DE JERUSALÉM AO VATICANO: A PEREGRINAÇÃO DO PAPADO PARTE IV

A TRADIÇÃO DE JESUS SEPAROU
Podemos verificar a crítica de Estevão ao templo que constituía a pedra de toque nas sinagogas da diáspora. Podemos perceber essa visão de separação em Lucas, com a justiça feita por linchamento, descrever o formato concreto dessa crítica pode ser difícil para alguns que não entenderam o significado da nova aliança, Lucas coloca Estevão numa mesma linha de tradição com Jesus. Ele faz afirmar contra Estevão a mesma acusação que, segundo a tradição Cristã primitiva, foi feita ao próprio Jesus (Marcos 14,58). Ele, Estevão, teria afirmado: “Jesus de Nazaré destruirá este lugar” (Atos 6, 14). Chega-se assim ao ponto teológico conclusivo dessa crítica ao templo, quando a morte de Jesus é interpretada como o seu cumprimento nesse ato Deus mesmo teria estabelecido Jesus como instrumento de expiação (do Novo Tempo), abolindo assim a eficácia do culto ligado ao templo de Jerusalém. portanto não há mais atuação de Deus entre o povo Judeu a partir desse momento, a espiritualidade é relacionada a nova aliança, não existe mais a um culto Judaico, não existem mais sacrifícios de animais para a expiação dos pecados, todas as aparentes expiações que o Sumo Sacerdote anualmente executava, aspergindo com sangue o altar da expiação no interior do Santo dos Santos (Levíticos 3,25), são assim declaradas ineficazes – diante da única inspiração realizada por Deus no sangue de Jesus: “Deus o [Jesus] designou para servir de meio da expiação do pecado, pela sua morte sacrifical (hilastérion)… em seu sangue… porque no tempo de sua tolerância tinha passado por cima dos pecados de outrora…” (Romanos 3,25). Justamente essa identificação material de Jesus com o altar da expiração encontra seu correspondente na concepção da comunidade como templo (1Coríntios 3,16). Ambos os aspectos são tão excepcionais nas epístolas autênticas de Paulo que devemos estar diante de antigas tradições, que Paulo provavelmente aprendeu em Antióquia, no âmbito de ação dos sucessores dos sete. Independentemente de o quanto essa provocadora teologia do templo já estava desenvolvida com Estevão, ela está conectada à crítica ao templo feita por Jesus e a leva claramente adiante com espírito desafiador.
Por que semelhante crítica ao templo é atrativa exatamente para os Judeus da diáspora, que tinham vindo a Jerusalém justamente por causa do templo? Para os judeus da diáspora o templo era pura e simplesmente o símbolo da identificação: eles remetiam seus impostos ao santuário de Jerusalém, constituindo assim uma rede de judeus pelo mundo inteiro. Contudo, na diáspora eles praticavam um culto que, contrariamente aos templos pagãos, ocorria sem sacrifício cruento e sem atividades em templo algum. Eles viam nisso a superioridade de sua própria religião. O culto é evento da palavra, o culto é espiritualizado. Orações são designadas como sacrifícios,em vista do perdão dos pecados as molas substituem os sacrifícios cruentos. Na diáspora os judeus designavam suas sinagogas com o mesmo conceito que também utilizam para o Templo de Jerusalém: (casa de oração). Quando chegavam à terra de Israel, contudo, podiam surgir Muitas decepções acerca da (casa de oração). Lá se realizavam sacrifícios cruentos, o comércio florescia, como em qualquer templo Pagão. É claro que nem todos viam as coisas dessa maneira, principalmente aqueles que tinham conseguido estabelecer-se em Jerusalém e logrado bom contato com a classe alta dos saduceus, bem como com a aristocracia do templo, que por sua vez, culturalmente, era fortemente helenizada. Outros, porém, menos bem-sucedidos e por isso também decepcionados, não só conseguiam retratar-se na crítica de Jesus ao templo, mas descobrir também no Novo Templo uma perspectiva escatológica. Nesse Horizonte é possível esclarecer o conflito dentro das Sinagogas da diáspora narrada exemplarmente em Atos 6,8 – 7,60, assim como continuidade da questão, ou seja, o porta-voz dos insatisfeitos, Estevão é conduzido ao sinédrio, diante do Sumo Sacerdote.
OS SETE DIÁCONOS
Um incidente narrado nos atos, apesar de maneira Prudente como está redigido, permite ver claramente as consequências desta oposição. “Por aqueles dias, havendo crescido o número dos discípulos, ouve queixa dos helenistas contra os hebreus, Porque as viúvas daqueles eram mal atendidas na distribuição cotidiana” (atos 6, 1). Aparentemente, trata-se apenas de um pequeno detalhe, mas que tem grande peso. É por estes pormenores que se avalia a credibilidade do relato, Sublime sob tantos aspectos, mas não mascarado pelo autor com cores idílicas. O regime comunitário tinha criado problemas muitos concretos, tanto administrativos como de distribuição; a natureza humana, por muito santa que seja, acaba sempre sendo parcial com os seus amigos. Os helenista receavam ser tratados como Cristão de segunda categoria, particularmente no momento em que se distribui as ajudas, e esse fato foi, no terreno prático, o resultado daquela tensão espiritual que já foi relatado anteriormente.
Em pouco tempo, as reclamações tornaram-se tão forte que houve necessidade de se procurar uma solução urgente. Quando em Roma, no século V A.C., a Plebe se mostrava descontente com o regime e se retirara da cidade, disposta à rebelião, tinham sido no olhar dos magistrados especialmente Os Escolhidos dentre os próprios plebeus encarregado de defender os seus interesses: os tribunos da Plebe. Idêntico raciocínio levou a comunidade cristã a dar aos helenistas as mesmas garantias, nomeando uma espécie de funcionários escolhidos dos grupos de fora da Palestina; estes procurariam Fazer Reinar a equidade entre os dois grupos da igreja, aliviando ao mesmo tempo os apóstolos das tarefas administrativas.
Instituíram-se assim os diáconos, por proposta dos doze e com o assentimento de toda a comunidade. Eram inicialmente em número de sete, talvez porque o Conselho Municipal das cidades judaicas eram compostos por sete membros, ou ainda porque a segunda multiplicação dos pães, feitos por Jesus em terra helenística, na decápole (Marcos 8, 1-9), símbolo da conversão dos gentios, fora realizado com sete pães e deixara sete cestos de restos. Esses homens eram todos de origem da helênica, como provam os seus nomes: Estevão, Filipe, prócor, Nicanor, Tímon, Parnemas e Nicolau; Este último era até um prosélito de Antioquia, Isto é, um grego convertido.
De que se ocupariam esses novos subchefes da Comunidade? em primeiro lugar, da administração, Pois para isso haviam sido nomeados; mas certamente tratariam também da pregação e da propaganda. O seu caráter sagrado não podia ser posto em dúvida, pois à nomeação seguira-se uma cerimônia em que os apóstolos lhes haviam imposto as mãos, invocando sobre eles as graças do Espírito Santo. Uma vez sagrados, não são apenas ministros de munus, de uma missão material, mas passam a fazer parte da hierarquia, e o seu título ficará associado na igreja ao sacramento da ordem, constituindo um dos seus graus indispensáveis, vemos aqui uma tradição Apostólica seguida pela Igreja, essa tradição é sempre colocada em prática com se acha necessário resolver problemas que não estão em nenhum manual, vemos a Igreja utilizar da sua autoridade Apostólica para levar um desenvolvimento da doutrina e uma melhor compreensão das orientações da mesma.
“Vede – dissera Jesus – eis que vos envio profetas, sábios e doutores. Deles matareis e crucificareis uns e açoitareis outros em vossas sinagogas. Persegui-los-eis de cidade em cidade, para que caia sobre vós todo sangue inocente derramado sobre a terra… Em verdade vos digo: tudo isto virá sobre esta geração (Mateus 23,34 – 36). Trinta anos mais tarde, quando Jerusalém se tornar “a casa deserta” predita por Cristo, a morte do primeiro mártir terá sido resgatada por uma imensidade de dor; mas terá contribuído poderosamente para espalhar a boa nova, dando ao cristianismo o primeiro dos testemunhos assinados com sangue.
Após a morte de Estêvão foi desencadeado um movimento em Jerusalém de dentro para fora. Mas os atingidos foram apenas dos membros dirigentes do Círculo de Estevão. Nos Atos dos Apóstolos eles são indicados com a designação “os dispersos” (Atos 8,4; 11,19). Tradições exemplares, que Lucas integrou em Sua obra, noticiam acerca de Felipe, o segundo homem, após Estevão, no círculo dos sete, e de como ele se dirige a marginalizados do Judaísmo: na cidade da Samaria (Atos 8, 4-8) e na região Costeira entre Cesaréia e Azoto (Atos 8,26 – 40), assim como acerca de “dispersos” em Antióquia, que se dirigiram a “gregos”, portanto a pagãos (Atos 11,19 – 30). Também Damasco deve ter sido meta do Círculo dos sete.
Aos samaritanos devia ser especialmente atrativo a ideia de um novo Templo (Espiritual) para todo povo de Deus, em suas doze tribos, portanto sem a predominância judaica, pois já havia uma agressiva e potencialmente violenta relação de concorrência entre samaritanos e o estado Centralizado no tempo, que não mais considerava a Samaria pertencente a Israel. Desde a destruição do templo Samaritano no monte garizim em 128 a. C, operada por Hircano I,a até então divisão igual de poder ficou claramente decidida a favor de Jerusalém. Com o anúncio do “novo tempo” para os samaritanos como parte do Povo de Deus na linha de continuidade teológica da crítica de Estevão ao templo foi resgatado por um importante ponto programático da ideia que Jesus tinha de senhorio de Deus.
Mais abrangentes ainda são as consequências relacionadas com a narrativa exemplar do batismo de “um etíope, eunuco e alto funcionário na corte de Candace, rainha da Etiópia” (Atos 8,27), por Filipe, no contexto de Lucas, deve se entender “eunuco” como título, que esclarece com a expressão “funcionário de Candace”, assim como, paralelamente, “Candace” se esclarece com o título “rainha da Etiópia”. Nesse caso, como se pode deduzir da peregrinação a Jerusalém, trata-se de um prosélito. Mas se aquele homem era realmente um eunuco, o que no caso de funcionário de corte orientais Não era nada de extraordinário, então a narrativa garante que Filipe foi o primeiro que integrou um Pagão no povo de Deus, em que o batismo substitui a circuncisão, que nesse caso a rigor era necessária, mas eunucos eram geralmente impedidos disso em razão de sua capacidade reprodutiva (Deuteronômio 23,2). eunucos estão por princípio excluídos da plena participação do povo de Israel. De acordo com o enunciado Profético (Isaías 56, 3-5) e isso apenas poderá ser mudado no fim dos tempos. Assim sendo, Filipe agiu segundo as regras do (novo templo). Como Campo histórico de ação para esse acontecimento deve se cogitar a via maris, importante artéria de circulação entre o Egito e a Mesopotâmia, ao longo da qual também se situam as cidades nas quais Filipe “se encontra” (Atos 8,40): azoto e Cesaréia.
De acordo com atos 11,26 os discípulos de Jesus em Antioquia Foram pela primeira vez denominados cristãos. Lucas Coloca essa denominação em relação com o fato da Comunidade Cristã de Antioquia ter conseguido integrar em suas fileiras um antigo arqui-inimigo, Isto é, Paulo (Atos 11,25). Nisso está para Lucas uma imagem eclesiológica de fundo. Pessoas capazes de agir merecem o nome de “cristãos”.
Quanto à pesquisa de pistas históricas, chama a atenção que segundo atos 9,27 tal integração já teria sido possível em Jerusalém – igualmente com a intermediação de Barnabé, de modo que o nome “Cristão” já teria sido justificado para os de Jerusalém. Que Lucas aí não aplique essa designação deve estar relacionado com o fato de que, segundo suas TRADIÇÕES, ela estava especialmente relacionada com a cidade de Antioquia. Além disso o verbo chrematízein é tomado da linguagem burocrática. A administração Romana atribuia esses nomes aos discípulos de Jesus. A ele corresponde também a designação Christianói (cristãos). Ela é, latinizada, formada conforme o tipo dos adjetivos em latim designam os partidários de alguma pessoa, e em nosso caso deveria ser traduzida por “seguidores de Cristo”.
A questão é: como os magistrados Romanos em Antioquia chegam a aplicar aos seguidores de Cristo uma designação grupal para caracterizar os seguidores de Cristo? A reconstrução histórica proposta é: em Antioquia, “dispersos” do Círculo dos sete admitiram em maior número e programaticamente pagãos no povo de Deus, e isso sem exigir a circuncisão. As comunidades sinagogais judaicas da cidade e defendiam-se contra esse grupo que, de fato, sob o teto protetor da Sinagoga, se aproveitava dos privilégios dos judeus no império romano Mas, por outro lado, mediante sua prática missionária, desmantelava por Dentro os próprios contornos do Judaísmo. A demissão demonstrativa desse grupo só era possível com a colaboração dos magistrados Romanos. sob a designação “cristãos”, o grupo dos seguidores de Jesus, juntamente com os adeptos que conseguiram, Foram pela primeira vez caracterizados como fração autônomo, fora da rede de sinagogas. Nesse contexto fazem-se necessárias diversas diferenciações.
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