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DIONÍSIO, BISPO DE ROMA (259-269)

14 de mar de 2018
3 min de leitura

Sobre a trindade e a encarnação ATANÁSIO, De decretis, 26 [Atanásio cita, criticando certas expressões, a carta de Dionísio a Dionísio alexandrino (247)-265). A correspondência entre os dois Dionísios ilustra bem dois pontos de importância para a história da teologia. 1° O caminho da ortodoxia é estreito: em muitos lugares costeia dois extremos opostos, entre duas heresias antagônicas. Assim, por desejar acabar com o monarquismo sabeliano, Dionísio de Alexandria descamba para o triteísmo. 2° É imprescindível um vocabulário comum a todos e tecnicamente apropriado, bem o demonstra a nota que encerra esta citação.]

Inclino-me naturalmente a combater os que dividem, retalham e destroem a doutrina mais veneranda da igreja, isto é, a monarquia de Deus, reduzindi-a a três poderes e a três substâncias separadas (hypostáseis), em suma, a três divindades. Segundo me dizem, vários dos vossos catequistas e doutores da palavra estão ensinando esta doutrina, colocando-se numa posição, por assim dizer, diametralmente oposta à de Sabelio. Enquanto Sabélio afirma blasfematoriamente que o filho é o pai, e que o pai é o filho, eles, a seu modo, ensinam que há três deuses. Dividem a sagrada Mônada em três substâncias estranhas entre si e absolutamente separadas. A verdade é que o verbo de Deus deve, por necessidade, estar unido ao Deus do universo e que o espírito santo deve habitar em Deus. Portanto, é absolutamente imprescindível que a trindade divina esteja absorvida e reunida numa só Unidade, que seja conduzida a um único ápice. É por esta unidade que eu entendo o criador onipotente do universo…. Não menor censura merecem os que fazem uma criatura. Os Divinos Oráculos em parte alguma declaram ser ele criatura ou feitura, mas sempre afirmam ser o fruto de uma geração própria e conveniente ao verbo. Pois, se o verbo viesse a ser um filho, existiria um tempo em que Ele ainda não existia. Ora, Ele sempre existiu, pois, como ele mesmo declara, Ele está no pai. Aliás, conforme vedes nas escrituras, Cristo é verbo, sabedoria e poder, atributos estes próprios de Deus. Logo, se o filho tivesse começado a existir, haveria um tempo em que tais atributos não existiriam, em que Deus careceria deles; e isto é um grande absurdo…. Não se deve, pois, dividir em três divindades a admirável Mônada de Deus. Tampouco se deve rebaixar a dignidade e majestade incomensuráveis do S, apresentando-o como uma “criatura”, porém, devemos crer em DEUS pai todo-poderoso, em Jesus Cristo, seu filho, e no Espírito santo, tendo por certo que o verbo está unido ao Deus do universo, pois ele mesmo diz: “Eu estou no pai e o pai em mim”, e ainda, eu e o pai somos um”. Assim fazendo, tanto a santa trindade como a santa pregação da Monarquia de Deus estarão preservadas.

[Nota relativa aos termos hypoóstasis e oysía: ambas as palavras significam em sua origem uma mesma coisa: o substrato de toda realidade, aquilo que constitui a realidade de seu próprio ser, sua essência.

O uso porém, conferiu dois sentidos, um geral e outro particular. 1° Geral: essência universal da qual participam todos os participantes de uma espécie, por exemplo, todos os homens participam da hypostásis comum da “humanidade” em virtude da qual cada um deles é homem. 2° particular: a essência individual em virtude da qual o indivíduo é ele mesmo. Dizemos, preferencialmente, personalidade ou pessoa”. João Pereira é, portanto João Pereira precisamente por causa de uma hipóstase que poderíamos chamar de “João Pereiraidade”.

Ora, acontece que Dionísio Alexandrino usa hypóstasis no segundo sentido, enquanto Dionísio Romano o entende no primeiro. Sem dúvida, muitos cairão em heresia por não compreender a significação exata do vocabulário teológico de Dionísio Alexandrino.

Idêntica ambiguidade acompanha o termo oysíaque era, no século quarto sinônimo de hypóstasis ( no credo de Nicéia e em Atanásio). Os três capadócios (Basílio magno, Gregório de Nissa e Gregório Nazianzeno) são os responsáveis pela distinção que, gradativamente, se tornará clássica entre oysía, reservada ao primeiro sentido, e hypóstasis, ao segundo. O termo essentia, equivalente exato de oysía nunca chegou a ser popular. Assim se explica a posterior dificuldade entre os dois Dionísios – um pensando em greco, outro pensando em latim – dificuldade, aliás, generalizada entre ocidente e oriente. Os teólogos gregos tentaram evitar o termo prósôpon para traduzir o segundo sentido por causa de Sabélio, que o usava para descrever uma função meramente temporal. Usaram, pois, o termo hypóstasis para traduzir o que os latinos podiam livremente expressar com a palavra bem mais natural de persona, Equivalente exato de prósôpon.

 
 
 

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