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- Os cristãos enfermos – Santo Agostinho
Ao enfermo, diz o Senhor, não fortificastes (Ez 34,4). Diz aos maus pastores, aos pastores falsos, que buscam seu interesse, não o de Jesus Cristo. Aos que se alegram com as dádivas do leite e da lã, mas descuram totalmente as ovelhas e não cuidam das doentes. Parece-me haver diferença entre enfermo e doente – pois costuma-se chamar de enfermos os doentes; enfermo quer dizer não firme, e doente o que se sente mal. Na verdade, irmãos, esforçamo-nos de algum modo por distinguir estas coisas, mas talvez com maior aplicação poderíamos nós ou outro mais entendido e com o coração mais cheio de luz discernir melhor. À espera disto, para que não sejais privados em relação às palavras da Escritura, falo o que penso. É de se temer sobrevenha uma tentação ao enfermo que o debilite. O doente, ao contrário, já adoeceu por alguma ambição e por esta ambição se vê impedido de entrar no caminho de Deus, de submeter-se ao jugo de Cristo. Observai esses homens que desejam viver bem, já decididos a viver bem. São, no entanto, menos capazes de suportar os males do que fazer o bem. Pertence à firmeza do cristão não apenas fazer o bem, mas também tolerar os males. Aqueles, pois, que parecem ardentes nas boas obras, mas não querem ou não podem suportar as provações iminentes, estes são enfermos. Por outro lado, aqueles que amam o mundo e por qualquer desejo mau se afastam até das obras boas, jazem gravemente doentes, visto que pela doença, sem forças, nada de bom podem realizar. O paralítico era um destes, na alma. Os que o carregavam, não podendo levá-lo até junto do Senhor, descobriram o teto e fizeram-no descer. É isto que terias de fazer: descobrir o teto e colocar junto do Senhor a alma paralítica, com todos os membros frouxos, e vazia de obras boas, curvada sob o peso dos pecados e doente com o mal de sua cobiça. Portanto, se todos os seus membros estão frouxos e há paralisia interior para levá-la ao médico – talvez o médico esteja escondido no teu interior: seria este um sentido oculto nas Escrituras– se queres descobrir-lhe o que está oculto, descobre o teto e faze descer diante dele o paralítico. A quem assim não procede e desdenha fazê-lo, ouvistes o que lhe dizem: Aos doentes não fortalecestes, ao fraturado não pensastes (Ez 34,4); já explicamos esta passagem. Estava alquebrado pelo terror das provações. Mas surge algo que restaura a fratura, estas palavras de consolo: Fiel é Deus que não permitirá serdes tentados além do que podeis suportar, mas com a tentação vos dará o meio de sair dela para que a possais suportar (1Cor 10,13). — Do Sermão sobre os pastores, de Santo Agostinho, bispo (século V)
- OCTAVIO DE FARIA E CORNÉLIO PENA – Alceu de Amoroso Lima (Final)
Se o Mistério é um aspecto da obra do Sr. Octavio de Faria, é, por assim dizer, toda a obra do Sr. Cornélio Penna. Não o mistério convencional, artificial, arranjado e insincero dos romancistas de efeito, hábeis em sua arte de divertir leitores — mas o Mistério como o próprio sentido profundo da vida. Já em Fronteira rompera categoricamente o Sr. Cornélio Penna com toda a verossimilhança e com todo o realismo vulgar ou psicológico, que por tanto tempo dominara nossos romances. Afirmava-se ali como uma expressão brasileira dessa família universal dos Hölderlin ou dos Gérard de Nerval, dos Edgard Poe ou das Emily Bronte, que nos transportam constantemente dos limites da realidade às fronteiras da lucidez, a esses extremos em que a natureza toca o seu próprio esgotamento e onde começa o desconhecido, o impenetrável, o invisível e mesmo o mistério da Loucura. Tudo isso, em literatura, ou é detestável e ridículo, quando simples efeito teatral ou “espírita”, ou então é formidável, quando expressão de um conceito integral da vida, que não se contenta com essa pobre verdade linear que alcançamos com a limitação dos nossos sentidos. Os dois romances do Sr. Cornélio Penna, este último aliás (Cornélio Penna, Dois romances de Nico Horta, José Olympio, 1939), muito mais perfeito que o primeiro, nos transportam desde as primeiras linhas a esse plano de realidade profunda que transcende a realidade vulgar. Nico Horta é vítima de uma “incurável inaptidão para a realidade” (p. 255). O drama da Solidão, que é também o das personagens principais do Sr. Octávio de Faria, ele o vive em seu pobre destino, em sua incapacidade congênita de ser feliz. Filho de um pai que morreu louco, gêmeo de um irmão que parecia a própria expressão do vigor e da normalidade mental e, no entanto, seguiu bruscamente (como o deixa suspeitar o autor, pois a arte do Sr. Cornélio Penna é de nunca afirmar nada e deixar sempre os caminhos abertos às sugestões que apenas lança de leve e de passagem) seguiu bruscamente o caminho do pai. E ele, Nico, ele que tudo parecia levar à loucura franca — ficou apenas a meio caminho, passou a vida, sua vida humilde e trágica, curta e dolorosa, nos limites da razão, nessa zona terrível em que sentimos o mundo vacilar em seus fundamentos e perguntamos angustiados onde é o lado de cima e onde o lado de baixo das coisas… Nico Horta nunca o soube com segurança. E foi essa a dor que sempre o acompanhou. Ansiava pela existência sadia, forte, normal, serena, onde o viço da vida subisse naturalmente do solo ao caule e do caule à flor — e, no entanto, o tremendo fantasma da insatisfação, da dúvida, da negação o perseguiu sempre e lhe fechava sorrateiramente os caminhos em sua frente, a seiva em seu caule. E nunca chegava à Flor… Tudo isso, que pode parecer apenas extravagância e ter aquela inaptidão do monstruoso à expressão literária superior, por ser apenas a exceção — tudo isso é de uma verdade, de um interesse, de uma vida que coloca o Sr. Cornélio Penna não apenas como um original, mas como um dos mais autênticos e sugestivos poetas do nosso romance. E digo poeta, não para o deslocar da verdade para a fantasia, mas para tentar dizer a qualidade delicadíssima de seus toques de verdade, que, embora muito para lá do realismo, nos dão da vida real uma imagem inesquecível, sugestiva e angustiante. E sempre em pequenos capítulos leves, sutis, concisos, de adjetivação extremamente feliz no seu imprevisto-simples, que é a negação do imprevisto-pomposo dos adjetivadores de profissão, por estética e figuração retórica. É tão difícil aliás traduzir em linguagem crítica o ambiente e as personagens sem arestas do Sr. Cornélio Penna romancista, como é difícil explicar a sua pintura exclusivamente composta de arestas. Muito mais artista do que o Sr. Octavio de Faria, tem o segredo dos entretons, das alusões sugestivas, da linguagem em forma de eco, das figuras misteriosas e trancadas, dos segredos que vão para o túmulo irrevelados, e acima de tudo dessa aura de ilimitação e de incompreensão de todas as coisas, das paisagens como das pessoas, dos acontecimentos como dos pensamentos, que fazem de seus livros qualquer coisa de inconfundível, de delirante, e, ao mesmo tempo, de paradoxalmente verdadeiro. É o contraste perene, a luta e a nostalgia, entre a complexidade infinita do homem e a infinita simplicidade de Deus. Tanto no caso do Sr. Octávio de Faria como no do Sr. Cornélio Penna, estamos no extremo oposto ao do romance como simples matéria de expressão estética, social ou psicológica. Estamos em cheio no cerne da vida, no âmago da amarga expiação da Queda. (Final do artigo publicado em O Jornal, no dia 14 de Janeiro de 1940, pelo crítico e líder católico Alceu Amoroso Lima. O Jornal foi o primeiro órgão de imprensa de Assis Chateaubriand, célebre pelo império jornalístico dos Diários Associados. Fundado em 1919, O Jornal deixou de circular em 1974.)
- Cristo é o vínculo da unidade
Cada vez que participamos do corpo sagrado de Cristo, unimo-nos a ele corporalmente, como afirma São Paulo ao falar do mistério do amor misericordioso de Deus: Este mistério, Deus não o fez conhecer aos homens das gerações passadas mas acaba de o revelar agora, pelo Espírito, aos seus santos apóstolos e profetas: os pagãos são admitidos à mesma herança, são membros do corpo, são associados à mesma promessa em Jesus Cristo (Ef 3,5-6). Ora, se todos nós formamos um só corpo em Cristo, não apenas uns com os outros, mas também com aquele que habita em nós pela sua carne, por que não vivemos plenamente esta união existente entre nós e com Cristo? Com efeito, Cristo é o vínculo da unidade, por ser ao mesmotempo Deus e homem. Seguindo o mesmo caminho, podemos falar da nossa união espiritual, afirmando que todos nós, ao recebermos o único e mesmo Espírito Santo, nos unimos uns com os outros e com Deus. Embora estejamos separados, somos muitos e, em cada um de nós, Cristo faz habitar o Espírito do Pai que é também o seu. Todavia, o Espírito é um só e indivisível e, com a sua presença e ação, reúne os que individualmente são distintos uns dos outros, fazendo com que em si mesmo todos sejam um só. Assim como a virtude do corpo sagrado de Cristo transforma num só corpo os que dele participam, parece-me que o único e indivisível Espírito de Deus, habitando em cada um, vincula a todos numa unidade espiritual. Por isso, novamente São Paulo se dirige a nós: Suportai-vos uns aos outros com paciência, no amor. Aplicai-vos em guardar a unidade do espírito pelo vínculo da paz. Há um só Corpo e um só Espírito, como também é uma só a esperança à qual fostes chamados. Há uma só fé, um só Senhor, um só batismo, um só Deus e Pai de todos, que reina sobre todos, age por meio de todos e permanece em todos (Ef 4,2-6). Se efetivamente é um só Espírito que habita em nós, também o único Deus e Pai de todos estará em nós por seu Filho, unindo entre si e consigo todos os que participam do mesmo Espírito. Desde agora, torna-se evidente que, de alguma maneira, estamos unidos ao Espírito Santo por participação. De fato, se de uma vez por todas abandonamos a vida puramente natural e obedecemos às leis do espírito, é claro que, deixando de lado a nossa vida anterior e unindo-nos ao Espírito Santo, adquirimos uma configuração espiritual e, até certo ponto, transformamos em outra a nossa natureza. Assim já não somos simplesmente homens, mas filhos de Deus e habitantes do céu, pelo fato de nos termos tornado participantes da natureza divina. Todos, portanto, somos um só no Pai, no Filho e no Espírito Santo. Um só, repito, pela identidade de condição, um só pela união da caridade, pela comunhão do corpo sagrado de Cristo e pela participação do único Espírito Santo. — Do Comentário sobre o Evangelho de João, de São Cirilo de Alexandria, bispo (século V)
- A unidade da Igreja no pensamento de São Leão Magno
Antes de tudo São Leão nos ensina que a Igreja é una, porque um é o seu esposo, Jesus Cristo: “Tal é, com efeito, a Igreja virgem, unida a um só esposo, Cristo, a ponto de não admitir erro algum; de modo que, em todo o mundo, nós gozamos de uma só união, casta, integra”. O santo acha, outrossim, que essa admirável unidade da Igreja teve início com o nascimento do Verbo encarnado, como resulta destas expressões: “É, com efeito, o nascimento de Cristo que determina a origem do povo cristão: o natal da Cabeça é também o natal do corpo. Mesmo se cada um dos chamados [à fé] tem a sua vez, se todos os filhos da Igreja estão distribuídos na sucessão dos tempos, todavia o conjunto dos fiéis, nascidos da fonte batismal, assim como com Cristo são crucificados na sua paixão, são ressuscitados na sua ressurreição, são postos à destra do Pai na sua ascensão, assim também com ele são congerados neste nascimento”. Desse misterioso nascimento do “corpo da Igreja” (Cl 1,18) participou intimamente Maria, graças à sua virgindade, tornada fecunda por obra do Espírito santo. Com efeito, São Leão exalta Maria como “Virgem, serva e mãe do Senhor”; “Genitora de Deus” e “Virgem perpétua”. Além disto, observa ainda São Leão, o sacramento do batismo não só torna cada cristão membro de Cristo, mas o faz também participante da sua realeza e do seu sacerdócio espiritual: “Com efeito, todos aqueles que foram regenerados em Cristo foram também feitos reis com o sinal da cruz, e sagrados sacerdotes com a unção do Espírito Santo”. O sacramento da Confirmação, chamado “santificação dos crismas”, corrobora tal assimilação a Cristo Cabeça, enquanto na eucaristia ela acha o seu remate: “Com efeito, a participação no Corpo e no Sangue de Cristo não faz senão transformar-nos naquilo que tomamos; e em tudo, tanto na carne como no espírito, trazemos aquele mesmo no qual fomos mortos, sepultados e ressuscitados”. Mas, note-se bem, para São Leão não pode haver perfeita união dos fiéis com Cristo Cabeça e entre si, como membros de um mesmo organismo vivo e visível, se aos vínculos espirituais das virtudes, do culto e dos sacramentos não se juntar a profissão externa da mesma fé: “Grande sustentáculo é a fé íntegra, a fé verdadeira, à qual nada pode ser acrescentado ou tirado por quem quer que seja; pois que a fé, se não é única, então absolutamente não existe”. Entretanto, à unidade da fé é indispensável a união entre os mestres das verdades divinas, isto é, a concórdia dos bispos entre si em comunhão com o pontífice romano e em submissão a ele. “A compacidade de todo o corpo é que dá origem à sua sanidade e à sua beleza; e essa mesma compacidade, se reclama a unanimidade, exige entretanto sobretudo a concórdia dos sacerdotes. Estes têm em comum a dignidade sacerdotal, mas não o mesmo grau de poder; já que, mesmo entre os apóstolos, houve igualdade de honra, mas diferença de poder, enquanto a todos foi comum a graça da eleição, mas a um só foi concedido o direito de preeminência sobre os outros”. — Carta Encíclica Aeterna Dei Sapientia, do Papa João XXIII, publicada em 11 de Novembro de 1961 – na ocasião dos 1500 anos de falecimento do de São Leão Magno.
- Quem é o home mais poderoso na CNBB
Chegou a hora de você conhecer o bispo Dom Leonardo Ulrich Steiner, que ocupa o principal cargo na CNBB: secretário-geral. Conheça, através deste mini-documentário, suas posições sobre aborto, política, Teologia da Libertação e, acima de tudo, quem foi seu mentor. Envie sua denúncia para: bernardo.liberdade@gmail.com 1. PT e a Igreja, a “nova” estratégia da esquerda: https://youtu.be/5-hnf-Z9vD8 2. Mais evidência e análise do PT na Igreja: https://youtu.be/qndau1if6CY 3. Dossiê Frei Betto: https://youtu.be/J5afKQlhI2Y 4. Fui injusto quanto ao PT na Igreja: https://youtu.be/4xlAcVQfEvQ 5. O que deveria ser a Campanha da Fraternidade 2018: https://youtu.be/k2_Jc-BOrg0 6. CNBB no banco dos réus: https://youtu.be/fsPy6erjHE8 7. Não desanimem! O bom combate está apenas começando: https://youtu.be/6CfoDJ8dSlY 8. Bispos, MST e dinheiro do PT: https://youtu.be/6y0Id_SHJLI 9. Considerações sobre as notas relacionadas à CNBB: https://youtu.be/pezZ0WkxZIw __________________________________________________ APOIA-SE: https://apoia.se/bernardokuster Facebook: https://www.facebook.com/bernardopkuster Twitter: @bernardopkuster Instagram: bernardo_kuster #CNBB
- NA SOLENIDADE DE S. JOSÉ – Joseph Ratzinger
Queridos irmãs e irmãos: Há pouco tempo vi em casa de uns amigos uma representação de S. José que me fez pensar muito. É um alto-relevo proveniente de um retábulo português da época barroca, em que se mostra a noite da fuga para o Egito. Vê-se uma tenda aberta, e, perto dela, um anjo de pé. Dentro da tenda, José está a dormir, mas vestido com a indumentária própria de um peregrino, calçado com botas altas, necessárias para uma caminhada difícil. Se na primeira impressão parece um pouco ingénuo que o viajante apareça também como adormecido, pensando melhor começamos a perceber o que a imagem nos quer sugerir. Os silêncios José dorme, é verdade, mas está simultaneamente disposto a ouvir a voz do anjo (Mt 2,13ss). Parece depreender-se da cena o que o Cântico dos Cânticos tinha proclamado: eu dormia, mas o meu coração estava vigilante (Cânt 5,2). Os sentidos exteriores repousam, mas o fundo da alma pode ser tocado. Nessa tenda aberta temos a representação do homem que, desde o mais profundo do seu ser, pode ouvir o que vibra no seu interior ou lhe é dito desde as alturas, do homem cujo coração está suficientemente aberto para receber aquilo que o Deus vivo e o seu anjo lhe querem comunicar. Nessa profundidade, a alma de qualquer homem pode encontrar-se com Deus. Nessa profundidade, Deus fala a cada um de nós e mostra-nos como está próximo. Contudo, na maior parte das vezes encontramo-nos invadidos por cuidados, inquietações, expectativas e desejos de toda a espécie, tão repletos de imagens e carências produzidas pela vida de cada dia, que, por muito que vigiemos exteriormente, é-nos pedida a vigilância interior e, com ela, o som das vozes que nos falam desde o mais íntimo da alma. Esta está tão sobrecarregada e são tantas as muralhas erguidas no seu interior, que a voz suave do Deus próximo não consegue fazer-se ouvir. Com a chegada da Idade Moderna, os homens têm vindo a dominar cada vez mais o mundo e a dispor das coisas à medida dos seus desejos; mas estes avanços no nosso domínio sobre as coisas, e no conhecimento do que com elas podemos fazer, limitaram, por outro lado, a nossa sensibilidade, de tal maneira que o nosso universo se tornou unidimensional. Estamos dominados pelas nossas coisas, por todos os objetos que as nossas mãos alcançam, e que servem de instrumentos para produzir outros objetos. No fundo, não vemos outra coisa senão a nossa própria imagem, e estamos incapacitados para ouvir a voz profunda que, desde a Criação, nos fala também hoje da bondade e da beleza de Deus. O sono de São José Esse José que dorme, mas que ao mesmo tempo está preparado para ouvir o que ecoe no seu íntimo e desde o alto – porque não é outra coisa o que o Evangelho deste dia acaba de nos dizer -, é o homem em que se unem o recolhimento íntimo e a prontidão. A partir da tenda aberta da sua vida, convida a retirarmo-nos um pouco do bulício dos sentidos; para que recuperemos também nós o recolhimento; para que saibamos dirigir o olhar para o interior e para o alto, para que Deus possa tocar a nossa alma e comunicar-lhe a sua palavra. A Quaresma é um tempo especialmente adequado para nos afastarmos das vicissitudes quotidianas, e dirigirmos novamente os nossos passos pelos caminhos do interior. Levanta-se e acolhe os planos de Deus Passamos ao segundo ponto. Esse José que vemos pronto para se levantar e, como diz o Evangelho, cumprir a vontade de Deus (Mt 1,24; 2,14). Assim toma contato com o núcleo da vida de Maria, a resposta que ela ia dar no momento decisivo da sua existência: Eis aqui a serva do Senhor (Lc 1,38). São José reage assim: Aqui tens o teu servo! Dispõe de mim! A sua resposta coincide com a de Isaías no momento de receber o chamamento: Eis-me aqui, Senhor. Envia-me (Is 6,8, juntamente com 1 Sam 3,8ss). Esse chamamento preencherá toda a sua vida daqui em diante. Mas também há outro texto da Escritura que vem a propósito: o anúncio que Jesus faz a Pedro quando lhe diz: Levar-te-ão onde tu não queiras ir (Jo 21,10). José, com a sua celeridade, tomou-o como regra da sua vida: porque está preparado para se deixar conduzir, embora a direção não seja a que ele quer. Toda a sua vida é uma história desta correspondência. Começou com a mensagem do anjo sobre o segredo da maternidade divina de Maria, o mistério da vinda do Messias. De repente, a ideia que tinha feito de uma vida discreta, simples e agradável, fica transtornada quando se sente associado à aventura de Deus entre os homens. Tal como sucedera no caso de Moisés perante a sarça-ardente, encontrou-se face a face com um mistério em que lhe cabe ser testemunha e co-participante. Muito brevemente saberá o que isso implica: que o nascimento do Messias não pode acontecer em Nazaré. Tem de partir para Belém, que é a cidade de David; porém, também não acontecerá aí: porque os seus não o receberam (Jo 1,11). Já aponta para a hora da Cruz: porque o Senhor terá de nascer fora de portas, num estábulo. Logo depois, chega a nova mensagem do anjo, a saída do Egito, onde irá sofrer a sorte dos que não têm casa nem pátria: refugiados, estrangeiros, desenraizados que procuram um lugar para se instalar com os seus. Irá regressar, mas sem terem terminado os perigos. Mais tarde vai sofrer a dolorosa experiência dos três dias durante os quais Jesus está perdido (Lc 2,46), esses três dias que são como um presságio dos que mediarão entre a Cruz e a Ressurreição: dias em que o Senhor desapareceu e se sente o seu vazio. E, do mesmo modo que o Ressuscitado, não irá regressar para viver entre os seus com a familiaridade daqueles dias que terminaram. Pelo contrário, diz: Não me detenhas, pois ainda não subi para o Pai, e poderás estar comigo quando subires também (cf. Jo 20,17). Assim, agora, quando Jesus é encontrado no Templo, reaparece em primeiro plano o mistério de Jesus naquilo que ele tem de distanciamento, de ponderação e de grandeza. José sente-se, de certo modo, posto no seu lugar por Jesus, mas ao mesmo tempo encaminhado para o alto. Eu devia ocupar-me das coisas de meu Pai (Lc 2,19). É como se lhe dissesse: Tu não és meu pai, mas guardião que, ao ser-te confiada esta missão, recebeste o encargo de proteger o mistério da Encarnação. E, finalmente, José morrerá sem ter visto manifestar-se a missão de Jesus. No seu silêncio ficarão sepultados todos os seus padecimentos e esperanças. A vida deste homem não foi como a daquele que, pretendendo a realização de si próprio, procura somente em si os recursos de que necessita para fazer da sua vida o que quer. Foi o homem que se nega a si mesmo, que se deixa levar para onde não queria ir. Não fez da sua vida coisa própria, mas algo para entregar. Não se deixou guiar por um plano que o seu intelecto tivesse concebido, e a sua vontade decidido, mas, respondendo aos desejos de Deus, renunciou à sua vontade para se entregar à de Outro, à vontade grandiosa do Altíssimo. E é exatamente nesta renúncia total a si próprio que o homem se descobre. Porque a verdade é assim: somente se soubermos perder-nos, se nos dermos, podemos encontrar-nos. Quando isto sucede, não é a nossa vontade que prevalece, mas a do Pai à qual Jesus se submeteu: não se faça a minha vontade, mas a tua (Lc 22,42). E, tal como então, cumpre-se o que dizemos no Pai-Nosso: Seja feita a tua Vontade assim na terra como no Céu. Por isso S. José, com a sua renúncia, com o seu abandono, que de certo modo adiantava a imitação de Jesus crucificado, nos ensina os caminhos da fidelidade, da ressurreição e da vida. Sempre a caminho Falta-nos um terceiro aspeto: olhando para este José, que está vestido como peregrino, compreendemos que, a partir do momento do Mistério, a sua existência seria a de quem está sempre a caminho, num constante peregrinar. A sua vida foi assim uma vida marcada pelo sinal de Abraão: porque a História de Deus entre os homens, que é a história dos seus eleitos, começa com a ordem que o pai desta estirpe recebeu: Sai da tua terra para seres um estrangeiro (Gen 12,1; Heb 9,8ss). E por ter sido uma réplica da vida de Abraão, José aparece-nos como uma antevisão da existência do cristão. Podemos comprová-lo com particular vivacidade na primeira Carta de S. Pedro e na de Paulo aos Hebreus. Como cristãos que somos – dizem-nos os Apóstolos – devemos considerar-nos estrangeiros, peregrinos e hóspedes (1 Ped 1,17; 2,11; Heb 13,14): porque a nossa morada, ou como diz S. Paulo na sua Carta aos Filipenses, a nossa cidadania está nos Céus (Fil 3,20). Hoje em dia, estas palavras sobre o Céu soam mal: porque tendemos a acreditar que afastar-nos de cumprir as nossas obrigações na terra nos aliena do nosso mundo. Tendemos a acreditar que a nossa vocação é somente fazer da Terra um Paraíso. Porém, acontece que na realidade, ao comportar-nos desse modo, o que estamos a fazer é precisamente destruir a Criação. Porque, no fundo, os anseios do homem apontam na direção do infinito. Daí que, hoje mais do que nunca, nos demos conta que unicamente Deus consegue saciar o homem por completo. Estamos feitos de tal forma, que as coisas finitas nos deixam sempre insatisfeitos, porque precisamos de muito mais: necessitamos do Amor inesgotável, da Verdade e da Beleza ilimitadas. Embora esse anseio seja irreprimível, podemos retirá-lo dos nossos horizontes e procurarmos o infinito naquilo que não no-lo pode dar. Querendo ter o Céu já na terra, esperamos e exigimos tudo dela e da atual sociedade. Porém, na sua intenção de extrair do finito o infinito, o homem espezinha a terra e impossibilita uma ordenada convivência social com os outros, porque os vê como ameaça ou obstáculo. Somente quando aprendermos novamente a dirigir o nosso olhar para o Céu, brilhará também a terra em todo o seu esplendor. Só quando dermos vida às grandes esperanças dos nossos ânimos com a ideia de um eterno estar com Deus, e nos sentirmos novamente peregrinos a caminho da Eternidade, em vez de nos apegarmos a esta terra, só então os nossos anseios irradiarão para este mundo para que tenha também ele esperança e paz. Por tudo isto, demos graças a Deus neste dia porque nos deu esse Santo, que nos fala de recolhimento com Ele; que nos ensina a prontidão e a obediência e a atitude dos caminhantes que se deixam dirigir por Deus; e que, por isso mesmo, nos diz a maneira de servir igualmente a nossa terra. Imploremos a graça para que, mostrando também nós vigilância e prontidão, sejamos um dia recebidos por Deus, que é o nosso autêntico destino de caminhantes. [Homilia proferida na Solenidade de S. José, 19-03-1992]
- Respondendo as objeções ortodoxas (Parte III)- Código de Justiniano (Primazia Petrina), Conciliarism
O Imperador Justiniano (527-65) fixou o posto das cinco principais Sés, Roma, Constantinopla, Alexandria, Antioquia, Jerusalém, na lei imperial (Novellae 131, 2; cf 109 praef .; 123, 3), constituindo assim o que se tornaria conhecida como a Pentarquia. O bispo de Roma foi visto como o primeiro na ordem (táxis), sem, no entanto, a tradição petrina ser mencionada. Max gostaria que seus leitores acreditassem que Justiniano não atribuía a origem do primado de Roma à vocação divina de Pedro. No entanto, ele está, de fato, provavelmente errado sobre isso. No Livro I do Código Justiniano, no Capítulo I “Sobre a Trindade mais Exaltada e a Fé Católica” ao lado do n. ° 4, Justiniano inseriu uma carta do próprio Papa São João I (523-26). Que Justiniano inseriu no seu código imperial oficial é evidência de que ele concordou com as declarações nela contidas, a menos que seja demonstrada a prova do contrário. Nesta carta papal, João escreve que Justiniano tinha sido ”instruído na disciplina eclesiástica” e, como resultado, “preservou a reverência pela Sé de Roma e submeteu todas as coisas à sua autoridade e lhe deu unidade”. Obviamente, João está aludindo à reconciliação com Roma sob o Pontificado do Papa Hormisdas em 518. João continua dizendo: “O seguinte preceito foi dado ao seu fundador [Sé de Roma] [Pedro], isto é, o primeiro dos Apóstolos, pela boca de nosso Senhor, a saber: “Alimente meus cordeiros”. Esta Sé é de fato a cabeça de todas as igrejas, como afirmam as regras dos padres e os decretos dos imperadores “. No mesmo ponto é adicionada uma carta de resposta de Justiniano ao Papa João I. Nela ele escreve: “Com honra à Sé Apostólica, e à Sua Santidade, que é, e sempre foi lembrado em Nossas orações, tanto agora como antes, e honrando sua felicidade, como é apropriado no caso de quem é considerado como um pai, nós nos apressamos em levar ao conhecimento de Sua Santidade tudo relacionado à condição da Igreja, como sempre tivemos o maior desejo de preservar a unidade da sua Sé Apostólica, e a condição das Sagradas Igrejas de Deus , como elas existem no tempo presente, para que elas permaneçam sem perturbação ou oposição. Portanto, nós nos esforçamos para unir todos os sacerdotes do Oriente e sujeitá-los à Sé de Sua Santidade, e, portanto, as questões que surgiram no momento, embora sejam manifestas e livres de dúvidas, de acordo com a doutrina de Sua Sé Apostólica … Porque não sofremos nada que tenha referência ao estado da Igreja, mesmo que o que provacasse a dificuldade fosse ser claro e livre de dúvidas, a ser discutido sem ser levado ao conhecimento de Sua Santidade, porque você é cabeça de todas as Igrejas Sagradas, pois nos esforçamos em todos os sentidos (como já foi dito), em aumentar a honra e a autoridade da vossa Sé “. Não há dúvida de que Justiniano está se referindo ao acordo assinado da Fórmula de Hormisdas aqui. É interessante ver como ele explica a situação dos eventos. Ele diz que ele uni “todos os sacerdotes do Oriente e submeteu-os à sua Santidade”. Para Justiniano, é assim que a transação pode ser descrita brevemente. Agora, antes de ouvirmos que eu pulei, esqueci ou instiguei uma falsificação, vou pontificar que o próprio Justiniano nunca afirmou que a autoridade da Sé romana veio de Pedro em sua lei oficial. Podemos ter certeza de que Max vai apontar isso. No entanto, qual é a vantagem ? Justiniano inclui a carta do Papa João, que tornou explícita a base petrina do primado romano. Temos bons motivos para acreditar que Justiniano concordou. Em seguida, Justiniano escreveu em uma Carta ao papa Agapeto (535-36) dizendo que Roma é a “… fonte do sacerdócio … a venerável Sé do mais grandioso apóstolo Pedro (The Eastern Churches and the Papacy by S. Herbert Scott, p. 231). Em seu próprio código, lemos: “A antiga cidade de Roma tem a honra de ser a mãe de nossas leis, e ninguém pode duvidar de que nela se encontra o pontificado supremo. É por isso que também achamos necessário honrar este berço da lei, esta fonte do sacerdócio, por um decreto especial da nossa sagrada vontade “.(Novel 9, cerca de 535 a.D.). Este último “fonte do sacerdócio” soa semelhante à eclesiologia de São Cipriano e dos papas do 4º e início do século 5. A história nos mostra que os decretos papais eram por conta própria INSUFICIENTES e não puseram fim às controvérsias ou disputas teológicas … POR QUÉ o terceiro Concílio de Constantinopla (680) precisava abordar a heresia do monotelismo? Depois de tudo, Roma e o Papa Martinho condenaram o monotelismo como herético quase 30 anos antes no Concílio Latrão (649) em Roma. Da mesma forma, por que foi o Segundo Concílio de Nicéia (787) precisou abordar a heresia do Iconoclasmo ? Depois de tudo, Roma e o Papa Gregório III condenaram o iconoclasmo como heresia quase 56 anos antes em dois Sínodos (730, 732), realizados em Roma. Esses concílios ecumênicos operaram com a premissa que Roma falou, você DEVE cumprir …. Há muitos mal-entendidos e falsos pressupostos aqui. Em primeiro lugar, presume-se que, para que as doutrinas papais sejam verdadeiras, a história deve envolver cada disputa sendo resolvida por um ato individual de um Papa particular sob a forma de um decreto, que, por sua vez, tem todos membros da Igreja se apresentando humildemente pelo bem da salvação deles. Isso é atribuir muito mais ao Papa do que os próprios católicos. Esta é uma doutrina papal semelhante à feitiçaria. Não acreditamos que o Papa seja onisciente, nem que ele seja perfeitamente inteligente, um teólogo perfeito (muito menos um bom), ou mesmo um indivíduo inteligente. O que nosso amigo oriental confunde com o ofício papal é um teólogo perfeito e onisciente, pronto para calcular a resposta correta no momento de uma pergunta. Um tipo de máquina de resposta Papal. O fato é que o dom da compreensão teológica foi, na maioria das vezes, concedido a pessoas que nem eram papas, às vezes nem mesmo bispos. Por exemplo, Santo Atanásio o Grande, São Irineu de Lyon, São Gregório de Nazianzo, São Cirilo de Alexandria, Santo Agostinho de Hipona e São Sofrônio de Jerusalém para bispos. Pegue a São Maximo, o Confessor, São João de Damasco, ou São Tomás de Aquino para os não bispos, também. Os papas podem ser horriveis teólogos, mal versados na Sagrada Escritura e bastante ininteligentes. Tivemos alguns papas assim. Pode até haver papas muito imprudentes, perversos e ímpios. A posição da Santa Sé é “confirmar os irmãos” pelo bem da doutrina, moral e disciplina. O seu cargo é de oficiador legal, árbitro, juiz ou árbitro eclesial. Nós não dizemos necessariamente de juízes terrenos que eles devem possuírem inteligência perfeita, ou que eles tenham o perfeito conhecimento de cada caso trazido diante deles. Nós dizemos que, pelo menos no nível da lei, sua decisão é vinculativa, a menos que recursos possam ser enviados. É o lugar da arbitragem. O Supremo Tribunal dos Estados Unidos seria comparável ao Tribunal da Santa Sé. Uma vez tomada uma decisão, não é mais permitido atuar contra ela. Claro, existem condições para isso. É por isso que a Igreja ensinou que existem níveis de certeza e graus de concordância. Às vezes, a Santa Sé resistirá a tomar decisões sobre uma questão teológica, mas exigirá que ninguém questione externamente a verdade de uma doutrina particular; apenas para ter anos, às vezes séculos passando antes de dar um julgamento. Isso aconteceu, por exemplo, no caso da doutrina da Imaculada Conceição. O Concílio de Trento teve isso para dizer na V sessão sobre o Pecado Original: “Este mesmo santo Sínodo, no entanto, declara, que não é intenção incluir neste decreto, de onde trata o pecado original, a abençoada e imaculada Virgem Maria , a mãe de Deus; mas que as constituições do Papa Sixto IV, de memória feliz, devem ser observadas, sob as penas contidas nas referidas constituições, que se renova. “Você vê aqui uma hesitação para definir, mostrando claramente que a Igreja não acreditava que o Papa, nem os bispos no Concílio, eram oniscientes. E qual foi a constituição do Papa Sixto IV? Em 1476 ele emite Cum Praeexcelsa, permitindo a celebração da festa da concepção de Maria, e o próprio Papa escreveu um trabalho sobre a veracidade da imaculada conceição. Pouco depois, havia um mandato papal que impedia a condenação pública da doutrina, mas ainda não afirmou sua verdade com o magistério oficial. Mas acho que a evidência mais forte que podemos fornecer para o nosso questionador é que mesmo os Papas mais pró-papais, como os Papas Inocêncio I, Leão I, Gelásio ou mesmo Pio IX, todos que eram muito explícitos tanto na origem divina da autoridade papal, bem como a prejudicial condenação auto-acumulada aos membros da Igreja por desobedecerem sua autoridade, continuaram não apenas a cooperar com os concílios, mas recomendaram-nos. Digamos, fora da acomodação, que as reivindicações papais “heréticas” não surgissem no ocidente latino até o século 11, como alguns leitores orientais alegam, você ainda tem o Concílio de Lyon, os Concílios de Latrão, Basileia, Florença, Trento , Vaticano I e Vaticano II. Devemos pensar que, desde que o ocidente latino convocou esses bispos, muitas vezes fora do comparecimento de um papa, que eles não acreditavam na supremacia papal? Além disso, o questionador pressupõe que o papado é uma entidade em separação ontológica dos outros bispos do mundo. No entanto, isso é manifestamente falso. A faculdade episcopal é * formada * tanto de Chefe como de Membros, bem como um organismo. Existe igualmente uma lei divina que origina tanto os membros como o chefe. O Chefe deve entender que existe uma vocação sobrenatural no ensinamento dos bispos, caso contrário, ele não interpreta a realidade de seu próprio ofício. Por fim, sobre sua pergunta sobre o 3º Conselho de Constantinopla e o Concílio de Nicéia II, que trata do monoteletismo e do iconoclasmo, respectivamente. Isso nos leva a outro aspecto dos concílios. É sempre o propósito dos concílios aprender de novo qual é a fé cristã? Não. Muitas vezes, é para o benefício da Igreja, e em particular, para os líderes da Igreja, então presentes. Por exemplo, seria a única opção para um papa redigir um único decreto para todas as igrejas orientais que exigissem assinatura ou excomunhão? É possível, e foi o caso durante a resolução da catástrofe Monofisista pós-calcedônia até 517/19 DC. Mas nem sempre é assim. Os Papas podem pensar que as questões em discussão exigem o conhecimento dos bispos para solidificar melhor sua decisão. Que parte disso prejudicaria o dogma católico? Já excluímos o carismada omniscência papal. Talvez seja, por razões de compreensão, tradução e explicação matizada (que não pode ser feita por meio de cartas), um Concílio dos bispos que possa conversar em tempo real é mais prudente. Mas, mesmo com todas essas possibilidades, o caso do 3º Concílio de Constantinopla – o assunto, da perspectiva de Roma, não era adquirir uma educação da cristologia das vontades. Que ela já tinha sob os papas Martinho e Teodoro no sínodo romano de 649 realizado em Latrão. É por isso que o papa Agatão, que não estava presente no Concílio, escreveu uma carta que define a fé ortodoxa. O que teria acontecido se o Oriente se recusasse a acreditar? Bem, então haveria outro cisma. Mas, então, isso não apoiaria o estado da objeção acima? Se o Papa fosse visto como este árbitro infalível, por que não a submissão de todos? Bem, antes de responder a isso, devemos perceber que é um critério falso que está sendo pressuposto. Por exemplo, para os ortodoxos orientais, eles devem perceber que todos os 7 concílios foram reunidos com a oposição dos membros da Igreja. Isso anula desse modo a autoridade dos Concílios ? Eu acho que não. Ou aos cristãos em geral – que Jesus Cristo não foi entendido, acreditado e seguido por todos os homens na sua vida terrena, isso aniquila assim a autoridade de Cristo? E então, para todos os seres humanos – que Deus não está sendo totalmente obedecido é evidente ao você clicar na notícia de manhã. Isso anula desse modo a autoridade de Deus? Eu sei que não. E qualquer um deve saber que não. Agora, para dar uma resposta mais concreta. Nosso interlocutor oriental parece pensar que o Concílio de Nicéia II é o que acabou com o Iconoclasmo. Mas mesmo isso é falso. Ainda havia iconoclastas mesmo após 787 dC. Na verdade, foi apenas sob a regência de Teodora (cujo filho era Miguel III) que o Patriarca Metodio, um íconódulo, foi substituto de João VII, que era um iconoclasta e que, com o apoio do Imperador Leão V, reintegrou a iconoclastia em um sínodo oriental em 815. Em 843, a recuperação da veneração de ícones foi celebrada no primeiro domingo da Quaresma, que ainda é hoje celebrada pelo Oriente como o “Festival da Ortodoxia”. Isso significa que, uma vez que os Patriarcas e os Imperadores passaram por cima de Nicéia II (787), o Concílio estava desprovido de autoridade? Ou pior, a recuperação das imagens como resultado da ação da imperatriz-regente indica que a autoridade imperial, no final do dia, é o que possuía autoridade sobre a Igreja? Não me atrevo a chegar a esta conclusão. Se a fé dos papas como o Papa Honório falharam, qual o ponto da “infalibilidade papal” e a frase-chave “sobre esta Rocha”? Novamente, o pressuposto de “rocha” aqui é que significa que todos serão perfeitamente ortodoxos e o Papa sempre estará lá para responder infalivelmente as perguntas. Um pressuposto da onisciência papal, de fato. O fato é que sabemos que tanto os papas quanto os bispos se comportaram mal. Podemos executar a música de fundo “Bad Boyz” pelo Inner Cicle com uma pesquisa de papas, bispos, sacerdotes, imperadores, políticos, teólogos e leigos que feriram a Igreja. O que é consistente com a promessa de Cristo é que as “portas do inferno não prevalecerão”. Não que a estrutura seja sempre livre da força da tempestade. Mas, tendo dito isso, o terceiro Concílio de Constantinopla reconheceu o carisma da infalibilidade ao receber a epístola do Papa Agatão. Esta carta inclui o seguinte: “Portanto, a Santa Igreja de Deus, a mãe do sua autoridade mais cristã, deve ser disposta e liberada com todas as suas forças (através da ajuda de Deus) dos erros de tais professores e da retidão evangélica e apostólica da fé ortodoxa, que foi estabelecida sobre a rocha firme desta Igreja do abençoado Pedro, o Príncipe dos Apóstolos, que por sua graça e tutela permanece livre de todo erro, [que concernem à fé] e que todos os governantes e sacerdotes do clero e do povo, por unanimidade, devem confessar e pregar conosco como a verdadeira declaração da tradição apostólica, para agradar a Deus e salvar suas próprias almas “. “Exortando-os a nos abraçarem voltando para a unidade da fé ortodoxa e aguardando sua conversão para a plena retidão da fé ortodoxa: para que eles não se tornem alienígenas da nossa comunhão, isto é, da comunhão do abençoado Pedro, o Apóstolo, cuja o ministério, nós (embora indignos) exercemos, e pregamos a fé que ele transmitiu, mas eles devem junto com nós rezar a Cristo o Senhor, o sacrifício imaculado, pela estabilidade do seu Império mais forte e sereno. “Mas nós, embora muito humildes, esforçamo-nos por todas as nossas forças para que a comunidade do seu império cristão se mostre mais sublime do que todas as nações, pois nela foi fundada a Sé do abençoado Pedro, o príncipe dos Apóstolos , pela autoridade de que todas as nações cristãs veneram e cultuam conosco, através da reverência ao abençoado apóstolo Pedro em pessoa “. “… a Igreja Apostólica [Romana] de Cristo, tanto na prosperidade quanto na adversidade sempre manteve e defendeu com energia; o que, é provado, pela graça de Deus Todo-Poderoso, nunca errou do caminho da tradição apostólica, nem foi depravada cedendo às inovações heréticas, mas desde o início recebeu a fé cristã de seus fundadores, os príncipes dos apóstolos de Cristo e permaneceu intocada até o fim, de acordo com a promessa divina do próprio Senhor e Salvador, que proferiu nos santos Evangelhos ao príncipe dos discípulos: dizendo: Pedro, Pedro, eis que Satanás desejava ter você, para que ele pudesse peneirar você como trigo; mas orei por você, para que (sua) fé não falhe. E quando você for convertido, fortaleça seus irmãos. Portanto, deixe sua Clemência tranquila considerar, uma vez que é o Senhor e Salvador de todos, cuja fé é, que prometeu que a fé de Pedro não falharia e exortou-o a fortalecer seus irmãos, como é sabido para todos que os pontífices apostólicos, predecessores da minha pequenez, sempre fizeram com confiança no mesmo: de quem também nossa pequenez, desde que recebi este ministério por designação divina, deseja ser seguidor, embora desigual para com eles e o menor em tudo “. A carta de Honório, mesmo que contenha erro, significa apenas que há uma diferença entre o Papa escrevendo na sua capacidade oficial, mas ainda não pretendendo integralmente que seu decreto vincule a igreja inteira. Mas há evidências muito boas para sugerir que Honório não tivesse sido um monotelista. Seja como for, o Concílio ainda o condenou como herege, e assim acreditava que era possível que um papa fosse um herege. E, no entanto, não é isso que os católicos ainda acreditam hoje? Aqueles de nós que acreditam em Deus escreve por linhas tortuosas, mesmo com as instituições que Ele criou, podem ver que o Papado trouxe paz e unidade à Igreja em várias ocasiões, mesmo que, em muitas ocasiões, fosse um fracasso absoluto. A veracidade do Papado não nasce da sua eficácia, mas de ser instituída divinamente. Traduzido de: https://erickybarra.wordpress.com/2017/02/01/answers-to-eastern-orthodox-objections-part-2-code-of-justinian-petrine-primacy-conciliarism-papalism-and-pope-honorius-i/ Parte I: https://apologistasdafecatolica.wordpress.com/2018/03/17/respondendo-as-objecoes-dos-ortodoxos-parte-i-cisma-episcopado-grego-sobre-a-primado-divino-do-papado-virgilio-honorio-concilio-vs-papa/ Parte II: https://apologistasdafecatolica.wordpress.com/2018/03/17/resposta-aos-ortodoxos-parte-ii-ecumenicidade-de-lyon-florenca-patriarcas-canon-28-formula-de-hormisda/
- DE JERUSALÉM AO VATICANO: A PEREGRINAÇÃO DO PAPADO PARTE IV
A TRADIÇÃO DE JESUS SEPAROU Podemos verificar a crítica de Estevão ao templo que constituía a pedra de toque nas sinagogas da diáspora. Podemos perceber essa visão de separação em Lucas, com a justiça feita por linchamento, descrever o formato concreto dessa crítica pode ser difícil para alguns que não entenderam o significado da nova aliança, Lucas coloca Estevão numa mesma linha de tradição com Jesus. Ele faz afirmar contra Estevão a mesma acusação que, segundo a tradição Cristã primitiva, foi feita ao próprio Jesus (Marcos 14,58). Ele, Estevão, teria afirmado: “Jesus de Nazaré destruirá este lugar” (Atos 6, 14). Chega-se assim ao ponto teológico conclusivo dessa crítica ao templo, quando a morte de Jesus é interpretada como o seu cumprimento nesse ato Deus mesmo teria estabelecido Jesus como instrumento de expiação (do Novo Tempo), abolindo assim a eficácia do culto ligado ao templo de Jerusalém. portanto não há mais atuação de Deus entre o povo Judeu a partir desse momento, a espiritualidade é relacionada a nova aliança, não existe mais a um culto Judaico, não existem mais sacrifícios de animais para a expiação dos pecados, todas as aparentes expiações que o Sumo Sacerdote anualmente executava, aspergindo com sangue o altar da expiação no interior do Santo dos Santos (Levíticos 3,25), são assim declaradas ineficazes – diante da única inspiração realizada por Deus no sangue de Jesus: “Deus o [Jesus] designou para servir de meio da expiação do pecado, pela sua morte sacrifical (hilastérion)… em seu sangue… porque no tempo de sua tolerância tinha passado por cima dos pecados de outrora…” (Romanos 3,25). Justamente essa identificação material de Jesus com o altar da expiração encontra seu correspondente na concepção da comunidade como templo (1Coríntios 3,16). Ambos os aspectos são tão excepcionais nas epístolas autênticas de Paulo que devemos estar diante de antigas tradições, que Paulo provavelmente aprendeu em Antióquia, no âmbito de ação dos sucessores dos sete. Independentemente de o quanto essa provocadora teologia do templo já estava desenvolvida com Estevão, ela está conectada à crítica ao templo feita por Jesus e a leva claramente adiante com espírito desafiador. Por que semelhante crítica ao templo é atrativa exatamente para os Judeus da diáspora, que tinham vindo a Jerusalém justamente por causa do templo? Para os judeus da diáspora o templo era pura e simplesmente o símbolo da identificação: eles remetiam seus impostos ao santuário de Jerusalém, constituindo assim uma rede de judeus pelo mundo inteiro. Contudo, na diáspora eles praticavam um culto que, contrariamente aos templos pagãos, ocorria sem sacrifício cruento e sem atividades em templo algum. Eles viam nisso a superioridade de sua própria religião. O culto é evento da palavra, o culto é espiritualizado. Orações são designadas como sacrifícios,em vista do perdão dos pecados as molas substituem os sacrifícios cruentos. Na diáspora os judeus designavam suas sinagogas com o mesmo conceito que também utilizam para o Templo de Jerusalém: (casa de oração). Quando chegavam à terra de Israel, contudo, podiam surgir Muitas decepções acerca da (casa de oração). Lá se realizavam sacrifícios cruentos, o comércio florescia, como em qualquer templo Pagão. É claro que nem todos viam as coisas dessa maneira, principalmente aqueles que tinham conseguido estabelecer-se em Jerusalém e logrado bom contato com a classe alta dos saduceus, bem como com a aristocracia do templo, que por sua vez, culturalmente, era fortemente helenizada. Outros, porém, menos bem-sucedidos e por isso também decepcionados, não só conseguiam retratar-se na crítica de Jesus ao templo, mas descobrir também no Novo Templo uma perspectiva escatológica. Nesse Horizonte é possível esclarecer o conflito dentro das Sinagogas da diáspora narrada exemplarmente em Atos 6,8 – 7,60, assim como continuidade da questão, ou seja, o porta-voz dos insatisfeitos, Estevão é conduzido ao sinédrio, diante do Sumo Sacerdote. OS SETE DIÁCONOS Um incidente narrado nos atos, apesar de maneira Prudente como está redigido, permite ver claramente as consequências desta oposição. “Por aqueles dias, havendo crescido o número dos discípulos, ouve queixa dos helenistas contra os hebreus, Porque as viúvas daqueles eram mal atendidas na distribuição cotidiana” (atos 6, 1). Aparentemente, trata-se apenas de um pequeno detalhe, mas que tem grande peso. É por estes pormenores que se avalia a credibilidade do relato, Sublime sob tantos aspectos, mas não mascarado pelo autor com cores idílicas. O regime comunitário tinha criado problemas muitos concretos, tanto administrativos como de distribuição; a natureza humana, por muito santa que seja, acaba sempre sendo parcial com os seus amigos. Os helenista receavam ser tratados como Cristão de segunda categoria, particularmente no momento em que se distribui as ajudas, e esse fato foi, no terreno prático, o resultado daquela tensão espiritual que já foi relatado anteriormente. Em pouco tempo, as reclamações tornaram-se tão forte que houve necessidade de se procurar uma solução urgente. Quando em Roma, no século V A.C., a Plebe se mostrava descontente com o regime e se retirara da cidade, disposta à rebelião, tinham sido no olhar dos magistrados especialmente Os Escolhidos dentre os próprios plebeus encarregado de defender os seus interesses: os tribunos da Plebe. Idêntico raciocínio levou a comunidade cristã a dar aos helenistas as mesmas garantias, nomeando uma espécie de funcionários escolhidos dos grupos de fora da Palestina; estes procurariam Fazer Reinar a equidade entre os dois grupos da igreja, aliviando ao mesmo tempo os apóstolos das tarefas administrativas. Instituíram-se assim os diáconos, por proposta dos doze e com o assentimento de toda a comunidade. Eram inicialmente em número de sete, talvez porque o Conselho Municipal das cidades judaicas eram compostos por sete membros, ou ainda porque a segunda multiplicação dos pães, feitos por Jesus em terra helenística, na decápole (Marcos 8, 1-9), símbolo da conversão dos gentios, fora realizado com sete pães e deixara sete cestos de restos. Esses homens eram todos de origem da helênica, como provam os seus nomes: Estevão, Filipe, prócor, Nicanor, Tímon, Parnemas e Nicolau; Este último era até um prosélito de Antioquia, Isto é, um grego convertido. De que se ocupariam esses novos subchefes da Comunidade? em primeiro lugar, da administração, Pois para isso haviam sido nomeados; mas certamente tratariam também da pregação e da propaganda. O seu caráter sagrado não podia ser posto em dúvida, pois à nomeação seguira-se uma cerimônia em que os apóstolos lhes haviam imposto as mãos, invocando sobre eles as graças do Espírito Santo. Uma vez sagrados, não são apenas ministros de munus, de uma missão material, mas passam a fazer parte da hierarquia, e o seu título ficará associado na igreja ao sacramento da ordem, constituindo um dos seus graus indispensáveis, vemos aqui uma tradição Apostólica seguida pela Igreja, essa tradição é sempre colocada em prática com se acha necessário resolver problemas que não estão em nenhum manual, vemos a Igreja utilizar da sua autoridade Apostólica para levar um desenvolvimento da doutrina e uma melhor compreensão das orientações da mesma. “Vede – dissera Jesus – eis que vos envio profetas, sábios e doutores. Deles matareis e crucificareis uns e açoitareis outros em vossas sinagogas. Persegui-los-eis de cidade em cidade, para que caia sobre vós todo sangue inocente derramado sobre a terra… Em verdade vos digo: tudo isto virá sobre esta geração (Mateus 23,34 – 36). Trinta anos mais tarde, quando Jerusalém se tornar “a casa deserta” predita por Cristo, a morte do primeiro mártir terá sido resgatada por uma imensidade de dor; mas terá contribuído poderosamente para espalhar a boa nova, dando ao cristianismo o primeiro dos testemunhos assinados com sangue. Após a morte de Estêvão foi desencadeado um movimento em Jerusalém de dentro para fora. Mas os atingidos foram apenas dos membros dirigentes do Círculo de Estevão. Nos Atos dos Apóstolos eles são indicados com a designação “os dispersos” (Atos 8,4; 11,19). Tradições exemplares, que Lucas integrou em Sua obra, noticiam acerca de Felipe, o segundo homem, após Estevão, no círculo dos sete, e de como ele se dirige a marginalizados do Judaísmo: na cidade da Samaria (Atos 8, 4-8) e na região Costeira entre Cesaréia e Azoto (Atos 8,26 – 40), assim como acerca de “dispersos” em Antióquia, que se dirigiram a “gregos”, portanto a pagãos (Atos 11,19 – 30). Também Damasco deve ter sido meta do Círculo dos sete. Aos samaritanos devia ser especialmente atrativo a ideia de um novo Templo (Espiritual) para todo povo de Deus, em suas doze tribos, portanto sem a predominância judaica, pois já havia uma agressiva e potencialmente violenta relação de concorrência entre samaritanos e o estado Centralizado no tempo, que não mais considerava a Samaria pertencente a Israel. Desde a destruição do templo Samaritano no monte garizim em 128 a. C, operada por Hircano I,a até então divisão igual de poder ficou claramente decidida a favor de Jerusalém. Com o anúncio do “novo tempo” para os samaritanos como parte do Povo de Deus na linha de continuidade teológica da crítica de Estevão ao templo foi resgatado por um importante ponto programático da ideia que Jesus tinha de senhorio de Deus. Mais abrangentes ainda são as consequências relacionadas com a narrativa exemplar do batismo de “um etíope, eunuco e alto funcionário na corte de Candace, rainha da Etiópia” (Atos 8,27), por Filipe, no contexto de Lucas, deve se entender “eunuco” como título, que esclarece com a expressão “funcionário de Candace”, assim como, paralelamente, “Candace” se esclarece com o título “rainha da Etiópia”. Nesse caso, como se pode deduzir da peregrinação a Jerusalém, trata-se de um prosélito. Mas se aquele homem era realmente um eunuco, o que no caso de funcionário de corte orientais Não era nada de extraordinário, então a narrativa garante que Filipe foi o primeiro que integrou um Pagão no povo de Deus, em que o batismo substitui a circuncisão, que nesse caso a rigor era necessária, mas eunucos eram geralmente impedidos disso em razão de sua capacidade reprodutiva (Deuteronômio 23,2). eunucos estão por princípio excluídos da plena participação do povo de Israel. De acordo com o enunciado Profético (Isaías 56, 3-5) e isso apenas poderá ser mudado no fim dos tempos. Assim sendo, Filipe agiu segundo as regras do (novo templo). Como Campo histórico de ação para esse acontecimento deve se cogitar a via maris, importante artéria de circulação entre o Egito e a Mesopotâmia, ao longo da qual também se situam as cidades nas quais Filipe “se encontra” (Atos 8,40): azoto e Cesaréia. De acordo com atos 11,26 os discípulos de Jesus em Antioquia Foram pela primeira vez denominados cristãos. Lucas Coloca essa denominação em relação com o fato da Comunidade Cristã de Antioquia ter conseguido integrar em suas fileiras um antigo arqui-inimigo, Isto é, Paulo (Atos 11,25). Nisso está para Lucas uma imagem eclesiológica de fundo. Pessoas capazes de agir merecem o nome de “cristãos”. Quanto à pesquisa de pistas históricas, chama a atenção que segundo atos 9,27 tal integração já teria sido possível em Jerusalém – igualmente com a intermediação de Barnabé, de modo que o nome “Cristão” já teria sido justificado para os de Jerusalém. Que Lucas aí não aplique essa designação deve estar relacionado com o fato de que, segundo suas TRADIÇÕES, ela estava especialmente relacionada com a cidade de Antioquia. Além disso o verbo chrematízein é tomado da linguagem burocrática. A administração Romana atribuia esses nomes aos discípulos de Jesus. A ele corresponde também a designação Christianói (cristãos). Ela é, latinizada, formada conforme o tipo dos adjetivos em latim designam os partidários de alguma pessoa, e em nosso caso deveria ser traduzida por “seguidores de Cristo”. A questão é: como os magistrados Romanos em Antioquia chegam a aplicar aos seguidores de Cristo uma designação grupal para caracterizar os seguidores de Cristo? A reconstrução histórica proposta é: em Antioquia, “dispersos” do Círculo dos sete admitiram em maior número e programaticamente pagãos no povo de Deus, e isso sem exigir a circuncisão. As comunidades sinagogais judaicas da cidade e defendiam-se contra esse grupo que, de fato, sob o teto protetor da Sinagoga, se aproveitava dos privilégios dos judeus no império romano Mas, por outro lado, mediante sua prática missionária, desmantelava por Dentro os próprios contornos do Judaísmo. A demissão demonstrativa desse grupo só era possível com a colaboração dos magistrados Romanos. sob a designação “cristãos”, o grupo dos seguidores de Jesus, juntamente com os adeptos que conseguiram, Foram pela primeira vez caracterizados como fração autônomo, fora da rede de sinagogas. Nesse contexto fazem-se necessárias diversas diferenciações. #MacauGoaAngolaMoçambiqueCaboverdeGuinéBissauGuinéEquatorialSãotoméeprincipeEUAfrançaparisgeorgiaportugalMacedôniabelarusRússiapaquistãoIrãCoreiaEgipto #MacauGoaAngolaMoçambiqueCaboverdeGuinéBissauGuinéEquatorialSãotoméePrincipeEUAfrançaparisgeorgiaportugalmacedoniabelarusrussiapaquistãoIrãnCoreiaEgiptoAr #UzbequistãoLaosMauritâniaIêmemAfeganistãoMaldivasSomáliaArábiaSauditaIrãCoréiadoNorte #históriadaigrejaprimitiva #Igreja
- Abortista confessa que corta garganta dos fetos primeiro, para eles não gritarem
A obstetra e ginecologista norte-americana Leah Torres dá palestras no mundo inteiro apresentando-se como especialista em “planejamento familiar”. O termo é um eufemismo para aborto. A médica é ligada à Planned Parenthood, maior movimento pró-aborto do mundo. Também é uma conhecida ativista feminista e uma porta-voz do chamado “movimento pró-escolha”. Esta semana, Torres fez algumas declarações no Twitter que chamaram a atenção de movimentos pró-vida do mundo inteiro. Debatendo com alguns cristãos que a acusavam de matar crianças no ventre apenas por dinheiro, a doutora rebateu, afirmando que faria a interrupção da gravidez gratuitamente, sempre que necessário. Quando um usuário do microblog lhe perguntou se ela não “ouvia o batimento do coração de suas vítimas ecoando em sua mente”, a resposta foi chocante: “Não. Você sabe que os fetos não podem gritar, certo? Eu corto as cordas vocais deles primeiro, para não terem essa oportunidade, caso já estejam desenvolvidos o suficiente para terem laringe” Na mesma mensagem disse que não “arrancava úteros”, mas fazia “procedimentos médicos”. O tweet foi comentado e compartilhado milhares de vezes, atraindo a ira de pessoas que não concordam com o aborto. Devido à grande repercussão, Torres apagou a mensagem. Mesmo assim, os prints estão sendo usados para mostrar a falta de escrúpulos de quem se orgulha de ser abortista. Kristan Hawkins, presidente da ONG Estudantes Pela Vida, afirmou: “O tweet revela insensibilidade e o completo desprezo pela vida humana, marca registrada da indústria do aborto. Isso apenas reflete sua falta de respeito pela dignidade humana”. Alguns líderes pró-vida lembraram que há anos eles divulgam atrocidades cometidas em clínicas de aborto, que por trás de todo o discurso de “saúde pública” revela ser uma engrenagem na “cultura de morte”. Alveda King, pastora que é sobrinha de Martin Luther King Jr. foi incisiva, pedindo que “a igreja e a sociedade devem estar conscientes de que essas práticas ocultistas não são raras e muitas vezes são enraizadas em antigos rituais satânicos”. Muitos usuários do Tweeter afirmaram que Torres havia feito uma “piada de humor negro”, sendo apenas uma forma sarcástica de responder ao usuário que tentava lhe despertar remorso ao falar sobre ela “ouvir o coração” de suas vítimas. Para essas pessoas, os cristãos estavam reagindo de maneira desproporcional. Contudo, a obstetra voltou a falar no assunto. Em um outro tweet, afirmou que não “lamentava o post, mas lamentava pelas pessoas que não conseguiam deixar de lado o seu ódio e sua ignorância para conseguir enxergar o bem maior”. Isso gerou uma nova onda de protestos, com muitos usuários dizendo que ela fazia parte dessa geração “que chama o mal de bem”. Com informações de CBN #Aborto #Palestra
- APROXIMA-SE A ‘HORA’ – 5º Domingo da Quaresma
Para ouvir a homilia do Padre Paulo Ricardo, “A angústia redentora de Cristo”, clicar AQUI PRIMEIRA LEITURA DA MISSA (Jr 31,31-34) A promessa divina da “hora” Eis que virão dias, diz o Senhor, em que concluirei com a casa de Israel e a casa de Judá uma nova aliança; não como a aliança que fiz com seus pais, quando os tomei pela mão, para retirá-los da terra do Egito, e que eles violaram, mas eu fiz valer a força sobre eles, diz o Senhor. “Esta será a aliança que concluirei com a casa de Israel, depois desses dias, — diz o Senhor: — imprimirei minha lei em suas entranhas, e hei de escrevê-la em seu coração; serei seu Deus e eles serão meu povo. Não será mais necessário ensinar seu próximo ou seu irmão, dizendo: ‘Conhece o Senhor!’ Todos me reconhecerão, do menor ao maior deles, diz o Senhor, pois perdoarei sua maldade, e não mais lembrarei o seu pecado”. SALMO 50 Os homens se preparam para a “hora” (Antífona): Criai em mim um coração que seja puro! Tende piedade, ó meu Deus, misericórdia! Na imensidão de vosso amor, purificai-me! Lavai-me todo inteiro do pecado, e apagai completamente a minha culpa! Criai em mim um coração que seja puro, dai-me de novo um espírito decidido. Ó Senhor, não me afasteis de vossa face nem retireis de mim o vosso Santo Espírito! Dai-me de novo a alegria de ser salvo e confirmai-me com espírito generoso! Ensinarei vosso caminho aos pecadores, e para vós se voltarão os transviados. SEGUNDA LEITURA DA MISSA (Hebreus 5,7-9) A “hora” da obediência Cristo, nos dias de sua vida terrestre, dirigiu preces e súplicas, com forte clamor e lágrimas, àquele que era capaz de salvá-lo da morte. E foi atendido por causa de sua entrega a Deus. Mesmo sendo Filho, aprendeu o que significa a obediência a Deus por aquilo que ele sofreu. Mas, na consumação de sua vida, tornou-se causa de salvação eterna para todos os que lhe obedecem. EVANGELHO (São João 12,20-33) Foi para esta “hora” que eu vim Naquele tempo, havia alguns gregos entre os que tinham subido a Jerusalém, para adorar durante a festa. Aproximaram-se de Filipe, que era de Betsaida da Galileia, e disseram: “Senhor, gostaríamos de ver Jesus”. Filipe combinou com André, e os dois foram falar com Jesus. Jesus respondeu-lhes: “Chegou a hora em que o Filho do Homem vai ser glorificado. Em verdade, em verdade vos digo: Se o grão de trigo que cai na terra não morre, ele continua só um grão de trigo; mas, se morre, então produz muito fruto. Quem se apega à sua vida, perde-a; mas quem faz pouca conta de sua vida neste mundo, conservá-la-á para a vida eterna. Se alguém me quer seguir, siga-me, e onde eu estou estará também o meu servo. Se alguém me serve, meu Pai o honrará. Agora sinto-me angustiado. E que direi? ‘Pai, livra-me desta hora?’ Mas foi precisamente para esta hora que eu vim. Pai, glorifica o teu nome!” Então, veio uma voz do céu: “Eu o glorifiquei e o glorificarei de novo!” A multidão, que aí estava e ouviu, dizia que tinha sido um trovão. Outros afirmavam: “Foi um anjo que falou com ele”. Jesus respondeu e disse: “Essa voz que ouvistes não foi por causa de mim, mas por causa de vós. É agora o julgamento deste mundo. Agora o chefe deste mundo vai ser expulso, e eu, quando for elevado da terra, atrairei todos a mim”. Jesus falava assim para indicar de que morte iria morrer. APROXIMA-SE A ‘HORA’(Comentário de Scott Hahn) As leituras deste domingo estão cheias de expectativas. “Eis que virão dias”, diz o profeta Jeremias na primeira leitura. “Chegou a hora”, diz Jesus no Evangelho. A Nova Aliança que Deus prometeu a Jeremias se cumpre na “hora” de Jesus: em sua morte, ressurreição e ascensão à direita do Pai. Os profetas predisseram que, com esta Nova Aliança, as tribos exiladas de Israel retornariam de todos os cantos da terra (v. Jr 31,1.3.4.7.8). Jesus também profetizou que sua Paixão reuniria os filhos dispersos de Deus (Jo 11,52). No entanto, no Evangelho deste domingo, Jesus promete que ele irá atrair para Si não só os israelitas, mas todos os homens e mulheres (Jo 12, 32). A Nova Aliança é muito mais do que uma reivindicação política ou nacional. Como cantamos no salmo, é uma restauração espiritual universal. Na “hora” de Jesus, os pecadores de todas as nações podem retornar ao Pai e serem lavados de sua culpa, recebendo corações novos para amá-Lo e servi-Lo. Jesus, ao dizer que será “levantado”, não se refere apenas à sua crucifixão já próxima (Jn 3,14-15). Isaías usa a mesma expressão para descrever como o Messias, depois de sofrer pelos pecados de Israel, seria levantado e grandemente exaltado (Is 52,2). Noutra parte, o termo se refere a como os reis seriam elevados acima de seus súditos (v. 1Mac 8,13). Jesus, durante sua agonia, não rezou para ser salvo. Em vez disso, como lemos na epístola deste domingo, Ele se ofereceu ao Pai, na cruz, como uma súplica viva. Por isto, Deus lhe deu poder sobre o céu e a terra (Atos 2,33; Fl 2,9). Aonde Ele foi, podemos segui-Lo, se nos deixamos guiar por Ele. Seguir Jesus significa odiar o pecado e o egoísmo presentes em nossa vida. Significa confiar na vontade do Pai: na lei que Ele escreveu em nossos corações. A “hora” de Jesus continua na Eucaristia, onde unimos nossos sacrifícios ao Seu, entregando nossas vidas a Deus como um ato de reverência e obediência, confiando que Ele nos elevará para que possamos dar frutos de santidade. https://stpaulcenter.com/se-acerca-la-hora-scott-hahn-reflexiona-sobre-el-5o-domingo-de-cuaresma/ https://stpaulcenter.com/the-hour-comes-scott-hahn-reflects-on-the-fifth-sunday-of-lent/
- OCTAVIO DE FARIA E CORNÉLIO PENA – Alceu de Amoroso Lima (2ª parte)
A obra que nos oferece o autor de Maquiavel e o Brasil é o segundo volume da sua Tragédia Burguesa e a segunda parte de Mundos Mortos com que há um ano iniciara o seu “roman fleuve” (Octávio de Faria, Os Caminhos da Vida, José Olympio, 1939). Muito jovem ainda, pois apenas ingressou na terceira década da existência, e tendo iniciado em 1933 sua carreira de publicista, já nos oferece entretanto vários prismas de uma personalidade literária inconfundível — sociólogo com Maquiavel e o Brasil (1931) e Destino do Socialismo (1933); crítico com o estudo sobre Augusto Frederico Schmidt e Vinicius de Moraes ( Dois Poetas, 1935); homem de pensamento com Cristo e César (1937) e Fronteiras da Santidade (1939), revelou-se romancista com Mundos Mortos e homem de teatro com Três tragédias à sombra da Cruz (1939), de que há pouco nos ocupamos. Isso, fora o grande número de obras que nos promete nos gêneros já publicados. Foram, como vemos, seis anos de verdadeira incontinência literária. Tem-se a impressão de um rio cujas águas ficaram algum tempo represadas e que, de repente, rompeu as barreiras e extravazou violentamente por dentro e por fora do mesmo leito. E o curioso é que essa incontinência literária, que carrega indistintamente o joio e o trigo, se manifesta, tal como a literatura cifrada e dirigida do sr. Cornélio Penna, por uma profunda ausência de “literatura”. Bem sei quanto é difícil graduar, na obra de um autor, os limites da intenção literária, mas se entendermos por intenção literária o propósito de simples divertimento, imaginação e descrição, adorno , ou exibição — é certo que não encontramos vestígio dessa deturpação do verdadeiro sentido da literatura na obra de qualquer um desses dois romancistas do pós-modernismo, em nossas letras. É mister, aliás, acrescentar que uma das feições típicas do romance atual é justamente essa ausência crescente de preocupação estética, que atinge por vezes o desleixo e a facilidade. No caso do sr. Octavio de Faria logo se nota essa coexistência de um borbulhamento interior de impressões e conceitos, que procuram vazão com a inexistência de qualquer propósito de atitude, de conquista, ou mesmo de objetividade estética. Sua obra de romancista, de teatrólogo, de critico ou de sociólogo se passa exclusivamente (ou aspira a passar) no plano da Verdade. Pode-se mesmo dizer que só a Verdade o interessa. E como ainda não a encontrou ou, antes, perdeu-a e ainda não conseguiu descobrir o caminho de volta — debate-se violentamente contra tudo e contra todos que possam, de qualquer modo, afastá-lo desse único e supremo objetivo. Daí o caráter trágico ou mesmo pessimista de sua obra de romancista, de político ou de publicista. É em tudo um antiburguês, um anticonformista. Daí também a sua preocupação pelo problema da santidade, de que oportunamente nos ocuparemos, mesmo sem ter resolvido os problemas políticos, sociais ou literários que a vida tem desdobrado em seu caminho. Não se conforma com as meias verdades, a meia beleza, a meia honestidade, a meia autoridade, essa mediocridade normal da vida que é a maior das armas com que o Demônio combate a lei de Deus. Seu amor simultâneo a Cristo e a Cesar, que a muitos pode inquietar ou parecer uma traição (aos cesaristas uma traição a Cesar, aos cristãos uma traição a Cristo), e que ele procurou sustentar dramaticamente, como tudo que escreve (pois é sempre dramático e polêmico) — é uma das modalidades da sua revolta perene contra essa terrível desdignificação do homem, com que a vida vai polindo as arestas mais vivas. O sr. Octavio de Faria, longe de deixar que as ondas da idade venham polir as arestas dos seus rochedos interiores, reage sempre e procura mesmo violentar-se, contanto que possa aguçar, com isso, a sua cidadela intangível ou “intocável”, segundo um dos termos que só ele usa e que sempre voltam em seu estilo, tantas vezes descuidado e deselegante. Não “à dessein”, como faria um esteta requintado, mas pelo acúmulo de águas interiores que o rio tem de desaguar constantemente. O autor do Destino do Socialismo começou por dois livros de violenta realidade política e de realismo sociológico desabusado. Em face do grande júbilo dos “homens de ação”, que já festejavam o aparecimento de um “homem”, na novissima geração — lançou o seu “non possum” e firmou-se no seu terreno puramente intelectual. Essa incapacidade congênita para a ação talvez lhe proviesse, não apenas de um temperamento totalmente introvertido, mas ainda de sua sede de absoluto, de sua insatisfação pelas meias-realizações que a ação exige, mormente num meio conformista e complacente como o meio brasileiro. Sentindo fechadas, por natureza, as suas comunicações como esse campo de ação, que tanto amava de longe, por ser aquele em que a vida mais se realiza em seu vigor indomável, jogou-se então no romance como um refúgio. Era uma tribuna mais ampla para proclamar, de dentro de sua aparente misantropia intratável, o seu doloroso amor pelos homens, pela tragédia dos homens. E começou então a escrever a tragédia de sua classe, a tragédia burguesa. Em Mundos mortos era o drama da adolescência, como também Os caminhos da vida, em que volta à infância por vezes, e por vezes começa a invadir o limiar da mocidade. As figuras de Branco e Pedro Borges Borges, que haviam surgido pouco a pouco da penumbra dos adolescentes indistintos de Mundos Mortos e tinham chegado à luta corporal à saída do enterro de Carlos Eduardo — voltam a ser as figuras centrais de Os caminhos da vida. Carlos Eduardo fora o anjo que Branco venerava, na sua eterna procura do absoluto e da pureza, nesse “angelismo” que nos tortura antes de encontrarmos a Deus. Branco, em que tantos traços autobiográficos repontam, é a busca ansiosa da verdade, o homem interior, sensível, delicado, ferido pela brutalidade e pela vulgaridade do mundo. Pedro Borges, ao contrário, é o adolescente convencional e vulgar de nossos dias, ávido de conquistas, brutal, fescenino, desabusado, imperioso e vitorioso na luta de ódios, espertezas e instintos que a vida nos reserva. A luta entre os dois prossegue em nós, através desses novos tomos do romance. E é toda a vida interior e exterior da adolescência que continua a projetar-se ao longo dessas páginas estuantes de vida, de sofrimento, de experiência, de desespero tantas vezes, e muito vagamente ainda dessa esperança transcendental, desse apelo a Deus, dessa vocação divina que ilumina de longe as trevas duríssimas dessa vida angustiada de Branco e que, só ela, pode satisfazer essa alma toda cheia da grandeza e da miséria do ser humano. Literalmente, o que me parece mais forte no livro é o episódio de “Geralda ou o ninho entre os astros”, no qual o autor nos apresenta um verdadeiro poema dos olhos, do Olhar, desse sentido do contato dos tímidos com as coisas do mundo, que Machado de Assis multiplicou em sua obra e culminou no famoso episódio do penteado de Capitu. O prelúdio de Tristão e Isolda, em que o tema do olhar, antes, durante e depois do filtro, nos envolve em suas chamas de modo aniquilador, é a música que conviria ouvir para lermos alto as páginas em que Branco faz Geralda “nascer” sob as chamas concentradas, ardentes e distantes dos seus olhos. (Artigo publicado em O Jornal, em 14 de Janeiro de 1940. O Jornal foi o primeiro órgão de imprensa de Assis Chateaubriand, célebre pelo império jornalístico dos Diários Associados. Fundado em 1919, O Jornaldeixou de circular em 1974.)
- Respondendo as objeções dos ortodoxos (Parte II)- Ecumenicidade de Lyon/Florença, Patriarcas, Câno
Nosso interlocutor Max respondeu à postagem anterior. Seus comentários estão negrito, minhas respostas em letra normal: Eric Ybarra parece esquecer que os concílios de reunificação de Lyon (1274) e Florença (1439) foram convocados com o objetivo EXPLÍCITO de re-unir as Igrejas orientais separadas com a Igreja de Roma. Como Lyons (1274) e Florença (1439) podem ser descritos como “Concílios ecumênicos” quando as igrejas orientais os rejeitaram? São Lyons (1274) e Florença (1439) “Concílios ecumênicos” porque o Bispo de Roma decidiu arbitrariamente e unilateralmente que eles deveriam ser “Concílios ecumênicos”? Lyons 1274 é ecumênico, para iniciantes, porque tinha representação universal. Cerca de 500 bispos, 60 abades, 1000 prelados, ao lado de reis ou seus representantes … incluindo os embaixadores do imperador Miguel Paleólogo que trouxe uma carta do Oriente assinada por 50 arcebispos e cerca de 500 bispos. O presidente deste concílio, Gregório X (Canon de Lyons), ao celebrar a missa cantou o Credo, e foi feito em latino e grego, e que incluiu “qui a patre filioque procedit”, que o clero grego cantou três vezes. Em segundo lugar, porque foi ratificado pelos bispos presentes, bem como pelo Papa de Roma. Além disso, não que isso signifique algo em particular para os católicos, mas, já que os ortodoxos amam a autoridade do grande imperador Justiniano I, mencionarei que Paleólogo e seu filho, Andronikus, escreveram uma carta ao Papa reconhecendo sua supremacia eclesial. Após o término do Concílio, o plano de reunião parecia alcançado por Paleólogo, mas, em última instância, o clero bizantino toleraria. Embora, João XI Bekkos, que ocupou a Sé de Constantinopla depois que o concílio já havia sido completado, fosse um ardente defensor da união com os latinos. No entanto, em 1282, apenas 8 anos após a conclusão do Concílio de Lyon, Paleólogo morreu e a reunião com os latinos foi repudiada oficialmente no Concílio de Blaquerna em 1285 sob o filho de Paleólogo Anronikus. Bekkos, que havia feito campanha para apoiar a reunião, acabou por ser exilado e preso até sua morte perto de 1300. Para os católicos, um Concílio Ecumênico é válido após sua conclusão, com uma natureza a priori vinculativa. Não é mantido no suspense de reação (cf A.S. Khamiokov). Se fosse esse o caso, Calcedônia teria que ser apagada da lista de Concílios, a menos que os ortodoxos desejassem sugerir que ele se tornou ecumênico apenas sob Justiniano com a Fórmula de Hormisdas ou Constantinopla III. Mas, mesmo assim, isso representa um problema. É uma situação semelhante para o concílio de Florença, continuação de Basiléia. A reunião do ocidente latina e das igrejas orientais parecia ser garantida, mas porque, em última instância, o clero bizantino, por razões diversas, da qual a coação é uma, rejeitaram a reunião enquanto os delegados gregos retornavam a Constantinopla. O Concílio foi oficialmente repudiado em Constantinopla, especialmente quando o saque da cidade veio em 1453. Agora, se os gregos foram mantidos completamente sob a coação, é um assunto que ainda está sendo discutido até os dias de hoje; e certamente devemos ter cuidado com o efeito que damos à coação, já que muitos poderiam ter sofrido isso nesses concílios que são incontestáveis. O que é conhecido de forma objetiva é que a representação oriental foi alcançada em ambos os casos e sob o imperador dos bizantinos, e esse consenso foi alcançado num acordo. Os católicos continuam a classificá-los nas listas oficiais dos concílios, se não por qualquer outro motivo, do que pelo fato de que as doutrinas nele ensinadas receberam a aprovação do Papa, o que, pelo menos, obriga a submissão da mente e da vontade. Mas se um cristão ortodoxo que detém a teoria de “ecumenicidade” de Khamiokov , poderia se pergunta por que qualquer cristão ortodoxo teria naúseas com a Igreja católica que enumera Lyon II e Florença como ecumênicos, desde que o ocidente o recebeu e o episcopado oriental, como agora, não possui um direito jurisdicional de deliberar sobre a doutrina, uma vez que são separados da comunhão da Sé romana. Em outras palavras, assim como os calcedonianos ortodoxos não têm nenhum problema em relação a Calcedônia como ecumênica, apesar da rejeição do Egito / Síria / Etc, Etc, já que foi eventualmente aceito pelo *verdadeiro* episcopado, eles não deveriam ter nenhum problema com os católicos que numeram Lyon II e Florença, como universalmente abraçados ao longo do tempo. Eric Ybarra parece esquecer que a Igreja Católica moderna consiste na Igreja Católica Romana (Rito Latino) e 23 igrejas católicas orientais sui iuris em comunhão com Roma Não, eu não esqueci. 🙂 O ponto que eu estava fazendo sobre a estrutura artificial dos Patriarcados, Metropolitanos, etc., etc., era que eles não eram instituições diretas de Cristo ou Seus Apóstolos, e, portanto, eles são livres para ser usados pela ekklesia divina para a melhor gestão da comunhão e da administração universal. Dito isto, não podemos dimensionar a Igreja essencialmente de acordo com esses padrões de medição, de modo que, como Max infelizmente tentou fazer, dizemos que quando Roma “separou-se da Igreja” no século XI (xx?), Ela se separou como um único Patriarcado versus o total de outros quatro Patriarcados, implicando que Roma era como 1/4 da igreja universal. Não funciona dessa maneira. Cristo instituiu o Apostolado, e o Apostolado continua no Episcopado que é dividido em igrejas individuais lideradas por um único bispo, todos coesivamente unidos pelos laços eclesiásticos da unidade. Então, se alguém desejasse dar uma descrição verdadeira de quem rompeu com o que, ele precisariam categorizar igrejas / bispos em seu menor denominador comum. Isso muda toda a perspectiva. Também parece estranho que os legados do Papa St. Leão, no Concílio de Calcedônia, também reconhecessem a ordem e as divisões patriarcais e perguntaram por que o Patriarca St. Flaviano não tinha recebido o segundo lugar no concílio de Éfeso (II), com o legado chefe Pasquali dizendo ” Queremos, por favor, Deus, reconhecer o presente bispo Anatólio de Constantinopla como o primeiro [ou seja depois de nós], mas Dioscoro fez a Flaviano o quinto. Antes de responder a isso, gostaria de notar que, como católico, não sou responsável por responder aos pontos de vista dos legados papais, particularmente quando sua posição é diretamente contrária à posição do próprio Papa, seu ordinário e superior. Em segundo lugar, por mais que esses legados organizassem o assento no Concílio, os mesmos legados provaram-se contrários ao 3º cânone de Constantinopla 381, que atribuiu a Igreja de Constantinopla o 2º lugar após a Velha Roma, estando à frente das Igrejas de Alexandria e Antioquia; durante o qual mostraram certeza sem hesitação de que o papa Leão, seu superior, não aprovaria o 28º cânon que procurava renovar o 3º cânone do Concílio de 381. Qualquer um pode ler isso por si mesmo na 16ª sessão do Concílio. Então, por isso, eu digo para o leitor neutro, ele pode escolher o seu lado. Mas para os católicos, o Papa estabeleceu o padrão para os legados, e eles explicitamente admitem esse fato. A melhor questão sobre este assunto é por que o Patriarca Anatólio, o suposto líder do Conselho depois de Roma, e quem teve o apoio do Imperador Marciano, submeteu-se à anulação de Leão não apenas ao 28º cânone, mas ao 3º cânone do Concílio de 381? Por que o papa Leão foi permitido desconsiderar os cânones sancionados pelo Concílio nesse ponto? Parece estranho que os próprios Papas de Roma usassem o título de “Patriarca do Ocidente” até que o Papa Bento XVI eliminasse o título “Patriarca do Ocidente” do Annuario Pontificio – o diretório anual da Santa Sé relativamente recente em 2006. Mais uma vez, admiro o título de “Patriarca do Ocidente”, mas a explicação do meu propósito em trazer isso não tem nada a ver se é um título útil ou não. Veja acima. SIM! O Oriente foi assolado por uma heresia após a outro no primeiro milênio do cristianismo, MAS foram os Sete Concílios Ecumênicos da Igreja indivisa do primeiro milênio do cristianismo tiveram apenas ratificar / carimbar o que Roma decretou nas linhas de “Roma falou, o caso está encerrado “? Às vezes sim. Às vezes, não. Mas isso é inteiramente irrelevante, já que o próprio Papa sempre lidaram com problemas nos Concílios dentro da Sé Apostólica. Então sinto um espantalho aqui. Parece estranho que o Sexto Concílio Ecumênico tenha condenado o Papa Honório por heresia, quando tudo o que ele fez foi expressar sua opinião pessoal (theologumen) em uma capacidade não oficial. Os apologistas católicos romanos também geralmente tentam salvar o dogma da infalibilidade papal do caso de Honório ao dizer que ele não estava dando uma declaração ex cathedra, mas apenas sua opinião como teólogo particular. Portanto, ele não foi condenado em sua qualidade oficial como o papa. De acordo com a Igreja Católica Romana, existem certas condições que devem ser cumpridas para o ensino do papa para se enquadrar nas diretrizes gerais daquilo que é considerado. Ele deve estar ensinando na sua capacidade oficial como o Papa e ele deve estar definindo a doutrina para toda a Igreja. A afirmação feita é de que Honório não cumpriu essas condições. Não concordo que Honório tenha manifestado sua opinião pessoal. Ele deu uma ordem direta, e certamente estava em capacidade oficial. Parece-me que Max entendeu mal a distinção entre o magistério ordinário, mesmo o ordinário papal, com extraordinário magistério papal. Todas as formas de ensino magisterial são “oficiais”. Mas, como eu disse no post anterior, esta é uma situação muito rara, e é argumentável se Honório era um monotelista de qualquer forma. E não faz sentido apelar para a inteligência do Concílo sobre a questão do status pessoal de Honório. Max deveria saber isso mais do que ninguém, já que o Concílio de Calcedônia ou o Concílio de Constantinopla II entenderam errado sobre os autores dos Três Capítulos. O que significa que Constantinopla III é absolutamente infalível na determinação de Honório como herege monotelista. De qualquer forma, o Concílio, juntamente com e sob a presidência dos Papas, sentiu o seu direito de condenar os escritos de Honório como heréticos, e o Ocidente persistiu nessa crença ainda depois. Na verdade, até hoje, ainda é admitido que um papa, mesmo usando sua magistratura oficial, possa errar e ser condenado – especialmente pós-mortam AGORA, sabemos o que as falsificações de Simaquianas são em RETROSPECTO, as pessoas naquela época não tinham esse luxo e, obviamente, não tinham uma chance justa de distinguir a verdade misturada com mentiras Eu tenho que dizer que estou desapontado com o fato de Max ter respondido dessa maneira. Aqui está uma oportunidade perfeita para admitir que ele estava errado. Eu afirmeioriginalmente o fato de que os gregos que foram vítimas do controle Monofisista no Oriente durante o início do século VI acreditavam que o bispo romano era sucessor de Pedro por uma lei única e divina dada por Cristo ao próprio Pedro e que continua hoje com a prerrogativa de um pastorado universal sobre a Igreja. Max afirmou isso como falso (?) Com base nas bem conhecidas falsificações de Simaquianas. Esta carta dos gregos não tem nada a ver com a coleção de falsificações. Nem as cartas de St. Avito e St. Enódio, nem a descrição do sínodo italiano. A melhor coisa a fazer aqui é admitir que a objeção de falsificação era inteiramente irrelevante, deixando minha reivindicação original ainda em pé. “De acordo com o Dr. Klaus Schatz, as falsificações Simaquianas foram apenas para obter o princípio” a primeira Sé não é julgada por ninguém”no direito canônico. Os redatores da falsificação já conheciam a existência válida do princípio sob o pontificado do papa Gelásio. “O que é ” existência válida “? Erick está se referindo a um cânone de igreja específico da Igreja indivisa ou um Concílio Ecumênico? As reivindicações que favorem a sí mesmo constituem “existência válida”? Esta resposta empurra a objeção errônea de Max com as falsificações Simaquianas pra baixo do tapete, e então procura minar a validade do princípio de “A primeiro Sé não é julgado por ninguém”. Claramente, o sínodo italiano, Avito, Enódio e Gelásio de antemão mantiveram a sua validade. Gelásio estava sem dúvida se referindo aos cânones de Sardica, que foram ratificados através de Trullo de 692 para os bizantinos. Mas mesmo assim, Sardica tinha a representação de Roma, Alexandria, Espanha, Gália, Ilírico, Palestina e outros lugares, mesmo no Oriente. Há mais em Sardica do que normalmente ocorria. Por fim, seus heróis espirituais do Oriente, como St. Teodoro, o Studita, veneraram papas como St. Leão e St. Inocêncio, e particularmente pelo envolvimento com questões ecumênicas, e Max diz que eles estavam famintos de prestígio, fazendo a si próprios grandes alegações. Pergunto-me se Max poderia ser bem recebido pelos santos orientais do século 8/9, dado as declarações que ele fez sobre as afirmações do Papa por sua posição divinamente autorizada. Eric Ybarra não consegue distinguir entre a fé petrina (que todos os bispos ortodoxos devem confessar), a sucessão petrina (na Sé de Roma, Alexandria e Antioquia) e a Primazia petrina (anteriormente mantida por Roma por causa do status da cidade como a antiga capital imperial). Não vejo motivo para discutir aqui, pois não estou de acordo com isso. O que realmente aconteceu aqui, no entanto, é que Max, inicialmente, queria que seus leitores soubessem que St. Gregório supostamente considerava que a Sé de Pedro era realmente uma única Sé em uma localização tripartida, a saber, Roma / Alexandria / Antioquia. Isso, suponho, prejudicaria a singularidade reivindicada pelos católicos em relação à Sé romana de Pedro. Que Max pretendia que isso fosse claro devido ao seu apelo a São João Crisóstomo e São Teodoreto de Ciro sobre a Sé de Antioquia. No entanto, como mostrei na minha publicação anterior, St. Gregório foi muito claro sobre a subordinação de todas as igrejas sob Roma, e isso é admitido por ambos estudiosos anglicanos e luteranos (Kelly & Pelikan), ambos citados amplamente no campo dos estudos O que acontece quando a ortodoxia do primata universal é questionada pelo resto da Igreja e quando o primata universal só goza de apoio dentro de seu próprio Patriarcado? Antes de respondermos a esta questão, Max precisa mostrar que as igrejas orientais estavam pelo menos conscientes de uma divinamente instituição petrina criada pelo episcopado cristão. Quando eles vierem a admitir isso nos dados patrísticos, então eu posso falar sobre o assunto e o cenário da falha papal. Até que eles reconheçam sua existência, qual é o ponto em discutir? Além disso, há material de dados suficiente no debate para determinar a questão da última frase, mais do que a pergunta original. O Concílio Latrocida em Eféso (449) foi repudiado apenas porque o Papa Leão derrubou os decretos em Éfeso ou porque o resto da Igreja (com exceção de Dioscoro e seus capangas de Alexandria) se opunham a este Concílio por o considerar um concílio “latrocida” ? O sínodo latrocída foi repudiado porque ensinou heresia e cometeu uma ofensa grave de concluir um concílio para a Igreja em oposição à Sé Apostólica. Veja a carta de São Fulgêncio de Ruspe a Pelágio, o diácono romano que acompanhou o Papa Virgílio (e quem seria seu sucessor). Veja também o registro de admissão dos patriarcas orientais ao Papa Virgílio na Igreja de São Eufêmia enquanto o Papa mantinha um santuário ali. Então, leia a abertura da sessão 1 de Calcedônia, onde os legados do Papa disseram que é impossível concluir um sínodo universal sem o acordo da Sé Apostólica. Você também pode ler a carta de Gregório em que ele disse que as atas do Sínodo não têm autoridade ecumênica até serem ratificados pela Sé Apostólica. Então veja também as declarações feitas pelos monges studitas do século VIII, bem como por Santo Inácio de Constantinopla, juntamente com São Nicéforo, Patriarca da mesma igreja. Nenhuma dessas pessoas atribuiu este direito à Sé romana com base na legislação canônica, mas na instituição divina do Senhor Jesus e seu investimento de governança eclesial universal na pessoa e sucessora de São Pedro. Quanto ao cânon 28, Roma aceitou o lugar de Constantinopla por escrito em 869 e não teve nenhum problema com Constantinopla sentada em segundo lugar em 451 (de fato, os legados papais repreenderam Dioscoro por não colocarem Flaviano em segundo lugar em Éfeso, então é realmente uma questão de Roma renunciando a um cânone) Certo. Na verdade, acho que o Papa Leão deveria ter permitido a Constantinopla ter 2º lugar em Calcedônia. Obviamente, com alguns esclarecimentos na extensão do texto canônico. Doroteu, bispo de Tessalônica, rasgou a Fórmula de Hormisdas em dois na frente do povo. Ele foi levado a Constantinopla para julgamento, exilado para Heracléia enquanto o caso dele estava sendo considerado, mas depois restaurado para a sua Sé em Tessalônica sem nunca assinar a Fórmula. O imperador Justino escreveu a Hormisdas que muitos achavam difícil assinar o libellus: “estimam a vida pouco mais que a morte, se tivessem que condenar aqueles, quando mortos, cuja vida, quando eles estavam vivos, eram a glória de seu povo”. Em resposta, o Papa Hormisdas exortou o imperador a usar a força para obrigá-los a assinar. De acordo com o Papalismo de Denny (referenciado em Moss’s The Old Catholic Movement), os outros patriarcados do Oriente se recusaram a assinar esta declaração e foram reconciliados através de um acordo diferente. O patriarca João foi sucedido por Epifânio em 520. O Patriarca Epifânio (520-35) escreveu ao papa para explicar que “muitos dos santos bispos do Ponto e da Ásia e, acima de tudo, os referidos como do Oriente, acharam difícil e até impossível expulgar os nomes de seus ex bispos … eles estavam preparados para enfrentar qualquer perigo em vez de cometer tal ação “. O Papa Hormisdas escreveu ao Patriarca Epifânio e deu-lhe autoridade para agir em seu nome no Oriente. Nesta carta, Hormisdas tornou a restauração da comunhão dependente de concordar com uma declaração de fé que deixou sem mencionar as prerrogativas reivindicadas do bispo de Roma “. Este revisionismo histórico é absolutamente embaraçoso. Já faz mais de 100 anos que os anti-papalistas escreveram desta maneira com relação à transação entre o Papa Hormisdas e Justino/ João / Epifânio. Em primeiro lugar, o verdadeiro motivo pelo qual o bispo de Tessalônica destruiu a FdH em duas na frente do povo era porque se opunha ao Concílio de Calcedônio, ao Tomo de Leão e ao Papa Hormisdas, pois este último manteve o primeiro . Dorote juntou-se ao grupo de Timóteo I de Constantinopla, uma aristocrata monofisita, ordenado pelo imperador Anastácio. O Imperador acabara de depor o ex-Patriarca Macedónio II por se recusar a condenar o Concílio de Calcedônia. Ao se juntar ao partido anti-Calcedôniano, Doroteu encontrou algum conflito com o episcopado Grego e Ilírico. O grande estudioso bizantino, Pe. Adrian Fortescue, descreve a situação: “Doroteu de Tessalônica passou para o partido de Timóteo I de Constantinopla, agora cada vez mais abertamente Monofisita. Assim, em 515, quarenta bispos de Ilírico e Grécia se separaram dele e realizaram um sínodo, que enviou legados a Roma para anunciar que desejavam a comunhão com a Santa Sé [Romana] . No ano seguinte, 516, um sínodo no sul de Ilírico, na antiga província de Epiro, escolheu um certo João para ser Metropolitano de Nicópolis. João enviou um diácono, Rufino, para anunciar sua eleição ao papa Hormisda; ele afirma sua adesão a Calcedônia e a repulsa aos chefes monofisistas; Ele declara que adere sem reserva à carta dogmática de Leão o Grande [Tomo], e pergunta ao Papa o que ele deve fazer. Todos os membros do Sínodo, ao mesmo tempo, enviam uma carta ao Papa, pedindo-lhe que reconheça o seu novo Metropolita. O Papa então diz a João para ser fiel à fé católica; ele envia por um subdiácono, Pullio, um Indiculus, isto é, uma instrução sobre como os cismáticos devem ser reconciliados com a Igreja. Em uma segunda carta, ele envia uma fórmula a ser assinada por todos os que desejam a comunhão com a Santa Sé. Esta fórmula é a Fórmula de Hormisdas. Foi assinado por todos, como veremos; então Ilírico voltou à unidade com Roma. “(The Reunion Formula of Hormisdas, página 10-11). Fica pior. Lemos acima que João, Metropólita de Nicopolis, tornou-se um defensor de Calcedônia. Doroteu era realmente um perseguidor dos ortodoxos em Ilírico, inclusive usando o governo secular para impor resistência àqueles que acreditavam no Tomo de Leão. Eventualmente, com recursos suficientes, Hormisdas conseguiu velar para que Doroteu fosse julgado em Constantinopla por seus crimes (ver A dictionary of Christian biography and literature to the end of the sixth century A.D., with an account of the principal sects and heresies, page 280). Então, você tem isso. Sem saber disso, tenho certeza, Max faria que seus leitores encontrassem apoio contra a teoria do Papa explicada na Fórmula de Hormisdas pela resistência de um herege monofisista que perseguia os ortodoxos, e foi obrigado a prestar contas por esse comportamento criminoso mesmo pela corte de Constantinopla. Muito pelo contrário da implicação de Max, descobrimos que o bispo metropólita de Nicópolis, bem como muitos no episcopado grego e ilírico, pensavam com muita estima sobre a Fórmula. Qual é a implicância sobrou para Max além da retirada de suas reivindicações contra este evento pró-Papal? Se Max desejasse alcançar uma testemunha contra as reivindicações papais pela reação de Doroteu à Fórmula de Hormisdas (que a rasgou em duas), isso só prova que o que estava escrito na Fórmula por Hormisdas eram na verdade autênticas reivindicações papais, o que significa que Roma do século VI era papalista. E se isso fosse verdadeiramente o caso, isso piora ainda mais, uma vez que os Patriarcas orientais entraram em comunhão com Roma papalista para escapar do cisma, quando, dada a coordenação dos fatos de Max, isso só os colocava em estado de heresia e cisma novamente. Mas eu divago. Especialmente porque os fatos mostram que a verdadeira razão de Doroteu para rasgar a Fórmula foi seu protesto contra Calcedônia e o Tomo do Papa Leão. Agora, no que diz respeito ao envio da Fórmula de Hormisdas para o Oriente, através do Imperador Justino I. A afirmação feita por Max é que os bispos orientais puderam criticar os conteúdos e, em particular, as descrições da autoridade do Papado. O Papa Hormisdas havia escrito que o Senhor Cristo havia prometido construir a Sua Igreja na rocha de Pedro, e que isso foi provado desde que “in sede apostólica inviolabilis semper Catholica custoditur religio” (na Sé Apostólica a religião cristã sempre foi mantida inviolável) . Então, há condenações de pessoas específicas. A lista contém Nestório, Eutiques, Dioscoro, Timóteo, o gatuno, Pedro de Alexandria, Acácio e Pedro de Antioquia. Estes nomes, bem como aqueles que não mantêm a comunhão com a Sé Apostólica, devem ser banidos dos dípticos sagrados. E então a Fórmula afirma que aqueles que assinar devem seguir Roma em todas as coisas, pois é “na Sede Apostólica que a perfeita solidez da Igreja [perfecta soliditas, a Rocha] reside”. Em março de 519, o Patriarca de Constantinopla, João, assinou a Fórmula sem qualquer subtração das reivindicações do Papa. Depois disso, Justino deu ordens no mês seguinte que todos os bispos de todas as províncias deveriam assinar também. Veio a descobrir que alguns bispos foram extremamente difíceis de persuadir em remover de seus dípticos os nomes que eram mantidos preciosos pelo seus rebanhos, mas que não eram calcedonianos. Justiniano então enviou uma carta posterior a Hormisdas, descrevendo as dificuldades. Agora, é importante entender que esses bispos não encontraram dificuldade em expurgar os nomes de Acácio, Dioscoro, Timóteo, o gatuno e os dois Pedros, mas sim eles se recusaram a remover os nomes desses bispos que estiveram envolvidos no cisma acaciano que eles pensavam que eram homens santos de Deus. Agora, vamos parar por um momento. Os bispos orientais buscavam tão meticulosamente serem honesto na assinatura da Fórmula, que passaram o tempo extra escrevendo a Justino e esperando que Justino escrevesse ao Papa, expressando sua dificuldade em remover os nomes de certos homens do cisma acaciano que eles acreditavam serem dignamente incluído nos dípticos. Se eles eram tão honestos, por que não ouvimos nada de seu protesto contra as reinvidicações Papais ? Nenhum protesto no registro. Interessante, de fato. E assim, Justinino implorou a Hormisdas para demonstrar alguma clemência e permitir uma dispensa para essas igrejas específicas. E note, este foi um problema para todas as igrejas orientais. O Papa escreveu de volta a Justino deixando a determinação disso para Epifânio, Patriarca de Constantinopla, e afirmou que ele manteria comunhão com quem que Epifânio considerasse digno, mas ainda assim eles tinham que assinarem no resto da Fórmula em todo o sentido em que foi originalmente escrita. Agora, pause. Se Hormisdas pensou que havia uma ameaça de se rejeitar as reivindicações papais feitas na Fórmula, por que ele transferiria o tribunal desta questão para o Patriarca de Constantinopla? Isso seria absurdo, na verdade. Mas a realidade era que não havia uma sugestão de rejeição das reivindicações papais. Somente essa questão da expurgação de nomes dos dípticos. O que Max fez, a partir do apoio à erudição precipitada, é afirmar que, quando Hormisdas permitiu que Epifânio tomasse o libelli das igrejas orientais sem expurgar todos os nomes de certo clero do cisma Acaciano, as igrejas orientais escreveram intencionalmente uma nova Fórmula de fé eliminando as reivindicações papais, de modo a evitar concordar com elas, ainda cumprindo a necessidade de comungar com Roma. No entanto, como mencionei acima, não há objeção às declarações papais da Fórmula por esses bispos. Se fossem honestos o suficiente para negar seu acordo e assinatura porque não podiam cumprir todas as exigências do pedido original da Fórmula, por que eles não mencionariam sua honesta objeção às declarações feitas sobre Pedro e a infalibilidade da Sé Apostólica ? É como se Max entendesse que esses bispos orientais secretamente acordaram a reunião em seus próprios termos sem queixar-se explicitamente sobre suas objeções papais. E se lermos o novo Libelli que foi escrito a Justino a partir dessas igrejas orientais, eles o prefaciaram com uma paráfrase da reivindicação papal original: “… a Igreja de Deus, que descansa sobre a rocha do chefe dos apóstolos, mantendo uma confissão certa e inflexível, confiante com ele exclama sempre: “Tu és o Cristo, o Filho do Deus Vivo” (Mansi viii.511). Agora, a indulgência de Hormisdas veio com um requisito claro. Dom John Chapman escreve sobre isso: “Epifânio é para realizar o seu julgamento. Ele deve transmitir à Sé Apostólica uma lista de todos os que ele reconcilia, anexando o conteúdo dos Libelli enviados (Mansi viii. 1032). Esta profissão deve ser fiel à fórmula original, ‘eodem tamen, ut dixi, tenre conscriptam’ (ibid., 1036). Da mesma forma, em sua carta ao Imperador, o Papa diz que Epifânio pode admitir a comunhão àqueles que são dignos, libelli tamen, qui a nobis interpositus est, tenore servato (ibid. 520) … Nada pode ser mais certo de que nenhum bispo do Oriente foi admitido na plena comunhão católica, exceto nos termos de Roma … não há provas de qualquer objeção tenha sido feita, exceto na medida em que implicava a omissão nos dípticos de ex bispos que realmente eram ortodoxos , e tinha apenas caído em um cisma inevitável por culpa do Imperador. “(The First Eight General Councils and Papal Infallibility, page 45 footnote 4). Espero que Max e seus informantes, se ainda estão por aí, façam uma retirada pública desta reivindicação das igrejas orientais que modificam a Fórmula para se adequar à sua própria teologia, que é anti-romana. Seria muito falso que essas igrejas encontrassem restauração da plenitude da unidade eclesial, mantendo suas próprias convicções anti-romanas. Esses ex-cismáticos não estavam em posição de começar a representar a visão correta do Episcopado, e, no entanto, é provável que o Max faria seus leitores pensarem o contrário. E acho que a parte mais fraca do argumento de Max é que, mesmo que fosse o caso que essas igrejas orientais eliminassem as partes papais da Fórmula, isso significaria que era claro para eles o que Roma estava reivindicando na época e, como Roma era a Igreja que se agarrava à ortodoxia ao longo de todo esse processo, ela parece uma escolha preferível de testemunha confiável. Se não pelo motivo declarado, então pelo motivo de que eles estavam clamando para manter um acordo com a Santa Sé, mas em seguida, rejeitaram implicitamente certos ensinamentos dela. Por último, se eles estavam sendo falsos, por que usá-los como testemunhas confiáveis de qualquer maneira? Quando o Patriarca João II de Constantinopla aceitou a Fórmula de Hormisdas, ele fez isso com a qualificação: “Eu declaro que a Sé do apóstolo Pedro e a Sé desta cidade imperial são uma”. Ou seja, o que Constantinopla reconheceu da Sé de Roma, ela também reconheceu na sua própria. A base da ascensão de Constantinopla para o segundo lugar (na época) era em razão do movimento da capital para Constantinopla, que era Nova Roma. Outro revisionismo histórico, mas mais uma questão de interpretação. Max aqui está afirmando que quaisquer prerrogativas que são declaradas na Fórmula de Hormisdas em relação a Roma sejam igualmente atribuídas à Sé de Constantinopla, a “Cidade Imperial”. É o antigo argumento do Anglicano F.W. Puller, que disse: “Será notado que, por meio deste preâmbulo, o Patriarca [João] conseguiu atenuar consideravelmente a borda de seu formulário; Ao identificar de forma curiosa sua própria Sé da nova Roma com a Sé papal da Roma antiga, ele conseguiu reivindicar para a Sé Constantinopolitana em compartilhar em todos os privilégios especiais que no formulário foram designados para a cátedra apostólica ocidental “(The Primitive Saints e the See of Rome, página 400). Mas isso não é suportado pelos fatos. Vamos ler brevemente a Fórmula de Hormisdas, e minha resposta a esta objeção será apenas seguir: ”A primeira condição da salvação é manter a norma da fé verdadeira e de modo algum desviar-se da doutrina estabelecida dos padres. Pois é impossível que as palavras de nosso Senhor Jesus Cristo, que disse: “Tu és Pedro, e sobre esta pedra, vou construir minha Igreja”, não deva ser verificada. E a sua verdade foi provada pelo curso da história, pois na Sé Apostólica a religião católica sempre foi mantida imaculada. A partir desta esperança e fé, de modo algum desejamos ser separados e, seguindo a doutrina dos Padres, declaramos anátema todas as heresias e, especialmente, o herege Nestório, ex-bispo de Constantinopla, condenado pelo Concílio de Éfeso, pelo Abençoado Celestino, bispo de Roma, e pelo venerável Cirilo, bispo de Alexandria. Nós igualmente condenamos e declaramos ser anátema Eutiques e Dioscoro de Alexandria, que foram condenados no sagrado Concílio de Calcedônia, que seguimos e endossamos. Este Concílio seguiu o sagrado Conselho de Nicéia e pregava a fé apostólica. E condenamos o assassino Timóteo, apelidado de Aelurus e também Pedro de Alexandria, seu discípulo e seguidor em tudo. Nós também declaramos anátema seu ajudante e seguidor, Acácio de Constantinopla, bispo uma vez condenado pela Sé Apostólica, e todos aqueles que permanecem em contato e companhia com eles. Porque este Acácio se uniu a sua comunhão, ele merecia receber um julgamento de condenação semelhante ao deles. Além disso, condenamos Pedro de Antioquia com todos os seus seguidores junto com os seguidores de todos os mencionados acima. Seguindo, como dissemos antes, a Sé Apostólica em todas as coisas e proclamando todas as suas decisões, subscrevemos e aprovamos todas as cartas que o papa São Leão escreveu sobre a religião cristã. E espero que eu possa merecer ser associado a você na comunhão única que a Sé Apostólica proclama, na qual reside a segurança total, verdadeira e perfeita da religião cristã. Eu prometo que, a partir de agora, aqueles que estão separados da comunhão da Igreja Católica, ou seja, que não estão de acordo com a Sé Apostólica, não terão seus nomes lidos durante os sagrados mistérios. Mas se eu tentar até mesmo o menor desvio da minha profissão, admito que, de acordo com a minha própria declaração, sou cúmplice daqueles que eu condenei. Assinei isso, minha profissão, com a minha mão, e eu direcionei a você, Hormisdas, o sagrado e venerável papa de Roma. “(Fórmula de Hormisdas) Agora, Max e Puller dizem que o Patriarca João estava disposto a dizer a Hormisdas que, independentemente do que as descrições da Fórmula falassem de Roma, falavam também de Constantinopla, certo? Mesmo? A primeira coisa que se diz de Roma é que a religião cristã sempre foi ensinada perfeitamente lá. Como Constantinopla poderia estar reivindicando uma igualdade com isso quando é a mesma Sé que estava presentemente trabalhando para sair de gande parte do cisma acaciano e da heresia monofisista? Em segundo lugar, a Fórmula envolve uma petição para manter a comunhão da Sé Apostólica, “em que reside a segurança total, verdadeira e perfeita da religião cristã”. Se João estava dizendo que Constantinopla * é essa mesma comunhão *, por que sequer assinar a Fórmula? Em outras palavras, João deveria assinar esta fórmula para entrar naquela comunhão, não provar que ele sempre foi essa comunhão Mas o que falamos da afirmação “Uma Sé”? É mais do que provável que este “unam esse” (uma Sé) significa uma proximidade da unidade. É semelhante à afirmação feita pelo Papa Gregório Magno quando diz que as Sés de Roma, Alexandria e Antioquia eram “Uma Sé de Pedro” (Epístola 7:40). Monsenhor Pierre Battifol comenta: “Isto significa dizer que o bispo de Roma e o bispo de Constantinopla estão de acordo, não que ele identifique sua própria Sé com a Sé romana “- uma frase que não tem significado. Compare a carta Quando Deus do mesmo João com o mesmo Hormisdas que mais uma vez usa os mesmos termos – e a resposta de Hormisdas a João, consideranti myhi. Coll. Avellan. 161 e 169 (pp. 612, 624) “(Catholicism and Papacy, página 123). O Imperador Justiniano permitiu uma votação no Quinto Concílio Ecumênico? Sim/não? O Papa Vigilius em Constantinopla foi convidado a participar no Quinto Concílio Ecumênico realizado em Constantinopla? Sim/não? Os “Três Capítulos” eram claramente heréticos? Sim/não ? Para # 1 – Oficialmente não, praticamente Sim Para # 2 – Sim, mas nenhum convite para o Ocidente como um todo. Nem Virgílio teve seu pedido concedido de ter seu sínodo romano antes, o que era costume. Então, você pode chamá-lo de convite, mas foi mais uma convocação em condições seculares. Para # 3 – Sim Mas aqui está o que você não está entendendo. Você pode ser teologicamente correto e estar errado. Por exemplo, um bispo perfeitamente ortodoxo da OCA pode entrar nos assuntos internos do ROCOR e começar a emitir comandos e disciplina de vinculação? Não. E se ele disser que ele se inscreve em toda a doutrina correta? Isso ainda não seria importante. Traduzido de: https://erickybarra.wordpress.com/2017/01/29/answer-to-orthodox-objections-part-2/ Parte I: https://apologistasdafecatolica.wordpress.com/2018/03/17/respondendo-as-objecoes-dos-ortodoxos-parte-i-cisma-episcopado-grego-sobre-a-primado-divino-do-papado-virgilio-honorio-concilio-vs-papa/ Parte III: https://apologistasdafecatolica.wordpress.com/2018/03/19/respondendo-as-objecoes-ortodoxas-parte-iii-codigo-de-justiniano-primazia-petrina-conciliarismo-papalismo-e-papa-honorio/
- Respondendo as objeções dos ortodoxos (Parte I)- Cisma, Episcopado grego sobre a primado divino do p
A seguir uma resposta a um interlocutor ortodoxo. Ele havia lido meu post do blog intitulado “O Ofício Papal é interno ao Episcopado, Algumas Notas sobre a Dependência Mútua dos Bispos ao Papa, Citações dos Padres da Igreja”, e ofereceu algumas objeções. Seu nome real não será mencionado. Ele será referido como Max. Seus comentários estão em negrito, minhas respostas estão no texto normal. Onde está a evidência disso nos concílios falsos de reunificação de Lyon (1274) e Florença (1439) que foram REJEITADOS pelas Igrejas orientais e só tiveram o apoio do Bispo de Roma dentro de seu próprio Patriarcado (ocidental)? O autor desta afirmação anulou a constituição natural do governo da Igreja em preferência à governança patriarcal. É fato que a governança patriarcal não foi instituída por Jesus Cristo, nem pelos apóstolos, nem pelos primeiros bispos durante vários séculos. O que Cristo estabeleceu? Ele estabeleceu os 12 apóstolos que formaram um colégio administrativo e uma sociedade missionária. O que Cristo estabeleceu através dos Apóstolos? Ele estabeleceu os sucessores aos apóstolos, bispos, que são formados, como os apóstolos, em um colégio governo e sociedade comissionada. Dentro deste Colégio, há uma distinção entre chefe e membros, papa e bispos. Depois as organizações metropólitas e patriarcais posteriores foram organizações criadas pela Igreja para o melhor gerenciamento das igrejas. O último não pode ser usado para dimensionar qualquer um em um único agrupamento. Há igrejas com seus bispos. A igreja de Roma tem o sucessor de Pedro. Assim, a igreja de Roma é chefe central do episcopado mundial e os bispos / igrejas que a cercam em uma unidade administrativa compacta e visível. Assim, quando Max aqui faz uma medição da igreja universal nas divisões patriarcais, desconsiderando os bispos e o Papa que concordaram com os decretos de Lyon e Florença, ele está desconsiderando as instituições fundamentais e divinas e até mesmo as confunde com as fronteiras patriarcais. Mais uma coisa – eu me pergunto onde Max teve a ideia de que o Patriarcado de Roma era automaticamente todo o ocidente. No concílio de Nicéia, o cânon 6 aludiu aos direitos comparavelmente quase-patriarcais sobre a Itália suburbicaria, que não abrangia a Gália, a Espanha, a Inglaterra, o que se tornaria terras francas, a África, etc., etc. Então, o que há entre o Concílio de Nicéia e os grandes concílios, como Eféso 431 e Calcedônia 451, que automaticamente fez com que todas essas sés ocidentais fossem parte do Patriarcado Romano? Claro que Roma era uma mãe missionária para essas igrejas, mas isso não implica o que foi afirmado. A mãe original era a igreja da cidade de Jerusalém, e ainda assim o mundo não é um grande Patriarcado de Jerusalém. Muitas outras questões poderiam ser levantadas Erick Ybarra escreve: “Mas, podemos perguntar, o Papa pode ir contra todo o episcopado?” -> Isto é EXATAMENTE o que aconteceu quando Roma entrou no cisma e se separou dos antigos Patriarcados de Jerusalém, Antioquia, Alexandria, Constantinopla e praticamente toda comunidade eclesiástica mencionada no Novo Testamento! Mais uma vez, outro dimensionamento patriarcal da ekklesia divina, e chegando à conclusão errada portanto. Além disso, esta parte adicionada “praticamente toda comunidade eclesiástica mencionada no Novo Testamento!”, só tem poder suficiente para se virar e atingir como alvo o atirador original. Durante o século 4, muitas igrejas orientais entraram em uma confusão ariana e corromperam a pura doutrina de Jesus Cristo. Muitas dessas igrejas faziam parte do agrupamento que Max fornece. Isso tem algum significado? O suficiente para transformar seu argumento em uma patética inconsistência? Eu acho que sim. Mas isso só piora. A condenação de São João Crisóstomo, eventualmente compartilhada pelos “Patriarcados” de Cpla, Alex e Antioquia. Eram essas igrejas as comunidades eclesíasticas do novo testamento ? Em caso afirmativo, quais as implicações a seguir? E, se as implicações pretendidas por Max fossem comprovadas, não seria contraproducente? Mas então, era, de fato, apenas a Sé Romana, que havia tomado a iniciativa com o Imperador Honório / Arcadio para manter um sínodo para examinar o caso de Crisóstomo, e as Sés Ocidentais que mantiveram o nome de Crisóstomo no díptico dos mistérios. Pergunto-me, apenas que significado Max daria a uma situação em que os patriarcas orientais se separaram de um dos principais heróis da Ortodoxia Oriental, o própria língua dourada? Mas, então, quando, mais uma vez, as três principais “Sés Patriarcais” entraram no monofisismo herético, e a Sé Romana (junto com as Sés ocidentais e alguns crentes orientais no subsolo, incluindo monges) estavam sozinhos continuamente firmes em Calcedônia, ele vê qualquer significado efetivo de Roma em pé sozinha novamente, no topo do mundo herético como “o lar puro do dogma ortodoxo” (como Santo Sofrônio de Jerusalém a chamaria)? Mas Deus proibiu que a sé romana rompesse “dos antigos Patriarcados de Jerusalém, Antioquia, Alexandria, Constantinopla e praticamente todas as comunidades eclesiásticas mencionadas no Novo Testamento”.. Erick Ybarra escreve: “Cristo sempre sustenta um remanescente, se não todos, na vocação divina do Episcopado que sempre estará no lado certo da fé. Assim, por meio de acidente [da nossa perspectiva], e não por necessidade absoluta, o Papa nunca estará sozinho em seu próprio magistério papal por esse motivo “. -> Erick parece esquecer que tanto o Papa Honório quanto o Papa Virgílio foram condenados pelos concílio ecumênicos por HERESIA! Parece que, quando Max pode encontrar uma razão para minar as reivindicações papais, ele está disposto a fazê-lo mesmo quando isso significa fazêr da maneira mais anormal e extra-contextual possível. Mas então, quando se adapta à ortodoxia, ele pode esperar que seus interlocutores compreendam circunstâncias atenuantes (veja seus comentários acima em Lyon/ Florença) O Papa Honório provavelmente nem ensinou monotelismo. Mas mesmo que ele fizesse, onde ele estava pra confirmar-se no erro? Ele estava no túmulo, e sua alma esperançosamente no céu ou no purgatório se não. Seja como for, o Concílio sentiu-se livre para condenar Honório, bem como muitas outras pessoas falecidas. Isso não significa que o Concílio tenha uma autoridade superior ao Papa? Tenho certeza de que muitos pensaram nisso. Afinal, muitos não pensaram que os concílios não eram mais autoritativos do que as pontificações de seus teólogos favoritos (veja as igrejas nestorianas / coptas) ?? De qualquer forma, os católicos sempre tiveram uma resposta a esta situação. Em primeiro lugar, a promessa de infalibilidade, que o Papa Santo Agatão afirma prontamente para a Sé Romana em sua carta ao Concílio Oriental, pertence apenas a um modo específico de ensino. E não é tão mecânico quanto alguns gostariam de imaginá-lo. É um modo de onde o Papa fala como o pastor supremo da igreja, fazendo um juízo solene em relação à fé e / ou moral com a plenitude de sua autoridade dada por Deus. De fato, o papa Agatão explicou que o papa Honório não apelou à autoridade papal e à tradição de Roma quando escreveu sua carta a Sergio de Cpla. Pode-se pensar que seria totalmente anacronista pensar em alguém que assinalasse a distinção nos modos do ensino papal. Mas aí o está no século 7, por nada menos que um papa grego. O papa Leão, que ratificou os decretos, concorda com a condenação de Honório, mesmo que fosse apenas pelo o fato de ele ser negligente. Um bom caso pode ser feito, no entanto, de que as palavras da condenação ainda são muito mais fortes do que isso. O que isso prova? Que um Concílio trabalhando em conjunto com um Papa válido, examine e condene um ex-Papa por heresia. Há espaço para isso no meu ônibus. Na verdade, muitos de nós estamos orando para que isso ocorra sob o presente Pontificado, se for caso de heresia formal. É claro que as orações primeiro vão ao bem-estar de todos, incluindo o próprio Papa. Para Virgílio – Com que frequência você lê anti-papistas passarem por toda a história de Virgílio? É raro que eu escute se mencionar que a controvérsia inteira dos Três Capítulos foi uma tentativa da parte do Imperador de resolver as disputas teológicas da igreja. Isso, logo de cara, deveria sinalizar uma anormalidade que os próprios Papas haviam advertido (ver as cartas de Gelásio ao Imperador). Essa tendência começou com o imperador Constantino, e poderia, obviamente, servir a Igreja muito bem. Mas, obviamente, não serve muito a Igreja quando os governantes seculares contornam o governo da Igreja e impõe à Igreja as suas próprias regras e mandatos. Sob o poder de Justiniano, vemos isso imediatamente com seu plano dos 3 capítulos. Ele envia um edito aos patriarcas orientais, exigindo que assinem. Esses patriarcas orientais, sabendo que esses assuntos devem ser tratados apenas pela colaboração com o prelado da Sé Romana, assinam condicionalmente. Essa condição era de que o papa Virgílio, o chefe da igreja universal, assinasse. Justiniano sabia o que estava fazendo, e sabia que ele tomaria todas as medidas necessárias para obter o consentimento de Roma. Nós sabemos disso, porque quando os delegados de Justiniano chegaram a Roma e se encontraram com um Virgílio que não queria, eles já sabiam qual era o plano B. Tomar Virgílio sob custódia. * Aqui mesmo *, o cesar bizantino estava se impondo à liberdade da Igreja para resolver seus próprios assuntos. Ele já havia feito isso com os patriarcas orientais. Daqui para frente, todas as ações papais são suspeitas, já que o Papa está sob coação. Eu só esperaria que Max oferecesse o mesmo entendimento que ele espera que nós tenhamos quando ele explica o porquê os gregos abraçaram Florença. Mas eu apenas espero. Quando em Constantinopla, Virgílio cede a Justiniano e concorda. Mas então, quando ele percebe que suas ações lhe proporcionaram uma grande controvérsia para muitas igrejas no Ocidente, ele se retrai. Mas Justiniano mantém isso. Então o segundo edito dos três capítulos é feito pelo imperador, e os patriarcas orientais são feitos assinar. Virgílio excomunga todos os patriarcas do Oriente. A mesma coisa que Max diria que estava no poder do Concílio contra ele mesmo [Virgílio]. E, no entanto, ninguém se queixa. Em vez disso, eles visitam o Papa e deixam claro que eles se submetem a Calcedônia “porque foi ratificado pela Sé Apostólica”, insinuando o papel essencial do Papa na determinação da doutrina para a igreja universal. O impulso impele o Imperador, uma pequena reconciliação é feita, e os planos para um concílio são acordados. No entanto, Justiniano não cumpriu o acordado com Virgílio, o chefe da Igreja, de permitir que o Ocidente desempenhasse um papel importante na disputa. É óbvio, Justiniano sabia que era uma perda de tempo já que o Ocidente não se moveria de Calcedônia, mesmo que estupidamente não percebesse o nestorianismo em Teodoro / Teodoreto/ Ibas. * Aqui mesmo novamente * – O Imperador assumindo a posição do motorista no ônibus da igreja. Um grande não, não. Mas Virgílio tem pouco para escolher, certo? Quero dizer, ele está sendo mantido prisioneiro, não vamos esquecer. O Concílio se reúne e Virgílio não é muito cooperativo, mas depois diz que dará uma declaração sobre sua opinião dentro de um certo tempo. O Concílio não gosta do resultado, e eles tiram seu nome dos dípticos, e continuam com a condenação dos três capítulos. O Concílio está encerrado. Virgílio é deixado fora. Agora, a partir daqui, Max acredita que sua posição ortodoxa oriental ganhou para ele outra etapa no debate com o catolicismo. O problema aqui é que ele sacrificou a posição da Igreja sobre o que um Concílio ecumênico * é * para obter essa idéia de que Constantinopla 553 tinha jurisdição sobre o Papa e a igreja universal. Em primeiro lugar, o Ocidente estava ausente. Então, no momento em que o Concílio se encerrou, não estamos falando de um Concílio Universal, embora Max o atribua como tal. Agora, isso é ainda mais curioso, dado que Max, a menos que eu esteja enganado, mantém uma visão semelhante de Khamiokov sobre a aceitação gradual de um concílio como ecumênico, onde a plena conquista da autoridade ecumênica, suprema e infalível depende da * Igreja inteira aceitando *. Se for esse o caso, não consigo imaginar como Max diria que Justiniano e os Bispos orientais constituíam uma ação ecumênica contra Virgílio, que tinha autoridade para fazê-lo. Poucos anos depois desse evento, o Papa São Gregório, diria “sem a autoridade e o consentimento da Sé Apostólica, nenhum dos assuntos tratados tem força vinculativa”. Agora, infelizmente, a remoção do nome do papa do díptico das liturgias orientais já tinha se tornado uma coisa comum no Oriente até então, então eu tenho certeza que não foi uma idéia muito estranha, mas o que estou tendo dificuldade em entender é a sua validade. Quando Acácio de Cpla removeu o Papa Felix dos dípticos, não é como se os católicos cometidos tivessem que deixar sua crença na supremacia do Papa. Então esta é a minha resposta. Eu acrescentarei que Cpla 553 começou anormalmente e assim terminaria anormalmente. Virgílio escreveu com arrependimento ao patriarca de Cpla dizendo que ele estava errado e o concílio estava certo. Não sei se ele ratificou o concílio então ou não. O seu sucessor Pelágio tomaria a tarefa com certeza, e ele teve uma batalha boa em suas mãos, uma vez que as igrejas ocidentais não foram convidadas para a convocação, e mais, eles a viram como uma ameaça para a consciência, ou seja, sua revogação de Calcedônia. Uma bagunça criou uma bagunça maior. Mas o que eu espero comunicar aqui, ao concluir, é que é extremamente revelador que os ortodoxos, como Max, dependeriam tão fortemente das ações de Justiniano e os bispos orientais contra Virgílio, tendo em conta as circunstâncias raras e anormais. As seguintes citações são de uma obra da historiadora francesa Claire Sotinel. Nela, o autor discute os perímetros da autoridade da igreja durante o tempo de Justiniano e busca definir a relação entre a Igreja e a autoridade imperial no período que antecede o Quinto Concílio Ecumênico. Ao discutir a relevância da excomunhão de Virgílio em seu tópico, ela cita a carta de Justiniano em que Virgílio é claramente identificado. Lembre-se que nesta fase, Virgílio havia retraído sua condenação dos três capítulos : “O papa mais religioso da Roma Antiga [se fez] um estranho para a Igreja católica ao defender a impiedade dos capítulos e, além disso, se separar de sua comunhão por sua própria iniciativa […]. Assim, uma vez que ele se tornou um estranho aos cristãos, julgamos que seu nome não será recitado nos dípticos sagrados, por isso, nos encontramos em comunhão com as impiedades de Nestório e Teodoro […]. Uma coisa é certa: servimos a unidade com a Sé apostólica, e vocês a mantém. A transformação de Virgílio, ou qualquer outra pessoa, não pode de fato prejudicar a paz das Igrejas “. A que o concílio responde: “Os planos do imperador mais piedoso estão em conformidade com as ações empreendidas para a unidade das igrejas sagradas. Deixe-nos, portanto, servir a unidade com a Sé apostólica da Igreja sagrada da velha Roma, cumprindo tudo de acordo com os termos do decreto imperial que acaba de ser lido ” A relação da autoridade eclesial com a autoridade imperial, eu acredito, foi respondida corretamente pelo Papa Gelásio. Veja também os comentários acima. Erick Ybarra escreve: “Durante o Pontificado do Papa Símaco, os gregos apelaram para ele em nome dos cristãos orientais que sofriam da queda monofísita:” Você que é ensinado diariamente pelo seu professor sagrado, Pedro, a alimentar as ovelhas de Cristo confiadas a você em todo o mundo habitável “(Mansi, 8.221)” -> Erick esquece mencionar as falsificações de Símaquianas. Ver abaixo: As falsificações Simaquinas são um feixe de documentos forjados produzidos na curia papal do papa Símaco (498-514) no início do século VI, no mesmo círclo que produziu o Liber Pontificalis.No contexto do conflito entre partidários de Símaco e o Antipapa Laurêncio, o objetivo deste libelli era promover pretensões papais da independência dos Bispos de Roma de críticas e julgamentos de qualquer tribunal eclesiástico, colocando-os acima do direito clerical e secular, fornecendo falsos documentos supostamente de idade anterior. “Durante a disputa entre o Papa São Símaco e o antipapa Laurêncio”, informa a Enciclopédia Católica, “os adeptos de Símaco elaboraram quatro escritos apócrifos chamados ”’ Falsificações Simaquianas”. … O objetivo dessas falsificações era produzir supostos casos de tempos anteriores para apoiar todo o procedimento dos adeptos de Símaco e, em particular, a posição de que o bispo romano não poderia ser julgado por qualquer tribunal composto por outros bispos. “- Enciclopédia Católica xiv, 378. Esta é uma resposta extremamente desinformada. Primeiro, o que a carta dos gregos que apelam ao Papa tem a ver com as falsificações Simaquianas? Absolutamente nada. Estou chocado porque esta foi a resposta dele. Permita-me dar-lhe o contexto aqui. Macedônio (495) foi eleito no lugar de Eufêmio de Constantinopla, e ele foi confrontado com uma exigência do imperador Anastácio I para emitir um repúdio oficial ao Concílio de Calcedônia. Ele respondeu que, sem o consentimento da Sé romana, nenhum repúdio dele era possível. (Caspar, op. Cit., Vol ii, página 121). Ele foi imediatamente deposto. Um ano depois (512), Constantinopla, Alexandria e Antioquia estavam nas mãos do monofisismo. A partir desses estados de coisas, temos uma carta de alguns gregos do Oriente que foram vítimas da tirania cesaropapista durante esse cisma acaciano. O Dr. Trevor Jalland descreve esta carta: “Lembrando o Papa de que ele goza do poder de desligar e de ligar seus peticionários [gregos] agradecidos: De verdade você é possuído pelo Espírito de Cristo, que é diariamente instruído pelo seu santo professor Pedro, sobre como cuidar do rebanho de Cristo, que foi confiado a você em toda a terra e não obedece por restrições, mas de bom grado … Todos nós, tanto os em comunhão com eles (sc. Monofisistas) e aqueles que recusam , aguardam ao lado de Deus a luz de sua visita e admissão em favor. Por isso, apresse-se a ajudar o Oriente, de onde o próprio Redentor enviou duas grandes luminárias, Pedro e Paulo, para dar luz ao mundo inteiro “. Que resposta, se alguma vez, Símaco retornou a este apelo patético é desconhecido. Tudo o que resta de sua correspondência oriental é uma carta ao episcopado Ilírio, exortando eles a ficarem em alerta com destino das igrejas orientais: “Pois aqueles que acreditavam que poderiam desconsiderar a admoestação da Sé Apostólica, sofreram merecidamente o que é obrigado a acontecer com os que abandonam o dever deles “(Church and Papacy, pág. 335-6). Max não conseguirá encontrar um estudioso que conteste esses registros. Assim, sua resposta a isso em termos das falsificações Simaquinas deve informar qualquer um de seus leitores que ele não está prestando atenção nas coisas que ele escreve. Isso pode mudar, e espero que sim. Mas esta pode ser uma oportunidade para mostrar algo de interessante aqui desde que surgiu o tópico das falsificações. As seguintes fontes * não são da coleção de falsificação *. Símaco tinha um rival para o episcopado de Roma, um homem chamado Laurêncio. Quando Símaco ganhou as eleições, o partido de Laurêncio procurou a primeira mudança para acusar Símaco de transgressão. Com certeza, quando Símaco estabeleceu a data da Páscoa a 25 de março, o ciclo pascal pré-vitoriano, em desafio à data Alexandrina de 22 de abril, o partido de Laurêncio procurou obter sua convocação para um tribunal em Ravena para ser indiciado. Eles também adicionaram outras acusações também. Durante este plano, um sínodo foi realizado na Itália na igreja de Santa Maria em Trastevere, no qual Símaco apareceu pessoalmente, embora Laurêncio presidisse. Depois de duas sessões não realizando nada, o sínodo procurou Teodorico, o Rei Ariano, para condenar Símaco pelo poder civil. Mas este plano não funcionou desde que Símaco não apareceu para julgamento, e também nem Teodorico tentou intervir. O sínodo italiano terminou com uma absolvição sobre Símaco. Parece um evento sem importância, mas vem com alguns detalhes interessantes. Acontece que dois bispos ocidentais, Enódio de Milão e Avito de Vienne, ambos os santos venerados nas igrejas ortodoxas, eram ambos fortes adeptos da autoridade da Sé romana. Ambos escreveram em resposta aos inimigos de Símaco durante o contexto acima. Em primeiro lugar, temos uma declaração de alguns bispos da Itália que escreveram ao rei Teodorico sobre a tentativa dos adeptos de Laurêncio de condenar Símaco: “… a pessoa [Símaco] que foi atacada fez questão de ter convocado o Concílio, sabendo que, em primeiro lugar, a sua Sé entre as fileiras ou a chefia do apóstolo Pedro, e depois a autoridade dos concílios veneráveis que seguiam o comando do Senhor, tinha um poder sem igual nas igrejas ; nem se poderia encontrar um precedente para demonstrar que, em um assunto semelhante, o prelado da Sé acima mencionada estava sujeito ao julgamento de seus inferiores “(Mansi, viii, 248). St. Avito de Vienne escreveu uma carta aos senadores romanos, que diz: “Estávamos em estado de ansiedade e alarme sobre a causa da igreja romana, na medida em que achamos que nossa ordem [episcopado da Gália] estava em perigo por um ataque na sua cabeça … Qual licença de acusação contra a liderança da igreja universal deve ser permitida? … Como senador romano e bispo cristão, evoco que o estado da Igreja não seja menos precioso para você do que o da comunidade. Se você julgar o assunto com sua profunda consideração, não é apenas a causa que foi examinada em Roma a ser contemplada, mas como, se no caso de outros Bispos, qualquer perigo for incorrido, possa ser reparado, então, se o Papa da cidade for posto em causa, nem um único bispo, mas o próprio episcopado, parece estar em perigo. Aquele que governa o patrimônio do Senhor dará conta de como ele administra o cuidado dos cordeiros que ele confiou a ele; mas não cabe ao rebanho alarmar seu próprio pastor, mas ao juiz [Deus]. Por isso, restaure-nos, se ainda não foi restaurado, concorde em nosso chefe “(Mansi, viii. 293). St. Enódio escreveu: “Deus, por sua vez, quis determinar as causas dos outros homens por meio dos homens; mas o prelado daquela Sé ele reservou, sem dúvida, o próprio julgamento dele. É a vontade d’Ele que os sucessores do abençoado apóstolo Pedro devam sua inocência ao Céu apenas, e devem manifestar uma consciência pura à inquisição do juiz mais severo [Deus]. Você responde; tal será a condição de todas as almas nesse escrutínio? Eu respondo, que a um foi dito: “Tu és o Pedro, e sobre esta Rocha irei construir a minha Igreja” e, novamente, que pela voz dos santos pontífices, a dignidade da sua Sé foi venerada em todo o mundo, Uma vez que todos os fiéis em todos os lugares são submetidos a ele, e está marcado como a cabeça de todo o corpo “(Mansi, viii. 284). Algumas palavras muito interessantes destes dois santos venerados até hoje no Oriente. O Dr. Trevor Jalland corrobora isso além das falsificações Simaquianas: “No entanto, apesar da situação patética do Papa, os campeões entusiastas da Sé romana fizeram uma aparição oportuna nas pessoas de Enódio de Milão e Avito de Vienne. O último pode muito bem ter expressado a opinião do episcopado italiano, bem como a da Gália, quando escreveu: “Se a posição do chefe (princeps) é abalada por acusação, sentimos a posição de cada um de nós ser enfraquecida”. O trabalho de Enódio, por outro lado, como uma resposta aos inimigos do Papa, embora caracterizada por evasões inteligentes, abusos violentos e uma marcada dependência de citações irrelevantes da Sagrada Escritura, tem um interesse especial como produto de uma igreja que ao mesmo tempo parecia ofuscar até a própria Roma como a Sé primacial da Itália. Nele, encontramos a primeira afirmação explícita de que deve ser feita uma distinção entre o Papa como indivíduo e o Papa como detentor do Papado. Como indivíduo, ele receberá o justo julgamento no último dia; Como o Papa, ele não pode ser culpado de qualquer coisa que exija a punição judicial. Não é difícil imaginar que tal visão tenha sido altamente aceitável para um, como Gregório VII, sob cuja inspiração o princípio Enodiano foi incorporado nas Dictatus Papae. Não menos notável foi a abundância de literatura pseudônica e apócrifa que pode ser considerada como um subproduto desta situação anômala. O principal objetivo desses escritos era fazer bem a alguns dos defeitos muito óbvios na estrutura papal que os recentes acontecimentos tinham descoberto. Incluíram, além de outras supostas atas conciliares, como Gesta Liberii, Gesta Xysti e Gesta Polychronii, os procedimentos de um “sínodo apócrifo de Sineuessa”, no qual o infeliz Marcelino foi supostamente acusado. Encorajado a julgar a si próprio, o Papa foi representado como se declarando culpado, com o qual Milcíades, aparentemente eleito e consagrado no local, disse: “Com razão ele foi condenado por sua própria boca, pois ninguém já julgou o Papa, já que a primeira Sé não pode ser julgada por ninguém “. Um princípio semelhante emerge no suplemento contemporâneo da saga silvestriana que retrata outro sínodo romano imaginário, que além de condenar o autor do ciclo pascal, rejeitado por Símaco, cerca de cem anos antes do nascimento, passou uma série de cânones dos quais o último significantemente se lê: “Nenhum homem deve julgar a primeira Sé”. É evidente a partir desses ensaios estranhos na história imaginativa que as idéias de Gelásio já se mostravam prolíficas, mas seria injusto atribuir apenas a Símaco a responsabilidade direta para os frutos “(Church and Papacy, página 333-4). Segundo o Dr. Klaus Schatz, as falsificações foram apenas para obter o princípio “A primeira Sé não é julgada por ninguém” no direito canônico. Os redatores da falsificação já conheciam a existência válida do princípio sob o pontificado do papa Gelásio. Schatz escreve: “O princípio de que prima sedes a nemine iudicatur,” a Sé principal não é julgada por ninguém “(que efetivamente significa que” não pode ser julgada por ninguém “) se tornou, ao longo dos séculos, uma maneira sucinta de dizer que não pode haver tribunal acima do papa que possa condená-lo, o depor ou anular suas decisões. Neste sentido, o princípio desenvolveu uma enorme influência, especialmente desde o século XI. Mas era conhecido e efetivo muito antes disso … Neste breve texto, o princípio pode ser rastreado até as falsificações de Simaquianas, escritas em cerca de 500 D.C. Sua configuração foi o período de dominação ostrogoda. O papa Símaco, politicamente um partidário do Rei Ariano Ostrogodo Teodorico, enfrentou forte oposição eclesiástica dentro do clero romano, cuja orientação era para Bizâncio, e ele estava prestes a ser deposto por um sínodo. Os falsificadores esperavam que este princípio pudesse ser usado para evitar sua deposição; eles se referiram a supostos casos ao redor do ano 300 quando a deposição de um papa foi evitada por causa desse princípio. Claro que era apenas essa formulação ousada que era nova, não o conteúdo. Ele aparece muito claramente em duas cartas do papa Gelásio I de 493 e 495 no contexto do cisma acaciano. De acordo com os cânones, todos podem apelar ao papa, mas não há nenhum recurso além dele “, e assim ele julga toda a igreja e ele mesmo não está diante de um tribunal, e nenhum julgamento pode passar seu julgamento, nem pode sua decisão ser anulada ‘. Mas foi através das falsificações Simaquianas que o princípio entrou no canon legal; Foi essa formulação, e não a de Gleásio, que fez história, mas apenas lentamente e por caminhos tortuosos. Aparentemente, não foi até o século IX que o princípio se tornou um elemento fixo nas tradições legais de Roma, possivelmente sob influência franca. “(Papal Primacy: From its Origins to Present, página 73) Erick Ybarra escreve: “Então, nós temos, então, um reconhecimento pelos padres da Igreja de que a primazina petrina da Sé romana não é uma realidade externa, como se fosse adicionada à constituição episcopal. Em vez disso, é uma com a constituição episcopal. Em segundo lugar, que este elemento essencial da constituição episcopal não é algo que possa pertencer a todas e quaisquer Sés, mas apenas à Sé romana (podemos explicar mais sobre a carta de Gregório em que fala de 3 locais da Sé de Pedro se for levantada em refutação), uma vez que só ela recebe a sucessão do primado de Pedro “. -> Erick não se preocupa em oferecer uma refutação da visão do Papa Gregório sobre 3 locais da Sé de Pedro. Mas vejamos o que São João Crisóstomo e São Teodoreto têm a dizer: São João Crisóstomo: “Ao falar de São Pedro, veio a mim a lembrança de outro Pedro [Flaviano, bispo de Antioquia na época em que o discurso foi escrito] o pai e professor comum, que herdou sua proeza, e também obteve a sua cátedra. Pois este é o único grande privilégio de nossa cidade, Antioquia, que recebeu o líder dos apóstolos como professor no começo. Pois era correto que ela, que foi primeiro adornada com o nome de cristãos, diante do mundo inteiro, devesse receber o primeiro dos apóstolos como seu pastor. Mas embora o recebêssemos como professor, não o retivemos até o fim, mas o entregamos à Roma real. Ou melhor, nós o retivemos até o fim, pois, embora não conservemos o corpo de Pedro, conservamos a fé de Pedro e, mantendo a fé de Pedro, temos Pedro “(St. John Chrysostom, “On the Inscription of the Acts”, II; cited by E. Giles, Documents Illustrating Papal Authority (London: SPCK, 1952), p. 168. Cf. Chapman, Studies on the Early Papacy, p. 96).[NOTA: Note-se que São Flaviano, o Arcebispo de Antioquia é um Pedro e obteve a cátedra de Pedro, e que, enquanto ele mantem a confissão de Fé de Pedro, Antioquia tem um São Pedro.] St. Teodoreto faz uma declaração semelhante sobre a Sé de Antioquia quando ele afirma que Antioquia possui o trono de Pedro: “Dioscoro, no entanto, se recusa a cumprir essas decisões; ele está virando a Sé do abençoado Marcos de cabeça para baixo; e estas coisas ele fez embora ele saiba perfeitamente que a metrópole antioquena possui o trono do grande Pedro, que era o professor do abençoado Marcos, e primeiro e corifeu dos apóstolos “. (Felipe Schaff, Nicéia e Pais pós Nicéia (Grand Rapids: Eerdmans, 1956), Volume III, Theodoret, Epistle 86, To Flavianus, bishop of Constantinople, p. 281). Que os ortodoxos continuem a trazer a carta de Gregório ao Patriarca de Alexandria é bastante chocante. Esta tentativa de equiparar a Sé romana com a da Sé de Alexandriana ou Antioquena é claramente refutada pelas seguintes afirmações do Papa Gregório: “Quanto à Igreja de Constantinopla, quem pode duvidar de que está sujeita à Sé Apostólica? Por que, tanto nosso senhor mais religioso, o Imperador como o nosso irmão, o Bispo de Constantinopla, continuamente o reconhecem “(Epístolas 9:26). “A Sé Apostólica, que é a cabeça de todas as outras igrejas” (13: 1) Em uma carta ao bispo João de Siracusa, Gregório diz: “Quanto à sua declaração de que ele está sujeito à Sé Apostólica, se alguma culpa for encontrada nos bispos, não sei qual o bispo não está sujeito a ela. Mas quando nenhuma falta exige que seja de outra forma, todos de acordo com o princípio da humildade são iguais “. Estudioso anglicano patrístico, J.N.D. Kelly escreveu que Gregório I “Foi infatigável … em defender o primazia romana e manter com sucesso a jurisdição de apelação de Roma no Oriente …” Gregório argumentou que a comissão de São Pedro [e. em Mateus 16: 18]], todas as igrejas, incluindo Constantinopla, estão sujeitas a Roma “(The Oxford Dictionary of Popes, página 67). Jaroslav Pelikan escreve sobre a tri-párticipe Sé de Pedro que Max Menciona: “Com certeza, Pedro também esteve em Alexandria e em Antioquia, e Gregório, às vezes, apresentou a idéia de que esses dois patriarcas compartilhavam com ele o primado dado a Pedro: Roma era a sede em que Pedro morrera, Alexandria, a que ele tinha enviado a Marcos e a Antioquia a Sé que ele próprio havia ocupado por sete anos. Havia uma Sé de Pedro em três lugares. Mas esse toque de banalidade sobre o apóstolo não teve implicações de longo alcance para a doutrina concreta de Gregório sobre o primado na igreja. Todos sabiam que a Sé de Pedro era Roma. Quando os legados de Calcedônia em 451 responderam à leitura do Tomo de Leão com a exclamação, “Pedro falou pela boca de Leão!” Eles simplesmente estavam dando voz a essa suposição geral. Para a igreja primitiva, o primado pertencia de maneira especial a Jerusalém, a cidade-mãe de todos os crentes. Mas se mudou da capital da antiga Israel para a capital do mundo, que se tornou a capital da nova Israel … As igrejas do Oriente grego também deviam uma lealdade especial a Roma. No que diz respeito à Igreja de Constantinopla, “quem duvidaria que seja sujeito à Sé apostólica”, isto é, é claro, para Roma? Ao cumprimentar a autoridade de Leão, os padres de Calcedônia testemunharam a ortodoxia de Roma. Uma vez, depois de outra, capitularam nessa ou aquela controvérsia com heresia. Constantinopla deu origem a vários hereges durante o quarto e quinto séculos, notadamente Nestório e Macedônio, e essas outras Sés também conheciam de fugirem da fé verdadeira ocasionalmente. Mas Roma tinha uma posição especial. O bispo de Roma tinha o direito, por sua própria autoridade, de anular as atas de um sínodo. Na verdade, quando se falou de um concílio para resolver controvérsias, Gregório afirmou o princípio de que “sem a autoridade e o consentimento da Sé Apstólica, nenhum dos assuntos tratados tem força vinculativa”. (The Christian Tradition, Vol. 1, páginas 353-4) Erick Ybarra escreve: “As falhas papais não diminuiram o papel ontológico do Papado, nem provam que seja de origem humana ou que seja uma maquinaria externa criada em nome da boa ordem, mas continua sendo da constituição essencial “. -> Mais uma vez, Erick parece esquecer que tanto o Papa Honório quanto o Papa Virgílio foram condenados pelos Concílios Ecumênicos por HERESIA!Se um Concílio Ecumênico pode julgar um Papa como herético (como o sexto Concílio Ecumênico fez com relação ao Papa Honório), parece-me claro que o Concílio Ecumênico é a autoridade suprema da Igreja. Antigos Papas foram obrigados a ceder à autoridade superior de um Concílio Ecumênico e todas as decisões afetando toda a igreja em questões de doutrina e administração foram feitas através do CONSENSO nos Concílios Ecumênicos, nunca foram feitas pelo Decreto papal SOZINHO. Veja os comentários que fiz sobre Virgílio e Honório. Quanto à insistência de Max de que um Concílio Ecumênico tem autoridade mais vinculativa do que o Papa. Para começar, um autêntico Concílio Ecumênico exige a participação do Papa e, portanto, para os católicos, não se pode divorciar o Papa e o Concílio da maneira que o Max faz. É como St. Gregório, o grande disse, sem a autoridade da Santa Sé, nenhum Concílio pode ter esse tipo de autoridade. Em segundo lugar, há muitas evidências históricas que demonstram que o tribunal da Sé Romana ultrapassou a autoridade de um Concílio supostamente reivindicando a jurisdição sobre a igreja universal. Posso dar-lhe os seguintes exemplos. Quando foram condenados pelo Concílio de Éfeso 449, Eusébio de Doriléia, São Flaviano de Constantinopla e Teodoreto de Cirro, todos apelaram para o Papa Leão para anular os decretos em Éfeso, que foi finalizado sob a “autoridade” do Papa de Alexandria, Dioscoro e o Imperador Teodósio II. Para todos os efeitos, este era um Concílio. E para estudantes como Max, que adoram gritar o poder universal de Justiniano no 5º Concílio, não há nenhum motivo pelo qual ele deva pensar que Eféso 449 não seja ecumênico, pelo menos em preparação e matéria. Além disso, o Papa Leão anulou unilateralmente o 28º cânone do Concílio de Calcedônia. Mesmo depois que os bispos do Concílio o ratificaram junto com o Patriarca de Constantinopla e o Imperador Marciano, o Patriarca de Constantinopla finalmente, após dois anos, admitiu ao Papa Leão que todos os cânones foram suspensos para sua aprovação ou desaprovação, e ele desistiu de todo caso – pelo menos, ele disse que faria. Depois disso, você tem a queda no Oriente para o monofisismo. Era a Sé Romana que continuara a anunciar os decretos de Calcedônia. E a única maneira pela qual o Oriente foi trazido de volta à unidade da Igreja foi através de uma fórmula elaborada pelo Papa Hormisdas e oficialmente assinada por muitos no Oriente sob o impulso de Justino I. Há um rumor ao redor, feito popular por um escritor anti-católico anglicano do século 19, Pe. Puller, que o Oriente fez todas as modificações e exigências próprias antes de se unirem à Santa Sé. Tal não passa de besteira. Se o espaço fosse permitido, poderíamos seguir o contexto histórico da controvérsia pelagiana no norte da África, a controvérsia iconoclasta e a disputa causada por Fócio. Traduzido de: https://erickybarra.wordpress.com/2017/01/28/catholic-primacy-answering-some-objections-from-an-eastern-orthodox-researcher/ Parte II: https://apologistasdafecatolica.wordpress.com/2018/03/17/resposta-aos-ortodoxos-parte-ii-ecumenicidade-de-lyon-florenca-patriarcas-canon-28-formula-de-hormisda/ Parte III: https://apologistasdafecatolica.wordpress.com/2018/03/19/respondendo-as-objecoes-ortodoxas-parte-iii-codigo-de-justiniano-primazia-petrina-conciliarismo-papalismo-e-papa-honorio/
- Seita “Crescendo em Graça” – agora “Rei de Salém” – tem novo
Autor: José Miguel Arráiz, o 1.03.15 às 4:54 PM Fonte: http://infocatolica.com/blog/apologeticamundo.php/ Trad.: Carlos Martins Nabeto Há 6 anos escrevi um artigo sobre a “Crescendo em Graça”. Esta seita peculiar possuía um líder chamado José Luis de Jesus Miranda, que primeiramente afirmava ser a reencarnação de São Paulo e, posteriormente, o próprio Jesus Cristo e o Anticristo ao mesmo tempo. Ele anunciou o Armagedon para 2012, ocasião em que o seu corpo (e os dos seus seguidores) se tornaria glorioso, destruiria o Vaticano e passaria a governar o mundo com cetro de ferro. Além disso, mandava seus seguidores tatuarem a marca da besta (666) nos braços ou na fronte, tal como ele mesmo o havia feito. Apesar de ter afirmado várias vezes que nunca adoeceria nem morreria – ainda que ele mesmo tentasse se matar – morreu de cirrose hepática por abuso do álcool, tal como foi anunciado no blog da Rede Iberoamericana de Estudos das Seitas. Isto gerou tal desconcerto em seus seguidores que um de eles, inclusive, cometeu suicídio. Depois de tão estrondoso desastre no cumprimento de suas profecias, ao mais puro estilo dos adventistas e testemunhas de Jeová, cheguei a pensar que era uma questão de tempo para que a seita desaparecesse. No entanto, da mesma forma que nos casos anteriores, isto não ocorreu. O que fizeram foi imitar uma outra seita da Coreia do Sul, maior e mais antiga, chamada “A Igreja de Deus – Sociedade Missionária Mundial”, quando morreu seu fundador, Ahn Sahng-Hong, que também afirmava ser Jesus Cristo: em ambos os casos suas respectivas esposas herdaram o império e passaram a afirmar ser a Rainha-Mãe, a Jerusalém do alto, uma Deusa-Mãe. No caso da seita “Crescendo em Graça”, agora renomeada para “Rei de Salém”, apresentou-se uma nova “dispensação”, na qual a esposa de Miranda, que agora se faz chamar “Cristo Lisbeth” é a nova deusa, a reencarnação do arcanjo Miguel e a mãe Jerusalém. A seita desta vez afirma que aqueles que creram que Miranda não morreria caíram sob um poder enganoso, enviado pelo próprio “deus” José Luis de Jesus Miranda, que caiu em uma “elocubração vinda da sua carne”, e que agora a nova verdade encontra-se com sua mãe-consorte Lisbeth, tal como se observa neste vídeo (em espanhol) hospedado no canal de YouTube da seita: Desde logo a seita já enfrenta o seu primeiro cisma: Martin Guio, bispo responsável pela sucursal da seita na Colômbia, separou-se, de modo que a nova “deusa” o acusa de ser a “encarnação do diabo“. Ao mesmo tempo, a nova líder ameaça os seus adeptos de que irão para o inferno se não crerem nela, como se observa neste outro vídeo (em espanhol): O que mais me surpreende é a ingenuidade dos adeptos que, apesar de tudo o que ocorreu, ainda creem em tudo o que lhes diz a seita. Deus os livre da sua cegueira. #Seita #deusa #salem #crescendo #Ágora
- Maria: Preparada pelo Altíssimo, prometida pelos Patriarcas
A Deus competia nascer de uma virgem unicamente; e era claro que do parto da Virgem somente viesse Deus à luz. Por este motivo, o Criador dos homens, para se fazer homem nascido de ser humano, devia dentre todas escolher, ou melhor, criar para si a mãe tal, como sabia convir a si e ser-lhe agradável em tudo. Quis então que fosse uma virgem. Da imaculada nascendo o imaculado, aquele que purificaria as máculas de todos. Ele a quis também humilde, donde proviesse o manso e humilde de coração, que iria mostrar a todos o necessário e salubérrimo exemplo destas virtudes. Concedeu, pois, à Virgem a fecundidade, a ela a quem já antes inspirara o voto de virgindade e lhe antecipara o mérito da humildade. A não ser assim, como poderia o anjo dizê-la cheia de graça, se algo, por mínimo que fosse, faltasse à graça? Assim, aquela que iria conceber e dar à luz o Santo dos santos, recebeu o dom da virgindade para que fosse santa no corpo, e, para ser santa no espírito, recebeu o dom da humildade. Esta Virgem régia, ornada com as jóias das virtudes, refulgente pela dupla majestade da alma e do corpo, por sua beleza e formosura conhecida nos céus, atraiu sobre si o olhar dos anjos. Até atraiu sobre si a atenção do Rei,que a desejou e arrebatou das alturas até si o mensageiro celeste. O anjo foi enviado à Virgem (Lc 1,26-27). Virgem na alma, virgem na carne, virgem pelo propósito, virgem enfim tal como a descreve o Apóstolo, santa de espírito e de corpo. Não pouco antes, nem por acaso encontrada, mas eleita desde o princípio dos séculos, conhecida pelo Altíssimo e preparada para ele, guardada pelos anjos, prefigurada pelos patriarcas, prometida pelos profetas. — Das Homilias em louvor da Virgem-Mãe, de São Bernardo, abade (século XI)
- OCTAVIO DE FARIA E CORNÉLIO PENA – Alceu de Amoroso Lima (1ª parte)
No tempo de Júlio Diniz e de Machado de Assis, de que nos ocupamos nas crônicas passadas, o romance ainda era a exceção. Hoje, é a regra. Em Portugal o autor da Morgadinha dos Canaviais sucedia a Camilo Castelo Branco e era sucedido por Eça de Queiroz. Cada um a seu tempo, tranquilamente, enchendo a sua época, quase solitários. No Brasil, contavam-se a dedo os romancistas. José de Alencar sucedia a Macedo, como Machado sucedia a José de Alencar. Em torno deles, figuras menores e escassas. Havia como que uma corte literária: um rei e alguns vassalos, de maior ou menor nobreza de brasões. Tudo simples e ainda provinciano. Largos espaços de sombra marcavam os intervalos entre os poucos romancistas que surgiam. E o âmbito de sua repercussão era diminuto. Hoje, como tudo mudou! Sucedem-se os romances a dois, três e quatro por mês. Vêm do norte e do sul, do litoral e do sertão. Chegam carregados de pensamento ou estuantes de sensualidade. Descem das classes mais elevadas ou sobem do povo inculto. Ultrapassam em realismo tudo o que as imaginações mais depravadas de outrora podiam sequer imaginar (e são desgraçadamente a regra), ou excedem em delicadeza de expressão tudo o que a pena mais casta poderia desejar. Refletem os dramas sociais mais modernos ou evocam o passado histórico ou mesmo pré-histórico da humanidade. Mergulham em pleno nacionalismo literário, procurando febrilmente a expressão original, a língua nova, as figuras regionais, ou populares mais autênticas — ou se espraiam pelo cosmopolitismo de uma terra cada vez mais pequena e mais dividida contra si mesma ou então pelo humanismo em que se revê a figura do homem eterno e universal. Todos os gêneros coexistem e todas as originalidades individuais se lançam à procura da expressão mais nova e mais aguda. Surgem romancistas novos cada mês, cada semana quase. Os editores não têm mãos a medir e podem selecionar os manuscritos, sem temor de não servir, a tempo e a hora, a curiosidade insaciável de um público que devora toneladas de papel impresso indistintamente, desde que tenham na capa a palavra mágica — “romance” . Se o consumo, no mercado da ficção, cresce de modo geométrico, não há que temer qualquer espécie de maltusianismo literário, por parte da produção, que não cresce de modo aritmético, mas em proporções de uma geometria não euclidiana. Estou longe, aliás, de ser pessimista quanto à qualidade dessa massa de romances que ultimamente vêm invadindo as vitrines das livrarias e as nossas estantes. Não sei mesmo de ano literário que possa apresentar tal soma de romances dignos de ser lidos, como este que ora está para findar. Se o romance foi o gênero literário triunfante em 1939, pela preferência tanto de autores como de público, foi também porventura aquele em que obras de melhor quilate vieram a lume. José Vieira, Telmo Vergara, Dinah Silveira de Queiroz, Guilherme Figueiredo, Guilhermino Cesar, Lúcio Cardoso, José Lins do Rego, Rachel de Queiroz, Galeão Coutinho, Lúcia Miguel Pereira, Menotti dei Picchia. Érico Veríssimo, Vianna Moog, “et j’en passe”, se nos deram novelas ou romances de valor desigual, algumas das quais pouco ou nada serão daqui a alguns anos — também nos deixaram algumas obras que ficarão entre as coisas mais sérias de nossas letras de hoje e mesmo de sempre. Entre esses romancistas, cuja mensagem é das que ficam e não das que apenas encantam de passagem nossa imaginação, dois já se impuseram de modo imperativo às exigências mais difíceis do nosso paladar saturado de hoje em dia — os senhores Cornélio Pena e Octavio de Faria. Há, entre os dois, grandes afinidades. E há também rigorosas diferenças específicas. São ambos romancistas do Mistério, da Solidão e da Morte. Mas um é prolixo e o outro conciso. Um pretende refletir, como Balzac ou Proust, uma geração e uma época. O outro, pelo contrário, vem trazer-nos o drama das consciências profundas e totalmente isoladas do seu meio e do seu tempo. (Artigo publicado em O Jornal, em 14 de Janeiro de 1940. O Jornal foi o primeiro órgão de imprensa de Assis Chateaubriand, célebre pelo império jornalístico dos Diários Associados. Fundado em 1919, O Jornal deixou de circular em 1974.)
- Catolicismo Primitivo – 1. A Didaqué
Autor: José Miguel Arráiz, o 20.06.15 às 9:57 PM Fonte: http://infocatolica.com/blog/apologeticamundo.php Trad.: Carlos Martins Nabeto “Didaqué” é uma palavra grega que significa “ensinamento”. Daí que o título completo da obra seja “A instrução do Senhor aos gentios através dos Doze Apóstolos” ou, de uma forma mais resumida, “Instruções dos Apóstolos”. É considerada como um dos documentos mais importantes da Igreja primitiva, pertencente ao grupo de escritos dos Padres Apostólicos[1]. Ainda que a data da sua composição não seja conhecida com exatidão, alguns autores opinam que foi escrita, aproximadamente, entre os anos 50 a 70, enquanto que outros a situam entre inícios e meados do século II. O Batismo Na Didaqué se encontra informação de valioso interesse apologético, porque são descritas as práticas católicas de batizar, tanto por imersão[2] quanto por infusão[3]: – “Sobre o batismo, batiza desta maneira: ditas com anterioridade todas estas coisas, batiza em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo em água viva [corrente]. Se não tens água viva, batiza com outra água; se não podes fazê-lo com água fria, faz com quente. Se não tiveres uma nem outra, derrama água na cabeça três vezes, em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo. Antes do batismo, jejuem o batizante e o batizando, e alguns outros que o possam. Ao batizando, contudo, lhe mandarás jejuar um ou dois dias antes” (Didaqué 7,1-4). Isto é relevante porque algumas denominações protestantes têm entendido que só é válido o batismo por imersão. Argumentam que a palavra “batismo” é uma romanização (“bapto” ou “baptizo”), cujo significado é “lavar” ou “submergir”, implicando que a forma de batizar deve ser dessa maneira. É por isso que se costuma aplicar o batismo por imersão em comunidades eclesiais protestantes, como as batistas e evangélicas, além de algumas seitas como A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias [mórmons] e os Testemunhas de Jeová. No entanto, o texto da Didaqué demonstra que para os primeiros cristãos o significado da palavra não estabelecia uma maneira fixa para a administração do sacramento, e que este poderia variar de acordo com as circunstâncias[4]. O texto da Didaqué também lança muita luz sobre a antiga polêmica relacionada à fórmula batismal, sobre se na Igreja primitiva se batizava somente em nome de Jesus, como menciona Atos 2,38; 8,16; 10,48; 19,5, ou em nome da Trindade, como Jesus ordena em Mateus 28,19. Isto, porque a Didaqué também faz referência ao batismo “em nome do Senhor” (Didaqué 9), porém, quando indica as palavras a serem empregadas no momento de batizar, diz que deve-se fazer “em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo”: – “Que ninguém coma nem beba de vossa ação de graças, senão os batizados em nome do Senhor…” (Didaqué 9). – “…batizai em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo” (Didaqué 7). Isto apoia a tese de que, efetivamente, quando na Escritura se faz referência ao batismo “em nome de Jesus”, o que se fazia era uma referência de forma abreviada ao batismo “em nome da Trindade”, diferenciando-o assim de outros batismos como o de João Batista. [Ademais, a presença da fórmula na Didaqué] também descarta a tese de que a fórmula trinitária foi uma interpolação tardia, originada no século IV, tal como supõem algumas seitas que rejeitam a doutrina da Trindade[5]. A forma de orar No que diz respeito à forma de orar, a Didaqué apresenta instruções muito interessantes de ordem apologética em face às críticas do Protestantismo em relação às “orações pré-fabricadas” católicas. Isto porque ainda que o Protestantismo enxergue tradicionalmente neste tipo de oração uma forma de “oração vã”, [a Didaqué] precisamente ensina aqui a recitar o “Pai Nosso” – certamente uma “oração pré-fabricada” – em contraposição à oração dos hipócritas[6]: – “Tampouco oreis à maneira dos hipócritas; ao contrário, tal como o Senhor ordenou em seu Evangelho, assim orareis: ‘Pai nosso celeste, santificado seja teu nome, venha teu reino, faça-se tua vontade assim no céu como na terra. O pão nosso de nossa subsistência dai-nos hoje e perdoa-nos nossa dívida, assim como também perdoamos a nossos devedores, e não nos leves à tentação, mas livra-nos do mal. Porque teu é o poder e a glória pelos séculos’. Assim orareis três vezes ao dia” (Didaqué 8,2-3). A celebração da Eucaristia Ainda que na Didaqué não encontremos um testemunho explícito a favor da presença real de Cristo na Eucaristia – doutrina católica rejeitada quase que unanimemente pelo Protestantismo – encontramos, porém, um texto que a insinua implicitamente, ao exigir que só possam se aproximar dela os batizados, por ser um alimento sagrado: – “No tocante à ação de graças, dareis graças desta maneira. Primeiramente, sobre o cálice: ‘Te damos graças, Pai nosso, pela santa vinha de Davi, teu servo, que nos deste a conhecer por meio de Jesus, teu servo. A ti seja a glória pelos séculos’. Depois, sobre o fragmento: ‘Te damos graças, Pai nosso, pela vida e o conhecimento que nos manifestaste por meio de Jesus, teu servo. A ti seja a glória pelos séculos. Como este fragmento estava disperso sobre os montes e, reunido, se fez um, assim seja reunida tua Igreja dos confins da terra em teu Reino. Porque tua é a glória e o poder, por Jesus Cristo, eternamente’. Que ninguém, contudo, coma nem beba da vossa ação de graças senão os batizados no nome do Senhor, pois acerca disso disse o Senhor: ‘Não deis o sagrado aos cães’” (Didaqué 9,1-4). Muitas denominações cristãs não-católicas, seguindo a Reforma Protestante, têm rejeitado também o caráter sacrificial da Eucaristia, ao ler em Hebreus 9,28 que “Cristo foi oferecido em sacrifício uma só vez, para quitar os pecados de muitos”; por isso, para eles a Missa católica é uma abominação[7]. Na Didaqué, pelo contrário, vemos que os primeiros cristãos enxergavam a Eucaristia como o sacrifício puro e perfeito profetizado pelo profeta Malaquias: “Pois desde o nascer do sol até o poente, grande é meu nome entre as nações e em todo lugar se oferece a meu nome um sacrifício de incenso e uma oblação pura” (Malaquias 1,11). – “Reunidos a cada dia do Senhor, fracionai o pão e dai graças, …porque este é o sacrifício de que disse o Senhor: ‘Em todo lugar e a todo tempo se me oferece um sacrifício puro, porque eu sou Rei grande – diz o Senhor – e meu nome é admirável entre as nações” (Didaqué 14,1-3). Cabe ressaltar que a doutrina católica não ensina que Cristo se “ressacrifica” a cada Missa, como assumem muitos protestantes de forma equivocada. O que [a Igreja] ensina é que o único sacrifício de Cristo é apresentado a Deus Pai em cada Eucaristia e, por isso, no Catecismo oficial da Igreja Católica se ensina que “atualiza o único sacrifício de Cristo Salvador” (CIC 1330) e não que “o repete”. Confissão dos pecados Em contraposição à prática comum do Protestantismo, onde a pessoa se confessa diretamente com Deus, na Didaqué encontramos um testemunho inicial da disciplina penitencial da Igreja primitiva, que no princípio implicava uma confissão pública dos pecados diante dos presbíteros e da comunidade, tal como se menciona na Sagrada Escritura (Atos 19,18; Tiago 5,16) e cuja forma se desenvolveu paulatinamente até a confissão auricular que conhecemos hoje em dia[8]: – “Reunidos a cada dia do Senhor, fracionai o pão e dai graças, depois de haver confessado vossos pecados, a fim de que o vosso sacrifício seja puro” (Didaqué 14,1). A esmola Encontra-se também uma breve menção à esmola como obra piedosa ordenada pelo Evangelho. – “No tocante às vossas orações, esmolas e todas as demais ações, as fareis conforme o tens ordenado no Evangelho de Nosso Senhor” (Didaqué 15,4). Agora, esta esmola se referiria também à contribuição voluntária dos fiéis para o sustento da Igreja e a ajuda dos mais necessitados, mencionada em Romanos 15,26-28; 1Coríntios 16,1; 2Coríntios 8,10? Ainda que o texto não o indique, isto é bastante provável. O que parece ser seguro, também, é a ausência total da prática do dízimo, tal como foi adotada pelo Protestantismo e que é derivada da Lei Mosaica prescrita no Antigo Testamento. A norma cristã refletida na Didaqué é, pelo contrário, a própria norma evangélica onde cada fiel deve contribuir não com exatos 10%, mas “segundo o ditame do seu coração; não de má vontade nem forçado, pois: ‘Deus ama a quem dá com alegria’” (2Coríntios 9,7). A segunda vinda de Cristo Conforme se observa na Didaqué, os cristãos da Igreja primitiva pensavam que não era possível prever o momento da segunda vinda de Cristo, tentação esta em que têm caído uma e outra vez numerosas seitas (Adventistas, Testemunhas de Jeová, Crescendo em Graça, etc.). Ao contrário, para os primeiros cristãos, era preciso estar preparado porque ao não saberem nem o dia e nem a hora, o mais prudente era evitar que fossem pegos desprevenidos: – “Vigiai sobre vossa vida; não se apaguem vossas lanternas, nem descarregai vossos lombos, mas estai preparados, porque não sabeis a hora em que vosso Senhor virá” (Didaqué 16,1-2). Justificação e Salvação Quanto à doutrina da justificação, a Didaqué, embora um texto cristão tão breve e antigo, contribui ricamente nesta doutrina. Rejeita, por um lado, e com antecipação, o Pelagianismo, heresia que surgiu formalmente no século V, onde o homem se justifica por seus próprios méritos e não pela graça de Deus mediante a fé: – “Logo, tampoco nós, que fomos por Sua vontade chamados em Jesus Cristo, nos justificamos por nossos próprios méritos, nem por nossa sabedoria, inteligência e piedade, ou pelas obras que fazemos em santidade de coração, mas pela fé, pela qual o Deus onipotente justificou a todos desde o princípio” (Didaqué 32,4). Porém, ao mesmo tempo, rejeita antecipadamente a heresia adotada por Lutero e o Protestantismo, onde só a fé basta para salvar-se (“Sola Fides”) mesmo que não esteja acompanhada da obediência aos mandamentos e uma vida conforme à vontade de Deus. Rejeita, ainda, a ideia de que a salvação não pode ser perdida (doutrina protestante que afirma: “uma vez salvo, sempre salvo”), assinalando que de nada serve ter tido fé durante muito tempo se a morte não surpreender o fiel na graça de Deus[9]: – “Reuni-vos com frequencia, inquirindo o que convém a vossas almas. Porque de nada vos servirá todo o tempo de vossa fé se não estiverdes perfeitos no último momento” (Didaqué 16,2-3). Você pode ler uma tradução católica (em espanhol) da Didaqué nesta url: – A Didaqué – http://mercaba.org Também pode ler a tradução protestante (em espanhol) nesta outra: – A Didaqué – http://escrituras.tripod.com —– NOTAS: [1] São conhecidos como Padres Apostólicos aqueles autores do Cristianismo primitivo que tiveram algum contato com um ou mais Apóstolos. São um subconjunto dentro dos Padres da Igreja, que se compõe de escritores do primeiro século e inícios do segundo, cujos escritos têm uma profunda importância para o conhecimento da Fé Cristã primitiva. Caracterizam-se por ser textos descritivos ou normativos, que tratam de explicar a natureza da novidade da doutrina cristã. [2] O batismo por imersão realiza-se mergulhando totalmente a batizando na água. [3] O batismo por infusão realiza-se derramando água sobre a cabeça [do batizando]. [4] Da mesma maneira que a Sagrada Escritura observa que a forma de batizar nem sempre pode ser por imersão. A este respeito pode-se mencionar o fato de que São Paulo parece ter sido batizado em uma casa e de pé. Atos 22,16 narra um batismo em Jerusalém, de 3000 pessoas em um mesmo dia e, visto que se trata de uma cidade que não possui nenhum rio, faz-se difícil crer que essa quantidade de pessoas foi mergulhada em algum tanque ou poço de água potável. [5] Os que argumentam que a fórmula batismal em nome das Três Divinas Pessoas, mencionada em Mateus 28,19, é uma interpolação tardia, buscam apoio nos escritos de Eusébio de Cesareia, historiador da Igreja do século IV, fazendo observar que antes do Concílio de Niceia (ano 325) Eusébio citava Mateus 28,19 escrevendo: “Fazei discípulos a todas as gentes, bautizando-os em meu nome”, e só posteriormente começou a citar o texto como o conhecemos hoje. Isto, no entanto, mais que provar que na Antiguidade se constumava citar a Escritura de forma não-textual, não tem força em relação à evidência documental, já que na totalidade de manuscritos bíblicos existentes (incluindo os mais antigos) lê-se a fórmula completa: “…batizando-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo” (quanto a isto, leia: “Batismo só em nome de Jesus?”). [6] No Catolicismo não se crê que uma oração seja vã por ser “pré-fabricada”. Crê-se que quando Jesus adverte que ao orar não se deve “falar muito como os gentios, que se caracterizam por crerem que pelo palavrório serão ouvidos” (Mateus 6,7) não está criticando a repetição em si mesma, já que o próprio Jesus chegou a empregar repetições (Mateus 26,43-44) e as encontramos frequentemente em orações da Sagrada Escritura (Isaías 6,2-3; Daniel 3,52-57; Salmo 136; 150; Apocalipse 4,8; etc.); nem está criticando a oração longa, da qual o próprio Senhor deu exemplo no Getsemani (Mateus 26,39.42.44), permanecendo a noite inteira em oração. Crê-se, ao contrário, que a crítica se refira à forma de orar dos pagãos, que enxergavam a oração como uma espécie de fórmula mágica que, sendo repetida mecânicamente, alcançavam seus objetivos; era o que faziam, por exemplo, os sacerdotes de Baal no Antigo Testamento, com práticas intermináveis na oração (1Reis 18,26) (quanto a isto, consulte o meu livro “Conversas com meus Amigos Evangélicos”, Createspace, 2014, 1ª Edição, p. 170). [7] Por otro lado, se se lê a Epístola aos Hebreus no seu contexto (capítulos 9 e 10), observa-se que o seu propósito não era rejeitar o caráter sacrificial da Eucaristia, mas admoestar aqueles cristãos, que estranhavam os sacrifícios rituais da Antiga Aliança, a não cair neles e judaizar. O cristão não tem necessidade dos ditos sacrificios, que não eram mais que uma prefiguração do sacrifício Eucarístico. [8] Ainda que a confissão auricular pôde desenvolver-se em sua forma exterior através do tempo, sua essência, que reside no fato reconhecido da reconciliação do pecador por meio da autoridade da Igreja, se depreende do poder que Cristo outorgou a seus Apóstolos quando lhes disse: “a quem perdoardes os pecados, eles lhes serão perdoados; a quem os retiverdes, eles lhes serão retidos” (João 20,23). [9] Para mais detalhes a respeito da doutrina católica sobre a justificação, consulte os meus livros “Conversas com meus Amigos Evangélicos”, Createspace, 2014, 1ª Edição, p. 52s) e “Compêndio de Apologética Católica”, Creatspace, 2014, 2ª Edição, p. 205. #catolicismo #didaque #Primitivo
- A Oração do Rosário
[1] As primeiras recomendações e confirmações pontifícias da oração do rosário são de Sixto IV (1478) e Pio V (1569 e 1571). Num tempo de graves perigos provocados pela heresia e pelo ataque dos turcos contra o Ocidente, são Pio V exortou a cristandade a encontrar conforto no rosário. Depois da grande vitória conseguida na batalha naval de Lepanto, ele acrescentou à virtude desta oração a salvação da cristandade, definiu sua forma, instituiu o dia 7 de outubro como festa do Santo Rosário e concedeu uma indulgência plenária “toties quoties” aos que o rezassem. Clemente XIII, no século XVIII; de modo particular, Leão XIII, no século XIX; Pio XI, Pio XII e João XXIII, em nosso século, exaltaram em inúmeras declarações públicas o alto valor desta oração e promoveram contínua e oficialmente sua prática.[2] Paulo VI – depois de tê-lo recomendado várias vezes anteriormente – deu-nos uma visão de conjunto de sua natureza, da importância e, sobretudo, do valor pastoral do rosário, o qual, por sua profundidade teológica, desvelo pastoral e abertura ecumênica, representa um documento de grande valor.[3] Esta exortação apostólica – no quadro das linhas fundamentais da mariologia traçadas pelo Vaticano II – delineia a figura da Mãe de Deus como aquela que está em primeiro lugar na Igreja, como a primeira redimida, e assim lança as bases para uma piedade mariana renovada. O Papa vê esta renovação sob um quádruplo aspecto, isto é, na perspectiva bíblica, litúrgica, ecumênica e antropológica. De modo particular, o rosário é ilustrado sob os seguintes aspectos essenciais: O rosário é uma oração bíblica. Ele faz a resenha dos dados essenciais da história da salvação. Está orientado para Cristo. Apresenta um caráter meditativo. Entre liturgia e rosário existe uma relação profunda Nas afirmações centrais do documento apresenta-se uma interpretação do rosário verdadeiramente adequada para o nosso tempo, que contribuirá para revitalizar esta devoção e precisamente de conformidade com as estruturas fundamentais da fé e dos princípios do culto cristão sadio. Aquilo que no decurso dos séculos disseram os papas, os concílios e os pastores de almas, assim como a própria sedimentação numa reflexão teológica atual. Seguindo de perto tais indicações, procuraremos agora ilustrar os traços fundamentais desta oração. 1. NO CENTRO DO ROSÁRIO ESTÁ O MISTÉRIO DE CRISTO O Concílio de Éfeso (431) afirmou: “Quem não confessar que o Emanuel é verdadeiramente Deus e que, consequentemente, a bem-aventurada Virgem Maria é a Mãe de Deus (Theotokos), porque, segundo a carne, deu à luz o Verbo encarnado que procede de Deus, seja excomungado”. Esta afirmação conciliar, que vincula todas as grandes confissões cristãs, indica o fundamento, o lugar na história da salvação, sobre o qual se ergue todo culto mariano bem ordenado. Como afirma o Magnificat, Deus realizou “grandes coisas” em Maria. Estas grandes coisas nada mais são senão isso: Maria tornou-se Mãe de Deus. No centro da oração do rosário, com sua repetição da “Ave-Maria” (três ciclos, cada um dos quais consta de cinquenta repetições), estão os dois mistérios inseparáveis da fé: “Jesus – Filho de Deus” e “Jesus – Filho da Virgem Maria”. A saudação angélica (cf. Lc 1,28) e o louvor pronunciado por Isabel (cf. Lc 1,42), juntamente com as súplicas da Igreja: “Santa Maria, Mãe de Deus…” envolvem, como que num quadro continuamente reproduzido, a sucessão histórico-salvífica dos mistérios da vida de Jesus. A finalidade última e autêntica da oração é o louvor a Cristo, ao passo que Maria abre o caminho para ele. A contemplação dos mistérios do Redentor – tradicionalmente subdivididos nos três ciclos dos mistériosgozosos, dolorosos e gloriosos – não permite ao orante guardar uma distância teórica e neutra, mas une-o estreitamente à vida, paixão e glória do Senhor. O olho espiritual do orante percorre como um ponteiro do relógio as situações mais importantes da obra salvífica de Cristo, e por isso podemos falar com razão – tanto o do coração como o do intelecto – capta por assim dizer os pontos nodais, o compêndio da vida do Homem-Deus, que se desenvolveu unicamente por nosso amor, apenas “por nós”, assim como nos é narrada nos evangelhos. Quem reza o rosário de maneira devida sente-se chamado pessoalmente, sente-se preso e inserido no destino e no curso da vida do Redentor. A nossa vida feita diariamente de altos e baixos, de desenvolvimento, maturação e entardecer, encontra aqui uma explicação que a eleva, uma interpretação sem igual. Por isso podemos dizer que o rosário é uma oração extremamente importante sob o perfil existencial. Como a nossa terra, a natureza e a humanidade vivem “das graças” do sol, assim também a fé cristã ilumina o caminho do homem. A oração do rosário solicita o orante, e a consequência interior que disso deriva é: “Segue-me”. Alegria, gratidão, dor, súplica, promessa e esperança constituem as condições fundamentais de toda vida humana. Na oração, nós as revivemos nas sequelas de Cristo. Lançando-nos para além da simples reflexão, captamos quase imperceptivelmente algo do destino daquela vida na qual está encerrada a salvação de todos os homens e de todos os tempos. A “solidariedade” cheia de fé com aquela pessoa que constitui o centro e o vértice da história de Deus com os homens permanece sempre a mesma na sucessão dos mistérios contemplados, permitindo ao orante deter-se tranquilo neste centro. Por isso e neste sentido, o rosário, apesar de toda a aparência externa, merece o título de oração do Senhor, de oração cristológica e verdadeiramente bíblica. 2. O ROSÁRIO É UMA ORAÇÃO MEDITATIVA E, PORTANTO, ATUAL E FECUNDA PARA O NOSSO TEMPO Em castos ambientes de nosso mundo, tão marcado pela técnica, no meio de uma época racionalista e científica, numa sociedade que mede o valor e a importância de cada um com base em suas prestações, uma aspiração diferente desbrava o próprio caminho e adquire direito de cidadania: a nostalgia e a fome de espaços livres nos quais alguém possa recolher-se e meditar. Percebe-se novamente uma exigência de “silêncio contemplativo”. Pode-se entrever de maneira confusa, mas profundamente sentida, que fins utilitaristas e para o seu sucesso, corre o risco de perder-se e, de uma forma ou de outra, põe evidentemente em questão a integridade do seu “ser homem”. Procura-se de novo o “princípio da fecundidade contemplativa” (R. Guardini). O que as nossas igrejas e o cristianismo experimentado cotidianamente parecem oferecer apenas de maneira insuficiente é procurado por muitos indivíduos nas filosofias e religiões orientais, que com frequência chegam ao homem ocidental, sedento de soluções e cheio de problemas, confeccionadas de maneira sincretista. O rosário é uma forma excelente de oração para exercitar-se na meditação contemplativa. É uma oração em que as forças do espírito e da alma se reúnem em torno da pessoa do Redentor e a ele aderem para revitalizar o seu fascínio. O que à primeira vista pode parecer monotonia mecânica e “produção em série”, aos olhos do orante revela-se um meio apropriado para concentrar todas as energias psíquicas e espirituais, todas as faculdades racionais e irracionais do homem. As práticas e os métodos de meditação não cristãos dizem-nos que o homem pode ser reconduzido da dispersão e da laceração exterior e interior à reflexão, à interioridade e ao recolhimento com a ajuda da repetição contínua e aparentemente monótona de uma palavra ou de uma frase. Uma única e mesma palavra, uma única e mesma frase continuamente repetidas tornam-se o veículo do recolhimento e da concentração psíquica e espiritual. Ao mesmo tempo, também a oração do rosário, com o seu ritmo bem articulado, possui a capacidade de separar o orante do mundo exterior sensível e guiá-lo para o silêncio, o recolhimento e a “simplicidade do coração”. Que o indivíduo recorra ao esquema orgânico e fixo de uma oração continuamente repetida não é necessariamente uma coisa que deva envergonhar-se. Pelo contrário, agindo desta forma, o orante manifesta significativamente a sua pobreza e impotência na busca do mistério de cuja energia e de cujo centro vive o homem. Portanto, a coisa decisiva é que esta oração, por assim dizer, toma pela mão o orante na sua fraqueza, o sustenta na sua pobreza e, por fim, lhe revela o centro de sua vida de fé. Paulo VI fala muitas vezes da “riqueza e variedade” da oração do rosário, que devemos descobrir e aproveitar. Oração individual ou oração comunitária, nunca deixa de dar múltiplos frutos. No curso dos séculos foram ditas coisas grandes e sublimes, profundas e instrutivas sobre a oração do rosário, mas as palavras não estão em condições para exprimir adequadamente aquilo que no fundo move o orante. Para compreender realmente a natureza desta oração e experimentar a sua benção, existe apenas um caminho: aproximar-se dela e rezá-la. Notas: [1] Ampla exposição em Kirfel, W. Der Rosenkranz. Ursprung und Ausbreitung, Waldorf, 1949; Willam, F. M., Geschichte und Gebetsschule de Rosenkranz, Viena, 1948; Kirsch, W., Handbuch der Rosenkranzes, Viena, 1951. [2] Uma coleção de documentos pontifícios referentes ao rosário pode ser encontrada na obra dos monges de Salesmes: Les Enseignements Pontificaux et Conciliaires: Le Saint Rosaire, Desclée, Paris, 1966. [3] MC 42-55. Fonte: O Culto a Maria Hoje / Hans Urs von Balthasar… (et al.), subsídio teológico-pastoral elaborado sob a direção de Wolfgang Beinert; (traduziu Luiz João Gaio; revisão de Luiz A. Miranda). – São Paulo: Ed. Paulinas, 1979, p. 266-272.
- AS ALMAS DO PURGATÓRIO, NÃO AS ESQUEÇAIS!
Os Sofrimentos das almas no purgatório. O que os Santos Doutores ensinam acerca dos sofrimentos do purgatório nos penetram de tema com paixão pelas almas. S. Boaventura ensina que nossos maiores sofrimentos ficam muito aquém dos que ali se padecem. São Tomás diz que o menor dos seus sofrimentos ultrapassam os maiores tormentos que possamos suportar. Confirmam Santo Ambrósio e São João Crisóstomo que todos os tormentos que o furor dos perseguidores e dos demônios inventaram contra os mártires, jamais atingirão a intensidade dos que padecem em tal lugar de expiação. O fogo! Estremecemos só de lhe ouvir o nome. E estar-se no fogo inteiramente, num fogo ativo, penetrante, que vai até o início do ser – que cruel suplício. Aquele fogo, diz S. Antônio, é de tal maneira rigoroso que comparado com o que conhecemos na terra, este se afigura como pintado num painel. Após uma visão do purgatório, exclama Santa Catarina de Gênova. “Que coisa Terrível! Confesso que nada posso dizer e nem conceber que se aproxime sequer da realidade. As penas que lá se padecem são tão dolorosas como as penas do inferno”. É pior que todos os martírios, 0 Pe. Faber disse. Creio que as penas do purgatório são mais terríveis e insuportáveis que todos os males desta vida, diz São Gregório Magno. S. Nicolau Tolentino teve uma visão de um imenso vale onde multidões de almas se retorciam de dor num braseiro imenso e gemiam de cortar o coração. Ao perceberem o Santo, bradavam suplicantes, estendendo os braços e pedindo misericórdia e socorro. Padre Nicolau, tem piedade de nós! Se celebrares a Santa Missa por nós, quase todas seremos libertadas de nossos dolorosos tormentos. São Nicolau celebrou sete missas em sufrágio dessas almas. Durante a última missa apareceu-Ihe uma multidão de almas resplandecentes de glória que subiam ao céu. A Duração das Penas no purgatório Assegura-nos S. Vicente Ferrer, que há almas que ficaram no purgatório um ano inteiro por um só pecado. Santa Francisca afirma que a maioria das almas do purgatório lá sofrem de trinta a quarenta anos. Muitos santos viram almas destinadas a sofrer no purgatório até o fim do mundo. As almas simples e humildes, sobretudo as que muito sofreram neste mundo com paciência e se conformaram perfeitamente com a vontade de Deus, podem ter um purgatório muitíssimo abreviado, às vezes horas… S. Paulo da Cruz, estando em oração, ouviu que batiam à porta com força. – Que queres de mim, pergunta. – Quanto sofro. Quanto sofro, meu Deus! Sou a alma daquele padre falecido. Há tanto tempo estou num oceano de fogo, há tanto tempo!… Parecem mil anos! São Paulo da Cruz o conheceu logo e respondeu admirado: Meu padre, faz tão pouco tempo que faleceu e já me falas em mil anos. O pobre padre pediu sufrágios e desapareceu. São Paulo da Cruz, comovido, orou muito por ele e no dia seguinte celebrou a Missa pela defunto. Viu-o, então, entrar triunfante no céu, na hora da comunhão. O Papa Inocêncio III apareceu a Santa Lutgarga dizendo que deveria ficar no purgatório até o fim do mundo por algumas faltas no governo da Igreja. Nosso Senhor mostrou-lhe quatro padres que estavam lá já mais de cinquenta anos, por administrarem mal os Ss. Sacramentos. Santa Verônica Juliani fala de uma irmã que deveria ali permanecer tantos anos quantos passou neste mundo. Ao padre Scoof, de Louvain, foi revelado que um banqueiro de Antuérpia estava no purgatório há mais de duzentos anos porque tinham rezado pouco por ele. Toma, pois, a resolução de jamais deixar passar um dia sequer sem rezar pelos parentes falecidos. Tem piedade daqueles que nos deixaram e que agora estão sofrendo. Pensa nos membros de tua família que faleceram e que tens deixado em tão lamentável e total esquecimento. A Necessidade de Ajudar as Almas do Purgatório Impotência para se acudirem O estado das almas do purgatório é de absoluta impotência. Parecem-se com o paralítico estendido à beira da fonte de Siloé, que não podia fazer o menor movimento para ter alívio. Vêem suas companheiras de infortúnio, aliviados de tempos a tempos recebendo os frutos de uma comunhão, o valor de uma missa, e elas ficam esquecidas. Vós que viveis na terra e tão facilmente vos comoveis ante o sofrimento e a idéia do abandono, ouvi as almas do purgatório pedindo-vos uma migalha desse pão que Deus vos dá com tanta abundância: uma pequena parte de vossas orações, boas obras, e sofrimentos! Como são justas as queixas que um religioso ouviu desses pobres corações abandonados. “Ó irmãos! Ó amigos! Pois que há tanto tempo vos aguardamos, e vós não vindes; vos chamamos e não respondeis; sofremos tormentos que não tem iguais, e não vos compadeceis; gememos e não consolais”. Ai, dizia uma alma, ignora-se no mundo que o fogo do purgatório é semelhante ao do inferno. Se possível fosse fazer uma visita a essas mansões de dor, não haveria na terra quem quisesse cometer um só pecado venial, visto o rigor com que é punido. ================= São Francisco Xavier percorria, à noite, as ruas da cidade, convocando com uma campainha o povo a orar pelas almas. Outrora muitas almas saíam do purgatório graças às orações dos fiéis, mas agora poucas saem de lá. Poucos se preocupam com elas. A Santa Missa Salva Almas A Santa Missa é o sacrifício de expiação por excelência. É a renovação do Calvário, que salvou o gênero humano. Na Missa colocou a Igreja a memória dos mortos, e isso no momento mais solene, em que a divina Vítima está presente sobre o altar. É a melhor, a mais eficaz, a mais rápida maneira de aliviar e libertar as almas dos nossos queridos mortos. Certa feita, celebrando a Missa em uma igreja de Roma, São Bernardo caiu em êxtase e viu uma escada que ia da terra ao céu, pela qual os anjos conduziam as almas libertadas do purgatório em virtude do santo sacrifício. Nessa Igreja – Santa Maria Escada do Céu – há um quadro que representa essa visão. Não há maior socorro às almas, diz Guerranger, que a Santa Missa: A Missa é a esperança e a riqueza das almas. Podemos duvidar do valor de nossas orações; mas da eficácia do Santo Sacrifício, no qual se oferece o Sangue de Jesus pelas almas, que dúvida podemos ter? Ao Beato João D’Avila, nos últimos instantes de vida, Perguntaram o que mais desejaria depois da morte. Missas! Missas! Ao Beato Henrique Suzo apareceu depois da morte um amigo íntimo gemendo de dor e a se queixar: “Ai, já te esqueceste de mim”. – Não, meu amigo, responde Henrique, não cesso de rezar pela tua alma, desde que morreste. – Ó, mas isto não me basta, não basta! Falta-me para apagar as chamas que me abrasam o Sangue de Jesus Cristo. Henrique mandou celebrar inúmeras Missas pelo amigo. Este lhe apareceu então já glorificado e lhe diz: “Meu querido amigo, mil vezes agradecido. Graças ao Sangue de Jesus Cristo Salvador, estou livre das chamas expiadoras. Subo ao céu e lá nunca te esquecerei”. A cada missa, diz São Jerônimo, saem muitas almas do purgatório. E não sofrem tormento algum durante a Missa que lhes é aplicadas. Seu Sacrifício também é uma Oração Nossas Orações: Um meio fácil Um movimento do coração, um olhar para o céu em sua lembrança, um suspiro de piedade, um pensamento de compaixão, os nomes de Jesus, Maria e José pronunciados com devoção em favor das almas, diminuem certamente suas penas. Custa-nos muito pouco sufragar os defuntos. Somos obrigados a certas orações, a assistir Missas aos domingos, e aproximar-nos dos sacramentos, a perdoar nossos inimigos. Tudo isso é aceito por Deus e serve para alívio delas. E os males do dia a dia? A fadiga do trabalho, as doenças, as humilhações, a tarefa de suportar os que nos rodeiam, os problemas, tudo isto pode servir para expiar os pecados das almas. E de que sofrimentos serão aliviados os finados! Dizia S. Francisco de Sales: Vós que chorais inconsoláveis a perda de vossos entes queridos, eu não vos proíbo de chorar, não. Mas, procurai adoçar vossas lágrimas com o suave bálsamo da oração, que pode concorrer para as aliviar”. A oração de Marta e Maria leva Jesus a ressuscitar Lázaro. Nossas preces pelos defuntos hão de tirar as pobres almas daquele estado em que se encontram. Poupai vossas lágrimas, dizia São João Crisóstomo, pelos defuntos e dai-Ihes mais orações. E Santo Ambrósio conclui: “É preciso assisti-Ias com orações do que chorá-las”. Nosso Senhor fez ouvir estas palavras a Santa Gertrudes: Muitíssimo grata me é a oração pelas almas do purgatório, porque por ela tenho ocasião de libertá-Ias das suas penas e introduzí-las no glória eterna. Os testemunhos encontrados nas vidas dos Santos provam claramente as vantagens da oração que se fazem pelas defuntos! (S. João Damasceno) Santa Teresa dizia que tudo obtinha por intermédio das almas dos fiéis. Quando quero obter com certeza urna graça, diz Santa Catarina de Bolonha, recorro a essas almas que sofrem, a fim de que apresentem a Deus o meu pedido, e 1~ me é concedida a graça. Nossos Sacrifícios O sofrimento junto com a prece tem uma eficácia extraordinária para obter de Deus todas as graças. Aliviemos as almas do purgatório, diz São João Crisóstomo, com tudo que nos mortifica. Deus aplica aos mortos os méritos dos vivos. Por aqueles que amais, sacrificai o que tendes de mais caro. Sacrificai-vos a vós mesmos. Ah, vejo essas almas felizes elevarem-se para o céu, nas asas de nossos sacrifícios, de nossas austeridades e sofrimentos, é o que diz o padre Belioux. ================= O padre Jacques Monfort, S. J. escreveu um livro sobre a caridade para com as almas, e fê-lo imprimir em Colônia, por Guilherme Freysisen. tempos depois, ele recebeu uma carta do editor na qual narrava que seu filho e sua esposa tinham adoecido gravemente. Os médicos já tinham perdido as esperanças, e pensavam em funerais. Fui à Igreja e prometi distribuir cem exemplares do citado livro entre os padres a fim de lhes lembrar quanto se devem interessar pelos falecidos. No mesmo dia os doentes tiveram melhoras acentuadas e poucos dias depois estavam perfeitamente curados e tão sãos que o acompanharam à Igreja para agradecer a Deus tanta misericórdia. Promete pois, em tuas dificuldades, propagar a devoção às santas almas e elas saberão ser gratas e o ajudarão. A Gratidão das Almas A ingratidão não pode existir no purgatório. Aquelas benditas almas nos hão de proteger e socorrer sempre. O Cardeal Barônio conta que uma pessoa devota das almas foi terrivelmente tentada na hora da morte. Mas eis que uma multidão de pessoas veio em seu auxílio. Logo ficou livre de toda perturbação e perguntou: – Que multidão é esta que entrou aqui e na mesma hora senti alívio e fui socorrido pelo céu? ================= O que fizerdes ao mínimo dos meus é a mim que o fazeis, diz o Senhor. Sereis medidos com a mesma medida que houverdes usado para com os outros. Deus é muito justo para deixar uma só ação sem recompensa e, recompensando como Deus, dá mais do que lhe deu. Tudo o que damos por caridade, diz Santo Ambrósio, às almas do purgatório, converte-se em graças para nós e, após a morte, encontramos o seu valor centuplicado. O purgatório é um banco espiritual em que podemos depositar quotidianamente nossas boas obras; e aí estão em seguro e se multiplicam; e quando estamos necessitados, daí vêm como viria o rendimento de um dinheiro depositado, a luz, a força, o auxílio que carecemos. Sejamos generosos; muito generosos. Vantagens Constituímos no céu um representante nosso que em nosso nome adora, louva e glorifica o Senhor. Constituímos protetores nossos as almas por quem oramos, são Santas, é o que diz Suarez, essas almas caras a Deus. A caridade leva-as a nos amar… e intercederão por nós sem cessar. As Almas Esperam por sua Ajuda Como são esquecidos os mortos! A Igreja, querendo que não nos esqueçamos das almas, consagrou um dia inteiro todos os anos à oração pelos finados. Determinou que em todas as missas houvesse uma recomendação e um momento especial pelos mortos. Ela aprova, sustenta e estimula a caridade pelos falecidos. Como são esquecidos os mortos! Exclamava santo Agostinho! E no entanto acrescenta S. Francisco de Sales, em vida eles nos amavam tanto. Nos funerais: lágrimas, soluços, flores. Depois, um túmulo e o esquecimento. Morreu… acabou-se! Se cremos na vida eterna, cremos no purgatório. E se cremos no purgatório, oremos pelos mortos. O purgatório é terrível e bem longo para algumas almas. S. Francisco de Sales tinha medo de seus admiradores. Essas pessoas, imaginando que depois da minha morte fui logo direto para o céu, me farão sofrer no purgatório. Santa Tereza pedia: apelo amor de Deus, eu peço a cada pessoa uma Ave-Maria, a fim de Que me ajude a sair do purgatório e apresse a hora em que hei de gozar a vista de Jesus Senhor Nosso”. O grande Frederico Ozanan, deixou estas linhas: “Não vos deixes levar por aqueles que vos disserem: ele está no céu! Rezai sempre por aquele que muito vos ama, mas que muito pecou. Com o auxílio de vossas orações eu deixarei a terra com menos temor” . Santo Agostinho pede orações pelas almas de Mônica, sua mãe, e todos os leitores de seus livros. Padre Marcelo Tenório
- DA OBRIGAÇÃO QUE TÊM OS SACERDOTES DE TENDER À PERFEIÇÃO
Em virtude de alguns escândalos que temos visto nos últimos anos, venho trazer um estudo para lembrar nossos Sacerdotes, talvez alguns se esqueceram da sua missão, mas estamos aqui para lembrá-los, se você ama seu Sacerdote, envie este texto para ele. DA OBRIGAÇÃO QUE TÊM OS SACERDOTES DE TENDER À PERFEIÇÃO Os sacerdotes, em virtude das suas funções e da missão que lhes incumbe de santificar as almas, são obrigados a uma santidade interior mais perfeita que o simples religioso, que não foram elevados ao sacerdócio. É esta a doutrina expressa de São Tomás, confirmada pelos documentos eclesiásticos mais autênticos: “quis per Sacrum ordinem aliquis deputatur ad dignissima ministeria, quibus ipsos Christo servitur in sacramento Altaris; ad quod requiritur maior sanctitas interior, quam requirat etiam i Religiones status ( pela ordem sacra, o clérigo é consagrado aos Ministérios mais dignos que existem, nos quais ele serve o Cristo no sacramento do altar, o que Exige uma santidade interior muito maior do que a exigida no estado religioso, Suma Teológica 2,2 quadra 184). Os concílios, em particular o de Trento(sessão XXII); os Santos pontífice especialmente Leão XIII e São Pio X, por ocasião do quinquagésimo aniversário do seu sucesso do seu sacerdócio, publicou uma carta dirigida ao clero católico, em que demonstraram à necessidade da santidade do sacerdote para o sacerdote, e indica com precisão os meios necessários para a alcançar, meios que para dizer de passagem, “são precisamente o que nós temos que espalhar nos nossos seminários na atualidade”. Depois de haver descrito a santidade interior ( vitae morumque sanctimonia), declara que só esta santidade torna o sacerdote tal qual exige a vocação Divina: homens crucificados ao mundo, revestidos do homem novo, que não aspiram senão aos bens celestes e se esforçam, por todos os meios possíveis, por inculcar aos outros os mesmos princípios: “Sanctitas una nos efficit quales vocatio divina exposcit: homines videlicet mundo crucifixos … homines in novitate vitae ambulantes…qui unice in caelestia tendant et allios eodem adducere Omni ope contendant”(somente a santidade nos tornar tais quais nos exige a vocação divina: homens verdadeiramente crucificados para o mundo… Homens que caminham numa vida nova… Que que tendam unicamente para as coisas celestiais e que lutem com todo o empenho por levar a outros para para lá) O código sancionou estas ideias de São Pio X, insistindo, mais do que havia feito a legislação antiga, sobre a necessidade da santidade para o sacerdote e os meios de a alcançar. Declara sem rodeios que “os clérigos devem levar uma vida interior e exterior mais Santa que os leigos, e dar-lhes bons exemplos pela sua virtude e boas obras”. E acrescenta que os bispos devem procurar “que todos os clérigos se aproximem frequentemente do Sacramento da Penitência, para se purificarem das suas faltas: que consagrem todos os dias certo tempo à oração mental, visitem o Santíssimo Sacramento, recitem o terço em honra da virgem Mãe de Deus, e façam exame de consciência. Todos os três anos, ao menos, devem os sacerdote seculares fazer um Retiro durante o tempo determinado pelo seu Bispo, em uma casa pia ou religiosa: não podem ser dispensados dessa obrigação senão, em algum caso particular, por uma causa grave e com licença explícita do ordinário. Todos os clérigos, mas sobretudo os sacerdotes são especialmente obrigados a ter para com o seu ordinário respeito e obediência (cânon 123-127). Além disso, a necessidade que tem o sacerdote de tender à perfeição: prova-se: primeiro pela autoridade de Nosso Senhor Jesus Cristo e de São Paulo; Segundo pelo pontifical; terceiro, pela mesma natureza das funções sacerdotais. Compêndio de teologia ascética e mística, Adolphe Tanquerey #MacauGoaAngolaMoçambiqueCaboverdeGuinéBissauGuinéEquatorialSãotoméeprincipeEUAfrançaparisgeorgiaportugalMacedôniabelarusRússiapaquistãoIrãCoreiaEgipto #MacauGoaAngolaMoçambiqueCaboverdeGuinéBissauGuinéEquatorialSãotoméePrincipeEUAfrançaparisgeorgiaportugalmacedoniabelarusrussiapaquistãoIrãnCoreiaEgiptoAr #UzbequistãoLaosMauritâniaIêmemAfeganistãoMaldivasSomáliaArábiaSauditaIrãCoréiadoNorte #Igreja
- Eis o que ensinam no curso de Eclesiologia Católica da Paróquia Nossa Senhora de Guadalupe, em Goico
Autor: José Miguel Arráiz Fonte: http://infocatolica.com/blog/apologeticamundo.php Trad.: Carlos Martins Nabeto Um leitor da Costa Rica me escreveu preocupado com o que lhe estão ensinando na sua paróquia em um curso de “Introdução à Eclesiologia”, ministrado pelo professor Luis Boschini López. Trata-se da Paróquia Nossa Senhora de Guadalupe, na cidade de Goicoechea, distrito de Guadalupe, província de São José de Costa Rica. Tal como me comentou este nosso amigo, algumas das afirmações do professor deixaram diversos alunos bastante desconcertados: 1) As palavras do Evangelho ao apóstolo Pedro – “E eu, da minha parte, te digo: tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei minha Igreja, e as portas do Hades não prevalecerão contra ela. A ti te darei as chaves do Reino dos Céus; e o que atares na terra será atado nos céus, e o que desatares na terra será desatado nos céus” (Mateus 16,18-19) – são um acréscimo posterior ou uma interpolação tardia do século II ou III; consequentemente, não fazem parte do texto bíblico original. 2) Pedro não foi o primero Papa; nunca esteve em Roma; e Jesus nunca lhe entregou quaisquer chaves do Reino dos Céus. Para justificar que seu ensino é “católico”, o professor escreveu por e-mail aos seus alunos: “Diante de um comentário que me remeteu um de vocês, pedindo mais detalhes acerca do tema de que Pedro não foi o primeiro líder da Igreja, envio-lhes o seguinte: a) O melhor comentário atual de São Mateus, que dedica várias páginas ao texto citado, é de um professor alemão, Ulrich Luz: http://es.scribd.com/mobile/doc/208234345/Luz-Ulrich-El-Evangelio-Segun-San-Mateo-02. Sobre a citação de Mateus 16,13-20, o podem encontrar nas páginas 595 em diante. b) Da mesma forma, anexo um escrito de Pablo Richard, chileno radicado em nosso país, sacerdote e teólogo, considerado um dos melhores biblistas do nosso país. Inclusive, deu cursos e palestras na Universidade de La Salle. Observem que os dois documentos apontam que Pedro não foi o primeiro cabeça da Igreja e, segundo, que houve acréscimo. Estes são dois documentos sérios e de peso; porém, vocês podem pesquisar no ‘Google Scholar’, que é onde se encontram documentos de pessoas preparadas.” Passarei agora a analisar esses argumentos. 1) Mateus 16,18-19 é uma interpolação? O tema das interpolações na Sagrada Escritura é bem extenso; e fica ainda mais complicado porque há textos “incômodos”, que para alguns, por razões ideológicas, são difíceis de se aceitarem, razão pela qual atribuí-los a um acréscimo posterior resulta como solução fácil. Há outros textos, no entanto, para os quais há evidência certa de que foram interpolados e, por isso, foram removidos de diversas edições críticas da Bíblia. No caso do texto em questão, não há evidências de que o mesmo foi interpolado, eis que tal como o conhecemos hoje encontra-se em TODOS os códices e versões mais antigas existentes; da mesma maneira, é citado pelos autores mais antigos da Cristandade e, por isso mesmo, o encontramos unanimemente nas traduções antigas e modernas da Bíblia, tanto católicas quanto protestantes. A aqueles que queiram estudar mais a fundo o tema das interpolações, sugiro consultar os dois artigos que Pato Acevedo (meu colega blogueiro em Infocatólica) escreveu no seu blog: – O lucrativo negócio das interpolações[1] – O negócio das interpolações (Parte 2)[2] No tocante a Mateus 16,18-19 e sua possível interpolação, sugiro ainda ler a resposta do sacerdote e teólogo Miguel Ángel Fuentes: – São originais os versículos de Mateus 16,18-19?[3] Em resumo: se alguém, além de razões ideológicas e meras suposições, possui uma evidência real e tangível para excluir Mateus 16,18-19 do texto bíblico, que publique o seu próprio texto crítico das Sagradas Escrituras e veja se lhe tomam a sério. Porém, enquanto não for assim, melhor agir como diz o ditado: “É melhor ficar calado”. 2) Argumento de autoridade X falácia de autoridade Por outro lado, salta à vista que o professor, ao invés de apresentar provas, sustenta sua argumentação naquilo que ele considera “documentos de peso”, constante de um comentário bíblico do teólogo protestante de tendência liberal Ulrich Luz, e de um sacerdote católico chileno Pablo Richard, ligado à Teologia da Libertação. A primeira coisa que me chamou a atenção é: por que um professor que compartilha cursos em uma paróquia católica considera que um comentário bíblico protestante é o melhor comentário bíblico da atualidade sobre o Evangelho de Mateus? Por que considerá-lo melhor – por exemplo – do que o “Comentário do Evangelho de Mateus”, do professor Josef Schmid, acadêmico católico de origem alemã, cuja obra editada e publicada pela Editora Herder conta com as devidas licenças eclesiásticas? Se se vai estudar a primazia de Pedro na Igreja primitiva, por que não recorrer a historiadores católicos que têm obras especializadas sobre o tema, como “O Pontificado Romano na História”, de José Orlandis, que foi catedrático de História do Direito da Universidade de Zaragoza, Decano da Faculdade de Direito Canônico e primeiro Diretor do Instituto de História da Igreja, que escreveu mais de 200 trabalhos e mais de 20 livros, e foi considerado um dos mais importantes historiadores católicos da atualidade? Obviamente, eu poderia citar mais bibliografia católica contradizendo suas teses, já que abundantíssima, porém seria perder de vista o erro principal da argumentação: a de que a autoridade (ou “o peso”, como a chama este professor) na Igreja Católica não reside em tal ou qual comentário bíblico, mas no ensino da Igreja Católica por seu Magistério. Com efeito, quem se auto-intitula “católico”, mesmo sendo teólogo e sacerdote, porém sustenta postulados contrários à fé – como sustentam estes autores – simplesmente já não pode ser tido como católico. Ou é tão “católico” quanto podem ser outros teólogos que infiltram suas próprias obras nas livrarias católicas, mas que nem sequer deveriam ser considerados como “cristãos”, já que negam a divinidade de Cristo, a realidade da sua ressurreição e dos seus milagres, a historicidade dos Evangelhos e tudo mais quanto sua falta de fé lhes impede crer. Em suma: se o trunfo do professor reside no fato de haver dois acadêmicos que apoiam as suas opiniões heterodoxas, tal argumento não passa de uma falácia de autoridade, que se caracteriza pelo fato de confundir realmente onde se encontra a autoridade na Igreja, e também pelo fato de que, inclusive sob sua própria lógica, ser possível encontrar abundantíssima bibliografia católica contradizendo as suas teses. E isso sem contar que não é sensato apresentar aos seus alunos bibliografia protestante em um curso de Eclesiologia Católica, oferecendo-lhes “gato por lebre”. É questão de bom senso que se eu vou à minha paróquia CATÓLICA para estudar Eclesiologia CATÓLICA, o mínimo que eu espero é que façam uso de uma bibliografia CATÓLICA. Portanto, o que mais devemos esperar? Que apresentem a nossas crianças as revistas [anticatólicas] da Chick Publications como suplementos infantis catequéticos? 3) Pablo Richard e sua visão “global e libertadora” do Evangelho de Mateus Deixando agora o comentário bíblico protestante (que ao professor Luis Boschini lhe parece a “joia da coroa”), analisarei os argumentos de Pablo Richard, o qual é sim sacerdote católico. Eis aqui um extrato da sua Introdução (os negritos são meus): – “O Evangelho de Mateus foi o evangelho mais comentado na história da Igreja; porém, ao mesmo tempo, é também o evangelho cuja interpretação é normalmente a mais dogmática e espiritualista. A força e a mensagem deste evangelho é tão grande e o projeto de Igreja que propõe é tão exigente, que nenhuma Igreja pode tolerá-lo em seu sentido literal, histórico e espiritual autênticos. A Igreja Católica, sobretudo após a reforma constantiniana e o surgimento da Cristandade ocidental (século IV), evoluiu em sentido contrário ao mais original deste evangelho. A Igreja só pode entender e interpretar um evangelho quando é capaz de vivê-lo. Quando não pode vivê-lo, ignora-o ou espiritualiza-o. A tradição sacralizou dentro do Evangelho de Mateus aquela frase de Jesus: ‘Tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei minha Igreja’ (16,18). Esta sentença converteu-se no cânon dentro do cânon. Todo o Evangelho foi lido, a partir daqui, com um sentido dogmático, autoritário, patriarcal e hierárquico: se fez de Pedro o primeiro Papa e se institucionalizou a Igreja com um esquema totalmente alheio à tradição e ao texto do Evangelho de Mateus. Por tudo isto, é tão importante resgatar o sentido original do Evangelho, para confrontar a Igreja com a utopia de suas origens” (Pablo Richard, “O Evangelho de Mateus: uma visão libertadora”, Introdução). Vale a pena pontualizar que este autor não afirma que o texto de Mateus 16,18 foi interpolado, mas que foi interpretado em um sentido “dogmático, autoritário, patriarcal e hierárquico”, que acabou obscurecendo o sentido original do Evangelho. Diferenciemos entre ambos os argumentos: uma coisa é dizer que o texto é falso; outra, que foi mal-interpretado. Por outro lado, tornam-se evidentes certos preconceitos da parte do autor, que são melhor compreendidos quando se conhece o contexto de que se trata de um teólogo ligado à Teologia da Libertação. Um preconceito que se expressa em um certo farisaísmo quando se coloca ele como quem possui uma visão libertadora do Evangelho de Mateus, enquanto que ao mesmo tempo afirma que “nenhuma Igreja pode tolerá-lo em seu sentido literal, histórico e espiritual autênticos”. Atribuir a si o rótulo de espiritualidade enquanto atribui a outros o rótulo de autoritários não é um bom indício de humildade e objetividade. Muito menos se, como ele mesmo afirma, pretende confrontar o ensino da Igreja. Quanto a isto, também é um absurdo: um professor tentando apresentar a seus alunos, como ensino da Igreja, uma fonte que reconhece que visa confrontar a Igreja. Vamos agora para a objeção de que todo o Evangelho de Mateus foi lido a partir de Mateus 16,18-19 “com um sentido dogmático, autoritário, patriarcal e hierárquico”. Para compreender em que sentido isto é correto e em que sentido não, devemos ir às fontes e estudar como os cristãos têm entendido esse texto ao longo da História. E o poderíamos resumir em duas perguntas: – Ao longo da História, os cristãos entenderam o texto de Mateus 16,18 em sentido dogmático e hierárquico? Sim. – Ao longo da História, os cristãos entenderam o texto de Mateus 16,18 SOMENTE em sentido dogmático e hierárquico? Não. E é aqui onde desde suas origens a exegese católica se tem distinguido de outras exegeses posteriores, como a protestante: compreendendo que de um mesmo texto pode-se extrair muitos ensinamentos que não necessariamente são contraditórios entre si. O Protestantismo, ao ler esse texto do Evangelho, tem alegado tradicionalmente que deve ser comprendido no contexto da conversa prévia entre Jesus e Pedro, onde o Senhor Jesus lhe pergunta quem é Ele e este lhe responde que é o Messias, o Filho do Deus vivo. Jesus, por sua vez, lhe responde que é bem-aventurado porque isto lhe foi revelado pelo próprio Pai celeste (vv.15-17). Neste ponto, o Protestantismo argumenta que todo o demais deve ser compreendido a partir desde acontecimento; e daí concluem que Pedro não se diferencia de nenhum outro cristão que professe também a sua fé em Cristo como o Messias. Na Igreja Católica, ao contrário, se tem compreendido o texto em um contexto mais amplo, aceitando que ainda que seja certo que Pedro proclamou em alta voz a identidade de Jesus, também é certo que Jesus lhe devolveu o gesto identificando-o como a pedra sobre a qual edificaria a sua Igreja, ao mesmo tempo que confirma sua autoridade, conferindo-lhe as chaves do reino dos céus. Não se trata pois de colocar ambas as interpretações em conflito, mas de entendê-las de uma maneira harmônica. Nem somente Pedro identificou a Jesus, nem somente Jesus identificou a Pedro, pois ocorreram AMBAS as coisas. E ambos os fatos têm relação: Pedro foi eleito como o primeiro entre os discípulos em virtude de sua fé. A fé é um dom de Deus e o serviço também o é. Deus, que concedeu a Pedro o dom da fé, também lhe concedeu o dom de servir para confirmar os seus irmãos na fé, assim como concedeu aos Apóstolos acompanhá-lo no ministério do apostolado. É certo que os primeiros cristãos e Pais da Igreja, tanto ANTES quanto DEPOIS do reinado do imperador Constantino, entenderam esses textos em ambos os sentidos e de forma complementar. É evidente que houve, naturalmente, um desenvolvimento teológico; porém, assumir que apenas o fizeram em um sentido apenas se pode explicar ou pela ignorância ou pelo preconceito. Sugiro, quanto a isto, ler “Mateus 16,18 e os Pais da Igreja”[4]; aí encontrará uma variada recompilação de textos de diversas épocas onde os Pais da Igreja interpretam esse texto de maneira harmônica e em diferentes sentidos. Não é pois o “aut-aut” protestante (isto OU aquilo) mas do “et-et” católico (isto E aquilo). Tampouco se trata de ser “espiritual” ou “dogmático”, assim como tampouco a autoridade exclui o serviço, como se fossem conceitos excludentes. O problema o têm aqueles que, por seu rejeição à autoridade, têm alergia ao dogma, como se os grandes Santos não tivessem aceitado e professado todas as verdades da fé e não tivessem sido também testemunhas vivas da espiritualidade cristã. Por tudo, solicito ao professor Luis Boschini López que, por gentileza, deixe de difundir entre os seus alunos teologia liberal protestante disfarçada de eclesiologia católica; e peço também ao seu Pároco e, em última instância, ao seu Bispo, que tomem providências no assunto. —– NOTAS: [1] Original em espanhol: http://infocatolica.com/blog/esferacruz.php/1506131048-el-lucrativo-negocio-de-las-i [2] Original em espanhol: http://infocatolica.com/blog/esferacruz.php/1506220645-el-negocio-de-las-interpolaci [3] Original em espanhol: http://www.teologoresponde.org/2014/03/22/son-originales-los-versiculos-de-mateo-16-18-19/ [4] Original em espanhol: http://www.apologeticacatolica.org/Primado/PrimadoN09.html #Senhora #curso #paróquia #Nossa #Palestra #Eclesiologia #ensinam #Catolica
- ADORO TE DEVOTE – SANTO TOMÁS DE AQUINO
A história desta festa também é bastante edificante. No ano de 1263, um padre de nome Pedro de Praga, vacilante sobre a veracidade da transubstanciação, fez uma peregrinação de Praga a Roma, a fim de alcançar uma graça para que esta tentação o deixasse. Foi, então, que o prodígio ocorreu enquanto celebrava a Santa Missa perto donde repousava o corpo de S. Cristina em Bolsena. Padre Pedro, no momento da consagração, viu gotejar sangue da Hóstia então consagrada e banhar o corporal e os linhos litúrgicos. O sacerdote, impressionado com o acontecimento, vai para Orvieto onde residia o Papa Urbano IV, o qual mandou para Bolsena o bispo Giacomo para verificar o ocorrido e recolher o linho manchado com o Sangue de Cristo. No ano seguinte, o Papa promulgou a bula “Transiturus” que instaurava para toda a cristandade a Festa do Corpo de Deus na cidade que até então estava infestada de Cátaros – hereges que negavam o Sacramento da Eucaristia. O Papa pediu, então, para Santo Tomás de Aquino compor o ofício de Corpus Christi. Uma das orações compostas por Santo Tomás foi o belíssimo “Adoro Te Devote”: 1.Eu vos adoro devotamente, ó Divindade escondida, Que verdadeiramente oculta-se sob estas aparências, A Vós, meu coração submete-se todo por inteiro, Porque, vos contemplando, tudo desfalece. 2.A vista, o tato, o gosto falham com relação a Vós Mas, somente em vos ouvir em tudo creio. Creio em tudo aquilo que disse o Filho de Deus, Nada mais verdadeiro que esta Palavra de Verdade. 3.Na cruz, estava oculta somente a vossa Divindade, Mas aqui, oculta-se também a vossa Humanidade. Eu, contudo, crendo e professando ambas, Peço aquilo que pediu o ladrão arrependido. 4.Não vejo, como Tomé, as vossas chagas Entretanto, vos confesso meu Senhor e meu Deus Faça que eu sempre creia mais em Vós, Em vós esperar e vos amar. 5.Ó memorial da morte do Senhor, Pão vivo que dá vida aos homens, Faça que minha alma viva de Vós, E que à ela seja sempre doce este saber. 6.Senhor Jesus, bondoso pelicano, Lava-me, eu que sou imundo, em teu sangue Pois que uma única gota faz salvar Todo o mundo e apagar todo pecado. 7.Ó Jesus, que velado agora vejo Peço que se realize aquilo que tanto desejo Que eu veja claramente vossa face revelada Que eu seja feliz contemplando a vossa glória. Amém LATIM 1.Adoro te devote, latens Deitas, Quae sub his figúris vere látitas Tíbi se cor méum tótum súbjicit Quia te contémplans tótum déficit. 2.Vísus, táctus, gústus in te fállitur, Sed audítu sólo tuto creditur Credo quídquid díxit Dei Fílius Nil hoc verbo veritátis vérius. 3.In crúce latébat sola Deitas, At hic látet simul et humánitas Ambo tamen crédens atque cónfitens, Péto quod petívit látro paénitens. 4.Plagas, sicut Thomas, non intúeor Déus tamen méum te confíteor Fac me tíbi semper magis crédere, In te spem habére, te dilígere. 5.O memoriále mórtis Dómini, Pánis vívus vítam praéstans hómini, Praésta méae ménti de te vívere, Et te ílli semper dulce sápere. 6.Pie pellicáne Jésu Domine, Me immundum munda túo sánguine, Cújus una stílla sálvum fácere Tótum múndum quit ab ómni scélere. 7.Jesu, quem velátum nunc aspício, Oro fiat illud quod tam sítio Ut te reveláta cérnens fácie, Vísu sim beátus túae glóriae. Amem. Compartilhado de Montfort.
- O mito dos instrumentos de tortura atribuídos à inquisição
INTRODUÇÃO Neste presente texto, gostaríamos demonstrar ao leitor a mentira dos principais instrumentos atribuídos a torturas na Inquisição, bem como desmitificar a lenda negra da tortura deliberada nos tribunais desta instituição. O USO DA TORTURA NA INQUISIÇÃO Embora os tribunais inquisitoriais recorressem a tortura, ela era raramente aplicada. Vários estudos realizados por estudiosos recentes têm argumentado que a tortura era praticamente desconhecida no processo inquisitorial medieval. O registro de Bernard Gui, inquisidor de Toulouse por seis anos, que examinou mais de 600 hereges, mostra apenas um caso em que foi usada tortura. Além disso, nas 930 sentenças registradas entre 1307 e 1323 (e vale a pena notar que registros meticulosos eram feitos por notários pagos escolhidos entre tribunais civis), a maioria dos acusados foi condenada à prisão, ou ao uso de cruzes, e penitências, sem qualquer tortura. Que a inquisição raramente usou a tortura em seus processos, ao contrário do que alegam os difamadores, é afirmado pela quase totalidade das maiores autoridades modernas sobre a Inquisição. O Prof. Doutor Henry Kamen (maior autoridade viva sobre a Inquisição Espanhola) em seu livro “Spanish Inquisition: A Historical Revision” afirma: “A tortura era usada, normalmente como um último recurso e aplicada em apenas uma minoria dos casos. Muitas vezes, o acusado era apenas colocado em conspectu tormentorum, quando a visão dos instrumentos de tortura já provocava uma confissão. Confissões obtidas sob tortura não eram aceitas como válidas, porque elas obviamente tinham sido obtidas por pressão. Era, portanto, essencial para o acusado ratificar sua confissão no dia seguinte à provação.” (Spanish Inquisition: A Historical Revision Pg. 188) No documentário sobre “A Lenda da Inquisição Espanhola”, produzido pela BBC de Londres, ele dá números mais exatos: “Na verdade, a Inquisição usava tortura muito raramente. Em Valência, descobri que de 7.000 casos, apenas dois por cento sofreram alguma forma de tortura em tudo e, geralmente por não mais de 15 minutos… Eu não encontrei ninguém sofrendo tortura mais do que duas vezes”. (“O mito da inquisição espanhola” Documentário da BBC, Nov. 1994) O Prof. Jaime Contreras concordou: “Nós encontramos, ao comparar a Inquisição espanhola com outros tribunais, que a Inquisição espanhola utilizava a tortura muito menos. E se compararmos a Inquisição espanhola com tribunais de outros países, vemos que a Inquisição espanhola tem um registro praticamente limpo no que diz respeito à tortura.” (“O mito da inquisição espanhola” Documentário da BBC, Nov. 1994) Também o Historiador Rino Camilleri em sua “La Vera Storia dell’ Inquisizione” explica: “As fontes [históricas] demonstram muito claramente que a Inquisição recorria à tortura muito raramente. O especialista Bartolomé Benassa, que se ocupou da Inquisição mais dura, a espanhola, fala de um uso da tortura “relativamente pouco frequente e geralmente moderado, era o recurso à pena capital, excepcional depois do ano 1500”. O fato é que os inquisidores não acreditavam na eficácia da tortura. Os manuais para inquisidores convidavam a que se desconfiasse dela, porque os fracos, sob tortura, confessariam qualquer coisa, e nela os “duros” teriam persistido facilmente. Ora, porque quem resistia à tortura sem confessar era automaticamente solto, vai de si que como meio de prova a tortura era pouco útil. Não só. A confissão obtida sob tortura devia ser confirmada por escrito pelo imputado posteriormente, sem tortura (somente assim as eventuais admissões de culpa podiam ser levadas a juízo).” (Rino Camilleri – La Vera Storia dell ´Inquisizione, pg. 46-47). O historiador Jean Dummont diz: “E os mesmos inquisidores – que usaram muito pouco a tortura – como veremos nos capítulos dedicados à Inquisição rejeitam explicitamente em seu grande Directorio, ·o de Eimerico, que escreve: “A tortura é enganadora e ineficaz”. E rejeitaram tanto que, como veremos, a queda real da tortura romana começa historicamente com os tribunais canônicos da Inquisição.” (Jean Dummont – La Iglesia Ante El Reto de la Historia – Página 58) A professora de história Medieval Marian Horvat concorda: “A tortura foi autorizada pela primeira vez por Inocêncio IV na bula Ad Extirpanda de 15 de Maio, 1252, com limites que não poderiam causar a perda de um membro ou pôr em perigo a vida, só podia ser aplicada uma vez, e apenas se o acusado já parecesse praticamente condenado de heresia por provas múltiplas e determinadas. Certos estudos objetivos realizados por estudiosos recentes têm argumentado que a tortura era praticamente desconhecida no processo inquisitorial medieval. O registo de Bernard Gui, o inquisidor de Toulouse por seis anos, que examinou mais de 600 hereges, mostra apenas uma instância em que foi usada tortura. Além disso, nos 930 sentenças registradas entre 1307 e 1323 (e vale a pena notar que registros meticulosos foram mantidos por notários pagos escolhidos entre tribunais civis), a maioria dos acusados foi condenada à prisão, ou ao uso de cruzes, e penitências. Apenas 42 foram abandonados ao braço secular e queimados.” (Marian Horvat – Inquisição: Mito e realidade) Nicolau Eimeric (trataremos especificamente sobre ele em outro texto) em seu “Directorium”, como menciona Jean Dummont, apesar de aceitar a tortura, diz que ela é ineficaz e enganosa, e exclama: “Que isso se faça sem crueldade, nós não somos carrascos”. E explica que a tortura só haveria de ser aplicada quando houvesse acabado todos os meios possíveis de descobrir a verdade: “O tormento não se deve ser utilizado até terem sido utilizados todos os outros meios de descobrir a verdade, porque muitas vezes os bons modos bastam para fazer com que o réu confesse, o jeito, as suas próprias reflexões, as exortações dos indivíduos bem-intencionados, e desconfortos da cadeia. A tortura não é o meio infalível de apurar a verdade. Homens pusilânimes na primeira dor já confessam crimes que não cometeram; outros valentes e robustos suportam os tormentos mais cruéis.” (Adnotat. Lib III) Quando a tortura era utilizada os métodos a que recorriam os tribunais inquisitoriais eram a garrucha, toca e opotro. A aplicação da garrucha, também conhecida como o strappado, consistia em suspender o criminoso no teto por uma polia com pesos amarrados aos tornozelos, com uma série de elecações e descidas, durante os quais os braços e pernas sofriam puxões violentos e às vezes eram deslocados. A toca, também chamado detortura de água, consistia em introduzir um pano na boca da vítima, e forçá-los a ingerir água derramada de um frasco de modo que eles tinham impressão de afogamento que segundo Henry Kamen “Foi o procedimento mais comum até o século XVI”. (A Inquisição Espanhola. Uma revisão Histórica. Pg.186.)O potro, ou raque, foi o instrumento de tortura usado com mais frequência após o século XVI, consistiam em uma tábua na qual colocavam o réu, e amarravam seus membros com cordas, a medida que a tortura ia continuando as cordas eram apertadas causando dor ao acusado, em alguns casos estas tábuas tinham alguns pregos que feriam o réu. Assim define Henry Kamem: “A regra básica na tortura era determinada que o acusado não deveria sofrer nenhum perigo de vida ou de ferimentos graves. Pelo direito da Igreja, tribunais eclesiásticos não podiam matar nem poderiam derramar sangue. Nenhuma torturas distinta foi utilizada pela Inquisição. As mais frequentemente empregadas eram comumente usadas em outros tribunais seculares e eclesiásticos, e quaisquer queixas de novas torturas certamente referem-se raras exceções. Os três principais foram a garrucha, a toca e o potro. A garrucha ou polia consistia em pendurar pelos pulsos a partir de uma roldana no teto, com pesos pesados ligados aos pés. O acusado era levantado devagar e de repente deixava-se cair com um puxão. O efeito era estirar e talvez deslocar braços e pernas. O toca ou tortura de água era mais complicada. O acusado era preso em uma madeira, sua boca era mantida à força aberta e um pano toca ou linho era colocado em sua boca para conduzir a água derramada lentamente de um frasco. A gravidade da tortura variava com o número de vasos de água utilizadas. O potro, que foi o mais comum após o século XVI, consistia em amarrar em uma tábua por meio de cordas que eram passadas em volta do corpo e membros e eram controladas pelo carrasco, que os apertados por nós nas cordas no fim. Com cada aperto as cordas feriam o corpo e apertavam a carne.” (Henry Kamem – The Spanish Inquisition: A Historical Revision. Pg. 190) A LENDA DOS INSTRUMENTOS Para refutar a utilização de todos os instrumentos, bastaria-nos negar a sua utilização, pois a totalidade dos sites e propagadores desses instrumentos não trazem qualquer referência ou documento que prove a utilização deles pela inquisição, logo, o que é afirmado sem provas, pode ser negado sem provas. Porém, para o estudioso da inquisição, este método não satisfaz, é necessário, portanto, fazermos a análise da história desses instrumentos. Além dos instrumentos, é necessário lembrar das diversas gravuras que são propagadas sobre as sessões de tortura, que são frutos de artistas que não viram qualquer sessão. O historiador Jean Dumont, atualmente o melhor defensor da Inquisição, ressalta que gravuras do século 16 retratando Autos de Fé (anúncio público da sentença dos investigados pela Inquisição) exibiam construções com telhado triangular. Este tipo de arquitetura era comum nos Países Baixos e no vale do Reno regiões que são protestantes, não na Espanha. Esse detalhe revela as origens protestantes das gravuras. A DAMA (OU VIRGEM) DE FERRO um artigo chamado ‘Medieval Imposter: the Iron Maiden’, “A Dama de Ferro, impostora medieval”. Neste texto, o colunista refuta o suposto uso de tal instrumento em uma execução realizada no dia 14 de agosto de 1515; a narração era um conto, uma fábula, com pouco ou nenhum valor histórico. [1] Assim declara o Dr. Vortrag Klaus Graf: “O objeto de execução, ‘Dama de Ferro’, é uma ficção do século XIX, já que somente a partir do século XIX que as chamadas “rishard cloaks”, também chamadas de “damas”, foram providas de espinhos de ferro; deste modo, os objetos foram adaptados para as fantasias terríveis na literatura e nas lendas.” (Mordgeschichten und Hexenerinnerungen – das boshafte Gedächtnis auf dem Dorf, June 21, 2001) GUILHOTINA A PERA [3] A CADEIRA ESPANHOLA BERÇO DE JUDAS [4] Depois da criação do “berço de Judas”, que também utilizava a privação do sono como parte do procedimento, criou-se a associação entre a privação do sono de Ippolito, e o “berço de Judas”, inventado no século XVII. A SERRA [5]CONCLUSÃO Tratamos aqui apenas dos instrumentos mais famosos, existem outros como a esmaga cabeça, esmaga joelho, esmaga seio, “forquilha do herege”, roda dos despedaçamento, instrumentos que não tem qualquer tipo de registro que tenham sidos utilizados nos tribunais da inquisição. O ódio contra a Igreja e a preguiça de estudar a história como ela realmente aconteceu, faz com que as pessoas ajam como seres irracionais, vociferando acusações contra a Igreja, sem se darem conta da mentira e do papel lamentável a que se prestam. NOTAS [1] Créditos a Página Repensando a Idade Média [2] História da Guilhotina: http://www.guillotine.dk/pages/history.html. [3] Francis Grose (1811). Dictionary of the Vulgar Tongue <http://www.fromoldbooks.org/Grose-VulgarTongue/c/choak-pear.html> [4] Biografia de Ippolito http://www.treccani.it/enciclopedia/ippolito-marsili_(Dizionario-Biografico)/ [5] https://books.google.no/books?id=CCRDAAAAcAAJ&pg=PA89#v=onepage&q&f=false PARA CITAR RODRIGUES, Rafael. Os instrumentos de tortura atribuídos a inquisição. Disponível em: <http://apologistascatolicos.com/index.php/idade-media/inquisicao/864-os-instrumentos-de-tortura-atribuidos-a-inquisicao>. Desde: 19/03/2016.
- RERUM NOVARUM – LEÃO XIII
Nota: “A condição operária, a relação entre trabalho e capital, patrão e empregado, é tratada nesta encíclica de Leão XIII. Um dos marcos da doutrina social da Igreja, a Rerum Novarum reforça o direito à propriedade e a harmonia entre as classes sociais. Ela condena a solução socialista que instiga nos pobres o ódio contra os que possuem, condena os que pretendem que toda a propriedade de bens particulares deve ser suprimida, que os bens de um indivíduo qualquer devem ser comuns a todos, e que a sua administração deve voltar para os Municípios ou para o Estado.” RERUM NOVARUM CARTA ENCÍCLICA DE SUA SANTIDADE O PAPA LEÃO XIII SOBRE A CONDIÇÃO DOS OPERÁRIOS 15 de maio de 1891 Introdução Causas do conflito A solução socialista A propriedade particular Uso comum dos bens criados e propriedade particular deles A família e o Estado A Igreja e a questão social Obrigações dos operários e dos patrões Posse e uso das riquezas Dignidade do trabalho Comunhão de bens de natureza e de graça Exemplo e magistério da Igreja A Igreja e a caridade durante os séculos O concurso do Estado Origem da prosperidade nacional O governo é para os governados e não vice-versa Obrigações e limites da intervenção de Estado O Estado deve proteger a propriedade particular Impeça as greves Proteja os bens da alma Proteção do trabalho dos operários, das mulheres e das crianças O quantitativo dos salários dos operários A economia como meio de conciliação das classes Benefícios das corporações As associações particulares e o Estado As associações operárias católicas Disciplina e fim destas associações Convite para os operários católicos se associarem Solução definitiva: a caridade Introdução 1. A sede de inovações que há muito tempo se apoderou das sociedades e as e as têm numa agitação febril, devia, tarde ou cedo, passar das regiões políticas para a esfera vizinha da economia social. Efetivamente, os progressos incessantes da indústria, os novos caminhos em que entraram as artes, a alteração das relações entre os operários e os patrões, a influência da riqueza nas mãos dum pequeno número ao lado da indigência da multidão, a opinião enfim mais avantajada que os operários formam de sí mesmos, e a sua união mais compacta, tudo isso, sem falar na corrupção dos costumes, deu em resultado final um temível conflito. Por toda parte, os espíritos estão apreensivos e numa ansiedade expectante, o que por sí só basta para mostrar quantos e quão graves interesses estão em jogo. Essa situação preocupa e põe ao mesmo tempo em exercício o gênio dos doutos, a prudência dos sábios, as deliberações das reuniões populares, a perspicácia dos legisladores e os conselhos dos governantes, e não há, presentemente, outra causa que impressione com tanta veemência o espírito humano. É por isso que, Veneráveis Irmãos, o que em outras ocasiões temos feito, para bem da Igreja e da salvação comum dos homens, em Nossas Encíclicas sobre a soberania política, a liberdade humana, a constituição cristã dos Estados (aluda-se aqui às Encíclicas “Diuturnum” 1831, “Immortale Dei” 1885, “Libertas” 1888) e outros assuntos análogos, refutando, segundo Nos pareceu oportuno, as opiniões errôneas e falazes, o julgamos dever repetir hoje e pelos mesmos motivos, falando-vos da Condição dos Operários. Já temos tocado essa matéria muitas vêzes, quando se Nos tem proporcionado o ensejo; mas a consciência de Nosso cargo Apostólico impõe-nos como um dever tratar nessa Encíclica mais explicitamente e com maior desenvolvimento, a fim de pôr em evidência os princípios duma solução, conforme à justiça e à eqüidade. O problema nem é fácil de resolver, nem isento de perigos. É difícil, efetivamente, precisar com exatidão os direitos e os deveres que devem, ao mesmos tempo, reger a riqueza e o proletariado, o capital e o trabalho. Por outro lado o problema não é sem perigos, porque não poucas vêzes homens turbulentos e astuciosos procuram desvirtuar-lhe e aproveitam-no para excitar as multidões e fomentar desordem. Causas do conflito 1. Em todo caso, estamos persuadidos, e todos concordam nisto, que é necessário, com medidas prontas e eficazes, vir em auxílio dos homens das classes inferiores, atendendo a que eles estão, pela maior parte, numa situação de infortúnio e de miséria imerecida. O século passado destruiu, sem as substituir por alguma coisa, as corporações antigas, que eram para êles uma proteção; os princípios e o sentimento religioso desapareceram das leis e das instituições públicas, e assim, pouco a pouco, os trabalhadores, isolados e sem defesa, têm-se visto, com o decorrer do tempo, entregues à mercê de senhores desumanos e à cobiça de uma concorrência desenfreada. A usura voraz veio condenar ainda mais o mal. Condenada muitas vêzes pelo julgamento da Igreja, não tem deixado de ser praticada sob outra forma por homens, ávidos de ganância, e de insaciável ambição. A tudo isso deve acrescentar-se o monopólio do trabalho e dos papéis de crédito, que se tornaram um quinhão de um pequeno número de ricos e de opulentos, que impõe assim um julgo quase servil à imensa multidão dos operariados. A solução socialista 2. Os socialistas, para curar êste mal, instigam nos pobres o ódio contra os que possuem, e pretendem que tôda a propriedade de bens particulares deve ser suprimida, que os bens de um indivíduo qualquer dever ser comuns a todos, e que a sua administração deve voltar para os Municípios ou para o Estado. Mediante esta transladação das propriedades e esta igual repartição das riquezas e das comodidades que elas proporciona entre os cidadãos, lisonjeiam-se de aplicar um remédio eficaz aos males presentes. Mas semelhante teoria, longe de ser capaz de por têrmo ao conflito, prejudicaria ao operário se fosse posto em prática. Outrossim, é sumamente injusta, por violar os direitos legítimos dos proprietários, viciar as funções do Estado e tender para a subversão completa completa do edifício social. A propriedade particular 3. De fato, como é fácil perceber, a razão intrínseca do trabalho, o fim imediato visado pelo trabalhador, é conquistar um bem que possuirá como próprio e como pertencendo-lhe; porque, se põe à disposição de outrem as suas fôrças e à sua indústria, não é evidentemente, por outro motivo senão para conseguir com que possa prover à sua sustentação e às necessidades da vida, e espera do seu trabalho não só o direito ao salário, mas ainda um direito estrito, e rigoroso para usar dele como entender. Portanto, se, reduzindo as suas despesas, chegou a fazer algumas economias, e se, para assegurar a sua conservação, as emprega, por exemplo, num campo, torna-se evidente que êsse campo não é outra coisa senão o salário transformado: o terreno assim adquirido torna-se propriedade do artista com o mesmo título que a remuneração do seu trabalho. Mas, quem não vê que é precisamente nisso que consiste o direito de propriedade mobiliária? Assim, essa conversão em propriedade particular em propriedade coletiva, tão preconizada pelo socialismo, não teria outro efeito senão tornar a situação dos operários mais precária, retirando-lhes a livre disposição de seu salário e roubando-lhes, por isso mesmo, toda a esperança e toda possibilidade de engrandecerem o seu patrimônio e melhorarem a sua situação. 4. Mas, e isso parece ainda mais grave, o remédio proposto está em oposição flagrante com a justiça, porque a propriedade particular e pessoal é, para o homem, de direito natural. Há, efetivamente, sobre esse ponto de vista, uma grandíssima diferença entre o homem e os animais destituídos de razão. Estes não se governam a si mesmos; são dirigidos e governados pela natureza, mediante um duplo instinto, que, por um lado, conserva a sua atividade sempre viva e lhes devolve as forças, por outro, provoca e circunscreve ao mesmo tempo cada um dos seus movimentos. O primeiro instinto leva-os à conservação e à defesa da sua própria vida; o segundo, à propagação da espécie; e este duplo resultado obtêm-no fàcilmente pelo uso das coisas presentes e postas ao seu alcance. Por outro lado seriam incapazes de transpor esses limites, porque são movidos pelos sentidos e por cada objeto particular que os sentidos percebem. Muito diferente é a natureza humana. Primeiramente, no homem reside, em sua perfeição, toda virtude da natureza sensitiva, e desde logo lhe pertence, não menos que a esta, gozar dos objetos físicos e corpóreos. Mas a vida sensitiva ainda mesmo possuída em toda a sua plenitude, não só não abraça toda a natureza humana, mas é – lhe muito inferior e própria para lhe obedecer e ser-lhe sujeita. O que em nós se avantaja, o que nos faz homens, nos distingue essencialmente do animal, é a razão ou a inteligência, e em virtude desta prerrogativa deve reconhecer-se ao homem não só a faculdade geral de usar das coisas exteriores, mas ainda o direito estável e perpétuo de as possuir, tanto as que se consomem pelo uso, como as que permanecem depois de nos terem servido. Uso comum dos bens criados e propriedade particular deles 6. Uma consideração mais profunda da natureza humana vai sobressair melhor ainda essa verdade. O homem abrange pela sua inteligência uma infinidade de objetos, e às coisas presentes acrescenta e prende as coisas futuras; além disso é, senhor das suas ações; também sob a direção da lei eterna e sob o govêrno universal da Providência divina, êle é, de algum modo para si a sua lei e a sua providência. É por isso que tem o direito de escolher as coisas que julgar mais aptas, não só para prover o presente, mas ainda o futuro. De onde se segue que deve ter sob seu domínio não só os produtos da terra, mas também a própria terra, que, pela sua fecundidade, êle vê estar destinada a ser sua fornecedora no futuro. As necessidades do homem repetem-se perpètuamente: satisfeitas hoje, renascem amanhã com novas exigências. Foi preciso, portanto, para que êle pudesse realizar o seu direito em todo o tempo, que a natureza pusesse à sua disposição um elemento estável e permanente, capaz de lhe fornecer perpetuamente os meios. Ora êsse elemento só podia ser a terra, com os seus recursos sempre fecundos. E não se apele para a providência do Estado, porque o Estado é posterior ao homem, e antes que êle pudesse formar-se já o homem já havia recebido da natureza o direito de viver e proteger a sua existência. Não se opunha também à legitimidade da propriedade particular o fato de que Deus concedeu a terra a todo o gênero humano para o gozar, porque Deus não a concedeu aos homens para que a dominasses confusamente todos juntos. Tal não é o sentido dessa verdade. Ela significa, ùnicamente, que Deus não assinou uma parte a nenhum homem em particular, mas quis deixar a limitação das propriedades à indústria humana e às instituições dos povos. Aliás, pôsto que dividida em propriedades particulares, a terra não deixa de servir à utilidade comum de todos, atendendo a que ninguém há entre os mortais que não se alimente do produto dos campos. Quem os não tem, supre-os pelo trabalho, de maneira que se pode afirmar, com tôda a verdade, que o trabalho é o meio universal de prover às necessidades da vida, quer êle se exerça num terreno próprio, quer em alguma arte lucrativa cuja a remuneração, apenas, sai dos produtos múltiplos da terra, com os quais ela se comuta. De tudo isso resulta, mais uma vez, é plenamente conforme à natureza. A terra, sem dúvida, fornece ao homem com abundância as coisas necessárias para a conservação da sua vida e ainda para o seu aperfeiçoamento, mas não poderia fornecê-las sem a cultura e sem os cuidados do homem. Ora, que faz o homem consumindo os recursos do seu espírito e as fôrças dos seu corpo em procurar esses bens da natureza? Aplica, para assim dizer, a si mesmo a porção da natureza corpórea que cultiva e deixa nela como que um certo cunho da sua pessoa, a ponto que, com tôda a justiça, esse bem será possuído de futuro como seu, e não será lícito a ninguém violar o seu direito de qualquer forma que seja. 7. A fôrça destes raciocínios é de uma evidência tal, que chegamos a admirar como certos partidários de velhas opiniões podem ainda contradizê-los, concedendo sem dúvida ao homem particular o uso do solo e os frutos dos campos, mas recusando o direito de possuir, na qualidade de proprietário, êsse solo em que edificou, a porção da terra que edificou. Não vêem que despojam assim êsse homem dos fruto dos seu trabalho; porque, afinal, êsse campo amanhado com arte pela mão do cultivador, mudou completamente de natureza: era selvagem, ei-lo arroteado; de infecundo, tornou-se fértil; o que o tornou melhor, está inerente ao solo e confundi-se de tal forma com êle, que em grande parte seria impossível separá-lo. Suportaria a justiça que um estranho viesse atribuir-se esta terra banhada pelo suor de que a cultiva. Do mesmo modo que o efeito segue a causa, assim é justo que o fruto do trabalho pertença ao trabalhador. É, pois, com razão, que a universalidade do gênero humano, sem se deixar mover pelas opiniões contrárias dum pequeno grupo, reconhece, considerando atentamente a natureza, que nas suas leis reside o primeiro fundamento da repartição dos bens e das propriedades particulares; foi com razão que que o costume de todos os séculos sancionou uma situação tão conforme à natureza do homem e à vida tranqüila e pacífica das sociedades. Por seu lado, as leis civis, que tiram o seu valor (veja-se Santo Tomás, Sum. Teo. I-II, q.95, a. 4), quando são justas, da lei natural, confirmam êsse mesmo direito e protegem-no pela força. Finalmente, a autoridade das leis divinas vem pôr-lhe o seu sêlo, proibindo, sob pena gravíssima, até mesmo o desejo do que pertence aos outros: “Não desejarás a mulher do teu próximo, nem o seu boi, nem a sua serva, nem o seu jumento, nem coisa alguma que lhe pertença” (Dt 5, 21). A família e o Estado 8. Entretanto, êsses direitos, que são inatos a cada homem considerado isoladamente, apresentam-se mais rigorosos ainda, quando se consideram nas suas relações e na sua conexão com os deveres da vida doméstica. Ninguém põe em dúvida que, na escolha de um gênero de vida, seja lícito cada um seguir o conselho de Jesus Cristo sôbre a virgindade, ou contrair um laço conjugal. Nenhuma lei humana poderia apagar de qualquer forma o direito natural e primordial de todo homem ao casamento, nem circunscrever o fim principal para que êle foi estabelecido desde a origem: “Crescei e multiplicai-vos”(Gen 1,28). Eis, pois, a família, isto é, a sociedade doméstica, sociedade muito pequena certamente, mas real e anterior a tôda sociedade civil, à qual, desde logo, será forçosamente necessário atribuir certos direitos certos deveres absolutamente independentes do Estado. Assim, êste direito de propriedade que Nós, em nome da natureza, reivindicamos para o indivíduo, é preciso agora transferi-lo para o homem constituído chefe de família. Isto não basta: passando para a sociedade doméstica, êste direito adquiri aí tanto maior força quanto mais extensão lá recebe a pessoa humana. A natureza não impõe somente ao pai família o dever sagrado de alimentar e sustentar os seus filhos; vai mais longe. Como os filhos refletem a fisionomia de seus pais e são uma espécie de prolongamento da sua pessoa, a natureza inspira-lhe o cuidado do seu futuro e a criação dum patrimônio que os ajude a defender-se, na perigosa jornada da vida, contra tôdas as surprêsas da má fortuna. Mas, êsse patrimônio poderá êle criá-lo sem a aquisição e a posse de bens permanentes e produtivos que possa transmitir-lhes por via da herança? Assim como a sociedade civil, a família, conforme atrás dissemos, é uma sociedade pròpriamente dita, com a sua autoridade e o seu govêrno paterno, é por isso que sempre indubitavelmente na esfera que determina o seu fim imediato, ela goza, para a escolha e uso de tudo o que exige a sua conservação e o exercício duma justa independência, de direitos pelo menos iguais aos da sociedade civil. Pelo menos iguais dizemos Nós, porque a sociedade doméstica tem sôbre a sociedade civil uma prioridade lógica e uma prioridade real, de que participam necessàriamente os seus direitos e os seus deveres. E se os indivíduos e as famílias, entrando na sociedade, nela achassem em, vez de apoio, um obstáculo, em vez de proteção uma diminuição de seus direitos, dentro em pouco a sociedade seria mais para evitar do que para procurar. Querer, pois, que o poder civil invada arbitràriamente o santuário da família, é um êrro grave e funesto. Certamente, se existe algures uma família que se encontre numa situação desesperada e que faça esforços vãos para sair dela, é justo que, em tais extremos, o poder público venha em seu auxílio, porque cada família é um membro da sociedade. Da mesmo forma, se existe um lar doméstico que seja teatro de graves violações dos direitos mútuos, que o poder público intervenha para restituir a cada um os seus direitos. Não é isto usurpar, as atribuições dos cidadãos, mas fortalecer os seus direitos, protegê-los e defendê-los como convém. Todavia, a ação daqueles que presidem o poder público não deve ir mais além; a natureza proíbe-lhes ultrapassar esses limites. A autoridade paterna não podia ser abolida, nem absorvida pelo Estado, porque ela tem uma origem comum com a vida humana. “Os filhos são alguma coisa de seu pai”; são de certa forma uma extensão de sua pessoa, e, para falar com justiça não é imediatamente por si que eles se agregam e se incorporam na sociedade civil, mas por intermédio da sociedade doméstica em que nasceram. Porque os “filhos são naturalmente alguma coisa de seu pai … devem ficar sob a tutela dos pais até que tenham adquirido o livre arbítrio” (Santo Tomás Sum. Teol. II – II, q. 10, a. 12). Assim, substituindo a providência paterna pela providência do Estado, os socialistas vão contra a justiça natural e quebram os laços de família. O comunismo, princípio de empobrecimento. 9. Mas, além da injustiça de seu sistema, vêem-se bem tôdas as suas funestas conseqüências, a perturbação em todas as classes da sociedade, uma odiosa e insuportável servidão para todos os cidadãos, porta aberta a todas as invejas, a todos os descontentamentos, a todas as discórdias; o talento e a habilidade privados dos seus estímulos, e, como conseqüência necessária, as riquezas estancadas na sua fonte; enfim, no lugar dessa igualdade tão sonhada, a igualdade na nudez, na indigência e na miséria. Por tudo o que Nós acabamos de dizer, se compreende que a teoria socialista da propriedade coletiva deve absolutamente repudiar-se como prejudicial àqueles mesmos a que se quer socorrer, contrária aos direitos naturais dos indivíduos, como desnaturando as funções do Estado, e perturbando a tranqüilidade pública. Fique, pois, bem assente que o princípio fundamental a estabelecer para aqueles que querem sinceramente o bem do povo, é a inviolabilidade da propriedade particular. Expliquemos agora onde convém procurar o remédio tão desejado. A Igreja e a questão social 10. É com tôda a confiança que Nós abordamos êste assunto, e em tôda a plenitude de Nosso direito; porque a questão de que se trata é de tal natureza, que, a não se apelar para a religião e para a Igreja, e impossível encontrar-lhe uma solução eficaz. Ora, como é principalmente a Nós que estão confiadas a salvaguarda da religião e a dispensão do que é de domínio da Igreja, calarmo-nos seria aos olhos de todos trair o Nosso dever. Certamente uma questão desta gravidade demanda ainda de outros a sua parte de atividade e de esforços: isto é, dos governantes, dos senhores e dos ricos, e dos próprios operários, de cuja sorte se trata. Mas, o que nós afirmamos sem hesitação, é a inanidade da sua ação fora da Igreja. É a Igreja, efetivamente, que haure no Evangelho doutrinas capazes ou de pôr termo ao conflito ou ao menos de o suavizar, expurgando-o de tudo o que ele tenha de severo e áspero; a Igreja, que não se contenta em esclarecer o espírito de seus ensinos, mas também se esforça em regular, de harmonia com eles a vida e os costumes de cada um; a Igreja, que, por uma multidão de instituições eminentemente benéficas, tende a melhorar a sorte das classes pobres; a Igreja, que quer e deseja ardentemente que todas as classes empreguem em comum as suas luzes e as suas forças para dar à questão operária a melhor solução possível; a Igreja, enfim, que julga que as leis e a autoridade pública devem levar a esta solução, sem dúvida com medida e com prudência, a sua parte do concurso. Não luta, mas concórdia das classes. 11. O primeiro princípio é que o homem deve aceitar com paciência a sua condição: é impossível que na sociedade civil todos sejam elevados ao mesmo nível. É, sem dúvida, isto o que desejam os socialistas; mas contra a natureza, todos os esforços são vãos. Foi ela, realmente, que estabeleceu entre os homens diferenças tão múltiplas como profundas; diferenças de inteligência, de talento, de habilidade, de saúde, de força; diferenças necessárias, de onde nasce espontaneamente a desigualdade das condições. Esta desigualdade, por outro lado, reverte em proveito de todos, tanto da sociedade como dos indivíduos; porque a vida social requer um organismo muito variado e funções muito diversas, e o que leva precisamente os homens a partilharem estas funções é, principalmente, a diferença de suas respectivas condições. Pelo que diz respeito ao trabalho em particular, o homem, mesmo no estado de inocência, não era destinado a viver na ociosidade, mas, ao que a vontade teria abraçado livremente como exercício agradável, a necessidade lhe acrescentou, depois do pecado, o sentimento da dor e o impôs como uma expiação: “A terra será maldita por tua causa; é pelo trabalho que tirarás com que alimentar-te todos os dias da vida” (Gen 3, 17). O mesmo se dá com todas as outras calamidades que caíram sobre o homem: neste mundo as calamidades não terão fim nem tréguas, porque os funestos frutos do pecado são amargos, acres, acerbos, e acompanham necessariamente o homem até o derradeiro suspiro. Sim, a dor e o suspiro são o apanágio da humanidade, e os homens poderão ensaiar tudo, tudo tentar para os banir; mas não o conseguirão nunca, por mais recursos que empreguem, e por maiores forças que para isso desenvolvam. Se há quem, atribuindo-se o poder fazê-lo, prometa ao pobre uma vida isenta de sofrimentos e de trabalhos, toda de repouso e de perpétuos gozos, certamente engana o povo e lhe prepara laços, onde se ocultam, para o futuro, calamidades mais terríveis que as do presente. O melhor partido consiste em ver as coisas tais quais são, e, como dissemos, em procurar um remédio que possa aliviar os nossos males. O erro capital na questão presente é crêr que as duas classes são inimigas natas uma da outra, como se a natureza tivesse armado os ricos e os pobres para se combaterem mutuamente num duelo obstinado. Isto é uma aberração tal, que é necessário colocar a verdade numa doutrina contrariamente oposta, porque assim como no corpo humano os membros, apesar da sua diversidade, se adaptam maravilhosamente uns aos outros, de modo que formam um todo exatamente proporcionado e que se poderá chamar simétrico, assim também, na sociedade, as duas classes estão destinadas pela natureza a unirem-se harmoniosamente e a conservarem-se mutuamente em perfeito equilíbrio. Elas tem imperiosa necessidade uma da outra: não pode haver capital sem trabalho, nem trabalho sem capital. A concórdia traz consigo a ordem e a beleza; ao contrário, dum conflito perpétuo só podem resultar confusão e lutas selvagens. Ora, para dirimir este conflito e cortar o mal na sua raiz, as Instituições possuem uma virtude admirável e múltipla. E, primeiramente, toda a economia das verdades religiosas, de que a Igreja é guarda e intérprete, é de natureza a aproximar e reconciliar os ricos e os pobres, lembrando às duas classes os seus deveres mútuos e, primeiro que todos os outros, os que derivam da justiça. Obrigações dos operários e dos patrões 12. Entre estes deveres, eis aqueles que dizem respeito ao pobre e ao operário: deve fornecer integralmente e fielmente todo o trabalho a que se comprometeu por contrato livre e conforme à equidade; não deve lesar o seu patrão, nem nos seus bens, nem na sua pessoa; as suas reivindicações devem ser isentas de violências, e nunca revestirem a forma de sedições; deve fugir dos homens perversos que, nos seus discursos artificiosos, lhes sugerem esperanças exageradas e lhes fazem grandes promessas, as quais só conduzem a estéreis pesares e à ruína das fortunas. Quanto aos ricos e aos patrões, não devem tratar o operário como escravo, mas respeitar nele a dignidade do homem, realçada ainda pela do cristão. O trabalho do corpo, pelo testemunho comum da razão e da filosofia cristã, longe de ser um objeto de vergonha, faz honra ao homem, porque lhe fornece um nobre meio de sustentar a sua vida. O que é vergonhoso e desumano e usar dos homens como de vis instrumentos de lucro, e não os estimar senão na proporção do vigor dos seus braços. O cristianismo, além disso, prescreve que se tenham em consideração os interesses espirituais do operário e o bem da sua alma. Aos patrões compete velar para que a isto seja dada plena satisfação, que o operário, não seja entregue à sedução e às solicitações corruptoras, que nada venha enfraquecer o espírito de família, nem os hábitos de economia. Proíbe também aos patrões que imponham aos seus subordinados um trabalho superior às suas forças ou em desarmonia com a sua idade ou o seu sexo. Mas entre os deveres principais do patrão, é necessário colocar, em primeiro lugar, o de dar a cada um o salário que convém. Certamente, para fixar a justa medida do salário, há numerosos pontos de vista a considerar. Duma maneira geral, recordem-se o rico e o patrão de que explorar a pobreza e a miséria, e especular com a indigência, são coisas igualmente reprovadas pelas leis divinas e humanas; que cometeria um crime de clamar vingança ao céu quem defraudasse a qualquer pessoa no preço dos seus labores: “Eis que o salário, que tendes extorquido por fraude aos vossos operários, clama contra vós; e o seu clamor subiu até os ouvidos dos Deus dos Exércitos” (Tg 5, 4). Enfim os ricos devem precaver-se religiosamente de todo o ato violento, toda a fraude, toda a manobra usurária que seja de natureza a atentar contra a economia do pobre, e isto mais ainda, este é menos apto para defender-se, e porque os seus haveres, por serem de mínima importância, revestem um caráter mais sagrado. A obediência a estas leis, – perguntamos Nós, – não bastaria só, de per si, para fazer cessar todo o antagonismo e suprimir-lhe as causas? 13. Todavia a Igreja, instruída e dirigida por Jesus Cristo, eleva as suas vistas ainda mais alto; propões um corpo de preceitos mais completos, porque ambiciona estreitar a união das duas classes até as unir uma à outra por laços de verdadeira amizade. Ninguém pode Ter verdadeira inteligência da vida mortal, nem estimá-la no seu justo valor, se não se eleva à consideração da outra vida que é imortal. Suprimi esta, e imediatamente toda a forma e toda verdadeira noção de honestidade desaparecerá; mais ainda: todo o universo se tornará um impenetrável mistério. Quando estivermos abandonado esta vida, então somente começaremos a viver; esta verdade que a mesma natureza ensina, é um dogma cristão sobre o qual assenta, como sobre o seu primeiro fundamento, toda a economia de religião. Não, Deus não nos fez para essas coisas frágeis e caducas, mas para as coisas celestes e eternas; não nos deu esta terra como nossa morada fixa, mas como lugar de exílio. Que abundeis em riquezas e outros bens, chamados bens de fortuna, ou que estejais privados deles, isto nada importa à eterna beatitude: o uso que fizerdes deles é o que interessa. Pela sua superabundante redenção, Jesus Cristo não suprimiu as aflições que formam quase toda a trama da vida mortal: fez delas estímulos de virtude e fontes de mérito, de sorte que não há homem que possa pretender as recompensas eternas se não caminhar sobre os traços sangüinolentos de Jesus Cristo: “Se sofremos com ele, com ele reinaremos” (2 Tim 2, 12). Por outra parte, escolhendo ele mesmo a cruz e os tormentos, minorou-lhes singularmente o peso e as amarguras, e , a fim de nos tornar mais suportável o sofrimento, ao exemplo acrescentou a sua graça e a promessa de uma recompensa sem fim: “Porque o momento tão curto e tão ligeiro das aflições, que sofremos nesta vida, produz em nós o peso eterno de uma glória soberana incomparável” (2 Cor 4, 17). Assim, os afortunados deste mundo são advertidos que as riquezas não os isentam da dor; que elas não são de nenhuma utilidade para a vida eterna, mas antes um obstáculo (Mt 19, 32-24); que eles devem tremer diante das ameaças severas que Jesus Cristo profere contra os ricos (Lc 6, 24-25); que, enfim virá o dia em que deverão prestar a Deus, seu juiz, rigorosíssimas contas do uso que hajam feito de sua fortuna. Posse e uso das riquezas 14. Sobre o uso das riquezas, já a pura filosofia pôde delinear alguns ensinamentos de suma excelência e suma importância; mas só a Igreja no-los pode dar na sua perfeição e fazê-los descer do conhecimento `a prática. O fundamento dessa doutrina está na distinção da justa posse das riquezas e o seu legítimo uso. A propriedade particular, já o dissemos mais acima, é de direito natural para o homem: o exercício deste direito é coisa não só permitida, sobretudo a quem vive em sociedade, mas ainda absolutamente necessária (Santo Tomás, Sum. Teo., II – II, q. 66 a. 2). Agora, se se pergunta em que é necessário fazer consistir o uso dos bens, a Igreja responderá sem hesitação: “A esse respeito o homem não deve ter as coisas exteriores por particulares, mas sim por comuns, de tal sorte que facilmente dê parte delas aos outros nas suas necessidades. É por isso que o Apóstolo disse: “Ordena aos ricos do século … dar facilmente, comunicar as suas riquezas” (Santo Tomás, Sum. Teo., q. 65 a. 2). Ninguém certamente é obrigado a aliviar o próximo privando-se do necessário, nem do de sua família; nem mesmo a nada suprimir do que as conveniências ou a descendência impõe à sua pessoa: “Ninguém com efeito deve viver contrariamente às conveniências”(Santo Tomás, Sum. Teo., II-II, q. 32 a.6). Mas desde que haja suficientemente satisfeito à necessidade e ao decoro, é um dever lançar o supérfluo no seio dois pobres: “Do supérfluo dai esmolas” (Lc 11, 41). Ë um dever, não de estrita justiça, exceto nos casos de extrema necessidade, mas de caridade cristã, um dever, por conseqüência, cujo cumprimento se não pode conseguir pelas vias da justiça humana. Mas, acima dos juízos do homem e das leis, há a lei e o juízo de Jesus Cristo, que nos persuade de todas as maneiras a dar habitualmente esmolas: “É mais feliz”, diz ele, “aquele que dá do que aquele que recebe” (At 20,35), é o Senhor terá como dada ou recusada, a si mesmo a esmola que se haja dada ou recusada aos pobres: “Todas as vezes que tenhais dado a esmola a um de meus irmão é a mim que haveis dado” (Mt 25, 40). Eis, aliás, em algumas palavras, resumo desta doutrina: Quem quer que tenha recebido da Divina bondade maior abundância, quer de bens externos e do corpo, quer de bens da alma, recebeu-os com o fim de os haver servir ao seu próprio aperfeiçoamento, e, ao mesmo tempo, como ministro da Providência, ao alívio dos outros. “É por isso, que quem tiver o talento da palavra, tome o cuidado em se não calar; quem possuir superabundância de bens, não deixe a misericórdia entumecer-se no fundo do seu coração; quem tiver a arte de governar, aplique-se com cuidado a partilhar dela com seu irmão o exercício e os frutos” (São Gregório Magno, in Evang. Hom. IX, n. 7). Dignidade do trabalho 15. Quanto aos deserdados da fortuna, aprendam da Igreja que, segundo o juízo do próprio Deus, a pobreza não é um opróbrio, e que não se deve corar por ter que ganhar o seu pão do suor do seu rosto. Ele, que de muito rico que era, se fez indigente” (2 Cor 8, 9) para a salvação dos homens; que, filho de Deus e Deus ele mesmo, quis passar aos olhos do mundo por filho de um artífice; que chegou até a consumir grande parte de sua vida em trabalho mercenário: “Não é ele o carpinteiro, filho de Maria” (Mt 6, 3). Quem tiver em sua frente o modelo divino, compreenderá mais facilmente o que Nós vamos dizer: que a verdadeira dignidade do homem e a sua excelência reside em seus costumes, isto é, na sua virtude; que a virtude é o patrimônio comum dos mortais, ao alcance de todos, dos pequenos e dos grandes, dos pobres e dos ricos; só a virtude e os méritos, seja qual for a pessoa em quem se encontrem, obterão a recompensa da eterna felicidade. Mais ainda: é para as classes desafortunadas que o coração de Deus parece inclinar-se mais. Jesus Cristo chama aos pobres de bem-aventurados (Mt 5, 3): convida com amor a virem a ele, a fim de consolar a todos os que sofrem e que choram (Mt 11, 18); abraça com caridade mais terna os pequenos e os oprimidos. Estas doutrinas foram, sem dúvida alguma, feitas para humilhar a alma altiva do rico e torná-lo mais condescente, para reanimar a coragem daqueles que sofrem e inspirar-lhes resignação. Com elas se acharia diminuído um abismo procurado pelo orgulho, e se obteria sem dificuldades que as duas classes se desses as mãos e as vontades se unissem na mesma amizade. Comunhão de bens de natureza e de graça 16. Mas ainda é demasiado pouco a simples amizade: se se obedecer os preceitos do cristianismo, será no amor fraterno que a união se operará. De uma parte e doutra, se saberá e compreenderá que os homens são todos absolutamente nascidos de Deus, seu Pai comum; que Deus é o seu único e comum fim, que ele só é capaz de comunicar aos anjos e aos homens uma felicidade perfeita e absoluta; que todos eles foram igualmente resgatados por Jesus Cristo e restabelecidos por ele na sua dignidade de filhos de Deus, e que assim um verdadeiro laço de fraternidade os une, quer entre si, quer a Cristo, seu Senhor que é “o primogênito de muitos irmãos” (Rom 8, 29). Eles saberão, enfim, que todos os bens da natureza, todos os tesouros da graça, pertencem em comum e indistintamente a todos do gênero humano, e que só os indignos são deserdados dos bens celestes: “Se vós sois filhos, sois também herdeiros, herdeiros de Deus, co-herdeiros de Jesus Cristo” (Rom 8, 17). Tal é a economia dos direitos e dos deveres que ensina a filosofia cristã. Não se veria em breve prazo restabelecer-se a pacificação, se estes ensinamentos pudessem vir a prevalecer nas sociedades? Exemplo e magistério da Igreja 17. Entretanto, a Igreja não se contenta com indicar o caminho que leva à salvação; ela conduz a esta e aplica por sua própria mão ao mão o conveniente remédio. Ela dedica-se toda a ensinar e a educar os homens segundo os seus princípios e a sua doutrina, cujas águas vivificantes ela tem o cuidado de espalhar, tão longe e tão largamente quanto lhe é possível, pelo ministério dos Bispos e do Clero. Depois, esforça-se por penetrar nas almas e por obter das vontades que se deixam conduzir e governar pela regra dos preceitos divinos. Este ponto é capital e de grandíssima importância, porque encerra como que o resumo de todos os interesses que estão em litígio, e aqui a ação da Igreja é soberana. Os instrumentos de que ela dispões para tocar as almas, recebeu-os para este fim, de Jesus Cristo, e trazem em si a eficácia duma virtude divina. São os únicos aptos a penetrar até às profundezas do coração humano, que são capazes de levar o homem a obedecer às imposições do dever, a dominar suas paixões, amar a Deus e a seus próximo com uma caridade sem limites, a esmagar corajosamente todos os obstáculos que dificultam o seu caminho na estrada da virtude. Neste ponto, basta passar ligeiramente em revista pelo pensamento os exemplos da antigüidade. As coisas e fatos que vamos lembrar estão isentos de controvérsia. Assim não é duvidoso que a sociedade civil foi essencialmente renovada pelas instituições cristãs, que esta renovação teve por efeito elevar o nível do gênero humano, ou, para melhor dizer, chamá-lo da morte à vida, e guindá-lo a um alto grau de perfeição, como se não viu semelhante nem antes nem depois, e não se verá jamais em todo o decurso dos séculos. Que, enfim, destes benefícios foi Jesus Cristo o princípio, e deve ser o seu fim: porque assim como tudo partiu dele, assim também tudo lhe deve ser referido. Quando, pois, o Evangelho raiou no mundo, quando os povos tiveram conhecimento do grande mistério da encarnação do Verbo e da redenção dos homens, a vida de Jesus Cristo, Deus e homem, invadiu as sociedades e impregnou-as inteiramente com a sua fé, com as suas máximas e as suas leis. É por isso que se a sociedade humana deve ser curada, não o será senão pelo regresso à vida e às instituições do cristianismo. A quem quer regenerar uma sociedade qualquer em decadência, se prescreve com razão que a conduza às suas origens ( também Maquiavel, Discursi, III, 1, afirma este princípio). Porque a perfeição de toda a sociedade consiste em prosseguir e atingir o fim para o qual foi fundada, de modo que todos os movimentos e todos os atos da vida social, nasçam do mesmo princípio de onde nasceu a sociedade. Por isso, afastar-se do fim é caminhar para a morte e voltar a ele é readquirir a vida. E o que Nós dizemos de todo o corpo social aplica-se igualmente a essa classes de cidadãos que vivem de seu trabalho e que formam a grandíssima maioria. Nem se pensa que a Igreja se deixa absorver de tal modo pelo cuidado das almas, que põe de parte o que se relaciona com a vida terrena e mortal. Pelo que em particular diz respeito à classe dos trabalhadores, ela faz todos os esforços para os arrancar à miséria e procurar-lhes uma sorte melhor. E, certamente não é um fraco apoio que ele dá a esta obra só pelo fato de trabalhar, por palavras e atos, para reconduzir os homens à virtude. Os costumes cristãos, desde que entram em ação, exercem naturalmente sobre a prosperidade temporal a sua parte de benéfica influência; porque eles atraem o favor de Deus, princípio e fonte de todo o bem; comprimem o desejo excessivo das riquezas e a sede dos prazeres, esses dois flagelos que freqüentes vezes lançam a amargura e o desgosto no seio da opulência (1 Tim 6, 10); contentam-se enfim com uma vida e uma alimentação frugal, e suprem pela economia a modicidade do rendimento, longe desses vícios que consomem não só as pequenas, mas as grandes fortunas, e dissipam os maiores patrimônios. A Igreja e a caridade durante os séculos 18. A Igreja, além disso, provê também diretamente à felicidade das classes deserdadas, pela fundação e sustentação das instituições que ele julga próprias para aliviar a sua miséria; e, mesmo neste gênero de benefícios, ela tem sobressaído de tal modo, que os seus próprios inimigos lhe fizeram o seu elogio. Assim entre os primeiros cristãos, era tal a virtude da caridade mútua, que não raro via-se os ricos despojarem-se de seu patrimônio em favor dos pobres. Por isso a indigência não era conhecida entre eles (At 4, 34); os Apóstolos tinham confiado aos Diáconos, cuja ordem fora especialmente instituída para esse fim, a distribuição cotidiana das esmolas, e o próprio São Paulo apesar de absorvido por uma solicitude que abraçava todas as Igrejas, não hesitava em empreender penosas viagens para ir em pessoa levar socorros aos cristãos indigentes. Socorros do mesmo gênero eram oferecidos espontaneamente oferecido pelos fiéis em cada uma das suas assembléias: o que Tertuliano chama os “depósitos da piedade”, porque eram empregados “em sustentar e inumar as pessoas indigentes, os órfãos pobres de ambos os sexos, os domésticos velhos, as vítimas de naufrágio” (Apol., II, 39). Eis como pouco a pouco se formou esse patrimônio, que a Igreja sempre guardou com religioso cuidado como um bem próprio da família dos pobres. Ela chegou até a assegurar socorros aos infelizes, poupando-lhes a humilhação de estender a mão; porque esta mãe comum dos ricos e dos pobres, aproveitando maravilhosamente rasgos de caridade que ela havia provocado por toda a parte, fundou sociedades religiosas e uma multidão de outras instituições úteis, que, pouco tempo depois, não deviam deixar sem alívio nenhum gênero de miséria. Há hoje, sem dúvida, um certo número de homens que, fiéis ecos dos pagãos de outrora, chegam a fazer, mesmo dessa caridade tão maravilhosa, uma arma para atacar a Igreja; e viu-se uma beneficência estabelecida pelas leis civis substituir-se à caridade cristã; mas esta caridade, que se dedica toda e sem pensamento reservado à utilidade do próximo, não pode ser suprida por nenhuma invenção humana. Só a Igreja possui essa virtude, porque não se pode haurir senão no Sagrado Coração de Jesus Cristo, e é errar longe de Jesus Cristo estar afastado da sua Igreja. O concurso do Estado 19. Todavia não há dúvida de que, para obter o resultado desejado, não é demais recorrer aos meios humanos. Assim, todos aqueles a quem a questão dizem respeito, devem visar ao mesmo fim e trabalhar de harmonia cada um na sua esfera. Nisto há como uma imagem da Providência governando o mundo: porque nós vemos de ordinário que os fatos e os acontecimentos que dependem de causas diversas são a resultante da sua ação comum. Ora, que parte de ação e de remédio temos nós o direito de esperar do Estado? Diremos, primeiro, que por Estado entendemos aqui, não tal governo estabelecido entre tal povo em particular, mas todo governo que corresponde aos preceitos da razão natural e dos ensinamentos divinos, ensinamentos que Nós mesmos expusemos, especialmente na Nossa Carta Encíclica sobre a constituição cristã das sociedades (trata-se da Encíclica Immortale Dei). Origem da prosperidade nacional 20. O que se pede aos governantes é um curso de ordem geral, que consiste em toda a economia das leis e das instituições; queremos dizer que devem fazer de modo que da mesma organização e do governo da sociedade brote espontaneamente e sem esforço a prosperidade, tanto pública como particular. Tal é, com efeito, o ofício da prudência civil e dever próprio de todos aqueles que governam. Ora, o que torna uma nação próspera, são os costumes puros, as famílias fundadas sobre bases de ordem e de moralidade, a prática da religião e o respeito da justiça, uma imposição moderada e uma repartição eqüitativa dos encargos públicos, o progresso da indústria e do comércio, uma agricultura florescente e outros elementos, se os há, do mesmo gênero; todas as coisas que se não podem aperfeiçoar, sem fazer subir outro tanto a vida e a felicidade dos cidadãos. Assim como, pois, por todos esses meios, o Estado pode tornar-se útil às outras classes, assim também pode melhorar muitíssimo a sorte da classes operária, e isso em todo o rigor do seu direito, e sem ter a censura de ingerência; porque em virtude mesmo de seu ofício, o Estado deve servir o interesse comum. E é evidente que, quanto mais se multiplicarem as vantagens resultantes desta ação de ordem geral, tanto menos necessidade haverá de recorrer a outros expedientes para remediar a condição dos trabalhadores. Más há outra consideração que atinge mais profundamente ainda o nosso assunto. A razão formal de toda sociedade é uma e comum a todos os seus membros, grandes e pequenos. Os pobres, com o mesmo título que os ricos, são, por direito natural, cidadãos; isto é, do número das partes vivas de que se compõe, por intermédio das famílias, o corpo inteiro da nação, para não dizer que em todas as cidades são o grande número. Como, pois, seria desrazoável prover a uma classe de cidadãos e negligenciar outra, torna-se evidente que a autoridade pública deve também tornar as medidas necessárias para salvaguardar a salvação e os interesses da classe operária. Se ela faltar a isto, viola a estrita justiça que quer que seja dado a cada um seja dado o que lhe é devido. A esse respeito Santo Tomás de Aquino diz muito sabiamente: “Assim como a parte e o todo são em certo modo uma mesma coisa, assim o que pertence ao todo pertence de alguma sorte a cada parte” (Santo Tomás Sum. Teo., II – II, q. 61 a. 1 ad 2). É por isso que entre os graves e numerosos deveres dos governantes que querem prover, como convém, ao público, o principal dever, que domina todos os outros, consiste em cuidar igualmente de todas as classes de cidadãos, observando rigorosamente as leis da justiça, chamada distributiva. Mas, ainda que todos os cidadãos, sem exceção, devam contribuir para a massa dos bens comuns, os quais, aliás por um giro natural, se repartem de novo entre os indivíduos, todavia, as constituições respectivas não podem ser nem as mesmas, nem de igual medida.Quaisquer que sejam as vicissitudes pelas quais as formas do governo são chamadas as passar, haverá sempre entre os cidadãos essas desigualdades de condições, sem as quais uma sociedade não pode existir nem conceber-se. Sem dúvida são necessários homens que governem, que façam as leis, que administrem justiça, que, enfim, por seus conselhos ou por via da autoridade, administrem os negócios da paz, e as coisas da guerra. Que estes homens devem ter a preeminência em toda a sociedade e ocupar nela o primeiro lugar, ninguém o pode duvidar, pois eles trabalham diretamente para o bem comum e duma maneira tão excelente. Os homens que, pelo contrário, se aplicam às coisas da indústria, não podem concorrer para este bem comum nem na mesma medida, nem pelas mesmas vias; mas entretanto, também eles, ainda que de maneira menos direta, servem muitíssimo os interesses da sociedade. Sem dúvida alguma, o bem comum, cuja aquisição deve Ter por efeito aperfeiçoar os homens, é principalmente um bem moral. Mas numa sociedade regularmente constituída deve encontrar-se ainda uma certa abundância de bens exteriores “cujo uso é reclamado para o exercício da virtude” ( Santo Tomas, De regimine princ. I, 15). Ora, a fonte fecunda e necessária de todos estes bens é principalmente o trabalho do operário, o trabalho dos campos ou da oficina. Mais ainda, nesta ordem de coisas, o trabalho tem uma tal fecundidade e tal eficácia que se pode afirmar, sem receio de engano, que ele é a fonte única de onde procede a riqueza das nações. A equidade manda, pois, que o Estado se preocupe com os trabalhadores, e proceda de modo que, de todos os bens que eles proporcionam à sociedade, lhe seja dada uma parte razoável, como habitação e vestuário, e que possam viver à custa de menos trabalho e privações (veja-se o no . 12 desta encíclica: Posse e uso das riquezas). De onde resulta que o Estado deve favorecer tudo o que, de perto ou de longe, pareça de natureza a melhorar-lhes a sorte. Esta solicitude, longe de prejudicar alguém, tornar-se-á, ao contrário, proveito de todos, porque importa soberanamente à nação que homens, que são para ela o princípio de bens tão indispensáveis, não se encontrem continuamente a braços com os horrores da miséria. O governo é para os governados e não vice-versa 21. Dissemos que não é justo que a família ou os indivíduos sejam absorvidos pelo Estado, mas é justo, pelo contrário, que aquele e esta tenham a faculdade de proceder com liberdade, contanto que não atentem contra o bem geral e não prejudiquem ninguém. Entretanto, aos governantes, pertencem proteger a comunidade e as suas partes: a comunidade, porque a natureza confiou a sua conservação ao poder soberano, de modo que a slavação pública não é só aqui a lei suprema, mas a causa mesma e a razão de ser do principado; as partes, porque, de direito natural, o governo não deve visar Os aos interesses daqueles que têm o poder nas mãos, mas ainda o bem dos que lhe estão submetidos. Tal é o ensino da filosofia, não menos que da fé cristã. Por outra parte, a autoridade vem de Deus e é uma participação da sua autoridade suprema; desde então, aqueles que são os depositários dela devem exercê-la à imitação de Deus, cuja paternal solicitude se não estende menos a cada uma das criaturas em particular do que a todo o seu conjunto. Se, pois, os interesses gerais, ou o interesse de uma classe em particular, se encontram ou lesados ou simplesmente ameaçados, e se não for possível remediar ou obviar a isso de outro modo, é de toda a necessidade recorrer à autoridade pública. Obrigações e limites da intervenção de Estado 22. Ora, importa à salvação comum e particular que a ordem e a paz reinem por toda a parte; que toda a economia da via doméstica seja regulada segundo os mandamentos de Deus e os princípios da leis natural; que a religião seja honrada e observada; que se vejam florescer os costumes públicos e particulares; que a justiça seja religiosamente guardada, e que nunca uma classe possa oprimir impunemente a outra; que crescem robustas gerações, capazes de ser o sustentáculo, e, se necessário for, o baluarte da Pátria. É por isso que os operários, abandonando o trabalho ou suspendendo-o por greves ameaçam a tranqüilidade pública; que os laços naturais da família afrouxam entre os trabalhadores; que se calca aos pés a religião dos operários, não lhes facilitando o comprimento dos deveres para com Deus; que a promiscuidade dos sexos e outras excitações ao vício constituem nas oficinas um perigo para a moralidade; que os patrões esmagam os trabalhadores sob o peso de ônus iníquos, ou desonram neles a pessoa humana por condições indignas e degradantes; que atentam contra a sua saúde por um trabalho excessivo e desproporcionado com a sua idade e sexo: com todos esses casos é absolutamente necessário aplicar em certos limites a força e a autoridade das leis. Estes limites serão pelo mesmo fim que reclama o socorro das leis, isto é, que eles não devem avançar nem empreender nada além do que for necessário para reprimir os abusos e afastar os perigos. Os direitos em que eles se encontram, devem ser religiosamente respeitados e o Estado deve assegurá-los a todos os cidadãos, prevenindo ou vingando a sua violação. Todavia, na proteção dos direitos particulares, deve preocupar-se, de maneira especial, dos fracos e dos indigentes. A classe rica faz da sua riqueza uma espécie de baluarte e tem menos necessidade da tutela pública. A classe indigente, ao contrário, sem riquezas que a ponham a coberto das injustiças, conta principalmente com a proteção do Estado. Que o Estado se faça, pois, sob um particularíssimo título, a providência dos trabalhadores, que em geral pertencem à classe pobre (veja o nO e segs. desta encíclica). O Estado deve proteger a propriedade particular 23. Mas, é conveniente descer expressamente a algumas particularidades. É dever principalíssimo dos governos o assegurar a propriedade particular por meio de leis sábias. Hoje especialmente, no meio de tamanho ardor de cobiças desenfreadas, é preciso que o povo se conserve no seu dever; porque, se a justiça lhe concede a o direito de empregar os meios de melhorar a sua sorte, nem a justiça nem o bem público consentem que danifiquem alguém na sua fazenda nem que se invadam os direitos alheios sob pretexto de não sei que igualdade. Por certo que a máxima parte dos operários quereria melhorar de condição por meios honestos sem prejudicar a ninguém; todavia, não poucos há que, embebidos de máximas falsas e desejosos de novidade, procuram a todo o custo excitar e impelir os outros a violências. Intervenha, portanto, a autoridade do Estado, e, reprimindo os agitadores, preserve os bons operários do perigo da sedução e os legítimos patrões de serem despojados do que é seu. Impeça as greves 24. O trabalho muito prolongado e pesado e uma retribuição mesquinha dão, poucas vezes, aos operários ocasião de greves. É preciso que o Estado ponha cobro a esta desordem grave e freqüente, porque estas greves causam dano não só aos patrões e aos mesmos operários, mas também ao comércio e aos interesses comuns; e em razão das violências e tumultos, a que de ordinário dão ocasião, põem muitas vezes em risco a tranqüilidade pública. O remédio, portanto, nesta parte, mais eficaz e salutar é prevenir o mal com a autoridade das leis, e impedir a explosão, removendo a tempo as causas de que se prevê que hão de nascer os conflitos entre os operários e patrões. Proteja os bens da alma 25. Muitas outras coisas deve igualmente o Estado proteger ao operário, e em primeiro lugar os bens da alma. A vida temporal, posto que boa e desejável, não é o fim para que fomos criados; mas é a via e o meio para aperfeiçoar, com o conhecimento da verdade e com a prática do bem, a vida do espírito. O espírito é o que tem em si impressa a semelhança divina, e no qual reside aquele principado em virtude do qual foi dado ao homem o direito de dominar as criaturas inferiores e de fazer servir à sua utilidade toda a terra e todo o mar: “Enchei a terra e tornai-vo-la sujeita, dominai sobre os peixes do mar e sobre as aves do céu e sobre todos os animais que se movem sobre a terra” (Gên 1, 28). Nisto todos os homens são iguais, e não há diferença alguma entre ricos e pobres, patrões e criados, monarcas e súditos, “porque é o mesmo o Senhor de todos” (Rom 10, 12). A ninguém é lícito violar impunemente a dignidade do homem, do qual Deus mesmo dispõe com grande reverência, nem pôr-lhe impedimentos, para que ele siga o caminha daquele aperfeiçoamento que é ordenado para o conseguimento da vida eterna; pois, nem ainda por eleição livre, o homem pode renunciar a ser tratado segundo a sua natureza e aceitar a escravidão do espírito; porque não se trata de direitos cujo exercício seja livre, mas de deveres para com Deus que são absolutamente invioláveis. 26. Daqui vem, como conseqüência, a necessidade do repouso festivo. Isto, porém, não quer dizer que se deve estar em ócio por mais largo espaço de tempo, e muito menos significa uma inação total, como muitos desejam, e que é fonte de vícios e ocasião de dissipação; mas um repouso consagrado à religião. Unido à religião, o repouso tira o homem dos trabalhos e das ocupações da vida ordinária para o chamar ao pensamento dos bens celestes e ao culto devido à Majestade Divina. Eis aqui a principal natureza e fim do repouso festivo que Deus, com lei especial, prescreveu ao homem no Antigo Testamento, dizendo-lhe: “Recorda-te de santificar o sábado” (Ex 20, 8); e que ensinou com o seu exemplo, quando no sétimo dia, depois de criado o homem, repousou: “Repousou no dia sétimo de todas as suas obras que tinha feito” (Gên 2, 2). Proteção do trabalho dos operários, das mulheres e das crianças No que diz respeito aos bens naturais e exteriores, primeiro que tudo é um dever da autoridade pública subtrair o pobre operário à desumanidade de ávidos especuladores, que abusam sem nenhuma discrição, das pessoas como das coisas. Não é justo nem humano exigir do homem tanto trabalho a ponto de fazer pelo excesso de fadiga embrutecer o espírito e enfraquecer o corpo. A atividade do homem, restrita como a sua natureza, tem limites que se não podem ultrapassar. O exercício e o uso aperfeiçoam-na, mas é preciso de que quando em quando se suspenda para dar lugar ao repouso. Não deve, portanto, o trabalho prolongar-se por mais tempo do que o as forças permitem. Assim, o números de horas do trabalho diário não deve exceder a força dos trabalhadores, e a quantidade do repouso deve ser proporcionada à qualidade do trabalho, às circunstâncias do tempo e do lugar, à compleição e saúde dos operários. O trabalho, por exemplo, de extrair pedra, ferro, chumbo, e outros materiais escondidos, debaixo da terra, sendo mais pesado e nocivo à saúde deve ser compensado, com uma duração mais curta. Deve-se também às estações, porque não poucas vezes um trabalho, que facilmente se suportaria numa estação, noutra é de fato insuportável ou somente se vence com dificuldade. 28. Enfim, o que um homem válido e na força da idade pode fazer, não será eqüitativo exigi-lo duma mulher ou duma criança. Especialmente a infância, – e isto deve ser estritamente observado, – não deve entrar na oficina senão quando a sua idade tenha suficientemente desenvolvido nela as forças físicas, intelectuais e morais; do contrário, como uma planta ainda tenra, ver-se-á murchar com demasiado precoce, e dar-se-á cabo da sua educação. Trabalhos há também que não se adaptam tanto ã mulher, a qual a natureza destina de preferência aos arranjos domésticos, que, por outro lado salvaguardam admiravelmente a honestidade do sexo, e correspondem melhor, pela sua natureza, ao que pede a boa educação dos filhos e a prosperidade da família. Em geral, a duração do descanso deve medir-se pelo dispêndio das forças que ele deve restituir. O direito ao descanso de cada dia assim como à cessação do trabalho no dia do Senhor, deve ser a condição expressa ou tácita de todo contrato feito entre patrões e operários. Onde esta condição não entrar, o contrato não será probo, pois ninguém pode exigir ou prometer a violação dos deveres do homem para com Deus e para consigo mesmo. O quantitativo dos salários dos operários 29. Passemos agora a outro ponta da questão e de não menor importância, que, para evitar os extremos, demanda uma definição precisa. Referimo-nos à fixação do salário. Uma vez livremente aceiro o salário por uma e outra parte, assim se raciocina, o patrão cumpre todos os seus compromissos desde que o pague e não é obrigado a mais nada. Em tal hipótese, a justiça só será lesada, se ele se recusasse a saldar a dívida ou o operário a concluir todo o seu trabalho, e a satisfazer as suas condições; e neste caso, com exclusão de qualquer outro, é que o poder público teria que intervir para fazer valer o direito de qualquer deles. Semelhante raciocínio não encontrará um juiz eqüitativo que consinta em o abraçar sem reserva, pois não abrange todos os lados da questão e omite um, deveras importante. Trabalhar é exercer a atividade com o fim de procurar o que requerem as diversas necessidades do homem, mas principalmente a sustentação da própria vida. “Comerás o teu pão com o suor do teu rosto” (Gên 3,19). Eis a razão por que o trabalho recebeu da natureza como um duplo cunho: é pessoal, porque a força ativa é inerente à pessoa, e porque é propriedade daquele que a exerce e a recebeu para sua utilidade; e é necessário, porque o homem precisa da sua existência, e porque a deve conservar para obedecer às ordens irrevogáveis da natureza. Ora, se não se encarar o trabalho senão pelo seu lado pessoal, não há dúvida de que o operário pode a seu talante restringir a taxa do salário. A mesma vontade que dá o trabalho, pode contentar-se com uma pequena remuneração ou mesmo não exigir nenhuma. Mas já é outra coisa, se ao caráter de personalidade se juntar o de necessidade, que o pensamento pode abstrair, mas que na realidade não se pode separar. Efetivamente, conservar a existência é um dever imposto a todos os homens e ao qual se não podem subtrair sem crime. Deste dever nasce necessariamente o direito de procurar as coisas necessárias à subsistência, e que o pobre as não procure senão mediante o salário do seu trabalho. Façam, pois, o patrão e o operário todas as convenções que lhes aprouver, cheguem inclusive a acordar na cifra do salário; acima da sua livre vontade está uma lei de justiça natural, mais elevada e mais antiga, a saber, que o salário não deve ser insuficiente para assegurar a subsistência do operário sóbrio e honrado. Mas se, constrangido pela necessidade ou forçado pelo receio dum mal maior, aceita condições duras que por outro lado lhe não seria permitido recusar, porque lhe são impostas pelo patrão ou por quem faz oferta do trabalho, então é isto sofrer uma violência contra a qual a justiça protesta. Mas, sendo de temer que nestes casos e em outros análogos, como no que diz respeito às horas diárias de trabalho e à saúde dos operários, a intervenção dos poderes públicos seja importuna, sobretudo por causa da variedade das circunstâncias, dos tempos e dos lugares, será preferível que a solução seja confiada às corporações ou sindicatos de que falaremos mais adiante ou que se recorra a outros meios de defender os interesses dos operários, mesmo com o auxílio e apoio do Estado, se a questão reclamar (veja-se o n.o 29 e segs.). A economia como meio de conciliação das classes 30. O operário que receber um salário suficiente para ocorrer como desafogo às suas necessidades e as da sua família, se for avisado, seguirá o conselho que parece dar-lhe a própria natureza: aplicar-se-á a ser parcimonioso e obrará de forma que, com prudentes economias, vá juntando um pequeno pecúlio que lhe permita chegar um dia a adquirir um modesto patrimônio. Já vimos que a presente questão não podia receber solução realmente eficaz, se se não começasse por estabelecer com o princípio fundamental a inviolabilidade da propriedade particular. Importa pois que as leis favoreçam o espírito da propriedade, o reanimem e desenvolvam, tanto quanto possível, entre as massas populares. Uma vez obtido este resultado, seria ele a fonte dos mais preciosos benefícios, e em primeiro lugar duma repartição dos bens certamente mais eqüitativa. A violência das revoluções políticas dividiu o corpo social em duas classes e cavou entre um imenso abismo. Dum lado a onipotência na opulência: uma facção que, senhora absoluta da indústria e do comércio, torce o curso das riquezas e faz correr para o seu lado todos os mananciais; facção que aliás têm na sua mão mais dum motor da administração pública. Do outro, a fraqueza na indigência: uma multidão com a alma dilacerada, sempre pronta para a desordem. Ah, estimula-se a industriosa atividade do povo com a perspectiva da sua participação na propriedade do solo, e ver-se-á nivelar pouco a pouco o abismo que separa a opulência da miséria, e operar-se a aproximação entre as duas classes. Demais, a terra produzirá tudo em maior abundância, pois o homem é assim feito: o pensamento de que trabalha em terreno que é seu redobra o seu ardor e a sua aplicação. Chega a por todo o seu amor numa terra que ele mesmo cultivou, que lhe promete a si e aos seus não só o estritamente necessário, mas ainda uma certa abastança. Não há quem descubra sem esforço essa duplicação da atividade sobre a fecundidade sobre a terra e sobre a riqueza das nações. A terceira atividade será a suspensão do movimento de emigração: ninguém, com efeito, quereria trocar por uma região estrangeira a sua pátria e a sua terra natal, se nesta encontrasse os meios de levar uma vida mais tolerável. Mais uma condição indispensável para que todas estas vantagens se convertam em realidades, é que a propriedade particular não seja esgotada por um excesso de encargos e de impostos. Não é das leis humanas, mas da natureza, que emana o direito da propriedade individual; a autoridade pública não o pode, pois; abolir, o que ela pode é regular-lhe e conciliá-lo com o bem comum. É por isso que ela obra contra a justiça e contra a humanidade quando, sobre o nome de impostos, sobrecarrega desmedidamente os bens dos particulares. Benefícios das corporações 31. Em último lugar, que os próprios patrões e operários podem singularmente auxiliar a solução por meio de todas as obras próprias a aliviar eficazmente a indigência e a operar uma aproximação entre as duas classes. Deste número são as associações de socorres mútuos; as diversas instituições, devido à iniciativa particular, que tem por fim socorrer os operários, bem como as suas viúvas e órfãos, em caso de morte, de acidentes ou de enfermidades; os patronatos que exercem uma proteção benéfica para com as crianças dos dois sexos, os adolescentes e os homens feitos. Mas o primeiro lugar pertence às corporações operárias, que abrangem quase todas as outras. Os nossos antepassados experimentaram por muito tempo a benéfica influência destas associações. Ao mesmo tempo que os artistas encontravam nelas apreciáveis vantagens, as artes receberam delas novo lustre e nova vida, como o proclama grande quantidades de monumentos. Sendo hoje mais cultas as gerações, mais polidos os costumes, mais numerosas as exigências da vida cotidiana, e fora de dúvida que se não podia deixar de adaptar as associações às essas novas condições. Assim, com prazer vemos Nós irem-se formando por toda parte sociedades deste gênero, quer compostas só de operários, quer mistas, reunindo ao mesmo tempo operários e patrões: é para desejar que aumentem a sua ação. Conquanto nos tenhamos ocupado delas mais uma vez (veja-se a Encíclica Libertas), queremos expor aqui a sua oportunidade e o seu direito de existência e indicar como devem organizar-se e qual deve ser o seu programa de ação. As associações particulares e o Estado 32.A experiência que os homens adquirem todos os dias da exiguidade de suas forças, obriga-o e impele-o a agregar-se a uma cooperação estranha. É nas Sagradas Letras que se lê esta máxima: “Mais valem dois juntos que um só, pois tiram vantagens da suas associação. Se um cai, o outro sustenta-o Desgraçado do homem só, pois quando cair, não terá ninguém que o levante”(Ecl 4, 9-12). E esta outra: “O irmão que é ajudado por seu irmão, é como uma cidade forte”(Prov 18, 19). Desta propensão natural, como dum único germe, nasce, primeiro a sociedade civil; depois no próprio seio desta, outras sociedades que, por serem restritas e imperfeitas, não deixam de ser sociedades verdadeiras. Entre as pequenas sociedades e a grande, existem profundas diferenças, que resultam de seu fim próximo. O fim da sociedade civil abrange universalmente todos os cidadãos, pois este fim está no bem comum, isto é, num bem do qual todos e cada um têm o direito de participar em medida proporcional. Por isso se chama público, porque “reúne os homens para formarem uma nação” (Santo Tomás, Contra Impug. Dei cultum et relig., II, 8). Ao contrário, as sociedades que se constituem no seu seio, são frágeis, porque são particulares, e o são com efeito, pois a sua razão de ser imediata, é a utilidade particular e exclusiva dos seus membros: “A sociedade particular é aquela que se forma com um fim particular, como quando dois ou três indivíduos para exercerem em comum o comércio” (Ibidem). Ora pelo fato de as sociedades particulares não terem existência senão no seio da sociedade civil, da qual são como outras tantas partes, não se segue, falando em geral e considerando apenas a sua natureza, que o Estado possa negar-lhe a existência. O direito de existência foi-lhes outorgado pela própria natureza; e a sociedade civil foi instituída para proteger o direito natural, não para o aniquilar. Por esta razão, uma sociedade civil que proibisse as sociedades públicas e particulares, atacar-se-ia a si mesa, pois todas as sociedades públicas e particulares tiram a sua origem dum mesmo princípio: a natural sociabilidade do homem. Certamente se dão conjunturas que as leis a opor-se à fundação duma sociedade deste gênero. Se uma sociedade, em virtude mesmo de seus estatutos orgânicos, trabalhasse para um fim em oposição flagrante com a probidade, com a justiça, com a segurança do Estado, os poderes públicos teriam o direto de lhe impedir a formação, ou de a dissolver, se já estivesse formada. Mas deviam em tudo isso proceder com grande circunspecção para evitar a usurpação dos direitos dos cidadãos, e para não estatuir, sobre a cor de utilidade pública, alguma coisa que a razão houvesse de desaprovar. Pois uma lei não merece obediência senão enquanto é conforme com a reta razão e a leia eterna de Deus (Santo Tomás, Sum. Teo., I-II, q. 93, a. 3 ad 2). 33. Aqui, apresentam –se ao nosso espírito as confrarias, as congregações e as ordem religiosas de todo o gênero, nascidas da autoridade da Igreja e da piedade dos fiéis. Quais foram os seus frutos de salvação para o gênero humano até aos nossos dias, a história o diz suficientemente. Considerando simplesmente o ponto de vista da razão, estas sociedades aparecem como fundadas com um fim honesto, e, consequentemente, sob os auspícios do direito natural: no que elas têm de relativo à religião, não dependem senão da Igreja. Os poderes públicos não podem, pois, legitimamente, arrogar-se nenhum direto sobre elas, atribuir-se a sua administração, a sua obrigação é antes respeitá-las, protegê-las, e em caso de necessidade, defendê-las. Justamente o contrário é que Nós temos sido condenado a ver, principalmente nesses últimos tempos. Em não poucos países, o Estado tem posto mão nestas sociedades, e tem acumulado a este respeito injustiça: sujeição às leis civis, privação do direito legítimo de personalidade, espoliação dos bens. Sobre estes bens, a Igreja tinha todavia os seus direitos: cada um dos membros tinha os seus; os doadores que lhe haviam dado uma aplicação, e aqueles, enfim, que delas auferiam socorros e alívio, tinham os seus. Assim não podemos deixar de deplorar amargamente espoliações tão iníquas e tão funestas; tanto mais que se terem de proscrição as sociedades católicas na mesma ocasião em que se afirma a legalidade das sociedades particulares, e que aquilo que se recusa a homens pacíficos e que não tem em vista senão a utilidade pública, se concede, e por certo muito amplamente, a homens que meditam planos funestos para a religião e também para o Estado. As associações operárias católicas 34. Certamente em nenhuma outra época se viu tão grande multiplicidade de associações de todo o gênero, principalmente de associações operárias. Não é, porém, lugar para se investigar qual a origem de muitas delas, qual o fim e quais os meios que tendem para esse fim. Mas é uma opinião, confirmada por numerosos indícios, que elas são ordinariamente governadas por chefes ocultos, e que obedecem a uma palavra de ordem igualmente hostil ao nome cristão e à segurança das nações; que, depois de terem açambarcado todas as empresas, se há operários que recusam a entrar no seu seio, ela fazem-lhe expiar a sua recusa pela miséria. Nesse estado de coisas, os operários cristão não têm remédio senão escolher entre esses dois partidos: ou darem os seus nomes de que a religião tem tudo a temer, ou organizarem-se eles próprios e unirem as forças para poderem sacudir denodadamente um jugo tão injusto e tão intolerável. Haverá homens verdadeiramente empenhados em arrancar o supremo bem da humanidade a um perigo iminente, que possam ter a menor dúvida de que é necessário obter por esse último partido? É altamente louvável o zelo de grande número dos nossos que, conhecendo perfeitamente as necessidades da hora presente, sondam cuidadosamente o terreno, para aí descobrirem uma vereda honesta que conduz à reabilitação da classe operária. Constituindo-se protetores das pessoas dedicadas ao trabalho, esforcem-se por aumentar a sua prosperidade, tanto doméstica quanto individual, e regular com equidade as relações recíprocas dos patrões e dos operários; por manter e enraizar nuns e noutros a lembrança dos seus deveres e a observação dos preceitos que, conduzindo o homem à moderação e condenando todos os excessos, mantém nas nações, e entre elementos tão diversos de pessoas e de coisas, a concórdia e a harmonia mais perfeita. Sob a inspiração dos mesmos pensamentos, homens de grande mérito se reúnem freqüentemente em congresso, para comunicarem mutualmente as idéias, unirem as suas forças, ordenarem programas de ação. Outros ocupam-se de formar corporações adequadas às diversas profissões e em fazer entrar nelas os artífices; coadjuvam estes com os seus conselhos, e a sua fortuna, e providenciam para que lhes não falte nunca um trabalho honrado e proveitoso. Os Bispos, por seu lado, animam estes esforços e os colocam sob a sua proteção; por sua autoridade e sob seus auspícios, membros do clero, tanto secular como regular, se dedicam, em grande número, aos interesses espirituais das corporações. Finalmente, não faltam católicos que, possuidores de abundantes riquezas, convertidos de algumas sorte em companheiros voluntários dos trabalhadores, não olham as despesas para fundar e propagar sociedades, onde estes possam encontrar, a par com certa abastança para o presente, a promessa de honroso descanso para o futuro. Tanto zelo, tantos e tão engenhosos esforços têm já feito entre os povos um bem muito considerável, e demasiado conhecido para que seja necessário falar deles mais detidamente. É a nossos olhos feliz prognóstico para o futuro, e esperamos destas corporações os mais benéficos frutos, contanto que continuem a desenvolver-se e que a prudência presida à sua organização. Proteja o Estado essas estas sociedades fundadas segundo o direito; mas não se intrometa no seu governo interior e não toque nas molas íntimas que lhes dão vida; pois o movimento vital procede essencialmente de um princípio interno, e extingue-se facilmente sob a ação de uma causa externa. Disciplina e fim destas associações 35. Precisam evidentemente estas corporações, para que nelas haja unidade de ação e acordo de vontades, duma sábia e prudente disciplina. Se, pois, como é certo, os cidadãos são livre para se associarem, devem sê-lo igualmente para se dotarem com os estatutos e regulamentos que lhe pareçam mais apropriados ao fim a que visam. Quais devem ser estes estatutos e regulamentos? Não cremos que se possam dar regras certas e precisas para lhes determinar os pormenores; tudo depende do gênero de cada nação, das tentativas feitas e da experiência adquirida, do gênero de trabalho, da expansão do comércio, e de outras circunstâncias de coisas e de tempos que se devem pesar com ponderação. Tudo quanto se pode dizer em geral é que se deve tomar como regra universal e constante o organizar e governar por tal forma as corporações que proporcionem a cada um dos seus membros os meios mais aptos para lhe fazerem atingir, pelo caminho mais cômodo e mais curto, o fim que eles se propõem, e que consiste no maior aumento possível dos bens do corpo, do espírito e da fortuna. Mas é evidente que se deve visar antes de tudo ao objeto principal, que é o aperfeiçoamento moral e religioso. É principalmente este fim que deve regular toda a economia destas sociedades; de outro modo, elas degenerariam bem depressa e cairiam, por pouco que fosse, na linha das sociedades em que não tem lugar a religião. Ora, de que serviria ao artista ter encontrado no seio da corporação a abundância material, se a falta de alimentos espirituais pusesse em perigo a salvação de sua alma? “Que vale ao homem possuir o universo inteiro, se vier a perder a sua alma?”(Mt 16, 26). Eis o caráter com que Nosso Senhor Jesus Cristo quis com que se distinguisse o cristão do pagão: “Os pagãos procuram todas estas coisas… procurai primeiro o Reino de Deus, e todas estas coisas vos serão dadas por acréscimo” (Mt 6, 32-33). Assim, pois, tomando Deus como ponto de partida, dê-se amplo lugar à instrução religiosa a fim de que todos conheçam os seus deveres para com ele; o que é necessário crer, o que é necessário esperar, o que é necessário fazer para obter a salvação eterna, tudo isso lhes deve ser cuidadosamente recomendado; premunam-se com particular solicitude contra as opiniões errôneas contra todas as variedades do vício. Guie-se o operário ao culto de Deus, incite-se nele o espírito de piedade, faça-se principalmente fiel à observância dos domingos e dias festivos. Aprenda ela a amar e respeitar a Igreja, mão comum de todos os cristãos, a aquiescer aos seus preceitos, a freqüentar os seus sacramentos, que são fontes de vida onde a alma se purifica das manchas e bebe a santidade. Constituída assim a religião fundamento de todas as leis sociais, não é difícil determinar as relações mútuas a estabelecer entre os membros para obter a paz e a prosperidade da sociedade. As diversas funções devem ser distribuídas da maneira mais proveitosa aos interesses comuns, e de tal modo, que a desigualdade não prejudique a concórdia. Importa grandemente que os encargos sejam distribuídos com inteligência e claramente definidos, a fim de que ninguém sofra injustiça. Que a massa comum seja administrada com integridade, e que se determine previamente, pelo grau de indigência de cada um dos membros, a quantidade de socorro que deve ser concedido; que os direitos e os deveres dos patrões seja perfeitamente conciliados com os direitos e deveres dos operários. A fim de se atender às reclamações eventuais que se levantem numa ou noutra classe a respeito dos direitos lesados, seria muito para desejar que os próprios estatutos encarregam homens prudentes e íntegros, tirados do seu seio, para regularem o litígio na qualidade de árbitros. Convite para os operários católicos se associarem 36. É necessário ainda prover de modo especial a que em nenhum tempo falte trabalho ao operário; e que haja um fundo de reserva destinado a fazer face, não somente aos acidentes súbitos e fortuitos inseparáveis do trabalho industrial, mas ainda à doença, à velhice e aos reveses da fortuna. Estas leis, contando que sejam aceitas de boa vontade, bastam para assegurar aos fracos a subsistência e um certo bem-estar; mas as corporações católicas ainda são chamadas a prestar os seus bons serviços à prosperidade geral. Pelo passado podemos sem temeridade julgar o futuro. Uma época cede o lugar à outra. Mas o curso das coisas apresentam maravilhosas semelhanças, preparadas por essa Providência que tudo dirige e faz convergir para o fim que Deus se propôs ao criar a humanidade. Sabemos que nas primeiras idades da Igreja lhe imputavam como crime a indigência dos seus membros, condenado a viver de esmolas ou do trabalho. Mas despidos como estavam de riquezas e de poder, souberam conciliar o favor dos ricos e a proteção dos poderosos. Viam-nos diligentes e laboriosos, modelos de justiça e principalmente de caridade. Com o espetáculo de uma vida tão perfeita e de costumes tão puros, todos os preconceitos se dissiparam, o sarcasmo caiu e as ficções de uma superstição inveterada desvaneceram-se pouco a pouco ante a verdade cristã. A sorte da classe operária, tal é a questão de que hoje se trata, será resolvida pela razão ou sem ela e não pode ser indiferente às nações quer o seja de um modo ou de outro. Os operários cristãos resolvê-la-ão facilmente pela razão, se, unidos em sociedades e obedecendo a uma direção prudente, encontrarem no caminho em que seus antepassados encontraram o seu bem e o dos povos. Qualquer que seja nos homens a força dos preconceitos e das paixões, se uma vontade pervertida não afogou ainda inteiramente o sentido do justo e do honesto, será indispensável que, cedo ou tarde, a benevolência pública se volte para esses operários, que se hajam visto ativos e modestos, pondo a equidade acima da ganância, e preferindo a tudo a religião do dever. Daqui, resultará esta outra vantagem: que a esperança de salvação e grandes facilidades para a atingir, serão oferecidas a esses operários que vivem no desprezo da fé cristã ou nos hábitos que ela reprova. Compreendem, geralmente, esses operários que tem sido joguete de esperanças enganosas e de aparências mentirosas. Pois sentem, pelo tratamento desumano que recebem dos seus patrões, que quase não são avaliados senão pelo peso do ouro produzido pelo seu trabalho; quanto às sociedades que os aliciaram; bem vêem eles que, em lugar da caridade e do amor, não encontram nelas senão discórdias intestinas, companheiras inseparáveis da pobreza insolente e incrédula. A alma embotada, o corpo extenuado, quanto não desejariam sacudir um jugo tão humilhante! Mas, ou por causa dos respeitos humanos, ou pelo receio da indigência, não ousam fazê-lo. Ah, para todos esses operários podem as sociedades católicas ser de maravilhosa utilidade, se convidarem os hesitantes a vir procurar no seu seio um remédio para todos os males, e acolherem pressurosas os arrependidos e lhes assegurarem defesa e proteção. Solução definitiva: a caridade Vede, Veneráveis Irmãos, por quem e por que meios esta questão tão difícil demanda ser tratada e resolvida. Tome cada um a tarefa que lhe pertence, e isto sem demora, para que não suceda que, diferindo o remédio, se torne incurável o mal, já de sí tão grave. Façam os governantes uso da autoridade protetora das leis e das instituições; lembrem-se os ricos e os patrões dos seus deveres; tratem os operário, cuja sorte está em jogo, dos seus interesses pelas vias legítimas; e, visto que só a religião, como dissemos a princípio, é capaz de arrancar o mal pela raiz, lembrem-se todos que a primeira coisa a fazer é a restauração dos costumes cristãos, sem os quais os meios mais eficazes sugeridos pela prudência humana serão pouco aptos para produzir salutares resultados. Quanto à Igreja, a sua ação jamais faltara por qualquer modo, e será tanto mais fecunda, quanto mais livremente se possa resolver. Nós desejamos que compreendam isto sobretudo aqueles cuja missão é velar pelo bem público. Empreguem neste ponto todos os Ministros do Santuário toda a energia da sua alma e generosidade do seu zelo, e guiados pela vossa autoridade e pelo vosso exemplo, Veneráveis Irmãos, não se cansem de inculcar a todas as classes da sociedade as máximas do Evangelho; façamos tudo quanto estiver ao nosso alcance para salvação dos povos, e, sobretudo, alimentem em si e acendam nos outros, nos grandes e nos pequenos a caridade, senhora e rainha de todas as virtudes. Portanto, a salvação desejada deve ser principalmente o fruto de uma grande efusão da caridade, queremos dizer, daquela caridade que compendia em si todo o Evangelho, e que, sempre pronta a sacrificar-se pelo próximo, é o antídoto mais seguro contra o orgulho e o egoísmo do século. Desta virtude, descreveu São Paulo as feições características com as seguintes palavras: “A caridade é paciente, é benigna, não cuida do seu interesse; tudo sofre; a tudo se resigna” (1Cor 13, 4-7). Como sinal dos favores celestes e penhor de Nossa benevolência, a cada um de vós, Veneráveis Irmãos, ao vosso clero e ao vosso povo, com grande afeto no Senhor, concedemos a Benção Apostólica. Dado em Roma, junto de São Pedro, aos 15 de maio de 1891, no décimo quarto ano de Nosso Pontificado. LEÃO PP. XIII
- A CERA E O FOGO
“A cera e o fogo” Miguel Maria Claret Um dos pontos mais indispensáveis para uma alma conseguir guardar perfeitamente a castidade é a fuga das ocasiões próximas de pecado. Já foi dito que “em matéria de castidade não há fortes nem fracos. Há prudentes ou imprudentes.” Com o pecado original ocorreu uma desordem nas paixões do homem, desordem esta que o inclina constantemente ao mal e que, com o auxílio da graça, pode ser domada, mas não extinta durante esta vida, sendo preciso estar sempre alerta com relação a ela, não lhe dando qualquer ocasião de nos dominar. Ocasião próxima de pecado é a pessoa, coisa, lugar ou circunstância que atiça as paixões humanas, seduzindo a pessoa a pecar. Em virtude da fraqueza da natureza humana e da força de atração que o pecado exerce sobre nós depois da culpa original, expor a própria alma a uma ocasião perigosa, é praticamente como expor cera ao fogo. Se pudesse pensar, de nada a cera fugiria tanto quanto do fogo. O fogo é de tal forma nocivo à cera, e a cera de tal maneira fraca diante do fogo, que basta que aquela fique próxima deste, ainda que este nem a toque, para que ela seja derretida. A natureza da cera não resiste ao calor do fogo. Derrete-se. É consumida. Evapora-se. Aniquila-se. Para a pobre “cera” –(que simbolicamente somos nós)– não há outra alternativa: ou foge do fogo ou nele acha o seu fim. E se resolve não fugir, à medida em que for se derretendo, o cruel fogo saberá alimentar-se dela, tornando-se ainda mais forte, sempre à espreita de uma nova “cera” imprudente para devorar… Ora, tanto quanto a cera diante do fogo, assim o homem é fraco, extremamente fraco, diante das ocasiões de pecado, de modo que expor-se a elas imprudentemente e, portanto, sem o auxílio da Graça, é sinônimo de nelas cair. E, de fato, segundo a clássica doutrina dos moralistas, sob a égide de Santo Afonso de Ligório, expor-se a uma ocasião próxima de pecado mortal, que se poderia evitar, já é pecado mortal de imprudência. Logo não há outra alternativa para o homem: ou a fuga das más ocasiões, ou a morte espiritual. E justamente da podridão das almas que assim vão tombando é que as más ocasiões ganham mais e mais força, infestando a sociedade com uma imoralidade que nada parece poder deter… E assim a cristandade vai derretendo-se, desintegrando-se, aniquilando-se. Como cera ao fogo… A reforma da cristandade requer necessariamente que se restitua às almas o horror pelas ocasiões próximas de pecado. Não é possível querer ser cristão e continuar brincando com a própria salvação eterna, expondo-se aos sutis laços do inferno, que são as ocasiões próximas de pecado. “Pode alguém caminhar sobre brasas sem queimar os próprios pés?” (Prov VI,28). Como já dizia um velho e experiente diretor de almas: “Em fugir ou não fugir da ocasião consiste o cair ou não cair no pecado” (Pe. Manuel Bernardes, Sermões e Práticas, II). E o mesmo autor faz uma curiosa observação: “Nós somos muitas vezes os que tentamos ao diabo. Por quê? Porque nós somos os que buscamos a ocasião, os que chamamos por ela; e buscar a ocasião em vez de ela nos buscar a nós é, em vez de o diabo nos tentar a nós, tentarmos nós ao diabo” (Idem). Nada auxilia tanto os planos do demônio quanto as ocasiões de pecado. São estas como que as emboscadas onde a toda hora aquela antiga serpente prepara o bote… Santo Afonso nos conta que “constrangido pelos exorcismos, confessou certa vez o demônio que, entre todos os sermões, o que mais detesta é aquele em que se exortam os fiéis a fugirem das más ocasiões”. E o Santo Doutor comenta que, “com efeito, o demônio se ri de todas as promessas e propósitos que formule o pecador arrependido, se este não evitar tais ocasiões” (Preparação para a morte, c. XXXI, p. III). Muitas pessoas, após certo tempo de vida espiritual, imaginam-se já fortes o suficiente para resistir a qualquer tentação, e lá vão elas permitindo-se já certas liberdades… É o primeiro passo para o precipício. “Aquele que julga estar de pé, tome cuidado para não cair” (I Cor X, 12). A este propósito, Santo Afonso recorda “o que se conta de certa espécie de ursos da Mauritânia, que vão à caça de macacos. Estes, ao verem o inimigo, sobem para o alto das árvores. O urso estende-se, então, junto ao tronco, fingindo-se morto, e quando os macacos, confiados, descem ao solo, levanta-se, apanha-os e os devora. Tal é a astúcia do demônio: persuade que as tentações estão mortas e quando os homens condescendem com as ocasiões perigosas, apresenta-lhes de súbito a tentação que os faz sucumbir. Quantas almas infelizes, que praticavam a oração, que freqüentavam a Comunhão e que se podiam chamar santas, deixaram-se prender nos tentáculos do inferno, porque não evitaram as más ocasiões” (ob. cit., idem). E confirma-o relatando o fato de que “uma senhora virtuosa, no tempo da perseguição aos cristãos, dedicava-se à piedosa obra de recolher e enterrar os corpos dos Mártires. Entre eles encontrou um que ainda respirava. Levou-o para casa, tratou-o e chegou a curá-lo. Aconteceu, porém, que pela ocasião próxima, essas duas pessoas, que se podiam chamar santas, perderam primeiramente a graça de Deus e, depois, até a Fé cristã” (ob. cit., ibidem). E diz ainda: “Em matéria de prazeres sensuais, a ocasião é como uma venda posta diante dos olhos e que não permite ver nem propósitos, nem instruções, nem verdades eternas; numa palavra, cega o homem e o faz esquecer-se de tudo. (…) Quem quiser salvar-se, precisa renunciar não somente ao pecado, mas também às ocasiões de pecado, isto é, deve afastar-se deste companheiro, daquela casa, de certas relações de amizade…”(ob. cit., ibidem). Dois foram os remédios que Nosso Senhor nos recomendou explicitamente contra as tentações: oração e vigilância. “Vigiai e orai, diz Ele, para não cairdes em tentação” (Mt XXVI, 41). Esta vigilância consiste precisamente na cautela em evitar as más ocasiões. “A vigilância é uma conseqüência da humilde desconfiança de nós mesmos e do conhecimento dos perigos a que estamos expostos. Um homem prudente, obrigado a seguir um caminho resvaladio, orlado de precipícios, não avança às cegas; repara onde põe o pé. (…) Uma surpresa, uma falta de atenção pode lançar-nos no fundo do abismo” (Pe. Chaignon, S. J., Meditações Sacerdotais, vol. II, m. XXII). Qualquer um que entenda que “levamos este tesouro (da Graça) em vasos de barro” (II Cor IV, 7), compreenderá o quanto precisamos nos cercar de vigilância contra as ocasiões próximas de pecado. E não será zombar de Deus alguém rezar: “não nos deixeis cair em tentação”, e depois ir por si mesmo expor-se ao perigo? Ora, “lançar-nos por própria vontade num mar agitado, esperando que Deus, para nos livrar da morte, o acalmará e nos estenderá a mão para nos trazer ao porto do salvamento, é querermos que Ele anime a nossa temeridade e recompense a nossa presunção” (Pe. Chaignon, S. J., ob. cit.). O ódio de Nosso Senhor às más ocasiões e a radicalidade com que exige que delas nos apartemos, Ele bem o expressou ao dizer: “Se tua mão ou teu pé te fazem cair em pecado, corta-os e lança-os longe de ti: é melhor para ti entrares na vida coxo ou manco que, tendo dois pés e duas mãos seres lançado no fogo eterno. Se teu olho te leva ao pecado, arranca-o e lança-o longe de ti: é melhor para ti entrares na vida cego de um olho que seres jogado com teus dois olhos no fogo da geena” (Mt XVIII, 8-9). Evidentemente não se trata de uma ordem para mutilar-nos, mas para ficarmos longe das ocasiões próximas de pecado, tanto quanto possível. Importa distinguir, porém, entre as ocasiões próximas de pecado voluntárias e as necessárias, entre as ocasiões próximas absolutas e as relativas (Cf. Ad. Tanquerey, Brevior Synopsis Theologiae Moralis et Pastoralis, n. 1170). Uma ocasião próxima de pecado é voluntária quando a pessoa tem como evitá-la, e, mesmo assim, se expõem a ela, sem grave necessidade. Assim, por exemplo, divertir-se assistindo a um programa imoral de televisão. Evidentemente é essa categoria de más ocasiões que combatemos no presente artigo. Uma ocasião próxima de pecado torna-se necessária quando a pessoa não tem como evitá-la, ou existe uma razão grave para expor-se a ela. Assim, por exemplo, o médico que para fins de exame ou tratamento precisa ver suas pacientes despidas. Nesses casos cessa a obrigação grave de evitar a ocasião próxima, restando o dever de cercar-se das precauções que forem possíveis e fortificar a vontade mediante a oração e demais recursos da vida espiritual. E devem considerar-se ocasiões próximas de pecado absolutas aquelas que habitualmente atentam contra a fragilidade humana comum, que são pedras de tropeço em si mesmas. Por exemplo, participar de danças imorais. Como estas ocasiões são um laço para qualquer pessoa, o dever grave de fugir delas subsiste para todos. Por sua vez, existem as ocasiões próximas de pecado relativas: aquelas que não o são para o comum dos homens, mas apenas para o indivíduo que, por alguma razão especial, encontra nela um perigo próximo de pecado. Assim o entrar em um simples bar, algo indiferente para uma pessoa normal, torna-se ocasião próxima de pecado para um alcoólatra. O dever de evitar ocasiões como estas, existe apenas para aqueles que prevêem que encontrariam nelas um risco próximo de ceder ao mal. Feitos esses esclarecimentos, o que na prática cada um deve fazer é procurar fugir de tudo que ele saiba ser ocasião próxima de pecado, tanto quanto lhe seja possível. Os próprios Santos sempre fizeram da fuga das ocasiões de pecado um dos pilares de sua vida espiritual. E levaram isso até o extremo. São Luís Gonzaga, por exemplo, guardava o olhar ao ponto de nem saber a cor do teto sob o qual habitava, nem reparar o rosto daqueles com quem convivia. E por saber que não apenas a santidade, mas a própria salvação eterna é impossível sem a renúncia às más ocasiões, os Santos sempre lutaram ardentemente para destruir essas pedras de tropeço no caminho espiritual de seus irmãos. Por isso a guerra que São João Maria Vianney abriu contra as danças em sua paróquia de Ars, ao ponto de chegar a pagar a organizadores de bailes para que não realizassem tais eventos. Por isso São Luís de Montfort comprava livros imorais e os rasgava na frente de seus vendedores. Por isso São Domingos Sávio tratou de destruir imediatamente as figuras imodestas que encontrou com um colega. E inúmeros exemplos como esses poderíamos citar. Nas missões populares então, missionários como São Luís de Montfort, Santo Afonso Maria de Ligório, Santo Antônio Maria Claret, pregavam ardentemente contra as más ocasiões, e a esses ardentes sermões correspondiam, por exemplo, ardentes fogueiras de livros maus, por parte do povo. Veja-se o testemunho do padre Mateus Testa, companheiro de Santo Afonso, a respeito das missões por este conduzidas em Nápoles: “Já não se viram irreverências nas igrejas; as mulheres renunciaram àqueles modos de vestir que causavam a ruína dos fracos; as moças, que haviam desaprendido o pudor, reencontraram o senso da modéstia; as tabernas perderam a sua clientela; e, por toda parte, foi o fim, nestas terras e vilarejos, de certas danças e divertimentos entre homens e mulheres e, sobretudo, entre rapazes e moças. Cânticos cristãos substituíram as canções licenciosas que essas senhoritas tinham nos lábios…” (Th. Rey-Mermet, Afonso de Ligório, Ed. Santuário, 1984). Nos confessionários, a doutrina clássica e unânime entre os moralistas, encabeçados por Santo Afonso, sempre ensinou que o confessor não pode absolver jamais uma pessoa que não esteja plenamente decidida a romper com todas as ocasiões próximas de pecado mortal que possa evitar. Lástima incomparável, porém, é que nestes nossos tempos os pastores das almas, adeptos de uma “Nova Evangelização” que já não convertem ninguém, tenham abandonado a luta contra as ocasiões de pecado. Quem ainda prega contra as modas indecentes ou contra os banhos públicos nas praias e piscinas? Quem ataca a televisão, orientando as famílias a não darem abrigo a essa corruptora eletrônica em seus lares? Quantas vozes ainda condenam os bailes, discotecas, rodeios, etc, lugares onde simplesmente se respira imoralidade, como todos sabem? Quem ainda ensina os jovens que no namoro e noivado, não apenas as relações sexuais, mas também o beijo na boca e os abraços indiscretos são pecado mortal? Quem lhes ensina que é dever dos namorados e noivos evitar as ocasiões propícias à fornicação? E não só as ocasiões de pecado não são mais combatidas, como nas próprias paróquias, hoje, se proporcionam novas ocasiões más, através de certas festas, “cristotecas”, certos encontros de jovens… Quem, no entanto, proporciona uma ocasião próxima de pecado às almas, lembre-se bem de que terá de responder, no último dia, por todos os pecados que tiverem decorrido dessa má ocasião. E como exemplo do quanto o Céu detesta as más ocasiões, citemos aqui o caso referido por Santo Afonso em um de seus mais conhecidos livros: “No ano de 1611, no célebre santuário de Maria em Monte-Virgem, aconteceu que, na vigília de Pentecostes, tendo a multidão que aí concorrera profanado a festa com bailes, desregramentos e imodéstia, se ateou de repente um incêndio na casa de tábuas em que estavam os romeiros, e em menos de hora e meia reduziu-a a cinzas, morrendo mais de 400 pessoas. Só sobreviveram cinco que depuseram, com juramento, terem visto a Mãe de Deus com duas tochas acesas pondo fogo no edifício” (Glórias de Maria, trat. IV, n.V). A virtude da castidade não admite o que os moralistas chamam de “parvitas materiae”, ou seja, não há matéria leve contra a castidade: todo pecado contra ela, mesmo os pensamentos e olhares, se consentidos deliberadamente, são pecados mortais. Entenda-se isso, e se entenderá a necessidade e obrigação grave de se fugir de toda ocasião de sensualidade, como são as músicas e danças provocantes, as festas mundanas, as más companhias, os livros maus, os espetáculos onde hajam cenas impudicas, etc. São Filipe Néri já dizia: “Na luta pela pureza, vence quem foge”. ” O sagaz vê o perigo e se esconde, o incauto segue em frente e paga por isso” (Prov XXVII, 12). Foge, pois, meu irmão, “foge do pecado como de uma serpente, porque, se te aproximares, morder-te-á; seus dentes são dentes de leões que aos homens tiram a vida” (Eclo XXI, 2). “Fuja, e quão longe puder, fuja (…). Fuja como de ar pestilento, corte-lhe o passo como a incêndio; creia que a fragilidade humana, e a astúcia diabólica, é maior do que ponderação alguma pode declarar” (Pe. Manuel Bernardes). Fuja, porque “quem ama o perigo, nele perecerá” (Eclo III, 27). Como cera ao fogo. Miguel Maria Claret – “A cera e o fogo” MONTFORT Associação Cultural http://www.montfort.org.br/index.php?secao=veritas&subsecao=igreja&artigo=cera_fogo&lang=bra
- Santa Luísa de Marillac – 15 de Março
SANTO DO DIA – 15 DE MARÇO – SANTA LUÍSA DE MARILLAC Fundou a Congregação das Irmãs Filhas da Caridade (1591-1660) Luísa nasceu em 12 de agosto de 1591, filha natural de Luís de Marillac, senhor de Ferrières, aparentado com a nobreza francesa, cujas posses permitiram dar à filha uma infância tranquila. A menina aos três anos foi para o Convento Real de Poissy, em Paris onde recebeu uma educação refinada, quer no plano espiritual, quer no humanístico. Porém, seu pai morreu quando ela tinha treze anos, sem deixar herança e, felizmente, nem dívidas. Nessas circunstâncias Luísa foi tirada do Convento, pela tia Valença, pois os Marillac não se dispuseram custear mais sua formação. Ela desejava dedicar sua vida à Deus, para cuidar dos pobres e doentes, mas agora com a escassez financeira teria de esperar para atingir esse objetivo. Durante dois anos viveu numa casa simples de moças custeando-se com trabalhos feitos em domicílio, especialmente bordados. Ela tentou ingressar no mosteiro das capuchinhas das Filhas da Paixão que acabavam de chegar em Paris, mas foi rejeitada pela aparência de saúde débil, imprópria para a vida de mosteiro. Depois disso, viu-se constrangida a aceitar um casamento que os tios lhe arranjara. Foi com Antonio de Gràs, que trabalhava como secretário da rainha. Com ele teve um filho, Miguel Antonio. Viveu feliz, pois o marido a respeitava e amava a família. E se orgulhava da esposa que nas horas vagas cuidava dos deveres de piedade, mortificando-se com jejuns frequentes, visitando os pobres, os hospitais e os asilos confortando a todos com seu socorro. Até que ele próprio foi acometido por grave e longa enfermidade e ela passou a se dedicar primeiro à ele sem abandonar os demais. Mas com isso novamente os problemas financeiros voltaram. Nesse período teve dois grandes conselheiros espirituais: Francisco de Sales e Vicente de Paulo, ambos depois declarados Santos pela Igreja. Foi graças à direção deles, que pôde superar e enfrentar os problemas que agitavam o seu cotidiano e a sua alma. Somente sua fé a manteve firme e graças à sua força, suplantou as adversidades, até o marido falecer, em 1625 e Miguel Antonio foi para o seminário. Só então Luísa pôde dedicar-se totalmente aos pobres, doentes e velhos. Isso ocorreu porque Vicente de Paulo teve a iluminação de coloca-la à frente das Confrarias da Caridade, as quais fundara para socorrer as paróquias da França, e que vinham definhando. Vicente encarregou-a de visita-las, reorganiza-las, enfim dinamiza-las, e ela o fez durante anos. Em 1634 Luísa, com ajuda e orientação de Vicente de Paulo, fundou a Congregação das Damas da Caridade, inicialmente com três senhoras da sociedade, mas esse núcleo se tornaria depois uma Congregação de Irmãs. Isso porque o serviço que estas Damas prestavam aos pobres era limitado pelos seus deveres familiares e sociais e pela falta de hábito aos trabalhos humildes e fatigantes. Era necessário colocar junto delas, pessoas generosas, livres e totalmente consagradas a Deus e aos pobres. Mas na Igreja não existiam porque a vida de consagração para as mulheres estava concebida apenas como vida de clausura. Então, Vicente e Luísa, em 1642 ousaram e, criam as Irmãs dos Pobres, as Filhas da Caridade, a quem foram confiados os doentes, os enjeitados, os velhos, os mendigos, os soldados feridos e os condenados às prisões. Nascia um novo tipo de Irmã, com uma missão inédita para aqueles tempos: uma vida consagrada em dispersão pelos caminhos do sofrimento humano, assim estava criada a Congregação das Irmãs Filhas da Caridade, em 1642. Na qual Luísa fez os votos perpétuos, sendo consagrada pelo próprio Vicente de Paulo. A obra, sob a direção dela foi notável. Quando Paris foi assolada pela guerra e peste, em 1652, as Irmãs chegaram a atender quatorze mil pessoas, de todas as categorias sociais, sendo inclusive as primeiras Irmãs a serem requisitadas para o atendimento dos soldados feridos, nos campos de batalhas. Luísa morreu em 15 de março de 1660. Foi beatificada em 1920, e canonizada pelo Papa Pio XI, em 1934. Suas relíquias repousam na Capela da Visitação da Casa Matriz das Irmãs da Caridade, em Paris, França. Santa Luísa de Marillac foi proclamada Padroeira das Obras Sociais e de todos os assistentes sociais, pelo Papa João XXIII, em 1960. Conheça mais sobre Santa Luísa de Marillac, viúva Luísa nasceu em Paris no dia 15 de Agosto de 1591. Era filha de Luís de Marillac, senhor de Ferriers, conselheiro, então, do Parlamento, e de Margarida Le Camus sua segunda esposa.Pouco depois do nascimento, a pequenina Luísa perdeu a mãe. E o pai, tendo contraído terceiras núpcias, confiou-a aos cuidados das dominicanas de Poissy. Alí, Luísa aprendeu a conhecer as verdades cristãs, e, em 1604, quando o pai faleceu, deixando-a sozinha no mundo, resolveu, depois de alguns anos, casar-se. Luísa desposou Antônio Les Gras, homem honesto, de boa conduta, cheio de temor de Deus, irrepreensível. Era em Fevereiro de 1613, e no fim deste mesmo ano, nascia-lhe o primeiro e único filho – Miguel. Dava-se Luísa Les Gras, naquela época, caridosamente, aos pobres. Foi em 1619 que teve a feliz oportunidade de se encontrar com São Francisco de Sales, que as guiou, com mão firme, pela prova por que passou: em 1622, adoecia-lhe o esposo gravemente, e Luísa sentiu que aquilo era, dum certo modo, uma punição, uma vez que, quando solteira, tivera desejos de galgar a longa e pedregosa ladeira que a levaria à perfeição religiosa, e não o fizera. Depois de um ano, sentiu-se mais descansada: a 4 de Maio de 1623 tomou a firme resolução de não mais se casar, entregando-se, toda inteira ao serviço de Deus, se, como o andamento da doença de Antônio o indicava, viesse a perder o bom Les Gras. Luísa passou, em 1624, a viver sob a direção de São Vicente de Paulo. Era ainda o santo preceptor na casa de Gondi, e a ele lhe abriu a alma. Antônio Les Gras deixou o mundo no dia 21 de Dezembro de 1625 nos braços da esposa.Luísa principiou por mudar-se de casa. Estabeleceu-se na rua São Vítor, nas vizinhanças do Colégio Bons Enfants, que a senhora de Gondi dera a São Vicente. Miguel, entrando para o seminário de São Nicolau do Chardonnet, ia deixar mais liberdade à mãe para que pudesse consagrar-se à obra que ia iniciar-se. A senhora Les Gras preparou-se, ardorosamente. E São Vicente, ocupado com a fundação das “Caridades” somente numa primeira conferência com suas filhas é que pode traçar o programa da missão que Deus havia confiado a Luísa: “aperfeiçoar-se sem cessar para sempre fazer melhor, conseguindo, assim, pouco a pouco, tornar-se mais perfeito e mais santo, para que se possa obrar bem ao redor de si mesmo.” E o tempo foi passando e Luísa seguia à risca tudo o que o grande santo lhe confiava. Em princípios de 1634, redigiu ela um curto plano, uma espécie de horário, que veio a ser o fundamento da regra das irmãs de caridade. Disse Vicente de Paulo, escrevendo sobre o assunto: “Isto está bom, e tão bom que não quero acrescentar nada.” E sob a palavra do Santo, o comentário do regulamento era uma exortação para que se fizesse tudo sempre do melhor modo. Na Capela de São Dionísio, Luísa de Marillac começou a aplicar as irmãs de caridade à instrução de meninas e ao ensinamento do catecismo. Na obra dos Meninos Encontrados, ao lado de São Vicente, foi operosa e incansável. E a senhora Les Gras sempre se ocupou dos “filhos” com uma maternal ternura, com ansiedade mesmo, levando Vicente de Paulo, duma feita, a lhe dizer: – Por Deus, deixa teus filhos aos cuidados do Pai celeste, que os ama mais do que tu. Aquele ansiedade, porém, vinha mostrar a maravilha interior duma alma que ardia, que levava vida intensíssima, embora o corpo, com a saúde que descambava, fosse, a pouco e pouco, perdendo a vitalidade e o desembaraço dos primeiros tempos. Nas notas que Luísa de Marillac deixou às filhas encontra-se um amor imenso por Nosso Senhor, o desejo de a Ele se unir. E nos pobres, nos maltrapilhos alquebrados, de olhar triste e perdido, via o Cristo, o desejo supremo. A obra que levou a efeito foi árdua. As jovens e as viúvas que formou, porém, estavam todas cheias da maior boa vontade. E a pequena Companhia expandiu-se. Por toda a parte, as irmãs eram chamadas para exercer seu ministério. A principal característica de sua obra foi a união de dois gêneros de vida: ação e contemplação. E o programa de Vicente de Paulo era seguido com precisão: Dissera ele: “As filhas da Caridade terão por convento um hospital, por cela um quarto de aluguel, por claustro as ruas da cidade ou as salas das casas de saúde, por termo a obediência, por freio o temor de Deus, por véu a santa modéstia.” Em 1640, a senhora Les Gras principiou a se ocupar com os galés, traçando uma regra própria para as filhas: “Este é um dos mais difíceis e mais perigosos terrenos, mas também é um trabalho dos mais meritórios e agradáveis a Deus. As irmãs que se derem, pela vontade de Deus, a este santo exercício, devem, dum lado, fazer todo o esforço para se tornarem dignas pela prática das virtudes, e doutro lado, encorajarem-se, tendo grande confiança em Nosso Senhor. Se bem que seja difícil impedir excessos de insolência, não se deixe de fazer todo o possível. Por meio da paciência, rogando a Deus por eles, como fazia Santo Estêvão pelos que o lapidaram, insista-se. Façam-se, muitas vezes por dia, orações particulares para invocar o Espírito Santo, a fim de que Ele tão bem purifique os pensamentos, palavras e ações, especialmente nas tentações de impureza, se as tiverem, que sejam como a luz do sol passando continuamente sobre o lixo, sem contudo, se manchar de modo algum. Os últimos anos de Luísa de Marillac foram caracterizados por uma grande doçura e não menor paz. E a 4 de Fevereiro de 1660, tombou para não mais se levantar, presa duma inflamação aguda na espádua. Cheia de febre, mas exortando os filhos e as irmãs. No dia 15 de Março daquele ano entregou a alma a Deus. E o cura de São Lourenço que lhe estava à cabeceira disse-lhe, docemente: – Adeus, bela alma! O corpo, depois de ter ficado exposto por todo o dia e mas meio do seguinte, foi enterrado na igreja de São Lourenço, na capela da Visitação, fazia suas devoções. Com grande singeleza, realizaram-se os funerais, porque, segundo sua vontade, era uma irmã de caridade. Em 1920, a 9 de Maio, era Luísa de Marillac beatificada por São Pio X. #SantodoDia
- Santa Luísa de Marillac – 15 de Março
SANTO DO DIA – 15 DE MARÇO – SANTA LUÍSA DE MARILLAC Fundou a Congregação das Irmãs Filhas da Caridade (1591-1660) Luísa nasceu em 12 de agosto de 1591, filha natural de Luís de Marillac, senhor de Ferrières, aparentado com a nobreza francesa, cujas posses permitiram dar à filha uma infância tranquila. A menina aos três anos foi para o Convento Real de Poissy, em Paris onde recebeu uma educação refinada, quer no plano espiritual, quer no humanístico. Porém, seu pai morreu quando ela tinha treze anos, sem deixar herança e, felizmente, nem dívidas. Nessas circunstâncias Luísa foi tirada do Convento, pela tia Valença, pois os Marillac não se dispuseram custear mais sua formação. Ela desejava dedicar sua vida à Deus, para cuidar dos pobres e doentes, mas agora com a escassez financeira teria de esperar para atingir esse objetivo. Durante dois anos viveu numa casa simples de moças custeando-se com trabalhos feitos em domicílio, especialmente bordados. Ela tentou ingressar no mosteiro das capuchinhas das Filhas da Paixão que acabavam de chegar em Paris, mas foi rejeitada pela aparência de saúde débil, imprópria para a vida de mosteiro. Depois disso, viu-se constrangida a aceitar um casamento que os tios lhe arranjara. Foi com Antonio de Gràs, que trabalhava como secretário da rainha. Com ele teve um filho, Miguel Antonio. Viveu feliz, pois o marido a respeitava e amava a família. E se orgulhava da esposa que nas horas vagas cuidava dos deveres de piedade, mortificando-se com jejuns frequentes, visitando os pobres, os hospitais e os asilos confortando a todos com seu socorro. Até que ele próprio foi acometido por grave e longa enfermidade e ela passou a se dedicar primeiro à ele sem abandonar os demais. Mas com isso novamente os problemas financeiros voltaram. Nesse período teve dois grandes conselheiros espirituais: Francisco de Sales e Vicente de Paulo, ambos depois declarados Santos pela Igreja. Foi graças à direção deles, que pôde superar e enfrentar os problemas que agitavam o seu cotidiano e a sua alma. Somente sua fé a manteve firme e graças à sua força, suplantou as adversidades, até o marido falecer, em 1625 e Miguel Antonio foi para o seminário. Só então Luísa pôde dedicar-se totalmente aos pobres, doentes e velhos. Isso ocorreu porque Vicente de Paulo teve a iluminação de coloca-la à frente das Confrarias da Caridade, as quais fundara para socorrer as paróquias da França, e que vinham definhando. Vicente encarregou-a de visita-las, reorganiza-las, enfim dinamiza-las, e ela o fez durante anos. Em 1634 Luísa, com ajuda e orientação de Vicente de Paulo, fundou a Congregação das Damas da Caridade, inicialmente com três senhoras da sociedade, mas esse núcleo se tornaria depois uma Congregação de Irmãs. Isso porque o serviço que estas Damas prestavam aos pobres era limitado pelos seus deveres familiares e sociais e pela falta de hábito aos trabalhos humildes e fatigantes. Era necessário colocar junto delas, pessoas generosas, livres e totalmente consagradas a Deus e aos pobres. Mas na Igreja não existiam porque a vida de consagração para as mulheres estava concebida apenas como vida de clausura. Então, Vicente e Luísa, em 1642 ousaram e, criam as Irmãs dos Pobres, as Filhas da Caridade, a quem foram confiados os doentes, os enjeitados, os velhos, os mendigos, os soldados feridos e os condenados às prisões. Nascia um novo tipo de Irmã, com uma missão inédita para aqueles tempos: uma vida consagrada em dispersão pelos caminhos do sofrimento humano, assim estava criada a Congregação das Irmãs Filhas da Caridade, em 1642. Na qual Luísa fez os votos perpétuos, sendo consagrada pelo próprio Vicente de Paulo. A obra, sob a direção dela foi notável. Quando Paris foi assolada pela guerra e peste, em 1652, as Irmãs chegaram a atender quatorze mil pessoas, de todas as categorias sociais, sendo inclusive as primeiras Irmãs a serem requisitadas para o atendimento dos soldados feridos, nos campos de batalhas. Luísa morreu em 15 de março de 1660. Foi beatificada em 1920, e canonizada pelo Papa Pio XI, em 1934. Suas relíquias repousam na Capela da Visitação da Casa Matriz das Irmãs da Caridade, em Paris, França. Santa Luísa de Marillac foi proclamada Padroeira das Obras Sociais e de todos os assistentes sociais, pelo Papa João XXIII, em 1960. Conheça mais sobre Santa Luísa de Marillac, viúva Luísa nasceu em Paris no dia 15 de Agosto de 1591. Era filha de Luís de Marillac, senhor de Ferriers, conselheiro, então, do Parlamento, e de Margarida Le Camus sua segunda esposa.Pouco depois do nascimento, a pequenina Luísa perdeu a mãe. E o pai, tendo contraído terceiras núpcias, confiou-a aos cuidados das dominicanas de Poissy. Alí, Luísa aprendeu a conhecer as verdades cristãs, e, em 1604, quando o pai faleceu, deixando-a sozinha no mundo, resolveu, depois de alguns anos, casar-se. Luísa desposou Antônio Les Gras, homem honesto, de boa conduta, cheio de temor de Deus, irrepreensível. Era em Fevereiro de 1613, e no fim deste mesmo ano, nascia-lhe o primeiro e único filho – Miguel. Dava-se Luísa Les Gras, naquela época, caridosamente, aos pobres. Foi em 1619 que teve a feliz oportunidade de se encontrar com São Francisco de Sales, que as guiou, com mão firme, pela prova por que passou: em 1622, adoecia-lhe o esposo gravemente, e Luísa sentiu que aquilo era, dum certo modo, uma punição, uma vez que, quando solteira, tivera desejos de galgar a longa e pedregosa ladeira que a levaria à perfeição religiosa, e não o fizera. Depois de um ano, sentiu-se mais descansada: a 4 de Maio de 1623 tomou a firme resolução de não mais se casar, entregando-se, toda inteira ao serviço de Deus, se, como o andamento da doença de Antônio o indicava, viesse a perder o bom Les Gras. Luísa passou, em 1624, a viver sob a direção de São Vicente de Paulo. Era ainda o santo preceptor na casa de Gondi, e a ele lhe abriu a alma. Antônio Les Gras deixou o mundo no dia 21 de Dezembro de 1625 nos braços da esposa.Luísa principiou por mudar-se de casa. Estabeleceu-se na rua São Vítor, nas vizinhanças do Colégio Bons Enfants, que a senhora de Gondi dera a São Vicente. Miguel, entrando para o seminário de São Nicolau do Chardonnet, ia deixar mais liberdade à mãe para que pudesse consagrar-se à obra que ia iniciar-se. A senhora Les Gras preparou-se, ardorosamente. E São Vicente, ocupado com a fundação das “Caridades” somente numa primeira conferência com suas filhas é que pode traçar o programa da missão que Deus havia confiado a Luísa: “aperfeiçoar-se sem cessar para sempre fazer melhor, conseguindo, assim, pouco a pouco, tornar-se mais perfeito e mais santo, para que se possa obrar bem ao redor de si mesmo.” E o tempo foi passando e Luísa seguia à risca tudo o que o grande santo lhe confiava. Em princípios de 1634, redigiu ela um curto plano, uma espécie de horário, que veio a ser o fundamento da regra das irmãs de caridade. Disse Vicente de Paulo, escrevendo sobre o assunto: “Isto está bom, e tão bom que não quero acrescentar nada.” E sob a palavra do Santo, o comentário do regulamento era uma exortação para que se fizesse tudo sempre do melhor modo. Na Capela de São Dionísio, Luísa de Marillac começou a aplicar as irmãs de caridade à instrução de meninas e ao ensinamento do catecismo. Na obra dos Meninos Encontrados, ao lado de São Vicente, foi operosa e incansável. E a senhora Les Gras sempre se ocupou dos “filhos” com uma maternal ternura, com ansiedade mesmo, levando Vicente de Paulo, duma feita, a lhe dizer: – Por Deus, deixa teus filhos aos cuidados do Pai celeste, que os ama mais do que tu. Aquele ansiedade, porém, vinha mostrar a maravilha interior duma alma que ardia, que levava vida intensíssima, embora o corpo, com a saúde que descambava, fosse, a pouco e pouco, perdendo a vitalidade e o desembaraço dos primeiros tempos. Nas notas que Luísa de Marillac deixou às filhas encontra-se um amor imenso por Nosso Senhor, o desejo de a Ele se unir. E nos pobres, nos maltrapilhos alquebrados, de olhar triste e perdido, via o Cristo, o desejo supremo. A obra que levou a efeito foi árdua. As jovens e as viúvas que formou, porém, estavam todas cheias da maior boa vontade. E a pequena Companhia expandiu-se. Por toda a parte, as irmãs eram chamadas para exercer seu ministério. A principal característica de sua obra foi a união de dois gêneros de vida: ação e contemplação. E o programa de Vicente de Paulo era seguido com precisão: Dissera ele: “As filhas da Caridade terão por convento um hospital, por cela um quarto de aluguel, por claustro as ruas da cidade ou as salas das casas de saúde, por termo a obediência, por freio o temor de Deus, por véu a santa modéstia.” Em 1640, a senhora Les Gras principiou a se ocupar com os galés, traçando uma regra própria para as filhas: “Este é um dos mais difíceis e mais perigosos terrenos, mas também é um trabalho dos mais meritórios e agradáveis a Deus. As irmãs que se derem, pela vontade de Deus, a este santo exercício, devem, dum lado, fazer todo o esforço para se tornarem dignas pela prática das virtudes, e doutro lado, encorajarem-se, tendo grande confiança em Nosso Senhor. Se bem que seja difícil impedir excessos de insolência, não se deixe de fazer todo o possível. Por meio da paciência, rogando a Deus por eles, como fazia Santo Estêvão pelos que o lapidaram, insista-se. Façam-se, muitas vezes por dia, orações particulares para invocar o Espírito Santo, a fim de que Ele tão bem purifique os pensamentos, palavras e ações, especialmente nas tentações de impureza, se as tiverem, que sejam como a luz do sol passando continuamente sobre o lixo, sem contudo, se manchar de modo algum. Os últimos anos de Luísa de Marillac foram caracterizados por uma grande doçura e não menor paz. E a 4 de Fevereiro de 1660, tombou para não mais se levantar, presa duma inflamação aguda na espádua. Cheia de febre, mas exortando os filhos e as irmãs. No dia 15 de Março daquele ano entregou a alma a Deus. E o cura de São Lourenço que lhe estava à cabeceira disse-lhe, docemente: – Adeus, bela alma! O corpo, depois de ter ficado exposto por todo o dia e mas meio do seguinte, foi enterrado na igreja de São Lourenço, na capela da Visitação, fazia suas devoções. Com grande singeleza, realizaram-se os funerais, porque, segundo sua vontade, era uma irmã de caridade. Em 1920, a 9 de Maio, era Luísa de Marillac beatificada por São Pio X. #SantodoDia
- A ESTÉTICA DO MAL
A ESTÉTICA DO MAL Existe um conceito estético para responder a uma questão de beleza, existem regras de beleza, existe uma estética que não é tão mal, mas faz mal. O mal é a carência de um bem devida num ser. Se misturarmos estética e o mal temos um aborto lógico, alguns podem definir uma estética do mal como o conceito de beleza deformada A beleza supõe a perfeição, o mal supõe imperfeição, deformação. Na medida que uma obra de grande angústia pode ter um grau maior de que o impulso absoluto (metafísicamente falando) seria absolutamente feio. Depois seria completamente impossível uma estética do mal absoluto. É possível, portanto, uma estética do mal? É possível um raciocínio filosófico da beleza da deformação? Não existe, un estética do bem, e estática do mal será tão somente um conceito do inexistente, como o é mal absoluto? Esse é um problema para ser resolvido. Mas para encontrar uma solução mais eficiente é necessário usar os metafísicos platônicos, Aristóteles ou Tomista. Enfatiza-se em uma situação improdutiva, um labirinto de onde ninguém sai. Para alguns casos filosóficos, a beleza é relativa, imagine a questão do bem e do mal, suas questões culturais? Não se trata de um assunto que é uma questão cultural. Já seria suficiente, com os pressupostos, nos termos de um acordo em que existe ou não estética, em se existe ou não de mal. O relativismo nos leva a problematizar a questão até o infinito. A vida pode fazer com que a pessoa faça o bem, o que faz com que a pessoa faça o mesmo? #MacauGoaAngolaMoçambiqueCaboverdeGuinéBissauGuinéEquatorialSãotoméeprincipeEUAfrançaparisgeorgiaportugalMacedôniabelarusRússiapaquistãoIrãCoreiaEgipto #humanismo #Históriamoderna #MacauGoaAngolaMoçambiqueCaboverdeGuinéBissauGuinéEquatorialSãotoméePrincipeEUAfrançaparisgeorgiaportugalmacedoniabelarusrussiapaquistãoIrãnCoreiaEgiptoAr #UzbequistãoLaosMauritâniaIêmemAfeganistãoMaldivasSomáliaArábiaSauditaIrãCoréiadoNorte #demonologia
- DIONÍSIO, BISPO DE ROMA (259-269)
Sobre a trindade e a encarnação ATANÁSIO, De decretis, 26 [Atanásio cita, criticando certas expressões, a carta de Dionísio a Dionísio alexandrino (247)-265). A correspondência entre os dois Dionísios ilustra bem dois pontos de importância para a história da teologia. 1° O caminho da ortodoxia é estreito: em muitos lugares costeia dois extremos opostos, entre duas heresias antagônicas. Assim, por desejar acabar com o monarquismo sabeliano, Dionísio de Alexandria descamba para o triteísmo. 2° É imprescindível um vocabulário comum a todos e tecnicamente apropriado, bem o demonstra a nota que encerra esta citação.] Inclino-me naturalmente a combater os que dividem, retalham e destroem a doutrina mais veneranda da igreja, isto é, a monarquia de Deus, reduzindi-a a três poderes e a três substâncias separadas (hypostáseis), em suma, a três divindades. Segundo me dizem, vários dos vossos catequistas e doutores da palavra estão ensinando esta doutrina, colocando-se numa posição, por assim dizer, diametralmente oposta à de Sabelio. Enquanto Sabélio afirma blasfematoriamente que o filho é o pai, e que o pai é o filho, eles, a seu modo, ensinam que há três deuses. Dividem a sagrada Mônada em três substâncias estranhas entre si e absolutamente separadas. A verdade é que o verbo de Deus deve, por necessidade, estar unido ao Deus do universo e que o espírito santo deve habitar em Deus. Portanto, é absolutamente imprescindível que a trindade divina esteja absorvida e reunida numa só Unidade, que seja conduzida a um único ápice. É por esta unidade que eu entendo o criador onipotente do universo…. Não menor censura merecem os que fazem uma criatura. Os Divinos Oráculos em parte alguma declaram ser ele criatura ou feitura, mas sempre afirmam ser o fruto de uma geração própria e conveniente ao verbo. Pois, se o verbo viesse a ser um filho, existiria um tempo em que Ele ainda não existia. Ora, Ele sempre existiu, pois, como ele mesmo declara, Ele está no pai. Aliás, conforme vedes nas escrituras, Cristo é verbo, sabedoria e poder, atributos estes próprios de Deus. Logo, se o filho tivesse começado a existir, haveria um tempo em que tais atributos não existiriam, em que Deus careceria deles; e isto é um grande absurdo…. Não se deve, pois, dividir em três divindades a admirável Mônada de Deus. Tampouco se deve rebaixar a dignidade e majestade incomensuráveis do S, apresentando-o como uma “criatura”, porém, devemos crer em DEUS pai todo-poderoso, em Jesus Cristo, seu filho, e no Espírito santo, tendo por certo que o verbo está unido ao Deus do universo, pois ele mesmo diz: “Eu estou no pai e o pai em mim”, e ainda, eu e o pai somos um”. Assim fazendo, tanto a santa trindade como a santa pregação da Monarquia de Deus estarão preservadas. [Nota relativa aos termos hypoóstasis e oysía: ambas as palavras significam em sua origem uma mesma coisa: o substrato de toda realidade, aquilo que constitui a realidade de seu próprio ser, sua essência. O uso porém, conferiu dois sentidos, um geral e outro particular. 1° Geral: essência universal da qual participam todos os participantes de uma espécie, por exemplo, todos os homens participam da hypostásis comum da “humanidade” em virtude da qual cada um deles é homem. 2° particular: a essência individual em virtude da qual o indivíduo é ele mesmo. Dizemos, preferencialmente, personalidade ou pessoa”. João Pereira é, portanto João Pereira precisamente por causa de uma hipóstase que poderíamos chamar de “João Pereiraidade”. Ora, acontece que Dionísio Alexandrino usa hypóstasis no segundo sentido, enquanto Dionísio Romano o entende no primeiro. Sem dúvida, muitos cairão em heresia por não compreender a significação exata do vocabulário teológico de Dionísio Alexandrino. Idêntica ambiguidade acompanha o termo oysíaque era, no século quarto sinônimo de hypóstasis ( no credo de Nicéia e em Atanásio). Os três capadócios (Basílio magno, Gregório de Nissa e Gregório Nazianzeno) são os responsáveis pela distinção que, gradativamente, se tornará clássica entre oysía, reservada ao primeiro sentido, e hypóstasis, ao segundo. O termo essentia, equivalente exato de oysía nunca chegou a ser popular. Assim se explica a posterior dificuldade entre os dois Dionísios – um pensando em greco, outro pensando em latim – dificuldade, aliás, generalizada entre ocidente e oriente. Os teólogos gregos tentaram evitar o termo prósôpon para traduzir o segundo sentido por causa de Sabélio, que o usava para descrever uma função meramente temporal. Usaram, pois, o termo hypóstasis para traduzir o que os latinos podiam livremente expressar com a palavra bem mais natural de persona, Equivalente exato de prósôpon. #MacauGoaAngolaMoçambiqueCaboverdeGuinéBissauGuinéEquatorialSãotoméeprincipeEUAfrançaparisgeorgiaportugalMacedôniabelarusRússiapaquistãoIrãCoreiaEgipto #EUAfrançaparisgeorgiaportugalmacedoniabelarusrussiapaquistãoIrãnCoreiaEgiptoArabiasauditaEmiradosÁrabesunidosEtiópiaNigériaChinaIraqueZimbabuéÁfric #MacauGoaAngolaMoçambiqueCaboverdeGuinéBissauGuinéEquatorialSãotoméePrincipeEUAfrançaparisgeorgiaportugalmacedoniabelarusrussiapaquistãoIrãnCoreiaEgiptoAr #UzbequistãoLaosMauritâniaIêmemAfeganistãoMaldivasSomáliaArábiaSauditaIrãCoréiadoNorte #históriadaigrejaprimitiva #Igreja
- A REVELAÇÃO NOS PADRES DA IGREJA( OS CAPADÓCIOS)
O problema da revelação não preocupa os capadócios. Em seu horizonte o primeiro plano é ocupado pela trindade e pela cristologia, entretanto, a heresia de Eumônio oferece-lhes ocasião para apresentarem a doutrina tradicional. Os primeiros escritores > Justino, Irineu, Clemente de Alexandria, Orígenes > afirmavam que o conhecimento da essência divina está além das forças naturais do homem. Pelo fim do século quarto, Eumônio pretendia, pelo contrário, que a essência divina uma vez revelada, já não apresentaria nenhum mistério. Diante desse erro, Gregório de Nazianzo, Basílio, Gregório de Nissa insistem na imcompreensibilidade da essência divina, misteriosa mesmo para a inteligência iluminada pela revelação. A partir do mundo visível, pode o homem chegar a conhecer a Deus, sua existência e seus atributos, mas a essência mesma de Deus continua sendo trevas que não se podem penetrar totalmente. 1- são Basílio São Basílio ensina que somente o filho e o espírito santo conhecem intimamente o pai. Mesmos as testemunhas de Deus que receberam suas confidências, Davi, Isaías, Paulo, confessavam que a essência divina é inacessível. O que sabemos dos segredos se Deus, o sabemos pelo Cristo que nos faz conhecer o pai. “Aos que estão presos sob as trevas da ignorância, ele os ilumina: é por isso a luz verdadeira. Ele é a verdade. Dele, que é o mestre, recebemos uma “doutrina necessária e salutar”, que se deve guardar integra, à qual nos devemos agarrar. Essa doutrina se encontra na escritura, que é a palavra de verdade e na tradição oral, autorizada e garantida pela igreja. A São Basílio porém, mais do que o dom da doutrina revelada, interessa sua plena assimilação e frutificação na alma por uma iluminação da gnose. Gnose que é um elemento essencial da assimilação progressiva a Deus, da divinização do cristão. É um conhecimento superior de Deus, sob a influência do espírito santo. É de modo INTEIRAMENTE INTELECTUAL que Basílio entende a ação santificadora do espírito santo. Ele deifica iluminando, revelando, fazendo a alma participar de sua própria luz. Irradia sua luz na alma que assim se torna mais transparente e espiritual, mais penetrante, podemos chegar a uma inteligência maior das coisas divinas. Tal gnose não é privilégio de alguns iniciados, destina-se a todos os batizados. Pouco a pouco o espírito de verdade, de sabedoria, manifesta-lhes no Cristo a glória do filho vindo do pai. Sob a luz irradiante do espírito, a inteligência ergue-se, pelo filho, até ao pai, penetrando cada vez mais nos mistérios divinos. O espírito conhece as as profundezas de Deus e dele recebe a criatura a revelação dos mistérios. SÃO GREGÓRIO DE NISSA Como são Basílio, Gregório de Nissa insiste, contra Eumônio, na inacessibilidade da essência divina. Deve-se, contudo, distinguir entre conhecimento de Deus autor do mundo e o de sua essência. Gregório compara o universo a uma obra que permite reconhecer não a natureza, mas a existência e a arte do artifície. “Olhando a ordem da criação, podemos fazer uma idéia, não dá essência, mas da sabedoria de quem tudo dez sabiamente….; O invisível por natureza torna-se visível por sua atividade que algo nos manifesta acerca de sua natureza. É, pois, um conhecimento analógico de Deus a partir das perfeições visíveis de suas criaturas. Deus não apenas se deixa conhecer pela pregação silenciosa do universo, mas vem ao encontro do homem estabelecendo com ele uma comunicação pessoal. Tipo da testemunha das confidências de Deus no antigo testamento é Moisés. Foi “instruído….. Pelo ensinamento inefável de Deus”; foi iniciado nos segredos divinos; recebeu “o conhecimento dos mistérios ocultos”, os “mandamentos divinos”. Sobre a montanha santa, observa Gregório de Nissa, Moisés recebeu “pela palavra”, o mesmo ensinamento que lhe fora dado pelas trevas para que, penso eu, nossa fé nessa doutrina fosse garantida pelo testemunho da palavra divina”. “Os ensinamentos recebidos do mestre celeste “. Gregório nota muito bem que a doutrina revelada sobre a criação e a queda nos foi comunicada sob a forma de uma história. “Moisés narra mais como um historiador…. Apresentando-nos doutrina sob a forma de relatos”. Com o tempo, fez-se a palavra divina cada mais clara. Débil ainda, sob a lei e os profetas, brilha e ressoa na pregação do evangelho, levada pelo sopro do espírito santo até os confins da terra. No Cristo e nos apóstolos a revelação atinge seu auge. Com precisão Gregório descreve essa ação divina. Insistentemente repete que nossa fé é segura, instruídos e ensinados que fomos pelo próprio senhor “a fé dos cristãos….. não vem dos homens, nem pelos homens, nem pelos homens, mas por nosso senhor Jesus Cristo, que é o verbo de Deus, vida, luz e verdade, Deus e sabedoria, por sua própria natureza”. Encarnou-se o verbo para que os homens não mais se apoiassem nas suas próprias opiniões como se fossem verdades. “Certos de que Deus se manifestou na carne, acreditemos nesse único verdadeiro mistério de piedade, que nos foi transmitido pelo próprio verbo, que pessoalmente falou aos apóstolos”. Se “o verbo em pessoa nos dá um testemunho no evangelho”, devemos acreditar nele pois “que testemunha mais digna de fé que o próprio senhor poderemos encontrar? Muitas vezes Gregório de Nissa apresenta o idéia de revelação com o termo paulino de mistério, isto é, o segundo desde a eternidade oculto em Deus e manifestado pelo Cristo. É, como em são Paulo, o mistério da piedade” e o “mistério da economia da encarnação”. Mistério que diversamente dos mistérios pagãos, destina-se essencialmente a ser promulgado . Assim Pedro revela claramente a economia oculta do mistério. João é o arauto do mistério do conhecimento de Deus. O mistério, enquanto revelado, é essencialmente a boa nova, o “mistério evangélico”. Chega ao conhecimento dos homens pela palavra de Deus, a palavra do mistério, e os apóstolos são os “servidores do mistério”. No modo de falar de Gregório, a verdade trazida por Cristo aos homens é o ensinamento da religião, a doutrina nova, o evangelho, a doutrina de Deus, a graça do Evangelho, a doutrina do mistério, os ensinamentos revelados. Os capadócios, ao mesmo tempo que se opõe a Eumônio, reconhecem duplo caminho de acesso no conhecimento da fé. Por Cristo nos vem o conhecimento dos mistérios divinos. São Basílio vê no Cristo e no seu ensinamento a luz dos homens. Insiste, como Clemente de Alexandria, no movimento de frutificação que a adesão da fé inicia na alma. Sob a iluminação do espírito santo, a alma penetra mais nos mistérios do filho e do pai. Gregório de Nissa vê na revelação a iniciativa benévola de Deus que confia seus segredos a suas testemunhas, os profetas e os apóstolos, e por seu intermédio, à humanidade. No Cristo e no evangelho culmina a revelação. Então é o próprio verbo que testemunha e nos introduz nos segredos divinos. Aos apóstolos compete a missão de proclamar o mistério de piedade como uma Boa nova. SÃO JOÃO CHRISOSTOMOS Na esteira de são Basílio, Gregório de Nissa e Cirillo de Jerusalém, são João Crisóstomo, escrevendo contra os anomeus, repete que Deus, mesmo depois da revelação, continua o Deus oculto e incompreensível. Fala, porém de forma mais pastoral. Deus é invisível, inenarrável, inescrutável, inacessível, incompreensível, irrepresentável: será para sempre o abismo, a escuridão. É radical essa imcompreensibilidade. Atinge todas as criaturas: o salmista, Isaías, Abraão, Moisés, os anjos. Inacessível não é apenas a essência divina, mas também sua presença no mundo, ou seja, o ministério de seus caminhos, de seus desígnios e de sua realização, tão impenetrável quanto sua transcendência quando os profetas afirmam ter visto a Deus, não viram senão sinais figurativos, na medida de sua fraqueza humana. Antes o incompreensível, deve o homem reconhecer que ele nada sabe, a menos que pretendesse poder chegar a um conhecimento completo da essência divina. O perfeito conhecimento de Deus é privilégio exclusivo do filho e do espírito( Hom. 15,1;59,98). Podem penetrar o próprio Deus apenas o espírito de verdade “que perscruta as profundezas de Deus” ( 1cor.2,10) e o filho unigênito que vive no seio do pai, conhece-o exata, plena, e inteiramente( Hom. 15, 2:59, 98-100). Apesar de tudo, sabemos algo a respeito de Deus, pois ele falou aos homens ” por si mesmo no começo”, (Gen.1, Hom.2,2:53,27-28), depois “pelos profetas”, finalmente “pelo filho”, que “falou aos apóstolos e por eles a muitos” (Heb. 1, Hom. 1,1:63,15-16). Em Jesus Cristo nos é dado o conhecimento do mistério oculto aos povos e aos anjos. O que somente Deus conhecia, ele nos revelou em seu filho Jesus Cristo. Foi Deus, e não um homem que nos ensinou a fé cristã. A doutrina anunciada por Cristo contém um conjunto de verdades que a inteligência humana não poderia nem atingir nem suspeitar. Mesmo após a revelação continuam impenetráveis os mistérios. Os profetas e os apóstolos que receberam a revelação dos segredos divinos proclamam, apesar de tudo, sua sabedoria incompreensível. Ante a imensidade de Deus, o homem é tomado pela admiração, pelo estupor como Zacarias, tremem os anjos num terror sagrado. Ante a santidade divina, a criatura adora, glorifica e se cala. Ante Deus que fala ou se revela, presta a homenagem da fé. Assim foi com Abraão, a seu exemplo, quando Deus fala, o homem deve apresentar-lhe um espírito disponível e desembaraçado de toda sabedoria profana; na fé, acolher as palavras divinas. “Quando Deus fala, ou quando faz milagres, devemos crer e obedecer”. S. João Crisóstomo não proíbe ao cristão aprofundar sua fé; recusa as especulações racionalistas. Se Deus fala, deve o homem conformar sua vida aos ensinamentos divinos. E, uma vez que Deus nos fala por seu filho, vivamos de uma forma que seja digna de tão grande honra. Seria ridículo, que dignando-se Jesus Cristo falar-nos por si mesmo e não mais por seus servos, não fizéssemos mais que aqueles que nos precederam. Tiveram Moisés por mestre, e nós temos por doutor o mestre de Moisés.. Jesus não nos trouxe uma doutrina celeste senão para que ao céu elevássemos o nosso pensamento e para que imitássemos nosso doutor, à medida de nossas forças e capacidades”. Os profetas, que reconhecem a Jesus Cristo antes mesmo de sua encarnação, que souberam e anunciaram que ele deveria vir para entre os homens(Jo. Hom. 8,1;59,66), em favor dele prestaram seu testemunho que a escritura conserva. Assim também os apóstolos são testemunhas do cristo, mas do cristo entre nós. Viram e ouviram o Cristo desde o começo, comeram e beberam em sua companhia, também eles testemunham o que viram e ouviram. Instrui-os Cristo, confiou-lhes seus segredos, comunicou-lhes sua doutrina. É missão deles divulgar no universo a doutrina que de Cristo receberam. O que anunciam é a palavra viva do cristo, o evangelho, a boa nova, “isto é, a libertação das penas, o perdão dos pecados, a justiça, a santificação, a redenção, a adoção dos filhos de Deus, a herança de seu reino e a glória de nos tornarmos irmãos de seu filho único” ( mt. Hom. 1, 1:57-15). Se todos os atos dos filhos tem por finalidade salvar o homem, podemos dizer que o tema do evangelho é o Cristo e a economia da salvação pela cruz. Numa palavra: É a história sagrada ou “a palavra da cruz”(Mt. Hom. 1,2:57,16). Os apóstolos, meros ministros do evangelho, transmitiram-no em sua pureza integral. Sua doutrina conserva-se, sem aliterações, na escritura é na tradição da igreja. São João Crisóstomo nada nos apresenta de sistemático sobre a revelação. Refutando os anomeus e nas suas homilias sobre a escritura tem, ocasião, se não de explicar, pelo menos de afirmar é descrever a revelação. Contra os anomeus insiste na imcompreensibilidade de Deus. Só o filho e o espírito santo conhecem perfeitamente a Deus. O que deles sabemos, nos vem pelos profetas e principalmente pelo Cristo, o filho do pai que veio trazer aos homens o conhecimento da economia salvífica oculta aos anjos e as nações. Anunciada por Cristo a boa-nova da salvação, os apóstolos, suas testemunhas, receberam a missão de pregá-la e transmiti-la à igreja. Os homens são convidados a dar resposta à mensagem de Cristo, crendo e conformando sua vida à doutrina ouvida. #MacauGoaAngolaMoçambiqueCaboverdeGuinéBissauGuinéEquatorialSãotoméeprincipeEUAfrançaparisgeorgiaportugalMacedôniabelarusRússiapaquistãoIrãCoreiaEgipto #Patrística #EUAfrançaparisgeorgiaportugalmacedoniabelarusrussiapaquistãoIrãnCoreiaEgiptoArabiasauditaEmiradosÁrabesunidosEtiópiaNigériaChinaIraqueZimbabuéÁfric #MacauGoaAngolaMoçambiqueCaboverdeGuinéBissauGuinéEquatorialSãotoméePrincipeEUAfrançaparisgeorgiaportugalmacedoniabelarusrussiapaquistãoIrãnCoreiaEgiptoAr #desenvolvimentodoutrinal #históriadaigrejaprimitiva
- Terra Plana Bíblica (?) Cosmologia: Díalogo com ateu
A seguir um diálogo preliminar com Matthew Green: um ateu de 28 anos e ex-cristão protestante que se preocupou com a apologética e considerou o ministério (suas palavras estarão em azul). Eu dei uma olhada no blog dele, Debunking Christianity, onde eu fiquei por alí um pouco, analisando seus textos. Eu desejava fazer mais “apologética contraateista” há algum tempo (tendo já feito bastante no passado, tanto como apologista protestante quanto católico). Matthew escreveu uma visão geral, “Meu caso contra o cristianismo”: em que ele deu a seguinte razão como uma de seus várias, para abandonar o cristianismo: Eu acredito que a Bíblia ensina uma cosmologia geocêntrica de terra plana e que isso foi invalidado pela cosmologia moderna. Na verdade, acredito que uma das principais razões pelas quais o cristianismo sobrevive hoje é por causa do Galileu. Foi o Galileu, eu acredito, que sugeriu que a Bíblia fosse entendida como tendo uma “linguagem de aparência”. Eu acredito que Martinho Lutero foi justificado em condenar o heliocentrismo por motivos bíblicos. Minha resposta segue: Em que passagens da Bíblia você baseia essa visão? Uma terra plana e geocentrismo foram derrubados, mas não a Bíblia, porque nunca pretendeu ensinar a cosmologia científica para começar. É uma visão de mundo pré-científica. Os hebreus antigos não eram conhecidos pela ciência, a última vez que chequei. Esses eram os gregos. Então você diz que o cristianismo sobreviveu porque o Galileo disse isso? Ele falou a verdade. Então: 1) O cristianismo sobreviveu porque Galileu mentiu e a Bíblia realmente não se comunicava em termos fenomenológicos, mas deveria, e o cristianismo sobreviveu até os tempos modernos com um documento ridículo (fazendo todos nós cristãos em vigor, tolos, que o aceitam como inspirado). ou: 2) O cristianismo sobreviveu porque Galileu disse a verdade sobre a perspectiva cosmológica da Bíblia (ou sua falta), o que colocaria a mentira em sua própria afirmação Quero ver as passagens que você apresentou para apoiar isso, e (o mais importante) em que base hermenêutica e exegética você os interpreta como você faz. Certamente, você deve ter um raciocínio elaborado, já que você usa esse aspecto como uma razão fundamental para sua rejeição da Bíblia e do cristianismo. Em qualquer caso, Galileu certamente não foi o primeiro a descobrir que a Bíblia fala fenomenologicamente. Tenho certeza de que alguém poderia encontrar sentimentos semelhantes em St. Agostinho, etc. Nem foi Galileu (um católico fiel) a máquina racional perfeitamente científica que ele é feito por críticos do cristianismo hoje. Eu fiz algumas pesquisas sobre ele recentemente. Ele sustentou que todo o universo girava em torno do sol em órbitas circulares (não elípticas), e que as marés eram causadas pela rotação da Terra. E ele era bastante dogmático sobre sua teoria, enquanto que St. Roberto Bellarmino, que estava diretamente envolvido na controvérsia, deixou claro que o heliocentrismo não era condenado irreversivelmente, e também que era uma teoria ainda não comprovada e portanto não era um fato inatacável. O Filósofo da ciência Thomas Kuhn observou que Bellarmino tinha a visão superior de como as hipóteses científicas funcionavam. Em seu livro, The Copernican Revolution, depois de comentar algumas pessoas que se recusaram a olhar através do telescópio de Galileu, Kuhn escreveu: A maioria dos adversários de Galileu se comportavam de forma mais racional. Como Bellarmino, eles concordavam que os fenômenos estavam no céu, mas negavam que eles provavam as afirmações de Galileu. Nisso, é claro, eles estavam bastante certos. Embora o telescópio tenha argumentado muito, não provava nada. (New York: Random House / Vintage Books, 1957, p. 226) O biógrafo de Galileu, Giorgio de Santillana, afirmou que “É bem conhecido há um bom tempo que uma grande parte dos intelectuais da igreja estava do lado de Galileu, enquanto a oposição mais clara a ele vieram de idéias seculares” (The Crime of Galileo, University of Chicago Press, 1955, xii-xiii). A verdade é sempre mais estranha e mais interessante do que a ficção, não é? Além disso, Galileu era imerso na astrologia. Veja o meu artigo: Crônicas de “Ciência vs. Religião”: aceitação simultânea da astrologia pelos astrónomos dos séculos XVI e XVII. Kepler (luterano) também foi fortemente imerso em astrologia e Newton (Ariano, não trinitário) ficou encantado com a alquimia. Olhei sua resposta aqui. Eu realmente pretendo dar uma resposta maior no futuro próximo, possivelmente hoje à noite ou amanhã. Queria salientar que primeiro pretendo passar por cada um desses argumentos e transformá-los em uma série de artigos. Assim, por exemplo, o meu argumento de que a Bíblia é externamente errante porque entra em conflito com uma terra velha e a luz das estrelas distantes é o assunto de uma série de artigos sobre o tema que desejo prosseguir com maior detalhe. Minha primeira série de artigos planejados está em errância interna. Se você gostaria de discutir a cosmologia e a ciência bíblicas em maior detalhe, posso reordenar minha lista original para que este possa ser o primeiro tópico de discussão em que podemos participar e, portanto, o primeiro para a série de artigos, se desejar. Eu não quero necessariamente entrar em um grande debate sobre a cosmologia. Estou bastante ocupado com outras coisas no momento. Eu só queria ver no que você baseou suas afirmações (as particulares que mencionei). Ah, Eu entendi. Eu estou em um barco semelhante já que ainda sou um graduadondo neste momento e estou tentando evitar longos debates a partir de agora. Ficarei feliz em fornecer referências Uma coisa de cada vez. Se você não pode defender suas afirmações relativamente menores, então é provável que você não possa defender seus grandes temas e raciocínios para rejeitar a Bíblia e o cristianismo, porque esses são apenas bons dependendo dos links mais fracos que os compõem. Quero inserir aqui uma palavra de cautela: o meu “caso” contra o cristianismo é tão bom quanto as minhas fontes de estudo e o meu pensamento até agora. Não pretendo que meus motivos sejam insuperáveis ou que possam resistir ao escrutínio. Eu nem sei se todos os meus argumentos são realmente sólidos. É por isso que continuei qualificando minhas observações como “eu acredito. . ” Não é que isso signifique necessariamente que eu sei de fato. Talvez eu esteja bastante errado em muitos desses pontos. Uma dose saudável de humildade intelectual. . . que muitos dos meus irmãos e irmãs cristãos poderiam ser tão abençoados. . . * * * A chave, na minha opinião, para a cosmologia bíblica é a linguagem fenomenológica e a natureza poética pré-científica da literatura hebraica. Se não entendermos isso (pelo menos em seus contornos gerais), então eles não têm esperança de entender a cosmologia bíblica (na medida em que se pode dizer que existe como um “campo” distinto) Eu concordo com você sobre a natureza poética da literatura hebraica, mas acho que você concordaria comigo, que também devemos ter cuidado com as críticas de gênero à Bíblia hebraica. Há algumas passagens que devem ser entendidas como narrações históricas, mesmo que a linguagem e os idiomas sejam poéticos em si mesmos. Exatamente, assim como em qualquer outra literatura. É quando padrões duplos são trazidos para a interpretação bíblica, inclinados para o fim do céptico, enquanto negligenciam os princípios hermenêuticos, que o problema surge e o erro carrega o dia. A propósito, não estou negando que exista “linguagem fenomenológica” na literatura hebraica. Desconfio das pessoas que tentam aplicar essa linguagem à Bíblia como um dispositivo apologético. Deve ser aplicado quando o texto o justificar. Se é o que você quer dizer, concordo de todo o coração. Se o gênero e o contexto exigem interpretações fenomenológicas, está bem, desde que sejam fornecidos indicadores textuais claros. Sim; precisamente. Mas, é claro, os significados das palavras e a latitude que podem ter em hebraico (ou grego no NT) também são fatores importantes. Eu simplesmente não gosto quando alguns cristãos tratam todos os textos como “fenomeológicos” apenas porque desejam evitar um potencial conflito entre as descobertas científicas. Isso é apenas jogar joguinhos e apelo especial. Estou falando de interpretação bíblica séria, educada e informada. Mas não subestime o poder das predisposições. Todos nós os temos, seja o que acreditemos. Eu admito que meu preconceito cristão me predispõe a chegar a conclusões “cristãs” sobre a Bíblia. Mas seus desvios ateus e objetivos gerais em debate com os cristãos levam você a estar predisposto a aceitar qualquer interpretação cética da Bíblia que seja útil. Eu já vi isso 100 vezes, e vi interpretações bíblicas de ateus e agnósticos bobas e tolas o suficiente para fazer a mais sombria e literária maquiagem fundamentalista enrijecida com desdém sobre a pura ignorância. Veja o meu artigo: Atheist Bible ”Scholarship & Exegesis”. Para mim – isso é apenas uma metodologia desonesta – especialmente se o gênero e o contexto não demandam e o texto não dá qualquer indicação de que tal seja o caso. Se, de verdade, isso é verdade em uma instância particular, você está certo. Meu ponto é que não é necessário fazer esse tipo de argumento especial. As contra-explicações céticas / liberais / ateístas são tão atrozes e tendenciosas, devido a um olhar extremamente crítico com a Bíblia, que geralmente são fáceis de refutar, apenas do senso comum e da aplicação da lógica básica, mesmo antes de você chegar à erudição bíblica séria. Nada pessoal . . . 🙂 * * * Estas são águas muito profundas (sem trocadilhos). Se você não estudou muito sobre a literatura bíblica em todos os seus tipos, sugiro (com toda sinceridade e tentando ser útil) que você evite fazer declarações grandiosas. Elas podem voltar para assombrá-lo. Presto atenção na sua sugestão. De fato, meu argumento depende unicamente das obras de estudiosos bíblicos que argumentam que a Bíblia realmente endossa esse tipo de cosmologia. Principalmente liberais, sem dúvida. Um dos truques mais antigos é utilizar estudiosos bíblicos que já não acreditam muito no que está na Bíblia, para reforçar o ceticismo. Isso é feito por cultos como Testemunhas de Jeová, muçulmanos e ateus, e também por protestantes anti-católicos, que citam católicos liberais para “refutar” o catolicismo ortodoxo. Mas esta metodologia é tão boba como um cristão citando outros cristãos (e não ateus) para dar uma descrição precisa do melhor pensamento ateu em qualquer tópico. É preciso citar os melhores defensores da visão contrária, não os piores proponentes, ou aqueles mal chegam a serem “proponentes”. Eu nunca tentaria jogar especialista como eu em uma área como essa sem as credenciais necessárias e estudo. Bom para você. Mas se você usa fontes liberais, então eu tenho o mesmo direito de suspeitar de um grave viés anti-bíblico, como você deve suspeitar de um forte viés pro bíblico quando cito pessoas que são cristãs e aceitam com fé e com razão o estado inspirado da Bíblia, como a revelação de Deus para o homem. Tendenciosidade funciona em ambos os sentidos. Eu admito o meu; Espero que meus oponentes façam o mesmo e não joguem o jogo que apenas um lado é tendencioso ou ignorante ou culpado de lógica quebrado ou mal pensamento. * * * Aqui estão algumas fontes úteis sobre o tema da cosmologia bíblica (eu não concordo necessariamente com tudo em cada artigo): Does the Bible Teach that the Earth is Flat? (J. P. Holding) Bible Passages on Cosmology: Interpretations by Conservative and Liberal Christians (Religious Tolerance.org) Biblical cosmology (Wikipedia) Read more at http://www.patheos.com/blogs/davearmstrong/2018/03/biblical-flat-earth-cosmology-dialogue-w-atheist.html#mGjPh1mb8pyYyFW3.99
- Da Pacem Domine
DA PACEM DOMINE – O Canto dos templários, traduzido do latim para o português. Muitas pessoas tendem a achar que a forma de cantar vem do árabe, por realmente se assemelhar. Entretanto, vale ressaltar que é um canto CATÓLICO com estilo BIZANTINO, muito popular também, por um período de tempo, no ocidente. Da Pacem Domine é uma das orações mais famosas dos templários e dos cruzados que temos à nossa disposição hoje em dia. Esses guerreiros celibatários, como bons católicos, rezavam várias outras orações que também podem ser encontradas aqui no canal traduzidas do latim para o português, como é o caso do Angelus, o Credo niceno-constantinopolitano e outros cânticos como Terra Tremuit e Crucem Sanctam Subiit, todos traduzidos aqui no canal. #canto #Igreja #Templários
- Catolicismo Primitivo – Introdução
Autor: José Miguel Arráiz, o 7.06.15 às 9:49 PM Fonte: http://infocatolica.com/blog/apologeticamundo.php Trad.: Carlos Martins Nabeto 1845 foi o ano em que John Henry Newman foi recebido na Igreja Católica após um longo processo de conversão. Tendo sido durante 20 anos presbítero da Igreja Anglicana, sustentava, de acordo com a teologia protestante, que a Igreja Católica era uma perversão da Igreja de Cristo, que se havia afastado do evangelho ao acrescentar doutrinas puramente humanas às reveladas por Deus. Como um membro destacado do Movimento de Oxford, afiliação da Alta Igreja Anglicana que buscava recuperar suas tradições mais antigas, iniciou um estudo profundo da Igreja primitiva e dos Padres da Igreja, levando-o a concluir que o Anglicanismo se encontrava, na verdade, na mesma posição que as heresias dos primeiros séculos: opondo-se à Igreja de Cristo. O ano de 2000 foi aquele em que Alex Jones foi recebido na Igreja Católica juntamente com uma parte daquela que fôra a congregação que liderou como pastor pentecostal. Em seu influente ministério exercido como pastor durante 40 anos, não poderia estar mais distante do Catolicismo: como muitos de seus contemporâneos evangélicos, ensinava que a Igreja Católica era uma seita, a “prostituta da Babilônia”, e o Papa, o “anticristo”. No entanto, em um tentativa de inovar, propôs à sua congregação experimentar um culto religioso do século I, para o qual passou a estudar a Igreja primitiva diretamente das suas fontes primárias: os próprios textos patrísticos. A medida que avançava em sua investigação, incorporava doutrinas e práticas que só poderiam ser descritas como “católicas”, coisa que passou a preocupar alguns membros da sua congregação, que o acusaram de ter-se contaminado de “Catolicismo”. Ainda que ele replicasse que a sua intenção era apenas incorporar doutrinas e práticas existentes no Cristianismo primitivo, eventualmente acabou aceitando sua aproximação com a Igreja Católica e concluiu que o Catolicismo continha em si mesmo a plenitude do Cristianismo. Estas duas conversões, separadas por quase dois séculos de diferença, não chegam nem a ser muito excepcionais. J. H. Newman não foi o único membro do Movimento de Oxford a terminar abraçando a fé católica. Entre outros convertidos destacados da época, pode-se mencionar: Robert Hugh Benson (filho do arcebispo de Canterbury e sacerdote anglicano, que depois da sua conversão foi ordenado sacerdote católico); Henry Edward Manning (que da mesma forma que J. H. Newman chegou a ser cardeal da Igreja Católica); Gerard Manley Hopkins (sacerdote jesuíta e renomado poeta); John Chapman, osb (sacerdote católico beneditino); Thomas William Allies (historiador da Igreja); Augusta Theodosia Drane (religiosa dominicana); Frederick William Faber (sacerdote católico); Lady Georgiana Fullerton (novelista inglesa); Robert Stephen Hawker (convertido ao Catolicismo em seu leito de morte); James Hope-Scott (advogado inglês); George Jackson Mivart (biólogo inglês); Henry Nutcombe Oxenham (historiador católico); Augustus Pugin (arquiteto inglês); Edward Caswall (compositor religioso); e William George Ward (teólogo e matemático inglês). Igualmente, na atualidade, junto com o pastor Alex Jones não têm sido poucos os casos de conversões célebres ao Catolicismo. Conhecidos são os casos de Graham Leonard (bispo anglicano); Michel Viot (bispo luterano francês); Scott Hann (pastor evangélico); Jimmy Akin (pastor evangélico); Marcus Grodi (pastor evangélico); Ulf Ekman (que foi o pastor luterano mais influente de Suécia); Fernando Casanova (pastor evangélico); Dave Armstrong, etc. Em todos estes casos um fator chave para a conversão foi a descoberta, através do estudo da Igreja primitiva, de que a Fé Católica contém a plenitude da Fé Cristã, e esta, mais que uma evolução transformista das doutrinas do Evangelho, são um desenvolvimento homogêneo do mesmo, da mesma maneira que uma semente se converte em árvore, embora continue sendo a mesma. Porém, o que pode haver nos textos cristãos primitivos que, ao ser descoberto por tantos irmãos cristãos de outras denominações, acaba por conduzi-los à fé católica? Se realmente a Igreja Católica é produto de uma corrupção que começou a partir do século IV, quando a Religião Católica chegou a ser a religião oficial do Império Romano (a hipótese aceita no protestantismo), o que pode ser encontrado nos textos cristãos dos primeiros séculos que ainda hoje identifica o Cristianismo primitivo com o Catolicismo? A seguinte série de artigos, intitulada “Catolicismo Primitivo”, pretenderá fazer o mesmo percurso que todos estes convertidos notáveis fizeram, começando pelos escritos dos Padres Apostólicos (aqueles que tiveram contato direto com os Apóstolos) até chegar aos Padres da Igreja dos primeiros séculos. Ênfase especial será dada àqueles textos que descrevem doutrinas controvertidas que os protestantes modernos rejeitam hoje na Igreja Católica, de modo a elucidar se representam um genuíno desenvolvimento da doutrina cristã. #catolicismo #introdu #Primitivo
- SACRILÉGIO NA CONFISSÃO – O CASO DE UMA ALMA CONDENADA POR ESTE PECADO
O Inferno e a importância da Confissão Exemplo de uma senhora que por muitos anos calou na Confissão um pecado desonesto. Refere Santo Afonso e mais particularmente o Padre Antônio Caroccio, que passaram pelo País em que vivia esta senhora, dois religiosos, e ela, que sempre esperava confessor forasteiro, rogou a um deles que a ouvisse em Confissão, e confessou-se. Logo que partiram os Padres, o companheiro disse ao confessor ter visto que, enquanto a senhora se confessava, saíam de sua boca muitas cobras e uma serpente enorme deixava ver fora sua cabeça, mas voltava de novo para dentro, e após ela, todas as que antes saíram. Suspeitando o confessor o que aquilo poderia significar, voltou à cidade e a casa daquela senhora, onde lhe disseram que ela, no momento de entrar na sala, morrera repentinamente. Por três dias seguidos jejuaram e oraram por ela, suplicando ao Senhor que lhes manifestasse aquele caso. Ao terceiro dia apareceu-lhes a infeliz senhora condenada e montada sobre um demônio, em figura de um dragão horrível com duas serpentes enroscadas ao pescoço, que a afogavam e lhe comiam os peitos, uma víbora na cabeça, dois sapos nos olhos, setas ardentes nas orelhas, chamas de fogo na boca e dois cães danados que lhe mordiam e lhe comiam as mãos; e dando um triste e espantoso gemido, disse : __ Eu sou a desventurada senhora que vossa Rvma. confessou há 3 dias. Conforme eu ia confessando, meus pecados saíam de minha boca e aquela serpente enorme, que o companheiro viu sair de minha cabeça e voltou depois para dentro, em figura dum pecado desonesto, que calei sempre por vergonha; quis confessá-lo com v. Rvma., mas também não me atrevi e por isso, voltou a entrar dentro, e com ele todos os mais que haviam saído. Cansado já Deus de tanto esperar-me, tirou-me repentinamente a vida e me precipitou no Inferno, onde sou atormentada pelos demônios em figura de horrendos animais. Ai! Que não há remédio para mim, senão tormentos e pena eterna! Ai das mulheres, acrescentou; porque muitas delas se condenam por 4 gêneros de pecados: por pecados de impureza, pelas galas e enfeites, por feitiçaria e por calar pecados nas Confissões. Os homens se condenam por toda a classe de pecados, mas as mulheres, principalmente por estes quatro pecados. Disto isto, abriu-se a terra e por ela entrou esta infeliz mulher, até o mais profundo do Inferno, onde padece e padecerá por toda a eternidade! [fonte: O caminho reto, de santo Antônio Maria Claret, pág. 99 e 100]
- SE EU NÃO FOSSE CATÓLICO – ARCEBISPO FULTON J. SHEEN
“Se eu não fosse Católico…” Se eu não fosse Católico e estivesse procurando a verdadeira Igreja no mundo de hoje, eu iria em busca da única Igreja que não se dá muito bem com o mundo. Em outras palavras, eu procuraria uma Igreja que o mundo odiasse. Minha razão para fazer isso seria que, se Cristo ainda está presente em qualquer uma das igrejas do mundo de hoje, Ele ainda deve ser odiado como o era quando estava na terra, vivendo na carne. Se você tiver que encontrar Cristo hoje, então procure uma Igreja que não se dá bem com o mundo. Procure por uma Igreja que é odiada pelo mundo como Cristo foi odiado pelo mundo. Procure pela Igreja que é acusada de estar desatualizada com os tempos modernos, como Nosso Senhor foi acusado de ser ignorante e nunca ter aprendido. Procure pela Igreja que os homens de hoje zombam e acusam de ser socialmente inferior, assim como zombaram de Nosso Senhor porque Ele veio de Nazaré. Procure pela Igreja, que é acusada de estar com o diabo, assim como Nosso Senhor foi acusado de estar possuído por Belzebu, príncipe dos demônios . Procure a Igreja que em tempos de intolerância (contra a sã doutrina,) os homens dizem que deve ser destruída em nome de Deus, do mesmo modo que os que crucificaram Cristo julgavam estar prestando serviço a Deus. Procure a Igreja que o mundo rejeita porque ela se proclama infalível, pois foi pela mesma razão que Pilatos rejeitou Cristo: por Ele ter se proclamado a si mesmo A VERDADE. Procure a Igreja que é rejeitada pelo mundo assim como Nosso Senhor foi rejeitado pelos homens. Procure a Igreja que em meio às confusões de opiniões conflitantes, seus membros a amam do mesmo modo como amam a Cristo e respeitem a sua voz como a voz do seu Fundador. E então você começará a suspeitar que se essa Igreja é impopular com o espírito do mundo é porque ela não pertence a esse mundo e uma vez que pertence a outro mundo, ela será infinitamente amada e infinitamente odiada como foi o próprio Cristo. Pois só aquilo que é de origem divina pode ser infinitamente odiado e infinitamente amado. Portanto, essa Igreja é divina .” Arcebispo Fulton J. Sheen, Radio Replies, Vol. 1, p IX, Rumble & Carty, Tan Publishing
- A Questão de Galileu.
A Questão de Galileu. Por Mons. Pedro Gaston Ribeiro da Veiga, Hospital da Ordem III dos Mínimos de S. Francisco de Paula, Rio de Janeiro. 1945. É bem notório quanto os inimigos da Igreja têm, contra ela, procurado explorar em todos os sentidos esta célebre questão de Galileu. Seu êxito pelo passado já tem sido grande, e, lamentavelmente, ainda prossegue em nossos dias, graças à ignorância e à má fé tão comuns ao gênero humano. Esforçam-se eles por fazer acreditar que, pelo menos então, sofreu a Igreja um golpe mortal em sua infalibilidade, porquanto definiu como dogma de fé, isto é, como uma verdade da realidade objetiva, verdade teorética, um erro crasso: que o sistema planetário heliocêntrico, defendido por Galileu, era falso e contrário às Escrituras Sagradas. A distinção, tão clara e justa, entre uma definição ex cathedra e uma definição com aprovação in forma communi, ou mesmo in forma specifica, mas não ex cathedra, fingem eles não a compreender, e tacham-na de questão bizantina. Assim, pois, se for possível demonstrar que nesta questão de Galileu não houve, realmente, da parte da Igreja, erro de nenhuma espécie, ficarão de certo privados seus implacáveis adversários de qualquer pretexto ou falso fundamento para ulteriores acusações. Após longo e aprofundado estudo do assunto[1], pareceu-me perfeitamente realizável esse desideratum, baseando-me, aliás, em argumentos de valor incontestável. Bem sei não ser esta, hoje, a comum opinião dos próprios apologetas católicos, os quais, embora demonstrem de modo perfeitamente cabal não se tratar aqui de uma definição ex cathedra e, por conseguinte, de nenhum modo estar em jogo a infalibilidade da Igreja, concedem entretanto que houve grave erro da parte das duas Congregações eclesiásticas, do Índex e do S. Ofício, que trataram da questão, e bem assim dos dois Sumos Pontífices, Paulo X e Urbano VIII, que aprovaram suas determinações. Creio que esta atitude dos apologetas católicos se deve, em grande parte, ao anacronismo de se deixarem eles por demais influenciar pelo ambiente dos nossos dias, antes que pelo ambiente coevo, como seria para desejar. A questão de Galileu tem duas fases bem distintas, mas entre si concatenadas. A cada uma delas corresponde um decreto da Igreja: o primeiro da Congregação do Índex, e o segundo da Congregação do Santo Ofício. Primeira Fase: Decreto da Congregação do Índex. Este decreto, depois de haver proibido a leitura de cinco obras de direito e teologia de autores protestantes, contém o seguinte parágrafo: “E por isso que veio ao conhecimento da Sagrada Congregação que a falsa doutrina de Pitágoras, de todo contrária à Divina Escritura, com respeito ao movimento da Terra e à imobilidade do Sol, que Nicolau Copérnico em sua obra sobre as revoluções dos globos celestes, e Diogo de Zúñica em sua obra sobre Jé, ensinaram, já se tem espalhado e foi aceita por muitas pessoas, como se conclui da carta de um Padre Carmelita cujo título é “Carta do Pe. Mestre P. A. Foscarini, Carmelita, sobre a opinião dos pitagorianos e de Copérnico…”, impressa em Nápoles por Lazzaro Scariggi, em 1615, na qual o dito Padre se esforça por mostrar que a dita doutrina está de acordo com a verdade e não é absolutamente oposta à Escritura, a Congregação, a fim de que esta opinião não mais se difunda daqui por diante, em detrimento da verdade católica, é de aviso que se suspendam as duas obras de Copérnico e Diogo de Zúñica até que sejam corrigidas, de proibir inteiramente o livro do Pe. Foscarini, e de proibir igualmente todos os livros que ensinam a mesma doutrina, como pelo presente decreto ela os proíbe, todas e cada um, os condena e os suspende.” (Os grifos são meus). Pelo teor deste decreto percebe-se que a Congregação do Índex trata Galileu com a maior benevolência, omitindo aí seu nome e não mencionando nenhuma de suas obras, as quais podem estar somente compreendidas na condenação geral. O decreto é de certo puramente disciplinar, por isso que tem por único fim condenar ao Índex as obras, em geral, dos autores que defendem a doutrina de Pitágoras e, em particular, as obras de Copérnico e Zúñica até que sejam corrigidas (nas passagens em que parecem afirmar, não como hipótese, mas como tese, a doutrina heliocêntrica) e, finalmente, proibir completamente o livro do Pe. Foscarini, que, além, de defender aquela teoria, procura interpretar em sentido figurado e não no sentido literal as passagens da Escritura que literalmente lhe são contrárias. É bem que se note, além disso, não ter a Congregação do Índex nenhuma competência para tratar de matéria doutrinal, o que é da exclusiva alçada da Congregação do Santo Ofício. Entretanto, em seus considerandos, que propriamente não fazem parte do decreto, a Congregação do Índex afirma ser falsa e de todo contrária às Escrituras a doutrina de Pitágoras. Devemos, assim, demonstrar que, mesmo nesses seus considerandos, não afirma erro de nenhuma espécie. Primeiro Argumento. Por parte da Igreja a razão primordial da questão de Galileu é a defesa das Sagradas Escrituras, entrando, aí, apenas acidentalmente e em plano secundário, a condenação da doutrina heliocêntrica. De fato, a magna devastação da fé, então já em pleno desenvolvimento na consciência cristã dos povos do norte da Europa – conseqüência lógica do “livre exame” das Escrituras proposto pela Reforma de Lutero, em virtude do qual a razão individual é o supremo árbitro da palavra divina – não podia deixar de suscitar por aquele tempo, em Roma, uma forte reação que correspondesse ao mal gravíssimo a evitar, por parte dos eclesiásticos e das Congregações Romanas responsáveis pela defesa da fé. Convém também lembrar que, muito antes de Galileu, dois eclesiásticos, o Pe. Nicolau de Cusa, mais tarde Cardeal, e o Cônego Copérnico, haviam defendido publicamente a teoria heliocêntrica de Pitágoras, sem que sofressem por isso nenhum constrangimento por parte da Igreja. A obra de Copérnico fora até dedicada ao Sumo Pontífice. A razão dessa tolerância por parte da Igreja é que ambos se limitaram a tratar da questão sob o exclusivo ponto de vista científico, sem que introduzissem aí considerações acerca das Sagradas Escrituras. Galileu, porém, – seguindo os passos dos Padres Zúñica e Foscarini – não só tentava defender cientificamente a doutrina heliocêntrica, como ardorosamente se esforçava por interpretar as Sagradas Escrituras em sentido figurado, naquelas passagens em que o sentido literal lhe era contrário. De nada valeram nesse particular os conselhos dados por seus amigos, principalmente eclesiásticos. OMaestro do Sacro Palácio, Padre Ricardi, que nesta questão era neutro entre Copérnico e Ptolomeu, escrevia-lhe a propósito: “Não é esta questão matéria de fé e é necessário não misturar com ela as Sagradas Escrituras.” (Op. Gal. t. VI, p. 296.) Mons. J. B, Ciampoli, mais tarde secretários dos Breves de Urbano VIII, também lhe escrevia: “O Cardeal Barberini (depois Papa Urbano VIII) me dizia ontem de tarde quando o visitei que os negócios do céu não estão aqui em jogo, que não se deve tomar partido por Copérnico ou Ptolomeu, mas antes de tudo permanecer bem dentro dos limites onde a física e a astronomia se devem limitar. Eis o ponto verdadeiro da questão.” (Apud Chasles, Galileo Galilei, p. 6.) Mons. Dini, grande amigo de Galileu, em carta de 7-3-1615 dizia que o Pe. Grienberger, S. J., astrônomo, havia manifestado a Galileu que lhe seria mais agradável “ouvir primeiramente a exposição de suas provas científicas e somente depois entrar na questão das Sagradas Escrituras.” (Op. Gal. XII, p. 151.) O mesmo Mons. Dini em carta de 2-5-1615 lhe escreve: “Um ponto é bem claro: pode-se escrever como matemático e em forma de hipótese, como se diz tenha feito Copérnico; pode-se escrever livremente contanto que não se entre na sacristia.” (Op. Gal. VIII, 374-375). O Marquês de Nicolini, embaixador em Roma do Duque de Toscana (que era grande amigo de Galileu), lhe escreve: “Galileu se obstina; ele quer absolutamente fazer-se teólogo e resiste aos amigos que o aconselham.” (Apud Chasles, op. cit., p. 163) Esta verdadeira obstinação de Galileu de intrometer na questão científica da teoria heliocêntrica foi justamente o que levou a Sagrada Congregação do Índex a condenar aquela teoria, e foi também sem dúvida nenhuma a sua ruína. A comum tradição dos Santos Padres era favorável ao sentido literal das passagens em questão, e o Concílio de Trento estabelecera, não havia muito, não fosse permitido que alguém “contra unanimem consensum Patrum ipsam Scripturam Sacram interpretari audeat.” (Sess. IV.) Segundo Argumento.Toda a tradição científica de muitos séculos, bem como os astrônomos contemporâneos, inclusive o de maior renome, então, Tycho Brahe, tinham por verdadeira e ensinavam a teoria de Ptolomeu ou pouco diversa, em que a Terra sempre ocupava o centro do mundo, porém o Sol girava em torno dela.[2] A Ugreja não podia desse modo ir de encontro a toda a ciência do seu tempo sem que se apresentasse um argumento decisivo, concludente, em favor da teoria heliocêntrica. Ora, Galileu, como veremos em seguida, não conseguiu jamais propor nenhum argumento naquelas condições. Aliás, tal argumento decisivo e concludente só foi descoberto um século depois, em 1725, por Bradley, com a aberração da luz solar, confirmado nos meados do século XIX (portanto dois séculos depois) com a nova descoberta da paralaxe das estrelas mais próximas por Bessel. Terceiro Argumento. Galileu não somente não propôs nenhum argumento decisivo, concludente, em favor da doutrina heliocêntrica, como, pelo contrário, seu argumento favorito, seu argumento Aquiles, no qual ele próprio dizia pôr sua maior confiança – o argumento dos mares – foi-lhe demonstrado de todo errôneo, falso, pelos astrônomos aos quais fora pela Igreja submetido a exame. O próprio Papa Urbano VIII, grande estudioso de astronomia, fez ver a Galileu que o fenômeno das marés era devido à influência da Lua sobre os mares terrenos e não pelo movimento da Terra como queria Galileu. Quem disso nos faz ciente é o próprio Galileu em seus Diálogos, aliás procurando aí ridicularizar aquela opinião do Papa. Este “argumento das marés”, proposto com tanta ênfase por Galileu, tornou-se de todo contraproducente, por isso que fez suscitar veemente desconfiança e forte opinião, até entre seus partidários, de não ser possível em absoluto encontrar argumento decisivo em favor da teoria heliocêntrica, visto como o próprio grande talento de Galileu (coisa que ninguém lhe negava) não havia podido encontrar melhor argumento do que esse que era certamente falso. O grande matemático e físico Joseph Bertrand, secretário perpétuo da “Academia das Ciências” de Paris, grande admirador de Galileu (em cuja defesa chega a injuriar o Papa Urbano VIII), não pode deixar de confessar que o argumento das marés de Galileu “não resiste a um exame atento e sério. Galileu, entretanto, o contava no número das provas decisivas do movimento da Terra e, mau grado a habilidade que ele põe em defendê-lo, devemos lastimar que ele lhe tenha concedido um lugar num dos seus mais excelente escritos.” (Les Fondateurs”, p. 227.) Laplace, grande astrônomo moderno, afirma que as provas de Galileu são apenas analogias. (Essai sur lês Probabilités, p. 247.) Arago, célebre físico francês, tratando do argumento das marés, diz ser “pouco digno do autor a quem são devidos os verdadeiros princípios da mecânica moderna… O menor dos inconvenientes de uma tal explicação é que ela não satisfaz a nenhuma das leis experimentais do fenômeno.” (Notices biographiques. III, p. 285.) Quarto Argumento. Condenando a Igreja como falsa e contrária às Escrituras a doutrina heliocêntrica, não quis afirmar com issouma verdade teorética, de realidade objetiva, e muito menos um dogma, como querem seus inimigos; mas a condenou, simplesmente, como uma verdade de realidade subjetiva, na ordem prática das consciências cristãs. Eis aqui o fulcro de toda a questão de Galileu. De fato, ainda que ignorássemos não ter a Congregação do Índex nenhuma competência para tratar ou definir assuntos doutrinários, toda manifesta atitude da Igreja, por essa ocasião e nos anos subseqüentes, vem-nos com meridiana evidência proclamar aquela verdade. Assim é que ela condena ao Índex a obra de Copérnico tão-somente até que seja corrigida – donec corrigatur – isto é, até que se faça a correção de algumas breves passagens em que o autor parece admitir como tese e não como hipótese a teoria heliocêntrica. E apenas quatro anos mais tarde, feitas essas correções, a obra é licenciada por decreto da Congregação do Índex de 15-5-1620 e a Igreja permite daí por diante que se ensine como hipótese a teoria heliocêntrica. Ora, se essa teoria houvesse sido declarada falsa e contrária às Escrituras pela Congregação do Índex como uma verdade teorética, de realidade objetiva, quase que um dogma, de certo nem mesmo como simples hipótese poderia a Igreja tolerar o seu público ensinamento. Isto é claríssimo, de meridiana evidência. O Cardeal S. Belarmino, a alma, pode-se dizer, do primeiro processo de Galileu, a 12 de abril de 1615 escrevia ao Pe. Foscarini: “Eu digo que se houvesse uma verdadeira demonstração que provasse ser o Sol o centro do mundo e a Terra no terceiro céu, que o Sol não gira ao redor da Terra, mas esta é que gira em torno do Sol, então seria necessária muita circunspecção na interpretação das passagens da Escritura que parecem contrárias, e dizer que nós não as entendemos, do que declarar falso o que seria demonstrado. Mas eu não crerei numa tal demonstração até que me seja apresentada: provar que se salvam as aparências, supondo o Sol no centro do mundo e a Terra no terceiro céu, não é a mesma coisa que provar que verdadeiramente o Sol está no centro e a Terra no céu. Eu creio possível a primeira demonstração, mas duvido muito da segunda. Em caso de dúvida não se deve abandonar a interpretação da Escritura que nos foi transmitida pelos Santos Padres.” (Berti, Copernico e le Vicende del Sistema Copernicano, Roma, 1875, p. 121.) De conformidade com estas palavras do Cardeal S. Berlarmino, torna-se claro que não somente havia dúvida da parte da Congregação sobre a matéria em apreço, como no caso de ser apresentado um argumento decisivo em favor da teoria heliocêntrica, seria mister dar “nova interpretação às passagens da Escritura que lhe pareciam contrárias, antes que declarar falso o que houver sido demonstrado.” E o Pe. Grassi, S. J., que era íntimo do Cardeal S. Belarmino e sabia por conseguinte seu íntimo pensamento, havia dito a Guiducci a propósito das idéias de Galileu: “Quando se encontrar uma demonstração deste movimento, convirá interpretar a Escritura de modo diferente do que se fez: eis a opinião do Cardeal S. Belarmino.” (Op. Gal. IX, p. 65.) Se, pois, na opinião do Cardeal S. Belarmino, que tamanha preponderância exerceu na primeira fase da questão, a decisão era reformável, claro está que essa decisão não importava definição de ordem teorética, com realidade objetiva e muito menos um dogma, como afirmam os inimigos da Igreja. O teólogo contemporâneo Caramuel ensina positivamente que o decreto dos Cardeais é reformável, “pois que – diz ele – no dia em que se descobrir uma prova apodíctica do movimento da Terra, os Cardeais poderão então permitir, por este motivo, que se expliquem as palavras do capítulo X de Josué como expressões metafóricas, destinadas a exprimir as aparências.” (Theol. Mor. Fund. L. I, Fund. V. n. 272.) O Pe. Riccioli, teólogo também contemporâneo, escreve: “Pois que não existe nenhuma decisão de fé emanada do Sumo Pontífice ou de um Concílio por Ele convocado e aprovado, nenhum decreto de uma Congregação, que trate deste sistema, pode obrigar-me a crer como verdade de fé que o Sol gire ao redor da Terra e a Terra seja imóvel.” (Almagestum Novum, t. I, p. 52, Bolonha, 1651.) O Pe. Campanella, grande amiga de Galileu, não sofreu constrangimento para publicar, em 1637, em Francfort, sua obra cujo título era: “La Cité du Soleil et Défense du Système de Copernico non contraire à l’Écriture.” O Papa Clemente VII, em companhia de Cardeais e outras pessoas gradas, assistiu em 1533, nos jardins do Vaticano, a uma preleção do Chanceler João Alberto Widmanstadt em defesa da doutrina heliocêntrica. Como testemunho do seu agrado o Papa lhe ofertou, nessa ocasião, o manuscrito da obra grega de Alexandre de Afrodísio Do Sentido e do Sensível, o qual ainda hoje se conserva em Munique, e nela o própria Widmanstadt anotou: “Clemens VII hunc codicem mihi dono dedit anno 1533, Romae, postquem prasesentibus Francisco Ursino, Jo. Salviati, cardinalibus, Jo. Petro, epíscopo Viterbiensi et Matheo Curtio, medico physico, in hortis Vaticanis, copernicam de motu Terrae sententiam explicavi. Johannes Albertus Widmanstadius, cognomento Lucretius, S.S. D.N. secretarius domesticus et familiaris.” (Cit. por Aubanel, Galilée et l’Église, p. 83.) À vista destes documentos de valor irrefragável, além de outros que omito por amor à brevidade, nos quais fica plenamente evidenciado não somente a nímia tolerância da Igreja para com uma doutrina por Ela declarada falsa e de todo contrária às Escrituras – e isso logo após a sua condenação –, mas ainda e principalmente a sua disposição de revogá-la logo que aparecesse um decisivo argumento em seu favor, tudo isso nos obriga a firmar a convicção que a teoria copernicana não foi condenada então como uma verdade teorética, de realidade objetiva, mas apenas como uma verdade de realidade subjetiva na ordem prática das consciências católicas. Desse modo o católico que afirmasse então tal doutrina, não possuindo argumento decisivo em seu favor, – indo assim de encontro à comum interpretação das Escrituras pelos Santos Padres – cometeria pecado e, neste caso, certamente pecado de heresia. Nem é para admirar que possa haver pecado subjetivo que o não seja objetivamente, pois bem sabemos, pela teologia, que pode dar-se pecado subjetivoque não seja objetivo, e, vice-versa, pecado objetivo que não seja subjetivo. A teoria copernicana era pois de todo contrária, praticamente, às Escrituras e por conseguinte não podia deixar de ser falsa, como declarou a Congregação do Índex. É mister notar-se, além disso, que no tempo de Galileu ainda se não achavam bem determinados, isto é, suficientemente precisos, os termos com que a Igreja define as proposições contrárias à fé. Justamente a questão de Galileu é que veio fazer com que se prestasse, daí por diante, maior atenção ao assunto. Entretanto, é bem significativo que o próprio Galileu, em carta a Mons. Cesi de 4-6-1624, dá o testemunho de que o Papa Urbano VIII houvera declarado que não era a intenção da Igreja condenar como herética a teoria copernicana, mas tão-somente como temerária. Eis as palavras de Galileu: “Por Sua Santidade foi respondido que a Santa Igreja não a havia condenado (a teoria copernicana) nem a condenaria como herética, mas tão-somente como temerária.” (Op. Gal. XIII, p. 182.) Mas que vem a ser uma proposição definida pela Igreja como temerária? Sem dúvida nenhuma ela não é condenada como herética, objetivamente; entretanto, se algum católico afirma-la, sem possuir uma prova evidente em seu favor, comete de certo pecado de heresia. Pode-se dizer, assim, que uma proposição temerária, ainda que não seja objetivamente herética, subjetivamente deve ser ela considerada como tal. O Papa Urbano VIII tinha, pois, toda a razão quando afirmou que a doutrina copernicana não havia sido realmente condenada pela Igreja como herética, mas apenas como temerária. Já em 1626 o Pe. Tanner, S. J., concluía, do decreto de 1616, que a doutrina condenada “já não podia mais, daí por diante, se ensinada com toda a segurança.” (Theol. Schol. II, disp. VI q. 4 ad 3.) Fica assim confirmado que a condenação da teoria heliocêntrica pela Congregação do Índex foi feita não como uma verdade de realidade objetiva, teorética, mas como verdade de realidade subjetiva, na ordem prática das consciências católicas. De modo que praticamente aquela teoria era falsa de todo e contrária às Escrituras. Não houve, pois, nenhum erro da parte da Congregação do Índex. No entanto, os consultores do Santo Ofício parece terem jogado a barra mais longe. Tendo-lhes sido dadas a examinar, a 19 de fevereiro de 1616, as duas proposições seguintes: 1.ª “O Sol é o centro do mundo e absolutamente imóvel, quanto a movimento local”, 2.ª “A Terra não é o centro do mundo nem imóvel, mas se move com movimento de rotação e translação”, responderam eles quanto à 1.ª: “Ser a dita proposição estulta e absurda em filosofia, e formalmente herética enquanto que contradiz expressamente sentenças da Sagrada Escritura em muitos lugares, de conformidade com o sentido próprio (literal) das palavras, e a exposição e sentido dos Santos Padres e teólogos doutores”; quanto à 2.ª: “Esta proposição receber a mesma censura em filosofia, e no que diz respeita à verdade teológica ser pelo menos errônea na fé.” Devemos agora demonstrar que nem mesmo estas censuras – que à primeira vista parecem exorbitar – contêm erro de nenhuma espécie. Com efeito, a primeira censura, em sua primeira parte diz ser estulto e absurdo em filosofia (isto é, debaixo tão-só do ponto de visa da razão natural) afirmar-se que o Sol é o centro do mundo e absolutamente imóvel. Ora, ninguém poderá negar ser isso uma verdade incontrastável, pois é sabido que o Sol não é imóvel, mas também ele se move com o duplo movimento de rotação em torno ao seu eixo, e o de translação na direção da constelação de Hércules, e por conseguinte não pode ele ser absolutamente o centro do universo. Verdade é que os consultores propriamente não se referiam a esses dois movimentos do Sol, que eles desconheciam, mas no entretanto negavam filosoficamente com todo o acerto a absoluta imobilidade do Sol, afirmado por Galileu. Quanto à 2.ª parte da 1.ª censura em que se diz ser a 1.ª proposição formalmente herética, por isso que contradiz expressamente passagens da Sagrada Escritura tomadas em seu sentido próprio, isto é, literal, e também porque contradiz a exposição e o sentido que às ditas passagens davam os Santos Padres e doutores da Igreja, isso é mera consequência lógica de tudo o que temos visto até aqui. De fato, já demonstramos que a doutrina heliocêntrica, na ordem prática das consciências católicas, era falsa e contrária às Escrituras. Ora, uma proposição falsa e contrária às Escrituras não pode deixar de ser formalmente herética. Ela é subjetivamente herética, ainda que o não seja objetivamente, de conformidade com o que antes já foi exposto. Quanto à censura da 2.ª proposição, os consultores declaram que em filosofia (sob o ponto de visa da simples razão natural) a ela compete a mesma censura da 1.ª proposição, isto é, ser estulta e absurda, enquanto afirma a Terra não ser o centro do mundo, nem imóvel, mas se mover com o duplo movimento de rotação e translação. Por outras palavras afirmam que é verdadeiro o sistema planetário de Ptolomeu e, por conseguinte, a teoria copernicana, que lhe é contrária e até contraditória, é estulta e absurda. Ora isso que, com os dados científicos modernos, não pode hoje deixar de ser considerado um erro crasso, sob as luzes da ciência do ambiente contemporâneo de Galileu, era uma verdade incontrastável. De fato, basta que recordemos o que se passa geralmente com as teorias físicas. Estabelecida uma teoria física que explique todos os fenômenos então conhecidos que lhe dizem respeito, ela é considerada e tida por verdadeira, enquanto não apareça algum novo fenômeno que não pode ser convenientemente por ela explicado. Vejamos, por exemplo, o que se tem passado com a teoria física da luz. Newton, com a teoria das emissões, explicou todos os fenômenos luminosos conhecidos em seu tempo. Era a teoria das emissões de Newton tida e considerada então como verdadeira. Mais tarde aparece o novo fenômeno da refração da luz, que a teoria de Newton não pôde explicar. Propôs então Foucault a teoria das ondas transversais, com a qual explicava ele os antigos e o novo fenômeno. A teoria das ondas transversais foi tida e considerada então como verdadeira e a teoria de Newton já não podia gozar mais dessa prerrogativa. Pois bem, em nossos dias, com o desenvolvimento dos estudos da relatividade de Einstein e seus discípulos, foi verificado que a teoria de Foucalt já não pôde corresponder satisfatoriamente a certos fenômenos observados de atração luminosa. Voltaram agora os sábios a propor de novo a teoria física das emissões de Newton, ainda que com certas modificações. Daqui se conclui que uma teoria física, antes que definitivamente seja estabelecida, isto é, seja provada com argumentos decisivos, concludentes, têm uma realidade puramente subjetiva: ela é verdadeira (isto é, exprime a verdade objetiva de modo relativo) enquanto não aparecer novo fenômeno que ela não pode explicar. Ora, no tempo de Galileu, a teoria planetária de Ptolomeu explicava todos, sem exceção, os fenômenos que lhe diziam respeito, até então conhecidos, e, assim, era considerada e tida por verdadeira por todos os astrônomos antigos e contemporâneos. Antes, pois, que se encontrasse um argumento decisivo, concludente, em favor da teoria de Copérnico, que lhe era contrária e até contraditória (uma afirmava que a Terra era imóvel e o Sol girava em torno dela; a outra, pelo contrário, afirmava que o Sol era imóvel e a Terra lhe girava em torno), dever-se-ia ter por verdadeira, certamente, a doutrina de Ptolomeu, e por conseguinte estulta e absurda a de Copérnico (que lhe era contraditória), isto sob o ponto de vista da pura razão natural ou filosófica. Não erraram, pois, os consultores do Santo Ofício. Quanto à 2.ª parte da 2.ª proposição: “ser ela pelo menos errônea na fé”, também não houve erro da parte dos consultores. Nada há nas Escrituras que expressamente indique ser a Terra de todo imóvel. Entretanto, dada a opinião comum dos astrônomos, antigos e modernos, que tinham a Terra como o centro do universo, e considerada a opinião comum dos Santos Padres, que assim a consideravam, a dita proposição não podia deixar de ser, praticamente, pelo menos errônea na fé. Creio, pois, com fundamento nos argumentos expostos, cujo valor não se pode negar, que nem mesmo os consultores do Santo Ofício cometeram erro de nenhuma espécie. Resolvida satisfatoriamente a 1.ª fase da Questão de Galileu, fácil negócio é resolver-se a 2.ª fase, a qual toda ela se fundamenta na 1.ª E’ o que passo a fazer. Segunda Fase: Decreto da Congregação do Santo Ofício. Para melhor compreensão do assunto, convém fazer aqui um breve retrospecto histórico. Logo após a condenação do sistema copernicano pela Congregação do Índex, o Cardeal S. Belarmino, por ordem do Papa Paulo V, fez vir a seu palácio Galileu e, aí, em presença do notário e das testemunhas, o Padre Comissário Segotius de Lauda o intimou a abandonar aquela doutrina, não a sustentando nem defendendo de nenhum modo daí por diante. Galileu se submeteu com perfeito acatamento a essa injunção, conforme declaração feita ao Santo Ofício pelo Cardeal S. Belarmino. A despeito de tão solene promessa, passados sete anos, publicava Galileu em 1623 sua obra Il Saggiatore, que era uma defesa habilmente dissimulada do sistema copernicano. A obra fora dedicada ao Pontífice recentemente eleito, Urbano VIII, o qual com prazer a aceitou e ouviu ler como relatam algumas testemunhas. Porventura animado com esse bom acolhimento do novo Papa, Galileu dá início por esse tempo à sua grande obra Os Diálogos, na qual defende abertamente e com ardor o sistema copernicano. Terminada a nova obra depois de sete anos de trabalho, ele a publica em 1632, apondo-lhe dolosamente o imprimatur do Maestro del Sacro Palazzo, sem porém fazer as correções, por este previamente ordenadas, a fim de ser permitida a sua publicação. Violava assim Galileu, ostensivamente, não só o decreto de 1616 da Congregação do Índex e a solene promessa que fizera ao Santo Ofício na presença do Cardeal S. Belarmino, como ainda as condições rigorosamente impostas pelo Maestro del Sacro Palazzo para a publicação da obra. Profundamente desgostoso com essa grave insubmissão e deslealdade por parte de Galileu, o Papa Urbano VIII constituiu então uma comissão extraordinária para o exame da obra Os Diálogos. Esta apresentou sem demora o seu laudo, que concluía por dever-se proceder juridicamente tanto contra Galileu como contra sua obra. O negócio foi, pois, transferido ao Santo Ofício, que a 1.ª de outubro desse mesmo ano de 1632 enviou a Galileu uma citação, em forma jurídica, para que comparecesse ao Tribunal do Santo Ofício em Roma. Durou o processo um ano, terminando com a condenação de Galileu e da sua obra Os Diálogos. A sentença foi pronunciada em nome da Sagrada Congregação da Inquisição do Santo Ofício, e promulgada com a publicação do respectivo decreto a 21 de junho de 1633. Eis o decreto do “Santo Ofício”: Após várias considerações acerca dos motivos por que Galileu fora chamado ao “Santo Ofício”, assim procede: “… Nós pronunciamos, julgamos e declaramos que tu, Galileu, te tornaste veementemente suspeito de heresia a este Santo Ofício, como tendo crido e sustentado uma doutrina falsa e contrária às santas e divinas Escrituras, a saber: o Sol é o centro do Universo, que ele não se move do oriente ao ocidente, que a Terra se move e não é o centro do mundo; e que se pode sustentar e defender uma opinião como provável depois que ela foi decretada e definida contrária à Escritura Santa; à vista disso, tu incorreste em todas as censuras e penas estabelecidas e promulgadas pelos sagrados cânones e outras constituições gerais e particulares contra as faltas desse gênero. Apraz-nos absolver-te, contanto que antes, de coração sincero e com fé não dissimulada, tu abjures em nossa presença, maldigas e detestesos erros e as heresias supraditas e qualquer outro erro e heresia contrária à Igreja Católica, Apostólica, Romana, de conformidade com a fórmula que nós te apresentaremos. Porém, a fim de que teu grave e pernicioso erro e tua desobediência não fiquem absolutamente impunidos, a fim de que tu sejas para o futuro mais reservado e que tu sirvas de exemplo aos outros, para que eles evitem estas espécies de faltas, nós ordenamos que o livro dos “Diálogos” de Galileu Galilei seja proibido por um decreto público; nós te condenamos à prisão ordinária deste Santo Ofício, pelo tempo que nós determinaremos à nossa discrição e, a título de penitência salutar, nós te impomos recitar durante três anos, uma vez por semana, os sete salmos penitenciários, reservando-nos a faculdade de moderar, mudar, exonerar todas ou parte das penas e penitências supraditas.” (Os grifos são meus.) Se bem que à Congregação do Santo Ofício pertença de modo peculiar tratar de assuntos doutrinários, vê-se pelo seu teor que não foi esse evidentemente o fim por ela colimado com este decreto. Ele não qualifica ou define qualquer doutrina, mas tão-somente constata a culpabilidade do acusado, fixa as penas que deve cumprir e proíbe o seu livro dos Diálogos. E até, quando aí se afirma “ser falsa e contrária às Escrituras” a doutrina heliocêntrica, a Congregação do Índex, pois acusa Galileu de sustentar e defender uma opinião como provável, “depois que ela foi declarada e definida contrária à Escritura Santa”. O decreto é, pois, meramente disciplinar e não doutrinário. Quando muito se poderá dizer que o Santo Ofício confirma a condenação da doutrina heliocêntrica, já feita anteriormente pela Congregação do Índex, como falta e contrária às Escrituras e por conseguinte herética. Vale, então, neste caso e fica de pé, tudo o que já foi exposto na primeira fase acerca daquela condenação, onde, como foi plenamente demonstrado, não se depara erro de nenhuma espécie, não só da Congregação como dos seus consultores. Em matéria doutrinal, pois, a única novidade que pode ser atribuída ao decreto da Congregação do Santo Ofício, é quando afirma que Galileu se tornou “veementemente suspeito de heresia”. Note-se que aí Galileu não é declarado propriamente “herético” pela Congregação do Santo Ofício, mas “suspeito de heresia”. Vamos ver que esta declaração, além de verdadeira, encerra alta sabedoria. Ela é verdadeira; porquanto, como já foi visto na primeira parte, o fiel católico, a não ser que possuísse argumento de plena evidência da doutrina heliocêntrica, não podia defendê-la sem cometer pecado de heresia, depois que essa teoria houvera sido declarada pela Congregação do Índex praticamente contrária às Escrituras e por conseguinte herética. Ora, Galileu não possuía nenhum argumento convincente, decisivo, dessa teoria, como também já foi exposto acima, e justamente agora, no próprio momento de partir para Roma em obediência à citação do Santo Ofício, ele espontaneamente no-lo confirma sem nenhum subterfúgio. Assim naqueles dias, em 1633, escrevia ele ao seu amigo Elias Diodati, que habitava em Paris: “Quanto a Fromont que dá prova também de muito espírito, eu desejara que ele tivesse evitado a falta, para mim bastante grave, ainda que muito frequente de, empreendendo a refutação do sistema de Copérnico, não haver começado por escarnecer e insultar amargamente aqueles que têm suas opiniões por verdadeiras. Parece-me demasiado inconveniente que ele se sirva da autoridade da Bíblia para combater seus adversários e os inculpar de heresia… Suponhamos que Fromont ou outros consigam seja declarado que há heresia ao afirmar-se que a Terra gira; suponhamos que mais tarde as observações, a crítica, a coesão e o conjunto dos fatos viessem a atestar como irrefragável o movimento da Terra, não teriam eles assim comprometido a Igreja e eles próprios?” (Cit. por Aubanel, Galilée et l’Église, pp. 35 e 36.) Por estas palavras do próprios Galileu, fica perfeita e definitivamente provado que ele, ainda que a supusesse verdadeira, não possuía a evidência da doutrina heliocêntrica, já que, nas próprias vésperas de sua condenação, apela para uma hipótese futura (“suponhamos que mais tarde”, diz ele) a fim de que venha a aparecer um argumento “irrefragável” para demonstrá-la. Sem possuir Galileu tal evidência, não podia defender por conseguinte a doutrina copernicana, como o fez em seus Diálogos, sem pelo menos expor-se ao perigo de cometer pecado de heresia. Entretanto, é mister considerar-se que, a despeito disto, o seu genial talento lhe facultaria uma tal ou qual intuição da veracidade daquela doutrina e, desse modo, defendendo-a, ele não era propriamente um herético. Daí a alta prudência e sabedoria da Congregação do Santo Ofício ao declará-lo apenas “suspeito de heresia”. Nada mais há a respigar, em absoluto, neste decreto do Santo Ofício. Devemos concluir, pois, que se no primeiro decreto – o da Congregação do Índex – não deparamos erro de nenhuma espécie, muito menos a este – o da Congregação do Santo Ofício – poderá ser atribuída uma tal pecha. Finalmente para o completo esgotamento do assunto, resta ainda a considerar um último documento: a solene abjuração feita por Galileu. Seus termos, porém, são perfeitamente idênticos aos dos dois supraditos decretos, como se vai ver. Assim, após o juramento de haver crido sempre e esperar crer para o futuro, com o auxílio divino, tudo o que a Igreja Católica em seu magistério ensina e prega, vem a abjuração de Galileu nos seguintes dizeres: “… Atendendo, porém, que depois de haver recebido deste Santo Ofício a injunção de abandonar absolutamente a falsa opinião que o Sol é o centro do mundo e imóvel, e que a Terra não é o centro e se move, e a proibição de manter, defender e ensinar esta sobredita falsa doutrina de qualquer maneira, de viva voz ou por escrito; e atendendo que depois de haver recebido notificação de que esta doutrina é contrária à Santa Escritura, eu escrevi e fiz imprimir um livro no qual exponho esta mesma doutrina já condenada, e que trago em seu favor argumentos eficazes, sem todavia dar uma solução; por estes motivos fui julgado veementemente suspeito de heresia por este Santo Ofício… Querendo, pois, fazer desaparecer do espírito de Vossas Eminências esta veemente suspeita justamente formada contra mim, eu abjuro, maldigo, detesto os supraditos erros e heresias, etc.” Os termos empregados nesta abjuração, como se vê, são ipsis verbis os do decreto do Santo Ofício, no que diz respeito à qualificação da doutrina heliocêntrica: “falsa doutrina”, “doutrina já condenada como contrária à Santa Escritura” e Galileu “veementemente suspeito de heresia”. Não é pois mister ainda uma vez tornar a considerá-las. Conclusão Agora um sumário das duas fases. Vimos na primeira: a) Em toda a questão de Galileu o primordial intuito da Igreja foi a defesa das Escrituras. O grande mal da época era a interpretação individual das Sagradas Letras, proposto pelo “livre exame” de Lutero, o qual já grassava nos países do norte da Europa e se insinuava agora sorrateiramente entre os fiéis católicos da Itália. b) A multissecular tradição científica, assim como os astrônomos coevos, eram plenamente favoráveis ao sistema de Ptolomeu, em que a Terra ocupava o centro do universo. O próprio Tycho Brahe, cujo sistema astronômico se diferenciava algum tanto do de Ptolomeu, mantinha, porém, a Terra ainda como centro do mundo. A Igreja não podia assim ir de encontro à ciência do seu tempo, sem que houvesse um argumento evidente em favor do sistema de Copérnico, o que só apareceu um século depois, em 1725, com a descoberta de Bradley da aberração da luz solar. c) Galileu não propôs nenhum argumento concludente em favor do sistema heliocêntrico. Os mais célebres astrônomos modernos são de opinião que seus argumentos eram meras analogias, e que o seu principal argumento, “o argumento das marés”, aquele em que ele punha sua maior confiança, era totalmente errôneo. d) Condenando como falsa e contrária às Escrituras a doutrina heliocêntrica, a Igreja não afirmou uma verdade de realidade objetiva, teorética, quase um dogma, porém uma verdade de realidade subjetiva, na ordem prática das consciências católicas. A teoria heliocêntrica era então, para as consciências católicas, praticamente falsa e contrária às Escrituras. Era uma doutrina em última análise temerária e não objetivamente herética. O próprio Galileu dá o testemunho de ser essa a opinião do Papa Urbano VIII. Na 2.ª fase foi visto: No segundo processo de , a Congregação do Santo Ofício não fez mais do que confirmar a condenação já feita pela Congregação do Índex, à qual se reporta e nela se fundamenta. Apenas acrescentou que Galileu se tornara veementemente suspeito de heresia (e não propriamente herético), o que além de ser a verdade, como foi visto, denota da parte do Santo Ofício muita prudência e alta sabedoria. Devemos, pois, com justiça concluir: a Providência Divina não permitiu que em todo o curso da questão de Galileu, cometesse a Igreja erro de nenhum espécie. Parece-me assim de todo necessário, por amor da verdade e a fim de atalhar as futuras explorações dos inimigos da Igreja, que os apologistas católicos já não lhes concedam mais – como têm feito até agora – haverem errado gravemente as Congregações Romanas e os Papas Paulo V e Urbano VIII nesta questão de Galileu, embora demonstrem eles de modo cabal que o erro não fora ex cathedra. [1]O presente artigo é o resumo de um trabalho de maior fôlego, que ainda não pôde ser terminado. [2]No sistema de Tycho Brahe, o Sol girava em torno da Terra, juntamente com os outros planetas girando em torno dele. FONTE Revista Eclesiástica Brasileira, vol. 5, fasc. 4, dezembro 1945, pp. 815-831. PARA CITAR Mons. Pedro Gaston Ribeiro da Veiga. A Questão de Galileu. Disponível em: . Desde 29/08/2016. Transcritor: Tiago De Almeida Silva.
- Jesus também é Yahveh?
SIGNIFICADO DE YAHVEH “Yahveh” é o nome próprio de Deus no Antigo Testamento, pois foi assim que Ele se identificou para Moisés na teofania da sarça ardente: – “Respondeu Moisés a Deus: “Se eu vou aos israelitas e lhes digo: ‘O Deus de vossos pais me enviou a vós’, quando me perguntarem: ‘Qual é o seu nome?’, o que lhes responderei?” Disse Deus a Moisés: “Eu sou aquele que sou”. E acrescentou: “Assim dirás aos israelitas: ‘Eu sou me enviou a vós'”” (Êxodo 3,13-14). Nesse momento Deus deu ao homem o único nome que poderia defini-lo de alguma maneira: “Yahveh”, que em língua hebraica pode traduzir-se por “Eu sou o que sou”, “Eu sou aquele que é” ou “Eu sou o existente”, tal como o traduziram os tradutores da Septuaginta: “ego eimi ho on”. Deus, por ser quem é, é o único verdadeiramente existente no sentido de que não é contingente, o que quer dizer que não precisa de nada nem de ninguém para existir, ao contrário do que ocorre com as criaturas. Ao não ser contingente Deus não foi criado por ninguém, mas é o Criador, princípio e fim de todas as coisas. Sobre isto o Catecismo da Igreja Católica ensina: – “Ao revelar seu nome misterioso de Yahveh, “Eu sou aquele que é” ou “Eu sou aquele que sou” ou também “Eu sou quem sou”, Deus declara quem Ele é e com que nome se deve chamá-lo. Este nome divino é misterioso como Deus é mistério. Ele é ao mesmo tempo um nome revelado e como que a recusa de um nome, e é por isso mesmo que exprime, da melhor forma, a realidade de Deus como Ele é, infinitamente acima de tudo o que podemos compreender ou dizer: Ele é o “Deus escondido” (Isaías 45,15), seu nome é inefável, e Ele é o Deus que se faz próximo dos homens. Ao revelar seu nome, Deus revela ao mesmo tempo a sua fidelidade, que é de sempre e para sempre, válida tanto para o passado (“Eu sou o Deus de teu pai”, Êxodo 3,6) como para o futuro (“Eu estarei contigo”, Êxodo 3,12). Deus que revela seu nome como “Eu sou” revela-se como o Deus que está sempre presente junto ao seu povo para salvá-lo” (CIC 206-207). Como se pode observar, já aqui está implicitamente respondida a pergunta, pois o Catecismo ensina que Yahveh é o nome próprio de Deus, não só de Deus Pai. E se como católicos professamos a doutrina da Trindade – que existe um só Deus em Três Pessoas Divinas: Pai, Filho e Espírito Santo – é natural que cada uma delas possa ser identificada com o nome de Yahveh. Negar isto conduz inequivocamente a duas opções: a) ao Arianismo; ou b) a uma contradição com o que as Sagradas Escrituras ensinam. Cai em Arianismo quem pensa que só o Pai é Yahveh, pensando que só Yahveh é Deus, porém nem o Filho nem o Espírito Santo o são. Esta posição foi rejeitada unanimemente desde a Igreja primitiva e igualmente por todos os Padres da Igreja; é isso o que professam hoje seitas como os Testemunhas de Jeová. Veja-se acerca disto: – A doutrina da Trindade na Igreja primitiva e os Padres da Igreja[2] Contradiz as Sagradas Escrituras quem sustenta que só o Pai pode ser identificado com Yahveh e ao mesmo tempo afirma professar a doutrina da Santíssima Trindade. Vejamos o porquê: SÓ YAHVEH CRIA A Escritura ensina isto quando afirma: – “Assim diz Yahveh, teu redentor, aquele que te formou desde o seio: “Eu, Yahveh, fiz tudo; eu, sozinho, estendi os céus e assentei a terra, sem ajuda nenhuma” (Isaías 44,24). Outros textos similares são: Apocalipse 4,11; Hebreus 3,4; Salmo 89,12; 33,6. As Sagradas Escrituras também ensinam que Deus fez tudo para Si mesmo: – “Todas as coisas as fez o Senhor para glória de Si mesmo” (Provérbios 16,4). Se Yahveh fez tudo “sozinho”, “sem ajuda nenhuma”, e o fez para Si mesmo, não se explicaria como Jesus não pode ser também Yahveh, quando o Evangelho de João começa dizendo que “Tudo se fez por ela [a Palavra feita Carne = Jesus] e sem ela não se fez nada do quanto existe” (João 1,3). Observe-se que quando o Evangelho de João ressalta que “sem ela não se fez nada do quanto existe” está dizendo que tudo aquilo que pode ser rotulado como “feito” foi criado também pela Palavra (Jesus). Abundam também as reflexões dos Padres da Igreja sobre a passagem do Gênesis onde Yahveh cria o homem (Gênesis 1,26): “Façamos ao homem à nossa imagem e semelhança”, [passagem esta] que ao estar conjugada no plural, revela implicitamente o diálogo entre as Pessoas da Santíssima Trindade. Veja-se a este respeito: – “Façamos o homem a nossa imagem e semelhança”, reflexões dos Padres da Igreja[3] Portanto, quem afirma que só o Pai é Yahveh, está afirmando consequentemente que só o Pai é o Criador, sem o Filho e sem o Espírito Santo. E se afirma a primeira parte e pretende também afirmar a segunda, se contradiz. SOMENTE SE ADORA A YAHVEH Também ensinam isto, claramente, as Sagradas Escrituras: – “Eu, Yahveh, sou teu Deus, que te tirei do país do Egito, da casa da servidão. Não haverá para ti outros deuses diante de mim” (Êxodo 20,2-3). – “Assim diz Yahveh, o rei de Israel e seu redentor, Yahveh Sebaot: “Eu sou o primeiro e o último, fora de mim, não há nenhum deus”” (Isaías 44,6). – “Eu sou o Alfa e o Ômega, diz o Senhor Deus, “Aquele que é, que era e que há de vir”, o Todopoderoso” (Apocalipse 1,8). Portanto, se só se deve adorar a Yahveh e fora Dele a ninguém mais, no caso de não ser o Filho e o Espírito Santo também Yahveh, não se lhes deveria adorá-los, pelo que, novamente, caem em contradição aqueles que afirmam que só se pode identificar Deus Pai com Yahveh. SOMENTE YAHVEH SALVA E É O JUIZ DA HUMANIDADE As Sagradas Escrituras também ensinam que somente Yahveh é o único e verdadeiro Salvador: – “Eu, eu sou Yahveh, e fora de mim não há Salvador” (Isaías 43,11). No Antigo Testamento se profetiza, ademais, que tanto o juízo quanto a salvação serão realizados pessoalmente por Yahveh: – “Ele disse: “Certamente que eles são meu povo, filhos que não enganarão”. E Ele foi seu Salvador em todas as suas angústias. Não foi um mensageiro nem um anjo: Ele mesmo, pessoalmente, os libertou. Por seu amor e sua compaixão Ele os resgatou: os ergueu e os conduziu todos os dias desde sempre” (Isaías 63,8-9). Esta ideia, que se repete ao longo de todo o Antigo Testamento (Salmo 50,1-6; 96,11-13; 98,9; Zacarias 14,5), no Novo Testamento se consuma em Jesus Cristo, como salvador da humanidade: – “Dará à luz um filho e tu lhe porás por nome “Jesus”, porque Ele salvará o seu povo dos seus pecados” (Mateus 1,21). – “Nasceu-vos hoje, na cidade de Davi, um Salvador, que é o Cristo Senhor” (Lucas 2,11). – “Porque Deus não enviou o seu Filho ao mundo para julgar o mundo, mas para que o mundo se salve por Ele” (João 3,17). – “e que se manifestou agora, com a manifestação de nosso Salvador Cristo Jesus, o qual destruiu a morte e fez irradiar vida e imortalidade por meio do Evangelho” (1Timóteo 1,10). Da mesma forma é Ele (Jesus) que o Novo Testamento identifica como responsável por julgar o mundo: – “Quando o Filho do homem vier em sua glória acompanhado de todos os seus anjos, então se assentará no seu trono de glória. Serão congregadas diante Dele todas as nações e Ele separará uns dos outros, como o pastor separa as ovelhas dos cabritos” (Mateus 25,31-32). O FILHO DE DEUS IDENTIFICA-SE COM YAHVEH Igualmente abundam os textos da Sagrada Escritura onde se identifica Jesus com Yahveh. Por exemplo, discutindo com os judeus [Ele mesmo] se identifica de maneira tão clara, que os judeus tentam apedrejá-lo: – “Jesus lhes respondeu: “Em verdade, em verdade vos digo: antes de que Abraão existisse, Eu Sou”. Então tomaram pedras para atirá-las nele; porém Jesus passou por eles e saiu do Templo” (João 8,58-59). Também lhe são atribuídos os títulos que no Antigo Testamento são atribuídos a Yahveh em Isaías 44,6: – “Quando eu o vi, caí aos seus pés como morto. Ele pôs a sua mão direita sobre mim, dizendo: “Não temas, sou eu: o Primeiro e o Último; aquele que vive. Estive morto, porém agora estou vivo pelos séculos dos séculos e tenho as chaves da Morte e do Hades”” (Apocalipse 1,17-18). – “Ao Anjo da Igreja de Esmirna escreve: “Isto diz o Primeiro e o Último, aquele que esteve morto e reviveu”” (Apocalipse 1,8). – “Eu sou o Alfa e o Ômega, o Primeiro e o Último, o Princípio e o Fim. Felizes os que lavam suas vestes, pois assim poderão dispor da Árvore da Vida e entrarão pelas portas na Cidade. Ficarão de fora os cães, os feiticeiros, os impuros, os assassinos, os idólatras e todos os que amam e praticam a mentira! Eu, Jesus, enviei o meu Anjo para dar testemunho disso às igrejas. Eu sou a estirpe e o descendente de Davi, a estrela radiante da manhã” (Apocalipse 22,13-16). O ESPÍRITO SANTO TAMBÉM SE IDENTIFICA COM YAHVEH Há passagens no Novo Testamento onde o Espírito Santo identifica-se com quem o Antigo Testamento identifica como Yahveh. Por exemplo, quando São Paulo menciona as palavras ditas por Yahveh ao povo, em Isaías 6,8-10, ele as atribui ao Espírito Santo: – “Quando, em desacordo entre eles mesmos, já se retiravam, Paulo disse apenas isto: “Com razão falou o Espírito Santo aos vossos pais por meio do profeta Isaías: “Vai encontrar este povo e diz: ‘Ouvireis bem, porém não entendereis; enxergareis bem, porém não vereis; porque se entorpeceu o coração deste povo, tornaram-se duros seus ouvidos e seus olhos fecharam. Que não enxerguem com seus olhos, que não ouçam com seus ouvidos, para que seus corações não entendam e se convertam e eu os cure'”” (Atos 28,25-27). O mesmo faz o autor da Epístola aos Hebreus: – “Por isso, como diz o Espírito Santo: “se ouvís hoje a sua voz, não endureçais vossos corações como na Querela, o dia da provocação no deserto, onde vossos pais me provocaram e me puseram à prova, mesmo depois de terem visto as minhas obras durante quarenta anos. Por isso, me irritei contra essa geração e disse: ‘Andam sempre errados em seu coração; não conheceram os meus caminhos’. Por isso jurei em minha cólera: ‘Não entrarão no meu descanso!'”” (Hebreus 3,7-11). EM RESUMO… Certamente há textos que se referem a Deus Pai como Yahveh, assim como há textos no Novo Testamento onde se identifica Deus com a Pessoa do Pai. Não há nenhum problema nisso, mas em entendê-los com a lógica protestante (“aut aut”), assumindo que só o Pai é Yahveh, e não com a lógica católica (“et et”) pela qual se pode afirmar que o Pai é Yahveh, sem por isso negar que o seu Filho ou o Espírito Santo o sejam[4]. —– NOTAS: [1] http://infocatolica.com/blog/apologeticamundo.php/1609140556-catolico-ignorante-futuro-pro (em espanhol). [2] http://www.apologeticacatolica.org/Trinidad/TrinidadN02.html (em espanhol). [3] http://infocatolica.com/blog/apologeticamundo.php/hagamos_al_hombre_a_nuestra_imagen_y_sem (em espanhol). [4] Ao afirmar isto, o Autor quer apenas fazer menção à forma de raciocínio protestante e não à sua crença sobre este ponto em particular, apresentado no artigo. De fato, muitos protestantes aceitam a doutrina da Trindade porque a receberam por tradição dos reformadores protestantes; porém outros não, sobretudo as seitas derivadas deles como os Testemunhas de Jeová ou, inclusive, os Adventistas que creem que Jesus é o Arcanjo Miguel (N.doT.). [5] http://www.apologeticacatolica.org/Trinidad/TrinidadN01.htm (em espanhol). PARA CITAR José Miguel Arráiz. Fonte em espanhol <http://infocatolica.com/blog/apologeticamundo.php/1610040804-ies-jesus-tambien-yahveh> Disponível em <http://www.apologistascatolicos.com.br/index.php/doutrina-teologia/catequese/949-jesus-tambem-e-yahveh>. Desde 08/03/2017. Tradutor: Carlos Martins Nabeto.
- Graças a Deus pelo ateísmo!
Pode parecer estranho, mas o sentimento que eu tenho é esse, agradeço a Deus pelo ateísmo. De uma maneira pessoal, hoje agradeço à Deus pelos meus anos como ateu, foi uma forma de aprender onde não era meu lugar e perceber o grande engano que a filosofia materialista era, e ainda é. Como todo jovem, eu pensava que sabia das coisas, com o tempo passei a achar a ideia de Deus um completo absurdo, algo inventado pelo homem para manipular as massas, que a Bíblia era falsa e etc. Passei muito tempo nessa fase, consumindo os argumentos ateístas e achando que a religião era de fato o “ópio do povo”, como dizia Marx. Mas nada melhor do que o tempo e a misericórdia de Deus para nos ensinar preciosas lições. Após minha conversão, levei esses assuntos mais a sério, passei a estudar e compreender mais as coisas que antes nem sonhava em compreender. Hoje percebo que os anos de ateísmo foram importantes para minha formação e o fortalecimento da minha fé. Foi uma fase difícil na minha vida, mas muita vezes é no deserto onde as pessoas são moldadas. Mas por que estou dizendo isso? Creio que ateísmo tem sido uma ferramenta útil. Olhando pelo lado positivo, ele tirou muitos cristãos da zona de conforto. Ao serem questionados, os cristãos foram em busca das respostas e isso avivou a intelectualidade cristã nas últimas décadas. O erro sempre foi um excelente holofote da verdade. Desde os primórdios do cristianismo por exemplo, foram as heresias que impulsionaram os grandes pensadores e teólogos cristãos a oferecerem respostas às suas indagações, e com isso, o cristianismo experimentou um grande vigor intelectual que ajudou a moldar e construir uma civilização ao longo dos séculos. Hoje em dia não é diferente, com o surgimento do ateísmo moderno e suas críticas à religião, a história se repete. Muitos cristãos foram surgindo para se posicionar e levar respostas racionais e lógicas às indagações dos ateus, e isso tem revigorado a fé cristã de modo excelente. E isso é sempre bom, pois a explanação da verdade é o chamado de todo cristão. Defendendo a verdade defendemos a Cristo, porque Ele É a verdade. Se você ha alguns anos atrás me dissesse que um dia eu teria uma página na internet para falar de Deus, eu diria que você tinha enlouquecido completamente. Mas aqui estou eu! Tentando fazer minha parte, defendendo a verdade perante ao erro, incentivando as pessoas a buscarem respostas, tentando mostrar o verdadeiro caminho para os que estão perdidos, ensinando e aprendendo a cada dia. Sei que talvez muitos tenham uma história parecida e dou graças à Deus por isso. Que não somente o ateísmo, mas todos os outros erros abomináveis que vem destruindo a fé dos cristãos sejam um grito num mundo ensurdecido, que ajude a despertar as pessoas de sua letargia espiritual e moral e as expulse da sua zona de conforto e as coloque em posição de combate. Que a fé cristã seja reavivada e incendeie corações transbordantes de amor por Cristo pelo mundo afora! “Antes, santificai ao Senhor Deus em vossos corações; e estai sempre preparados para responder com mansidão e temor a qualquer que vos pedir a razão da esperança que há em vós.” 1 Pedro 3:15 Ramon Serrano Dias O Caminho
- O paradoxo do protestantismo: ser Papa de si mesmo
Autor: José Miguel Arráiz, el 27.06.15 a las 9:46 PM Fonte: http://infocatolica.com/blog/apologeticamundo.php Trad.: Carlos Martins Nabeto Encontrei recentemente no Youtube este debate entre o nosso irmão Christian Huerta, da SemperFiat.com, e um líder evangélico do Ministério Jezreel, chamado Jesús Flores Luevano. O debate, embora bastante longo (estendeu-se por quase 9 horas em duas partes), não deixou de ser interessante: Eu, que só cheguei a ver as primeiras quatro horas, tive a oportunidade de refletir sobre o problema que enfrento uma vez ou outra vez com irmãos protestantes (não todos) de distintas denominações, isto é, com aqueles que sofrem de uma cegueira tal que lhes faz confundir sua própria mente com a Palavra de Deus ou, inclusive, com o próprio Espírito Santo. Explico-me: No debate em questão, Christian perguntou ao pastor se ele estava seguro de que a sua interpretação das Escrituras era a correta, enquanto que as [interpretações] dos demais, tanto dos católicos quanto dos outros protestantes eram incorretas, e como ele, Christian, poderia ter certeza disso. A isto seguiu-se uma série de respostas contraditórias, que retornavam para o mesmo ponto, como um círculo vicioso. Eis aqui algumas das respostas do pastor: – “Tenho a verdade porque Cristo mudou a minha vida e me transformou”. Ainda que pareça difícil de acreditar, muitas pessoas sentimentalmente associam sua conversão ao fato de “estar na verdade”; pode ser que anteriormente não fossem fiéis praticantes mas, por exemplo, maus católicos, ateus ou agnósticos, e que em um dado momento ouviram a pregação do evangelho em uma comunidade protestante e então sua vida mudou de maneira genuína e positiva. A pessoa neste estado costuma não diferenciar entre a mensagem que verdadeiramente o fez mudar (e que no fundo é católica) dos erros da denominação que o acolheu, assumindo assim que todo o ensinamento que ali recebe é a verdade. O problema disso é que há muitas pessoas que tiveram uma genuína conversão e sofreram uma mudança positiva na Igreja Católica, em outras comunidades protestantes que têm diferenças doutrinárias com eles e, inclusive, em seitas como os testemunhas de Jeová, adventistas e mórmons. Isso quer dizer que todos estão na verdade em tudo? É claro que não! – “Tenho a verdade porque vivo em santidade e os meus frutos o demonstram”. Quanto a isto, o pastor se colocou como exemplo: antes vivia preso ao pecado e agora se considerava livre. Visto que agora é justo e vive em santidade, isso deveria demostrar que está na verdade. O problema aqui é que Christian precisou recordá-lo que se conheceram precisamente porque o pastor reproduzia sem autorização, em seu canal do Youtube, conteúdos protegidos por direitos autorais (o que é uma espécie de roubo). O pastor reconheceu que isso era algo mau, porém o fazia por uma boa causa – moral maquiavélica onde o fim justifica os meios. Quando Christian lhe fez perceber isto, aceitou que não tinha justificativa, porém [afirmou que] a santidade é um processo gradual e ele está nesse caminho. Mas se o próprio pastor admitiu não ser totalmente santo, qual garantia deve haver de que a sua doutrina é totalmente reta? Existe, por acaso, uma porcentagem de santidade a partir da qual todas as interpretações bíblicas da pessoa se tornam infalíveis? Evidentemente, o pastor tampoco pôde responder satisfatoriamente a estas objeções. É claro que Christian aqui “lançou” ao pastor a sua própria lógica (redução ao absurdo), porque nós, católicos, não cremos que a sã doutrina esteja sempre vinculada à santidade. Na própria Escritura vemos como havia fariseus hipócritas – a quem Cristo chamava de “sepulcros caiados” – que não estavam no erro, porém bem fundidos ao pecado, e por isso Jesus mandava [seus ouvintes] fazer tudo o que os fariseus mandavam, mas não imitar sua conduta (Mateus 23,2-3). Pode pois haver pessoa bastante comprometida e bem intencionada, mas que esteja também bem equivocada, como os testemunhas de Jeová, que são capazes de deixar morrer seus filhos ao negar-lhes uma transfusão [de sangue], crendo que esta é a vontade de Deus. Isso sem contar que o argumento em si é bastante presunçoso, porque sob esta ótica, para que o pastor possa demostrar que a sua doutrina é mais sã que a de todos os demais, deve demostrar (e crer) que é mais santo que todos os demais. Ora, costuma ocorrer justamente o inverso: quanto maior a santidade, maior a consciência do pecado e das próprias misérias. A verdade é que quem utiliza este argumento dá indícios de possuir um grave problema de cegueira espiritual. – “Tenho a verdade porque a minha doutrina está de acordo com a Bíblia”. Muitas vezes acontece que quando debato com irmãos protestantes eles me perguntem: “Por que vocês não obedecem a Bíblia?”, ao que eu lhes respondo: “Mas quem disse que não?”, ao que me respondem: “A Bíblia”. É aqui que eu lhes mostro o fato de que há milhares de denominações que também afirmam só se basearem na Bíblia, mas que a interpretam de uma forma muito diferente da deles. E se eu digo isto com a esperança de que possam compreender que uma coisa é o que pode dizer a Bíblia e, outra, o que eles entendem que ela diz, na maioria das vezes, entretanto, foi impossível que compreendessem a diferença. Para eles, o que sai do seu pensamento é a voz do Espírito Santo – o que é uma forma de idolatria do próprio juízo. Tudo, na verdade, se reduz ao subjetivismo individualista e soberbo daquele que crê que todo aquele que não interprete a Bíblia como ele está errado; e, deste modo, ironicamente, discorda da infalibilidade da Igreja enquanto proclama a própria infalibilidade. Um exemplo o temos neste debate, onde o próprio pastor declara ser infalível em questões de doutrina – e precisamente por isso o título deste artigo aponta que no Protestantismo cada um é o seu próprio Papa. A compreensão católica é radicalmente diferente: não cremos que estamos na verdade porque somos mais santos, ou porque somos mais inteligentes, ou porque temos mais Espírito Santo, ou porque temos uma experiência de conversão mais autêntica… Cremos que estamos na verdade porque pertencemos à única Igreja que Cristo fundou, sobre a qual as forças do inferno não prevalecerão (Mateus 16,19), que está edificada sobre o fundamento e a autoridade dos Apóstolos e de seu mordomo: o legítimo sucessor do Apóstolo Pedro, a quem Cristo confiou o seu rebanho enquanto prometeu estar com a Igreja todos os dias até o fim do mundo. É o Espírito Santo quem guia a Igreja unida à verdade plena, pois nunca foi do plano de Deus que cada indivíduo tivesse que descobrir e definir toda a doutrina cristã a partir do zero toda hora. Christian não pôde chegar a nenhum acordo com o pastor evangélico, mas devemos agradecê-lo porque nos deu ocasião de continuarmos aprofundando nestes temas de fé. #mesmo #paradoxo #Protestantismo
- Sínodos de Cartago e Roma do III século sobre os ”Lapsi” e o Novacianismo
Sec. 5. Primeiros Sínodos em Cartago e Roma sobre o Novacianismo e os “Lapsi” (251). O cisma de Felicissimus e a controvérsia de Novaciana logo depois ocasionou vários sínodos. Quando, em 248, S. Cipriano foi eleito bispo de Cartago, havia um pequeno partido de descontentes, composto por cinco sacerdotes, de quem ele fala em sua quadragésima carta. Logo após o início da perseguição de Décio (no início do ano 250) a oposição a Cipriano tornou-se mais violenta, porque, no interesse da disciplina da Igreja, ele nem sempre considerarava as cartas de paz que alguns mártires sem consideração suficiente davam ao lapsi ¹ Ele foi acusado de severidade exagerada contra os caídos, e sua própria ausência (de 250 de fevereiro até o mês de Abril ou maio de 251) serviu para fortalecer o partido que foi formado contra ele. Um acidente causou a ruptura do cisma Cipriano de seu retiro enviou dois bispos e dois sacerdotes a Cartago, para distribuir ajuda aos fiéis pobres (muitos haviam sido arruinados pela perseguição). O diácono Felicissimus se opôs aos enviados de Cipriano, talvez porque ele considerava que o cuidado dos pobres como um direito exclusivo dos diáconos, e porque ele não toleraria comissários especiais do bispo em tal assunto. Isso aconteceu no final de 250, ou no início de 251. Felicissimus tinha sido ordenado diácono pelo sacerdote Novatus, conhecido por Cipriano, e sem sua permissão, provavelmente durante seu retiro. Agora, além do fato de que tal ordenação ser contrária para com os cânones da Igreja, Felicissimus era pessoalmente indigno de qualquer ofício eclesiástico, por causa de ser traiçoeiro e seus costumes corruptos ². Cipriano, sendo advertido por seus comissários, excomungou Felicissimus e alguns dos seus partidários por causa de sua desobediência ³; mas o sinal de revolta foi dado, e Felicissimus logo se juntou com esses cinco sacerdotes que tinham sido os antigos adversários de Cipriano, bem como todos quem acusaram o bispo de ser muito severo com os Lapsi, e desprezar as cartas dos mártires. Estes contribuíram para dar à oposição um cárater bastante diferente. Até então, tinha apenas sido composto por alguns sacerdotes desobedientes; doravante o partido tomou como grito de guerra a severidade do bispo – com respeito aos lapsi. Assim, não só o lapsi, mas também alguns confessores que haviam sofrido com a pouca consideração que Cipriano mostrou para o libelli pacis, aumentou as fileiras da revolta 4. Não se sabe se Novatus estava no número dos cinco sacerdotes que foram os primeiros motores do partido. Por alguns é afirmado, por outros negados. Depois de ter em vão chamado os rebeldes à obediência 5, Cipriano voltou a Cartago, um ano depois da festa da Páscoa em 251 6; e ele escreveu seu livro ”de Lapsis” como preparação para o Sínodo que ele se reuniu logo depois, provavelmente durante o mês de 25 de maio de 251 7. O Concílio foi composto por um grande número de bispos 7 e alguns sacerdotes e diáconos 8: ele excomungou Felicissimus e os cinco sacerdotes depois de ter ouvido eles 9, e, ao mesmo tempo, estabeleceu os princípios a serem seguido em relação ao Iapsi, depois de ter examinado cuidadosamente as passagens das Escrituras tratando desta questão 10″. Todos os decretos separados sobre este assunto foram coletados em um livro 11 que pode ser considerado o primeiro livro penitencial da igreja; mas infelizmente está perdido. Cipriano nos faz conhecer as principais regras em sua quintagésima segunda carta: a saber, que toda a esperança não deve ser tirada do Lapsi, que, ao excluí-los da Igreja, eles não podem ser levados a abandonar a fé e voltar para uma vida de paganismo; que, não obstante, deve-se impor uma longa penitência sobre eles, e que devem ser punidos proporcionalmente à sua culpa10. É evidente, continua Cipriano, que é preciso agir diferentemente com aqueles que se foram, por assim dizer, a encontrar a apostasia espontâneamente tomando parte em sacríficios impíos, e aqueles que foram, por assim dizer, forçados a esse odioso sacrilégio depois de longas lutas e sofrimentos cruéis: também com aqueles que carregaram com eles em seu crime sua esposa, seus filhos, seus servos, seus amigos, fazendo-os compartilhar sua queda, e aqueles que só foram as vítimas, quem sacrificaram aos deuses para servir suas famílias e suas casas; que não deve haver menos diferença entre o sacrificati e o libellatici, isto é, entre aqueles que realmente sacrificaram aos deuses, e aqueles que, sem fazer um ato formal de apostasia, lucrando com a fraqueza dos funcionários romanos, os haviam seduzido, e os fizeram daren a eles falsos atestados; que o libellaciti deve ser reconciliado imediatamente, mas que o sacrificati deve submeter-se a uma penitência longa e apenas reconciliar-se quando o momento de sua morte se aproximar12; finalmente, que, com relação aos bispos e sacerdotes, eles também devem ser admitidos com penitência, mas não podem novamente serem permitidos em exercer qualquer função episcopal ou sacerdotal12. Jovinus e Maximus, dois bispos do partido de Felicissimus,que foram censurados antes por nove bispos por terem sacrificado aos deuses e por ter cometido sacrílego abominável, apareceram perante o Sínodo de Cartago.O Sínodo renovou a sentença dada originalmente contra eles ; Mas, apesar deste decreto, eles se atreveram a se apresentarem, com vários de seus partidários, no Sínodo de Cartago, realizado no ano seguinte13. Cipriano e os bispos reunidos ao seu redor decidiram enviar suas decisões sinodais de 251 para Roma, para o papa Cornélio, para obter o seu consentimento em relação às medidas tomadas contra os lapsi14. Foi mais necessário para entender uma a outra sobre o assunto dessas medidas, já que a Igreja Romana também havia sido incomodada pelo cisma Novaciano 15. O Papa Cornélio reuniu em Roma no outono, provavelmente no mês de outubro de 251 16, um sínodo composto por sessenta bispos, sem contar os sacerdotes e diáconos. O Sínodo confirmou os decretos de Cartago e excomungou Novaciano e seus partidários. Os dois autores que preservaram esses fatos para nós, São Cipriano 17 e Eusébio 18. Deve-se observar que vários editores das atas dos concílios, e vários historiadores, confundiram os documentos originais, transformando os dois Sínodos de Cartago e Roma (251) em quatro concílios 19. O Libellus Synodicus também fala de outro concílio que deve ter sido mantido no mesmo ano em Antioquia, novamente sobre o assunto dos novacianos; mas dificilmente se pode confiar no Libellus Synodicus quando está sozinho em proferir um fato O cisma novaciano não pôde ser extirpado por estes sínodos. Os partidários de Felicissimus e de Novaciano fizeram grandes esforços para recuperar sua posição. Os novacianos de Cartago conseguiram mesmo a colocar sobre seu comando um bispo do seu partido chamado Maximus, e eles enviaram muitas queixas para Roma sobre o assunto da pretensa severidade de Cipriano, como, no outro lado, a perseguição que ameaçava tornar revigorada as medidas necessárias em relação ao lapsi. Cipriano juntou um novo concílio em Cartago no mês de maio de 252, que participaram sessenta e seis bispos 20. Provavelmente foi neste concílio que foram discutidos dois pontos que foram apresentados pelo bispo africano Fidus 21. Fidus queixou-se primeiro que Therapius Bispo de Bulla (perto de Hipona) recebeu o sacerdote Victor muito cedo na comunhão da Igreja, e sem lhe ter imposto pela primeira vez a penitência que ele merecia. O Sínodo declarou “que era evidentemente contrário às decisões anteriores dos concílios, mas que eles se contentariam dessa vez em repreender o bispo Therapius, sem declarar a reconciliação que ele fez com sacerdote Victor como inválida. Em segundo lugar, Fidus enunciou a opinião de que os bebês deveriam ser batizados, não nos primeiros dias após o nascimento, mas oito dias depois; para observar, em relação ao batismo, o atraso anteriormente prescrito para a circuncisão. O Sínodo condenou por unanimidade esta opinião,declarando que não podiam assim atrasar em conferir a graça sobre o recém-nascido 22. O próximo assunto principal do Sínodo foi o que diz respeito aos lapsi; e a quintagésima quarta carta de S. Cipriano nos dá um relato do que passou sobre este assunto. O Sínodo, ele diz, sobre este assunto, decidiu que, considerando a iminente perseguição, eles podem reconciliar imediatamente todos aqueles que mostraram sinais de arrependimento, a fim de prepará-los para a batalha por meio dos sacramentos sagrados: Idoneus esse non potest ad martyrium qui ab Ecdesia non armatur ad praelium 23 Em direção ao Papa Cornélio enviando sua carta sinoidal (é a quintagésima quarta das cartas de S. Cipriano), o Concílio diz formalmente : Placuit nobis, sanctu Spiritu suggerente 24 .O herege Privatus, da colonia Zambesitana, provavelmente bispo daquela cidade, que, como já vimos, foi condenado, apareceu novamente no Concílio; mas ele não foi admitido. Nem eles admitiriam os bispos Jovinus e Maximus, partidários de Felicissimus e condenados como estavam; nem o falso Bispo Félix, consagrado por Privatus depois que ele se tornou um herege, que veio com ele. Eles então se uniram com o bispo caído Repostus Saturnicensis 25, que sacrificou durante a perseguição, e eles deram ao sacerdote Fortunato como bispo ao partido dos relaxados em Cartago 26. Ele tinha sido um dos cinco adversários originais de S. Cipriano. Pouco tempo depois, um novo sínodo se reuniu em Cartago em sobre o assunto dos bispos espanhóis Marcial e Basilides. Ambos foram detidos por falhas graves, especialmente por terem negado a fé. Basilides julgou-se indigno da dignidade episcopal, e declarou-se satisfeito se, depois de passar por sua penitência, ele pudesse ser recebido na comunhão dos leigos. Marcial também confessou sua culpa; mas depois de algum tempo ambos apelaram para Roma, e por meio de relatos falsas conseguiram conquistar o Papa Estevão, que exigiu que Basilides fosse substituído em seu bispado, embora Sabinus já tivesse sido eleito para suceder ele. Vários bispos espanhóis parecem ter apoiado as pretensões de Basilides e Marcial, e colocaram-se, parece, do seu lado; mas as Igrejas de Leão, de Asturia, e de Emerita, escreveu sobre esse assunto aos bispos africanos, e enviaram dois deputados para eles – Bispos Sabinus e Félix, provavelmente os sucessores eleitos de Basilides e Marcial. Felix Bispo de Saragoça apoiou eles com uma carta particular. S. Cipriano reuniu então um concílio composto de trinta e sete bispos; e possuímos a carta sinódica da assembléia, em sua sexagésima oitava carta, na que a deposição de Marcial e Basilides está confirmada, a eleição de seus sucessores é declarada legítimo e regular, os bispos que haviam falado a favor dos bispos depostos são censurados, e as pessoas são instruídas para entrar em comunhão eclesiástica com seus sucessores 27. – HEFELE, Karl Josef. A History of the Christian Councils from the original documents.
- SE A REVOLUÇÃO COMEÇA NA LINGUAGEM…
Vivemos numa época de saneamento linguístico, que visa, aparentemente, proteger algumas categorias de indivíduos de certas palavras antipáticas e estigmatizadoras (o que seria, em princípio, algo bom, “filantrópico”). Por essa operação saneadora da linguagem, transformam-se surdos em deficientes auditivos, gagos em disfluentes, aleijados em portadores de necessidades especiais (ou cadeirantes), velhos em idosos, velhice em terceira idade, gordos glutões em obesos vitimados pelo marketing alimentar, etc. O objetivo claro é abrandar a linguagem, suavizá-la, defendendo as pessoas de certos carimbos verbais que possam indicar preconceito ou segregação. Aparentemente humanizador, tal saneamento linguístico tem, no entanto, um nítido propósito político, indiscutivelmente revolucionário: passar a limpo a realidade, a partir do seu invólucro linguístico. O espírito revolucionário necessita da palavra e da espada para vencer suas batalhas culturais, mas os revolucionários sabem qual é a arma mais adequada a cada circunstância histórica. Perceberam que, na época da informação — nosso aqui e agora submerso num furioso oceano de mensagens —, a linguagem seria o seu principal aliado. “Entre o verbo e a espada, o momento é, predominantemente, do verbo”, disse o marxista Heinz Dieterich Steffan, em sua obra O socialismo do século XXI. Bom exemplo é o que ocorre no abrandamento do léxico homossexual, visando cortar não só termos populares carregados de malícia — que de fato não harmonizam com a caridade cristã —, mas encontrar palavras que colaborassem na tarefa política de eliminar qualquer traço de anormalidade no comportamento dessa minoria (que ambiciona, pela ideologia LGBT, transformar-se em maioria — e nisto nada há de cristão…). A palavra “homossexualismo”, com o suspeito “ismo” indicativo de crença, tendência ou patologia, deveria ser substituída por “homossexualidade”, substantivo abstrato livre de manchas semânticas. Várias palavras se candidataram para designar a pessoa que é atraída por outra do mesmo sexo: “homossexual”, “gay”, mas nenhuma tem maior poder suavizador do que a mais recente delas, “homoafetivo”, cuja aceitação linguística já seria meio caminho andado para a instituição social e jurídica do chamado “casamento gay”. Na mesma esteira, surgiu o termo “homofobia”, que designa a pessoa preconceituosa em relação aos homossexuais em geral. Algo semelhante aconteceu com os negros, vítimas da injustificável violência da escravidão. Contudo, só começaram a reagir, publicamente, diante das palavras usadas para nomeá-los, a partir do momento em que alguns deles se organizaram em grupos ativistas de esquerda, atribuindo-se o poder de representar o conjunto. Os descendentes de africanos já foram “pretos”, depois “negros” e agora são “afro-descendentes”. De qualquer maneira, o trabalho dos militantes consistia em convencer suas “minorias” do direito de exigir novo tratamento linguístico, e as maiorias do dever de substituir os termos ofensivos, velhas palavras que deviam ir para o baú de guardados da língua vernácula. Essa “revolução linguística” é parte de uma “revolução cultural” que, por sua vez, desaguaria na revolução total, com a transformação radical de todas as instituições sociais. Essa importância atribuída à palavra, à função transformadora da linguagem, vem da suspeita de que a linguagem, mais do que simples veículo de significados, é uma usina produtora de realidades: os nomes dados às coisas determinariam nosso modo de vê-las e de lidar com elas. Um linguista soviético, o russo Ivanov, reafirmando a noção de que as línguas são meios de transporte das ideias válidas em determinado grupo social, garantia que o indivíduo assimila, já na infância, junto com o mecanismo da língua, o sistema de valores da sociedade embutidos naquela. Assim, aprender a falar, a ler e a escrever seriam, em vez de início da libertação do espírito, o começo do aprisionamento ideológico, e a língua um verdadeiro instrumento de controle comportamental. Daí a necessidade, segundo os revolucionários, de começar a virada pela linguagem e seus produtos, como a literatura e as demais artes. “Entre o verbo e a espada, o momento é, predominantemente, do verbo”. É hora, portanto, dos contrarrevolucionários mais intimamente ligados à “palavra” — escritores, jornalistas, professores, leitores habituais, políticos bem intencionados — tomarem consciência do fato de que estamos numa guerra de palavras, uma guerra cultural. A primeira atitude deve ser a de permanente vigilância em relação aos novos termos que as mídias despejam online, não assimilando nem propagando certas palavras ou expressões que, mais do que neutras e inocentes transportadoras de significados, são poderosos “cavalos de Tróia” que penetram como vírus na alma das pessoas, debilitando-as e predispondo-as às ideologias da moda. Em seguida, como eficazes contravenenos aos poluentes revolucionários da linguagem, recomendam-se as grandes obras literárias de sempre, os “clássicos” referendados pelo tempo — lendo-os, divulgando-os, ensinando-os. São remédios sem contraindicação, cuja principal serventia é defender as palavras que herdamos dos nossos antepassados e fortalecer o espírito que nos foi dado pelo Criador. Se a revolução, hoje, começa pela linguagem, é por ela que o espírito contrarrevolucionário deve reagir.
- Quando fazer o sinal da cruz?
Ma Uma maneira rápida de se conectar profundamente com Deus De forma solene, sem pressa, e com a maior devoção e respeito: † Pelo sinal da Santa Cruz † Livrai-nos Deus, Nosso Senhor † Dos nossos inimigos † Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Amém! QUANDO ACORDAR Acordar e fazer o sinal da Cruz, oferecer o coração a Deus, dizendo: “Meu Deus, eu vos dou o meu coração e a minha alma.” Também lembrando que aquele dia pode ser o último da nossa vida”. (Catecismo de São Pio X. 969-970) QUANDO FOR DORMIR Antes de adormecer, fazer o sinal da Cruz, pensando que se pode morrer naquela noite, e oferecer o coração a Deus, dizendo: “Meu Senhor e meu Deus, eu vos dou todo o meu coração. Trindade Santíssima, concedei-me a graça de bem viver e de bem morrer. Jesus, Maria e José eu Vos encomendo a minha alma”. (Catecismo de São Pio X. 982) Caso tenha pesadelos recorrentes, fazer o sinal da cruz com água benta, e pedir a intercessão do anjo da guarda para que vele nosso descanso. ANTES E DEPOIS DAS REFEIÇÕES Antes da refeição convém fazer o sinal da Cruz, estando de pé, e dizer com devoção: “Senhor, abençoai-nos a nós e ao alimento que vamos tomar, para nos conservarmos no vosso santo serviço”. (Catecismo de São Pio X. 975) Depois da refeição, convém fazer o sinal da Cruz, e dizer: “Senhor, eu vos dou graças pelo alimento que me destes; fazei-me digno de participar da mesa celeste”. (Catecismo de São Pio X. 976) AO PASSAR POR UMA IGREJA Fazer o sinal da cruz por respeito a Nosso Senhor Jesus que está presente no sacrário. Também se deve fazer pois assim professamos publicamente nossa fé. AO PASSAR POR UM CEMITÉRIO Se faz o sinal da cruz pedindo a misericórdia pelas almas que estão no purgatório, e para lembrar que um dia também nós morreremos, e portanto devemos sempre buscar os caminhos de Deus. AO SER TENTADO Quando nos vemos atormentados por alguma tentação, devemos fazer o sinal da Cruz, evitando porém que as outras pessoas, pelos sinais externos, suspeitem da tentação. (Catecismo de São Pio X. 977) SAINDO OU CHEGANDO Ao sair de casa para pedir que Nosso Senhor guie nossos caminhos, evitando todo tipo de mal físico ou espiritual Ao chegar, como agradecimento por nos ter livrado de tantos males que nem sequer imaginamos. AO PASSAR POR UM ACIDENTE Fazer o sinal da cruz ao passar por um acidente para que Nosso Senhor conceda a saúde aos que se machucaram, ou conceda descanso aos que faleceram.NA MISSA Durante a Santa Missa, o sinal da cruz tem um significado litúrgico. É feito antes da proclamação do Evangelho. A cruz na testa lembra que o Evangelho deve ser entendido, estudado, conhecido. Nos lábios, lembra que o Evangelho deve ser proclamado, anunciado. No peito, à altura do coração, nos indica que o Evangelho deve ser vivido (cf. ”Os Sacramentos” – Prof. Felipe Aquino) (via Universitários da Imaculada)
- “Não faço mais do que o meu dever!”
Muito tempo faz encontrava-se entre os religiosos trapistas de Sept-Fons, na França, um irmão leigo, muito velho e enfermo, que tinha na mão o seu rosário. Era o irmão Teodoro, o qual outrora fora um soldado valoroso. Quando em 1812 o exército francês, vencido voltava da Rússia, a coluna de Teodoro, extenuada de cansaço e de fome, encontrou-se em frente de uma bateria russa que barrava o caminho de fugida. Um verdadeiro desespero se apoderou de todos: oficiais e soldados atiravam suas armas ao solo. Que fazer? Era no rigor do inverno e haviam caminhado longas horas sobre a neve e o gelo. Que fazer?Voltar era impossível. Ir adiante? Ali estava a poderosa bateria inimiga. Permanecer naquele posto? Era condenar-se a morrer de frio e de inanição. De repente adianta-se um oficial: – Venham comigo os valentes!… Coisa rara nos anais de nossa guerra: nem uma voz respondeu… …engano-me. Um só homem, um só, o irmão Teodoro, saiu da fila dizendo: – Irei sozinho, se o Sr. quiser. Dizendo isto, tira a mochila e o fuzil e ajoelha-se na neve, persigna-se diante de todos e reza uma dezena do rosário com fervor como nunca. Toma novamente o fuzil e, de cabeça baixa, lança-se a passo de carreira, com tanta confiança como se dez mil homens o seguissem. Estava para alcançar a bateria inimiga, quando os russos, crendo que os franceses queriam apanhá-los pelas costas, enquanto se ocupassem de um só inimigo, abandonaram sua peça e bagagem e fugiram. Dono do campo, disse nosso herói com admirável naturalidade: – Eis aí! para sair de apuros, não há coisa melhor do que rezar o rosário. O oficial entusiasmado corre para ele, tira sua própria Cruz de Honra e pendura-a ao peito do jovem, exclamando com lágrimas nos olhos: – Valente soldado, tu a mereces mais do que eu! – Comandante (respondeu Teodoro), não fiz mais do que meu dever. Cinquenta anos mais tarde, com seu hábito de trapista, quando, no mais rigoroso inverno, passava a maior parte do dia de joelhos rezando o rosário, gostava de repetir: – Não faço mais do que o meu dever! Tesouro de Exemplos – Pe. Francisco Alves
- Historiador do 5° século sobre as aparições da Virgem Maria
O historiador grego do século 5, Sozomeno (A.D. 445), nos deu uma descrição de um feito glorioso na cidade oriental de Constantinopla. O que me impressionou ao ler isso é como esse homem do século V, historiador não menos e, portanto, profundamente interessado na “história” do cristianismo, pôde observar que as aparições da Virgem Maria com a finalidade de liberar o poder divino era uma questão que ela “não fazia”. Era um relatório habitual para ele fazer isso. Aqui, ele também está relatando eventos no século passado (4). Eu suspeito que um protestante moderno não só se sentiria “não em casa” no cristianismo oriental do 4º / 5º século, mas repudiria positivamente aquilo que era uma realidade comumente aceita. E não quero ofender com isso, a menos que isso ajudasse. “Pouco depois de promulgar esta lei, Teodósio foi a Constantinopla. Naquela época, os arianos, liderados por Demófilo, silenciosamente controlavam as igrejas; Gregório de Nazianzo, entretanto, liderou aqueles que professavam sua fé na Trindade consubstancial. Havia uma pequena casa que havia sido transformada em uma Igreja por homens que seguiam este Credo. Foi confiada a Gregório e aos que tiveram a mesma fé que ele teve. Alí se juntaria a assembléia dos fiéis. Mais tarde, esta pequena igreja tornou-se uma das igrejas mais famosas da cidade imperial, e ainda é famosa hoje, não só por causa da beleza e integridade de sua estrutura, mas também pelos favores frequentes que foram recebidos por manifestações de poder sobrenatural. Pois um poder divino se manifestou ali para pessoas que estavam tanto atentas e adormecidas, o que trouxe alívio a muitos oprimidos por doenças e outras aflições. Acredita-se que este poder veio da Virgem Maria, Mãe de Deus. Pois assim, ela costuma aparecer. Esta igreja foi chamada de “Anastasia” (ressurreição), porque, parece-me, a doutrina de Nicéia, oprimida ou, por assim dizer, morta pelo poder dos hereges, ressurgiu da morte e voltou à vida através da pregação de Gregório “(História eclesiástica 7: 5) Traduzido de: https://erickybarra.wordpress.com/2018/03/10/5th-century-greek-historian-on-appearances-of-the-virgin-mary/
- DE JERUSALÉM AO VATICANO: A PEREGRINAÇÃO DO PAPADO PARTE III
Entendendo a doutrina Cristã como o que a igreja crê, ensina e conversa com base na palavra de Deus, não lidará com o conteúdo doutrinal do antigo e do Novo Testamento em seus próprios termos. Estes constituem eles mesmos Campos de pesquisas, e a teologia do novo testamento, para Nosso propósito, não é o que Jesus e os apóstolos podem ter ensinado, mas o que a igreja entendeu o que eles ensinaram. Esse é um processo contínuo em vez, de um produto acabado. A forma tão definida que a doutrina Cristã assume na história é a tradição. A palavra “tradição”, como o termo “doutrina” refere-se simultaneamente ao processo de comunicação e ao seu conteúdo. Assim, o termo tradição significa a transmissão do ensinamento Cristão durante o curso da história da igreja, mas também significa o conteúdo transmitido. Há um sentido em que a noção de quando a tradição parece inconsistente com a ideia de história com movimento e mudança pois se pensa que a tradição antiga consagrada pela idade e mutável uma vez que foi estabelecida Em algum momento anterior da história ela não tem história uma vez que história sugere o aparecimento em um determinado ponto no tempo porque não havia ali antes de acordo com a história eclesiástica de Eusébio (Eusébio de Cesaréia, História Eclesiástica 1. 1. 1), a doutrina Cristã Ortodoxa não tem realmente uma história, sendo eternamente verdade e ensinada nos primórdios; só a heresia tinha uma história surgida em um momento em particular e por intermédio da Inovação de professores em particular. O PRIMEIRO CONCÍLIO É sem dúvida a partir de 49dc que os apóstolos vêem a crise. Paulo e Barnabé estão de volta à Antióquia quando ocorre um primeiro incidente. Admite-se, nos fatos, que os não judeus convertidos não são obrigados a observar as práticas religiosas judaicas. Lembremo-nos da declaração de Pedro no batismo do Centurião Cornélio. É o caso de Tito, que acompanha os dois Apóstolos desde uma das novas comunidades da Ásia. apressam-se em batiza-los. Ora, alguns judeus vindos da Judéia, ao contrário, exigem que Tito e os demais não-judeus convertidos sejam circuncidados. Por que essa súbita ruptura de regra aceita? aqui, é necessário prestar atenção às datas: a tensão política entre os judeus e os romanos agora é palpável. Os homens que preparam a revolta não desejam que os Cristão – que eles consideram uma seita Judaica – se afastem do campo de batalha. Ora, para Paulo, “Apóstolo dos gentios”, e Barnabé, a igreja não deve se solidarizar com o destino político de Israel. O debate sem dúvida foi brutal, uma vez que dividiu as duas comunidades de Antióquia, a dos judeus-cristãos e a dos helenistas. Fica decidido que Paulo, Barnabé e Tito irão à Jerusalém. Em Antióquia, as pessoas querem saber se a comunidade de Jerusalém – ou seja a comunidade-mãe – apóia os procedimentos dos judeus desconhecidos. O primeiro Concílio da história da igreja (conciliun: “reunião”, “convenção” de bispos ou de fiéis) será então aberto, e nenhum dos participantes têm consciência disso. Em Jerusalém, Apóstolos e anciãos se encontram. Sabe-se que alguns cristãos de origem farisaica defendem a tese da circuncisão necessária. Mas estes constituem apenas uma minoria. Pedro, em nome dos apóstolos, dá razão a Paulo e a Barnabé. Tiago, que poderia ter sido o líder da minoria conservadora, limita-se a supervisionar a redação das conclusões. O texto aparentemente é Prudente; lembra que os cristãos de todas as origens devem respeitar os princípios da antiga lei de Moisés: não se comem carnes que foram imoladas para os ídolos; não se consome animais que foram sufocados; a fornicação permanece condenada. Mas o silêncio sobre os problemas dos ritos judaicos é a prova de que igreja acaba de fazer uma opção. Por que esse encontro – conhecido pelo nome de concílio de Jerusalém – é importante? Por muitas razões. Primeiro, porque é o primeiro. Ele prova que, quando um debate religioso divide os cristãos, um Concílio pode ser um meio apropriado para resolver as dificuldades. Depois – como vimos -, permite o desinteresse entre a Comunidade Judaica e a Cristã. Historicamente, os judeus continuam os primeiros; mas os segundos anunciam Novos Tempos. Enfim, por sua composição, o concílio permite que pagãos (que são como Oliveiras e selvagens) compreendam a incipiente organização hierárquica da igreja. Eles poderão se enxertar nesse novo tronco. Pedro e João representam os doze, Isto é, o núcleo original. Tiago e os velhos falam em nome da comunidade de Jerusalém. Paulo, Barnabé e Tito são qualificados com o termo missionários; porém, os dois primeiros são Apóstolos; o terceiro é um mero convertido. Mas é evidente que os que anunciam Cristo a povos desconhecidos ou pouco conhecidos têm o direito de ser ouvido nos casos graves. Para simplificar. No centro, os apóstolos, dos quais Pedro é o representante. Veremos que serão necessários muitos séculos para que a situação e o poder do Papa comecem a ser compreendidos. Em volta dessa Igreja dos primeiros dias, duas hierarquias paralelas: primeiro a dos anciãos depois a dos missionários. Vamos analisar alguns textos e sua relação nas construções histórico-teológicas relacionadas às tradições em Atos 6-8 com a visão histórico-social, detectamos o seguinte: em Jerusalém deparamos com frações comunitárias marcadas por cultura e línguas diversas, com suas respectivas associações representativas de governo. Os Doze constituíam o núcleo do grupo de Jesus de língua aramaica, dos que da Galileia se dirigiram (retornando novamente) para Jerusalém e em Atos 6,1 são chamados de Hebreus. Os sete constituíam a Associação diretiva de uma comunidade de língua grega dos que em Atos 6,1 são chamados de “helenistas”. Se os Doze simbolizam Israel reunido em suas 12 tribos no final dos tempos, os 7 atuam em analogia aos grupos diretivos das comunidades judaicas da diáspora. Seus nomes (atos 6,5) são comuns no mundo grego. Significativamente faltam nomes que demostrem explícita identidade judaica. No final da lista cita-se o nome de um prosélito, portanto de um grego, que se tinha deixado circuncidar, passando assim para o judaísmo: Nicolau de Antioquia. O ambiente de origem dessa parte da comunidade são as sinagogas da diáspora em Jerusalém. O lugar, portanto em que também se localiza a disputa com Estevão. Em Atos 6,9 citam-se cinco nacionalidades, para cada uma das quais se deve pressupor, com probabilidade, a existência de uma sinagoga. Como nos é possível reconhecer muito bem, a partir de uma lista de doadores (em grego) para a construção de uma sinagoga em Jerusalém (inscrição de Teodoro, anterior a 70 D.C.), no caso dessas sinagogas da diáspora em Jerusalém trata-se de centros religiosos e culturais para judeus da diáspora provenientes de regiões determinadas. O prédio servia como casa de culto, escola e hospedaria para os peregrinos. A “leitura da Lei” certamente era baseada na tradução grega da Bíblia Hebraica, ocorrendo o mesmo com o “ensino dos mandamentos”. De acordo com a inscrição de Teódoto, “a hospedagem para aqueles ortodoxos estrangeiros” era suficiente e atendia às suas exigências. Para as abluções rituais havia uma adequada instalação hidráulica. As sinagogas da diáspora em Jerusalém eram, portanto, pontos de referências para os Judeus estrangeiros. Isso podia abarcar apenas alguns dias durante as festividades, o que era um sonho para muitos judeus. Podia também ser por um tempo indeterminado, para todos os que pretendiam passar os últimos anos de sua vida em Jerusalém ou que para lá se transferiam com toda a sua família. O que lá procuravam era a estreita união com o centro do Judaísmo, com o templo, envoltos por um ambiente totalmente judaico. Uma vez que as sinagogas ofereciam ajuda inicial para que essas pessoas conseguissem se ajeitar na cidade estranha, aos poucos iam surgindo enclaves nos quais, ao longo de gerações, continuou-se a cultivar a tradição Regional da Pátria de origem, antes de mais nada, naturalmente, a língua grega e talvez inclusive o próprio dialeto. Resulta disso um estranho paradoxo: na diáspora os judeus estavam inseridos na vida social através da língua, mas excluídos pela religião; em Jerusalém os judeus da diáspora estavam unidos aos judeus de língua aramaica da Palestina através da religião, mas a língua causava a separação. Os que em Atos 6,1 são denominados “helenitas” provém desse ambiente. Ambiente. Além dos “sete” (atos 21,8), no Grêmio diretivo apenas nos são conhecidos mais alguns poucos: José Barnabé, um Levita, de família proveniente de Chipre, Maria e seu filho João Marcos, talvez também Ananias e Safira. todos de boa situação econômica. De Barnabé e do casal Ananias e Safira conta-se que doaram parte de suas Posses a comunidade (Atos 4, 36; 5,1 -11). Entre os judeus da diáspora, dar esmolas era altamente considerado. pode-se com isso ganhar um tesouro no céu (sabedoria 29,8) ou pagar pecados, como ocorre com o sacrifício no templo (Tobias 4,11; 12,8), aspecto muito importantes para a diáspora. Em Atos 2,42-47;4, 32-35 Lucas generalizou essas notícias isoladas em seus sumários, estilizando-as no sentido de uma (espontânea) comunhão de bens, fazendo referência a ideais tanto veterotestamentários quanto helenisticos de um início ou idade de ouro. Quanto às pessoas citadas nominalmente, contudo, sempre se diz que vendiam suas propriedades, colocando o dinheiro à disposição da comunidade; as poucas casas mantidas como propriedade eram necessárias como lugares de reunião (Atos12,12). Nos deparamos com uma comunhão de bens intracomunitária, ou, mais precisamente: pessoas bem situadas entre os judeus da diáspora (helenistas) abriram suas casas como lugares de reunião e – conforme a necessidade -colocavam seus recursos financeiros à disposição, para custear as refeições comunitárias (Atos 2, 46), assim como para socorrer os necessitados. com isso prestava-se principalmente auxílio aos discípulos Galileus de Jesus, que Como o próprio Jesus, em sua maioria não deveriam dispor de recursos. Além do mais, havia assim uma solução para o “problema das viúvas” citado em Atos 6,1: como se pode ver nos ossários gregos encontrados em Jerusalém, havia entre os retornados a Jerusalém um número Extraordinário de mulheres. Sem clã familiar, é possível que logo dependessem de ajuda material e, com certeza, do contato com as pessoas. As reuniões cristãs domésticas, abertas aos hóspedes, deveriam portanto oferecer boas perspectivas. Problemas podiam surgir do fato de o dinheiro dos bens vendidos ser depositado “aos pés dos Apóstolos” (Atos 4,35. 37;5, 2), com o que, inicialmente a administração estivesse nas mãos da facção da comunidade de língua aramaica, portanto dos 12. Entendemos que as reuniões das casas ocorriam em grupos segregados pela língua, mesmo que se deva ter colocado à disposição dos hebreus a casa de alguns helenistas. Analogamente, contudo, os hebreus tinham sua Pátria litúrgica do culto no templo, enquanto os helenistas a tinham no culto sinagogal, onde se falava Sua “língua materna”. O conteúdo que unia a comunidade era constituído pelas tradições de Jesus, que eram cultivadas nas casas. Em primeiro plano devia estar a tradição local da história da Paixão de Cristo. Duas questões devem ainda ser esclarecidas: Como ocorreu o primeiro contato com os helenistas? Isso tem a ver com a competência linguística. O que havia de tão atrativo nas tradições dos discípulos Galileus de Jesus para os Judeus da diáspora? Isso por sua vez, está em conexão com a morte de Estêvão. A RUPTURA FINAL ENTRE CRISTÃOS E JUDEUS Não se pode subestimar a importância histórica da ruptura entre os grupos da diáspora judaica e as comunidades cristãs. A divergência sobre as práticas judaicas não é a única razão dessa decisão que afastará durante séculos as duas religiões que têm a mesma Raiz e uma esperança escatológica semelhante. O acontecimento que precipita essa ruptura parcial é a emergência de um nacionalismo judaico radical. Trata-se De um acontecimento surpreendente. O nacionalismo, para os homens de hoje, é uma realidade bastante normal. Não era assim na época em que o império romano se constitui sobre os escombros da República. Naturalmente, os povos dos territórios conquistados por Roma às vezes resistem. Será o caso da Gália. Mas é uma revolta fugaz. As nações não existem. Ademais, Roma não é uma nação, do sentido moderno da palavra. É um império que estabelece suas leis sobre o mundo conhecido. Há prova melhor que o Egito? Trata-se de um país, uma tradição cultural, uma religião, um sistema econômico. Roma precisa de seus portos, de seu trigo, talvez até de sua ciência. O Egito poderia ter demonstrado o seu mau humor, mas funde-se no Império Romano sem resistência aparente, como se essa fusão fosse natural. Certo: Alexandre passou por lá. Ele impôs uma dinastia, mas era um conquistador, isto é, uma espécie de Imperador. Não deseja carregar a nação grega em sua bagagem. Aliás, adotou os deuses e os costumes da Ásia. portanto há 2000 anos o nacionalismo é um anacronismo. Mas a nação Judaica se revolta. Em nome de seu prestigioso passado. Prestigioso para seu povo; os romanos consideram os judeus apenas uma gente insuportável e provocadora. A Batalha começa por volta de 66-67. Durará cerca de 4 anos. Os judeus não tinham a mínima chance de vencer. Morrem aos milhares. Jerusalém e as principais cidades da Galiléia são aniquiladas. Massada, último Bastião da Resistência judaica, animados pelos zelotes, cai em 73 D.C. para o povo judeu é uma catástrofe. Agora ele estará reduzido à diáspora; esta, com uma coragem obstinada, começará a repetir: “ano que vem em Jerusalém”. Os cristãos viram o drama chegar. Tudo indica quê eles se separaram. Tiago, Bispo de Jerusalém, fora apedrejado em 62D.C. A crer nos relatos de Testemunhas (duvidosas), os fariseus é que tinham imposto a Sentença de Morte. Por que? As relações entre os dois povos grupos não costumavam ser más. Eusébio de Cesaréia, escrevendo por volta de 325, considera que os fariseus temiam a influência de Tiago sobre o povo de Jerusalém. Porém, o Bispo se opunha ao crescimento do nacionalismo zelote; como a maioria dos cristãos, ele considerava um impasse essa revolta da qual todo mundo falava. O reino de Jesus não estava na Ponta das espadas. A morte de Tiago seria um dos prenúncios da Batalha queria começar. Em 66 DC a comunidade cristã de Jerusalém retira-se para péla, na transjordânia. É uma opção e liberada. Essa comunidade não quer se deixar arrastar para essa guerra; deseja sobreviver. É Simeão, primo de Jesus e sucessor de Tiago que conduz esse Êxodo limitado. Mas para os judeus, Como para os cristãos, está decidido, os dois grupos sabem que já não seguem o mesmo caminho. No entanto, nem todos os cristãos devem ter se encontrado em Péla. Estima-se hoje que muitos membros das Comunidades cristãs próximas ao centro do conflito foram dissolvidas pelo conflito. Por exemplo, a comunidade da Galileia, que não deixou qualquer vestígio. Ativa, numerosa antes de 66, desaparece depois de 70. Não é um caso isolado. Lembramos que os judeus, agarrados ao pequeno território da Palestina, não são muito numerosos. Constituem clãs que muitas vezes são Aliados entre si. O problema da participação ou não-participação na guerra certamente divide a maioria das famílias. Em todo caso, para o povo Judeu o trauma será imenso. Em 70, Tito toma Jerusalém e arrasa o Templo; o número de vítimas entre os judeus é ignorado. Mas os romanos são implacáveis. Para Eles, os judeus são uma pequena mancha no imenso mapa do Império em formação. Para os cristãos, a ruptura de fato com a Comunidade Judaica está feita. Com isso, a igreja perde o centro. É certo que Antióquia tem um papel que não é desprezível. Mas jamais será uma capital. A partir desse instante, Roma se impõe por diversas razões. Primeiro, por ser a capital do império e pelo fato de que o cristianismo vai se enraizar nas cidades dominantes do mundo conhecido. Depois, por ser o local onde Pedro e Paulo morreram. Pedro provavelmente foi assassinado em 64 por Nero, após o incêndio de Roma. É possível que os romanos só tenham conseguido encontrar o apóstolo graças a uma denúncia anônima, Como manda o figurino. vemos que o processo é antigo. É óbvio que essa denúncia certamente partilha dos meios judaico-cristãos. A guerra pró ou contra o nacionalismo judeu se teria prolongado até Roma. Paulo morreram em condições semelhantes, em 67. Em todo caso, os dois homens já não estavam mais neste mundo quando eclode a revolta. Para os cristãos, contudo, a morte em Roma dos dois pilares da igreja é um sinal. Ainda se passarão alguns séculos antes que o Bispo de Roma se torna efetivamente o chefe da igreja. Mas, desde os anos 65 – 70, está decidido: o centro da igreja fica em Roma. Simplesmente porque o Bispo de roma é o sucessor de Pedro, e porque este, está enterrado em Roma. #MacauGoaAngolaMoçambiqueCaboverdeGuinéBissauGuinéEquatorialSãotoméeprincipeEUAfrançaparisgeorgiaportugalMacedôniabelarusRússiapaquistãoIrãCoreiaEgipto #MacauGoaAngolaMoçambiqueCaboverdeGuinéBissauGuinéEquatorialSãotoméePrincipeEUAfrançaparisgeorgiaportugalmacedoniabelarusrussiapaquistãoIrãnCoreiaEgiptoAr #UzbequistãoLaosMauritâniaIêmemAfeganistãoMaldivasSomáliaArábiaSauditaIrãCoréiadoNorte #históriadaigrejaprimitiva #Cristologia #Igreja
- Cronologia de eventos desde a morte de Maomé até a proclamação da Primeira Cruzada
Assista ao vídeo a seguir e tire suas conclusões caso ainda restem dúvidas (E divulgue este post para seus amigos!): Segue abaixo uma breve cronologia dos eventos que ocorreram desde a morte de Maomé, até a proclamação da primeira cruzada: Século VII 632: Maomé morre. 633: Mesopotamia cai face à invasão muçulmana. Segue-se a queda de todo o Império Persa. 635: Damasco cai. 638: Jerusalém é capitulada. 643: Alexandria cai terminando assim 100 anos de cultura helénica. 648: Chipre é atacado. 649: Chipre cai. 653: Rodas cai. 673: Constantinopla é atacada. 698: Todo o Norte da África é tomado pelos muçulmanos. São apagados os vestígios de cultura romana. Século VIII 711: Hispânia é atacada. O reino visigodo colapsa. 717: Os muçulmanos atacam Constantinopla de novo e são repelidos pelo Imperador Leão III. 720: Narbona cai. 721: Saragoça cai. Avistamentos de muçulmanos na França. 732: Bordeus é atacada e as suas igrejas são queimadas. Carlos Martel e o seu exército detêm os muçulmanos. Os ataques na França continuam. 734: Avinhão capturada por uma expedição muçulmana. 743: Lyon é saqueada. 759: Os árabes são expulsos de Narbona. Século IX 800: Começam as incursões muçulmanas na península itálica. As ilhas de Ponza e Isquia são saqueadas. 813: Civitavecchia, o porto de Roma, é saqueado. 826: Creta cai perante as forças muçulmanas. 827: Os muçulmanos começam a atacar a Sicilia (sul da península itálica). 837: Nápoles repele um ataque muçulmano. 838: Marselha saqueada e conquistada. 840: Bari cai. 842: Mesina capturada e o estreito de Mesina controlado pelos muçulmanos. 846: Os esquadrões muçulmanos chegam a Ostia, na foz do Tiber, e saqueiam Roma e a Basílica de Sao Pedro. Tarento, em Apulia, é conquistado pelas forças muçulmanas. 849: O exército do Papa repele uma frota muçulmana na foz do Tiber. 853-871: A costa italiana desde Bari até Reggio Calabria é controlada pelos sarracenos. Os muçulmanos semeiam o terror no Sul de Itália. 859: Os muçulmanos tomam controle de toda a Mesina. 870: Malta capturada pelos muçulmanos. Bari reconquistada aos muçulmanos pelo Imperador Luis II. 872: O Imperador Luis II derrota uma frota sarracena em Capua. As forças muçulmanas devastam Calabria. 878: Siracusa cai após um cerco de 9 meses. 879: O Papa João VII é obrigado a pagar aos muçulmanos um tributo anual de 25.000 mancusos (cerca de 625.000 dólares americanos modernos). 880: Os comandantes bizantinos conseguem uma vitória em Nápoles. 881-921: Os muçulmanos capturam uma fortaleza em Anzio e saqueiam as terras circundantes sem retaliações durante 40 anos. 887: Os exércitos muçulmanos tomam Hysela e Amasia, na Asia Menor. 889: Toulon capturado. Século X 902: As frotas muçulmanas saqueiam e destroem Demetrias, na Tesalia, Grécia central. 904: Tesalónica cai perante as forças muçulmanas. 915: Após 3 meses de bloqueio, as forças cristãs saem vitoriosas contra os sarracenos entrincheirados na sua fortaleza no norte de Nápoles. 921: Peregrinos ingleses a caminho a Roma são esmagados por uma derrocada de rochas causada pelos sarracenos nos Alpes. 934: Génova atacada pelos muçulmanos. 935: Génova conquistada. 972: Os sarracenos são finalmente expulsos de Faxineto. 976: O Califa do Egito envia novas expedições muçulmanas ao sul de Itália. O Imperador Oto II, que tinha o seu quartel general em Roma, consegue derrotar os sarracenos. 977: Sérgio, arcebispo de Damasco, é expulso da sua sede pelos muçulmanos. 982: As forças do Imperador Oto II são emboscadas e derrotadas. Século XI 1003: Os muçulmanos de Espanha saqueiam Antibes, na França. 1003-1009: Hordas de saqueadores sarracenos provenientes de bases na Sardenha saqueiam a costa italiana desde Pisa até Roma. 1005: Os muçulmanos da Espanha saqueiam Pisa. 1009: O Califa do Egipto ordena a destruição do Santo Sepulcro em Jerusalém, a tumba de Jesus. 1010: Os sarracenos apoderam-se da Cosenza, no Sul da Itália. 1015: A Sardenha cai completamente em poder muçulmano. 1016: Os muçulmanos de Espanha saqueiam de novo Pisa. 1017: Frotas de Pisa e Génova dirigem-se à Sardenha e encontram os muçulmanos a crucificar cristãos e expulsam o líder muçulmano. Os sarracentos tentaram retomar a Sardenha até 1050. 1020: Os muçulmanos de Espanha saqueiam Narbona. 1095: O Imperador bizantino Aleixo I Comneno pede ao papa Urbano II ajuda contra os turcos. 1096: É proclamada a Primeira Cruzada. #maome #eventos #desde #cronologia #primeira #proclama #morte
- Ir à Missa é “remédio para melhorar a saúde física e mental”, assegura cientista de Harvard
(ACI).- Em uma coluna publicada no jornal americano ‘USA Today’, Tyler J. VanderWeele, professor de epidemiologia na Universidade de Harvard, e John Siniff, especialista em comunicações, qualificaram a participação regular na Missa como um “remédio para melhorar a saúde física e mental”. O artigo do ‘USA Today’, intitulado “A religião poderia ser um medicamento milagroso”, aponta os resultados de um estudo liderado por VanderWeele e publicado em maio de 2016 na prestigiosa revista de psiquiatria JAMA Psychiatry, da Associação Americana de Medicina. O estudo, intitulado “Associação entre assistência a serviços religiosos e menores taxas de suicídio entre mulheres norte-americanas”, concluiu que “a participação frequente nos serviços religiosos estava associada com uma taxa significativamente mais baixa de suicídio”. VanderWeele e Siniff assinalaram que “a saúde e a religião estão muito ligadas” e, de acordo com o estudo publicado em meados deste ano, os adultos que vão à Missa pelo menos uma vez por semana, em comparação com aqueles que nunca vão, “apresentam um menor risco de morte na próxima década e meia”. “Os resultados foram replicados em suficientes estudos e populações para ser considerados bastante confiáveis”, asseguraram. Embora garantiram que “a ciência não se adere a uma fé ou outra, nem sugere o que a sociedade deve fazer com essa informação”, destacaram que tanto a sociedade como cada pessoa poderiam aproveitar estes resultados. “Os meios informativos, a academia e o público em geral poderiam usar esta nova compreensão do grande valor social da religião”, indicaram. Já para cada pessoa, “esta investigação convida não tão sutilmente a reconsiderar o que a religião pode fazer por eles”. As pessoas que participam da Missa, assinalaram, “estão menos propensas a fumar, ou mais propensos a parar de fumar, causando benefícios significativos para a saúde”. Além disso, destacaram, “a investigação de Harvard e outras indicam que, possivelmente devido a uma mensagem de fé ou esperança, pessoas que participam da Missa são mais otimistas e têm menores taxas de depressão. A investigação de Harvard também mostrou que esta participação protege contra o suicídio”. “Outros descobriram que as pessoas que vão à igreja asseguram ter um propósito maior na vida e desenvolvem mais autocontrole”. Enquanto alguns norte-americanos substituíram a participação da Missa, que “é vista como ‘pitoresca e antiquada’, pela “espiritualidade”, VanderWeele e Siniff reforçaram que ir à igreja, e não a uma “espiritualidade privada ou prática solitária”, geram benefícios para a saúde. “Algo na participação religiosa comunitária parece ser essencial”, assinalaram. Participar da Missa, disseram, “demostrou que aumenta a probabilidade de um matrimônio estável, aumenta o sentido próprio de significado e se estende à própria rede social”, assim como “leva a maiores doações caritativas e um maior voluntariado e compromisso cívico”. VanderWeele e Siniff destacaram que “algo na experiência e participação religiosa comunitária é importante. Algo poderoso parece suceder aí e melhora a saúde”. “Isto tem importantes implicações para o grau em que a sociedade promove e protege as instituições religiosas”, entre outros, assinalaram. #Missa
- A TRANQUILIDADE DOS PECADORES DENTRO DE NOSSAS IGREJAS
São Paulo diz que a fé entra pelos ouvidos. E a conversão se dá com o acolhimento e adesão à Palavra de Deus. Só existe conversão sincera e verdadeira quando deixamos o pecado que nos separa de Deus e nos dispomos a obedecer os mandamentos seguindo o que Cristo determinou. Porém, o que acontece hoje em boa parte de nossas Igrejas é que a doutrina de Nosso Senhor Jesus Cristo não tem sido pregada, de modo que grande parte das pessoas que têm vivido em pecado, e permanecem nessa situação sem serem incomodadas. Os amasiados (que vivem juntos sem serem casados) vão à missa e não sentem necessidade de se casar na Igreja, pois: ou não se fala da gravidade desse pecado ou se apresenta um “deus” tão misericordioso, que não se importa com essas coisas…; Os casais casados que evitam filhos por meios artificiais (pílulas anticoncepcionais, preservativos, DIU, etc.) o u que abusam dos métodos naturais ou fazem fazem cirurgias para não terem mais filhos (ligação de trompas e vasectomia) seguem como se isso não fosse nenhum problema…; Maçons, espíritas, adeptos de falsas crenças vão à missa e permanecem tranquilos nestes seguimentos, pois a maior parte dos sacerdotes e bispos não pregam mais a doutrina católica que condena essas falsas doutrinas; Os que assistem novelas e BBBs, os que frequentam carnavais, discotecas e bailes e shows mundanos vão à Igreja e continuam tranquilos em suas diversões lascivas; Os que têm namoro escandaloso, os que consomem pornografia, os jovens que têm o hábito de “ficar” , também não são incomodados; Os que apoiam e/ou votam em partidos que defendem a legalização do aborto, a união homossexual, a Ideologia de Gênero e a liberalização da drogas , como o PT, PC do B, PV, PSOL, PDT, PPS, PSTU e outras porcarias do gênero, vão à missa, muitos até comungam e acham isso perfeitamente normal; Muitas moças e mulheres (e também homens) se habituaram ir às igrejas com vestes indecentes, decotadas, coladas sensuais , etc.pois ninguém lhes corrige…ou lhes ensina que “o que importa é o coração”; Pessoas que têm ódio, que alimentam desejo de vingança ou não perdoam as ofensas , vão a fila da comunhão como se isso não fosse nenhum impedimento; Nunca foi tão atual a exclamação de Deus: “Meu povo se perde por falta de conhecimento” (Os. 4,6). Leia também Porque muitos, mesmo dentro da Igreja, estão a caminho do inferno? PORQUE MUITAS PESSOAS, MESMO INDO ÀS MISSAS, NÃO MUDAM DE VIDA E CONTINUAM EM SEUS PECADOS? Porque permanecem tranquilas em seus erros e até se acham “boas cristãs” pelo fato de terem alguma prática religiosa? Porque mesmo indo à Igreja não se convertem? A maior parte não muda de vida e permanece tranquila em seus pecados porque a verdade não lhes tem sido pregada a partir dos púlpitos de nossas igrejas. A maior parte das pessoas permanecem em seus pecados porque seus sacerdotes não as confronta com a verdade da Palavra de Deus nem denunciam seus pecados para que se arrependam, se confessem e se convertam. Falta a verdade… Falta uma pregação clara que mostre o que é certo e o que é errado, o que é coerente ou não com a fé que professamos… Falta a caridade… Falta um verdadeiro amor que leve os pastores de almas a se preocuparem mais com a salvação de suas ovelhas do quem com o próprio bem estar. Leia também PECADO MORTAL – O OBSTÁCULO PARA NOSSA SALVAÇÃO A maior parte de nosso povo vive uma farsa e tem chamado isso de religião, quando na verdade não passa do seguimento de suas próprias ideias, não se importando para o que ensina a Palavra de Deus… pois na verdade, desconhecem a Palavra; e quase nada sabem de Jesus Cristo e de sua Lei, pois quem deveria ensinar não o faz. Pensam que é possível seguir as coisas do mundo e permanecer na amizade com Deus… ignoram solenemente a advertência do apóstolo que diz: “Quem quer ser amigo do mundo torna-se inimigo de Deus”(Tg. 4,4) ou do próprio Cristo que deixa muito claro: “Ninguém pode servir a dois senhores…“ (Mt. 6,24). É necessário fazer o povo despertar dessa anestesia em que se encontra para que possa perceber a tempo sua incoerência e voltar a Deus, deixando seus maus caminhos e retornando à verdade do Evangelho. Feliz o povo que tem quem o corrija… feliz as ovelhas que têm pastores que as conduza na verdade e no caminho estreito que leva à salvação eterna. Que os padres e bispos despertem para salvarem o povo que lhes foi confiado. Que os pais e mães eduquem seus filhos na fé. Que gastem tempo na oração e na formação cristã de seus filhos para que estes conheçam a verdade e a façam valer em suas vidas. Leia também Exame de Consciência para uma boa Confissão A meta mais importante e fundamental da vida de um cristão é a sua salvação eterna , que depende diretamente da perseverança na graça de Deus, que por sua vez depende da determinação de afastar da própria vida todo pecado mortal que nos separa de Deus. A pregação dos padres, bispos e missionários precisa incomodar os fiéis que estão vivendo em pecado mortal, de modo que esses possam compreender a malícia do pecado e assim se motivarem a romper com todas as situações que os impeça de receber Jesus na Santíssima Eucaristia. Quem comunga dignamente o Santíssimo Corpo de Deus, está no caminho de salvação. Porém, SÓ podem comungar os que estão na graça, ou seja, sem pecado mortal. Que nosso povo desperte do sono da morte do pecado e acorde para viver na graça e na verdade, pois nossos dias são breves e nosso juízo está muito próximo. Templário de Maria Leia também Padre José Augusto: Quem comunga em pecado mortal, comunga sua própria condenação! #confissão #homossexualidade #Conversão #Comunhão #Eucaristia #Eleições #AbusosLitúrgicos #LGBT #Santidade #Catequese #Comunismo #Liturgia #IdeologiadeGênero #Crisenaigreja #IgrejaCatólica
- A TRANQUILIDADE DOS PECADORES DENTRO DE NOSSAS IGREJAS
São Paulo diz que a fé entra pelos ouvidos. E a conversão se dá com o acolhimento e adesão à Palavra de Deus. Só existe conversão sincera e verdadeira quando deixamos o pecado que nos separa de Deus e nos dispomos a obedecer os mandamentos seguindo o que Cristo determinou. Porém, o que acontece hoje em boa parte de nossas Igrejas é que a doutrina de Nosso Senhor Jesus Cristo não tem sido pregada, de modo que grande parte das pessoas que têm vivido em pecado, e permanecem nessa situação sem serem incomodadas. Os amasiados (que vivem juntos sem serem casados) vão à missa e não sentem necessidade de se casar na Igreja, pois: ou não se fala da gravidade desse pecado ou se apresenta um “deus” tão misericordioso, que não se importa com essas coisas…; Os casais casados que evitam filhos por meios artificiais (pílulas anticoncepcionais, preservativos, DIU, etc.) o u que abusam dos métodos naturais ou fazem fazem cirurgias para não terem mais filhos (ligação de trompas e vasectomia) seguem como se isso não fosse nenhum problema…; Maçons, espíritas, adeptos de falsas crenças vão à missa e permanecem tranquilos nestes seguimentos, pois a maior parte dos sacerdotes e bispos não pregam mais a doutrina católica que condena essas falsas doutrinas; Os que assistem novelas e BBBs, os que frequentam carnavais, discotecas e bailes e shows mundanos vão à Igreja e continuam tranquilos em suas diversões lascivas; Os que têm namoro escandaloso, os que consomem pornografia, os jovens que têm o hábito de “ficar” , também não são incomodados; Os que apoiam e/ou votam em partidos que defendem a legalização do aborto, a união homossexual, a Ideologia de Gênero e a liberalização da drogas , como o PT, PC do B, PV, PSOL, PDT, PPS, PSTU e outras porcarias do gênero, vão à missa, muitos até comungam e acham isso perfeitamente normal; Muitas moças e mulheres (e também homens) se habituaram ir às igrejas com vestes indecentes, decotadas, coladas sensuais , etc.pois ninguém lhes corrige…ou lhes ensina que “o que importa é o coração”; Pessoas que têm ódio, que alimentam desejo de vingança ou não perdoam as ofensas , vão a fila da comunhão como se isso não fosse nenhum impedimento; Nunca foi tão atual a exclamação de Deus: “Meu povo se perde por falta de conhecimento” (Os. 4,6). Leia também Porque muitos, mesmo dentro da Igreja, estão a caminho do inferno? PORQUE MUITAS PESSOAS, MESMO INDO ÀS MISSAS, NÃO MUDAM DE VIDA E CONTINUAM EM SEUS PECADOS? Porque permanecem tranquilas em seus erros e até se acham “boas cristãs” pelo fato de terem alguma prática religiosa? Porque mesmo indo à Igreja não se convertem? A maior parte não muda de vida e permanece tranquila em seus pecados porque a verdade não lhes tem sido pregada a partir dos púlpitos de nossas igrejas. A maior parte das pessoas permanecem em seus pecados porque seus sacerdotes não as confronta com a verdade da Palavra de Deus nem denunciam seus pecados para que se arrependam, se confessem e se convertam. Falta a verdade… Falta uma pregação clara que mostre o que é certo e o que é errado, o que é coerente ou não com a fé que professamos… Falta a caridade… Falta um verdadeiro amor que leve os pastores de almas a se preocuparem mais com a salvação de suas ovelhas do quem com o próprio bem estar. Leia também PECADO MORTAL – O OBSTÁCULO PARA NOSSA SALVAÇÃO A maior parte de nosso povo vive uma farsa e tem chamado isso de religião, quando na verdade não passa do seguimento de suas próprias ideias, não se importando para o que ensina a Palavra de Deus… pois na verdade, desconhecem a Palavra; e quase nada sabem de Jesus Cristo e de sua Lei, pois quem deveria ensinar não o faz. Pensam que é possível seguir as coisas do mundo e permanecer na amizade com Deus… ignoram solenemente a advertência do apóstolo que diz: “Quem quer ser amigo do mundo torna-se inimigo de Deus”(Tg. 4,4) ou do próprio Cristo que deixa muito claro: “Ninguém pode servir a dois senhores…“ (Mt. 6,24). É necessário fazer o povo despertar dessa anestesia em que se encontra para que possa perceber a tempo sua incoerência e voltar a Deus, deixando seus maus caminhos e retornando à verdade do Evangelho. Feliz o povo que tem quem o corrija… feliz as ovelhas que têm pastores que as conduza na verdade e no caminho estreito que leva à salvação eterna. Que os padres e bispos despertem para salvarem o povo que lhes foi confiado. Que os pais e mães eduquem seus filhos na fé. Que gastem tempo na oração e na formação cristã de seus filhos para que estes conheçam a verdade e a façam valer em suas vidas. Leia também Exame de Consciência para uma boa Confissão A meta mais importante e fundamental da vida de um cristão é a sua salvação eterna , que depende diretamente da perseverança na graça de Deus, que por sua vez depende da determinação de afastar da própria vida todo pecado mortal que nos separa de Deus. A pregação dos padres, bispos e missionários precisa incomodar os fiéis que estão vivendo em pecado mortal, de modo que esses possam compreender a malícia do pecado e assim se motivarem a romper com todas as situações que os impeça de receber Jesus na Santíssima Eucaristia. Quem comunga dignamente o Santíssimo Corpo de Deus, está no caminho de salvação. Porém, SÓ podem comungar os que estão na graça, ou seja, sem pecado mortal. Que nosso povo desperte do sono da morte do pecado e acorde para viver na graça e na verdade, pois nossos dias são breves e nosso juízo está muito próximo. Templário de Maria Leia também Padre José Augusto: Quem comunga em pecado mortal, comunga sua própria condenação! #confissão #homossexualidade #Conversão #Comunhão #Eucaristia #Eleições #AbusosLitúrgicos #LGBT #Santidade #Catequese #Comunismo #Liturgia #IdeologiadeGênero #Crisenaigreja #IgrejaCatólica














































