança se não fizessem sua perversa doutrina parecer baseada até mesmo em testemunhos divinos, embora mal interpretados. No ponto de vista deles, o temor de Deus é coisa do passado. Esses erros, por inspiração humana, tinham sido revividos e recentemente propagados entre os mais frívolos e ilustres da nação Germânica. Nós nos afligimos mais ainda que isso tenha acontecido ali porque nós e nossos predecessores sempre colocamos essa nação no mais alto de nossa afeição. Depois que o império foi transferido pela Igreja Romana dos Gregos para esses germânicos , nossos predecessores e nós sempre escolhemos dentre eles advogados e defensores da Igreja. Realmente, é certo que esses germânicos , verdadeiros irmãos na fé católica , foram sempre encarniçados adversários das heresias, como testemunham aquelas louváveis constituições dos imperadores germânicos, em defesa da independência da Igreja, da liberdade, da expulsão e extinção de todos os hereges da Alemanha. Aquelas constituições formalmente emitidas e depois confirmadas por nossos predecessores, foram escritas sob as maiores penalidades, até mesmo perda de terras e soberania dos que os abrigasse ou não os expulsasse. Se elas fossem observadas hoje, nós e eles estaríamos obviamente livres deste distúrbio. Prova disto é a condenação e punição no Concílio de Constança da infidelidade dos Hussitas e Wyclifistas, assim como de Jerônimo de Praga. Prova disto é o sangue dos Germânicos derramado tantas vezes em guerras contra os Boêmios. Uma prova final é a refutação, rejeição e condenação não menos instrutivas do que verdadeiras e santas, dos erros acima, ou de muitos deles, pelas universidades de Colônia e Louvaina, as cultivadoras mais devotadas e religiosas dos campos do Senhor. Poderíamos citar muitos outros fatos que decidimos omitir a fim de que não pareça estarmos compondo uma História. Em virtude de nosso trabalho pastoral a nós comunicado por divino favor , não podemos sob nenhuma circunstância tolerar ou subestimar por mais tempo o veneno pernicioso dos erros acima sem prejuízo à religião cristã e dano à fé ortodoxa. Decidimos incluir no presente documento alguns desses erros. A substância deles é como se segue: É uma opinião herética, embora comum, que os sacramentos da nova Lei dão a graça do perdão àqueles que não lhes põem um obstáculo. É tratar com desprezo tanto Paulo como Cristo dizer que não permanece o pecado numa criança após o batismo. As inflamáveis fontes do pecado, mesmo que seja pecado não atual, retarda a partida da alma do corpo para o céu. Para alguém à hora da morte, a contrição imperfeita necessariamente lhe traz grande medo, o qual por si só é bastante para causar a punição do purgatório, e impedir a entrada no Reino. Não está fundamentado na Sagrada Escritura nem nos antigos e sagrados doutores cristãos que haja três partes na penitência: contrição, confissão e satisfação. Contrição que se adquire através de discussão, coleta e abominação dos pecados, pelos quais alguém reflete sobre seus anos na amargura de sua alma, ponderando na gravidade dos pecados, seu número, sua baixeza, a perda da felicidade eterna e a pena da condenação eterna, essa contrição torna-o um hipócrita, ou mais, de fato, um pecador. Há um dito altamente verdadeiro, e a doutrina concernente às contrições desse modo são muito mais dignas de atenção: “Não agir assim no futuro é a maior penitência ; a melhor penitência, uma nova vida.” De modo algum alguém presuma de confessar pecados veniais, ou mesmo todos os pecados mortais, porque é impossível que saiba todos os pecados mortais. Daí, na Igreja primitiva somente os pecados mortais óbvios eram confessados. Enquanto quisermos confessar todos os pecados sem exceção, estaremos fazendo nada mais do que desejar nada deixar para perdão pela misericórdia de Deus. Os pecados não serão perdoados a ninguém a não ser que o padre os perdoe e a pessoa acredite que estão perdoados; do contrário o pecado permanecerá, salvo se a pessoa acredita que eles foram perdoados; na verdade a remissão do pecado e a concessão da graça não é suficiente, mas é necessário também acreditar que eles foram perdoados. De modo algum pode alguém ter segurança de ter sido absolvido por causa de sua contrição, mas por causa da palavra de Cristo: “Tudo o que desatardes, etc.” Daí eu digo, acredite confiantemente, se você obteve a absolvição do padre, acredite firmemente de ter sido absolvido e você será verdadeiramente absolvido, seja qual tenha sido a contrição. Se numa impossibilidade aquele que confessa não esteve contrito ou o padre não absolveu seriamente, mas como de brincadeira, se não obstante a pessoa acredita que foi absolvida, ela verdadeiramente foi absolvida. No sacramento da penitência e da remissão do pecado o papa ou o bispo não faz mais do que o mais humilde padre; de fato, onde não há padre, qualquer cristão, mesmo uma mulher ou criança, pode igualmente fazê-lo. Ninguém deve responder ao padre que está contrito, nem o padre poderia perguntá-lo. Grande é o erro daqueles que se aproximam do sacramento da Eucaristia confiados em que se confessou, que não estão cônscios de nenhum pecado mortal, que antecipadamente fizeram suas preces e sua preparação; todos eles comem e bebem seu próprio julgamento. Mas se acreditam e confiam que obterão a graça , então esta fé sozinha torna-os puros e dignos. Parece que a Igreja num Concílio comum estabeleceu que o leigo pode comungar sob ambas as espécies; os Boêmios que comungam sob ambas as espécies não são hereges, mas são cismáticos. Os tesouros da Igreja, dos quais o papa concede indulgências não são os méritos de Cristo e dos santos. Indulgências são fraudes piedosas dos fiéis, e indultos de boas obras; e elas estão no número daquelas coisas que devem ser evitadas, e não no número daquelas que são vantajosas. Indulgências não são proveitosas para aqueles que realmente as ganham, para a remissão da pena devida ao pecado atual, sob o ponto de vista da justiça divina. São seduzidos aqueles que acreditam que indulgências são salutares e úteis aos frutos do espírito. As indulgências são necessárias somente para crimes públicos, e são concedidas apropriadamente somente para os rigorosos e impacientes. As indulgências não são necessárias nem úteis para seis espécies de homens, a saber: para os mortos e aqueles à morte, para os enfermos, para aqueles legitimamente impedidos, para aqueles que não cometeram crimes, para aqueles que cometeram crimes, mas não públicos, e para aqueles que se devotam a coisas melhores. Excomunhões são apenas penas externas e não privam o homem das orações espirituais comuns da Igreja. Os cristãos devem ser ensinados a apreciar as excomunhões preferentemente a temê-las. O Pontífice Romano, o sucessor de Pedro, não é o vigário de Cristo para todas as igrejas de todo o mundo, instituído pelo próprio Cristo na pessoa do abençoado Pedro. A palavra de Cristo a Pedro: “Tudo o que desatardes na terra,” etc, se estende somente àquelas coisas atadas pelo próprio Pedro. É certo que não está sob o poder da Igreja ou do papa decidir sobre os artigos de fé, e muito menos sobre o que concerne às leis da moral e das boas obras. Se o papa com uma grande parte da Igreja pensou de tal ou tal modo, ele não poderia errar; ainda assim não é pecado ou heresia pensar o contrário, especialmente sobre matéria não necessária à salvação, até que uma alternativa seja condenada e a outra aprovada por um Concílio geral. Um meio foi dado a nós para enfraquecer a autoridade de concílios, para contradizer seus atos livremente, julgar seus decretos e corajosamente confessar tudo o que pareça verdade, seja o que for que tenha sido aprovado ou desaprovado por qualquer concílio. Algumas proposições de John Hus, condenadas pelo Concílio de Constança, são perfeitamente cristãs, totalmente verdadeiras e evangélicas; essas, a Igreja Universal não poderia condená-las. Em toda boa obra o justo peca. Uma boa obra muito bem feita é um pecado venial. É contra o desejo do Espírito Santo que heréticos sejam queimados. Ir guerrear contra os Turcos é resistir a Deus que pune nossas iniquidade através deles. Ninguém está certo de que não esteja sempre pecando mortalmente, por causa do vício profundamente oculto do orgulho. Livre arbítrio após o pecado é uma questão somente de palavra; e no que alguém faz enquanto está nele, peca mortalmente. O purgatório não pode ser provado pela Sagrada Escritura que está no Cânon. As almas do purgatório não estão certas de sua salvação, ao menos não totalmente. Nem está provado por nenhum argumento nem pelas Escrituras que elas estejam além do estado de obter méritos ou crescer no amor. As almas do purgatório pecam sem cessar, na medida que procuram descansar e detestam a punição. As almas libertas do purgatório pelos sufrágios dos vivos são menos felizes do que se elas prestassem satisfação por elas mesmo. Prelados eclesiásticos e príncipes seculares não agiriam mal se destruíssem todas as bolsas de dinheiro da mendicância. Ninguém de mente sã é ignorante ou destruidor, pernicioso, escandaloso e sedutor das mentes fiéis e simples, como são esses vários erros, contrários como são eles a toda caridade e reverência para com a santa Igreja Romana que é a mãe de todos os fiéis e mestra da fé, destruidores como são eles do vigor da disciplina eclesiástica, particularmente da obediência. Essa virtude é a fonte e origem de todas as virtudes e sem ela qualquer um é prontamente levado a ser infiel. Eis porque nós, na enumeração supra, importante como é, desejamos proceder com grande cuidado como é adequado, e cortar o avanço dessa praga e doença cancerosa, de modo que não se espalhe mais além no campo do Senhor como um nocivo espinheiro. Levantamos, portanto, uma inquirição cuidadosa, escrutínios, discussão, exame severo, e deliberação amadurecida com cada um dos irmãos, os eminentes cardeais da santa Igreja Romana, bem como com os priores e mestres gerais das ordens religiosas, ao lado de outros profissionais e mestres peritos na sagrada teologia, no direito civil e canônico. Concluímos que esses erros ou essas pessoas não são católicas, como dito acima, e não devem ser considerados como tais. Mas, antes, são contra à doutrina e à tradição da Igreja Católica, e contra a verdadeira interpretação das sagradas Escrituras recebida da Igreja. Agostinho afirmava que a autoridade desta tinha de ser aceita tão fielmente que confirmou não teria acreditado no Evangelho sem a autoridade da Igreja Católica que tinha se responsabilizado por ela. Por conseguinte, de acordo com esses erros, ou algum deles ou vários deles, claramente se segue que a Igreja que é guiada pelo Espírito Santo estaria em erro e sempre esteve errada. Isso é contra o que Cristo por ocasião de sua Ascensão prometeu a seus discípulos (como se lê no santo Evangelho de Mateus): “Estarei convosco até a consumação do mundo” ; está contra as determinações dos santos Padres, ou determinações e leis dos concílios e do supremo Pontífice. O mal de não concordar com essas leis, conforme o testemunho de Cipriano, poderá ser combustível e causa de toda heresia e cisma. Com o conselho e consenso desses nosso veneráveis irmãos, com deliberação amadurecida sobre cada uma das proposições supra, e pela autoridade do Deus Todo-Poderoso, dos santos apóstolos Pedro e Paulo, e de nossa própria autoridade, nós condenamos, reprovamos, e rejeitamos completamente cada uma dessas teses ou erros como heréticos, escandalosos, falsos, ofensivos aos ouvidos piedosos ou sedutores das mentes simples, e contra a verdade católica. Listando-os, nós decretamos e declaramos que todos os fiéis de ambos os sexos devem considerá-los como condenados, reprovados e rejeitados… Nós os proibimos a todos em nome da santa obediência e sob as penas de uma automática excomunhão… Ainda mais, por causa dos precedentes erros e de muitos outros contidos nos livros ou escritos e sermões de Martinho Lutero, nós do mesmo modo condenamos, reprovamos e rejeitamos completamente os livros e todos os escritos e sermões do citado Martinho, seja em Latim seja em qualquer outra língua , que contenham os referidos erros ou qualquer um deles ; e desejamos que sejam considerados totalmente condenados, reprovados e rejeitados. Proibimos a todos e a qualquer um dos fiéis de ambos os sexos, em nome da santa obediência e sob as penas acima em que incorrerão automaticamente, de ler, sustentar, pregar, louvar, imprimir, publicar ou defendê-los. Incorrerão nessas penas se ousarem apoiá-las de qualquer maneira, pessoalmente ou através de quem quer que seja, direta ou indiretamente, tácita ou explicitamente, pública ou ocultamente, seja em suas casas ou em outros lugares públicos ou privados. Na verdade, imediatamente após a publicação desta carta, essas obras devem ser procuradas aonde possam se encontrar, cuidadosamente, pelos ordinários e outros (eclesiásticos e regulares), e sob todas e cada uma das penas acima deverão ser queimadas publica e solenemente na presença dos clérigos e do povo. No quanto se refere ao próprio Martinho, ó bom Deus, de que nos descuidamos ou o que deixamos de fazer? Que caridade paternal omitimos para que pudéssemos fazê-lo retroceder de tais erros? Nós até lhe oferecemos salvo conduto e o dinheiro necessário para sua viagem, apressando-o a vir sem medo ou desconfiança de qualquer espécie, que seria refutado com total caridade, e falaria não secretamente mas abertamente e face à face, segundo o exemplo de nosso Salvador e do apóstolo Paulo. Se ele tivesse feito isso, estamos certos de que ele poderia ter mudado seu coração e poderia ter reconhecido seus erros. Ele reconsideraria ter encontrado todos esses erros na Cúria Romana que atacou tão erradamente, atribuindo-lhes mais do que poderia, porque derivados de boatos vazios de homens perversos . Poderíamos ter-lhe mostrado mais claramente do que à luz do dia que os pontífices Romanos , nossos predecessores, aos quais injuriosamente atacou passando além de toda decência, nunca erraram em suas leis ou constituições, as quais ele tentou censurar. Porque, de acordo com o profeta, nem falta óleo salutar nem o médico em Galaad. Mas ele sempre recusou a ouvir-nos e, desprezando a citação prévia e cada uma e todas as aberturas, não se dignou a vir a nós. Até agora ele tem sido contumaz. Com um espírito difícil, continuou sob censura mais de um ano. O que é pior, acrescentando mal a mal, e tomando conhecimento da citação, rompeu em insensato apelo a um concílio futuro. Isso seguramente seria contrário à constituição de Pio II e Júlio II, nossos predecessores, na qual todos os que apelassem nesse sentido deveriam ser punidos com as penas de heréticos. Em vão implorou pela ajuda de um concílio, já que abertamente admite que não acredita em concílio. Portanto, sem nenhuma nova citação ou demora, nós procedemos contra ele com sua condenação e execração, como contra alguém cuja fé é notoriamente suspeita e de fato seguramente herética, com toda a severidade de cada uma e todas as penas e censuras antes mencionadas. Contudo, com o conselho de nossos irmãos, imitando a misericórdia do Deus Todo-Poderoso que não quer a morte do pecador mas antes que ele se converta e viva, e esquecendo todas as injúrias feitas a nós e à Sé Apostólica, decidimos usar de toda a compaixão de que somos capazes. Ë nossa esperança, tanta quanto podemos ter, que ele passe por uma mudança interior tomando o caminho da brandura que lhe propusemos, volte e se afaste de seus erros. Nós o receberemos bondosamente como ao filho pródigo retornando ao abraço da Igreja. Portanto, o próprio Martinho e todos aqueles que aderiram a ele, e aqueles que o abrigam e o apoiam, pelo coração cheio de misericórdia de nosso Deus e a aspersão do sangue de nosso Senhor Jesus Cristo pela qual e através de quem foi realizada a redenção do gênero humano e a edificação da santa madre Igreja, fique sabendo que de coração exortamos e suplicamos que pare de conturbar a paz, unidade e verdade da Igreja pela qual o Salvador rezou tão insistentemente ao Pai. Que ele se afaste de seus erros perniciosos, que possa voltar para nós. Se eles querem realmente obedecer, e nos pôr cientes por documentos legais que obedeceram, encontrarão em nós a afeição do amor de um pai, o acesso à fonte dos efeitos da caridade paternal e acesso à fonte da misericórdia e da clemência. Nós ordenamos, contudo, a Martinho que enquanto isso não ocorrer, pare com toda pregação ou com o oficio de pregador… [- Dado em Roma, em 15 de junho de 1520.] Tradução: José Fernandes Vidal #bulaspapais #bula #DECETROMANUMPONTIFICEM #Buladeexcomunhão #PAPALEÃOX #bulas #EXSURGEDOMINE

  • DECET ROMANUM PONTIFICEM (Bula de excomunhão de Martinho Lutero)

    PAPA LEÃO X “DECET ROMANUM PONTIFICEM” (aos 3 de janeiro do Ano do Senhor 1521) Bula de excomunhão de Martinho Lutero VIDE EXSURGE DOMINE I. Pelo poder que lhe foi conferido por Deus, o Romano Pontífice foi designado para administrar penas espirituais e temporais, segundo corresponda respectivamente a cada caso. O propósito disso é a repressão dos maliciosos desígnios de homens extraviados, que foram tão seduzidos pelo seu degradado impulso de fins perversos que esqueceram o temor de Deus, puseram de lado com desprezo decretos canônicos e mandamentos apostólicos, ousaram formular novos e falsos dogmas e introduziram o mal do cisma na Santa Igreja de Deus ― ou apoiaram, ajudaram e aderiram a tais cismáticos, os quais fazem comércio rasgando a túnica do nosso Redentor e a unidade da verdadeira fé. Portanto, compete ao Pontífice, por temor de que a barca de Pedro pareça navegar sem piloto ou remador, tomar severas medidas contra tais homens e seus sequazes e, mediante o aumento de medidas punitivas e outros oportunos remédios, fazer com que esses mesmos homens prepotentes, dedicados como são a fins perversos, juntamente com os seus apoiadores, não enganem a multidão dos simples com as suas mentiras e mecanismos enganadores, nem os arrastem juntos na adesão ao seu erro e à sua própria ruína, contaminando-os com o que equivale a uma contagiosa doença. Corresponde também ao Pontífice, depois de ter condenado os cismáticos, para evitar uma ainda maior perdição e confusão deles, mostrar e declarar pública e abertamente a todos os fiéis cristãos como são tremendas as censuras e penas às quais tal culpa pode levar, para que, por meio de tal declaração pública, aqueles possam, com contrição e remorso, voltar a si, fazendo retratação irrestrita das conversações proibidas, da amizade e, sobretudo, da obediência a tais réprobos excomungados, de maneira que possam evitar os castigos divinos e qualquer grau de participação nas condenações deles. II. Fomos informados de que, após essa precedente missiva ter sido exposta em público e ter transcorrido o intervalo ou intervalos nela prescritos ― e, com a presente, notificamos solenemente a todos os fiéis cristãos que esses intervalos transcorreram e estão transcorridos ―, muitos daqueles que tinham seguido os erros de Martinho Lutero tomaram conhecimento da nossa missiva e das suas advertências e injunções; o Espírito de um salutar conselho levou-os de novo a si, confessaram eles os seus erros e abjuraram a heresia conforme nossa instância e, voltando à verdadeira fé católica, obtiveram a bênção de absolvição que os mensageiros estavam autorizados a conceder; e, em diversos estados e localidades da Alemanha, os livros e escritos do mencionado Martinho foram publicamente queimados, como tínhamos mandado. Nada obstante ― e dizer isto nos dá grave dor e perplexidade ―, o próprio Martinho, o escravo de uma mente depravada, teve desprezo em revogar e renegar os seus erros no intervalo prescrito e em nos enviar uma única palavra de tal revogação, como por Nós paternalmente solicitado, ou em vir pessoalmente até Nós; ao invés, como uma pedra de tropeço, não temeu escrever e pregar coisas piores que antes contra Nós, esta Santa Sé e a fé católica, e levar outros a fazerem o mesmo. Agora é solenemente declarado herege; e assim também os demais, qualquer que seja a sua autoridade e grau, que não tiveram cuidado algum com a sua própria salvação, mas publicamente e perante os olhos de todos os homens se tornam sequazes da perniciosa e herética seita de Martinho; e aqueles que deram a ele aberta e publicamente ajuda, conselho e favor, encorajando-o na sua desobediência e obstinação, ou dificultando a publicação da nossa citada missiva. Tais homens incorreram nas penas estabelecidas naquela missiva e devem ser tratados legitimamente como hereges e evitados por todos os fiéis cristãos, como diz o Apóstolo [Epístola a Tito 3,10-11]. III. O nosso objetivo é que esses homens sejam legitimamente considerados na mesma esteira de Martinho e dos demais réprobos hereges e excomungados, e que, na hipótese de terem aderido com a mesma obstinação ao pecado do referido Martinho, compartilhem também das suas penas e seu próprio nome, trazendo em todos os lugares o título de “luteranos” e as penas que isso acarreta. As nossas instruções precedentes eram bem claras e eficazmente divulgadas, e, ao se observarem de forma estrita os nossos presentes decretos e declarações, não faltará nenhuma prova, aviso ou citação. Os nossos seguintes decretos são emitidos contra Martinho e os demais que o seguem na obstinação do seu propósito depravado e execrável, assim como contra aqueles que o defendem e protegem com escolta militar e não temem apoiá-lo com recursos próprios ou de qualquer outra forma, e têm a pretensão de lhe oferecer e custear ajuda, conselho e favor. Os seus nomes, sobrenomes e graus ― por mais elevada e fulgurante que seja a sua dignidade ― desejamos que se considerem incluídos nestes decretos com o mesmo efeito que se estivessem elencados individualmente e listados na sua publicação, a qual há de ser promovida com uma energia à altura da força do seu conteúdo. Sobre todos estes, decretamos as sentenças de excomunhão, de anátema, de nossa perpétua condenação e interdito, de privação de dignidades, honras e propriedades sobre eles e seus descendentes, de declarada inidoneidade para os próprios bens, de confisco dos seus bens e de traição; nestas e nas demais sentenças, censuras e penas que são infligidas pelo direito canônico aos hereges e que estão estabelecidas na nossa missiva supracitada, decretamos terem incidido todos esses homens para sua condenação. IV. Acrescentamos à nossa presente declaração, pela nossa autoridade apostólica, que os estados, territórios, campos, cidades e lugares em que esses homens temporariamente viveram ou que tiveram a ocasião de visitar, juntamente com as suas posses ― cidades a possuir catedrais e sedes metropolitanas, mosteiros e outras casas religiosas e lugares sagrados, privilegiados ou não privilegiados ―, todos e cada um são colocados sob o nosso interdito eclesiástico; enquanto durar esse interdito, nenhuma pretensão de indulgência apostólica deve valer para permitir a celebração da missa e dos demais ofícios divinos (com exceção dos casos permitidos pela lei e, também ali, por assim dizer, a portas fechadas e excluídos aqueles sob excomunhão e interdito). Prescrevemos e ordenamos que os homens em questão sejam em toda a parte denunciados publicamente como excomungados, réprobos, condenados, interditados, privados de bens e incapazes de possuí-los. Sejam eles rigorosamente evitados por todos os fiéis cristãos. V. Queremos tornar conhecido de todos o mesquinho comércio que Martinho, os seus sequazes e os demais rebeldes estabeleceram, pela sua temeridade obstinada e sem vergonha, sobre Deus e sua Igreja. Queremos proteger o rebanho de um animal infeccioso, para que a sua infecção não se espalhe para as ovelhas saudáveis. Por isso, damos o seguinte mandado a todos os patriarcas, arcebispos, bispos, prelados de igrejas patriarcais, metropolitanas, catedrais e colegiadas, e religiosos de todas as ordens ― inclusive as mendicantes ― privilegiadas ou não privilegiadas, onde quer que se encontrem: que, em virtude do seu voto de obediência e sob pena de sentença de excomunhão, se assim for exigido para a execução destes decretos, anunciem publicamente e façam anunciar por meio de outros nas suas igrejas que esse mesmo Martinho e a sua facção são excomungados, réprobos, condenados, hereges, endurecidos, interditados, privados de bens e incapazes de possuí-los, e dessa forma elencados na execução destes decretos. Três dias serão concedidos: pronunciamos advertência canônica e concedemos um dia de pré-aviso sobre a primeira advertência, outro na segunda, mas, no terceiro, execução peremptória e definitiva da nossa ordem. Isso terá lugar no domingo ou em algum outro dia de festa, quando uma grande multidão se reúne para o culto. Seja alçado o estandarte da cruz, soem os sinos, acendam-se as velas e, após algum tempo, sejam apagadas, lançadas ao chão e pisadas, e pedras sejam lançadas três vezes, e observem-se as demais cerimônias de costume. Os fiéis cristãos, todos e cada um, sejam intimados estritamente a evitar esses homens. Quiséramos uma outra vez contrastar o referido Martinho e os demais hereges que mencionamos, e, ainda, os seus adeptos, sequazes e partidários: desde já, mandamos a todo e cada um dos patriarcas, arcebispos e todos os demais prelados, em virtude do seu voto de obediência, que, sendo eles precisamente encarregados de dissipar cismas com a autoridade de São Jerônimo, devem, na atual crise, como lhes obriga o seu ofício, erguer uma muralha de defesa para o seu povo cristão. Estes não devem calar-se, como cães mudos que não podem latir [Isaías 56,10], mas incessantemente clamar e levantar a voz da pregação, fazendo com que seja anunciada a palavra de Deus e a verdade da fé católica contra os artigos condenados e heréticos citados acima. VI. A todos os reitores de igrejas paroquiais, aos reitores de todas as ordens, mesmo as mendicantes, privilegiadas ou não privilegiadas, em virtude do voto de obediência, designados que são pelo Senhor para ser como as nuvens, que espalham chuvas espirituais sobre o povo de Deus, mandamos, nos mesmos termos, que não tenham medo de dar a maior publicidade à condenação dos artigos acima mencionados, como lhes obriga o seu ofício. Está escrito que o amor perfeito expulsa o medo. Que cada um de vós assuma o encargo desse meritório dever com completa devoção; mostrai-vos tão escrupulosos na sua execução, tão zelosos e solícitos em palavras e atos que, por meio dos vossos trabalhos, com o auxílio da divina graça, venha a esperada colheita e, pela vossa devoção, vós não somente ganheis aquela coroa de glória que é a recompensa devida a todos os que promovem a defesa da fé, mas também obtenhais de Nós e da Santa Sé o elogio irrestrito que a vossa diligência merece. VII.No entanto, uma vez que seria difícil entregar a presente missiva, com as suas declarações e avisos, a Martinho em pessoa e aos outros declarados excomungados, por causa da força da sua facção, a nossa vontade é que a afixação pública desta missiva nas portas de duas catedrais ― ambas metropolitanas, ou uma catedral e uma metropolitana dentre as igrejas da Alemanha ―, por meio de um mensageiro nosso naqueles lugares, tenha uma força vinculante tal que Martinho e os demais que mencionamos devem mostrar-se condenados em todos os pontos peremptoriamente, como se a missiva tivesse sido levada ao seu conhecimento e apresentada a eles pessoalmente. VIII.Também seria difícil transmitir esta missiva em cada lugar onde a sua publicação pudesse ser necessária. Daí a nossa vontade e decreto legítimo de que cópias suas, seladas por prelado eclesiástico ou por um dos nossos mensageiros anteriormente referidos, e autenticadas pela mão de notário público, tenham a mesma autoridade da proposição e exibição do próprio original. IX.Nada obste a nossa vontade em constituições apostólicas, em decretos, na nossa já referida missiva precedente ou em quaisquer outros pronunciamentos em contrário. X. Ninguém em absoluto pode infringir esta nossa decisão escrita, declaração, preceito, injunção, designação, vontade, decreto ou temerariamente contrariá-los. Se alguém se atrever a tentar tal coisa, saiba que incorrerá na ira de Deus Todo-Poderoso e dos Bem-Aventurados Apóstolos Pedro e Paulo. Dado em Roma, junto de São Pedro, em 3 de janeiro de 1521, no oitavo ano do nosso pontificado. S. S. PAPA LEÃO X #bulaspapais #bula #DECETROMANUMPONTIFICEM #Buladeexcomunhão #PAPALEÃOX #MartinhoLutero #bulas

  • Padre Paulo Ricardo é atacado por sites de esquerda e um leigo responde

    Por Marco Túlio Penitente — Publicado recentemente nos sites da Unisinos e Mídia Ninja, o artigo intitulado “Padre Paulo Ricardo: cavaleiro de batina do apocalipse pandêmico”, do prof. dr. Fábio Py, contém uma série de imprecisões e erros graves de escrita que, somados às acusações não menos graves ali feitas, merecem ao menos alguma resposta pública, por breve que seja. Tenha-se presente que, para avaliar o acerto ou não dessa resposta, não é necessário “gostar” do Pe. Paulo nem estar de acordo com tudo o que ele diz ou com o modo como o diz. A justiça deve ser defendida sempre, mesmo que um abismo de divergências — políticas, ideológicas, teológicas, filosóficas, culinárias etc. — nos separe do acusado injustamente. I. — Além de problemas de pontuação ao longo do texto, leem-se coisas como “contra censo”, em vez de “contrassenso”; “dispares” sem acento; “nem tão pouco”, quando o correto é simplesmente “tampouco”; “a alimentando”, em vez de “alimentando-a”; “dedica-se na”, para citar só algumas. Deixamos ao leitor o trabalho de identificar todas as faltas de concordância verbo-nominal, pois há mais de uma (por exemplo, “desenvoltura discursiva que retroalimentam…”). São erros que dificilmente se podem desculpar como “deslizes” ou “desatenção”, muito menos se o autor deles, além de ser professor universitário, afirma no currículo ter domínio razoável de pelo menos outras quatro línguas (espanhol, inglês, francês e italiano). Desde quando o poliglotismo gera inépcia no uso do idioma materno? As formações iniciam esta semana, totalmente gratuito! II. — Quanto às “imprecisões” de conteúdo, o artigo começa mal e em questões de fácil verificação. Destaquemos somente três casos, já que o espaço não dá para mais, e a falsidade tem sempre a vantagem de ser mais curta que os esforços para desmascará-la: a) Em primeiro lugar, o Pe. Paulo Ricardo não é uma “figura recorrentemente citada” por Bolsonaro. Que me lembre, Bolsonaro o mencionou duas ou, no máximo, três vezes desde a eleição. Se o autor afirma o contrário, que apresente em apêndice ou nota de rodapé uma lista de citações públicas, expressas e representativas, isto é, nas quais o atual presidente se valha da autoridade ou de ideias do padre para endossar os próprios projetos políticos. Aliás, ainda que Bolsonaro o citasse frequentemente, daí não se seguiria que o Pe. Paulo é um “teólogo orgânico” a serviço dos interesses do atual governo; seguir-se-ia, se tanto, que o atual governo — se justa ou injustificadamente, já é outra questão — se aproveita dele para autenticar os próprios interesses. Governos sempre agiram assim. Nihil novi sub sole. b) É falso, ademais, que “muitos dos vídeos no Youtube vetam a inserção de comentários”. Na verdade, a maioria maciça dos vídeos (são cerca de 2900 uploads), quase todos pertencentes ao programa “Homilia Diária” (que soma quase 1700 uploads), está aberta à discussão. Aliás, um canal como o do Pe. Paulo tem todo o direito, concedido pela própria plataforma, de fechar a seção de comentários, se assim julgar conveniente. Afinal, o objetivo do Youtube, que não é um fórum de debates, não é “propagar polêmicas”. E não esqueçamos: fechar a seção de comentários não impede que os usuários “negativem” os vídeos. Ninguém, pois, está impedido de manifestar desacordo com as produções do canal. O autor porém dá a entender que o padre “foge” das críticas, mantendo-se num olimpo de indiferença e surdez às (muitas?) vozes divergentes. c) O Pe. Paulo em momento algum defendeu a liberalização indiscriminada de armas, ao contrário do que o artigo parece insinuar. Limitou-se a expor o que, goste-se ou não, é doutrina católica: a posse de armas de fogo, cumpridas certas condições, não é algo errado e, em certas circunstâncias, pode ser um meio legítimo de defesa da própria vida ou dos próprios bens contra um injusto agressor. Ora, que alguém veja nisso uma oportunidade para, extrapolando os limites da doutrina, defender por outros motivos a livre circulação de armas na sociedade civil, já não é responsabilidade do Pe. Paulo, como tampouco o é da Igreja Católica. E vale lembrar: o vídeo em que o Pe. Paulo fala sobre o desarmamento é de 2011, ou seja, 7 anos antes de Bolsonaro “repostá-lo” em suas redes. III. — Os erros de escrita e a interpretação enviesada que o autor impõe a algumas falas do Pe. Paulo não só desmerecem o título de doutor que ostenta no currículo e a posição que ocupa como professor de pós-graduação; são também um indício de que o artigo não é fruto de estudo sereno e reflexão imparcial, como se esperaria de um acadêmico comprometido com a verdade, mas, ao que tudo indica, expressão de simples antipatia pelo atual governo (e, por tabela, por todas as pessoas direta ou indiretamente a ele relacionadas), antipatia que se extravasa em formas mais adequadas a um “textão de Facebook” escrito às pressas que a uma revista digital de uma instituição de ensino — pasmem — católica. (Um desabafo. — É triste que a formação universitária, como todos podem constatar, tenha-se reduzido ao aprendizado de um vocabulário de “super-categorias” que soam talvez muito “inteligentes” e cujo manuseio parece dar a seus usuários certo senso de “superioridade analítica”, embora não passe de palavrório pomposo sob cuja gordura se esconde um organismo sem músculos. O artigo do prof. Fábio Py é prova de que, com um diploma, é possível falar de “eugenia sócio-biológica”, de religiões de “matriz afro-diaspóricas”, de “construções teológicas”, de “mentalidades persecutórias”, de “biopolítica do capitalismo”, sem saber concordar o verbo com o sujeito.) Postado originalmente em: https://joao-pedro.medium.com/breve-resposta-a-uma-inj%C3%BAria-p%C3%BAblica-44fc5538388c CURSO MARXISMO CULTURAL E REVOLUÇÃO CULTURAL – PADRE PAULO RICARDO Esta é uma série de palestras que busca compilar, de forma sistemática, o tema do Marxismo Cultural que se encontra difuso em diversos vídeos e palestras no site padrepauloricardo.org. O intuito é o de apresentar a revolução cultural dentro da Igreja ou, melhor dizendo, um estudo sistemático das raízes da Teologia da Libertação e de sua atuação dentro da Igreja Católica. Como reflexão teológica, o objetivo é o de identificar o que está acontecendo com a teologia e a maneira como o pensamento revolucionário está influenciando a forma de pensar a teologia, Deus, a Igreja e o sacerdócio. Porém, para se chegar à teologia é importante conhecer as raízes desta revolução, que se encontram na filosofia. O curso também irá abordar a razão pela qual a expressão teologia da libertação não é mais tema de discussão. Na realidade, ela já domina hegemonicamente o pensamento da própria Igreja. E é exatamente para desmascarar esse domínio velado que este curso é apresentado aos assinantes do site Christo Nihil Praeponere. Clique aqui para assistir: #PadrePauloRicardo

  • Padre Paulo Ricardo é atacado por sites de esquerda e um leigo responde

    Por Marco Túlio Penitente — Publicado recentemente nos sites da Unisinos e Mídia Ninja, o artigo intitulado “Padre Paulo Ricardo: cavaleiro de batina do apocalipse pandêmico”, do prof. dr. Fábio Py, contém uma série de imprecisões e erros graves de escrita que, somados às acusações não menos graves ali feitas, merecem ao menos alguma resposta pública, por breve que seja. Tenha-se presente que, para avaliar o acerto ou não dessa resposta, não é necessário “gostar” do Pe. Paulo nem estar de acordo com tudo o que ele diz ou com o modo como o diz. A justiça deve ser defendida sempre, mesmo que um abismo de divergências — políticas, ideológicas, teológicas, filosóficas, culinárias etc. — nos separe do acusado injustamente. I. — Além de problemas de pontuação ao longo do texto, leem-se coisas como “contra censo”, em vez de “contrassenso”; “dispares” sem acento; “nem tão pouco”, quando o correto é simplesmente “tampouco”; “a alimentando”, em vez de “alimentando-a”; “dedica-se na”, para citar só algumas. Deixamos ao leitor o trabalho de identificar todas as faltas de concordância verbo-nominal, pois há mais de uma (por exemplo, “desenvoltura discursiva que retroalimentam…”). São erros que dificilmente se podem desculpar como “deslizes” ou “desatenção”, muito menos se o autor deles, além de ser professor universitário, afirma no currículo ter domínio razoável de pelo menos outras quatro línguas (espanhol, inglês, francês e italiano). Desde quando o poliglotismo gera inépcia no uso do idioma materno? As formações iniciam esta semana, totalmente gratuito! II. — Quanto às “imprecisões” de conteúdo, o artigo começa mal e em questões de fácil verificação. Destaquemos somente três casos, já que o espaço não dá para mais, e a falsidade tem sempre a vantagem de ser mais curta que os esforços para desmascará-la: a) Em primeiro lugar, o Pe. Paulo Ricardo não é uma “figura recorrentemente citada” por Bolsonaro. Que me lembre, Bolsonaro o mencionou duas ou, no máximo, três vezes desde a eleição. Se o autor afirma o contrário, que apresente em apêndice ou nota de rodapé uma lista de citações públicas, expressas e representativas, isto é, nas quais o atual presidente se valha da autoridade ou de ideias do padre para endossar os próprios projetos políticos. Aliás, ainda que Bolsonaro o citasse frequentemente, daí não se seguiria que o Pe. Paulo é um “teólogo orgânico” a serviço dos interesses do atual governo; seguir-se-ia, se tanto, que o atual governo — se justa ou injustificadamente, já é outra questão — se aproveita dele para autenticar os próprios interesses. Governos sempre agiram assim. Nihil novi sub sole. b) É falso, ademais, que “muitos dos vídeos no Youtube vetam a inserção de comentários”. Na verdade, a maioria maciça dos vídeos (são cerca de 2900 uploads), quase todos pertencentes ao programa “Homilia Diária” (que soma quase 1700 uploads), está aberta à discussão. Aliás, um canal como o do Pe. Paulo tem todo o direito, concedido pela própria plataforma, de fechar a seção de comentários, se assim julgar conveniente. Afinal, o objetivo do Youtube, que não é um fórum de debates, não é “propagar polêmicas”. E não esqueçamos: fechar a seção de comentários não impede que os usuários “negativem” os vídeos. Ninguém, pois, está impedido de manifestar desacordo com as produções do canal. O autor porém dá a entender que o padre “foge” das críticas, mantendo-se num olimpo de indiferença e surdez às (muitas?) vozes divergentes. c) O Pe. Paulo em momento algum defendeu a liberalização indiscriminada de armas, ao contrário do que o artigo parece insinuar. Limitou-se a expor o que, goste-se ou não, é doutrina católica: a posse de armas de fogo, cumpridas certas condições, não é algo errado e, em certas circunstâncias, pode ser um meio legítimo de defesa da própria vida ou dos próprios bens contra um injusto agressor. Ora, que alguém veja nisso uma oportunidade para, extrapolando os limites da doutrina, defender por outros motivos a livre circulação de armas na sociedade civil, já não é responsabilidade do Pe. Paulo, como tampouco o é da Igreja Católica. E vale lembrar: o vídeo em que o Pe. Paulo fala sobre o desarmamento é de 2011, ou seja, 7 anos antes de Bolsonaro “repostá-lo” em suas redes. III. — Os erros de escrita e a interpretação enviesada que o autor impõe a algumas falas do Pe. Paulo não só desmerecem o título de doutor que ostenta no currículo e a posição que ocupa como professor de pós-graduação; são também um indício de que o artigo não é fruto de estudo sereno e reflexão imparcial, como se esperaria de um acadêmico comprometido com a verdade, mas, ao que tudo indica, expressão de simples antipatia pelo atual governo (e, por tabela, por todas as pessoas direta ou indiretamente a ele relacionadas), antipatia que se extravasa em formas mais adequadas a um “textão de Facebook” escrito às pressas que a uma revista digital de uma instituição de ensino — pasmem — católica. (Um desabafo. — É triste que a formação universitária, como todos podem constatar, tenha-se reduzido ao aprendizado de um vocabulário de “super-categorias” que soam talvez muito “inteligentes” e cujo manuseio parece dar a seus usuários certo senso de “superioridade analítica”, embora não passe de palavrório pomposo sob cuja gordura se esconde um organismo sem músculos. O artigo do prof. Fábio Py é prova de que, com um diploma, é possível falar de “eugenia sócio-biológica”, de religiões de “matriz afro-diaspóricas”, de “construções teológicas”, de “mentalidades persecutórias”, de “biopolítica do capitalismo”, sem saber concordar o verbo com o sujeito.) Postado originalmente em: https://joao-pedro.medium.com/breve-resposta-a-uma-inj%C3%BAria-p%C3%BAblica-44fc5538388c CURSO MARXISMO CULTURAL E REVOLUÇÃO CULTURAL – PADRE PAULO RICARDO Esta é uma série de palestras que busca compilar, de forma sistemática, o tema do Marxismo Cultural que se encontra difuso em diversos vídeos e palestras no site padrepauloricardo.org. O intuito é o de apresentar a revolução cultural dentro da Igreja ou, melhor dizendo, um estudo sistemático das raízes da Teologia da Libertação e de sua atuação dentro da Igreja Católica. Como reflexão teológica, o objetivo é o de identificar o que está acontecendo com a teologia e a maneira como o pensamento revolucionário está influenciando a forma de pensar a teologia, Deus, a Igreja e o sacerdócio. Porém, para se chegar à teologia é importante conhecer as raízes desta revolução, que se encontram na filosofia. O curso também irá abordar a razão pela qual a expressão teologia da libertação não é mais tema de discussão. Na realidade, ela já domina hegemonicamente o pensamento da própria Igreja. E é exatamente para desmascarar esse domínio velado que este curso é apresentado aos assinantes do site Christo Nihil Praeponere. Clique aqui para assistir: #PadrePauloRicardo

  • QUADRAGESIMO ANNO

    CARTA ENCÍCLICA QUADRAGESIMO ANNO DE SUA SANTIDADE PAPA PIO XI AOS VENERÁVEIS IRMÃOS, PATRIARCAS, PRIMAZES, ARCEBISPOS, BISPOS E DEMAIS ORDINÁRIOS EM PAZ E COMUNHÃO COM A SÉ APOSTÓLICA BEM COMO A TODOS OS FIÉIS DO ORBE CATÓLICO SOBRE A RESTAURAÇÃO E APERFEIÇOAMENTO DA ORDEM SOCIAL EM CONFORMIDADE COM A LEI EVANGÉLICA NO XL ANIVERSÁRIO DA ENCÍCLICA DE LEÃO XIII «RERUM NOVARUM» Veneráveis Irmãos e Amados Filhos Saúde e Bênção Apostólica No 40º aniversário da magistral encíclica de Leão XIII « Rerum novarum », todo o orbe católico, movido dos sentimentos da mais viva gratidão, propõe-se comemorá-la com a devida solenidade. A Encíclica « Rerum novarum ». Já antes, em certo modo, haviam preparado o caminho àquele documento de solicitude pastoral, as encíclicas do mesmo Nosso Predecessor sobre o princípio da sociedade humana que é a família e o santo sacramento do Matrimónio, (1) sobre a origem da autoridade civil, (2) e a devida ordem das suas relações com a Igreja, (3) sobre os principais deveres dos fieis como cidadãos, (4) contra os princípios do socialismo, (5) contra as falsas teorias da liberdade humana, (6) e outras do mesmo género que plenamente revelaram o modo de pensar de Leão XIII; contudo a encíclica « Rerum novarum » distingue-se das demais por ter dado a todo o género humano regras seguríssimas para a boa solução do espinhoso problema do consórcio humano, a chamada « Questão social », precisamente quando isso mais oportuno e necessário era. Sua ocasião Com efeito ao fim do século XIX, em consequência de um novo género de economia, que se ia formando, e dos grandes progressos da indústria em muitas nações, aparecia a sociedade cada vez mais dividida em duas classes: das quais uma, pequena em número, gozava de quase todas as comodidades que as invenções modernas fornecem em abundância; ao passo que a outra, composta de uma multidão imensa de operários, a gemer na mais calamitosa miséria, debalde se esforçava por sair da penúria, em que se debatia. Com tal estado de coisas facilmente se resignavam os que, nadando em riquezas, o supunham efeito inevitável das leis económicas, e por isso queriam que se deixasse à caridade todo o cuidado de socorrer os miseráveis; como se a caridade houvesse de capear as violações da justiça, não só toleradas, mas por vezes até impostas pelos legisladores. Ao contrário só a duras penas o toleravam os operários, vítimas da fortuna adversa, e tentavam sacudir o jugo duríssimo: uns, levados na fúria de maus conselhos, aspiravam a tudo subverter, os outros, a quem a educação cristã demovia d’esses maus intentos, estavam contudo firmemente convencidos de que nesta matéria era necessária uma reforma urgente e radical. O mesmo pensavam todos os católicos, sacerdotes ou leigos, que, impelidos por uma caridade admirável, já de há muito trabalhavam em aliviar a miséria imerecida dos operários, não podendo de modo nenhum persuadir-se de que uma diferença tão grande e tão iníqua na distribuição dos bens temporais correspondesse verdadeiramente aos desígnios sapientíssimos do Criador. Procuravam eles com toda a lealdade um remédio eficaz a esta lamentável desordem da sociedade e uma firme defesa contra os perigos ainda maiores que a ameaçavam; mas tal é a fraqueza mesmo das melhores inteligências humanas, que ora se viam repelidos como inovadores perigosos, ora obstaculados por companheiros de acção mas de ideais diversos: e assim hesitantes entre várias opiniões, nem sabiam para onde voltar-se. No meio de tão grande luta de espíritos, quando de uma parte e doutra ferviam disputas nem sempre pacíficas, todos os olhos se volviam, como tantas outras vezes, para a cátedra de Pedro, para este depósito sagrado de toda a verdade, donde se difundem pelo mundo inteiro palavras de salvação; e todos, sociólogos, patrões, operários, acorrendo com frequência desusada aos pés do Vigário de Cristo na terra, suplicavam a uma voz que se lhes indicasse enfim o caminho seguro. Prudentíssimo como era o Pontífice, tudo ponderou longamente diante de Deus, chamou a conselho homens de reconhecida ciência, pesou bem as razões por uma parte e outra, e finalmente movido « pela consciência do múnus Apostólico », (7) para que não parecesse, que descurava os seus deveres calando por mais tempo, (8) decidiu-se a falar a toda a Igreja de Cristo, antes a todo o género humano, no exercício do magistério divino a ele confiado. Ressoou por tanto no dia 15 de maio de 1891 aquela voz há tanto suspirada, ressoou robusta e clara, sem que a intimidassem as dificuldades, nem a enfraquecesse a velhice, e ensinou à família humana, a empreender novos caminhos no terreno social. Tópicos principais Conheceis, veneráveis Irmãos e amados Filhos, e sabeis perfeitamente a admirável doutrina, que tornou a encíclica « Rerum novarum » digna de eterna memória. Nela o bom Pastor, condoído ao ver « a miserável e desgraçada condição, em que injustamente viviam » tão grande parte dos homens, tomou animoso a defesa dos operários, que « as condições do tempo tinham entregado e abandonado indefesos à crueldade de patrões desumanos e à cobiça de uma concorrência desenfreada ».(9) Não pediu auxílio nem ao liberalismo nem ao socialismo, pois que o primeiro se tinha mostrado de todo incapaz de resolver convenientemente a questão social, e o segundo propunha um remédio muito pior que o mal, que lançaria a sociedade em perigos mais funestos. O Pontífice no uso do seu direito e convencido de que a ele principalmente fora confiada a salvaguarda da religião e de tudo o que com ela está estreitamente vinculado, pois se tratava de um problema « a que não se podia encontrar solução plausível sem o auxílio da religião e da Igreja », (10) apoiando-se unicamente nos princípios imutáveis tirados do tesoiro da recta razão e da revelação divina, confiadamente e « como quem tinha autoridade », (11) expôs com inexcedível clareza e proclamou não só « os direitos e os deveres que devem reger as relações mútuas dos ricos e dos proletários, dos capitalistas e dos trabalhadores », (12) mas também a parte que deviam tomar a Igreja, a autoridade civil e os próprios interessados na solução dos conflitos sociais. Nem a voz Apostólica ressoou debalde; antes, com assombro a ouviram e a aplaudiram com suma benevolência, além dos filhos obedientes da Igreja, muitos dos que viviam longe da verdade e da unidade da fé e quase todos os que depois se ocuparam de sociologia e economia tanto no estudo teórico como na pública legislação. Foram porém os operários cristãos os que com maior alegria acolheram a encíclica ao verem-se assim vingados e defendidos pela suprema Autoridade da terra e com eles todas as almas generosas, que, já de há muito empenhadas em aliviar a sorte dos operários, não tinham encontrado senão indiferença em muitos, suspeitas odientas e até manifesta hostilidade em muitos outros. E é por isso que todos estes tiveram depois em tanta estima aquelas letras Apostólicas, que todos os anos costumam celebrar-lhe a memória com demonstrações de gratidão diversas nas diversas terras. No meio de tanta harmonia de sentimentos não faltaram vozes discordantes de alguns, mesmo de católicos, a quem a doutrina de Leão XIII, tão nobre e elevada, tão nova para humanos ouvidos pareceu suspeita e até escandalizou. Ela assaltava ousadamente e derribava os ídolos do liberalismo, não fazia caso de preconceitos inveterados, prevenia inopinadamente o futuro: que muito que os rotineiros desdenhassem aprender esta nova filosofia social e os tímidos receassem subir a tais alturas, ao passo que outros, admirando aquela luz, a reputavam perfeição ideal, mais para desejar que para realizar? Fim da presente Encíclica Por isso é que Nós, veneráveis Irmãos e amados Filhos, agora que todo o mundo e sobretudo os operários católicos, que de toda a parte acodem a esta Alma Cidade, comemoram com tanta solenidade e entusiasmo o quadragésimo aniversário da encíclica « Rerum novarum », julgamos dever Nosso aproveitar esta ocasião para recordar os grandes. benefícios que dela advieram à Igreja católica e a toda a humanidade; defender a doutrina social e económica de tão grande Mestre satisfazendo a algumas dúvidas, desenvolvendo mais e precisando alguns pontos; finalmente, chamando a juízo o regime económico moderno e instaurando processo ao socialismo, apontar a raiz do mal estar da sociedade contemporânea e mostrar-lhe ao mesmo tempo a única via de uma restauração salutar, que é a reforma cristã dos costumes. Eis os três pontos da presente encíclica. I. BENEFÍCIOS DA «RERUM NOVARUM » Para começarmos pelo que em primeiro lugar propusemos, seguindo a advertência de S. Ambrósio, (13) que a gratidão é o primeiro e mais imperioso dos deveres, não podemos conter-Nos que não demos a Deus as maiores acções de graças pelos imensos benefícios que da encíclica de Leão XIII advieram à Igreja e a todo o género humano. Se Nós os quiséssemos enumerar, mesmo de passagem, deveríamos por assim dizer, recordar toda a história dos últimos quarenta anos, na parte relativa à questão social. Mas tudo se pode reduzir a três pontos, conforme ao tríplice concurso que o Nosso Predecessor desejava, para poder levar a efeito a sua obra grandiosa de restauração. 1. – ACÇÃO DA IGREJA Em primeiro lugar o que da Igreja se podia esperar, declarou-o eloquentemente o mesmo Leão XIII : « A Igreja é a que aufere do Evangelho a única doutrina capaz de pôr termo à luta, ou ao menos de a suavizar, tirando-lhe toda a aspereza; é ela que com seus preceitos instrui as inteligências e se esforça por moralizar a vida dos indivíduos; que com utilíssimas instituições melhora continuamente a sorte dos proletários ». (14) a) No campo doutrinal Ora a Igreja não deixou estagnar no seu seio esta linfa preciosa, senão que a fez correr em abundância para o bem comum da suspirada paz. O próprio Leão XIII e seus Sucessores não cessaram de proclamar de viva voz e por escrito a doutrina social e económica da encíclica « Rerum novarum », urgindo-a e aplicando-a segundo a ocasião às circunstâncias de tempo e lugar, com aquela caridade paterna e constância pastoral, que sempre os distinguiu na defesa dos pobres e desvalidos. (15) Nem foi outro o proceder de grande parte do Episcopado, que com assiduidade e maestria declarou e comentou a mesma doutrina, adaptando-a às condições dos diversos países, segundo a mente e as directivas da Santa Sé. (16) Não é pois de admirar, que muitos sábios quer eclesiásticos quer leigos se aplicassem diligentemente, seguindo a orientação dada pela Igreja, a desenvolver a ciência social e económica, conforme às exigências do nosso tempo, levados sobretudo do desejo de tornar a doutrina inalterada e inalterável da Igreja mais eficaz para remediar as necessidades modernas. Foi assim que à luz e sob o impulso da encíclica de Leão XIII nasceu uma verdadeira ciência social católica, cultivada e enriquecida continuamente pela indefessa aplição d’aquêles varões escolhidos, que chamámos cooperadores da Igreja. Nem eles a deixam escondida na sombra de simples discussões eruditas, mas expõem-na à luz do sol em públicas palestras, como o demonstram exuberantemente os cursos, tão úteis e tão frequentados, instituídos nas universidades católicas, academias e seminários, os congressos ou « semanas sociais » celebrados frequentemente e com grande fruto, os círculos de estudos, os escritos repletos de oportuna e sã doutrina, por toda a parte e por todos os modos divulgados. E não são estes apenas os frutos do documento Leoniano : a doutrina ensinada na encíclica « Rerum novarum » impôs-se insensivelmente à atenção d’aqueles mesmos que, separados da unidade católica, não reconhecem a autoridade da Igreja ; e assim os princípios de sociologia católica entraram pouco a pouco no património de toda a sociedade humana ; e as verdades eternas, tão altamente proclamadas pela santa memória do Nosso Predecessor, vemo-las frequentemente citadas e defendidas não só em jornais e livros mesmo acatólicos, mas até nos parlamentos e tribunais. E quando após a grande guerra os governantes das principais potências, trataram de restabelecer a paz sobre as bases de uma completa renovação social, entre as leis, feitas para regular o trabalho dos operários segundo a justiça e a equidade, decretaram muitas tão conformes com os princípios e directivas de Leão XIII, que parecem intencionalmente copiadas. É que a encíclica « Rerum novarum » é um documento tão notável, que bem se pode dizer com palavras de Isaias : « Estandarte arvorado à face das nações »! (17) b) Na prática Assim se iam divulgando cada vez mais à luz das investigações científicas os preceitos de Leão XIII ; ao mesmo tempo passava-se à sua aplicação prática. E primeiramente com actividade e benevolência fizeram-se todos os esforços para. elevar aquela classe, que os recentes progressos da indústria tinham aumentado desmedidamente sem lhe darem na sociedade o lugar que lhe competia, e que por isso jazia em quase completa desconsideração e abandono : falamos dos operários., a cuja cultura zelosos sacerdotes de um e outro clero, apesar de sobrecarregados com outros cuidados pastorais, se aplicaram desde logo, sob a guia dos respectivos Prelados e com grande fruto d’aquelas almas. Este trabalho constante vara embeber de espírito cristão as almas dos operários contribuiu também muitíssimo para lhes dar a verdadeira consciência da própria dignidade, e para habilitá-los, pela compreensão clara dos direitos e deveres da sua classe, a progredir honrada e felizmente no campo social e económico, a ponto de servirem de guias aos outros. Daqui os meios de subsistência melhor assegurados e em maior cópia : por quanto não só começaram a multiplicar-se segundo as exortações do grande Pontífice as obras de caridade e beneficência, mas também foram surgindo por toda a parte e cada vez mais numerosas as associações de mútuo socorro para operários, artistas, agricultores e jornaleiros de toda a espécie, fundadas segundo os conselhos e directivas da Igreja e ordinariamente sob a direcção do clero. 2. – ACÇÃO DA AUTORIDADE CIVIL Quanto à autoridade civil, Leão XIII, ultrapassando com audácia os confins impostos pelo liberalismo, ensina impertérrito, que ela não deve limitar-se a tutelar os direitos e a ordem pública, mas antes fazer o possível « para que as leis e instituições sejam tais… , que da própria organização do Estado dimane espontaneamente a prosperidade da nação e dos indivíduos ». (18) Deve sim deixar-se tanto aos particulares como às famílias a justa liberdade de acção, mas contanto que se salve o bem comum e não se faça injúria a ninguém. Aos governantes compete defender toda a nação e os membros que a constituem, tendo sempre cuidado especial dos fracos e deserdados da fortuna ao proteger os direitos dos particulares. « Por quanto a classe abastada, munida dos seus próprios recursos, carece menos do auxílio público; pelo contrário a classe indigente, desprovida de meios pessoais, esteia-se sobre tudo na protecção do Estado. Por conseguinte deve ele atender com particular cuidado e providência aos operários, visto serem eles do número da classe pobre ». (19) Não negamos que alguns governantes, já antes da encíclica de Leão XIII, tivessem provido às necessidades mais urgentes dos obreiros e reprimido as injustiças de maior vulto a estes feitas. Mas foi só depois que a palavra Apostólica ressoou ao mundo inteiro desde a cátedra de Pedro, que os governos, capacitando-se mais da sua missão, se aplicaram a desenvolver uma política social mais activa. E na verdade, em quanto vacilavam os princípios do liberalismo, que havia muito paralisavam a obra eficaz dos governos, a encíclica « Rerum novarum» produziu no seio das nações uma grande corrente favorável a uma política francamente social, e de tal modo excitou os melhores católicos a cooperar com as autoridades, que não raro foram eles os defensores mais ilustres da nova legislação nos próprios parlamentos. Mais ainda : foram ministros da Igreja compenetrados da doutrina de Leão XIII que propuseram às câmaras muitas das leis sociais recentemente promulgadas, e que depois mais urgiram e promoveram a sua execução. Deste contínuo e indefesso trabalho nasceu aquela jurisprudência completamente desconhecida nos séculos passados, que se propõe defender com ardor os sagrados direitos do operário, provenientes da sua dignidade de homem e de cristão : de facto estas leis protegem a alma, a saúde, as forças, a família, as casas, as oficinas, o salário, abrangem os acidentes de trabalho, numa palavra, tudo aquilo que interessa a classe trabalhadora, principalmente as mulheres e crianças. E se uma tal legislação não condiz de todo nem em toda a parte com as normas de Leão XIII, não se pode contudo negar haver nela muitas reminiscências da encíclica « Rerum novarum » e que à mesma por conseguinte se deve atribuir em grande parte a melhorada condição dos operários. 3. – ACÇÃO DOS INTERESSADOS Mostra enfim muito prudentemente o Pontífice, que os patrões e os próprios operários podem fazer muito nesta matéria, « com as instituições destinadas a levar auxílio oportuno aos indigentes e a aproximar mais uma classe da outra ». (20) Entre estas dá Leão XIII o primeiro lugar às associações que abrangem quer somente os operários, quer operários e patrões; e alarga-se em recomendá-las e ilustrá-las, declarando a sua natureza, razão de ser, conveniência, direitos, deveres, leis, com sabedoria verdadeiramente admirável. Nem estes ensinamentos podiam vir em ocasião mais oportuna : com efeito nesse tempo os que tinham na mão em muitas nações o leme do Estado, totalmente impregnados de liberalismo, não só não eram favoráveis às associações operárias, mas até abertamente as hostilizavam ; e quando reconheciam de boa vontade e tutelavam instituições análogas entre outras classes, negavam com injustiça flagrante o direito natural de associação àqueles, que mais necessitavam dele, para se defender das vexações dos poderosos ; nem faltou ainda mesmo entre os católicos quem visse de maus olhos, acoimando-os de socialistas ou anárquicos, os esforços dos operários em associar-se. A) Associações operárias São por tanto dignas dos maiores encómios as normas emanadas da autoridade de Leão XIII, que lograram derribar tais obstáculos, e desfazer tais suspeitas ; mas tornaram-se ainda mais importantes, por terem exortado os operários cristãos a associarem-se segundo os vários misteres, ensinando-lhes o meio de o conseguirem, e por terem ainda consolidado no caminho do dever muitos, a quem as associações socialistas seduziam fortemente, apregoando-se a si mesmas únicos defensores e propugnadores dos humildes e oprimidos. Quanto à erecção destas associações, a encíclica « Rerum novarum» observa muito a propósito, « que as corporações devem organizar-se e governar-se de modo que forneçam a cada um de seus membros os meios mais fáceis e expeditos para conseguirem seguramente o fim proposto, isto é : a maior cópia possível, para cada um, de bens do corpo, do espírito e da fortuna »; porém é claro « que sobretudo se deve ter em vista, como mais importante, a perfeição moral e religiosa; e que por ela se deve orientar todo o regulamento destas sociedades ». (21) Com efeito « constituída assim a religião como fundamento de todas as leis sociais, não é difícil determinar as relações que devem existir entre os membros para que possam viver em paz e prosperar . (22) Desejosos de levar a efeito a aspiração de Leão XIII, muitos do clero e do laicado dedicaram-se por toda a parte com louvável empenho a fundar estas associações; as quais protegidas pela religião, embebidas do seu espírito, formaram operários verdadeiramente cristãos, que uniam em boa harmonia o exercício diligente da própria arte com os preceitos salutares da religião e defendiam eficaz e tenazmente os próprios direitos e interesses temporais, tendo sempre em conta a justiça e o sincero desejo de colaborar com as outras classes para a restauração cristã de toda a vida social. Diverso segundo as várias circunstâncias locais foi o esforço em realizar os desígnios e as normas de Leão XIII. De facto nalgumas regiões a mesma associação abraçava todos os fins visados pelo Pontífice ; noutras ao contrário chegou-se a uma certa divisão de actividade; e formaram-se associações distintas, umas para zelar os direitos e interesses legítimos dos sócios nos contractos de trabalho, outras para organizar o mútuo auxílio económico, outras finalmente para o desempenho dos deveres religiosos e morais e de outras obrigações análogas. Este segundo método prevaleceu sobretudo nos países, onde as leis pátrias, as instituições económicas, ou a discórdia de inteligências e corações tão deploravelmente enraizada na sociedade moderna ou ainda a, necessidade urgente de opor uma frente única aos inimigos da ordem, impediam aos católicos a fundação de sindicatos próprios. Num tal estado de coisas os católicos vêem-se quase obrigados a inscrever-se em sindicatos neutros, uma vez que façam profissão de justiça e equidade e deixem aos sócios católicos plena liberdade de obedecer à própria consciência e cumprir os preceitos da Igreja. Pertence aos Bispos, se reconhecerem que tais associações são impostas pelas circunstâncias e não oferecem perigo para a religião, permitir que os operários católicos se inscrevam nelas, observando contudo a este respeito as normas e precauções recomendadas por Nosso Predecessor Pio X, de santa memória. (23) Primeira e a mais importante é, que ao lado dos sindicatos existam sempre outros grupos com o fim de dar a seus membros uma séria formação religiosa e moral, para que eles depois infiltrem nas organizações sindicais o bom espírito que deve animar toda a sua actividade. Sucederá assim que estes grupos exercerão benéfica influencia mesmo fora do próprio âmbito. Por isso deve atribuir-se à encíclica Leoniana o terem florescido tanto por toda a parte estas associações operárias, que já hoje, apesar de serem, infelizmente, ainda inferiores em número às dos socialistas e comunistas, agrupam notável multidão de sócios e podem defender energicamente os direitos e aspirações legítimas do operariado católico e propugnar os salutares princípios da sociedade cristã, quer fronteiras a dentro da pátria, quer em congressos internacionais. B) Associações não operárias Acresce ao sobredito, que a doutrina relativa ao direito natural de associação tão sabiamente exposta e com tanto valor defendida por Leão XIII, começou naturalmente a aplicar-se também a associações não operárias; pelo quê deve-se em grande parte mesma encíclica, que até entre os agricultores e outros membros da classe média se vejam florescer e multiplicar de dia para dia estas utilíssimas corporações e outros institutos similares, que aliam felizmente os interesses económicos à formação espiritual. C) Associações de industriais E se não pode dizer-se o mesmo das associações que o Nosso Predecessor tão ardentemente desejava ver instituídas entre patrões e industriais, e que lamentamos sejam tão poucas, não deve isso atribuir-se completamente à má vontade dos homens, mas a dificuldades muito maiores que se opõem à sua realização, dificuldades que Nós muito bem conhecemos e avaliamos na devida conta. Temos porém segura esperança de que para breve até essas dificuldades desaparecerão e saudamos já com íntimo júbilo da alma alguns esforços envidados com vantagem neste particular, cujos frutos abundantes prometem messe ainda mais copiosa para o futuro. (24) CONCLUSÃO: A « MAGNA CHARTA » DOS OPERÁRIOS Todos estes benefícios da encíclica de Leão XIII que Nós, veneráveis Irmãos e amados Filhos, acabamos de recordar, acenando-os mais do que descrevendo-os, são tais e tão grandes, que mostram claramente como o imortal documento não era apenas a expressão de um ideal magnífico mas irrealizável. Ao contrário o Nosso ilustre Predecessor hauriu no Evangelho, e portanto numa fonte sempre viva e vivificante a doutrina que pode, senão resolver já de vez, ao menos abrandar muito a luta fatal em que mutuamente se digladia a família humana. Os frutos de salvação recolhidos pela Igreja de Cristo e por todo o género humano, com a graça de Deus, mostram bem que a boa. semente, espalhada há quarenta anos em tão larga cópia, caiu em grande parte numa terra fértil ; nem é temeridade afirmar que a encíclica de Leão XIII se demonstrou com a longa experiência do tempo a « Magna Charta » em que deve basear-se como em sólido fundamento toda a actividade cristã no campo social. Por isso os que mostram fazer pouco da mesma encíclica e da sua comemoração, estes ou blasfemam do que não conhecem, ou não percebem nada do que conhecem, ou, se percebem, praticam uma solene injustiça, e ingratidão. Mas como durante estes anos surgiram dúvidas sobre a recta interpretação de vários passos da encíclica ou sobre as consequências a deduzir deles, dando ocasião entre os próprios católicos a discussões nem sempre amigáveis ; e como por outra parte as novas exigências do nosso tempo e as mudadas condições sociais tornam necessária uma aplicação mais esmerada da doutrina Leoniana e mesmo algumas adições, aproveitamos de boa vontade esta ocasião, para, em virtude do Nosso múnus Apostólico, que a todos Nos faz devedores, (25) satisfazermos, quanto é da Nossa parte, a estas dúvidas e exigências. II. AUTORIDADE DA IGREJA NA QUESTÃO SOCIAL E ECONÓMICA Mas antes de entrarmos neste assunto, devemos pressupor, o que já provou abundantemente Leão XIII, que julgar das questões sociais e económicas é dever e direito da Nossa suprema autoridade. (26) Não foi é certo confiada à Igreja, a missão de encaminhar os homens à conquista de uma felicidade apenas transitória e caduca, mas da eterna; antes « a Igreja crê não dever intrometer-se sem motivo nos negócios terrenos ». (27) O que não pode, é renunciar ao ofício de que Deus a investiu, de interpor a sua autoridade não em assuntos técnicos, para os quais lhe faltam competência e meios, mas em tudo o que se refere à moral. Dentro deste campo, o depósito da verdade que Deus Nos confiou e o gravíssimo encargo de divulgar toda a lei moral, interpretá-la e urgir o seu cumprimento oportuna e importunamente, sujeitam e subordinam ao Nosso juízo a ordem social e as mesmas questões económicas. Pois ainda que a economia e a moral « se regulam, cada uma no seu âmbito, por princípios próprios », (28) é erro julgar a ordem económica e a moral tão encontradas e alheias entre si, que de modo nenhum aquela dependa desta. Com efeito, as chamadas leis económicas, deduzidas da própria natureza das coisas e da índole do corpo e da alma, determinam os fins que a actividade humana se não pode propor, e os que pode procurar com todos os meios no campo económico ; e a. razão mostra claramente, da mesma natureza das coisas e da natureza individual e social do homem, o fim imposto pelo Criador a toda a ordem económica. Por sua parte a lei moral manda-nos prosseguir tanto o fim supremo e último em todo o exercício da nossa actividade, como, nos diferentes domínios por onde ela se reparte, os fins particulares impostos pela natureza, ou melhor, por Deus autor da mesma; subordinando sempre estes fins aquele, como pede a boa ordem. Se seguirmos fielmente esta regra, sucederá, que os fins particulares da economia, sejam eles individuais ou sociais, se inserirão facilmente na ordem geral dos fins, e nós subindo por eles, como por uma escada, chegaremos ao fim último de todos os seres, que é Deus, bem supremo e inexaurível para si e para nós. 1. – DO DIREITO DE PROPRIEDADE Para vir agora ao particular, começamos pelo direito de propriedade. Sabeis, veneráveis Irmãos e amados Filhos, que Leão XIII de feliz memória defendeu tenazmente o direito de propriedade contra as aberrações dos socialistas do seu tempo, mostrando que a destruição do domínio particular reverteria, não em vantagem, mas em ruína da classe operária. Mas como não falta quem com flagrante injustiça calunie o Sumo Pontífice e a Igreja de ter zelado e zelar somente os interesses dos ricos contra os proletários, e os mesmos católicos não concordam na interpretação do genuíno e verdadeiro modo de pensar de Leão XIII, pareceu-Nos bem vingar de tais calúnias a sua doutrina que é a católica e defendê-la de falsas interpretações. Sua índole individual e social Primeiramente tenha-se por certo, que nem Leão XIII, nem os teólogos, que ensinaram seguindo a doutrina e direcção da Igreja, negaram jamais ou puseram em dúvida a dupla espécie de domínio, que chamam individual e social, segundo diz respeito ou aos particulares ou ao bem comum ; pelo contrário foram unânimes em afirmar que a natureza ou o próprio Criador deram ao homem o direito do domínio particular, não só para que ele possa prover às necessidades próprias e da família, mas para que sirvam verdadeiramente ao seu fim os bens destinados pelo Criador a toda a família humana : ora nada disto se pode obter, se não se observa uma ordem certa e bem determinada. Deve portanto evitar-se cuidadosamente um duplo escolho, em que se pode cair. Pois como o negar ou cercear o direito de propriedade social e pública precipita no chamado « individualismo » ou dele muito aproxima, assim também rejeitar ou atenuar o direito de propriedade privada ou individual leva rapidamente ao « colectivismo » ou pelo menos à necessidade de admitir-lhe os princípios. Sem a luz destas verdades ante os olhos, cair-se-á depressa nas sirtes do modernismo moral, jurídico e social, que denunciámos com letras Apostólicas no princípio do Nosso Pontificado; (29) tenham-no presente sobretudo aqueles espíritos desordeiros, que com infames calúnias ousam acusar a Igreja de ter permitido, que se introduzisse na doutrina teológica o conceito pagão do domínio, ao qual desejam a todo o custo substituir outro, por eles com pasmosa ignorância apelidado de cristão. Obrigações inerentes ao domínio E a fim de pôr termo às controvérsias, que acerca do domínio e deveres a ele inerentes começaram a agitar-se, note-se em primeiro lugar o fundamento assente por Leão XIII, de que o direito de propriedade é distinto do seu uso. (30) Com efeito, a chamada justiça comutativa obriga a conservar inviolável a divisão dos bens e a não invadir o direito alheio excedendo os limites do próprio domínio; que porém os proprietários não usem do que é seu, senão honestamente, é da alçada não da justiça, mas de outras virtudes, cujo cumprimento « não pode urgir-se por vias jurídicas ». (31) Pelo quê sem razão afirmam alguns, que o domínio e o seu honesto uso são uma e a mesma coisa; e muito mais ainda é alheio à verdade dizer, que se extingue ou se perde o direito de propriedade com o não uso ou abuso dele. Prestam portanto grande serviço à boa causa e são dignos de todo o elogio os que, salva a concórdia dos ânimos e a integridade da doutrina tradicional da Igreja, se empenham em definir a natureza íntima destas obrigações e os limites, com que as necessidades do convívio social circunscrevem tanto o direito de propriedade, como o uso ou exercício do domínio. Pelo contrário muito se enganam e erram aqueles, que tentam reduzir o domínio individual a ponto de o abolirem praticamente. Poderes do Estado Efetivamente, que deva o homem atender não só ao próprio interesse, mas também ao bem comum, deduz-se da própria índole, a um tempo individual e social, do domínio, a que nos referimos. Definir porém estes deveres nos seus pormenores e segundo as circunstâncias, compete, já que a lei natural de ordinário o não faz, aos que estão à frente do Estado. E assim a autoridade pública, iluminada sempre pela luz natural e divina, e pondo os olhos só no que exige o bem comum, pode decretar mais minuciosamente o que aos proprietários seja lícito ou ilícito no uso de seus bens. Já Leão XIII ensinou sabiamente que « Deus confiou à indústria dos homens e às instituições dos povos a demarcação da propriedade individual ». (32) E realmente o regime da propriedade não é mais imutável, que qualquer outra instituição da vida social, como o demonstra a história e Nós mesmo notámos em outra ocasião : « Que variedade de formas concretas não revestiu a propriedade desde a forma primitiva dos povos selvagens, de que ainda há hoje vestígios, até à forma de propriedade dos tempos patriarcais, e depois sucessivamente desde as diversas formas tirânicas (usamos esta palavra no seu sentido clássico), através das feudais e logo das monárquicas, até às formas existentes na idade moderna »! (33) É evidente porém que a autoridade pública não tem direito de desempenhar-se arbitrariamente desta função; devem sempre permanecer intactos o direito natural de propriedade e o que tem o proprietário de legar dos seus bens. São direitos estes, que ela não pode abolir, porque « o homem é anterior ao Estado », (34) e « a sociedade doméstica tem sobre a sociedade civil uma prioridade lógica e uma prioridade real ». (35) Eis porque o sábio Pontífice declarava também, que o Estado não tem direito de esgotar a propriedade particular com excessivas contribuições : « Não é das leis humanas, mas da natureza, que dimana o direito da propriedade individual; a autoridade pública não a pode portanto abolir : o mais que pode é moderar-lhe o uso e harmonizá-lo com o bem comum ». (36) Quando ela assim concilia o direito de propriedade com as exigências do bem comum, longe de mostrar-se inimiga dos proprietários presta-lhes benévolo apoio; de facto, fazendo isto, impede eficazmente que a posse particular dos bens, estatuída com tanta sabedoria pelo Criador em vantagem da vida humana, gere desvantagens intoleráveis e venha assim a arruinar-se : não oprime a propriedade, mas defende-a; não a enfraquece, mas reforça-a. Deveres relativos aos rendimentos livres Nem ficam de todo ao arbítrio do homem os seus rendimentos livres, isto é aqueles de que não precisa para sustentar a vida convenientemente e com decoro : ao contrário as sagradas Escrituras e os santos Padres da Igreja intimam continuamente e com a maior clareza aos ricos o gravíssima dever da esmola e de praticar a beneficência e magnificência. Empregar grandes capitais disponíveis para oferecer em abundância trabalho lucrativo, com tanto que este se empregue em obras realmente úteis, não só não é vício ou imperfeição moral, mas até se deve julgar acto preclaro da virtude da magnificência muito em harmonia com as necessidades dos tempos, como se deduz argumentando dos princípios do Doutor Angélico. (37) Títulos de aquisição do domínio Títulos de aquisição do domínio são a ocupação de coisas sem dono, a indústria ou a chamada especificação, como o demonstram abundantemente a tradição de todos os séculos e a doutrina do Nosso Predecessor Leão XIII. De facto não faz injustiça a ninguém, por mais que alguns digam o contrário, quem se apodera de uma coisa abandonada ou sem dono; de outra parte a indústria que alguém exerce em nome próprio, e com a qual as coisas se transformam ou aumentam de valor, dá-lhe direito sobre os produtos do seu trabalho. Capital e trabalho Muito diversa é a condição do trabalho, que vendido a outrem se exerce em coisa alheia. A ele particularmente visava Leão XIII, quando escrevia « poder-se afirmar sem perigo de erro, que o trabalho é a fonte única da riqueza nacional ». (38) Com efeito, não vemos com os próprios olhos, que a abundância dos bens, que constituem a riqueza, se formam e brotam das mãos dos obreiros, quer trabalhem sós, quer armadas de instrumentos e máquinas, com o que aumentam admiravelmente a sua actividade? Ninguém ignora, que nunca um país se ergueu da miséria e pobreza a uma fortuna melhor e mais elevada sem a colaboração ingente de todos os cidadãos, tanto dos que dirigem o trabalho, como dos que o executam. Não é porém menos certo que estes grandes esforços seriam imiteis e vãos, que nem sequer poderiam tentar-se, se Deus Criador do universo não tivesse na sua bondade fornecido antes as matérias primas e as forças da natureza. Pois que é trabalhar, senão aplicar ou exercer as forças do corpo e do espírito nestas mesmas coisas ou por meio delas? Exige porém a lei natural ou a vontade de Deus por ela promulgada, que se mantenha a devida ordem na aplicação dos bens naturais aos usos humanos : ora semelhante ordem consiste em ter cada coisa o seu dono. D’aqui vem que, a não ser que um trabalhe no que é seu, deverão aliar-se as forças de uns com as coisas dos outros; pois que umas sem as outras nada produzem. Isto precisamente tinha em vista Leão XIII, quando escrevia : « de nada vale o capital sem o trabalho, nem o trabalho sem o capital ». (39) Por conseguinte é inteiramente falso atribuir ou só ao capital ou só ao trabalho o produto do concurso de ambos; e é injustíssimo que um deles, negando a eficácia do outro, se arrogue a si todos os frutos. Pretensões injustas do capital É certo que por muito tempo pôde o capital arrogar-se direitos demasiados. Todos os produtos e todos os lucros reclamava-os ele para si, deixando ao operário unicamente o bastante para restaurar e reproduzir as forças. Apregoava-se, que por fatal lei económica pertencia aos patrões acumular todo o capital, e que a mesma lei condenava e acorrentava os operários a perpétua pobreza e vida miserável. E bem verdade, que as obras nem sempre estavam de acordo com semelhantes monstruosidades dos chamados liberais de Manchester : não se pode contudo negar que para elas tendia com passo certeiro e constante o regime económico e social. Por isso não é para admirar que estas opiniões erróneas e estes postulados falsos fossem energicamente impugnados, e não só por aqueles a quem privavam do direito natural de adquirir melhor fortuna. Injustas pretensões do trabalho De facto aos operários assim mal tratados apresentaram-se os chamados « intelectuais », contrapondo a uma lei falsa um não menos falso princípio moral : « os frutos e rendimentos, descontado apenas o que baste a amortizar e reconstituir o capital, pertencem todos de direito aos operários ». Erro mais capcioso que o de alguns socialistas, para os quais tudo o que é produtivo deve passar a ser propriedade do Estado ou « socializar-se »; mas por isso mesmo erro muito mais perigoso e próprio a embair os incautos : veneno suave que tragaram avidamente muitos, a quem o socialismo sem rebuço não pudera enganar. Princípio directivo da justa distribuição A premuni-los contra estes falsos princípios, com que a si próprios fechavam o caminho da justiça e da paz, deviam bastar as palavras sapientíssimas do Nosso Predecessor : « de qualquer modo que seja distribuída entre os particulares, não cessa a terra de servir à utilidade pública ». (40) O mesmo ensinámos Nós pouco antes, quando declarávamos, que a própria natureza exige a repartição dos bens em domínios particulares, precisamente a fim de poderem as coisas criadas servir ao bem comum de modo ordenado e constante. Este princípio deve ter continuamente diante dos olhos, quem não quer desviar-se da recta senda da verdade. Ora nem toda a distribuição dos bens ou riquezas entre os homens é apta para obter totalmente ou com a devida perfeição o fim estabelecido por Deus. E necessário que as riquezas, em contínuo incremento com o progresso da economia social, sejam repartidas pelos indivíduos ou pelas classes particulares de tal maneira, que se salve sempre a utilidade comum, de que falava Leão XIII, ou, por outras palavras, que em nada se prejudique o bem geral de toda a sociedade. Esta lei de justiça social proíbe, que uma classe seja pela outra excluída da participação dos lucros. Violam-na por conseguinte tanto os ricos que, felizes por se verem livres de cuidados em meio da sua fortuna, têm por muito natural embolsarem eles tudo e os operários nada, como a classe proletária que, irritada por tantas injustiças e demasiadamente propensa a exagerar os próprios direitos, reclama para si tudo, porque fruto do trabalho das suas mãos, e combate e pretende suprimir toda a propriedade e rendas ou proventos, qualquer que seja a sua natureza e função social, uma vez que se obtenham e pela simples razão de serem obtidos sem trabalho. A este propósito cita-se às vezes o Apóstolo, lá onde diz : « quem não quer trabalhar, não coma ». (41) Citação descabida e falsa. O Apóstolo repreende os ociosos, que podendo e devendo trabalhar, não o fazem, e admoesta-nos a que aproveitemos diligentemente o tempo e as forças do corpo e do espírito, nem queiramos ser de peso aos outros, quando podemos bastar-nos a nós mesmos. Agora, que o trabalho seja o único título para receber o sustento ou perceber rendimentos, isso não o ensina, nem podia ensinar o Apóstolo. (42) Cada um deve pois ter a sua parte nos bens materiais; e deve procurar-se que a sua repartição seja pautada pelas normas do bem comum e da justiça social. Hoje porém, à vista do contraste estridente, que há entre o pequeno número dos ultra-ricos e a multidão inumerável dos pobres, não há homem prudente, que não reconheça os gravíssimos inconvenientes da actual repartição da riqueza. 3. – REDENÇÃO DOS PROLETÁRIOS Esta é aquela « Redenção dos proletários », que o Nosso Predecessor dizia dever procurar-se a todo o custo. O mesmo afirmamos e repetimos Nós com tanto maior energia e insistência, quanto mais frequentemente vemos votadas ao esquecimento as recomendações daquele grande Pontífice, ou porque intencionalmente se não falava, delas, ou porque as julgavam impossíveis de actuar, sendo que não só podem, mas devem realizar-se. Nem elas no nosso tempo perderam nada da aia, força e oportunidade, apesar de hoje não ser tão geral e horrendo o pauperismo, como era ao tempo de Leão XIII. Sem dúvida que a condição dos operários melhorou e se tornou mais tolerável, sobretudo nas cidades mais progredidas e populosas, onde os operários já não podem todos sem excepção ser considerados como indigentes e miseráveis. Mas desde que as artes mecânicas e a indústria moderna em pouquíssimo tempo invadiram completamente e dominaram regiões inumeráveis, tanto as terras chamadas novas, como os reinos do remoto Oriente cultivados já na antiguidade, cresceu desmesuradamente o número dos proletários pobres, cujos gemidos bradam ao céu. Acresce o ingente exército dos jornaleiros relegados à ínfima condição e sem a mínima esperança de se verem jamais senhores de um pedaço de terra; (43) se não se empregam remédios oportunos e eficazes, ficarão perpetuamente na condição de proletários. É verdade, que a condição proletária não se deve confundir com o pauperismo; contudo basta o facto de a multidão dos proletários ser imensa, enquanto as grandes fortunas se acumulam nas mãos de poucos ricos, para provar à evidência que as riquezas, produzidas em tanta abundância neste nosso século de industrialismo, não estão bem distribuídas pelas diversas classes da sociedade. Os operários devem poder formar um património É pois necessário envidar energicamente todos os esforços, para que ao menos de futuro as riquezas grangeadas se acumulem em justa proporção nas mãos dos ricos, e com suficiente largueza se distribuam pelos operários; não para que estes se dêem ao ócio, — já que o homem nasceu para trabalhar como a ave para voar, — mas para que, vivendo com parcimônia, aumentem os seus haveres, aumentados e bem administrados provejam aos encargos da família; e livres assim de uma condição precária e incerta qual é a dos proletários, não só possam fazer frente a todas as eventualidades durante a vida, mas deixem ainda por morte alguma coisa, aos que lhes sobrevivem. Toda esta doutrina já por Nosso Predecessor, não só insinuada, mas abertamente proclamada, Nós de novo e com mais insistência a inculcamos com esta Nossa encíclica : pois desenganem-se todos, que se não se põe em prática quanto antes e com todas as veras, será impossível defender eficazmente a ordem pública, a paz e a tranquilidade da sociedade humana contra os maquinadores de revoluções. 4. – O JUSTO SALÁRIO Ora não se poderá pôr em prática, se não se procura, que os proletários, trabalhando e vivendo com parcimónia, adquiram o seu modesto pecúlio, como já acima indicamos desenvolvendo os ensinamentos de Nosso Predecessor. Mas, a não ser da própria jorna, d’onde poderá tirar esse pouco que vai economizando, o que não tem outra fonte de receita senão o seu trabalho? Entremos portanto nesta questão do salário, que Leão XIII apelidou « de grande importância », (44) declarando e desenvolvendo, onde for necessário, a sua doutrina e preceitos. O salário não é de sua natureza injusto E primeiramente os que dizem ser de sua natureza injusto o contrato de compra e venda do trabalho e pretendem substituí-lo por um contrato de sociedade, dizem um absurdo e caluniam malignamente o Nosso Predecessor que na encíclica « Rerum novarum » não só admite a legitimidade do salário, mas se difunde em regulá-lo segundo as leis da justiça. Julgamos contudo que nas presentes condições sociais é preferível, onde se possa, mitigar os contratos de trabalho combinando-os com os de sociedade, como já começou a fazer-se de diversos modos com não pequena vantagem dos operários e dos patrões. Deste modo operários e oficiais são considerados sócios no domínio ou na gerência, ou compartilham os lucros. O justo valor da paga deve ser avaliado não por um, senão por vários princípios, como sabiamente dizia Leão XIII por estas palavras : « para determinar equitativamente o salário devem ter-se em vista várias considerações ». (45) Com estas palavras confuta a leviandade dos que pensam resolver facilmente tão momentoso problema, empregando uma única medida e essa mesma disparatada. Erram certamente os que não receiam enunciar este princípio, que tanto vale o trabalho e tanto deve importar a paga, quanto é o valor dos seus frutos; e que por isso na locação do próprio trabalho tem o operário direito de exigir por ele tudo o que produzir. Asserção infundada, como basta a demonstrá-lo o que acima dissemos ao tratar da relação entre o trabalho e o capital. Carácter individual e social do trabalho Como o domínio, assim também o trabalho, sobretudo o contratado, deve considerar-se não só relativamente aos indivíduos, mas também em função da sociedade. A razão é clara. Se a sociedade não forma realmente um corpo organizado, se a ordem social e jurídica não protege o exercício da actividade, se as várias artes, dependentes como são entre si, não trabalham de concerto e não se ajudam mutuamente, se enfim e mais ainda, não se associam e colaboram juntos a inteligência, o capital, e o trabalho, não pode a actividade humana produzir fruto : logo não pode ela ser com justiça avaliada nem remunerada equitativamente, se não se tem em conta a sua natureza social e individual. Tríplice relação do salário Destas duas propriedades naturais do trabalho humano derivam consequências gravíssimas, pelas quais se deve regular e determinar o salário. A) O sustento do operário e da família Primeiro ao operário deve dar-se remuneração que baste para o sustento seu e da família. (46) É justo que toda a mais família, na medida das suas forças, contribua para o seu mantimento, como vemos que fazem as famílias dos lavradores, e também muitas de artistas e pequenos negociantes. Mas é uma iniquidade abusar da idade infantil ou da fraqueza feminina. As mães de família devem trabalhar em casa ou nas suas adjacências, dando-se aos cuidados domésticos. É um péssimo abuso, que deve a todo o custo cessar, o de as obrigar, por causa da mesquinhez do salário paterno, a ganharem a vida fora das paredes domésticas, descurando os cuidados e deveres próprios e sobretudo a educação dos filhos. Deve pois procurar-se com todas as veras, que os pais de família recebam uma paga bastante a cobrir as despesas ordinárias da casa. E se as actuais condições não permitem, que isto se possa sempre efectuar, exige contudo a justiça social, que se introduzam quanto antes as necessárias reformas, para que possa assegurar-se um tal salário a todo o operário adulto. — São pois dignos de louvor todos aqueles, que com prudente e utilíssima iniciativa tem já experimentado vários métodos para tornar o salário proporcionado aos encargos domésticos de tal modo que, aumentando estes, cresça também aquele; antes seja tal, que possa bastar a qualquer necessidade extraordinária e imprevista. B) Situação da empresa É preciso atender também ao empresário e a empresa no determinar a importância dos salários; seria injustiça exigir salários demasiados, que eles não pudessem pagar sem se arruinarem e arruinarem consigo os operários. Mas se a deficiência dos lucros dependesse da negligência, inércia, ou descuido em procurar o progresso técnico e económico, não seria essa uma causa justa para cercear a paga aos operários. Se porém a causa de a empresa não render quanto baste para retribuir aos operários equitativamente, são contribuições injustas ou o ver-se forçada a vender os artefatos por um preço inferior ao justo, os que assim a vexam, tornam-se réus de culpa grave; pois que privam do justo salário os trabalhadores, que forçados da necessidade se vêem obrigados a aceitar uma paga inferior à devida. Trabalhem por conseguinte de comum acordo operários e patrões para vencer as dificuldades e obstáculos, e sejam em obra tão salutar ajudados prudente e providamente pela autoridade pública. Mas se apesar de tudo os negócios correrem mal, será então o caso de ver se a empresa poderá continuar, ou se será melhor prover aos operários de outro modo. Nessas gravíssimas conjunturas é, mais que nunca, necessário, que reine e se sinta entre operários e patrões a união e concórdia cristã. C) Exigências do bem comum Enfim a grandeza do salário deve ser proporcionada ao bem da economia pública. Já atrás declarámos, quanto importa ao bem comum, que os operários e oficiais possam formar um modesto pecúlio com a parte do salário economizada. Mas não podemos passar em silêncio outro ponto de não menor importância e grandemente necessário nos nossos tempos, e é, que todos os que têm vontade e forças, possam encontrar trabalho. Ora isto depende em boa parte da determinação do salário : a qual como será vantajosa, se bem feita, assim se tornará nociva, se exceder os devidos limites. Quem não sabe, que foram os salários demasiadamente pequenos ou exageradamente grandes a causa de muitos operários se verem sem trabalho? É este mal, formidavelmente agravado nos anos do nosso Pontificado, que lança aos operários nas maiores misérias e tentações, que arruína a prosperidade dos estados e põe em perigo a ordem pública, a paz e tranquilidade do mundo inteiro. É portanto contra a justiça social diminuir ou aumentar demasiadamente os salários em vista só das próprias conveniências e sem ter em conta o bem comum; e a mesma justiça exige, que em pleno acordo de inteligências e vontades, quanto seja possível, se regulem os salários de tal modo, que o maior número de operários possa encontrar trabalho e ganhar o necessário para o sustento da vida. É também importante para o mesmo efeito a boa proporção entre as diversas categorias de salários; com a qual está intimamente relacionada a justa proporção entre os preços de venda dos produtos das diversas artes, como a agricultura, a indústria, etc. Se tudo isto se observar como convêm, unir-se-ão as diversas artes e se organizarão num corpo união, prestando-se como membros mútuo e benéfico auxílio. Só então estará solidamente constituído o organismo económico e social e será capaz de obter os seus fins, quando todos e cada um tiverem todos os bens, que as riquezas naturais, a arte técnica, e a boa administração económica podem proporcionar. Estes bens devem bastar não só à estrita necessidade e à honesta comodidade, senão também a elevar o homem a um certo grau de cultura, o qual, uma vez que não falte a prudência, longe de obstar, grandemente favorece a virtude. (47) 5. – RESTAURAÇÃO DA ORDEM SOCIAL O que fica exposto sobre a equitativa repartição dos bens e sobre o justo salário, diz respeito aos indivíduos, nem visa senão acessóriamente a ordem social, que o Nosso Predecessor Leão XIII desejou e procurou restaurar pelos princípios da sã filosofia e aperfeiçoar segundo as normas sublimes da lei evangélica. Já alguma coisa se fez neste sentido; mas para realizar o muito que ainda está por fazer e para que a família humana colha vantagens melhores e mais abundantes, são de absoluta necessidade duas coisas : a reforma das instituições e a emenda dos costumes. Ao falarmos na reforma das instituições temos em vista sobretudo o Estado; não porque dele só deva esperar-se todo o remédio, mas porque o vício do já referido « individualismo » levou as coisas a tal extremo, que enfraquecida e quase extinta aquela vida social outrora rica e harmónicamente manifestada em diversos géneros de agremiações, quase só restam os indivíduos e o Estado. Esta deformação do regime social não deixa de prejudicar o próprio Estado, sobre o qual recaem todos os serviços das agremiações suprimidas e que verga ao peso de negócios e encargos quase infinitos. Verdade é, e a história o demonstra abundantemente, que, devido à mudança de condições, só as grandes sociedades podem hoje levar a efeito o que antes podiam até mesmo as pequenas; permanece contudo imutável aquele solene princípio da filosofia social : assim como é injusto subtrair aos indivíduos o que eles podem efectuar com a própria iniciativa e indústria, para o confiar à colectividade, do mesmo modo passar para uma sociedade maior e mais elevada o que sociedades menores e inferiores podiam conseguir, é uma injustiça, um grave dano e perturbação da boa ordem social. O fim natural da sociedade e da sua acção é coadjuvar os seus membros, não destruí-los nem absorvê-los. Deixe pois a autoridade pública ao cuidado de associações inferiores aqueles negócios de menor importância, que a absorveriam demasiado; poderá então desempenhar mais livre, enérgica e eficazmente o que só a ela compete, porque só ela o pode fazer : dirigir, vigiar, urgir e reprimir, conforme os casos e a necessidade requeiram. Persuadam-se todos os que governam : quanto mais perfeita ordem jerárquica reinar entre as varias agremiações, segundo este princípio da função « supletiva » dos poderes públicos, tanto maior influência e autoridade terão estes, tanto mais feliz e lisonjeiro será o estado da nação. Harmonia entre as diversas profissões O primeiro objectivo que devem propor-se tanto o Estado como o escol dos cidadãos, o ponto em que devem concentrar todos os esforços, é por termo ao conflito, que divide as classes, suscitar e promover uma cordial harmonia entre as diversas profissões. E em primeiro lugar deve a política social aplicar-se toda a reconstituí-las. Actualmente a sociedade continua num estado violento e por isso instável e vacilante, pois se funda sobre classes, que se movem por apetites desencontrados e por isso, dada a fraqueza humana, com facilidade tendem para o ódio e para a guerra. Com efeito embora o trabalho, como muito bem expôs o Nosso Predecessor na sua encíclica , (48) não seja um simples género comercial, mas deva reconhecer-se nele a dignidade humana do operário, e não possa permutar-se como qualquer mercadoria, de facto hoje no mercado do trabalho a oferta e a procura dividem os contratadores em duas classes ou campos opostos, que encarniçadamente se digladiam. Esta grave desordem leva a sociedade à ruína, se não se lhe dá pronto e eficaz remédio. Mas a cura só então será perfeita, quando a estas classes opostas, se substituírem organismos bem constituídos, ordens ou profissões, que agrupem os indivíduos, não segundo a sua categoria no mercado do trabalho, mas segundo as funções sociais, que desempenham. Assim como as relações de vizinhança dão origem aos municípios, assim os que exercem a mesma profissão ou arte são pela própria natureza impelidos a formar colégios ou corporações; tanto que muitos julgam estes organismos autónomos, senão essenciais, ao menos naturais à sociedade civil. E como a ordem, segundo egregiamente explica S. Tomás, (49) é a unidade resultante da disposição conveniente de muitas coisas, o corpo social não será verdadeiramente ordenado, se não há um vínculo comum, que una solidamente num só todo os membros que o constituem. Ora este princípio de unidade encontra-se, — para cada arte, na produção dos bens ou prestação dos serviços a que visa a actividade combinada de patrões e operários ocupados no mesmo ofício, — para o conjunto das profissões, no bem comum, a que todas e cada uma devem tender com esforços combinados. Esta união será tanto mais forte e eficaz, quanto mais fielmente se aplicarem os indivíduos e as próprias profissões a exercitar a sua especialidade e a assinalar-se nela. Do que precede é fácil concluir, que no seio destas corporações estão em primeiro lugar os interesses comuns à profissão; entre os quais o mais importante é vigiar por que a actividade colectiva se oriente sempre para o bem comum de toda a sociedade. As questões, que se refiram aos interesses particulares dos patrões ou operários poder-se-ão tratar e resolver separadamente. Apenas é preciso recordar, que os ensinamentos de Leão XIII sobre a forma do governo político se aplicam também na devida proporção aos colégios ou corporações profissionais : é lícito aos seus membros eleger a forma que lhes aprouver, com tanto que atendam às exigências da justiça e do bem comum. (50) E como os habitantes de um município costumam formar associações autónomas para fins muito diversos, às quais cada um é livre de dar ou não o seu nome, assim os que exercem a mesma profissão, conservam a liberdade de se associarem para fins de algum modo relacionados com o exercício da sua arte. Mas porque o Nosso Predecessor tratou distinta e claramente na sua encíclica destas associações livres, basta-Nos agora inculcar um ponto : os cidadãos podem livremente não só instituir associações de direito e carácter particular, mas ainda « eleger livremente para elas aqueles estatutos e regulamentos, que julgarem mais convenientes ao fim proposto ». (51) Idêntica liberdade deve reconhecer-se às sociedades, cujo objectivo ultrapassa os confins das diversas profissões. Proponham-se as associações livres já florescentes e que tão bons frutos produzem, abrir caminho, segundo os princípios da filosofia social cristã, a estes colégios ou corporações mais vastos de que falamos, e ponham todo o empenho, cada uma na medida das suas forças, em atingir este ideal. Princípio directivo da economia Resta ainda outro ponto estreitamente ligado com o precedente. Como não pode a unidade social basear-se na luta de classes, assim a recta ordem da economia não pode nascer da livre concorrência de forças. Deste princípio como de fonte envenenada derivaram para a economia universal todos os erros da ciência económica « individualista »; olvidando esta ou ignorando, que a economia é juntamente social e moral, julgou que a autoridade pública a devia deixar em plena liberdade, visto que no mercado ou livre concorrência possuía um princípio directivo capaz de a reger muito mais perfeitamente, que qualquer inteligência criada. Ora a livre concorrência, ainda que dentro de certos limites é justa e vantajosa, não pode de modo nenhum servir de norma reguladora à vida económica. Aí estão a comprová-lo os factos desde que se puseram em prática as teorias de espírito individualista. Urge por tanto sujeitar e subordinar de novo a economia a um princípio directivo, que seja seguro e eficaz. A prepotência económica, que sucedeu à livre concorrência não o pode ser; tanto mais que, indómita e violenta por natureza, precisa, para ser útil a humanidade, de ser energicamente enfreada e governada com prudência; ora não pode enfrear-se nem governar-se a si mesma. Força é portanto recorrer a princípios mais nobres e elevados : à justiça e caridade sociais. E preciso que esta justiça penetre completamente as instituições dos povos e toda a vida da sociedade; é sobre tudo preciso que esse espírito de justiça manifeste a sua. eficácia constituindo uma ordem jurídica e social que informe toda a economia, e cuja alma seja a caridade. Em defender e reivindicar eficazmente esta ordem jurídica e social deve insistir a autoridade pública; e fá-lo-á com menos dificuldade se se desembaraçar daqueles encargos, que já antes declarámos não serem próprios dela. Mais : é muito para desejar que as várias nações, pois que tanto dependem umas das outras e se completam economicamente, se dêem com todo o empenho, em união de vistas e de esforços, a promover com prudentes tratados e instituições uma vantajosa e feliz cooperação económica internacional. Se deste modo se restaurarem os membros do corpo social e se restabelecer o princípio regulador da economia, poder-se-lhe-á aplicar de alguma forma o que o Apóstolo dizia do corpo místico de Cristo : « todo o corpo organizado e unido pelas articulações de um mútuo obséquio, segundo a medida de actividade de cada membro, cresce e se desenvolve na caridade ». (52) Recentemente iniciou-se, como todos sabem, uma nova organização sindical e corporativa, à qual, vista a matéria desta Nossa carta encíclica não podemos deixar de Nos referir, com alguma consideração oportuna. O Estado reconheceu juridicamente o « sindicato », dando-lhe porém carácter de monopólio, já que só ele, assim reconhecido, pode representar respectivamente operários e patrões, só ele concluir contractos e pactos de trabalho. A inscrição no sindicato é facultativa, e só neste sentido se pode dizer, que a organização sindical é livre; pois a quota sindical e certas taxas especiais são obrigatórias para todos os que pertencem a uma dada categoria, sejam eles operários ou patrões; como obrigatórios para todos são também os contratos de trabalho estipulados pelo sindicato jurídico. Verdade é que nas regiões oficiais se declarou, que o sindicato jurídico não exclui a existência de facto de associações profissionais. As corporações são constituídas pelos representantes dos sindicatos dos operários e dos patrões pertencentes à mesma arte e profissão, e, como verdadeiros e próprios órgãos e instituições do Estado, dirigem e coordenam os sindicatos nas coisas de interesse comum. É proibida a greve; se as partes não podem chegar a um acordo, intervém a autoridade. Basta reflectir um pouco, para ver as vantagens desta organização, embora apenas sumariamente indicada : a pacífica colaboração das classes, a repressão das organizações e violências socialistas, a acção moderadora de uma magistratura especial. Para não omitir nada em matéria de tanta importância, e em harmonia com os princípios gerais acima recordados e com o que em breve acrescentaremos, devemos contudo dizer, que não falta quem receie, que o Estado se substitua às livres actividades, em vez de se limitar à necessária e suficiente assistência e auxílio; que a nova organização sindical e corporativa tem carácter excessivamente burocrático e político; e que, não obstante as vantagens gerais acenadas, pode servir a particulares intentos políticos mais que à preparação e início de uma ordem social melhor. Nós cremos, que para conseguir este outro intento nobilíssimo, com benefício geral verdadeiro e duradoiro, é necessária antes de tudo e sobre tudo a bênção de Deus e depois a colaboração de todas as boas vontades. Cremos também e por necessária consequência, que o mesmo intento se conseguirá tanto mais seguramente, quanto maior for a contribuição das competências técnicas., profissionais e sociais, e mais ainda da doutrina e prática dos princípios católicos por parte, não da Acção Católica (que não pretende desenvolver actividade meramente sindical ou política), mas por parte d’aqueles Nossos filhos a quem a Acção Católica admiravelmente forma naqueles princípios e no seu apostolado sob a guia e magistério da Igreja; da Igreja, que mesmo no terreno supra acenado, como em qualquer outro onde se agitem e regulem questões morais, não pode esquecer ou descurar o mandato de guardar e ensinar, que lhe foi divinamente conferido. Tudo o que temos ensinado acerca da restauração e aperfeiçoamento da ordem social, de modo nenhum poderá realizar-se sem a reforma dos costumes, como até a mesma história eloquentemente demonstra. De facto houve já uma ordem social que, apesar de imperfeita e incompleta, era, de algum modo, dadas as circunstâncias e exigências do tempo, conforme à recta razão. E se essa ordem já de há muito se extinguiu, não foi de certo por ser incapaz de evolucionar e alargar-se com as novas condições sociais; mas porque os homens, ou obcecados pelo amor próprio se recusaram a abrir como convinha, o seio das suas organizações à multidão sempre crescente, que desejava entrar nelas, ou porque iludidos pela aparência de uma falsa liberdade e por outros erros, rebeldes a toda a sujeição, trabalharam por sacudir o jugo de qualquer autoridade. Só Nos resta por conseguinte citar de novo a juízo o vigente sistema económico, e o seu mais violento acusador, o socialismo, para sobre eles proferirmos uma sentença clara e justa; e ao mesmo tempo, indagada a última raiz de tantos males, apontar o primeiro e mais necessário remédio, que é a reforma dos costumes. III. NOTÁVEIS MUDANÇAS DESDE A ENCÍCLICA DE LEÃO XIII Grandes foram as transformações, que desde os tempos de Leão XIII sofreram tanto a economia, como o socialismo. 1. – EVOLUÇÃO DA ECONOMIA E primeiramente todos vêem, quão mudada está hoje a situação económica. Sabeis, veneráveis Irmãos e amados Filhos, que o Nosso Predecessor de feliz memória na sua encíclica se referia principalmente àquele sistema, em que ordinariamente uns contribuem com o capital, os outros com o trabalho para o comum exercício da economia, qual ele próprio a definiu na frase lapidar : « Nada vale o capital sem o trabalho, nem o trabalho sem o capital ». (53) Foi esta espécie de economia, que Leão XIII procurou com todas as veras regular segundo as normas da justiça; donde se segue que de per si não é condenável. E realmente de sua natureza não é viciosa : só então viola a recta ordem, quando o capital escraviza aos operários ou à classe proletária com o fim e condição de que os negócios e todo o andamento económico estejam nas suas mãos e revertam em sua vantagem, desprezando a dignidade humana dos operários, a função social da economia e a própria justiça social e o bem comum. Verdade é que mesmo hoje não é esta a única forma de economia, que reina por toda a parte; há outra forma, que ainda abraça uma numerosa e importante fracção da humanidade, como é por exemplo a classe agrícola, na qual a maior parte do género humano ganha honradamente a sua vida. Também esta se vê a braços com estreitezas e dificuldades, às quais alude Nosso Predecessor em muitos passos da sua encíclica e Nós nesta Nossa já mais de uma vez Nos referimos. Mas o regime capitalista da economia, desde a publicação da « Rerum novarum », com o propagar-se da indústria alastrou em todas as direcções, de tal maneira que se infiltrou e invadiu completamente todos os outros campos da produção, cujas condições sociais e económicas afecta realmente e informa com suas vantagens, desvantagens e vícios. Por consequência não é só o bem dos habitantes das regiões industriais, mas o de todos os homens, que Nós procuramos, ao dirigirmos a Nossa atenção principalmente para as mudanças, que sofreu a economia capitalista desde os tempos de Leão XIII. Despotismo económico É coisa manifesta, como nos nossos tempos não só se amontoam riquezas, mas acumula-se um poder imenso e um verdadeiro despotismo económico nas mãos de poucos, que as mais das vezes não são senhores, mas simples depositários e administradores de capitais alheios, com que negoceiam a seu talante. Este despotismo torna-se intolerável naqueles que, tendo nas suas mãos o dinheiro, são também senhores absolutos do crédito e por isso dispõem do sangue de que vive toda a economia, e manipulam de tal maneira a alma da mesma, que não pode respirar sem sua licença. Este acumular de poderio e recursos, nota característica da economia actual, é consequência lógica da concorrência desenfreada, à qual só podem sobreviver os mais fortes, isto é, ordinariamente os mais violentos competidores e que menos sofrem de escrúpulos de consciência. Por outra parte este mesmo acumular de poderio gera três espécies de luta pelo predomínio : primeiro luta-se por alcançar o predomínio económico; depois combate-se renhidamente por obter predomínio no governo da nação, a fim de poder abusar do seu nome, forças e autoridade nas lutas económicas; enfim lutam os Estados entre si, empregando cada um deles a força e influência política para promover as vantagens económicas dos seus cidadãos, ou ao contrário empregando as forças e predomínio económico para resolver as questões políticas, que surgem entre as nações. Funestas consequências As últimas consequências deste espírito individualista no campo económico são essas que vós, veneráveis Irmãos e amados Filhos, vedes e lamentais : a livre concorrência matou-se a si própria; à liberdade do mercado sucedeu o predomínio económico; à avidez do lucro seguiu-se a desenfreada ambição de predomínio; toda a economia se tornou horrendamente dura, cruel, atroz. Acrescem os danos gravíssimos originados da malfadada confusão dos empregos e atribuições da pública autoridade e da economia, quais são : primeiro e um dos mais funestos, o aviltamento da majestade do Estado, a qual do trono onde livre de partidarismos e atenta só ao bem comum e à justiça, se sentava como rainha e árbitra suprema dos negócios públicos, se vê feita escrava, entregue e acorrentada ao capricho de paixões desenfreadas; depois, no campo das relações internacionais, dois rios brotados da mesma fonte : de um lado o Nacionalismo ou Imperialismo económico, do outro o Internacionalismo ou Imperialismo internacional bancário, não menos funesto e execrável, cuja pátria é o interesse. Remédios Na parte doutrinal desta encíclica indicámos já os remédios, com que se pode combater um mal tão profundo. Agora basta recordar a substância do Nosso ensinamento. Visto como o regime económico moderno se baseia principalmente no capital e no trabalho, é preciso que as normas da recta razão ou da filosofia social cristã, relativas a estes dois elementos e à sua colaboração, sejam melhor conhecidas e postas em prática. Para, evitar o escolho quer do individualismo quer do socialismo, ter-se-á em conta o duplo carácter individual e social tanto do capital ou propriedade, como do trabalho. As relações mútuas de um com o outro devem ser reguladas segundo as leis de uma rigorosa justiça comutativa, apoiada na caridade cristã. A livre concorrência contida dentro de justos e razoáveis limites e mais ainda o poderio económico devem estar efectivamente sujeitos à autoridade pública, em tudo o que é da sua alçada. Enfim as públicas instituições adaptarão a sociedade inteira às exigências do bem comum, isto é, às regras da justiça; donde necessariamente resultará, que esta função tão importante da vida social, qual é a actividade económica, se encontrará por sua vez reconduzida a uma ordem sã e bem equilibrada. 2. – EVOLUÇÃO DO SOCIALISMO Não menos profunda que a da economia, foi desde o tempo de Leão XIII a evolução do socialismo, contra o qual principalmente terçou armas o Nosso Predecessor. Então podia ele dizer-se único, defendia uma doutrina bem definida e reduzida a sistema; depois dividiu-se em duas facções principais, de tendências pela maior parte contrárias, e irreconciliáveis entre si, conservando porém ambas o princípio fundamental do socialismo primitivo, contrário à fé cristã. O partido da violência ou comunismo Uma das facções seguiu uma evolução paralela à da economia capitalista, que antes descrevemos, e precipitou no comunismo, que ensina duas coisas e as procura realizar, não oculta ou solapadamente, mas à luz do dia, francamente e por todos os meios ainda os mais violentos : guerra de classes sem tréguas nem quartel e completa destruição da propriedade particular. Na prossecução destes objectivos a tudo se atreve, nada respeita; uma vez no poder, é incrível e espantoso quão bárbaro e desumano se monstra. Aí estão a atestá-lo as mortandades e ruínas de que alastrou vastíssimas regiões da Europa oriental e da Ásia; e então o ódio declarado contra a santa Igreja e contra o mesmo Deus demasiado o provam essas monstruosidades sacrílegas bem conhecidas de todo o mundo. Por isso, se bem julgamos supérfluo chamar a atenção dos filhos obedientes da Igreja para a impiedade e iniquidade do comunismo, contudo não é sem uma dor profunda, que vemos a apatia dos que parecem desprezar perigos tão iminentes, e com desleixo pasmoso deixam propagar por toda a parte doutrinas, que porão a sociedade a ferro e fogo. Sobretudo digna de censura é a inércia daqueles, que não tratam de suprimir ou mudar um estado de coisas, que, exasperando os ânimos, abre caminho à subversão e ruína completa da sociedade. O socialismo propriamente dito, ou mitigado Mais moderada é a outra facção, que conservou o nome de socialismo : porque não só professa abster-se da violência, mas abranda e limita de algum modo, embora não as suprima de todo, a luta de classes e a extinção da propriedade particular. Dir-se-ia que o socialismo, aterrado com as consequências que o comunismo deduziu de seus próprios princípios, tende para as verdades que a tradição cristã sempre solenemente ensinou, e delas em certa maneira se aproxima; por quanto é inegável que as suas revindicações concordam às vezes muitíssimo com as reclamações dos católicos que trabalham na reforma social. Com efeito a luta de classes, quando livre de inimizades e ódio mútuo, transforma-se pouco a pouco numa concorrência honesta, fundada no amor da justiça, que se bem não é aquela bem-aventurada paz social, por que todos suspiramos, pode e deve ser o princípio da mútua colaboração. Do mesmo modo a guerra à propriedade particular, afrouxando pouco a pouco, chega a limitar-se a ponto de já não agredir a posse do necessário à produção dos bens, mas aquele despotismo social, que a propriedade contra todo o direito se arrogou. E de facto um tal poder não pertence aos simples proprietários mas à autoridade pública. Por este caminho podem os princípios deste socialismo mitigado vir pouco a pouco a coincidir com os votos e reclamações dos que procuram reformar a sociedade segundo os princípios cristãos. Estes com razão pretendem que certos géneros de bens sejam reservados ao Estado, quando o poderio que trazem consigo é tal, que, sem perigo do mesmo Estado, não pode deixar-se em mãos dos particulares. Tão justos desejos e revindicações em nada se opõem à verdade cristã, e muito menos são exclusivos do socialismo. Por isso quem só por eles luta, não tem razão para declarar-se socialista. Mas não se vá julgar que os partidos socialistas, não filiados ainda no comunismo, professam já todos teórica e praticamente esta moderação. Em geral não renegam a luta de classes nem a abolição da propriedade, apenas a mitigam. Ora se os falsos princípios assim se mitigam e obliteram, pergunta-se, ou melhor perguntam alguns sem razão, se não será bem que também os princípios católicos se mitiguem e moderem, para sair ao encontro do socialismo e congraçar-se com ele a meio caminho? Não falta quem se deixe levar da esperança de atrair por este modo os socialistas. Esperança vã! Quem quer ser apóstolo entre os socialistas, é preciso que professe franca e lealmente toda a verdade cristã, e que de nenhum modo feche os olhos ao erro. Esforcem-se antes, se querem ser verdadeiros arautos do Evangelho, por mostrar aos socialistas, que as suas reclamações, na parte que tem de justas, se defendem muito mais vigorosamente com os princípios da fé e se promovem muito mais eficazmente com as forças da caridade. Contrasta com a doutrina católica E se o socialismo estiver realmente tão moderado no tocante à luta de classes e à propriedade particular, que já não mereça nisto a mínima censura? Terá renunciado por isso à sua natureza essencialmente anticristã? Eis uma dúvida, que a muitos traz suspensos. Muitíssimos católicos convencidos de que os princípios cristãos não podem jamais abandonar-se nem obliterar-se, volvem os olhos para esta Santa Sé e suplicam instantemente, que definamos se este socialismo repudiou de tal maneira as suas falsas doutrinas, que já se possa abraçar e quase baptizar, sem prejuízo de nenhum princípio cristão. Para lhes respondermos, como pede a Nossa paterna solicitude, declaramos : O socialismo quer se considere como doutrina, quer como facto histórico, ou como « acção », se é verdadeiro socialismo, mesmo depois de se aproximar da verdade e da justiça nos pontos sobreditos, não pode conciliar-se com a doutrina católica; pois concebe a sociedade de modo completamente avesso à verdade cristã. Com efeito : segundo a doutrina cristã o homem sociável por natureza é colocado nesta terra, para que, vivendo em sociedade e sob a autoridade ordenada por Deus, 54 cultive e desenvolva plenamente todas as suas faculdades, para louvor e glória do Criador, e pelo fiel cumprimento dos deveres da sua profissão ou vocação, qualquer que ela seja, grangeie a felicidade temporal e eterna. Ora o socialismo, ignorando por completo ou desprezando este fim sublime dos indivíduos e da sociedade, opina que o consórcio humano foi instituído só pela vantagem material que oferece. E na verdade do facto que o trabalho convenientemente organizado é muito mais produtivo que os esforços isolados, os socialistas concluem, que a actividade económica deve necessariamente revestir uma forma social. Desta necessidade segue-se, segundo eles, que os homens por amor da produção são obrigados a entregar-se e sujeitar-se completamente à sociedade. Mais : estimam tanto os bens materiais, que servem à comodidade da vida, que afirmam deverem pospor-se e mesmo sacrificar-se quaisquer outros bens superiores e em particular a liberdade às exigências de uma produção activíssima. Esta perda da dignidade humana, inevitável no sistema da produção « socializada », julgam-na bem compensada com a abundância dos bens que, produzidos socialmente, serão distribuídos pelos indivíduos, e estes poderão livremente aplicar a uma vida mais cómoda e faustosa. Em consequência a sociedade sonhada pelo socialismo não pode existir nem conceber-se sem violências manifestas; por outra parte goza de uma liberdade não menos falsa, pois carece de verdadeira autoridade social; esta não pode fundar-se nos cómodos materiais, mas provém somente de Deus Criador e fim último de todas as coisas. (55) Católicos e socialistas termos contraditórios E se este erro, como todos os mais, encerra algo de verdade, o que os Sumos Pontífices nunca negaram, funda-se contudo numa própria concepção da sociedade humana, diametralmente oposta à verdadeira doutrina católica. Socialismo religioso, socialismo católico são termos contraditórios : ninguém pode ser ao mesmo tempo bom católico e verdadeiro socialista. Socialismo educador Estas doutrinas que Nós de novo com a Nossa suprema autoridade solenemente declaramos e confirmamos, devem aplicar-se também a um novo sistema de socialismo prático, ainda mal conhecido, mas que se vai propagando nos meios socialistas. Propõe-se ele a formação das inteligências e dos costumes; e ainda que se faz particular amigo da infância e procura aliciá-la, abraça todas as idades e condições, para formar o homem « socialista » que há de constituir mais tarde a sociedade humana plasmada pelo ideal do socialismo. Na Nossa encíclica « Divini illius Magistri » ensinámos desenvolvidamente os princípios, em que se funda, os fins, a que se dirige a pedagogia cristã. (56) Quão contrários lhes sejam a teoria e a prática do socialismo educador, é tão claro e evidente, que é inútil insistir. Parecem porém ignorar ou não ter na devida conta os gravíssimos e funestos perigos deste socialismo, os que não tratam de lhe resistir forte e energicamente, como o pede a gravidade das circunstâncias. É dever do Nosso múnus pastoral chamar-lhes a atenção para a gravidade e eminência do perigo : lembrem-se todos, que deste socialismo educador foi pai o liberalismo, será herdeiro legítimo o bolchevismo. Católicos desertores nos arraiais socialistas Pôsto isto, compreendeis facilmente, veneráveis Irmãos, com quanta dor vemos em algumas regiões não poucos dos Nossos filhos, de cuja fé e boa vontade não queremos duvidar, desertar dos arraiais da Igreja e passar às fileiras do socialismo; uns ostentando abertamente o nome e professando as doutrinas socialistas, outros indiferentes ou talvez forçados entrando em associações, que teórica ou praticamente professam o socialismo. Ora Nós com paterna solicitude ansiosamente vamos considerando e indagando como foi possível, que chegassem a tal aberração; e parece-Nos ouvir a resposta, com que muitos se escusam : a Igreja e todos os que se lhe proclamam obedientes, favorecem os ricos, desprezam os operários, nem têm deles o mínimo cuidado; por isso é que se viram na necessidade de se inscrever no socialismo para salvaguardar os próprios interesses. É muito para lamentar, veneráveis Irmãos, que houvesse um tempo e haja ainda quem, dizendo-se católico, apenas se lembra da sublime lei da justiça, e caridade, que nos obriga não só a dar a cada um o que lhe pertence, mas também a socorrer os pobres, nossos irmãos, como ao próprio Jesus Cristo; (57) quem não teme oprimir os operários por cobiça de sórdido lucro e, o que é mais grave, quem abusa da mesma religião para paliar as suas iníquas extorsões e defender-se contra as justíssimas reclamações dos operários. Por Nossa parte não deixaremos nunca de censurar severamente um tal proceder; são eles os culpados de a Igreja se ver injustamente (mas com certa aparência de verdade) acusada de patrocinar a causa dos ricos, e de não se compadecer das necessidades e angústias dos pobres, defraudados da sua parte de bem-estar nesta vida. Aparências infundadas e acusações caluniosas, como demonstra toda a história da Igreja. Bastava a encíclica, cujo quadragésimo aniversário celebramos, para provar exuberante mente, que, só com a maior das injustiças, se podem assacar à Igreja tais calúnias e contumélias. Oxalá voltem à casa paterna Porém nem a injúria Nos ofende, nem a magna desalenta o Nosso coração paterno a ponto de repelirmos para longe de Nós estes filhos tristemente enganados e saídos do caminho da verdade e da salvação; ao contrário com toda a possível solicitude os convidamos, a que voltem ao seio da Santa Madre Igreja. Oxalá que dêem ouvidos à Nossa voz! Oxalá que voltem à casa paterna donde saíram e aí permaneçam no seu posto, nas fileiras daqueles que, fieis às directivas promulgadas por Leão XIII e por Nós hoje solenemente renovadas, procuram reformar a sociedade segundo o espírito da Igreja, fazendo reflorescer a justiça e a caridade sociais. E persuadam-se que em parte nenhuma podem encontrar maior felicidade, até mesmo temporal, que junto d’Aquele que por nós se fez pobre sendo rico, para nos enriquecer com a sua pobreza, (58) que viveu pobre e em trabalhos desde a sua juventude, que chama a si todos os que trabalham e se vêem oprimidos, para os aliviar na caridade do seu Coração, (59) que finalmente sem aceitação de pessoas exigirá mais d’aqueles a quem foi dado mais (60) e retribuirá a cada um segundo as suas obras. (61) 3. – REFORMA DOS COSTUMES Mas se examinarmos as coisas mais a fundo, veremos à evidência, que esta restauração social tão ardentemente desejada, não se pode obter sem prévia e completa renovação do espírito cristão, do qual miseravelmente desertaram tantos economistas; porque sem ela seriam inúteis todos os esforços e fabricariam não sobre a rocha, mas sobre a areia movediça. (62) E realmente, veneráveis Irmãos e amados Filhos, acabamos de estudar a economia actual, e achámo-la profundamente viciada. Citámos novamente a juízo o comunismo e o socialismo, e vimos quanto as suas formas ainda as mais mitigadas, se desviam dos ditames do Evangelho. « Portanto, para usar das palavras do Nosso Predecessor, se pode curar-se a sociedade humana, só se curará voltando à vida e instituições cristãs ». (63) Só estas podem dar remédio eficaz à demasiada solicitude das coisas caducas origem de todos os vícios ; só estas podem fazer, que os homens, fascinados pelos bens deste mundo transitório, desviem deles os olhos e os levantem ao céu. Quem dirá, que este remédio não é hoje, mais que nunca, necessário à família humana? A ruína das almas Todos se preocupam quase unicamente com as revoluções, calamidades e ruínas temporais. Mas, se vemos as coisas à luz da fé, que é tudo isto em comparação da ruína das almas? Bem pode dizer-se, que tais são hoje as condições da vida social e económica, que se torna muito difícil a uma grande multidão de homens ganharem o único necessário, a salvação eterna. Nós, a quem o Príncipe dos Pastores constituiu Pastor e Guarda destas inumeráveis ovelhas, remidas com o seu sangue, não podemos contemplar a olhos enxutos o gravíssimo perigo, que elas correm. Senão que, lembrados do Nosso dever pastoral, com solicitude paterna, meditamos continuamente no modo de as ajudar, chamando em auxílio o zelo indefesso dos que a isso estão obrigados por justiça ou caridade. Pois que aproveita aos homens poderem mais facilmente lucrar o mundo inteiro com uma distribuição e uso mais racional das riquezas, se com isso mesmo vem a perder a alma? (64) Que aproveita ensinar-lhes os princípios da boa economia, se com avareza sórdida e desenfreada se deixam arrebatar de tal maneira do amor dos próprios bens, que « ouvindo os mandamentos do Senhor, fazem tudo o contrário »? (65) Causa desta ruína A raiz e fonte desta defecção da lei cristã na vida social e económica, e da consequente apostasia da fé católica para muitos operários é a desordem das paixões, triste efeito do pecado original; foi ele que destruiu a admirável harmonia das faculdades humanas e dispõe o homem a deixar-se facilmente arrastar das más paixões e a preferir os bens caducos da terra aos eternos do céu. D’aqui aquela sede inextinguível de riquezas e bens temporais, que, se em todos os tempos arrastou os homens a quebrar a lei de Deus e conculcar os direitos do próximo, nas actuais condições económicas arma à fragilidade humana laços ainda mais numerosos. Com efeito a incerteza da economia e mais ainda a sua complicação exigem dos que a ela se aplicam, uma contenção de forças suma e contínua; em consequência algumas consciências calejaram de tal maneira, que julgam lícitos todos os meios de aumentar os lucros e defender contra os vaivens da fortuna a riqueza adquirida à custa de tantos esforços e cancerais. A facilidade dos lucros, que oferece a anarquia do mercado, leva muitos a darem-se ao comércio desejosos unicamente de enriquecer sem grande trabalho; os quais, com desenfreada especulação, levantam e diminuem os preços a capricho da própria cobiça e com tal frequência, que desconcertam todos os cálculos dos produtores. As instituições jurídicas destinadas a favorecer a colaboração dos capitais, por isso que dividem e diminuem os riscos, dão lugar muitas vezes aos mais repreensíveis excessos; com efeito vemos a responsabilidade tão atenuada, que já a poucos impressiona; sob a tutela de um nome colectivo praticam-se as maiores injustiças e fraudes; os gerentes destas sociedades económicas, esquecidos dos seus deveres, atraiçoam os direitos daqueles, cujas economias deviam administrar. Nem se devem finalmente deixar em silêncio os traficantes que, sem olharem à honestidade das suas artes, não temem estimular os caprichos da clientela para deles abusarem em própria vantagem. Somente uma rígida disciplina dos costumes, energicamente apoiada pela autoridade pública, poderia ter afastado ou mesmo prevenido tão graves inconvenientes; mas infelizmente essa faltou. Quando começou a aparecer o novo regime económico, tinha o nacionalismo penetrado e lançado raízes em muitas inteligências; por isso e ciência económica, que então se formou, prescindindo da lei moral, soltava as rédeas às paixões humanas. E assim sucedeu, que mais do que antes, muitíssimos não pensavam senão em aumentar por todos os modos as suas riquezas; e procurando-se a si mais que tudo e acima de todos, de nada tinham escrúpulo, nem sequer dos maiores delitos contra o próximo. Os primeiros a entrar por este caminho largo que leva à perdição, (66) grangearam por sua vez e facilmente muitos imitadores da sua maldade, já pelo exemplo de um êxito aparente, já pela insolente pompa das suas riquezas, ora metendo a ridículo a consciência dos outros, como se estivesse agitada de vãos escrúpulos, ora finalmente conculcando os competidores mais conscienciosos. Desviados do bom caminho os dirigentes da economia, devia logicamente precipitar-se no mesmo abismo a multidão operária; e isto tanto mais, que muitos directores de oficinas usavam dos operários como de meros instrumentos, em nada solícitos da sua alma, não pensando sequer no sobrenatural. Sentimo-Nos horrorizados ao pensar nos gravíssimos perigos a que estão expostos nas fábricas modernas os costumes dos operários (sobre tudo jovens) e o pudor das mulheres e donzelas; ao lembrarmo-Nos de que muitas vezes o sistema económico hodierno e sobre tudo as más condições da habitação criam obstáculos à união e intimidade da vida de família; ao recordarmos os muitos e grandes impedimentos opostos à devida santificação dos domingos e festas de guarda; ao considerarmos enfim como diminuiu aquele sentimento verdadeiramente cristão, com que até os rudes e ignorantes aspiravam aos bens superiores, para dar lugar à solicitude única de procurar tão somente e por todos os meios o pão quotidiano. Deste modo o trabalho corporal, ordenado pela divina Providência, depois da. culpa de origem, para remédio do corpo e da alma, converte-se frequentemente em instrumento de perversão : da oficina só a matéria sai enobrecida, os homens ao contrário corrompem-se e aviltam-se. REMÉDIOS A) Cristianização da vida económica A esta tão deplorável crise das almas, que, enquanto dure, tornará inúteis todos os esforços de regeneração social, não pode dar-se outro remédio, mais que reconduzir os homens à profissão franca e sincera da doutrina evangélica, aos ensinamentos d’Aquele, que tem ele só palavras de vida eterna, (67) e palavras tais, que hão de perdurar eternamente, ainda depois de passarem os céus e a terra. (68) É certo que todos os verdadeiramente entendidos em sociologia, anseiam por uma reforma moldada pelas normas da razão, que restitua a vida económica à sã e recta ordem. Mas esta ordem, que também Nós ardentemente desejamos, e procuramos com o maior empenho, será de todo falha e imperfeita, se não tenderem de concerto todas as energias humanas a Imitar a admirável unidade do divino conselho e a consegui-la, quanto ao homem é dado : chamamos perfeita aquela ordem apregoada pela Igreja com grande força e tenacidade, pedida mesmo pela razão humana, isto é : que tudo se encaminhe para Deus fim primário e supremo de toda a actividade criada, e que todos os bens criados por Deus se considerem como instrumentos dos quais o homem deve usar tanto, quanto lhe sirvam a conseguir o último fim. Nem deve julgar-se que esta filosofia rebaixa as artes lucrativas ou as considera menos conformes à dignidade humana; pelo contrário ensina a reconhecer e venerar nelas a vontade manifesta do divino Criador, que colocou o homem sobre a terra para a cultivar e usar dela segundo as suas múltiplas precisões. Nem é vedado aos que se empregam na produção, aumentar justa e devidamente a sua fortuna; antes a Igreja ensina ser justo que quem serve a sociedade e lhe aumenta os bens, se enriqueça também desses mesmos bens conforme a sua condição, contanto que isto se faça com o respeito devido à lei de Deus e salvos os direitos do próximo, e os bens se empreguem segundo os princípios da fé e da recta razão. Se esta doutrina fosse por todos, em toda a parte e sempre observada, não somente a produção e aquisição dos bens, mas também o uso das riquezas, agora tantas vezes desordenado, voltaria depressa aos limites da equidade e justa distribuição; à única e tão sórdida preocupação dos próprios interesses, que é a desonra e o grande pecado do nosso tempo, opõr-se-ia na verdade e de facto a suavíssima e igualmente poderosa lei da moderação cristã, que manda ao homem buscar primeiro o reino de Deus e a sua justiça, seguro de que também na medida do necessário a liberalidade divina, fiel às suas promessas, lhe dará por acréscimo os bens temporais. (69) B) A lei da caridade Mas isto só não basta : à lei da justiça deve juntar-se a da caridade, « que é o vínculo da perfeição ». (70) Quanto se enganam por tanto os reformadores incautos, que atendendo somente a guardar a justiça comutativa, rejeitam com orgulho o concurso da caridade! De certo não pode a caridade substituir a justiça, quando o devido se nega iniquinamente. Contudo ainda que o homem alcance enfim quanto lhe é devido, restará sempre um campo imenso aberto à caridade : a justiça, bem que praticada com todo o rigor, se pode extirpar as raízes das lutas sociais, não poderá nunca sozinha congraçar os ânimos e unir os corações. Ora todas as instituições criadas para consolidar a paz e promover a colaboração social, por mais perfeitas que pareçam, tem o fundamento da sua estabilidade principalmente no vínculo que une as almas; se este falta, tornam-se ineficazes os melhores estatutos, como tantas vezes a experiência no-lo ensinou. Por isso só haverá uma verdadeira cooperação de todos para o bem comum, quando as diversas partes da sociedade sentirem intimamente, que são membros de uma só e grande família, filhos do mesmos Pai celeste, antes um só corpo em Cristo e « membros uns dos outros », (71) de modo que « se um membro sofre, todos os membros sofrem com ele ». (72) Então os ricos e senhores converterão em amor solícito e operoso o antigo desprezo pelos irmãos mais pobres; acolherão os seus justos pedidos com bom rosto e coração aberto, perdoar-lhes-ão até sinceramente as culpas e os erros. Por sua vez os operários, reprimindo qualquer sentimento de ódio e inveja, de que abusam com tanta astúcia os fautores da luta de classes, não desdenharão o posto que a divina Providência lhes assinou na sociedade humana, antes o terão em grande apreço, bem persuadidos de que no seu emprego e ofício trabalham útil e honrosamente para o bem comum, e seguem mais de perto Aquele que, sendo Deus, quis na terra fazer-se operário e ser considerado como filho de operário. É desta nova difusão do espírito evangélico no mundo, do espírito de moderação cristã e de caridade universal, que há de brotar, como esperamos, aquela tão desejada e completa restauração da sociedade humana em Cristo, e aquela « Paz de Cristo no reino de Cristo », a que desde o início do nosso Pontificado firmemente propusemos consagrai todo o Nosso cuidado e solicitude pastoral. (73) A esta obra primordial e hoje absolutamente necessária, também vós, veneráveis Irmãos, posto. pelo Espírito Santo a governar comNosco a Igreja de Deus (74) consagrais incansavelmente o melhor do vosso zelo em todas as partes do mundo, inclusivamente nas terras de missões entre infiéis. A vós o merecido louvor e comvosco a todos esses valorosos colaboradores na mesma grande empresa, clérigos ou leigos, aos Nossos amados Filhos da Acção Católica, que Nós com tanto prazer vemos dedicarem-se generosamente comNosco à solução dos problemas sociais, na persuasão de que a Igreja por força da sua divina instituição tem o direito e o dever de se ocupar d’eles. A todos estes instantemente exortamos no Senhor, que não se poupem a nenhum trabalho, não se deixem vencer das dificuldades, mas cada vez cobrem maior ânimo e sejam fortes. (75) É árdua efectivamente a empresa que lhes propomos : conhecemos muito bem, que de ambas as partes surgem inúmeros obstáculos, quer das classes superiores, quer das inferiores da sociedade. Não desanimem porém; a vida do cristão é uma contínua milícia; mas assinalar-se em empresas difíceis é próprio dos que, como bons soldados, (76) mais de perto seguem a Cristo. Portanto unicamente confiados no auxílio omnipotente d’Aquele que « a todos os homens quer salvar », (77) esforcemo-nos em ajudar estas pobres almas, afastadas de Deus, e arrancando-as aos cuidados temporais, em que vivem enredadas, ensinemos-lhes a aspirar confiadamente às coisas eternas. Nem isto é sempre tão difícil de obter, como à primeira vista parece : se nos recônditos do coração, ainda o mais perdido, como brasas debaixo da cinza, se ocultam maravilhosas energias de espírito, testemunho seguro d’aquela « alma naturalmente cristã », quanto mais as haverá nos corações d’aqueles, e são a maior parte, que mais por ignorância ou por influências externas, do que por malícia, se deixaram arrastar para o erro? Além disto apresentam-nos já sinais lisonjeiros de restauração social as mesmas fileiras dos operários, nas quais vemos com indizível gozo da alma poderosos núcleos de jovens, que escutam com docilidade as inspirações da graça divina e se empenham com zelo incrível em ganhar a Cristo a alma de seus irmãos. E não são menos dignos de elogio os dirigentes das organizações operárias que, esquecidos dos seus interesses e solícitos sobre tudo do bem dos companheiros, procuram harmonizar prudentemente as suas justas reclamações com a prosperidade de toda a indústria, nem por nenhumas dificuldades ou suspeitas se deixam demover de tão nobre procedimento. Podem ver-se até muitos jovens destinados a ocupar brevemente ou pelo engenho ou pelas riquezas um posto de realce nas primeiras camadas da sociedade, que se consagram com o mais intenso cuidado a estas questões, dando risonha esperança de virem a dedicar-se todos à restauração social. Caminho a seguir As circunstâncias, veneráveis Irmãos, mostram bem qual a via a trilhar. Como noutras épocas da Igreja, temos de defrontar-nos com um mundo quase recaído no paganismo. Para reconduzir a Cristo, a quem renegaram, essas classes inteiras de homens, devem escolher-se e formar-se de entre elas soldados auxiliares da Igreja, que conheçam bem os mesmos homens, os seus pensamentos e aspirações, e possam pela caridade fraterna penetrar-lhes suavemente no coração. Os primeiros e imediatos apóstolos dos operários devem ser operários; os apóstolos dos artistas e comerciantes devem sair dentre eles. Procurar cuidadosamente estes apóstolos dos operários e patrões, escolhê-los com prudência, formá-los e educá-los como convém, é principalíssimo dever vosso e do vosso clero, veneráveis Irmãos. É de certo um pesado múnus imposto aos sacerdotes, para cujo desempenho devem preparar-se devidamente com aturado estudo das questões sociais os levitas que formam a esperança da Igreja; mas é sobre tudo necessário que os escolhidos em particular para este ofício sejam dotados de um tão apurado sentimento de justiça, que resistam varonilmente a qualquer reclamação iníqua ou acção injusta; se avantagem na prudência e numa discrição não inclinada a extremos; que estejam mais que tudo penetrados da caridade de Cristo, que só pode render forte e suavemente os corações e as vontades dos homens às leis da justiça e da equidade. Não há duvida que este caminho, abonado já por felizes resultados, é o que se deve seguir denodadamente. A esses Nossos amados filhos, escolhidos para tão grande empresa, exoramos vivamente no Senhor, que se dêem todos ao cultivo dos homens a si confiados, e que no desempenho desse ofício eminentemente sacerdotal e apostólico usem como convêm da força da educação cristã, ensinando os jovens, fundando associações católicas, criando círculos, onde se cultive o estudo segundo os princípios da fé. Tenham sobretudo em grande apreço e saibam usar para bem dos seus dirigidos aquele preciosíssimo instrumento de restauração individual e social, que são os Exercícios espirituais por Nós encarecidos na Nossa encíclica « Mens Nostra », na qual lembrámos espressamente e recomendámos os exercícios como utilíssimos para todas as classes do laicado e em particular para os operários : com efeito nesta escola do espírito não só se cultivam ótimos cristãos, mas formam-se e inflamam-se no fogo do Coração de Jesus verdadeiros apóstolos para todos os estados da vida. Desta escola, como os Apóstolos do Cenáculo de Jerusalém, sairão fortes na fé, constantes nas perseguições, ardentes de zelo, unicamente solícitos de propagar por toda a parte o reino de Cristo. E certamente agora, mais que nunca, são precisos estes valorosos soldados de Cristo, que trabalhem com todas as forças por preservar a família humana da pavorosa catástrofe, em que viria a precipitar-se, se o desprezo das doutrinas do Evangelho deixasse triunfar uma ordem de coisas, que conculca as leis da natureza, não menos que as de Deus. A Igreja de Cristo, alicerçada na rocha inabalável, nada tem que temer por si, pois sabe muito bem, que as portas do inferno não prevalecerão contra ela; (78) e uma experiência de vinte séculos prova-lhe, que das tempestades mais violentas sai cada vez mais forte e coroada de novos triunfos. Mas o seu coração de Mãe estremece de horror ao pensar nos males sem número, em que estas tempestades afogariam milhares de homens e mais ainda nos gravíssimos danos espirituais, que daí resultariam em ruína de tantas almas resgatadas com o sangue de Cristo. Devem pois envidar-se todos os esforços para desviar da sociedade humana males tão grandes : a isto devem endereçar-se os nossos trabalhos, a nossa solicitude, as nossas orações a Deus, assíduas e fervorosas. Com o socorro da graça divina temos em nossas mãos a sorte da família humana. Não consintamos, veneráveis Irmãos e amados Filhos, que os filhos deste século se mostrem na sua geração mais prudentes do que nós, que somos, por mercê divina, filhos da luz. (79) Vemos com quanta sagacidade eles escolhem adeptos militantes e os formam, para que espalhem os seus erros cada vez mais largamente, em todas as classes e sobre todos os pontos do globo. E quando se trata de combater mais violentamente a Igreja de Cristo, vemos que, dando tréguas às discórdias intestinas, cerram fileiras num só exército, e unidos trabalham com todas as forças por levar a efeito o comum intento. União das forças católicas Ninguém ignora quantas e quão grandes obras empreenda por toda a parte o zelo infatigável dos católicos, tanto no campo social e económico, como no do ensino e da religião. Não raro porém esta actividade admirável e laboriosa se torna menos eficaz devido à demasiada dispersão de forças. Unam-se pois todos os homens de boa vontade, que sob a direcção dos Pastores da Igreja querem combater este bom e pacífico combate de Cristo; e todos, seguindo as directivas e ensinamentos da Igreja, se esforcem por contribuir na medida do seu engenho, forças e condição para aquele renovamento cristão da sociedade, que Leão XIII inaugurou com a imortal encíclica « Rerum novarum » : não se procurando a si mesmos nem os seus próprios interesses, mas os de Jesus Cristo; (80) não teimando em fazer triunfar as suas ideias, por boas que sejam, mas dispostos a sacrificá-las ao bem comum; para que em tudo e sobre tudo reine e impere Cristo, a quem seja honra, glória e poder por todos os séculos. (81) Para que isto se realize, a todos vós, veneráveis Irmãos e amados Filhos, quantos sois membros da grande família católica a Nós confiada, mas com particular afecto aos operários e aos outros trabalhadores de artes mecânicas, a Nós mais especialmente recomendados pela divina Providência, e também aos patrões e empresários cristãos damos de coração a Bênção Apostólica. Dado em Roma, junto de S. Pedro, aos XV de maio de MCMXXXI, ano X do Nosso Pontificado. PIO PP. XI. Notas (1) Encícl. Arcanum 10 de Fevereiro de 1880. (2) Encícl. Diuturnum 29 de Junho de 1881. (3) Encícl. Immortale Dei 1 de Novembro de 1885. (4) Encícl. Sapientiae christianae 10 de Janeiro de 1890. (5) Encícl. Quod apostolici muneris 28 de Dezembro de 1878. (6) Encícl. Libertas 20 de Junho de 1888. (7) Encícl. Rerum novarum, 15 de Maio de 1891, n. 1. (8) Cfr. Encícl. Rerum novarum, n. 13. (9) Encícl. Rerum novarum, n. 2. (10) Encícl. Rerum novarum, D. 13. (11) Mt., 7, 29. (12) Encícl. Rerum novarum, n. 1. (13) S. Ambrósio, de excessu fratris sui Satyri, I, 44. (14) Encícl. Rerum novarum, n. 13. (15) Baste mencionar: Leão XIII, Letras Apostólicas Praeclara 20 de Junho de 1894. Leão XIII Graves de communi 18 de Janeiro de 1901. Pio X Motu proprio sobre a Acção-popular cristã 8 de Dezembro de 1903. Bento XV, Enciclica Ad Beatissimi 1 de Novembro de 1914. Pio XI, Enciclica Ubi arcano 23 de Dezembro de 1922. Pio XI, Enciclica Rite expiatis 30 de Abril de 1926. (16) Cfr. La Hierarchie Catholique et le Problème social depuis l’Encyclique « Rerum novarum » 1891-1931, pp. XVI-335, publicado pela « Union internationale d’études sociales fondée à Malines, en 1920, sons la présidence du Card. Mercier ». (Paris, éditions Spes », 1931). (17) Cfr. Is. 11, 12. (18) Encícl. Rerum novarum, n. 25. (19) Encícl. Rerum novarum, n. 29. (20) Encícl. Rerum novarum, n. 36. (21) Encícl. Rerum novarum, n. 42. (22) Encícl. Rerum novarum, n. 43. (23) Encícl. Singulari quadam de 24 de Setembro de 1912. (24) Carta da S. Congregação do Concilio ao Bispo de Lille, 5 de Junho de 1929. (25) Cfr. Rom., 1, 14. (26) Cfr. Rerum novarum, n. 13. (27) Encícl. Ubi arcano, 23 de Dezembro de 1922. (28) Cfr. Conc. Vaticano, Sess. 3, c. 4. (29) Encícl. Ubi arcano, 23 de Dezembro de 1922. (30) Encícl. Rerum novarum, n. 19. (31) Cfr. Encícl. Rerum novarum, n. 19. (32) Encícl. Rerum novarum, n. 7. (33) Alocução aos membros de Acção Católica italiana, 16 de Maio de 1926. (34) Encícl. Rerum novarum, n. 6. (35) Encícl. Rerum novarum, n. 10. (36) Encícl. Rerum novarum, n. (37) S. Thomas, S. Th., II, II, q. 97 e 134. (38) Encícl. Rerum novarum, n. 27. (39) Encícl. Rerum novarum, n. 15. (40) Encícl. Rerum novarum, n. 7. (41) II Thess., 3, 10. (42) Cfr. II Thess., 3, 8-10. (43) Encícl. Rerum novarum, n. 35. (44) Encícl. Rerum novarum, n. 34. (45) Encícl. Rerum novarum, n. 17. (46) Cfr. Encícl. Casti connubii, 31 de Dezembro de 1930. (47) Cfr. S. Thomas, De regimine principum, 1, 15. Encícl. Rerum novarum, n. 27. (48) Encícl. Rerum novarum, n. 16. (49) Cfr. S. Thomas, Contra Gentes 3, 71; Summa Theol. I, 9, 65 art. 2 i. c. (50) Cfr. Encícl. Immortale Dei, 1 de Novembro de 1885. (51) Encícl. Rerum novarum, n. 42. (52) Eph., 4, 16. (53) Encícl. Rerum novarum, n. 15. (54) Cfr. Rom., 13, 1. (55) Cfr. Encícl. Diuturnum, 29 de Junho de 1881. (56) Encícl. Divini illius Magistri, 31 de Dezembro de 1929. (57) Cfr. Jac., 2. (58) II Cor., 8, 9. (59) Mt., 11, 28. (60) Cfr. Lc., 12, 48. (61) Mr., 16, 27. (62) Cfr. Mr, 7, 24 ss. (63) Encícl. Rerum novarum, n. 22. (64) Cfr. Mt., 16, 26. (65) Cfr. Judic., 2, 17. (66) Cfr. Mt., 7, 13. (67) Cfr. Joh., 6, 70. (68) Cfr. Mt., 24, 35. (69) Mt., 6, 33. (70) Col., 3, 14.. (71) Rom, 12, 5. (72) I Cor., 12, 26. (73) Cfr. Encícl. Ubi arcano, de 23 de Dezembro de 1922. (74) Cfr. Act., 20, 28. (75) Cfr. Deut., 31, 7. (76) Cfr. II Tim., 2, 3. (77) I Tim., 2, 4. (78) Mt., 16, 18. (79) Cfr. Lc., 16, 8. (80) Cfr. Phil., 2, 21. (81) Apoc., 5, 13. #LEÃOXIII #PAPAPIOXI #QUADRAGESIMOANNO #RERUMNOVARUM

  • VIGILANTI CURA

    CARTA ENCÍCLICA VIGILANTI CURA DO SUMO PONTÍFICE PAPA PIO XI AOS VENERÁVEIS IRMÃOS ARCEBISPOS, BISPOS E DEMAIS ORDINÁRIOS DOS ESTADOS UNIDOS DA AMÉRICA, EM PAZ E COMUNHÃO COM A SÉ APOSTÓLICA SOBRE O CINEMA Veneráveis Irmãos Saudação e Bênção Apostólica Elogio da “Legião da decência” 1. Acompanhamos com vigilante solicitude, como exige o Nosso ministério apostólico, cada obra dos venerandos antístites e de todo o povo cristão; por isto Nos foi sumamente consoladora a notícia de ter já sazonado frutos salutares e porfiar ainda mais ricas vantagens aquela providente iniciativa, que fundastes há mais de dois anos e cuja realização confiastes de modo especial à “Legião da Decência”, com o fito de, qual santa cruzada, reprimir os abusos das representações cinematográficas. 2. Isso Nos oferece o ensejo, há tanto tempo almejado, de externar mais amplamente Nosso parecer sobre este assunto, relacionado tão de perto com a vida moral e religiosa de todo o povo cristão. Antes de tudo Nos congratulamos convosco por ter esta Legião, guiada e instruída por vós e apoiada pela valiosa cooperação dos fiéis, já prestado, neste setor do apostolado, tão relevantes serviços; alegria tanto mais intensa quanto, angustiados, registrávamos que a arte e indústria do cinema chegara, por assim dizer, “em grandes passos fora do caminho”, ao ponto de mostrar a todos, em imagens luminosas, os vícios, crimes e delitos. I – O cinema e a moral cristã Zelo da Sé Apostólica neste campo 3. Cada vez que se Nos oferecia uma ocasião propícia, consideramos ser um dever de Nosso altíssimo ofício dirigirmo-Nos ao Episcopado e outros membros do Clero, e também a todos os homens de reta e boa vontade, a fim de se preocuparem com este problema de suma importância. O cinema precisa colocar-se a serviço do aperfeiçoamento do homem 4 . Já na encíclica Divini illius magistri“, lamentamos “que tais poderosos meios de divulgação, que podem ser, quando inspirados por princípios sãos, de grande utilidade para a instrução e educação, são muitas vezes desgraçadamente subordinados ao fomento dos instintos maus, à avidez do lucro”. (A. A. S., 1930, p. 82). Em agosto de 1934, dirigindo-Nos, numa audiência, a uma deputação da Federação Internacional do Trabalho da Imprensa Cinematográfica, depois de ter mostrado a grande importância que esta espécie de espetáculo tomou em nossos dias, e sua influência tão intensa, quer para promover o bem, quer para insinuar o mal, lembrávamos que a todo custo se devia aplicar ao cinema, para que ele não injuriasse e desacreditasse a moral cristã, ou simplesmente a moral humana e natural, a regra suprema que deve reger e regulamentar o grande dom da arte. Toda a arte nobre tem como fim e como razão-de-ser, tornar-se para o homem um meio de se aperfeiçoar pela probidade e virtude; e por isso mesmo deve ater-se aos princípios e preceitos da moral. E concluíamos, com a aprovação manifesta daquelas pessoas de elite – ainda Nos é consolador relembrar – ser necessário tornar o cinema conforme às normas retas, de modo que possa levar os espectadores à inteireza da vida e uma verdadeira educação. 5. E ainda recentemente, no mês de abril último, recebendo em audiência um grupo de delegados do Congresso Internacional da Imprensa do Cinema, realizado em Roma, expúnhamos de novo o gravíssimo problema e exortávamos com ardor todas as pessoas cordatas, não só em nome da religião, mas também em nome do verdadeiro bem-estar moral e civil dos povos, de envidar todos os esforços, de usar de todos os meios, principalmente da imprensa, para que o cinema se torne cada vez mais um elemento precioso de instrução e de educação, e não de destruição e de ruína para as almas. Necessidade de diretrizes para a igreja universal 6. Mas o assunto é de tal importância, principalmente nas condições atuais da sociedade, que julgamos necessário tratá-lo de novo, nesta carta, e desenvolvê-lo mais circunstancialmente, traçando diretrizes que correspondam às necessidades presentes, válidas não só para vós, Veneráveis Irmãos, mas também para todos os Bispos do orbe católico. Com efeito, é mui necessário e urgente cuidar para que os progressos da ciência e da arte, e mesmo das artes da indústria técnica, verdadeiros dons de Deus, sejam dirigidos de tal modo à glória de Deus, à salvação das almas, à extensão do reino de Jesus Cristo sobre a terra, que todos, como a Igreja nos faz rezar, “aproveitemos os bens temporais de modo a não perder os bens eternos”. Ora, facilmente todos podem verificar que os progressos do cinema, quanto mais maravilhosos se tornam, mais perniciosos foram para a moralidade e para a religião, e mesmo para a honestidade do Estado civil. Preocupação dos próprios diretores da indústria cinematográfica 7. Os próprios diretores desta indústria, nos Estados Unidos, reconheceram-no quando a esse respeito confessaram sua responsabilidade perante os indivíduos e a sociedade. Em março de 1930, por um ato livre, feito de comum acordo ratificado por suas assinaturas e promulgado pela imprensa, tomaram o compromisso solene de proteger no futuro a moralidade dos freqüentadores do cinema. Em virtude dessa promessa, comprometeram-se expressamente a nunca exibir um filme que rebaixasse o senso moral dos espectadores, que ferisse a lei natural e humana ou que mostrasse simpatia pela violação da mesma. Frustrados estes esforços 8. No entanto, apesar desta prudente determinação tomada espontaneamente, os responsáveis e os fabricantes de filmes não puderam ou formalmente não quiseram submeter-se aos princípios a cuja observância se tinham obrigado. Tendo este compromisso sido quase nulo e prosseguindo a exibição do vício e do crime no cinema, todo homem probo, que procura uma honesta diversão, vê-se as mais das vezes obrigado a ficar longe destes espetáculos. O exemplo dos bispos dos E.U. “Legião da decência” 9. Nesta gravíssima situação, Veneráveis Irmãos, fostes vós os primeiros a estudar o meio de defender contra o perigo iminente as almas confiadas aos vossos cuidados; instituístes a “Legião da Decência” como uma cruzada santa, fundada para reanimar enfim os ideais da honestidade moral e cristã. Muito longe de vós esteve a idéia de prejudicar a indústria do cinema; pelo contrário, vós a preservastes antes contra as ruínas, às quais são expostas as formas recreativas que degeneram em corrupção da arte. O apoio dos católicos 10. Vossas diretrizes suscitaram a adesão pronta e dedicada dos fiéis que dirigis. E milhões de católicos dos Estados Unidos subscreveram os compromissos da “Legião da Decência”, obrigando-se a não assistir a representações cinematográficas que ofendessem a moral cristã e as regras de uma vida honesta. Podemos dizer com imensa alegria: vimos o vosso povo colaborar em tão boa harmonia com os bispos na execução deste programa, como jamais nestes últimos tempos Nos foi dado ver mais íntima união entre ambos. O apoio de cristãos e de outros grupos 11. E não só os filhos da Igreja Católica, mas distintos protestantes e ilustres israelitas e muitos outros aceitaram a vossa iniciativa; uniram-se aos vossos esforços para dar ao cinema normas que condigam com tão nobre arte e a moral. Conforta-Nos muito assinalar o sucesso notável desta cruzada, pois que, segundo Nos foi referido, sob a vossa vigilância e sob a pressão da opinião pública o cinema mostrou um progresso no terreno moral. Crimes e vícios foram reproduzidos menos freqüentemente do que antes; o pecado não foi aprovado e aclamado tão abertamente; não mais se apresentaram de maneira tão impressionante falsas normas de vida ao espírito impressionável e facilmente excitado da mocidade. Resposta às críticas 12. Embora em certos meios se tenha predito que o valor artístico do cinema sofreria pelas exigências da “Legião da Decência”, parece ter sucedido exatamente o contrário. Pois esta Legião deu forte impulso aos esforços feitos para elevar cada vez mais o cinema a grande nobreza de nível artístico, impelindo-o à produção de obras clássicas e a criações originais de valor pouco comum. 13. Também os que colocaram seu dinheiro na indústria cinematográfica não tiveram prejuízo com isso, como alguns, sem provar com razões suficientes sua asserção, agouraram; pois não poucos, que aborreciam o cinema por ofender a moral, recomeçaram a freqüentar estes espetáculos, desde que se exibiram filmes com enredos que não desdizem nem da probidade humana nem da moral cristã. 14. No começo da vossa cruzada, Veneráveis Irmãos, dizia-se que estes esforços seriam de curta duração e seus efeitos transitórios, porque, relaxando a vossa vigilância e a dos vossos fiéis, os industriais voltariam a seu talante aos processos anteriores. É fácil compreender por que alguns desejavam voltar às produções equívocas que excitam as paixões inferiores e que proibistes. Enquanto a produção de figuras realmente artísticas, de cenas humanas e ao mesmo tempo virtuosas exige um esforço intelectual, trabalho, habilidade e também uma despesa grande, é relativamente fácil provocar certa categoria de pessoas e de classes sociais com representações que excitam as paixões e despertam os instintos inferiores, latentes no coração humano. Perseverar no esforço iniciado e bem sucedido 15. Uma vigilância incessante e universal deve convencer de vez aos produtores de que a “Legião da Decência” não foi fundada para ter só uma curta duração, mas que, sob os auspícios dos Bispos dos Estados Unidos, as diversões honestas do povo em qualquer tempo e sob qualquer aspecto com todo empenho sejam salvaguardadas. II. Influência do Cinema e Fiscalização Necessidade do lazer, mas sadio e moral 16. Não há negar que o recreio corporal e espiritual, em suas múltiplas manifestações do progresso moderno, tornou-se necessário para os que se cansam nas ocupações e cuidados da vida, mas ele deve ser digno e por isto são e moral; deve elevar-se ao nível de fator positivo de nobres sentimentos. Um povo que, em seus momentos de repouso, se entrega a prazeres que ferem o pudor, a honra, a moral, divertimentos que constituem uma ocasião do pecado, especialmente para a mocidade, corre o perigo de perder sua grandeza e seu poder. Importância do cinema como divertimento 17. É indiscutível que, entre estes divertimentos, o cinema adquiriu, nos tempos modernos, uma importância máxima, por ter-se estendido a todas as nações. Não é necessário registrar que milhões de pessoas diariamente assistem às representações do cinema; que se abrem locais para semelhantes espetáculos cada vez em maior número, em meio de todos os povos de alta cultura ou só meio civilizados; que o cinema se tornou a forma mais popular de recreação, não só para os ricos, mas para todas as classes da sociedade. O poder de influência do cinema 18. Não há hoje um meio mais poderoso para exercer influência sobre as massas, quer devido às figuras projetadas nas telas, quer pelo preço do espetáculo cinematográfico, ao alcance do povo comum, e pelas circunstâncias que o acompanham. A força da imagem aliada à música 19. O poder do cinema provém de que ele fala por meio da imagem, que a inteligência recebe com alegria e sem esforço, mesmo se tratando de uma alma rude e primitiva, desprovida de capacidade ou ao menos do desejo de fazer esforço para a abstração e a dedução que acompanha o raciocínio. Para a leitura e audição, sempre se requer atenção e um esforço mental que, no espetáculo cinematográfico, é substituído pelo prazer continuado, resultante da sucessão de figuras concretas. No cinema falado, este poder atua ainda com maior força, porque a interpretação dos fatos se torna muito fácil e a música ajunta um novo encanto à ação dramática. Se nos entreatos se acrescentam danças e variedades, as paixões recebem excitações das mais perigosas, que avultam vertiginosamente. O cinema como lição de coisas 20. A cinematografia realmente é para a maioria dos homens uma lição de coisas que instrui mais eficazmente no bem e no mal, do que o raciocínio abstrato. É, pois, necessário que o cinema, erguendo-se ao nível da consciência cristã, sirva à difusão dos seus ideais e deixe de ser um meio de depravação e de desmoralização. Os malefícios dos maus filmes 21. É geralmente sabido o mal enorme que os maus filmes produzem na alma. Por glorificarem o vício e as paixões, são ocasiões de pecado; desviam a mocidade do caminho da virtude; revelam a vida debaixo de um falso prisma; ofuscam e enfraquecem o ideal da perfeição; destroem o amor puro, o respeito devido ao casamento, as íntimas relações do convívio doméstico. Podem mesmo criar preconceitos entre indivíduos, mal-entendidos entre as várias classes sociais, entre as diversas raças e nações. Os bons filmes e seus frutos 22. As boas representações podem, pelo contrário, exercer uma influência profundamente moralizadora sobre seus espectadores. Além de recrear, podem suscitar uma influência profunda para nobres ideais da vida, dar noções preciosas, ministrar amplos conhecimentos sobre a história e as belezas do próprio país, apresentar a verdade e a virtude sob aspecto atraente, criar e favorecer, entre as diversas classes de uma cidade, entre as raças e entre as várias famílias, o recíproco conhecimento e amor, abraçar a causa da justiça, atrair todos à virtude e coadjuvar na constituição nova e mais justa da sociedade humana. Aspectos que esclarecem a força dos filmes: a) exibidos para grandes grupos 23. Estas Nossas observações são tanto mais graves por falar uma representação de cinema não a pessoas separadas, e sim a grandes reuniões, e isto em condições de lugar e tempo que podem levar a um entusiasmo depravado, como também a um ardor ótimo; entusiasmo que pode chegar a uma louca e geral concitação, que pela experiência tão bem conhecemos. b) em salas semi-obscuras 24. As figuras cinematográficas são mostradas a pessoas sentadas em meia-escuridão e cujas faculdades mentais, e mesmo forças espirituais, estão freqüentemente descontroladas. Não é necessário ir longe para encontrar essas salas; estão em geral ao lado das casas, das igrejas e dos grupos escolares, levando assim o cinema ao meio da vida a sua influência suma e suma importância. c) a sedução dos atores e atrizes 25. As variadíssimas cenas no cinema são representadas por homens e mulheres escolhidos sob o critério da arte e de um conjunto de qualidades naturais, e que se exibem num aparato tão deslumbrante a se tornarem às vezes uma causa de sedução, principalmente para a mocidade. O cinema ainda tem a seu serviço a música, as salas luxuosas, o realismo vigoroso, todas as formas do capricho na extravagância. E por isso seu encanto se exerce com um atrativo particular sobre as crianças e os adolescentes. Justamente na idade, na qual o senso moral está em formação, quando se desenvolvem as noções e os sentimentos de justiça e de retidão, dos deveres e das obrigações, do ideal da vida, é que o cinema toma uma posição preponderante. De fato, geralmente a serviço do mal 26. E, infelizmente, no atual estado de coisas, é geralmente para o mal que o cinema exerce sua influência. Quando pensamos na ruína de tantas almas especialmente de moços e de crianças, cuja integridade e castidade periga nas salas de cinema, vem à Nossa mente a terrível sentença de Nosso Senhor contra os corruptores dos pequenos: “O que escandalizar um destes pequeninos que crêem em mim, melhor lhe fora que se lhe pendurasse ao pescoço a mó que um asno faz girar e que o lançassem no fundo do mar”. (Mt 18, 6 ). É uma das supremas necessidades do nosso tempo fiscalizar e trabalhar com todo afinco para que o cinema não seja uma escola de corrupção, mas que se transforme em um precioso instrumento de educação e de elevação moral. Preocupação dos governos 27. Aqui lembramos com viva satisfação que certos governos, preocupados com a influência do cinema no domínio moral e educativo, criaram, por meio de pessoas probas e honestas, principalmente com pais e mães de família, comissões especiais de censura, como também organismos indicadores para a produção cinematográfica, orientando sua inspiração para obras nacionais de seus grandes poetas e escritores. Os bispos e católicos dos outros países sigam o exemplo 28. Assim, se é sobremaneira conveniente que vós, Veneráveis Irmãos, exerçais uma vigilância especial sobre a indústria cinematográfica em vosso país, a qual por causa de seu vigoroso desenvolvimento exerce grande influência nas outras partes do mundo, é também dever dos Bispos de todo o orbe católico unirem-se para fiscalizar esta universal e poderosa forma de diversão e de ensino, para fazer prevalecer como motivo de proibição do mau cinema, a ofensa feita ao sentimento religioso e moral e a tudo que é contrário ao espírito cristão e a seus princípios éticos, não se cansando de combater tudo que contribui para enfraquecer ou extinguir no povo o sentimento da decência e da honra. É um dever que compete não somente aos Bispos, mas também a todos os católicos e a todos os homens honestos que amam a dignidade e a saúde moral da família, da nação, e em geral da sociedade humana. III. Meios de Vigilância e Censura Vigilância difícil quanto à produção dos filmes 29. Em que consiste, para o momento presente, esta vigilância? O problema da produção de filmes morais seria radical e felizmente resolvido, se fosse possível obter uma produção cinematográfica, inspirada completamente nos princípios da moral cristã. Por este motivo, não Nos cansaremos de louvar aqueles que se consagraram e se consagrarão ao nobre intuito de elevar a cinematografia à função de educação humana e às exigências da consciência cristã. Empreendam isto com a competência de técnicos e não de meros diletantes, para evitar prejuízo de dinheiro e de energia. Necessidade de vigiar os filmes que estão nas telas 30. Por ser, porém, como Nós bem o sabemos, muito difícil organizar uma tal indústria, principalmente por motivos de ordem financeira, e como, de outro lado, é necessário exercer influência sobre todos os filmes para que não haja ação prejudicial, no que diz respeito à religião, moral e sociedade civil, é necessário que os pastores de almas se interessem pelos filmes que estão atualmente ao alcance do povo cristão. Apelo aos diretores, autores e atores católicos 31. Quanto à indústria dos filmes, exortamos ardentemente aos Bispos de todos os países produtores, e especialmente a vós, Veneráveis Irmãos, a fazer um apelo a todos os católicos que de qualquer forma participam desta indústria. Eles devem pensar seriamente nos seus deveres e nas responsabilidades que têm como filhos da Igreja; devem usar de seu empenho para reproduzir nos filmes que produzem, ou que ajudam a produzir, princípios sãos e morais. O número de católicos executores ou diretores, autores e atores nos filmes não é pequeno, e infelizmente sua influência na confecção dos filmes nem sempre foi de acordo com a sua fé e suas idéias. Será dever dos bispos estimulá-los a fazer concordar sua profissão com a consciência de homens respeitáveis e discípulos de Jesus Cristo. Aí, como em todos os campos de apostolado, os pastores de almas certamente encontrarão excelentes colaboradores nos que militam nas fileiras da Ação Católica, aos quais nesta Carta Encíclica fazemos ardoroso apelo para que dêem seu concurso sem tréguas e sem desfalecimento também a esta campanha. Deveres dos bispos 32. Periodicamente os bispos farão bem em relembrar à indústria cinematográfica que, entre as preocupações de seu ministério pastoral, está a obrigação de se interessarem por todas as formas de diversão sã e honesta, porque são responsáveis diante de Deus pela moralidade do povo, a eles confiado, mesmo quando se diverte. O ministério sagrado que exercem força-os a dizer clara e abertamente que um divertimento impuro destrói as fibras morais de uma nação. O que lhes pedem não diz respeito somente aos católicos, mas a todo o público que freqüenta o cinema. Vós, em particular, Veneráveis Irmãos, vós podeis procurar obter dos produtores de filmes este fito, lembrando que eles, nos Estados Unidos, livremente se comprometeram a tomar por si a grave responsabilidade que têm perante a sociedade. 33. Os bispos do mundo inteiro, porém, devem esforçar-se para esclarecer os industriais do cinema, fazendo-os compreender que uma força tão poderosa e universal pode ser dirigida utilmente para um fim muito elevado, como seja o aperfeiçoamento individual e social da humanidade. E não é só questão de evitar o mal. Os filmes nao devem somente ocupar as horas vagas de lazer, mas podem e devem, por sua força magnífica, ilustrar as mentes dos espectadores e dirigi-los positivamente para todas as virtudes. Indicações práticas: 1. Compromisso anual dos católicos 34. Dada a importância da matéria, julgamos oportuno traçar algumas indicações práticas. Antes de tudo, todos os pastores de almas se esforçarão por obter dos fiéis que façam anualmente, como os católicos dos Estados Unidos da América, a promessa de se absterem dos filmes que ofendem a verdade e as instituições cristãs. Este compromisso pode ser obtido de modo mais eficaz por meio da Igreja paroquial ou das escolas; e para este fim os bispos reclamarão a diligente cooperação dos pais e das mães de família, que têm, nesta matéria, graves deveres e responsabilidades. Igualmente podem usar da imprensa católica, que mostrará, com afinco e proveito, a importância desta santa cruzada. 2. Boletins regulares com a classificação dos filmes 35. A execução dessa promessa solene requer que o povo conheça claramente quais os filmes permitidos a todos, quais os filmes permitidos com reserva, quais os filmes prejudiciais ou positivamente maus. Isto exige confecção de listas e sua publicação regular, em forma de boletins, em que, a miúdo, se classifiquem os filmes em forma acessível a todos. 36. Seria para desejar que se pudesse formar uma lista para o mundo inteiro, porque a mesma lei moral está em vigor para todos. Mas, como se trata de publicações que interessam a todos os ramos da sociedade, sábios e ignorantes, ao povo e governos, o juízo sobre um filme não pode ser o mesmo em toda parte. Realmente, as circunstâncias e formas de vida variam em todos os países: não seria por isto prático estabelecer uma só lista para o mundo inteiro. Se cada nação conseguir uma lista com a classificação dos filmes, como indicamos mais acima, já se terá obtido em princípio a direção desejada. 3. Criação de juntas nacionais e suas funções: Produção e classificação de filmes 37. Para este fim, é imprescindivelmente necessário que os bispos criem, em cada país, uma Junta Nacional permanente de revisão, que promova a produção de bons filmes, classifique os outros e divulgue o julgamento ao clero e fiéis. Essa junta seria, com grande proveito, ligada aos organismos centrais da Ação Católica, que está, como é do conhecimento geral, na dependência imediata dos Bispos. Esta obra revisora, para surtir os efeitos infalível e ordenadamente, deve, em cada nação, representar uma unidade e ser administrada centralmente. 38. Naturalmente, por motivos ponderosos, os Bispos, nas suas respectivas dioceses e por meio de sua comissão diocesana, poderão aplicar critérios mais severos à lista nacional feita com normas mais gerais, conforme as condições da sua região, mesmo vetando os filmes já admitidos na lista geral pela razão de ter que estabelecer normas válidas para toda a nação. Organização e coordenação de salas de cinema 39. Esta junta deve ter também a incumbência de organizar salas de cinemas existentes na paróquia e nas associações católicas, de maneira a garantir a essas salas filmes selecionados. Devido à organização dessas salas que se tornam bons clientes para a indústria cinematográfica, pode-se alcançar que essa indústria produza filmes correspondentes completamente a nossos princípios, filmes, que serão depois fornecidos não só às salas católicas, mas também a todas as outras. 40. Compreendemos que a instituição de semelhante junta exige dos fiéis não poucos sacrifícios e despesas. Mas a importância do cinema e a necessidade de proteger a pureza dos costumes do povo cristão e a moralidade da nação inteira, exigem terminantemente essa despesa e trabalho. A eficiência poderosa de nossas escolas, de nossas associações de Ação Católica e mesmo do sagrado ministério está diminuída e posta em perigo pela chaga dos maus cinemas, tão prejudiciais. A estruturação das juntas nacionais 41. A junta deve ser formada por pessoas conhecedoras da técnica cinematográfica e bem firmes nos princípios morais da doutrina católica; devem ser estas pessoas dirigidas por um padre escolhido pelo bispo. Um acordo oportuno ou troca de informações entre os centros dos diversos países poderão tornar mais eficaz e harmoniosa a obra de revisão dos filmes, tomando na devida consideração as diversas condições e circunstâncias. Só assim será possível conseguir, com o auxílio dos escritores católicos, esta admirável unidade no sentir, julgar e agir. Compreensão e apoio dos bispos 42. Os centros devem inspirar-se oportunamente não só nas experiências já adquiridas pelos Estados Unidos, mas também nos trabalhos realizados pelos católicos do mundo inteiro. Se os membros componentes destes diversos centros caíssem em erro, embora com as melhores intenções, o que acontece com todas as coisas humanas, os Bispos tratarão, com sua prudência pastoral, de reparar estes erros e ao mesmo tempo amparar quanto possível a autoridade e estima dos referidos centros, reforçando-os com outros companheiros de autoridade, ou substituindo os que se revelarem incapazes. Frutos que advirão da vigilância dos bispos 43. Se os bispos do mundo aceitarem a responsabilidade para exercer esta vigilância onerosa sobre o cinema, do que não duvidamos, pois conhecemos seu zelo pastoral, poderão fazer uma grande obra para proteção da moralidade do povo nos momentos de repouso. Assim procedendo, terão a seu favor a aprovação e a cooperação de todos os espíritos bem formados, católicos e não-católicos; contribuirão para o progresso desta grande potência internacional, que é o cinema, com a elevada intenção de promover o melhor ideal e as regras de uma vida mais santa. A bênção apostólica 44. Para dar maior força a estes votos que dimanam do Nosso coração paternal, imploramos o auxílio da graça divina, como penhor da qual Nós vos concedemos, com efusão de nossa alma, a vós, Veneráveis Irmãos, e a vosso clero e ao povo a vós confiado, a Bênção Apostólica. Dado em Roma, junto a S. Pedro, dia 29 de junho, festa dos santos Apóstolos Pedro e Paulo, no ano de 1936, décimo quinto ano do Nosso Pontificado. PIUS PP. XI #encíclica #SOBREOCINEMA #VIGILANTICURA

  • OS ESCRAVOS ANÔNIMOS DO CAPITAL-SOCIALISMO – Do blog de Marco Tosatti

    [Um colaborador do blog italiano de Marco Tosatti, que assina com o pseudônimo de Pezzo Grosso, propõe no texto a seguir um diálogo interessante com as ideias do Cardeal Müller sobre o Grande Reset, que dias atrás traduzimos e publicamos aqui ]. (…) O capitalismo nasceu graças ao cristianismo, mas depois da reforma protestante corrompeu o seu espírito original. O capitalismo protestante, ao separar fé e obras, adquiriu autonomia moral. Não se deve esquecer que foi na Alemanha protestante, graças aos excessos do capitalismo protestante, que nasceu o marxismo. O capitalismo global, ao qual nos referimos aqui, é protestante: tanto o capitalismo americano como o dominante na Europa são frutos da heresia protestante. O sonho de certo capitalismo, corrompido pelo espírito do protestantismo, sempre foi praticar uma forma de socialismo ou comunismo ditatorial. O capitalismo “corrompido” persegue o monopólio, no mercado, para maximizar o lucro; e o lugar de preferência do monopólio é o Estado dirigista e comunista. O capitalismo de origem cristã está centrado na dignidade do homem. Deus criou o homem para que trabalhasse; daí a sua vocação para o progresso técnico e científico, que visa aliviar a fadiga humana (desde que, obviamente, respeite as leis naturais). A fim de assegurar ao homem a sua liberdade pessoal, o fruto do seu trabalho deve poder transformar-se em propriedade privada. É evidente que, quando o homem nega e contradiz as leis naturais, por exemplo a vida e a procriação, ele não só se afadigará com novas e inesperadas dificuldades econômicas e psicológicas. Se tomar decisões políticas que negam sua liberdade pessoal e a propriedade privada (por exemplo, fortalecer um regime estatista e totalitário, que lhe dá a ilusão de resolver problemas), ele certamente não se manterá de pé. É a história que o ensina. Como prof. Gotti Tedeschi tem nos esclarecido, há anos, o poder econômico chinês foi criado pelo Ocidente, ao deslocalizar a produção, o know-how, a tecnologia e o capital — e tudo por egoísmo, para produzir bens de baixo custo, que tinham de ser consumidos no próprio Ocidente para sustentar o crescimento do PIB (PIB que entrou em colapso, após a decisão de contradizer a mais importante das leis naturais: aquela que se refere à vida humana e à procriação). Hoje, uma aliança comercial entre o Ocidente e a China faz-se até necessária, para que se evitem problemas piores, incluindo guerras. Mas eu me recuso a ver uma forma de “capitalismo-socialismo unificado”. Em vez disso, a aliança será entre o falido capitalismo protestante americano e o pragmático e vitorioso comunismo chinês. Os valores ocidentais, com o WEF (World Economic Forum, de Davos), atingirão em breve o seu ponto de ruptura? Não, pois esse ponto já foi atingido há algum tempo. Já somos escravos, mas de um senhor muito mais terrível: somos escravos do pecado e de suas consequências, sem que o percebamos. Assim como Karl Rahner falava de um cristianismo anônimo, devemos reconhecer que somos escravos anônimos. Não penso que, no futuro próximo, sejamos escravizados pelo Grande Reset, os Big-Tech, o capital-socialismo e o modelo chinês: já somos escravos. Nós nos tornamos escravos ao rejeitar Deus e a Revelação, preferindo seguir Zaratustra como nosso Messias. Para nos libertar dessas correntes, precisamos da conversão que a Igreja, hoje, não parece interessada em proporcionar. Pezzo Grosso Risponde al card. Müller. Sul Rischio del Capital-Socialismo.

  • DIVINIS REDEMPTORIS

    CARTA ENCÍCLICA DIVINIS REDEMPTORIS DE SUA SANTIDADE PAPA PIO XI AOS VENERÁVEIS IRMÃOS, PATRIARCAS, PRIMAZES, ARCEBISPOS, BISPOS E DEMAIS ORDINÁRIOS EM PAZ E COMUNHÃO COM A SÉ APOSTÓLICA SOBRE O COMUNISMO ATEU INTRODUÇÃO I – ATITUDE DA IGREJA PERANTE O COMUNISMO II – DOUTRINA E FRUTOS DO COMUNISMO III – LUMINOSA DOUTRINA DA IGREJA, OPOSTA AO COMUNISMO IV – REMÉDIOS E MEIOS V – MINISTROS E AUXILIARES DESTA OBRA SOCIAL DA IGREJA CONCLUSÃO INTRODUÇÃO A promessa dum Redentor divino ilumina a primeira página da história da humanidade; e assim a firmíssima esperança de melhores dias, assim como suavizou a dor causada pela perda do paraíso de delícias, assim foi acompanhando os homens através do seu caminho de amarguras e inquietações, até que enfim, quando chegou a plenitude do tempo, o nosso Salvador, vindo à terra, cumulou as ânsias dessa tão longa expectação da humanidade e inaugurou para todos os povos uma nova civilização cristã, que vence e quase imensamente supera a que algumas nações mais privilegiadas atingiram, à custa dos maiores esforços e trabalhos. Depois da miserável queda de Adão, como conseqüência dessa mácula hereditária, começou a travar-se o duro combate da virtude contra os estímulos dos vícios; e jamais cessou aquele antigo e astuto tentador de enganar a sociedade com promessas falazes. É por isso que, pelos séculos afora, as perturbações se têm sucedido umas às outras até à revolução dos nossos dias, a qual ou já surge furiosa ou pavorosamente ameaçada atear-se em todo o universo e parece ultrapassar em violência e amplitude todas as perseguições que a Igreja tem padecido; a tal ponto que povos inteiros correm perigo de recair em barbárie, muito mais horrorosa do que aquela em que jazia a maior parte do mundo antes da vinda do divino Redentor. Vós, sem dúvida, Veneráveis Irmãos, já percebestes de que perigo ameaçador falamos: é do comunismo, denominado bolchevista e ateu, que se propõe como fim peculiar revolucionar radicalmente a ordem social e subverter os próprios fundamentos da civilização cristã. I – ATITUDE DA IGREJA PERANTE O COMUNISMO CONDENAÇÕES ANTERIORES Mas diante destas ameaçadoras tentativas, não podia calar-se nem de fato se calou a Igreja Católica. Não se calou esta Sé Apostólica, que muito bem conhece que tem por missão peculiar defender a verdade, a justiça e todos os bens imortais, que o comunismo despreza e impugna. Já desde os tempos em que certas classes de eruditos pretenderam libertar a civilização e cultura humanística dos laços da religião e da moral, os Nossos Predecessores julgaram que era seu dever chamar a atenção do mundo, em termos bem explícitos, para as conseqüências da descristianização da sociedade humana. E pelo que diz respeito aos erros dos comunistas, já em 1846, o Nosso Predecessor de feliz memória, Pio IX, os condenou solenemente, e confirmou depois essa condenação no Sílabo. São estas as palavras que emprega na Encíclica Qui pluribus: “Para aqui (tende) essa doutrina nefanda do chamado comunismo, sumamente contrária ao próprio direito natural, a qual, uma vez admitida, levaria à subversão radical dos direitos, das coisas, das propriedades de todos e da própria sociedade humana” (Encíclica Qui pluribus, 9 de novembro de 1846: Acta Pii IX, vol. I, pág. 13. Cf. Sílabo, IV: A.A.S., vol. III, pág. 170). Mais tarde, outro Predecessor Nosso de imortal memória, Leão XIII, na sua Encíclica Quod Apostolici muneris (28 de dezembro de 1878: Acta Leonis XIII, vol. I, pág. 40), assim descreveu distinta e expressamente esses mesmos erros: “Peste mortífera, que invade a medula da sociedade humana e a conduz a um perigo extremo”; e com a clarividência do seu espírito luminoso demonstrou que o movimento precipitado das multidões para a impiedade do ateísmo, numa época em que tanto se exaltavam os progressos da técnica, tivera origem nos desvarios duma filosofia que de há muito porfia por separar a ciência e a vida da fé da Igreja. ATOS DO PRESENTE PONTIFICADO Nós também no decurso do Nosso Pontificado, com insistente solicitude fomos várias vezes denunciando as correntes desta impiedade que víamos crescendo e rugindo cada vez mais ameaçadoras. Efetivamente, quando em 1924 voltava da Rússia a Nossa missão de socorro, numa alocução especial dirigida ao universo católico (18 de dezembro de 1924: A.A.S., vol. XVI (1924), págs. 494-495), condenamos os erros e processos dos comunistas. E pelas Encíclicas Miserentissimus Redemptor (8 de maio de 1928: A.A.S., vol. XX (1928), págs. 165-178), Quadragesimo anno (15 de maio de 1931: A.A.S., vol. XXIII (1931), págs. 177-228), Caritate Christi (3 de maio de 1932: A.A.S., vol. XXIV (1932), págs. 177-194), Acerba animi (29 de setembro de 1932: A.A.S., vol. XXIV (1932), págs. 321-332), Dilectissima Nobis (3 de junho de 1933: A.A.S., vol. XXV (1933), págs. 261-274), levantamos a voz em solenes protestos contra as perseguições desencadeadas contra o nome cristão, tanto na Rússia, como no México, como finalmente na Espanha. E estão ainda bem frescas na memória as alocuções por Nós pronunciadas, o ano passado, quer por ocasião da inauguração da Exposição mundial da Imprensa Católica, quer na audiência concedida aos refugiados espanhóis, quer também em Nossa Mensagem radiofônica pela festa do santo Natal. Até os mais encarniçados inimigos da Igreja, que desde Moscou, sua capital, dirigem esta luta contra a civilização cristã, até eles mesmos, com seus ataques ininterruptos, dão testemunho, não tanto por palavras como por atos, que o Sumo Pontificado, ainda em nossos tempos, não só não cessou de tutelar com toda a fidelidade o santuário da religião cristã, mas tem dado voz de alarme contra o enorme perigo comunista, com mais freqüência e maior força persuasiva que nenhum outro poder público deste mundo. NECESSIDADE DE UM NOVO DOCUMENTO SOLENE Não obstante, posto que temos renovado tão repetidamente estas paternais advertências, que vós, Veneráveis Irmãos, em tantas cartas pastorais, algumas delas coletivas, diligentemente comentastes e transmitistes aos fiéis, ainda assim este perigo, com o impulso de hábeis agitadores, mais e mais se vai agravando de dia para dia. É por isso que julgamos dever Nosso levantar de novo a voz; e fá-lo-emos por meio deste documento de maior solenidade, como é costume desta Sé Apostólica, mestra da verdade; e com tanto maior satisfação o faremos, quando é certo que assim correspondemos aos desejos de todo o universo católico. Confiamos até que o eco da nossa voz será acolhido de bom grado por todos aqueles que, de espírito liberto de preconceitos, desejem sinceramente o bem da humanidade. Esta nossa confiança vem em certo modo aumentá-la o fato de vermos estas Nossas admoestações confirmadas pelos péssimos frutos, que Nós prevíramos e anunciáramos haviam de brotar das idéias subversivas, e que de fato se vão pavorosamente multiplicando nas regiões já dominadas pelo comunismo, ou ameaçam invadir rapidamente os outros países do mundo. Queremos, pois, mais uma vez expor, como em breve síntese, os sofismas teóricos e práticos do comunismo, como eles se manifestam principalmente nos princípios e métodos da ação do bolchevismo: a esses sofismas, todos falsidade e ilusão, contrapor a luminosa doutrina da Igreja; e de novo exortar a todos insistentemente a lançar mãos dos meios, com que é possível não somente livrar e salvaguardar deste horrendo flagelo a civilização cristã, a única em que pode subsistir uma sociedade verdadeiramente humana, mas ainda fazê-la avançar, a passo cada dia mais acelerado, para o genuíno progresso da humanidade. II – DOUTRINA E FRUTOS DO COMUNISMO DOUTRINA Falso ideal A doutrina comunista que em nossos dias se apregoa, de modo muito mais acentuado que outros sistemas semelhantes do passado, apresenta-se sob a máscara de redenção dos humildes. E um pseudo-ideal de justiça, de igualdade e de fraternidade universal no trabalho de tal modo impregna toda a sua doutrina e toda a sua atividade dum misticismo hipócrita, que as multidões seduzidas por promessas falazes e como que estimuladas por um contágio violentíssimo lhes comunica um ardor e entusiasmo irreprimível, o que é muito mais fácil em nossos dias, em que a pouco eqüitativa repartição dos bens deste mundo dá como conseqüência a miséria anormal de muitos. Proclamam com orgulho e exaltam até esse pseudo-ideal, como se dele se tivesse originado o progresso econômico, o qual, quando em alguma parte é real, tem explicação em causas muito diversas, como, por exemplo, a intensificação da produção industrial, introduzida em regiões que antes nada disso possuíam, a valorização de enormes riquezas naturais, exploradas com imensos lucros, sem o menor respeito dos direitos humanos, o emprego enfim da coação brutal que dura e cruelmente força os operários a pesadíssimos trabalhos com um salário de miséria. Materialismo evolucionista de Marx Ora, a doutrina que os comunistas em nossos dias espalham, proposta muitas vezes sob aparências capciosas e sedutoras, funda-se de fato nos princípios do materialismo chamado dialético e histórico, ensinado por Karl Marx, de que os teóricos do bolchevismo se gloriam de possuir a única interpretação genuína. Essa doutrina proclama que não há mais que uma só realidade universal, a matéria, formada por forças cegas e ocultas, que, através da sua evolução natural, se vai transformando em planta, em animal, em homem. Do mesmo modo, a sociedade humana, dizem, não é outra coisa mais do que uma aparência ou forma da matéria, que vai evolucionando, como fica dito, e por uma necessidade inelutável e um perpétuo conflito de forças, vai pendendo para a síntese final: uma sociedade sem classes. É, pois, evidente que neste sistema não há lugar sequer para a idéia de Deus; é evidente que entre espírito e matéria, entre alma e corpo não há diferença alguma; que a alma não sobrevive depois da morte, nem há outra vida depois desta. Além disso, os comunistas, insistindo no método dialético do seu materialismo, pretendem que o conflito, a que acima Nos referimos, o qual levará a natureza à síntese final, pode ser acelerado pelos homens. É por isso que se esforçam por tornarem mais agudos os antagonismos que surgem entre as várias classes, da sociedade, porfiando porque a luta de classes, tão cheia, infelizmente, de ódios e de ruínas, tome o aspecto de uma guerra santa em prol do progresso da humanidade; e até mesmo, porque todas as barreiras que se opõem a essas sistemáticas violências, sejam completamente destruídas, como inimigas do gênero humano. A que se reduzem o homem e a família Além disso, o comunismo despoja o homem da sua liberdade na qual consiste a norma da sua vida espiritual; e ao mesmo tempo priva a pessoa humana da sua dignidade, e de todo o freio na ordem moral, com que possa resistir aos assaltos do instinto cego. E, como a pessoa humana, segundo os devaneios comunistas, não é mais do que, para assim dizermos, uma roda de toda a engrenagem, segue-se que os direitos naturais, que dela procedem, são negados ao homem indivíduo, para serem atribuídos à coletividade. Quanto às relações entre os cidadãos, uma vez que sustentam o princípio da igualdade absoluta, rejeitam toda a hierarquia e autoridade, que proceda de Deus, até mesmo a dos pais; porquanto, como asseveram, tudo quanto existe de autoridade e subordinação, tudo isso, como de primeira e única fonte, deriva da sociedade. Nem aos indivíduos se concede direito algum de propriedade sobre bens naturais ou sobre meios de produção; porquanto, dando como dão origem a outros bens, a sua posse introduz necessariamente o domínio de um sobre os outros. E é precisamente por esse motivo que afirmam que qualquer direito de propriedade privada, por ser a fonte principal da escravidão econômica, tem que ser radicalmente destruído. Além disto, como esta doutrina rejeita e repudia todo o caráter sagrado da vida humana, segue-se por natural conseqüência que para ela o matrimônio e a família é apenas uma instituição civil e artificial, fruto de um determinado sistema econômico: por conseguinte, assim como repudia os contratos matrimoniais formados por vínculos de natureza jurídico-moral, que não dependam da vontade dos indivíduos ou da coletividade, assim rejeita a sua indissolúvel perpetuidade. Em particular, para o comunismo não existe laço algum da mulher com a família e com o lar. De fato, proclamando o princípio da emancipação completa da mulher, de tal modo a retira da vida doméstica e do cuidado dos filhos que a atira para a agitação da vida pública e da produção coletiva, na mesma medida que o homem. Mais ainda: os cuidados do lar e dos filhos devolve-os à coletividade. Rouba-se enfim aos pais o direito que lhes compete de educar os filhos, o qual se considera como direito exclusivo da comunidade, e por conseguinte só em nome e por delegação dela se pode exercer. Em que se converteria a sociedade Que viria a ser, então, a sociedade humana, baseada em tais fundamentos materialistas? Viria a ser uma coletividade, sem outra hierarquia mais do que a derivada do sistema econômico. Teria por missão única a produção de riqueza por meio do trabalho coletivo, e único fim o gozo dos bens da terra num paraíso ameníssimo de delícias onde cada qual “produziria conforme as suas forças e receberia conforme as suas necessidades”. É também de notar que o comunismo reconhece igualmente à coletividade o direito, ou antes a arbitrariedade quase ilimitada, de sujeitar os indivíduos ao jugo do trabalho coletivo, sem a menor consideração do seu bem-estar pessoal; mais ainda, o direito de os forçar contra a sua vontade e até pela violência. E nesta sociedade comunista proclamam que tanto a moral como a ordem jurídica não brotam de outra fonte mais do que do sistema econômico do tempo o que, por conseguinte, de sua natureza são valores terrestres transitórios e mudáveis. Em suma, para resumirmos tudo em poucas palavras, pretendem introduzir uma nova ordem de coisas e inaugurar uma era nova de mais alta civilização, produto unicamente duma cega evolução da natureza: “uma humanidade que tenha expulsado a Deus da terra”. E, quando as qualidades e disposições de espírito, que se requerem para realizar semelhante sociedade, tiverem sido alcançadas por todos em tal grau, que por fim tenha surgido aquele ideal utópico de sociedade, que eles sonham, sem distinção de classes então o Estado político, que ao presente unicamente se organiza como instrumento de domínio dos capitalistas sobre os proletários, perderá totalmente a razão de ser e, por necessidade natural, se dissolverá! Todavia, enquanto se não tiver chegado a essa idade de ouro, os comunistas empregam o governo e o poder público como o mais eficaz e universal instrumento, para atingirem o seu fim. Aqui tendes, Veneráveis Irmãos, diante dos olhos do espírito, a doutrina que os comunistas bolchevistas e ateus pregam à humanidade como novo evangelho, e mensagem salvadora de redenção! Sistema cheio de erros e sofismas, igualmente oposto à revelação divina e à razão humana; sistema que, por destruir os fundamentos da sociedade, subverte a ordem social, que não reconhece a verdadeira origem, natureza e fim do Estado; que rejeita enfim e nega os direitos, a dignidade e a liberdade da pessoa humana. DIFUSÃO Promessas fascinadoras Mas donde vem que tal sistema, que a ciência já há muito ultrapassou e a realidade dos fatos vai cada dia refutando, possa difundir-se tão rapidamente por todas as partes do mundo? Facilmente poderemos compreender esse fenômeno, se refletirmos que são muito poucas as pessoas que têm penetrado a fundo a verdadeira natureza e fim do comunismo; ao passo que são muitíssimos os que cedem facilmente à tentação, habilmente apresentada sob as promessas mais deslumbrantes. É que os propagandistas deste sistema afivelam esta máscara de verdade, a saber: que não querem outra coisa mais que melhorar a sorte das classes trabalhadoras; que pretendem não somente dar remédio oportuno aos abusos provocados pela economia liberal, mas também conseguir uma distribuição mais eqüitativa dos bens terrenos: objetivos estes que certamente ninguém nega se possam atingir por meios legítimos. Contudo os comunistas, por esses processos, explorando sobretudo a crise econômica, que em toda a parte se sente, conseguem atrair ao seu partido aqueles mesmos que, em virtude da doutrina que professam, abominam os princípios do materialismo e os monstruosos crimes que não raro se perpetram. E, como em qualquer erro há sempre qualquer centelha de verdade, como acima vimos que sucedia até mesmo nesta questão, este aspecto de verdade põem-no em relevo com requintada habilidade, com o fim de dissimularem e ocultarem, quanto convém, aquela odiosa e desumana brutalidade dos princípios e dos métodos de comunismo; e desse modo conseguem seduzir até espíritos nada vulgares, os quais muitas vezes a tal ponto se deixam entusiasmar que eles próprios se tornam uma espécie de apóstolos, que vão extraviar com esses erros sobretudo os jovens, facilmente expostos a se deixarem enredar por esses sofismas. Além disso, os arautos do comunismo não ignoram que podem tirar partido, tanto dos antagonismos de raça como das dissensões e lutas em que se entrechocam as diferentes facções políticas, como enfim daquela desorientação que lavra no campo da ciência, onde a própria idéia de Deus emudece, para se infiltrarem nas Universidades e corroborarem os princípios da sua doutrina com argumentos pseudocientíficos. O liberalismo preparou o caminho ao comunismo Mas, para mais facilmente se compreender como é que puderam conseguir que tantos operários tenham abraçado, sem o menor exame, os seus sofismas, será conveniente recordar que os mesmos operários, em virtude dos princípios do liberalismo econômico, tinham sido lamentavelmente reduzidos ao abandono da religião e da moral cristã. Muitas vezes o trabalho por turnos impediu até que eles observassem os mais graves deveres religiosos dos dias festivos; não houve o cuidado de construir igrejas nas proximidades das fábricas, nem de facilitar a missão do sacerdote; antes pelo contrário, em vez de se lhes pôr embargo, cada dia mais e mais se foram favorecendo as manobras do chamado laicismo. Aí estão, agora, os frutos amargosíssimos dos erros que os Nossos Predecessores e Nós mesmo mais de uma vez temos preanunciado. E assim, por que nos havemos de admirar, ao vermos que tantos povos, largamente descristianizados, vão sendo já pavorosamente inundados e quase submergidos pela vaga comunista? Propaganda astuta e vastíssima Além disso, a difusão tão rápida das idéias comunistas que se vão sorrateiramente infiltrando por países grandes ou pequenos, cultos ou menos civilizados, e até nas partes mais remotas do globo, tem sem dúvida por causa esse fanatismo de propaganda encarniçada, como talvez nunca se viu no mundo. E essa propaganda, emanada duma fonte única, adapta-se astutamente às condições particulares dos povos; dispõe de grandes meios financeiros, de inúmeras organizações, de congressos internacionais concorridíssimos, de forças compactas e bem disciplinadas; propaganda quer por jornais, revistas e folhas volantes, pelo cinema, pelo teatro, pela radiofonia, pelas escolas enfim e pelas Universidades, pouco a pouco vai invadindo todos os meios ainda os melhores, sem darem talvez pelo veneno, que cada vez mais vai infeccionando os espíritos e os corações. Conspiração do silêncio na imprensa Outro auxiliar poderoso, que contribui para a avançada do comunismo, é sem dúvida a conspiração do silêncio na maior parte da imprensa mundial, que não se conforma com os princípios católicos. Conspiração dizemos: porque aliás, não se explica facilmente como é que uma imprensa, tão ávida de esquadrinhar e publicar até os mínimos incidentes da vida cotidiana, sobre os horrores perpetrados na Rússia, no México e numa grande parte de Espanha pode guardar, há tanto tempo, absoluto silêncio; e da seita comunista, que domina em Moscou e tão largamente se estende pelo universo em poderosas organizações, fala tão pouco. Mas todos sabem que esse silêncio é em grande parte devido a exigências duma política, que não segue inteiramente os ditames da prudência civil; e é aconselhável e favorecido por diversas forças ocultas que já há muito porfiam por destruir a ordem social cristã. DEPLORÁVEIS CONSEQÜÊNCIAS Rússia e México Entretanto, aí estão à vista os deploráveis frutos dessa propaganda fanática. Porque, onde quer que os comunistas conseguiram radicar-se e dominar, – e aqui pensamos com particular afeto paterno nos povos da Rússia e do México, – aí, como eles próprios abertamente o proclamam, por todos os meios se esforçaram por destruir radicalmente os fundamentos da religião e da civilização cristãs, e extinguir completamente a sua memória no coração dos homens, especialmente da juventude. Bispos e sacerdotes foram desterrados, condenados a trabalhos forçados, fuzilados, ou trucidados de modo desumano; simples leigos, tornados suspeitos por terem defendido a religião, foram vexados, tratados como inimigos, e arrastados aos tribunais e às prisões. Horrores do comunismo em Espanha Até em países, onde – como sucede na Nossa amadíssima Espanha – não conseguiu ainda a peste e o flagelo comunista produzir todas as calamidades dos seus erros, desencadeou contudo, infelizmente, uma violência furibunda e irrompeu em funestíssimos atentados. Não é esta ou aquela igreja destruída, este ou aquele convento arruinado; mas, onde quer que lhes foi possível, todos os templos, todos os claustros religiosos, e ainda quaisquer vestígios da religião cristã, posto que fossem monumentos insignes de arte e de ciência, tudo foi destruído até os fundamentos! E não se limitou o furor comunista a trucidar bispos e muitos milhares de sacerdotes, religiosos e religiosas, alvejando dum modo particular aqueles e aquelas que se ocupavam dos operários e dos pobres; mas fez um número muito maior de vítimas em leigos de todas as classes, que ainda agora vão sendo imolados em carnificinas coletivas, unicamente por professarem a fé cristã, ou ao menos por serem contrários ao ateísmo comunista. E esta horripilante mortandade é perpetrada com tal ódio e tais requintes de crueldade e selvajaria, que não se julgariam possíveis em nosso século. Ninguém de são critério, quer seja simples particular, quer homem de Estado, cônscio da sua responsabilidade, ninguém absolutamente, repetimos, pode deixar de estremecer de sumo horror, se refletir que tudo quanto hoje está sucedendo na Espanha, pode amanhã repetir-se também em outras nações civilizadas. Frutos naturais do sistema Nem se pode asseverar que semelhantes atrocidades são conseqüências fatais de todas as grandes revoluções, como excessos esporádicos de exasperação, comuns a qualquer guerra: não, são frutos naturais do sistema, cuja estrutura não obedece a freio algum interno. Um freio é necessário ao homem, tanto individualmente como socialmente considerado; e é por isso que até os povos bárbaros reconheceram o vínculo da lei natural, esculpida por Deus na alma de cada homem. E, quando a observância dessa lei foi tida por todos como um dever sagrado, viram-se nações antigas atingir um tal esplendor de grandeza, que espanta, ainda mais até do que é razão, aqueles que só superficialmente compunham os documentos da história humana. Mas quando se arranca das mentes dos cidadãos a própria idéia de Deus, necessariamente os veremos precipitar-se na crueldade mais selvagem, e na ferocidade dos costumes. Luta contra tudo o que é divino Luta contra tudo o que se chama Deus É este o espetáculo que atualmente com suma dor contemplamos: pela primeira vez na história estamos assistindo a uma insurreição, cuidadosamente preparada e calculadamente dirigida contra “tudo o que se chama Deus” (cfr. 2 Tess 1, 4). Efetivamente, o comunismo por sua natureza opõe-se a qualquer religião, e a razão por que a considera como o “ópio do povo”, é porque os seus dogmas e preceitos, pregando a vida eterna depois desta vida mortal, apartam os homens da realização daquele futuro paraíso, que são obrigados a conseguir na terra. O terrorismo Mas não é impunemente que se despreza a lei natural e o seu autor, Deus; a conseqüência é que os esforços dos comunistas, assim como nem sequer no campo econômico puderam até hoje realizar o seu desígnio, assim também no futuro jamais o poderão conseguir. Não negamos que esses esforços na Rússia contribuíram não pouco para sacudir os homens e as suas instituições, daquela longa e secular inércia em que jaziam, e que puderam, empregando todos os meios e processos; ainda mesmo ilegitimamente, fazer alguma coisa para promover o progresso material; mas sabemos por testemunhos absolutamente insuspeitos, e alguns bem recentes ainda, que de fato nem sequer neste ponto se conseguiu o que tanto se prometera. E não se esqueça, que aquela ditadura, toda terrorismo e crueldade, impôs a inumeráveis cidadãos o jugo da escravidão. Porque é de notar que também no terreno econômico é imprescindível alguma norma de probidade a que se conforme, por dever de consciência, quem exerce algum cargo; ora isso é indiscutível que o não podem dar os princípios comunistas, nascidos dos sofismas do materialismo. Por conseguinte, nada mais resta do que aquele pavoroso terrorismo que se está vendo na Rússia, onde os antigos camaradas de conspiração e de luta se vão dando a morte uns aos outros; mas esse terrorismo criminoso, longe de conseguir pôr um dique à corrupção dos costumes, nem sequer pode evitar a dissolução da estrutura social. Um pensamento paternal para os povos oprimidos da Rússia UM PENSAMENTO PATERNAL AOS POVOS OPRIMIDOS, NA RÚSSIA Com isto, porém, não é nossa intenção condenar em massa os povos da União Soviética, aos quais, pelo contrário, consagramos o mais vivo afeto paterno. É que, de fato, sabemos que muitos deles gemem sob o jugo da mais iníqua escravidão, que lhes foi imposta por homens, pela maior parte estranhos aos verdadeiros interesses daquele povo; e que muitos outros foram enganados por promessas e esperanças falazes. O que Nós condenamos é o sistema e seus autores e fautores que consideraram aquela nação como o terreno mais apto para lançarem a semente do seu sistema, há muito tempo preparada, e de lá a disseminarem por todas as regiões do globo. III – LUMINOSA DOUTRINA DA IGREJA, OPOSTA AO COMUNISMO Depois de termos focado os erros e os processos sedutores e violentos do comunismo bolchevista e ateu, é já tempo, Veneráveis Irmãos, de opor-lhe sumariamente a verdadeira noção da “Cidade humana”, que é tal como perfeitamente sabeis, qual no-la ensinam a razão humana e a revelação Divina, por intermédio da Igreja, Mestra dos povos. SUPREMA REALIDADE: DEUS! E antes de mais nada importa observar que acima de todas as demais realidades, está o sumo, único e supremo Espírito, Deus, Criador onipotente de todo o universo, Juiz sapientíssimo e justíssimo de todos os homens. Este Ser supremo, que é Deus, é a refutação e condenação mais absoluta das impudentes e mentirosas falsidades do comunismo. E na verdade, não é porque os homens crêem em Deus, que Deus existe; mas porque Deus existe realmente, por isso crêem nele e lhe dirigem as suas súplicas todos quantos não cerram pertinazmente os olhos do espírito à luz da verdade. QUE SÃO O HOMEM E A FAMÍLIA, SEGUNDO A RAZÃO E A FÉ Quanto ao homem, o que a fé católica e a nossa razão ensinam, já Nós, ao explanarmos os pontos fundamentais desta doutrina, o propusemos na Encíclica sobre a educação cristã da juventude (Encíclica Divini illius Magistri, 31 de dezembro de 1929: A.A.S., vol. XXII (1930), págs. 49-86). O homem tem uma alma espiritual e imortal; e, assim como é uma pessoa, dotada pelo supremo Criador de admiráveis dons de corpo e de espírito assim se pode chamar, como diziam os antigos, um verdadeiro “microcosmo”, isto é, um pequeno mundo, por isso que de muito longe transcende e supera a imensidade dos seres do mundo inanimado. Não somente nesta vida mortal, mas também na que há de permanecer eternamente, o seu fim supremo é unicamente Deus; e, tendo sido elevado pela graça santificante à dignidade de filho de Deus, é incorporado no Reino de Deus, no corpo místico de Jesus Cristo. Conseqüentemente, dotou-o Deus de múltiplas e variadas prerrogativas, tais como: direito à vida, à integridade do corpo, aos meios necessários à existência; direito de tender ao seu último fim, pelo caminho traçado por Deus; direito enfim de associação, de propriedade particular, e de usar dessa propriedade. Além disso, assim como o matrimônio e o direito ao seu uso natural são de origem divina, assim também a constituição e as prerrogativas fundamentais da família derivam, não do arbítrio humano, nem de fatores econômicos, senão do próprio Criador supremo de todas as coisas. Este assunto tratamo-lo já com suficiente desenvolvimento na Encíclica sobre a santidade do matrimônio (Encíclica Casti Connubii, 31 de dezembro de 1930: A.A.S., vol. XXII (1930), págs. 539-582), e na Encíclica acima citada sobre a educação. QUE É A SOCIEDADE Mútuos direitos e deveres entre o homem e a sociedade Mas Deus destinou igualmente o homem para a sociedade civil, que a sua mesma natureza reclama. É que, no plano do Criador, a sociedade é um meio natural, de que todo o cidadão pode e deve servir-se para a consecução do fim que lhe é proposto, pois a sociedade civil existe para o homem e não o homem para a sociedade. Isto, porém, não se deve entender no sentido do liberalismo individualista, que subordina a sociedade à utilidade egoísta do indivíduo, mas sim no sentido que, mediante a união orgânica com a sociedade, todos possam, pela mútua colaboração, alcançar a verdadeira felicidade terrestre; e que, por meio da sociedade, floresçam e prosperem todas as aptidões individuais e sociais, dadas ao homem pela natureza, aptidões que transcendem o imediato interesse do momento, e refletem na sociedade a perfeição divina: o que no homem isolado de modo nenhum se pode verificar. Mas até este último objetivo da sociedade é, em última análise, ordenado ao homem, para que reconheça este reflexo da perfeição divina, e o desenvolva assim em louvor e adoração ao Criador. É que só o homem, e não qualquer sociedade humana por si, é dotado de razão e de vontade moralmente livre. Portanto, assim como o homem não pode furtar-se aos deveres que por vontade de Deus o ligam à sociedade civil, e é por isso que os representantes da autoridade têm direito de o forçar ao cumprimento do próprio dever, caso ele se recusasse ilegitimamente; assim também não pode a sociedade privar o cidadão dos direitos pessoais que o Criador lhe concedeu (os mais importantes apontamo-los acima sumariamente) nem tornar-lhe impossível o seu uso. É, pois, conforme à razão e às suas exigências naturais, que todas as coisas terrenas sejam para serviço e utilidade do homem, e assim, por meio dele, voltem ao Criador. Aqui se aplica perfeitamente o que o Apóstolo das Gentes escreve aos coríntios sobre a economia da salvação cristã: “Tudo… é vosso, mas vós sois de Cristo, e Cristo é de Deus” (1 Cor 3, 23). E assim, enquanto a doutrina comunista de tal maneira diminui a pessoa humana, que inverte os termos das relações entre o homem e a sociedade, a razão, pelo contrário, e a revelação divina elevam-na a tão sublimes alturas. A ordem econômico-social Sobre a ordem econômico-social e sobre a questão operária já o Nosso Predecessor, de feliz memória, Leão XIII, na Encíclica Rerum Novarum (15 de maio de 1891: Acta Leonis XIII, vol. XI, págs. 97-144) deu normas eficazes: normas que Nós adotamos às condições e exigências dos tempos presentes pela nossa Encíclica sobre a restauração cristã da ordem social (Encíclica Quadragesimo anno, 15 de maio de 1931: A.A.S., vol. XXIII (1931), págs. 177-228). Nessa Encíclica, insistindo de novo com toda a força na secular doutrina da Igreja acerca da natureza peculiar da propriedade privada no seu aspecto individual e social, assinalamos com toda a clareza e precisão os direitos e a dignidade do trabalho humano, as relações do mútuo apoio e auxílio que devem existir entre o capital e o trabalho, e o salário, indispensável ao operário e a sua família, que por justiça lhe é devido. Nessa mesma Encíclica mostramos também que a sociedade humana só então, poderá ser salva da funestíssima ruína, a que é arrastada pelos princípios do liberalismo, alheios a toda a moralidade, quando os preceitos da justiça social e da caridade cristã impregnarem e penetrarem a ordem econômica e a organização civil; o que indubitavelmente não podem conseguir nem a luta de classes, nem os atentados do terror, nem o abuso ilimitado e tirânico do poder do Estado. Advertimos outrossim, que a verdadeira prosperidade do povo se deve procurar segundo os princípios dum são corporativismo, que reconheça e respeite os vários graus da hierarquia social; e que é igualmente necessário que todas as corporações operárias se organizem em harmônica unidade para poderem tender ao bem comum da sociedade; e que, por conseguinte, a função genuína e peculiar do poder público consiste em promover, quanto lhe seja possível, esta harmonia e coordenação de todas as forças sociais. Hierarquia social e prerrogativas do Estado Para assegurar esta tranqüila harmonia pela colaboração orgânica de todos, a doutrina católica confere aos governantes tanta dignidade e autoridade, quanta é necessária para que eles com vigilante e previdente solicitude salvaguardem os direitos divinos e humanos, que as Sagradas Escrituras e os Padres da Igreja tanto inculcam. E neste passo é necessário observar que erram vergonhosamente os que sem consideração atribuem a todos os homens direitos iguais na sociedade civil e asseveram que não existe legítima hierarquia. Sobre este ponto baste-Nos recordar as Encíclicas do Nosso Predecessor Leão XIII, acima mencionadas, especialmente a que trata do poder do Estado (Encíclica Diuturnum illud, 29 de junho de 1881: Acta Leonis XIII, vol. II, págs. 269-287) e a outra que versa sobre a constituição cristã do Estado (Encíclica Immortale Dei, 1 de novembro de 1885: Acta Leonis XIII, vol. V, págs. 118-150). Nelas encontram os católicos luminosamente expostos os princípios da razão e da fé, que os tornarão aptos para as premunirem contra os erros e perigos da concepção comunista acerca do Estado. A espoliação dos direitos e a escravização do homem, a negação da origem primária e transcendente do Estado e do poder do Estado, o abuso horrível do poder público ao serviço do terrorismo coletivista, são precisamente o contrário do que é conforme à ética natural e à vontade do Criador. Tanto o homem como a sociedade civil têm origem no Criador, e foram por Ele mutuamente ordenados um para a outra; por isso nenhum dos dois pode furtar-se a cumprir os deveres correlativos, nem recusar ou reduzir os direitos. O próprio Criador regulou esta mútua relação nas suas linhas fundamentais, e é injusta a usurpação, que o comunismo se arroga, de impor, em lugar da lei divina baseada nos imutáveis princípios da verdade e da caridade, um programa político de partido, que promana do capricho humano e ressuma ódio. BELEZA DESTA DOUTRINA DA IGREJA A Igreja ao ensinar esta luminosa doutrina, não tem outro fim mais que realizar o venturoso anúncio cantado pelos Anjos sobre a gruta de Belém, no nascimento Redentor: “Glória a Deus e… paz aos homens” (Lc 2, 14): paz verdadeira e verdadeira felicidade, até mesmo na terra, quanto é possível, encaminhada a preparar a felicidade eterna, mas paz reservada aos homens de boa vontade. Esta doutrina é igualmente distante de todos os extremos do erro como de todas as exagerações dos partidos ou sistemas que a eles aderem, conserva sempre o equilíbrio da verdade e da justiça; reivindica-o na teoria, aplica-o e promove-o na prática, conciliando os direitos e os deveres de um com os dos outros, como a autoridade com a liberdade, a dignidade do indivíduo com a do Estado, a personalidade humana no súdito com a representação divina no superior, e, por conseguinte, a sujeição devida e o amor ordenado de si mesmo, da família e da pátria, com o amor das outras famílias e dos outros povos, fundado no amor de Deus, pai de todos, primeiro princípio e último fim. Nem separa a justa preocupação dos bens temporais a palavra de seu divino Fundador: “Buscai primeiro o reino de Deus e a sua justiça, e tudo o mais vos será dado por acréscimo” (Mt 6, 33), está longe de se desinteressar das coisas humanas, de prejudicar os progressos da sociedade e de impedir os adiantamentos materiais, que pelo contrário sustenta e promove da maneira mais razoável e eficaz. E assim, até mesmo no campo econômico-social, a Igreja, muito embora não tenha jamais apresentado como seu um determinado sistema técnico, por não ser essa a sua missão, fixou contudo claramente princípios e diretivas que, prestando-se a diversas aplicações concretas segundo as várias condições dos tempos, dos lugares e dos povos, assinalam o caminho seguro para obter o feliz progresso da sociedade. A sabedoria e suma utilidade desta doutrina é admitida por quantos verdadeiramente a conhecem. Com justificada razão puderam afirmar eminentes Estadistas que, depois de terem estudado os diversos sistemas sociais, nada haviam encontrado mais sábio que os princípios expostos nas Encíclicas Rerum Novarum e Quadragesimo anno. Até em países não católicos, e nem sequer cristãos, se reconhece quão vantajosas são para a sociedade humana as doutrinas sociais da Igreja; e assim, há apenas um mês, um eminente homem político, não cristão, do Extremo Oriente, não duvidou proclamar que a Igreja com a sua doutrina de paz e fraternidade cristã traz uma altíssima contribuição para o estabelecimento e conservação da paz construtiva entre as nações. Mas ainda: até os próprios comunistas, como sabemos por autênticas relações que afluem de toda a parte a este Centro de Cristandade, se não estão ainda de todo corrompidos, quando se lhes expõe a doutrina social da Igreja, reconhecem a sua superioridade sobre as doutrinas dos seus caudilhos e mestres. Somente os obcecados pela paixão e pelo ódio fecham os olhos à luz da verdade e a combatem obstinadamente. SERÁ VERDADE QUE A IGREJA NÃO PROCEDEU SEGUNDO A SUA DOUTRINA? Mas os inimigos da Igreja, constrangidos embora a reconhecer a sabedoria da sua doutrina, assacam-lhe o não ter sabido conformar os seus atos com aqueles princípios, e afirmam por isso a necessidade de provocar outros caminhos. Quão falsa e injusta seja esta acusação, demonstra-o toda a história do cristianismo. Para não Nos referirmos senão a um ou outro ponto característico, foi o cristianismo o primeiro a propagar, por uma forma e com uma amplitude e convicção desconhecidas nos séculos precedentes, a verdadeira e universal fraternidade de todos os homens de qualquer condição ou raça, contribuindo assim poderosamente para a abolição da escravatura, não com revoltas sangrentas, senão pela força interna da sua doutrina, que à orgulhosa patrícia romana fazia ver na sua escrava uma irmã em Cristo. Foi o cristianismo, que adora o Filho de Deus feito homem por amor dos homens e convertido em “Filho do carpinteiro”, mais ainda, “carpinteiro” ele próprio (cfr. Mt 13, 55; Mc 6, 3), foi o cristianismo que sublimou à sua verdadeira dignidade o trabalho manual: aquele trabalho manual, antes tão desprezado que até o discreto Marco Túlio Cícero, resumindo a opinião geral do seu tempo, não receou escrever estas palavras, de que hoje se envergonharia qualquer sociólogo: “Todos os operários se ocupam em misteres desprezíveis, pois a oficina nada pode ter de nobre” (M.T. Cícero, De officiis, L. I, c. 42). Fiel a estes princípios, a Igreja regenerou a sociedade humana; sob a sua influência surgiram admiráveis obras de caridade, poderosas corporações de artistas e trabalhadores de todas as categorias. O liberalismo do século passado zombou delas, é certo, como de velharias da Idade Média; elas, porém, impõem-se hoje à admiração dos nossos contemporâneos que em muitos países procuram fazer reviver de algum modo a sua idéia fundamental. E quando outras correntes entravavam a obra e punham obstáculos ao influxo salutar da Igreja, esta até nossos dias não cessou nunca de admoestar os extraviados. Basta recordar com que firmeza, energia e constância o Nosso Predecessor Leão XIII reivindicou para o operário o direito de associação, que o liberalismo dominante nos Estados mais poderosos se obstinava em negar-lhe. E esta influência da doutrina da Igreja ainda atualmente é maior do que parece, porque é grande e certo, posto que invisível e difícil de medir, o predomínio das idéias sobre os fatos. Pode bem dizer-se com toda a verdade que a Igreja à semelhança de Cristo, passa através dos séculos, fazendo bem a todos. Não haveria nem socialismo nem comunismo, se os que governam os povos não tivessem desprezado os ensinamentos e as maternais advertências da Igreja; eles, porém, quiseram, sobre as bases do liberalismo e do laicismo, levantar outros edifícios sociais que à primeira vista pareciam poderosas e magníficas construções, mas bem depressa se viu que careciam de sólidos fundamentos, e se vão miseravelmente desmoronando, um após outro, como tem que desmoronar-se tudo quanto não se apoia sobre a única pedra angular, que é Jesus Cristo. IV – REMÉDIOS E MEIOS NECESSIDADE DE RECORRER A MEIOS DE DEFESA Tal é, Veneráveis Irmãos, a doutrina da Igreja, a única que, como em qualquer outro campo, assim também no campo social, pode projetar verdadeira luz, a única doutrina de salvação em face da ideologia comunista. Mas é necessário que esta doutrina se realize cada vez mais na prática da vida, conforme o aviso do Apóstolo São Tiago: “Sede… cumpridores da palavra e não simples ouvintes, enganando-vos a vós mesmos” (Tg 1, 22), porquanto, o que na hora atual há de mais urgente é aplicar com energia os remédios oportunos, para opor-se eficazmente à revolução ameaçadora que se vai preparando. Alimentamos a firme confiança de que ao menos a paixão com que dia e noite trabalham os filhos das trevas na sua propaganda materialista e atéia, logre estimular santamente os filhos da luz a um zelo igual, se não maior, da honra da Majestade divina. 40. Que é, pois, necessário fazer, que remédios empregar, para defender a Cristo e a civilização cristã contra aquele pernicioso inimigo? Como um pai no seio da família, Nós quiséramos conversar, quase na intimidade, sobre os deveres que a grande luta de nossos dias impõe a todos os filhos da Igreja, dirigindo também a Nossa paternal advertência aos filhos que dela se afastaram. RENOVAÇÃO DA VIDA CRISTÃ Remédio Fundamental Como em todos os períodos mais tormentosos da história da Igreja, assim hoje também o remédio fundamental é uma sincera renovação da vida privada e pública, segundo os princípios do Evangelho em todos aqueles que se gloriam de pertencer ao Rebanho de Cristo, a fim de serem verdadeiramente o sal da terra, que preserve a sociedade humana de tal corrupção. Com sentimentos de profunda gratidão para com o Pai das luzes, de quem desce “toda a dádiva excelente e todo o dom perfeito” (Tg 1, 17), vemos por toda a parte sinais consoladores dessa renovação espiritual, não só em tantas almas singularmente escolhidas, que nestes últimos anos se têm elevado ao cume da mais sublime santidade, e em tantas outras, cada vez mais numerosa, que generosamente caminham para a mesma luminosa meta, mas também no reflorescimento de uma piedade sentida e vivida, em todas as classes da sociedade, até nas mais cultas, como pusemos em relevo no Nosso recente Motu proprio In multis solaciis, de 28 do passado outubro, por ocasião da reorganização da Pontifícia Academia das Ciências (A.A.S., vol. XXVIII (1936), págs. 421-424). Não podemos, contudo, negar que muito resta ainda por fazer neste caminho da renovação espiritual. Até mesmo em países católicos, demasiados são os que são católicos quase só de nome; demasiados, aqueles que, seguindo embora mais ou menos fielmente as práticas mais essenciais da religião que se ufanam de professar, não se preocupam de melhor a conhecer, nem de adquirir convicções, mais íntimas e profundas, e menos ainda de fazer que ao verniz exterior corresponda o interno esplendor de uma consciência reta e pura, que sente e cumpre todos os seus deveres sob o olhar de Deus. Sabemos quanto o Divino Salvador aborrece esta vã e falaz exterioridade, Ele que queria que todos adorassem o Pai “em espírito e verdade” (Jo 4, 23). Quem não vive verdadeira e sinceramente segundo a fé que professa, não poderá hoje, que tão violento sopra o vento da luta e da perseguição, resistir por muito tempo, mas será miseravelmente submergido por este novo dilúvio que ameaça o mundo; e assim, enquanto se prepara por si mesmo a própria ruína, exporá também ao ludibrio o nome cristão. Desapego dos bens terrenos E neste passo queremos, Veneráveis Irmãos, insistir mais particularmente sobre dois ensinamentos do Senhor, que têm especial conexão com as atuais condições do gênero humano: o desapego dos bens terrenos e o preceito da caridade. “Bem-aventurados os pobres de espírito” foram as primeiras palavras que saíram dos lábios do Divino Mestre no sermão da Montanha (Mt 5, 3). E esta lição é mais que nunca necessária, nestes tempos de materialismo sedento de bens e prazeres da terra. Todos os cristãos, ricos ou pobres, devem ter sempre fixo o olhar no céu, recordando que “não temos aqui cidade permanente, mas vamos buscando a futura” (Hbr 13, 14). Os ricos não devem pôr nas coisas da terra a sua felicidade, nem dirigir à conquista desses bens os seus melhores esforços; mas, considerando-se apenas como administradores que sabem terão de dar contas ao supremo Senhor, sirvam-se deles como de meios preciosos que Deus lhes concede para fazerem bem; e não deixem de distribuir aos pobres o supérfluo, segundo o preceito evangélico (cfr. Lc 11, 41). Doutra forma verificar-se-á neles e em suas riquezas a severa sentença de São Tiago Apóstolo: “Eia, pois, ó ricos, chorai, soltai gritos por causa das misérias que virão sobre vós. As vossas riquezas apodreceram, e os vossos vestidos foram comidos pela traça. O vosso ouro e a vossa prata enferrujaram-se e a sua ferrugem dará testemunho contra vós, e devorará as vossas carnes como um fogo. Juntastes para vós um tesouro de ira para os últimos dias…” (Tg 5, 1-3). Mas os pobres, por sua vez, esforçando-se muito embora, segundo as leis da caridade e da justiça, por se proverem do necessário e até mesmo por melhorarem de condição, devem também permanecer sempre “pobres de espírito” (Mt 5, 3), estimando mais os bens espirituais que os bens e gozos terrenos. Recordem-se, além disso, que jamais se logrará fazer desaparecer do mundo as misérias, as dores, as tribulações, a que estão sujeitos ainda aqueles que exteriormente parecem mais felizes. E assim, a todos é necessária a paciência, aquela paciência cristã que eleva o coração às divinas promessas de uma felicidade eterna. “Sede, pois, pacientes, irmãos”, vos diremos ainda com São Tiago, “até à vinda do Senhor. Vede como o lavrador espera o precioso fruto da terra, tendo paciência, até que receba o (fruto) temporão e o serôdio. Sede, pois, pacientes também vós, e fortalecei os vossos corações; porque a vinda do Senhor está próxima” (Tg 5, 7-8). Só assim se cumprirá a consoladora promessa do Senhor: “Bem-aventurados os pobres”. E não é esta uma consolação e promessa vã, como são as promessas dos comunistas; mas são palavras de vida, que encerram uma realidade suprema, palavras que se verificam plenamente aqui na terra e depois na eternidade. E na verdade, quantos pobres, nestas palavras e na esperança do reino dos céus, proclamando já propriedade sua: “porque vosso é o reino de Deus” (Lc 6, 20), encontram uma felicidade, que tantos ricos não logram em suas riquezas, sempre inquietos e sempre torturados como andam pela sede de possuir ainda mais. Caridade cristã Muito mais importante ainda, como remédio do mal de que tratamos, ou pelo menos mais diretamente ordenado a curá-lo, é o preceito da caridade. Queremos referir-Nos àquela caridade cristã “paciente e benigna” (1 Cor 13, 4), que evita todos os ares de proteção humilhante e qualquer aparência de ostentação; aquela caridade, que desde os inícios do cristianismo ganhou para Cristo os mais pobres dentre os pobres, os escravos; e testemunhamos o Nosso reconhecimento a todos quantos nas obras de beneficência, desde as conferências de São Vicente de Paulo até às grandes organizações recentes de assistência social, têm exercido e exercem as obras de misericórdia corporal e espiritual. Quanto mais experimentarem em si mesmos os operários e os pobres o que o espírito de amor, animado pela virtude de Cristo, faz por eles, tanto mais se despojarão do preconceito de que o cristianismo perdeu a sua eficácia e a Igreja está da parte daqueles que exploram o seu trabalho. Mas, quando vemos dum lado uma multidão de indigentes que, por várias causas alheias à sua vontade, estão verdadeiramente oprimidos pela miséria, e do outro lado, junto deles, tantos que se divertem inconsideradamente e esbanjam enormes somas em futilidades, não podemos deixar de reconhecer com dor que não é bem observada a justiça, mas que nem sempre se aprofundou suficientemente o preceito da caridade cristã nem se vive conforme a ele na prática cotidiana. Desejamos, portanto, Veneráveis Irmãos, que seja mais e mais explicado por palavra e por escrito este divino preceito, precioso distintivo deixado por Cristo a seus verdadeiros discípulos, este preceito, que nos ensina a ver nos que sofrem a Jesus em pessoa e nos impõe o dever de amar os nossos irmãos, como o divino Salvador nos amou a nós, isto é, até ao sacrifício de nós mesmos e, se necessário for, até da própria vida. Meditem, pois, todos e muitas vezes aquelas palavras consoladoras, por um lado, mas temerosas por outro, da sentença final que pronunciará o Juiz supremo no último dia: “Vinde benditos de meu Pai…; porque tive fome, e me destes de comer, tive sede e me destes de beber… Em verdade vos digo que todas as vezes que o fizestes a um destes meus irmãos mais pequeninos, foi a mim que o fizestes” (Mt 25, 34-40). E pelo contrário: “Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno… porque tive fome, e não me destes de comer; tive sede, e não me destes de beber… Na verdade vos digo: todas as vezes que o não fizestes a um destes mais pequeninos, foi a mim que o não fizestes” (Mt 25, 41-45). Para assegurar, pois, a vida eterna, e poder eficaz mente socorrer os necessitados, é necessário voltar a uma vida mais modesta; renunciar aos prazeres, muitas vezes até pecaminosos, que o mundo hoje em dia oferece em tanta abundância; esquecer-se a si mesmo por amor do próximo. Virtude divina de regeneração se encontra neste “mandamento novo” (como lhe chamava Jesus) da caridade cristã (Jo 13, 34), cuja fiel observância infundirá nos corações uma paz interna desconhecida do mundo, e remediará eficazmente os males que afligem a humanidade. Deveres de estrita justiça Mas a caridade jamais será verdadeira caridade, se não tiver sempre em conta a justiça. O Apóstolo ensina que “quem ama o próximo cumpre a lei”; e dá a razão: “por quanto não cometerás adultério, não matarás, não furtarás… e qualquer outro preceito se resume nesta fórmula: Amarás o teu próximo como a ti mesmo” (Rom 13, 8-9). Se, pois, segundo o Apóstolo, todos os deveres se reduzem ao único preceito da verdadeira caridade, ainda aqueles que são de estrita justiça, como não matar, não roubar; uma caridade que prive o operário do salário a que tem estrito direito, não é caridade mas um nome vão e uma vã aparência de caridade. Nem o operário precisa de receber como esmola o que lhe pertence por justiça; nem pode ninguém pretender eximir-se dos grandes deveres impostos pela justiça com pequeninas dádivas de misericórdia. A caridade e a justiça impõem deveres, muitas vezes acerca do mesmo objeto, mas sob aspectos diversos; e os operários, a estes deveres que lhes dizem respeito, são juntamente muito sensíveis, em razão da sua própria dignidade. É por isso que de modo especial Nos dirigimos a vós, patrões e industriais cristãos, cuja missão é muitas vezes tão difícil, por carregardes com a herança dos erros de um regime econômico iníquo que exerceu a sua ruinosa influência durante muitas gerações. Lembrai-vos da vossa responsabilidade. Triste é dizê-lo, mas é muito verdade que o modo de proceder de certos meios católicos contribui para abalar a confiança dos trabalhadores na religião de Jesus Cristo. Não queriam eles compreender que a caridade cristã exige o reconhecimento de certos direitos devidos ao operário, e que Igreja explicitamente lhe reconheceu. Como julgar do proceder de patrões católicos, que em algumas partes conseguiram impedir a leitura da Nossa Encíclica Quadragesimo anno em suas igrejas patronais? ou daqueles industriais católicos que até hoje se têm mostrado adversários dum movimento que o direito de propriedade, reconhecido pela Igreja, tenha sido por vezes empregado para defraudar o operário do seu justo salário e dos seus direitos sociais? Justiça Social Efetivamente, além da justiça comutativa, há a justiça social que impõe, também, deveres a que nem patrões nem operários se podem furtar. E é precisamente próprio da justiça social exigir dos indivíduos quanto é necessário ao bem comum. Mas, assim como no organismo vivo não se provê ao todo, se não se dá a cada parte e a cada membro tudo quanto necessitam para exercerem as suas funções; assim também se não pode prover ao organismo social e ao bem de toda a sociedade, se não se dá a cada parte e a cada membro, isto é, aos homens dotados da dignidade de pessoa, tudo quanto necessitam para desempenharem as suas funções sociais. O cumprimento dos deveres da justiça social terá como fruto uma intensa atividade de toda a vida econômica, desenvolvida na tranqüilidade e na ordem, e se mostrará assim a saúde do corpo social, do mesmo modo que a saúde do corpo humano se reconhece pela atividade inalterada, e ao mesmo tempo plena e frutuosa, de todo o organismo. Não se pode, porém, dizer que se satisfez à justiça social, se os operários não têm assegurada a sua própria sustentação e a de suas famílias com um salário proporcionado a este fim; se não se lhes facilita o ensejo de adquirir uma modesta fortuna, prevenindo assim a praga do pauperismo universal; se não se tomam providências a seu favor, com seguros públicos e privados, para o tempo da velhice, da doença ou do desemprego. Numa palavra, para repetirmos o que dissemos na Nossa Encíclica Quadragesimo anno: “A economia social estará solidamente constituída e obterá seus fins, só quando a todos e a cada um forem subministrados todos os bens que se podem conseguir com as forças e subsídios naturais, com a técnica, com a organização social do fator econômico. Esses bens devem ser em tanta quantidade, quanta é necessária, assim para satisfazer às necessidades e honestas comodidades, como para elevar os homens àquela condição de vida mais feliz, que, obtida e gozada de modo regrado e prudente, não só não é de obstáculo à virtude, mas até a favorece poderosamente” (Encíclica Quadragesimo anno, 15 de maio de 1931: A.A.S., vol. XXIII (1931), pág. 202). Se, pois, como sucede cada vez mais freqüentemente no salariado, a justiça não pode ser observada pelos particulares, a não ser que todos concordem em praticá-la conjuntamente, mediante instituições que unam entre si os patrões, para evitar entre eles uma concorrência incompatível com a justiça devida aos trabalhadores, o dever dos empresários e patrões é sustentar e promover essas instituições necessárias, que se tornam o meio normal para se poderem cumprir os deveres de justiça. Mas lembrem-se também os trabalhadores dos seus deveres de caridade e justiça para com os patrões e estejam persuadidos que assim salvaguardarão melhor até os próprios interesses. 54. Assim, pois, se se considera o conjunto da vida econômica, – como já notamos na Nossa Encíclica Quadragesimo anno – não se conseguirá que nas relações econômico-sociais reine a mútua colaboração da justiça e da caridade, senão por meio dum corpo de instituições profissionais e interprofissionais sobre bases solidamente cristãs, coligadas entre si e que constituam, sob formas diversas e adaptadas aos lugares e circunstâncias, o que se chamava a Corporação. ESTUDO E DIFUSÃO DA DOUTRINA SOCIAL Para dar a esta ação social mais eficácia, é muito necessário promover o estudo dos problemas sociais à luz da doutrina da Igreja e difundir os seus ensinamentos sob a égide da autoridade de Deus, constituída na mesma Igreja. Se o modo de proceder de alguns católicos deixou a desejar no campo econômico-social, isso aconteceu muitas vezes por não conhecerem suficientemente nem meditarem o ensino dos Sumos Pontífices sobre o assunto. Por isso, é sumamente necessário que em todas as classes da sociedade se promova mais intensa formação social, correspondente ao diverso grau de cultura intelectual, e se procure com toda a solicitude e empenho a mais ampla difusão dos ensinamentos da Igreja também entre a classe operária. Iluminem-se as mentes com a luz segura da doutrina católica e inclinem-se as vontades a segui-la e a aplicá-la como norma reta de vida, pelo cumprimento consciencioso dos múltiplos deveres sociais. Combata-se desse modo aquela incoerência e descontinuidade na vida cristã, por Nós várias vezes deplorada, pela qual alguns, enquanto aparentemente são fiéis no cumprimento dos seus deveres religiosos, no campo do trabalho ou da indústria ou da profissão, ou no comércio, ou no emprego, por um deplorável desdobramento de consciência, levam uma vida muito em desarmonia com as normas tão claras da justiça e da caridade cristã, dando assim grave escândalo aos fracos e oferecendo aos maus fácil pretexto para desacreditarem a própria Igreja. Grandemente pode contribuir para esta renovação a imprensa católica, que pode e deve, de modo variado e atraente, procurar dar a conhecer cada vez melhor a doutrina social, informar com exatidão, mas também com a devida amplidão, acerca da atividade dos inimigos, referir os meios de combate que se mostraram os mais eficazes em diversas regiões, propor idéias úteis e gritar alerta contra as astúcias e enganos com que os comunistas procuram, e com resultado, atrair a si até homens de boa-fé. PREMUNIR-SE CONTRA AS CILADAS DO COMUNISMO Sobre este ponto insistimos na Nossa Alocução, de 12 de maio do ano passado, mas julgamos necessário, Veneráveis Irmãos, chamar de novo sobre ele, de modo particular, a vossa atenção. Ao princípio, o comunismo mostrou-se tal qual era em toda a sua perversidade; mas bem depressa se capacitou de que desse modo afastava de si os povos; e por isso mudou de tática e procura atrair as multidões com vários enganos, ocultando os seus desígnios sob a máscara de ideais, em si bons e atraentes. Assim, vendo o desejo geral de paz, os chefes do comunismo fingem ser os mais zelosos fautores e propagandistas do movimento a favor da paz mundial; mas ao mesmo tempo excitam a uma luta de classes que faz correr rios de sangue, e, sentindo que não têm garantias internas de paz, recorrem a armamentos ilimitados. Assim, sob vários nomes que nem por sombras aludem ao comunismo, fundam associações e periódicos que servem depois unicamente para fazerem penetrar as suas idéias em meios, que doutra forma lhe não seriam facilmente acessíveis, procuram até com perfídia infiltrar-se em associações católicas e religiosas. Assim, em outras partes, sem renunciarem um ponto a seus perversos princípios, convidam os católicos a colaborar com eles no campo chamado humanitário e caritativo, propondo às vezes, até coisas completamente conformes ao espírito cristão e à doutrina da Igreja. Em outras partes levam a hipocrisia até fazer crer que o comunismo, em países de maior fé e de maior cultura, tomará outro aspecto mais brando, não impedirá o culto religioso e respeitará a liberdade das consciências. Há até quem, reportando-se a certas alterações recentemente introduzidas na legislação soviética, deduz que o comunismo está em vésperas de abandonar o seu programa de luta contra Deus. Procurai, Veneráveis Irmãos, que os fiéis não se deixem enganar! O comunismo é intrinsecamente perverso e não se pode admitir em campo nenhum a colaboração com ele, da parte de quem quer que deseje salvar a civilização cristã. E, se alguns, induzidos em erro, cooperassem para a vitória do comunismo no seu país, seriam os primeiros a cair como vítimas do seu erro; e quanto mais se distinguem pela antiguidade e grandeza da sua civilização cristã as regiões aonde o comunismo consegue penetrar, tanto mais devastador lá se manifesta o ódio dos “sem-Deus”. ORAÇÃO E PENITÊNCIA Mas, “se o Senhor não guarda a caridade, em vão vigiam aqueles que a guardam” (Sl 126, 1). Por isso, como último e poderosíssimo remédio vos recomendamos, Veneráveis Irmãos, que em vossas dioceses promovais e intensifiqueis, do modo mais eficaz, o espírito de oração unido à penitência cristã. Quando os Apóstolos perguntaram ao Salvador por que é que não tinham podido libertar do espírito maligno a um endemoninhado, respondeu o Senhor: “Demônios desta raça não se expulsam senão com a oração e com o jejum” (Mt 17, 20). Também o mal que hoje atormenta a humanidade não poderá ser vencido senão com uma santa cruzada universal de oração e penitência: e recomendamos singularmente às Ordens contemplativas, masculinas e femininas, que redobrem as suas súplicas e sacrifícios, para 8impetrarem do céu para a Igreja um válido socorro nas lutas presentes, com a poderosa intercessão da Virgem Imaculada, a qual, assim como um dia esmagou a cabeça da antiga serpente, assim também é hoje e sempre segura defesa e invencível “Auxílio dos Cristãos”. V – MINISTROS E AUXILIARES DESTA OBRA SOCIAL DA IGREJA OS SACERDOTES Para a obra mundial de salvação que temos vindo traçando, e para a aplicação dos remédios que ficam brevemente apontados, ministros e obreiros evangélicos designados pelo divino Rei Jesus Cristo são em primeira linha os sacerdotes. A eles, por vocação especial, sob a guia dos sagrados Pastores e em união de filial obediência com o Vigário de Cristo na terra, foi confiada a missão de conservar aceso no mundo o facho da fé e de infundir nos fiéis aquela sobrenatural confiança com que a Igreja, em nome de Cristo, tem combatido e vencido tantas outras batalhas: “Esta é a vitória que vence o mundo, a nossa fé” (1 Jo 5, 4). De modo particular recordamos aos sacerdotes a exortação de Nosso Predecessor, Leão XIII, tantas vezes repetida, de ir ao operário; exortação que Nós fazemos Nossa e completamos: “Ide ao operário, especialmente ao operário pobre, e em geral, ide aos pobres”, seguindo nisto os ensinamentos de Jesus Cristo e da sua Igreja. Os pobres, efetivamente são os que se acham mais expostos às ciladas dos agitadores, que exploram a sua mísera condição, para lhes atear no peito a inveja contra os ricos e excitá-los a tomarem pela força o que lhes parece que a fortuna lhes negou injustamente; e, se o Sacerdote não vai aos operários, aos pobres, para os prevenir ou desenganar dos preconceitos e das falsas teorias, chegarão a ser fácil presa dos apóstolos, do comunismo. Não podemos negar que muito se tem feito já neste sentido, especialmente depois das Encíclicas Rerum Novarum e Quadragesimo anno; e com paterna complacência saudamos o industrioso zelo pastoral de tantos bispos e sacerdotes, que vão excogitando e ensaiando, embora com a devida prudência e cautela, novos métodos de apostolado que melhor correspondam às exigências modernas. Mas tudo isto é ainda muito pouco para as presentes necessidades. Assim como, quando a pátria está em perigo, tudo quanto não é estritamente necessário ou não é diretamente ordenado à urgente necessidade da defesa comum, passa a segunda linha; assim também em nosso caso, qualquer outra obra, por mais bela e boa que seja, deve ceder o passo à vital necessidade de salvar as próprias bases da fé e da civilização cristã. E assim, nas paróquias os sacerdotes, dando embora materialmente o que é necessário à cura ordinária dos fiéis, reservem o mais e o melhor das suas forças e da sua atividade à reconquista das massas trabalhadoras para Cristo e para a Igreja e a fazer penetrar o espírito cristão nos meios que lhe são mais refratários. Nas massas populares, encontrarão uma correspondência e uma abundância de frutos inesperada, que os compensará do duro trabalho do primeiro arroteamento; como temos visto e vemos em Roma e em muitas outras metrópoles, onde, à sombra das novas igrejas, que vão surgindo nos bairros periféricos, se vão organizando fervorosas comunidades paroquiais e se operam verdadeiros milagres de conversão entre populações que eram hostis à religião, só porque a não conheciam. Mas o meio mais eficaz de apostolado entre as multidões dos pobres e dos humildes é o exemplo do sacerdote, o exemplo de todas as virtudes sacerdotais quais as descrevemos em Nossa Encíclica Ad Catholici Sacerdotii (20 de dezembro de 1935: A.A.S., vol. XXVIII (1936), págs. 5-53); no presente caso, porém, de modo especial, é necessário um luminoso exemplo de vida humilde, pobre, desinteressada, cópia fiel do Divino Mestre que podia proclamar com divina franqueza: “As raposas têm os seus covis e as aves do céu os seus ninhos; mas o Filho do homem não tem onde reclinar a cabeça” (Mt 8, 20). Um sacerdote verdadeira e evangelicamente pobre e desinteressado faz milagres de bem no meio do povo, como um São Vicente de Paulo, um Cura d’Ars, um Cottolengo, um Dom Bosco e tantos outros; ao passo que um sacerdote avaro e interesseiro, como recordamos na citada Encíclica, ainda quando se não precipite, como judas, no abismo da traição, será pelo menos um oco “bronze a ressoar” e um inútil “címbalo a retinir” (1 Cor 13, 1), e muitas vezes antes obstáculo que instrumento de graça no meio do povo. E, se o sacerdote secular ou regular, por dever de ofício, tem que administrar bens temporais, lembre-se que não somente terá obrigação de observar escrupulosamente tudo quanto prescrevem a caridade e a justiça, senão que de modo particularmente deve mostrar-se verdadeiro pai dos pobres. A AÇÃO CATÓLICA Depois do clero dirigimos o Nosso paternal convite aos nossos queridíssimos filhos leigos, que militam nas fileiras da Ação Católica, que nos é tão cara e que, como já declaramos em outra ocasião (13 de maio de 1936, A.A.S., vol. XXIX (1937), págs. 139-144), é um “auxílio particularmente providencial”, para a obra da Igreja nestas circunstâncias tão difíceis. De fato, a Ação Católica é também apostolado social, enquanto tende a difundir o Reinado de Jesus Cristo não só nos indivíduos mas também na família e na sociedade. Por isso deve, antes de tudo, atender a formar com especial cuidado os seus membros e a prepará-los, para as santas batalhas do Senhor. A este trabalho formativo, mais que nunca urgente e necessário, que deve preceder a ação direta e efetiva, servirão certamente os círculos de estudos, as semanas sociais, os cursos orgânicos de conferências e todas as demais iniciativas aptas para dar a conhecer a solução dos problemas sociais em sentido cristão. Soldados da Ação Católica tão bem preparados e adestrados serão os primeiros e imediatos apóstolos dos seus companheiros de trabalho e tornar-se-ão os preciosos auxiliares do Sacerdote, para levarem a luz da verdade e aliviarem as graves misérias materiais e espirituais, em inumeráveis zonas refratárias à ação do ministro de Deus, ou por inveterados preconceitos contra o clero ou por deplorável apatia religiosa. Cooperar-se-á desse modo, sob a direção de Sacerdotes particularmente experimentados, naquela assistência religiosa às classes trabalhadoras, que temos tanto a peito, por ser o meio mais apto para preservar aqueles Nossos amados filhos da cilada comunista. Além deste apostolado individual, muitas vezes oculto, mas sobremaneira útil e eficaz, é função da Ação Católica disseminar amplamente, por meio da propaganda oral e escrita, os princípios fundamentais que hão de servir para a construção de uma ordem social cristã, como se depreendem dos documentos pontifícios. ORGANIZAÇÕES AUXILIARES Em torno da Ação Católica cerram fileiras as organizações que Nós saudamos já como auxiliares da mesma. Com paternal afeto exortamos também estas organizações tão prestimosas a consagrarem-se à grande missão de que tratamos, que atualmente supera a todas as outras pela sua vital importância. ORGANIZAÇÕES DE CLASSE Pensamos também nas organizações de classe: de operários, de agricultores, de engenheiros, de médicos, de patrões, de homens de estudo e outras semelhantes; homens e mulheres, que vivem nas mesmas condições culturais e quase naturalmente se reuniram em agrupamentos homogêneos. São precisamente estes grupos e estas organizações que estão destinadas a introduzir na sociedade aquela ordem, que tínhamos na mente na Nossa Encíclica Quadragesimo anno, e a difundir assim o reconhecimento da realeza de Cristo nos diversos campos da cultura e do trabalho. E se, pela transformação das condições da vida econômica e social, o Estado julgou dever intervir até o ponto de assistir e regular diretamente tais instituições com particulares disposições legislativas, salvo o respeito devido à liberdade e às iniciativas particulares; também não pode nessas circunstâncias a Ação Católica manter-se estranha à realidade, antes deve com prudência prestar a sua contribuição de pensamento, com o estudo dos novos problemas à luz da doutrina católica, e da atividade, com a participação leal e voluntária dos seus membros nas novas formas e instituições, levando-lhes o espírito cristão, que é sempre princípio de ordem e de mútua e fraterna colaboração. APELO AOS OPERÁRIOS CATÓLICOS Uma palavra particularmente paterna quiséramos dirigir aos Nossos queridos operários católicos, jovens e adultos, os quais, talvez em prêmio da sua fidelidade por vezes heróica nestes tempos tão difíceis, receberam missão muito nobre e árdua. Sob a direção dos seus Bispos e Sacerdotes, é a eles que cumpre reconduzir à Igreja e a Deus aquelas imensas multidões de irmãos seus de trabalho, os quais, exacerbados por não haverem sido compreendidos nem tratados com a dignidade a que tinham direito, se afastaram de Deus. Demonstrem os operários católicos com seu exemplo, com suas palavras, a esses seus irmãos transviados que a Igreja é Mãe cheia de ternura para todos os que trabalham e sofrem, e que jamais faltou nem faltará a seu sagrado dever materno de defender seus filhos. Se esta missão, que eles devem cumprir nas minas, nas fábricas, nos estaleiros, onde quer que se trabalha, reclama por vezes grandes sacrifícios, lembrem-se que o Salvador do mundo deu não só exemplo do trabalho, senão também o do sacrifício. NECESSIDADE DE CONCÓRDIA ENTRE OS CATÓLICOS Assim pois, a todos os Nossos filhos, de todas as classes sociais, de todas as nações, de todos os grupos religiosos e leigos da Igreja, quiséramos dirigir um novo e mais urgente apelo à concórdia. Muitas vezes Nosso coração paterno se tem afligido com as divisões, fúteis muitas vezes em suas causas, mas sempre trágicas em suas conseqüências, que põem em luta os filhos duma mesma Mãe, a Igreja. Assim se vê que os agentes da desordem, que não são tão numerosos, aproveitando-se destas discórdias, lhes exasperam o azedume, e acabam por lançar os mesmos católicos uns contra os outros. Depois dos acontecimentos destes últimos meses, deveria parecer supérfluo o Nosso aviso. Repetimo-lo, porém, uma vez mais para aqueles que o não compreenderam, ou talvez não o querem compreender. Os que trabalham por aumentar as distensões entre católicos, tomam sobre si uma tremenda responsabilidade diante de Deus e da Igreja. APELO A TODOS OS QUE CRÊEM EM DEUS Mas a esta luta, empenhada pelo poder das trevas contra própria idéia da Divindade, é-Nos grato esperar que, além de todos aqueles que se gloriam do nome de Cristo, se oponham também denodadamente todos quantos crêem em Deus e o adoram, que são ainda a imensa maioria da humanidade. Renovamos, por isso, o apelo que já, há cinco anos, lançamos em Nossa Encíclica Caritate Christi, para que também eles leal e cordialmente concorram de sua parte “para afastar da humanidade o grande perigo que a todos ameaça”. Porquanto, – como então dizíamos -, se “a crença em Deus é o fundamento inabalável de toda a ordem social e de toda a responsabilidade na terra, todos os que não querem a anarquia e o terror devem trabalhar energicamente para que os inimigos da religião não alcancem o fim que tão abertamente proclamam” (Encíclica Caritate Christi, 3 de maio de 1932: A.A.S., vol. XXIX (1932), pág. 184). DEVERES DO ESTADO CRISTÃO Ajudar a Igreja Temos exposto, Veneráveis Irmãos, a função positiva, de ordem, a um tempo, doutrinal e prática, que a Igreja assume em virtude da mesma missão, que Jesus Cristo lhe confiou, de edificar a sociedade cristã e, em nossos tempos, de combater e desbaratar os esforços do comunismo; e fizemos apelo a todas e a cada uma das classes da sociedade. Para esta mesma empresa espiritual da Igreja deve também concorrer positivamente o Estado cristão, ajudando em seu empenho a Igreja com os meios que lhes são próprios, os quais, embora externos, dizem também respeito, em primeiro lugar, ao bem das almas. Por isso os Estados porão todo o cuidado em impedir que a propaganda atéia, que destrói todos os fundamentos da ordem, faça estragos em seus territórios, porque não poderá haver autoridade na terra, se não se reconhece a autoridade da Majestade divina, nem será firme o juramento, que não se faça em nome do Deus vivo. Repetimos o que tantas vezes e com tanta insistência temos dito, nomeadamente na Nossa Encíclica Caritate Christi: “Como pode sustentar-se um contrato qualquer, e que valor pode ter um tratado, onde falte toda a garantia de consciência? E como pode falar-se de garantia de consciência, onde falte toda a fé em Deus, todo o temor de Deus? Destruída esta base, desmorona-se com ela toda a lei moral, e não haverá já remédio nenhum que possa impedir a gradual, mas inevitável ruína dos povos, da família, do Estado, da própria civilização humana” (Encíclica Caritate Christi, 3 de maio de 1932: A.A.S., vol. XXIV (1932), pág. 190). Providências do bem comum Além disso, deve o Estado pôr todo o cuidado em criar aquelas condições materiais de vida, sem as quais não pode subsistir uma sociedade ordenada, e em procurar trabalho especialmente aos pais de família e à juventude. Para esse fim induzam-se as classes ricas a que, pela urgente necessidade do bem comum, tomem sobre si aqueles encargos, sem os quais a sociedade humana não pode salvar-se, nem elas próprias poderiam encontrar salvação. Mas as providências, que o Estado toma para esse fim, devem ser tais que atinjam efetivamente os que de fato têm nas mãos os maiores capitais e continuamente os vão aumentando com grave prejuízo dos outros. Prudente e sóbria administração O próprio Estado, lembrando-se de suas responsabilidades diante de Deus e da sociedade, sirva de exemplo a todos os demais com uma prudente e sóbria administração. Hoje mais que nunca a gravíssima crise mundial exige que aqueles que dispõem de fundos enormes, fruto do trabalho e do suor de milhões de cidadãos, tenham sempre diante dos olhos unicamente o bem comum e procurem promovê-lo o mais possível. Os funcionários do Estado e todos os empregados cumpram também, por dever de consciência os seus deveres com fidelidade e desinteresse, seguindo os luminosos exemplos antigos e recentes de homens insignes, que num trabalho sem descanso sacrificaram toda a sua vida pelo bem da pátria. E no comércio dos povos entre si, procure-se solicitamente remover aqueles obstáculos artificiais da vida econômica, que brotam do sentimento da desconfiança e do ódio, recordando que todos os povos da terra formam uma única família de Deus. Deixar liberdade à Igreja Mas, ao mesmo tempo, deve o Estado deixar à Igreja plena liberdade de cumprir a sua missão divina e espiritual, para contribuir assim poderosamente para salvar os povos da terrível tormenta da hora presente. Por toda a parte se faz hoje um angustioso apelo às forças morais e espirituais; e com toda a razão, porque o mal que se deve combater é antes de tudo, considerado em sua primeira origem, um mal de natureza espiritual, e desta fonte é que brotam, por uma lógica diabólica, todas as monstruosidades do comunismo. Ora, entre as forças morais e religiosas, sobressai incontestavelmente a Igreja Católica; e por isso o mesmo bem da humanidade exige que não se ponham obstáculos à sua atividade. Proceder de outro modo e pretender ao mesmo tempo alcançar o fim com meios puramente econômicos e políticos, é ficar à mercê de um erro perigoso. E quando se exclui a religião da escola, da educação, da vida pública, e se expõem ao ludíbrio os representantes do Cristianismo e seus sagrados ritos, não se promove porventura aquele materialismo, donde germina o comunismo? Nem a força, ainda a mais bem organizada, nem os ideais terrenos, por mais grandiosos e nobres que sejam, podem dominar um movimento, que tem suas raízes precisamente na demasiada estima dos bens da terra. Confiamos que aqueles que dirigem os destinos das nações, por pouco que sintam o perigo extremo que ameaça hoje os povos, compreenderão cada vez melhor o supremo dever de não impedir à Igreja o cumprimento da sua missão; tanto mais que, ao cumpri-la, enquanto procura a felicidade eterna do homem trabalha também inseparavelmente pela verdadeira felicidade temporal. APELO PATERNO AOS TRANSVIADOS Mas não podemos pôr termo a esta Carta Encíclica, sem dirigir uma palavra àqueles mesmos filhos Nossos que estão já contagiados ou tocados do mal comunista. Exortamo-los vivamente a que ouçam a voz do Pai que os ama; e rogamos ao Senhor que os ilumine, para que deixem o caminho que os despenha a todos numa imensa e catastrófica ruína, e reconheçam também eles que o único Salvador é Jesus Cristo Senhor Nosso: “porque não há sob o céu nenhum outro nome dado aos homens, pelo qual possamos esperar ser salvos” (At 4, 12). CONCLUSÃO SÃO JOSÉ, MODELO E PATRONO E, para apressar a “Paz de Cristo no Reino de Cristo” (Encíclica Ubi Arcano, 23 de dezembro de 1922: A.A.S., vol. XIV (1922), pág. 619), por todos tão desejada, pomos a grande ação da Igreja Católica contra o comunismo ateu mundial sob a égide do poderoso Protetor da Igreja, São José. Ele pertence à classe operária e experimentou o peso da pobreza, em si e na Sagrada Família, de que era chefe vigilante e afetuoso; a ele foi confiado o Deus Menino, quando Herodes mandou contra ele os seus sicários. Com uma vida de fidelíssimo cumprimento do dever cotidiano, deixou um exemplo de vida a todos os que têm de ganhar o pão com o trabalho de suas mãos e mereceu ser chamado o Justo, exemplo vivo daquela justiça cristã, que deve reinar na vida social. Com os olhos no alto, a nossa fé vê os novos céus e a nova terra; de que fala o Nosso primeiro Antecessor, São Pedro (2 Pdr 3, 13; cf. Is 66, 22; Apc 21, 1). Enquanto as promessas dos falsos profetas da terra se desvanecem em sangue e lágrimas, brilha com celeste beleza a grande profecia apocalíptica do Redentor do mundo: “Eis que Eu renovo todas as coisas” (Apc 21, 5). Não Nos resta, Veneráveis Irmãos, senão elevar as mãos paternas e fazer descer sobre Vós, sobre o vosso Clero e povo, sobre toda a grande Família Católica, a Bênção Apostólica. Dada em Roma, junto de São Pedro, na festa de São José, Padroeiro da Igreja Universal, no dia 19 de março de 1937, ano XVI do Nosso Pontificado. PIO XI PP. #vaticanoi #SOBREOCOMUNISMOATEU #cartaencíclica #DIVINISREDEMPTORIS #encíclica

  • CONCÍLIOS

    CONCÍLIOS Há muitas maneiras de estudar a História da Igreja Católica, é uma delas é olhar as decisões conciliares nestes dois milênios da Igreja. Um Concílio Geral consiste numa reunião formal de representantes da Igreja, junto com o Papa (mas nem sempre), para tomar decisões dogmáticas e pastorais, que possam ajudar no crescimento da Igreja, na eliminação dos erros e na difusão das verdades da fé. Em dois mil anos de existência, a Igreja reconhece 21 Concílios Gerais e ainda acrescenta o chamado “Concílio de Jerusalém”, reunião narrada nos Atos dos Apóstolos (At 15,1-40), como parte da Tradição da Igreja e dos seus ensinamentos. Não há nenhuma regra para que um Papa convoque um Concílio, ou seja, a constituição de um Concílio geralmente nasce de uma necessidade eclesial ou do desejo do Papa em solucionar certas crises na Igreja. Pedagogicamente podemos dividir os 21 Concílios Gerais da Igreja em quatro períodos. Os Concílios ficaram conhecidos pelos nomes das cidades onde o Papa, bispos e outros representantes da Igreja se reuniam para discutir os assuntos de fé e doutrina. 1.    Concílios do Primeiro Milênio: Niceia I (325), Constantinopla I (381), Éfeso (431), Calcedônia (451), Constantinopla II (553), Constantinopla III (680-681), Niceia II (787), Constantinopla IV (869-870). 2.    Concílios Medievais: Latrão I (1123), Latrão II (1139), Latrão III (1179), Latrão IV (1215), Lyon I (1245), Lyon II (1274), Vienne (1311-1312). 3.    Concílios da Reforma: Constança (1414-1418), Basileia-Ferrara-Florença-Roma (1431-1445), Latrão V (1512-1517), Trento (1545-1548/1551-1552/1562-1563). 4.    Concílios da Idade Moderna: Vaticano I (1869-1870), Vaticano II (1962-1965). Vamos falar um pouquinho sobre cada um deles. Não é nosso objetivo aqui descrever detalhadamente cada um desses concílios, mas apenas ilustrar alguns fatos ocorridos em cada um deles. Para maiores informações, no final, oferecemos uma bibliografia sobre o assunto. 1.    Concílios do Primeiro Milênio: a Igreja Católica reconhece oito Concílios Gerais desse período. Os seis primeiros estão ligados entre si, uma vez que os assuntos de um se arrastavam para o outro. Eles trataram de assuntos de ordem doutrinal e teológica, na definição das grandes verdades da fé, como a divindade e humanidade de Jesus, o mistério da Trindade, a relação de Maria e Jesus. Os outros dois trataram de assuntos distintos, como o culto aos santos (Niceia II) e a estrutura da interna da Igreja (Constantinopla IV). a)    Niceia I: o assunto central desse concílio foi combater a heresia do Arianismo, que pregava a humanidade de Jesus e quase desconsiderava sua divindade. Foi convocado pelo Imperador Constantino e o Papa Silvestre I nem compareceu, mas mandou dois delegados. Havia grande problema com definições dogmáticas por causa da língua (grega e latim) e a questão do Arianismo, ainda que considerada herética, não foi resolvida e ainda levantou outras perguntas referentes a natureza de Jesus e da Santíssima Trindade. b)    Constantinopla I: foi convocado pelo imperador Teodósio. O texto original desse concílio se perdeu no tempo. Houve discussão sobre o arianismo e novamente foi escrito um credo cristão (niceno-constantinopolitano), colocando o Espírito Santo no mesmo patamar do Pai e do Filho. O papa Dâmaso não compareceu nem mandou delegados do ocidente cristão, mas ainda assim este concílio é considerado legítimo e parte da história da Igreja. c)    Éfeso: continuam as discussões cristológicas, sobre a natureza e vontade de Jesus Cristo. Também surge a questão relacionada com Maria e o Nestorianismo, que negava a maternidade divina da mãe de Jesus. O papa Celestino delegou Cirilo para representá-lo e a tese que venceu foi que Maria era também Mãe de Deus – “Theotokos” – ou seja, a unidade de Jesus foi garantida. Também foi decidido que nenhuma mudança no Credo Católico poderia ser feita posteriormente. d)    Calcedônia: este concílio reuniu-se para tentar ainda dizimar dúvidas que surgiram na doutrina sobre Jesus e a Santíssima Trindade. Foi um momento conturbado, no qual o papa Leão I apresentou um documento que resumia as principais doutrinas da Igreja até então. A principal decisão desse encontro foi a afirmação já feita anteriormente que Jesus é uma pessoa com duas naturezas distintas, humana e divina. Também reafirmou-se o Credo Niceno-Constantinopolitano. O papa Gregório I irá dizer mais tarde que estes primeiros quatro Concílios deveriam ter o mesmo prestígio dos Evangelhos pois são a coluna da fé católica. e)    Constantinopla II: convocado pelo Imperador Justiniano, este concílio foi conturbado e politicamente complicado. Havia ainda ranços heréticos do nestorianismo e do monofisismo para serem descartados. O papa Vígilio não compareceu, por que ele mesmo, extraoficialmente, parecia ser adepto da heresia do monofisismo. Acuado pelo imperador, o papa precisou voltar atrás e ceder em suas posições heréticas. f)    Constantinopla III: pode parecer absurdo, mas o centro desse concílio foi a vontade de Jesus: ele tinha vontade humana ou divina? A heresia do monotelismo, que afirmava que Jesus fundia em si as duas vontades foi derrotada. Assinado pelo Papa Agatão, este concílio fortaleceu ainda mais a tradição doutrinal que vinha sendo construída desde Niceia I. g)    Niceia II: passado o período crítico das heresias, o concílio de Niceia II abordou uma questão litúrgica prática: a veneração dos ícones e imagens dos santos e de Maria, situação conhecida com Iconoclastia. O papa Adriano I defendeu o uso das imagens como forma “artística” para ajudar na difusão do evangelho e de seus valores. Também foi aprovada a veneração de relíquias nas Igrejas. h)    Constantinopla IV: momento conturbado, este concílio foi mais político que eclesial ao colocar como questão de fundo o verdadeiro patriarca de Constantinopla, Fócio ou Inácio. As disputas foram acirradas e até hoje este concílio é considerado o mais irrelevante da história. 2.    Concílios Medievais: o poder do papado atingiu seu auge na Idade Média e os concílios desse período foram dedicados à organização da Igreja e ao controle de suas estruturas internas. Os documentos conciliares são aprovados exclusivamente pelo Papa, que passa a convocar e coordenar os trabalhos com pulso de ferro. Uma linguagem legalista e menos teológica invade os documentos conciliares e reafirma uma monarquia papal. O conjunto desses sete concílios pode ser visto dentro de um único conjunto de fortalecimento da hierarquia eclesiástica. a)    Latrão I: Latrão era a residência do Papa em Roma. Nessa residência acontecerão quatro concílios, todos reafirmando o poder papal na Igreja. O papa Calisto II impôs um ritmo formal ao encontro, que decidiu sobre as “investiduras”, ou seja, a nomeação de cargos eclesiásticos por leigos. Outro assunto foram as cruzadas à Terra Santa, que entrariam na pauta nos próximos concílios. b)    Latrão II: sem muita novidade, este concílio simplesmente reforçava a autoridade papal sobre a vida da Igreja local pelo mundo afora. A readmissão e o castigo aos heréticos entraram em pauta e este concílio começou a descrever com detalhes como deveriam ser tratados os infiéis. Foi convocado por Inocêncio II. c)    Latrão III: contou com um participação inédita em termos de concílio, conseguindo reunir participantes de quase todas as partes da Europa e delegados orientais. A afirmação da unidade papal foi discutida pois haviam cisma na Igreja e presença de antipapas. Neste concílio definiu-se as primeiras regras para a eleição papal a partir do colégio dos cardeais. Este concílio condenou os heréticos Cátaros e reafirmou suspensão de penitências para que se dispusesse a ajudar nas Cruzadas. d)    Latrão IV: concílios cada vez mais esplendorosos tomavam conta da Igreja e nesse encontro mais de 400 representantes de igrejas locais compareceram, além de mais de oitocentos representantes de instituições religiosas diversas. Neste concílio temos um “instantâneo” da Idade Média, descrito nos seus documentos e decisões. Houve grande discussão sobre penas aos heréticos e como investigar heresias entre as pessoas. Este concílio convocou mais uma Cruzada à Terra Santa e definiu relações entre cristãos, judeus e muçulmanos. Foi usada a palavra “transubstanciação” para falar do mistério eucarístico e estabelecido o dever de comungar ao menos na Páscoa de cada ano. e)    Lyon I: o objetivo desse concílio era político, derrubar o imperador Frederico II, acusado de heresia. Na verdade o papa Inocêncio IV não admitia o sucesso de negociações que Frederico havia conseguido com os muçulmanos. Este concílio se preocupou com o financiamento das Cruzadas e prometeu indulgências aos ricos que doassem dinheiro para as incursões da igreja no Oriente. f)    Lyon II: conduzido pelo Papa Gregório X, este concílio trabalhou com material trazido pelos bispos de suas dioceses de origem. Novas regras da eleição papal foram definidas. A unificação da Igreja Ocidental e Oriental esteve na pauta, com a retomada da questão do “filioque” (doutrina que afirma que o Espírito Santo procede do Pai e do Filho e que é rejeitada pelo Oriente Cristão). A primazia de Roma sobre os patriarcado Orientais também foi pauta, mas sem solução clara. Outra conquista de Lyon II foi a definição do Conclave para a eleição do Papa. g)    Vienne: reunido num período em que o papado residiu em Avinhão (na França) este concílio teve forte influência secular. O rei francês Filipe queria que o atual papa, Clemente V, excomungasse seu antecessor, Bonifácio, por heresia, pois este tinha contrariado o rei francês com relação ao Ordem dos Templários, ricos cavaleiros medievais. Clemente aparentemente cede, mas não passa os bens dos Templários para o rei francês e ainda faz um elogio a Bonifácio no concílio. Também houve a condenação do movimento das beguinas, uma espécie de vida religiosa paralela na Igreja. Este concílio também decidiu pelo ensino de idiomas clássicos e quase extintos nas universidades cristãs, para melhorar o estudo da Bíblia Sagrada. 3.    Concílios da Reforma: A Alta Idade Média trouxe o maior desafio para a fé católica, o surgimento de conflitos sobre a autoridade papal e o começo do movimento protestante. Nesse período temos quatro concílios, entre eles o concílio de Trento, talvez o mais importante para a Igreja em todos os tempos. Uns dos temas mais discutidos nesse período foi o próprio poder dos concílios e se estes tinham autoridade maior do que o Papa. Esta questão foi chamada de Conciliarismo. a)    Constança: tinha como tarefa unir a Igreja do Ocidente, que se encontrava numa posição tão frágil que havia três papas ao mesmo tempo, cada um deles afirmando-se o legítimo sucessor de Pedro. Convocado pelo Papa João XXIII (este será deposto e considerado ilegítimo, e seu nome será depois assumido no século XX por outro papa, aquele que irá convocar o Vaticano II), o Concílio tinha que enfrentar o cisma para evitar que a Igreja se fragmentasse ainda mais. Este concílio trará as teses conciliaristas á tona, alegando que o próprio Papa é sujeito ao Concílio. Constança ainda declarou heréticas as ideias de Jan Hus, reformador sueco, e o condenou a morte. Este conturbado Concílio destituiu ainda os outros dois pretensos papas e elegeu, com cuidado, Martinho V. A última decisão conciliar foi aprovar a reunião da igreja em concílios a cada cinco anos. b)    Basileia-Ferrara-Florença-Roma: foi o papa Eugenio IV que convocou o concílio em Basileia, mas depois de um ano tentou suprimi-lo. Entretanto, os bispo conciliares pressionaram o papa e ele voltou atrás, acirrando a questão do poder do Concílio versus o poder papal. A discussão passou pela relação entre a Igreja do Ocidente e Oriente. Para resolver esta questão,  Papa sugeriu a mudança do concílio para Ferrara e depois para Florença. Alguns bispos permaneceram na Basileia, e foram excomungados pelo papa. Em Florença a discussão com a Igreja Oriental abordou questões litúrgicas e a antiga questão do “filioque”. Estas questões somente aparentemente foram resolvidas, mas pouco tempo depois tudo voltou a ser como antes e o cisma permaneceu. O papa ainda transferiu o concílio para Roma onde o encerrou depois de alguns anos de turbulência. Se Constança viu a vitória do conciliarismo, em Basileia a força do papado centralizador voltou a ser hegemônica. c)    Latrão V: Julio II, o papa guerreiro, reuniu-se em Latrão no começo do século XVI para reafirmar a força do papado. Seu sucessor, Leão X. continuou o concílio com o ataque direto e duro contra as teses conciliaristas, afirmando que o concílio só existe com a presença e confirmação do Papa. Assuntos de disciplina eclesiástica também entraram na pauta, mas estes seriam mesmo enfrentados no próximo concílio, o de Trento. Latrão V entra na história como o concílio que levantou sérios problemas mas que não os enfrentou. Esta lacuna será fatídica, pois dela brota as críticas protestantes, sobretudo nas teses de Martinho Lutero. Neste Concílio, pela primeira vez, um bispo do “novo mundo”, da América, participou das discussões. d)    Trento: este é talvez o concílio mais falado, conhecido e questionado até hoje. Por mais de 300 anos as decisões de Trento moldaram a fé católica ao redor do mundo. Trento nasce de um momento de fraqueza da Igreja, pretende responder ao crescimento protestante e acaba por afirmar uma eclesiologia centralizada e centralizadora. Foram temas de Trento os grandes alicerces da Igreja: hierarquia, sacramentos, Tradição e Escrituras, costumes, devoções, formação intelectual do clero, poder papal, etc. Ao mesmo tempo em que defendia a Igreja naquele momento, Trento lançou as bases do que seria o catolicismo até o século XX. Suas decisões práticas ajudaram a reorganizar o modo de ser da Igreja, mas ao mesmo tempo, suas decisões não acompanharam o movimento da sociedade e a Igreja foi ficando a margem da História. 4.    Concílios da Idade Moderna: entre os 306 anos que separam Trento do Vaticano I o mundo mudou muito e a Igreja ficou isolada em si mesma. Ideias iluministas, Revolução Industrial, mudanças políticas no mundo, tudo foi acontecendo ligeiramente e a Igreja vendo tudo da sacristia, alheia a realidade. A Igreja parecia ter medo do mundo. a)    Vaticano I: convocado pelo papa Pio IX teve como principal objetivo, num mundo marcado pela mudança e democratização das instituições, definir a infalibilidade papal. A Igreja sentia-se pressionada por dois grupos, um mais reacionário e outro mais aberto ao novo. Foram mais de 750 delegados neste concílio, reunidos agora dentro da Basilica de São Pedro em Roma. Os meios de comunicação, sobretudo o telégrafo, possibilitaram um alcance maior das notícias conciliares pelo mundo afora. O auge desse concílio foram as discussões para se chegar a definição que o papa tem “infalibilidade na sua autoridade doutrinária”, ou seja, a pessoa do papa não é infalível, mas somente as suas declarações feitas da cátedra de Pedro em questões de fé e de moralidade. b)    Vaticano II: o último e mais recente concílio geral da Igreja nasceu do espanto de todos. O velho papa de transição João XXIII, já com 77 anos, resolveu “arejar” a Igreja e provocou a maior revolução que a Igreja já conheceu na sua história. Isolada do mundo, a Igreja, pelo Vaticano II, se viu obrigada a reorganizar sua vida e recuperar o diálogo com a sociedade circundante. Uma questão chave esteve presente no concílio: qual a relação entre o papa e o colégio dos bispos? E qual o papel dos leigos na Igreja? E qual a relação entre a Igreja e o mundo secular? Nos seus três anos de trabalho, o Concílio, aberto por João XXIII e concluído por Paulo VI, revolucionou o modo como a Igreja se via e como ela via o mundo. Passado cinquenta anos de história, conquistas do concílio já foram alicerçadas, como a liturgia em língua vernácula, outras parecem retroceder, como a centralização das decisões em Roma. De qualquer forma, ainda temos muito que aprender com as decisões conciliares do Vaticano II, um concílio profundamente pastoral e inovador. Resumo do texto: História dos 21 Concílios da Igreja – de Niceia ao Vaticano II Christopher M. Bellito Edições Loyola, 2010. Fonte: A12 #concílio #concílios #vaticanoi #vaticanoii

  • CAPÍTULO VIII – Dos exercícios piedosos que se aconselham ao cristão para cada dia

    969) Que deve fazer um bom cristão, pela manhã, apenas acorda? Um bom cristão, pela manhã, apenas acorda, deve fazer o sinal da Cruz, e oferecer o coração a Deus, dizendo estas ou outras palavras semelhantes: Meu Deus, eu vos dou o meu coração e a minha alma. 970) Em que deveríamos pensar ao levantar da cama e enquanto nos vestimos? Ao levantar da cama e enquanto nos vestimos, deveríamos pensar que Deus está presente, que aquele dia pode ser o último da nossa vida; e entretanto levantar-nos e vestir-nos com toda a modéstia possível. 971) Depois de se levantar e de se vestir, que deve fazer um bom cristão? Um bom cristão, apenas se tenha levantado vestido, convém pôr-se na presença De Deus e ajoelhar, se pode, diante de alguma devota imagem, dizendo com devoção: “Eu Vos adoro, meu Deus, e Vos amo de todo o coração; dou-Vos graças por me terdes criado, feito cristão e conservado nesta noite; ofereço-Vos todas as minhas ações, e peço-Vos que neste dia me preserveis do pecado, eme livreis de todo o mal. Assim seja”. Reza depois o Padre-Nosso, a Ave-Maria, o Credo, e os atos de Fé, de Esperança e de Caridade, acompanhando-os com um vivo afeto do coração. 972) Que práticas de piedade deveria fazer todos os dias o cristão? O cristão, podendo, deveria todos os dias: 1o assistir com devoção à santa Missa; 2º fazer uma visita, por breve que fosse, ao Santíssimo Sacramento; 3º rezar o terço do santo Rosário. 973) Que se deve fazer antes do trabalho? Antes do trabalho, convém oferecê-lo a Deus, dizendo do coração: “Senhor, eu Vos ofereço este trabalho, dai-me a vossa bênção”, 974) Para que fim se deve trabalhar? Deve-se trabalhar para glória de Deus e para fazer a sua vontade. 975) Que convém fazer antes da refeição? Antes da refeição convém fazer o sinal da Cruz, estando de pé, e depois dizer com devoção: “Senhor, abençoai-nos a nós e ao alimento que vamos tomar, para nos conservarmos no vosso santo serviço”. 976) Depois da refeição, que convém fazer? Depois da refeição, convém fazer o sinal da Cruz, e dizer: “Senhor, eu Vos dou graças pelo alimento que me destes; fazei-me digno de participar da mesa celeste”. 977) Quando nos vemos atormentados por alguma tentação, que devemos fazer? Quando nos vem os atormentados por alguma tentação, devemos invocar com fé o Santíssimo Nome de Jesus ou de Maria, ou recitar fervorosamente alguma oração jaculatória, como, por exemplo: “Dai-me a graça, Senhor, que eu nunca Vos ofenda”; ou então fazer o sinal da Cruz, evitando porém que as outras pessoas, pelos sinais externos, suspeitem da tentação. 978) Quando uma pessoa reconhece ou duvida que cometeu algum pecado, que deve fazer? Quando uma pessoa reconhece, ou duvida que cometeu algum pecado, convém fazer imediatamente um ato de contrição, e procurar confessar-se quanto antes. 979) Quando fora da Igreja se ouve o sinal de elevação da hóstia naMissa solene, ou da bênção do Santíssimo Sacramento, que se deve fazer? É bom fazer, ao menos com o coração, um ato de adoração, dizendo, por exemplo: “Graças e louvores se dêem a todo o momento ao Santíssimo e diviníssimo Sacramento”. 980) Que se deve fazer quando tocam às Ave-Marias, pela manhã, ao meio-dia e à noite? Ao toque das Ave-Marias, o bom cristão recita o Anjo do Senhor com três Ave- Marias. 981) A noite, antes de deitar, que devemos fazer? À noite, antes de deitar, convém pôr-nos, como pela manhã, na presença de Deus, recitar devotamente as mesmas orações, fazer um breve exame de consciência, e pedir perdão a Deus dos pecados cometidos durante o dia. 982) Que haveis de fazer antes de adormecer? Antes de adormecer, farei o sinal da Cruz, pensarei que posso morrer naquela noite, e oferecerei o coração a Deus, dizendo: “Meu Senhor e meu Deus, eu Vos dou todo o meu coração. Trindade Santíssima, concedei-me a graça de bem viver e de bem morrer. Jesus, Maria e José eu Vos encomendo a minha alma”. 983) Além das orações da manhã e da noite, por que outra forma se pode recorrer a Deus no decurso do dia? No decurso do dia pode-se invocar a Deus freqüentemente com outras orações breves, que se chamam jaculatórias. 984) Dizei algumas jaculatórias. Senhor, valei-me; – Senhor, seja feita a vossa santíssima vontade; – Meu Jesus, eu quero ser todo vosso; – Meu Jesus, misericórdia; – Doce Coração de Jesus, que tanto nos amais, fazei que eu Vos ame cada vez mais; – Doce Coração de Maria sede minha salvação. 985) É útil recitar, durante o dia, muitas jaculatórias? É muito útil recitar, durante o dia, muitas jaculatórias, e podem recitar-se também com o coração, sem proferir palavras, caminhando, trabalhando, etc. 986) Além das orações jaculatórias, em que outra coisa deveria exercitar-se com frequência o cristão? Além das orações jaculatórias, o cristão deveria exercitar-se na mortificação cristã. 987) Que quer dizer mortificar-se? Mortificar-se quer dizer privar-se, por amor de Deus, daquilo que agrada, e aceitaro que desagrada aos sentidos ou ao amor próprio. 988) Quando é o Santíssimo Sacramento levado a um enfermo, que se deve fazer? Quando é o Santíssimo Sacramento levado a algum enfermo, devemos, sendo possível, acompanhá-Lo com modéstia e recolhimento; e, se não é possível acompanhá-Lo, fazer um ato de adoração em qualquer lugar que nos encontremos, e dizer: “Consolai, Senhor, este enfermo, e concedei-lhe a graça de se conformar com a vossa santíssima vontade. e de conseguir a sua salvação”, 989) Ouvindo tocar o sino pela agonia de algum moribundo, que haveis de fazer? Ouvindo tocar o sino pela agonia de algum moribundo, irei, se puder, à igreja orar por ele; e, não podendo, encomendarei a Nosso Senhor a sua alma, pensando que dentro em breve tempo hei de encontrar-me também eu naquele estado 990) Ao ouvir sinais pela morte de alguém, que haveis de fazer? Ao ouvir sinais pela morte de alguém, procurarei rezar um De profundis ou um Réquiem, ou um Padre-Nosso e uma Ave-Maria, pela alma daquele defunto, e renovarei o pensamento da morte. (*) Esta pergunta alude ao uso que se conserva em algumas terras, de dar um sinal no sino, quando um enfermo entra em agonia. #virtudes #PioX #sãopiox #virtudescatólicas #catecismodesãopioX #catecismodaigrejacatólica #catecismo

  • CAPÍTULO VII – Dos Novíssimos e de outros meios principais para evitar o pecado

    965) Que se entende por Novíssimos? Novíssimos são chamados nos Livros Santos as últimas coisas que hão de acontecer ao homem. 966) Quantos são os Novíssimos? Os Novíssimos, ou últimas coisas do homem, são quatro: Morte, Juízo, Inferno e Paraíso. 967) Por que é que esses Novíssimos se chamam últimas coisas que acontecerão ao homem? Os Novíssimos chamam-se últimas coisas que acontecerão ao homem, porque a Morte é a última coisa que nos acontece neste mundo; o Juízo de Deus é o último entre os juízos que temos a passar; o Inferno é último mal que hão de sofrer os maus; e o Paraíso é sumo bem que hão de receber os bons. 968) Quando devemos pensar nos Novíssimos? É bom pensar nos Novíssimos todos os dias, e principalmente ao fazer a oração da manha, apenas acordados, à noite antes do deitar, e todas as vezes que somos tentados a fazer algum mal, porque este pensamento é eficacíssimo para nos fazer evitar o pecado. #virtudes #PioX #sãopiox #virtudescatólicas #catecismodesãopioX #osnovíssimosdohomem #catecismodaigrejacatólica #catecismo

  • CAPÍTULO VI – Dos pecados ou vícios capitais e de outros pecados mais graves

    956) Que é o vício? O vício é uma disposição má da alma que leva-a a fugir do bem e a fazer o mal, causada pela freqüente repetição dos atos maus. 957) Que diferença há entre pecado e vício? Entre pecado e vício há esta diferença: que o pecado é um ato que passa, enquanto o vício é o mau hábito contraído de cair em algum pecado. 958) Quais são os vícios que se chamam capitais? Os vícios que se chamam capitais são sete: 1º soberba; 2º avareza; 3º luxúria; 4º ira; 5º gula; 6º inveja; 7º preguiça. 959) Como se vencem os vícios ou pecados capitais? Os vícios ou pecados capitais vencem-se com a prática das virtudes opostas. Assim, a soberba vence-se com a humildade; a avareza, com a liberalidade; a luxúria, com a castidade; a ira, com a paciência; a gula, com a temperança; a inveja, com a caridade; a preguiça, com a diligência e fervor no serviço de Deus. 960) Por que se chamam capitais estes vícios? Chamam-se capitais estes vícios, porque são a fonte e a causa de muitos outros vícios e pecados. 961) Quantos são os pecados contra o Espírito Santo? Os pecados contra o Espírito Santo são seis: 1º desesperar da salvação; 2º Presunção de se salvar sem merecimentos; 3º combater a verdade conhecida; 4º ter inveja das graças que Deus dá a outrem; 5º obstinar-se no pecado; 6º morrer na impenitência final. 962) Por que se chamam estes pecados particularmente pecados contra o Espírito Santo? Chamam-se estes pecados particularmente pecados contra o Espírito Santo, porque se cometem por pura malícia, o que é contrário à bondade que se atribui ao Espírito Santo. 963) Quais são os pecados que bradam ao Céu e pedem vingança a Deus? Os pecados que bradam ao Céu e pedem vingança a Deus são quatro: 1º homicídio voluntário; 2º pecado impuro contra a natureza; 3º opressão dos pobres, principalmente órfãos e viúvas; 4º não pagar o salário a quem trabalha. 964) Por que se diz que estes pecados pedem vingança a Deus? Diz-se que estes pecados pedem vingança a Deus, porque o diz o Espírito Santo, e porque a sua malícia é tão grave e manifesta, que provoca o mesmo Deus a puni-los com os mais severos castigos. #PorquesedizqueestespecadospedemvingançaaDeus #QuantossãoospecadoscontraoEspíritoSanto #Queéovício #virtudes #QuaissãoospecadosquebradamaoCéuepedemvingançaaDeus #Porquesechamamcapitaisestesvícios #PioX #Comosevencemosvíciosoupecadoscapitais #sãopiox #virtudescatólicas #catecismodesãopioX #Quediferençaháentrepecadoevício #PorquesechamamestespecadosparticularmentepecadoscontraoEspíritoSanto #Quaissãoosvíciosquesechamamcapitais #catecismodaigrejacatólica #catecismo

  • CAPÍTULO V – Dos pecados e das suas espécies principais

    942) Quantas espécies há de pecado? Há duas espécies de pecado: o pecado original e o pecado atual. 943) Que é o pecado original? O pecado original é aquele com o qual todos nascemos, exceto a Santíssima Virgem Maria, e que contraímos pela desobediência do nosso primeiro pai Adão. 944) Que males nos causa o pecado de Adão? Os males causados pelo pecado de Adão são: a privação da graça, a perda do Paraíso, a ignorância, a inclinação para o mal, a morte e todas as demais misérias. 945) Como se apaga o pecado original? O pecado original apaga-se com o santo Batismo. 946) Que é o pecado atual? O pecado atual é aquele que o homem, chegado ao uso da razão, comete por sua livre vontade. 947) Quantas espécies há de pecado atual? Há duas espécies de pecado atual: o mortal e o venial. 948) Que é o pecado mortal? O pecado mortal é uma transgressão da lei divina, pela qual se falta gravemente aos deveres para com Deus, para com o próximo, ou para com nós mesmos. 949) Por que se chama mortal? Chama-se mortal porque dá a morte à alma, fazendo-a perder a graça santificante, que é a vida da alma como a alma é a vida do corpo. 950) Que males causa à alma o pecado mortal? O pecado mortal: 1º priva a alma da graça e da amizade de Deus; 2º fá-la perder o Céu; 3º priva-a dos merecimentos adquiridos e torna-a incapaz de adquirir novos; 4º torna a alma escrava do demônio; 5º fá-la merecer o Inferno e também os castigos desta vida. 951) Além da gravidade da matéria, que mais se requer para haver um pecado mortal? Além da gravidade da matéria, para haver um pecado mortal requer-se a plena advertência desta gravidade, e a vontade deliberada de cometer o pecado. 952) Que é o pecado venial? O pecado venial é uma leve transgressão da lei divina, pela qual se falta levemente a algum dever para com Deus, para com o próximo, ou para com nós mesmos. 953) Por que se chama venial? Porque é leve em comparação com o pecado mortal; porque não nos faz perder a graça divina; e porque Deus facilmente o perdoa. 954) Então não se deve fazer grande caso do pecado venial? Isto seria um erro enorme, porque o pecado venial contém sempre uma ofensa a Deus, e causa prejuízos não pequenos à alma. 955) Que prejuízos causa o pecado venial? O pecado venial: 1º enfraquece e esfria em nós a caridade; 2º dispõe-nos para o pecado mortal; 3º faz-nos merecedores de grandes penas temporais, neste mundo ou no outro. #Queéopecadooriginal #Quantasespécieshádepecado #virtudes #PioX #quemaisserequerparahaverumpecadomortal #Queéopecadovenial #CATECISMODESÃOPIOXCAPÍTULOVDospecadosedassuasespéciesprincipais #Comoseapagaopecadooriginal #Queéopecadomortal #sãopiox #virtudescatólicas #catecismodesãopioX #Quantasespécieshádepecadoatual #Porquesechamamortal #Queéopecadoatual #catecismodaigrejacatólica #Quemalescausaàalmaopecadomortal #QuemalesnoscausaopecadodeAdão #catecismo

  • CAPÍTULO IV – Das obras de misericórdia

    937) Quais são as boas obras de que se nos pedirá conta particular no dia do Juízo? As boas obras de que se tios pedirá conta particular no dia do Juízo são as obras de misericórdia. 938) Que se entende por obra de misericórdia? Obra de misericórdia é aquela com que se socorre o nosso próximo nas suas necessidades corporais ou espirituais. 939) Quantas são as obras de misericórdia? As obras de misericórdia são catorze: sete corporais e sete espirituais, conforme são corporais ou espirituais as necessidades que se socorrem. 940) Quais são as obras de misericórdia corporais? As obras de misericórdia corporais são: 1ª Dar de comer a quem tem fome; 2ª Dar de beber a quem tem sede; 3ª Vestir os nus; 4ª Dar pousada aos peregrinos; 5ª Assistir aos enfermos; 6ª Visitar os presos; 7ª Enterrar os mortos. 941) Quais são as obras de misericórdia espirituais? As obras de misericórdia espirituais são: 1ª Dar bom conselho; 2º Ensinar os ignorantes; 3ª Corrigir os que erram; 4ª Consolar os aflitos; 5ª Perdoar as injúrias; 6ª Sofrer com paciência as fraquezas do nosso próximo; 7ª Rogar a Deus por vivos e defuntos. #virtudes #Quaissãoasobrasdemisericórdiaespirituais #PioX #sãopiox #Quaissãoasobrasdemisericórdiacorporais #QuaissãoasboasobrasdequesenospedirácontaparticularnodiadoJuízo #Queseentendeporobrademisericórdia #virtudescatólicas #Quantassãoasobrasdemisericórdia #catecismodesãopioX #catecismodaigrejacatólica #catecismo

  • CAPÍTULO III – Das Bem-aventuranças evangélicas

    922) Quantas e quais são as Bem-aventuranças evangélicas? As Bem-aventuranças evangélicas são oito: 1a Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o reino do Céu; 2a Bem-aventurados os mansos, porque eles possuirão a terra; 3a Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados; 4a Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados; 5a Bem-aventurados os que usam de misericórdia, porque alcançarão misericórdia; 6ª Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus; 7ª Bem-aventurados os pacíficos, porque serão chamados filhos de Deus; 8ª Bem-aventurados os que sofrem perseguição por amor da justiça, porque deles é o reino do Céu. 923) Por que Jesus Cristo nos propôs as Bem-aventuranças? Jesus Cristo propôs-nos as Bem-aventuranças para os fazer detestar as máximas do mundo, e para nos convidar a amar e praticar as máximas do seu Evangelho. 924) Quem são aqueles que o mundo chama bem-aventurados? O inundo chama bem-aventurados aqueles que desfrutam abundância de riquezas e de honras, que vivem em delícias e que não têm nada que os faça sofrer. 925) Quem são os pobres de espírito, que Jesus Cristo chama bem-aventurados? Os pobres de espírito, segundo o Evangelho, são aqueles que têm o coração desapegado das riquezas; fazem bom uso delas, se as possuem; não as procuram com solicitude, se não as têm; e sofrem com resignação a perda delas se lhes são tiradas. 926) Quem são os mansos? Os mansos são aqueles que tratam o próximo com brandura, e lhe sofrem com paciência os defeitos e as ofensas que dele recebem, sem alteração, ressentimentos ou vingança. 927) Quem são os que choram, e todavia são chamados bem-aventurados? Os que choram, e todavia são chamados bem-aventurados, são aqueles que sofrem com resignação as tribulações, e que se afligem pelos pecados cometidos, pelos males e pelos escândalos que se vêem no mundo, pela ausência do céu, e pelo perigo de o perder. 928) Quem são os que têm fome e sede de justiça? Os que têm fome e sede de justiça são aqueles, que desejam ardentemente crescer cada vez mais na graça de Deus e na prática das obras boas e virtuosas. 929) Quem são os que usam de misericórdia? Os que usam de misericórdia são aqueles que amam, em Deus e por amor de Deus, o seu próximo, se compadecem das suas misérias, assim corporais como espirituais, e procuram socorrê-lo conforme as suas forças e o seu estado. 930) Quem são os puros de coração? Os puros de coração são aqueles que não têm nenhum afeto ao pecado, sempre se afastam dele, e evitam sobretudo toda a espécie de impureza. 931) Quem são os pacíficos? Os pacíficos são aqueles que vivem em paz com o próximo e consigo mesmos, e procuram estabelecer a paz entre aqueles que estão em discórdia. 932) Quem são os que sofrem perseguição por amor da justiça? Os que sofrem perseguição por amor da justiça são aqueles que suportam com paciência os escárnios, as censuras, as perseguições por causa da Fé e da Lei de Jesus Cristo. 933) Que significam os diversos prêmios prometidos por Jesus Cristo nas Bem aventuranças? Os diversos prêmios prometidos por Jesus Cristo nas Bem-aventuranças significam todos, sob diversos nomes, a glória eterna do Céu. 934) Alcançam-nos as Bem-aventuranças só a glória eterna do Paraíso? As Bem-aventuranças não nos alcançam só a glória eterna do Paraíso; são também meios de tornar nossa vida feliz, tanto quanto é possível, neste mundo. 935) Recebem já alguma recompensa nesta vida os que seguem as Bem-aventuranças? Sim, certamente, os que seguem as Bem-aventuranças recebem já alguma recompensa nesta vida, porque já gozam de uma paz e de um contentamento íntimos que são princípio, embora imperfeito, da felicidade eterna. 936) Poderão dizer-se felizes os que seguem as máximas do mundo? Não. Os que seguem as máximas do mundo não são felizes, porque não têm a verdadeira paz da alma e estão em risco de se condenar. #etodaviasãochamadosbemaventurados #Quemsãoosmansos #Quemsãoospobresdeespírito #queJesusCristochamabemaventurados #virtudes #QuesignificamosdiversosprêmiosprometidosporJesusCristonasBemaventuranças #Quemsãoosquechoram #Quemsãoosquesofremperseguiçãoporamordajustiça #Quemsãoosquetêmfomeesededejustiça #PioX #Quemsãoospurosdecoração #PorqueJesusCristonospropôsasBemaventuranças #Poderãodizersefelizesosqueseguemasmáximasdomundo #sãopiox #Quemsãoosqueusamdemisericórdia #Quemsãoospacíficos #virtudescatólicas #AlcançamnosasBemaventurançassóaglóriaeternadoParaíso #QuantasequaissãoasBemaventurançasevangélicas #catecismodesãopioX #RecebemjáalgumarecompensanestavidaosqueseguemasBemaventuranças #catecismodaigrejacatólica #Quemsãoaquelesqueomundochamabemaventurados #catecismo

  • CAPÍTULO II – Dos dons do Espírito Santo

    913) Quantos e quais são os dons do Espírito Santo? Os dons do Espírito Santo são sete: 1º Sabedoria; 2º Entendimento; 3º Conselho; 4º Fortaleza: 5º Ciência; 6º Piedade; 7º Temor de Deus. 914) Para que servem os dons do Espírito Santo? Os dons do Espírito Santo servem para nos confirmar na Fé, na Esperança e na Caridade, e para nos tornar solícitos para os atos das virtudes necessárias para conseguir a perfeição da vida cristã. 915) Que é a Sabedoria? A Sabedoria é um dom pelo qual nós, elevando o espírito acima das coisas terrenas e frágeis, contemplamos as eternas, isto é, a Verdade, que é Deus, no qual pomos nossa complacência, amando-O como nosso Sumo bem. 916) Que é o Entendimento? O Entendimento é um dom pelo qual nos é facilitada, quanto é possível a um homem mortal, a inteligência das verdades da Fé e dos divinos mistérios, os quais não podemos conhecer com as luzes naturais da nossa razão. 917) Que é o Conselho? O Conselho é um dom pelo qual, nas dúvidas e incertezas da vida humana, conhecemos o que mais convém à glória de Deus, à nossa salvação e à do próximo. 918) Que é a Fortaleza? A Fortaleza é um dom que nos incute energia e coragem para observar fielmente a santa Lei de Deus e da Igreja, vencendo todos os obstáculos, e os assaltos dos nossos inimigos. 919) Que é a Ciência? A Ciência é um dom pelo qual julgamos retamente das coisas criadas, e conhecemos o modo de bem usar delas e de as dirigir ao último fim, que é Deus. 920) Que é a Piedade? Á Piedade é um dom pelo qual veneramos e amamos a Deus e aos Santos, e conservamos ânimo bondoso e benévolo para com o próximo, por amor de Deus. 921) Que é o Temor de Deus? O Temor de Deus é um dom que nos faz reverenciar a Deus, e ter receio de ofender a sua Divina Majestade, e que nos afasta do mal, incitando-nos ao bem. #sacramentos #virtudes #PioX #CATECISMODESÃOPIOXCAPÍTULOIIDosdonsdoEspíritoSanto #virtudescatólicas #catecismodesãopioX #catecismodaigrejacatólica #catecismo

  • CAPÍTULO I – Das virtudes principais – Parte 2

    § 5º – Da Tradição 885) Dizei-me: o que é a Tradição? A Tradição é a palavra de Deus não escrita, mas comunicada de viva voz por Jesus Cristo e pelos Apóstolos, e que chegou sem alteração, de século ein século, por meio da Igreja, até nós. 886) Onde se acham os ensinamentos da Tradição? Os ensinamentos da Tradição acham-se principalmente nos decretos dos Concílios, nos escritos dos Santos Padres, nos atos da Santa Sé, nas palavras e nus usos da Sagrada Liturgia. 887) Em que consideração se deve ter a Tradição? A Tradição deve ter-se na mesma consideração em que se tem a palavra de Deus contida na Sagrada Escritura. § 6º – Da Esperança 888) Que é a Esperança? A Esperança é uma virtude sobrenatural, infundida por Deus na nossa alma, pela qual desejamos e esperamos a vida eterna que Deus prometeu aos seus servos, e os auxílios necessários para alcançá-la. 889) Por que motivo devemos esperar de Deus o Paraíso e os auxílios necessários para alcançá-lo? Devemos esperar de Deus o Paraíso e os auxílios necessários para alcançá-lo, porque Deus misericordiosíssimo, pelos merecimentos de Nosso Senhor Jesus Cristo, o prometeu a quem o serve de todo o coração; e, sendo fidelíssimo e onipotente, cumpre sempre a sua promessa. 890) Quais são as condições necessárias para alcançar o Paraíso? As condições necessárias para alcançar o Paraíso são: a graça de Deus, a prática das boas obras e a perseverança no seu santo amor até à morte. 891) Como se perde a Esperança? Perde-se a Esperança todas as vezes que se perde a Fé; perde-se também pelo pecado de desespero ou de presunção. 892) Como recuperamos a Esperança? Recuperamos a Esperança perdida, arrependendo-nos do pecado cometido, e excitando-nos de novo à confiança na bondade divina. § 7o – Da Caridade 893) Que é a Caridade? A Caridade é uma virtude sobrenatural, infundida por Deus em nossa alma, pela qual amamos a Deus por Si mesmo sobre todas as coisas, e amamos o próximo como a nós mesmos, por amor de Deus. 894) Por que motivos devemos amar a Deus? Devemos amar a Deus, porque Ele é o sumo Bem, infinitamente bom e perfeito, e além disso por que Ele o manda, e pelos inumeráveis benefícios que dElerecebemos. 895) Como se deve amar a Deus? Devemos amar a Deus sobre todas as coisas, com todo o nosso coração, com toda a nossa mente, com toda a nossa alma, e com todas as nossas forças. 896) Que quer dizer: amar a Deus sobre todas as coisas? Amar a Deus sobre todas as coisas quer dizer: preferi-Lo a todas as criaturas mais caras e mais perfeitas, e estar disposto a perder tudo antes que ofendê-Lo ou deixar de amá-Lo. 897) Que quer dizer: amar a Deus com todo o nosso coração? Amar a Deus com todo o nosso coração quer dizer: consagrar-Lhe todos os nossos afetos. 898) Que quer dizer: amar a Deus com toda a nossa mente? Amar a Deus com toda a nossa mente quer dizer: dirigir para Ele todos os nossos pensamentos. 899) Que quer dizer: amar a Deus com toda a nossa alma? Amar a Deus com toda a nossa alma quer dizer: consagrar-Lhe o uso de todas as potências da nossa alma. 900) Que quer dizer: amar a Deus com todas as nossas forças? Amar a Deus com todas as nossas forças quer dizer: esforçar-se por crescer cada vez mais no amor dEle, e proceder de maneira que todas as nossas ações tenham por motivo e por fim o seu amor e o desejo de Lhe agradar. 901) Por que devemos amar o próximo? Devemos amar o próximo por amor de Deus porque Ele o manda, e porque todo o homem é imagem de Deus. 902) Somos obrigados a amar também os inimigos? Sim, somos obrigados a amar também os inimigos, porque também eles são nossos próximos, e porque Jesus Cristo o mandou expressamente. 903) Que quer dizer: amar o próximo como a nos mesmos? Amar o próximo como a nós mesmos quer dizer: desejar-lhe e fazer-lhe, tanto quanto pudermos, todo o bem que devemos desejar para nós mesmos, e não lhe desejar nem fazer mal algum. 904) Quando amamos a nós mesmos retamente? Amamos retamente a nós mesmos quando procuramos servi r a Deus e pôr nEle toda a nossa felicidade. 905) Como se perde a Caridade? Perde-se a Caridade com qualquer pecado mortal. 906) Como recuperamos a Caridade? Recuperamos a Caridade, fazendo atos de amor de Deus, arrependendo-nos e confessando-nos bem. § 8º – Das virtudes cardeais 907) Quais são as virtudes cardeais? As virtudes cardeais são: a Prudência, a Justiça, a Fortaleza e a Temperança. 908) Por que se chamam virtudes cardeais a Prudência, a Justiça, a Fortaleza e a Temperança? Chamam-se virtudes cardeais a Prudência, a Justiça, a Fortaleza e a Temperança, porque são a base e o fundamento das virtudes morais. (*) O nome de cardeais vêm-lhes da palavra latina cardo, que significa a dobradiça, os gonzos da porta, e mostra como todas as virtudes giram em torno destas (N. do T.) 909) Que é a Prudência? A Prudência é a virtude que dirige toda ação ao devido fim, e por isso procura os meios convenientes para que a ação seja em tudo bem feita, e portanto aceita ao Senhor. 910) Que é a Justiça? A Justiça é a virtude pela qual damos a cada um o que lhe pertence. 911) Que é a Fortaleza? A Fortaleza é a virtude que nos dá coragem parti não temer perigo algum, nem a própria morte, no serviço de Deus. 912) Que é a Temperança? A Temperança é a virtude pela qual refreamos os desejos desordenados de prazeres sensuais, e usamos com moderação dos bens temporais. #sacramentos #QueéaFortaleza #virtudes #Quaissãoasvirtudescardeais #PioX #PorquesechamamvirtudescardeaisaPrudência #sãopiox #virtudescatólicas #CATECISMODESÃOPIOXCAPÍTULOIDasvirtudesprincipaisParte2QuaissãoasvirtudescardeaisOqueéaTradição #Dasvirtudescardeais #catecismodesãopioX #QueéaPrudência #aJustiça #catecismodaigrejacatólica #aFortalezaeaTemperança #ueéaTemperança #QueéaJustiça #catecismo

  • CAPÍTULO I – Das virtudes principais – Parte 1

    § 1º – Das virtudes teologais 852) Que é a virtude sobrenatural? A virtude sobrenatural é uma qualidade que Deus infunde na alma, pela qual se tem propensão, facilidade e prontidão para conhecer e praticar o bem, em ordem da vida eterna. 853) Quantas são as principais virtudes sobrenaturais? As principais virtudes sobrenaturais são sete, a saber, três teologais e quatro cardeais. 854) Quais são as virtudes teologais? As virtudes teologais são: a Fé, a Esperança e a Caridade. 855) Por que a Fé, a Esperança e a Caridade se chamam virtudes teologais? Chamam-se a Fé, a Esperança e a Caridade virtudes teologais, porque têm a Deus por objeto imediato e principal e nos são infundidas por Ele. 856) De que modo têm as virtudes teologais a Deus por objeto imediato? As virtudes teologais têm a Deus por objeto imediato, porque pela Fé nós cremos em Deus, e cremos tudo o que Ele revelou; pela Esperança esperamos possuir a Deus; pela  Caridade amamos a Deus e nEle amamos a nós mesmos e ao próximo. 857) Quando nos infunde Deus na alma as virtudes, teologais? Deus, pela sua bondade, infunde-nos no alma a, virtudes teologais, quando nos adorna com a graça santificante; e por isso, quando recebemos o Batismo, fomos enriquecidos com estas virtudes, e juntamente com os dons do Espírito Santo. 858) Basta, para o cristão se salvar, o Batismo as virtudes teologais? Para quem tem o uso da razão, não basta o ter recebido no Batismo as virtudes teologais; mas é necessário fazer freqüentemente atos destas virtudes. 859) Quando somos obrigados a fazer atos de Fé, de Esperança e de Caridade? Somos obrigados a fazer atos de Fé, de Esperança e de Caridade: 1º quando chegamos ao uso da razão; 2ºfreqüentes vezes no decurso da vida.- 3ºem perigo de morte. § 2º – Da Fé 860) Que é a Fé? A Fé e uma virtude sobrenatural, infundida por Deus em nossa alma, pela qual nós, apoiados na autoridade do mesmo Deus, acreditamos que é verdade tudo o que Ele revelou e por meio da Santa Igreja nos propõe para crer. 861) Como conhecemos as verdades reveladas por Deus? Conhecemos as verdades reveladas por Deus, por meio da Santa Igreja que é infalível, isto é, por meio do Papa, sucessor de São Pedro, e por meio dos Bispos que, em união com o Papa, são sucessores dos Apóstolos, os quais foram instruídos pelo próprio Jesus Cristo. 862) Temos nós a certeza de que são verdadeiras as doutrinas que a Santa Igreja nos ensina? Sim, temos a certeza absoluta de que são verdadeiras as doutrinas que a Santa Igreja nos ensina, porque Jesus Cristo empenhou a sua palavra, que a Igreja nunca se enganaria. 863) Com que pecado se perde a Fé? A Fé perde-se negando ou duvidando voluntariamente, ainda que seja de um só artigo que nos é proposto para crer. 864) Como recuperamos a Fé? Recuperamos a Fé perdida, arrependendo-nos do pecado cometido e crendo de novo tudo o que crê a Santa Igreja. § 3º – Dos mistérios 865) Podemos compreender todas as verdades da Fé? Não; não podemos compreender todas as verdades da Fé, porque algumas destas verdades são mistérios. 866) Que são os mistérios? Os mistérios são verdades superiores à razão, as quais devemos crer, ainda que não as possamos compreender. 867) Por que devemos crer os mistérios? Devemos crer os mistérios, porque os revelou Deus, que, sendo Verdade e Bondade infinitas, não pode engarnar-Se, nem enganar-nos. 868) São porventura os mistérios contrários à razão? Os mistérios são superiores, porém não contrários à razão; e até a própria razão nos persuade a admiti-los. 869) Por que os mistérios não podem ser contrários à razão? Os mistérios não podem ser contrários à razão, porque é o mesmo Deus quem nos deu a luz da razão, e quem revelou OS mistérios, e Ele não pode contradizer-Se a Si mesmo. § 4º – Da Sagrada Escritura 870) Onde se acham as verdades que Deus revelou? As verdades que Deus revelou acham-se na Sagrada Escritura e na Tradição. 871) Que é a Sagrada Escritura? A Sagrada Escritura é a coleção dos livros escritos pelos Profetas e pelos Hagiógrafos, pelos Apóstolos pelos Evangelistas, por inspiração do Espírito Santo, recebidas pela Igreja como inspirados. 872) Em quantas partes se divide a Sagrada Escritura? A Sagrada Escritura se divide em duas partes: Antigo e Novo Testamento. 873) Que contém o Antigo Testamento? O Antigo Testamento contém os livros inspirados escritos antes da vinda de Jesus Cristo. 874) Que contém o Novo Testamento? O Novo Testamento contém os livros inspirados escritos depois da vinda de Jesus Cristo. 875) Que nome se dá comumente à Sagrada Escritura? À Sagrada Escritura dá-se comumente o nome de Bíblia Sagrada. 876) Que quer dizer a palavra Bíblia? A palavra Bíblia quer dizer coleção dos livros santos, o livro por excelência, o livro dos livros, o livro inspirado por Deus. 877) Por que é a Sagrada Escritura chamada o livro por excelência? A Sagrada Escritura é chamada o livro por excelência, por causa da excelência da matéria de que trata e do Autor que a inspirou. 878) Não pode haver erro na Sagrada Escritura? Na Sagrada Escritura não pode haver erro algum, porque, sendo toda inspirada, o Autor de todas as suas partes é o próprio Deus. Isto não obsta a que nas cópias as e traduções damesma se tenha dado algum engano ou dos copistas ou dos tradutores. Porém, nas edições revistas e aprovadas pela Igreja Católica não pode haver erro no que respeita à fé ou à moral. 879) É necessária a todos os cristãos a leitura da Bíblia? A leitura da Bíblia não é necessária a todos os cristãos, sendo, como são, instruídos pela Igreja; mas é contudo útil e recomendada a todos. 880) Pode-se ler qualquer tradução em língua vulgar da Bíblia? Podem ler-se as traduções em língua vulgar da Bíblia desde que sejam reconhecidas como fiéis pela Igreja Católica, e venham acompanhadas de explicações ou notas aprovadas pela mesma Igreja. 881) Por que só se podem ler as traduções da Bíblia que são aprovadas pela Igreja? Só se podem ler as traduções da Bíblia que são aprovadas pela Igreja porque só Elaé legítima depositária e guarda da Bíblia. 882) Por quem podemos nós conhecer o verdadeiro sem tido das Sagradas Escrituras? O verdadeiro sentido das Sagradas Escrituras podemos conhecê-lo só por meio o da Igreja, porque só a Igreja é que não pode errar ao interpretá-las. 883) Que deveria fazer um cristão, se lhe fosse oferecida a Bíblia por um protestante ou por algum emissário dos protestantes? Um cristão a quem fosse oferecida a Bíblia por um protestante, ou por algum emissário dos protestantes, deveria rejeitá-la com horror, por ser proibida pela Igreja. E, se a tivesse aceitado sem reparar, deveria logo lançá-la ao fogo ou entregá-la ao próprio pároco. 884) Por que proíbe a Igreja as Bíblias protestantes? A Igreja proíbe as Bíblias protestantes, porque ou estão alteradas e contêm erros, ou então, faltando-lhes a sua aprovação e as notas explicativas das passagens obscuras, podem causar dano à Fé. Por isso a Igreja proíbe também as traduções da Sagrada Escritura já aprovadas por Ela, mas reimpressas sem as explicações que a mesma Igreja aprovou. #CATECISMODESÃOPIOXCAPÍTULOIDasvirtudesprincipaisParte1 #DaFé #Dasvirtudesteologais #virtudes #Dosmistérios #PioX #sãopiox #virtudescatólicas #catecismodesãopioX #DaSagradaEscritura #catecismodaigrejacatólica #catecismo

  • CAPÍTULO IX – Do Matrimônio

    § 1º Natureza do Sacramento do Matrimônio 826) Que é o Sacramento do Matrimônio? O Matrimônio é um Sacramento instituído por Nosso Senhor Jesus Cristo, que estabelece uma união santa e indissolúvel entre o homem e a mulher, e lhes dá a graça de se amarem um ao outro santamente, e de educarem cristãmente seus filhos. 827) Por quem foi instituído o Matrimônio? O Matrimônio foi instituído pelo próprio Deus no Paraíso terrestre; e no Novo Testamento foi elevado por Jesus Cristo à dignidade de Sacramento. 828) Tem o Sacramento do Matrimônio alguma significação especial? O Sacramento do Matrimônio significa a união indissolúvel de Jesus Cristo com a Santa Igreja, sua esposa e nossa Mãe amantíssima. 829) Por que se diz que o vínculo do Matrimônio é indissolúvel? Diz-se que o vínculo do Matrimônio é indissolúvel, isto é, que não se pode quebrar senão pela morte de um dos cônjuges, porque assim o estabeleceu Deus desde o começo, e assim o proclamou solenemente Jesus Cristo, Senhor Nosso. 830) No Matrimônio cristão, poder-se-ia separar o contrato do Sacramento? Não. No Matrimônio entre cristãos o contrato não se pode separar do Sacramento, porque para eles o Matrimônio não é outra coisa senão o mesmo contrato natural, elevado por Jesus Cristo à dignidade de Sacramento. 831) Então, entre os cristãos não pode haver verdadeiro Matrimônio que não seja Sacramento? Entre os cristãos não pode haver verdadeiro Matrimônio que não seja Sacramento. 832) Que efeitos produz o Sacramento do Matrimônio? O Sacramento do Matrimônio: 1º dá um aumento da graça santificante; 2º confere a graça especial para se cumprirem fielmente todos os deveres matrimoniais. § 2º Ministros, cerimônias e disposições para o Matrimônio 833) Quem são os ministros do Sacramento do Matrimônio? Os ministros deste Sacramento são os mesmos esposos, que reciprocamente conferem e recebem o Sacramento. 834) De que maneira se administra este Sacramento? Este Sacramento, porque conserva a natureza de contrato, é administrado pelos mesmos contraentes, declarando na presença do próprio pároco, ou de outro Sacerdote devidamente autorizado, e de duas testemunhas, que se unem em matrimônio. 835) Para que serve então a bênção que o pároco dá aos esposos? A bênção que o pároco dá aos esposos não é necessária para constituir o Sacramento, mas é dada para sancionar em nome da Igreja a sua união, e para atrair sempre mais sobre eles as bênçãos de Deus. 836) Que intenção deve ter quem contrai Matrimônio? Quem contrai Matrimônio deve ter intenção: 1º de fazer a vontade de Deus, que o chama a tal estado; 2º de procurar nele a salvação da própria alma; 3º de educar cristãmente os filhos, se Deus lhos der. 837) De que maneira se devem dispor os esposos para receber com fruto o Sacramento do Matrimônio? Os esposos, para receber com fruto o Sacramento do Matrimônio, devem: 1º encomendar-se de todo o coração a Deus, para conhecer a sua vontade e para alcançar dEle as graças que são necessárias em tal estado; 2º consultar os próprios pais, antes de chegar ao noivado, como o exige a obediência e o respeito devido aos mesmos; 3º preparar-se com uma boa confissão, até mesmo geral, se for necessário, de toda a vida; 4º evitar toda a familiaridade perigosa de trato e de palavras, ao conversarem mutuamente antes de receberem este Sacramento. 838) Quais são as principais obrigações das pessoas unidas em Matrimônio? As pessoas unidas em Matrimônio devem: 1º guardar inviolada a fidelidade conjugal, e proceder sempre cristãmente em tudo; 2º amar-se mutuamente, suportando-se um ao outro com paciência, e viver em paz e harmonia; 3º se têm filhos, cuidar seriamente de prover às suas necessidades, dar-lhes educação cristã, e deixar-lhes a liberdade de escolher o estado de vida a que Deus os chamar. § 3º Condições e impedimentos do Matrimônio 839) Que é necessário para contrair validamente o Matrimônio cristão? Para contrair validamente o Matrimônio cristão é necessário estar livre de qualquer impedimento matrimonial dirimente, e dar livremente o próprio consentimento ao contrato do Matrimônio na presença do próprio pároco ou de um Sacerdote devidamente autorizado, e de duas testemunhas. 840) Que é necessário para contrair licitamente o Matrimônio cristão? Para contrair licitamente o Matrimônio cristão, é necessário estar livre dos impedimentos matrimoniais impedientes, estar instruído nas verdades principais da religião, e estar em estado de graça. Não estando em estado de graça, cometer-se-ia um sacrilégio. 841) Que são os impedimentos matrimoniais? Os impedimentos matrimoniais são certas circunstâncias que tornam o matrimônio ou inválido ou ilícito. No primeiro caso chamam-se impedimentos dirimentes, no segundo impedimentos impedientes. 842) Dai-me alguns exemplos de impedimentos dirimentes. Impedimentos dirimentes são, por exemplo, a consanguinidade até ao terceiro grau, o parentesco espiritual, o voto solene de castidade, a diversidade de culto entre batizados e não batizados etc. 843) Dai-me algum exemplo de impedimento impediente. Impedimento impediente é, por exemplo, o voto simples de castidade etc. 844) São os fiéis obrigados a manifestar à autoridade eclesiástica os impedimentos matrimoniais que conhecem? Os fiéis são obrigados a manifestar à autoridade eclesiástica os impedimentos matrimoniais que conhecem; e é por isso que os párocos fazem as publicações, isto é, leem os pregões dos que se vão casar. 845) Quem tem o poder de estabelecer impedimentos matrimoniais, de dispensar deles, e de julgar da validade do Matrimônio cristão? Só a Igreja tem o poder de estabelecer impedimentos e de julgar da validade do Matrimônio entre os cristãos, como só a Igreja pode dispensar daqueles impedimentos que Ela estabeleceu. 846) Por que só a Igreja tem o poder de estabelecer impedimentos e de julgar da validade do Matrimônio? Só a Igreja tem o poder de estabelecer impedimentos, de julgar da validade do Matrimônio e de dispensar dos impedimentos que Ela própria estabeleceu, porque não se podendo separar no matrimônio cristão o contrato do Sacramento, também o contrato cai sob a alçada da Igreja, porque só a Ela conferiu Jesus Cristo o direito de promulgar leis e decisões acerca das coisas sagradas. 847) Pode a autoridade civil dissolver, com o divórcio, o vínculo do Matrimônio cristão? Não. O vínculo do Matrimônio cristão não pode ser dissolvido pela autoridade civil, porque esta não pode ingerir-se em matéria de Sacramentos, nem separar o que Deus uniu. 848) Que é o matrimônio ou casamento civil? O casamento civil não é mais que uma formalidade prescrita pela lei para os cidadãos, a fim de dar e de assegurar os efeitos civis aos casados e aos seus filhos. 849) Pode um cristão celebrar somente o casamento ou contrato civil? Um cristão não pode celebrar somente o contrato civil, porque este não é Sacramento, e portanto não é um verdadeiro matrimônio. 850) Em que condições se encontrariam os esposos que convivessem juntos, unidos somente pelo casamento civil? Os esposos que convivessem juntos, unidos somente pelo casamento civil, estariam em estado habitual de pecado mortal, e a sua união seria sempre ilegítima diante de Deus e da Igreja. 851) Deve fazer-se também o contrato civil? Deve fazer-se também o contrato civil, porque, embora não seja ele Sacramento, serve, no entanto, para garantir aos casados e a seus filhos os efeitos civis da sociedade conjugal; eis porque, como regra geral, a autoridade eclesiástica não permite o casamento religioso, quando não se cumprem as formalidades prescritas pela autoridade civil. #sacramentos #QueéoSacramentodoMatrimônio #QueefeitosproduzoSacramentodoMatrimônio #PioX #sãopiox #QuemsãoosministrosdoSacramentodoMatrimônio #PorquesedizqueovínculodoMatrimônioéindissolúvel #catecismodesãopioX #catecismodaigrejacatólica #PorquemfoiinstituídooMatrimônio #catecismo

  • CAPÍTULO VIII – Da Ordem

    811) Que é o Sacramento da Ordem? A Ordem é o Sacramento que dá o poder de exercitar os ministérios sagrados que se referem ao culto de Deus e à salvação das almas, e que imprime na alma de quem o recebe o caráter de ministro de Deus. 812) Por que se chama Ordem? Chama-se Ordem porque consiste em vários graus, uns subordinados aos outros, dos quais resulta a sagrada Hierarquia. 813) Quais são estes graus? Supremo entre eles é o Episcopado, que contém a plenitude do Sacerdócio; em seguida o Presbiterado ou Sacerdócio simples; depois o Diaconado e as Ordens que se chamam menores. 814) Quando Jesus Cristo instituiu a Ordem Sacerdotal? Jesus Cristo instituiu a Ordem Sacerdotal na Última Ceia, quando conferiu aos Apóstolos e aos seus sucessores o poder de consagrar a Santíssima Eucaristia. E no dia da sua ressurreição conferiu aos mesmos o poder de perdoar e de reter os pecados, constituindo os assim os primeiros Sacerdotes da Nova Lei em toda a plenitude do seu poder. 815) Quem é o ministro deste Sacramento? O ministro deste Sacramento é só o Bispo. 816) É então grande a dignidade do Sacerdócio cristão? A dignidade do Sacerdócio cristão é muito grande, pelo duplo poder que lhe conferiu Jesus Cristo sobre o seu Corpo real e sobre o seu Corpo místico, que é a Igreja, e pela divina missão, confiada aos Sacerdotes, de conduzir todos os homens à vida eterna. 817) É necessário o Sacerdócio católico na Igreja? O Sacerdócio católico é necessário na Igreja, porque sem ele os fiéis estariam privados do Santo Sacrifício da Missa e da maior parte dos Sacramentos; não teriam quem os instruísse na fé, e ficariam como ovelhas sem pastor à mercê dos lobos; em suma, não existiria a Igreja como Cristo a instituiu. 818) Então não acabará nunca o Sacerdócio católico sobre a terra? O Sacerdócio católico, não obstante a guerra que contra ele move o Inferno, há de durar até o fim dos séculos, porque Jesus Cristo prometeu que as potências do Inferno não prevaleceriam jamais contra a sua Igreja. 819) Será pecado desprezar os Sacerdotes? É pecado gravíssimo, porque o desprezo e as injúrias que se dirigem contra os Sacerdotes recaem sobre o próprio Jesus Cristo, que disse aos seus Apóstolos: Quem a vós despreza, a Mim despreza. 820) Qual deve ser o fim de quem abraça o estado eclesiástico? O fim de quem abraça o estado eclesiástico deve ser unicamente a glória de Deus e a salvação das almas. 821) Que é necessário para entrar no estado eclesiástico? Para entrar no estado eclesiástico é necessário, antes de tudo, a vocação divina. 822) Que deve fazer o cristão para conhecer se Deus o chama ao estado eclesiástico? Para conhecer se Deus o chama ao estado eclesiástico, o cristão deve: 1º pedir fervorosamente a Nosso Senhor que lhe manifeste qual é a sua vontade; 2º tomar conselho com o próprio Bispo ou com um diretor sábio e prudente; 3º examinar com diligência se tem a aptidão necessária para os estudos, para os ministérios e para as obrigações desse estado. 823) Quem entrasse para o estado eclesiástico, sem vocação divina, faria mal? Quem entrasse para o estado eclesiástico, sem ser chamado por Deus, faria um mal muito grave e colocar-se-ia em risco de se perder. 824) Fazem mal os pais que, por motivos temporais, induzem os filhos a abraçar o estado eclesiástico sem vocação? Os pais que, por motivos temporais, induzem os filhos a abraçar o estado eclesiástico sem vocação, cometem também culpa gravíssima, porque com isto usurpam o direito que Deus reservou exclusivamente para Si de escolher os seus ministros, e porque põem os filhos em risco de condenação eterna. 825) Quais são os deveres dos fiéis para com aqueles que são chamados às ordens sacras? Os fiéis devem: 1º deixar aos seus filhos e subordinados plena liberdade de seguir a vocação divina; 2º pedir a Deus que se digne conceder à sua Igreja bons Pastores e ministros zelosos; e até foram instituídos para este fim os jejuns das Quatro Têmporas; 3º ter um respeito singular a todos aqueles que, por meio das Ordens, são consagrados ao serviço de Deus. #Quaissãoosdeveresdosfiéisparacomaquelesquesãochamadosàsordenssacras #sacramentos #PorquesechamaOrdem #QuandoJesusCristoinstituiuaOrdemSacerdotal #PioX #QueéoSacramentodaOrdem #sãopiox #Queénecessárioparaentrarnoestadoeclesiástico #aldeveserofimdequemabraçaoestadoeclesiástico #catecismodesãopioX #SerápecadodesprezarosSacerdotes #QuedevefazerocristãoparaconhecerseDeusochamaaoestadoeclesiástico #catecismodaigrejacatólica #catecismo

  • CAPÍTULO VII – Da Extrema-Unção

    805) Que é o Sacramento da Extrema-Unção? A Extrema-Unção é o Sacramento instituído para alívio espiritual e também temporal dos enfermos em perigo de vida. 806) Que efeitos produz o Sacramento da Extrema-Unção? O Sacramento da Extrema-Unção produz os seguintes efeitos: 1º aumenta a graça santificante; 2º apaga os pecados veniais e também os mortais que o enfermo arrependido já não possa confessar; 3º tira a fraqueza e languidez para o bem, que fica, ainda depois de se ter alcançado o perdão dos pecados; 4º dá força para suportar pacientemente o mal, para resistir às tentações, e para morrer santamente; 5º ajuda a recuperar a saúde do corpo, se isso for útil à salvação da alma. 807) Em que tempo se deve receber a Extrema-Unção? A Extrema-Unção deve receber-se quando a doença é grave, e, se puder ser, depois de o enfermo ter recebido os Sacramentos da Penitência e da Eucaristia; e deve procurar-se que o enfermo a receba quando está ainda com plena consciência e com alguma esperança de vida. 808) Por que é bom que o enfermo receba a Extrema-Unção quando está em plena consciência e com alguma esperança de vida? É bom receber a Extrema-Unção quando o enfermo está ainda com plena consciência e com alguma esperança de vida, porque recebendo-a com melhores disposições poderá obter maior proveito; e além disso, como este Sacramento dá a saúde do corpo, se convém à alma auxiliando as forças da natureza, não se deve estar à espera de que se desespere da cura. 809) Com que disposições se deve receber a Extrema-Unção? As principais disposições para receber a Extrema-Unção são: estar em estado de graça, confiar na eficácia do Sacramento e na misericórdia divina e resignar-se à vontade de Deus. 810) Que sentimento deve experimentar o enfermo à vista do Sacerdote? À vista do Sacerdote, o enfermo deve experimentar sentimentos de gratidão para com Deus, por lho ter enviado, deve recebê-lo de boa vontade e pedir, se puder, por si mesmo, os confortos da Religião. #sacramentos #ComquedisposiçõessedevereceberaExtremaUnção #QuesentimentodeveexperimentaroenfermoàvistadoSacerdote #QueefeitosproduzoSacramentodaExtremaUnção #PioX #sãopiox #EmquetemposedevereceberaExtremaUnção #catecismodesãopioX #PorqueébomqueoenfermorecebaaExtremaUnçãoquandoestáemplenaconsciênciaecomalgumaesperançadevida #QueéoSacramentodaExtremaUnção #catecismodaigrejacatólica #catecismo

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