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NÃO SABES QUE A BENIGNIDADE DE DEUS TE CONVIDA À PENITÊNCIA? (RM 2,4)

Diz Santo Agostinho: “Se Deus espera com paciência, não espera sempre. Pois, se o Senhor sempre nos tolerasse, ninguém se condenaria; ora, é larga a porta e espaçoso o caminho que leva à perdição, e muitos são os que entram por ele. Quem ofende a Deus, fiado na esperança de ser perdoado, é um escarnecedor e não um penitente”.

Diz ainda Santo Agostinho : “…o demônio seduz os homens por duas maneiras: Com desespero e com esperança. Depois que o pecador cometeu o delito, arrasta-o ao desespero pelo temor da justiça divina; mas, antes de pecar, excita-o a cair em tentação pela esperança na divina misericórdia”. 

É por isso que Santo Agostinho nos adverte, dizendo: “Depois do pecado tenha esperança na divina misericórdia; antes do pecado tema a justiça divina. E assim é, com efeito. Porque não merece a misericórdia de Deus aquele que se serve da mesma para ofendê-lo. A misericórdia é para quem teme a Deus e não para o que dela se serve com o propósito de ofende-Lo. Ai daquele que para pecar confia na esperança! A quantos essa vã ilusão tem enganado e levado à perdição”, finaliza o santo

Nos ensina Santo Afonso Maria de Ligório, em seu livro “Preparação para a morte”: “Quem semeia pecados, não pode esperar outra coisa que não seja o eterno castigo no inferno (Gl 6,8). O laço com que o demônio arrasta quase todos os cristãos que se condenam é, sem dúvida, esse engano com que os seduz, dizendo-lhes:“Pecai livremente, porque, apesar de todos os pecados, haveis de salvar-vos”. O Senhor, porém, amaldiçoa aquele que peca consciente e livremente na esperança de perdão. A esperança depois do pecado, quando o pecador deveras se arrepende, é agradável a Deus, mas a dos obstinados lhe é abominável. Tal esperança provoca o castigo de Deus, assim como seria passível de punição o servo que ofendesse a seu patrão, precisamente porque ele é bondoso e amável. 

Certo autor indicava que o Inferno se povoa mais pela Misericórdia do que pela Justiça Divina. E assim é, porque, contando temerariamente com a Misericórdia, prosseguem pecando e acabam condenando-se. Deus é infinitamente Misericordioso, ninguém o nega. Mas, apesar disso, a quantos hoje em dia manda a misericórdia desvirtuada para o Inferno. Deus é Misericordioso, mas também é Justo, e por isso sente-se obrigado a castigar a quem O ofende” – (FONTE: Livro “Preparação para a morte” , de Santo Afonso Maria de Ligório , Bispo e doutor da Igreja)

Diz São Basílio: “Não duvideis que DEUS é infinitamente Misericordioso, mas saibamos que Ele é também JUSTO, e estejamos bem atentos para não considerar apenas uma metade de DEUS. Uma vez que DEUS é JUSTO, é impossível que os ingratos escapem do castigo. Misericórdia!! Misericórdia sim, mas para aqueles que TEMEM E BUSCAM à DEUS, e não para aquele que abusa da paciência DIVINA”

Algo me incomoda sobremaneira. O pensamento corrente em um “deus-amor” que se contrapõe ao Deus revelado nas páginas da Bíblia e por toda a amplitude da Revelação Divina. Ora, Deus, Criador do céu e da terra, não é também um Deus-Amor? Sim, EVIDENTE Deus é o Amor pleno e perfeito. Para sabermos sobre isto, basta lermos a I Carta do Apóstolo João, onde ele não somente explicita o Amor Divino como diz que quem não ama não é de Deus. Portanto, Deus é o amor perfeito, infinito!! Dito isto, e para tratarmos melhor esta questão, vamos então conhecer um pouco deste “deus-amor” recorrente em nosso tempo. Um dos maiores perigos, tanto pelo excesso quanto pelo desleixo é justamente querermos moldar um deus às nossas convêniencias, que seja compatível ao modo de pensar nas diversas épocas de nossa sociedade.

O que acontece em nossa época? Acontece que há um esfriamento da Fé, um esquecimento muito grande do compromisso com a Fé e seus mínimos preceitos, um aniquilamento do modo geral de que Fé não é exatamente necessário para ser uma boa pessoa, o clima atual nos faz pensar que a Fé é apenas um ato bom e natural e que no fundo no fundo não leva ninguém a nada, a não ser confortá-las até o fim da vida. Já que há uma dormência do conhecimento de Deus, então alarga-se o campo das teorias religiosas de nossos tempos e que estas teorias, muitas delas bestiais, encontrem um grandioso campo fértil para a sua propagação e que acabam sendo acolhidas por muitos e muitos, grandes e pequenos, ricos e pobres, etc. 

A Santa Igreja ensina , que a presunção da salvação sem merecimento, ou seja, aquele pensamento de que vou me salvar sem arrependimento, sem conversão, e sem obedecer ás leis e os mandamentos de Deus, pois Deus é misericordioso, é um PECADO CONTRA O ESPÍRITO SANTO, E PORTANTO, UM PECADO QUE NÃO TEM PERDÃO!! É muito fácil, muito bom e confortável acolhermos a imagem de um “deus-amor”, que concede a liberdade não para que O amemos, mas para que possamos fazer tudo o que se pode e queremos fazer.

Este “deus-amor” é contrário a repressão dos sentimentos desordenados, pelo contrário, é a imagem de um deus que antes incentiva tais desordens, já que este deus é a pura misericórdia, tudo e todos estão salvos, então comamos, bebamos e morramos depois. Para propagar este deus-amor, muitas vezes as pessoas, já confortavelmente envolvidas com este deus, gostam de contrastar o deus-amor de hoje com o Deus de nossos pais, ou seja, o Deus de nossos pais, o Deus que os nossos pais tiveram a virtude de nos ensinar desde o nosso berço, é um Deus de castigo, um Deus de rosto fechado, bravo, pronto a nos dar cachimbadas pelos nossos erros, então claro, o deus de nossa época é muito melhor que o Deus de nossos pais, pois não castiga, não cobra respostas inteligíveis ao dom da Fé, não nos ameaça com a perdição eterna do inferno.

Eu lhes afirmo: Este deus, é falso. Um deus praticamente hippie, que se possivel viria a terra para gandaiar conosco e conduzir a festa. Deus não muda, mesmo que as nossas conveniências nos insitem a querer isso. Dizer que o Deus de nossos pais é diferente do deus de nossos tempos é dizer que Deus somente existe pela nossa necessidade natural de crer e assim podemos então, ao invés de se abrir ao grande mistério divino, criar o nosso deus, seja ele deus-amor, deus-paz, deus-justiça, dos pobres, do homossexualismo, fraternal, um deus escondido, enfim, um deus irreconhecível. Deus não muda e este Deus eterno e soberano, Todo-Poderoso, Criador do Céu e da terra, é sim um Deus de Amor, do Amor único, pois fora Dele não há amor verdadeiro, não há vida, não há nada

A Igreja , baseando-se nas palavras de Jesus Cristo , fala sobre a existência do inferno , e sobre o fato de que haverá condenados no juízo final. E todo aquele que negar isso, seja clérigo ou laico, incorre em heresia . Somos livres para tornar o olhar com nossa alma ao Salvador e, também somos livres para obstinar-nos na sua rejeição. A morte petrificará essa opção pela eternidade toda. A salvação não é um direito que se tem enquanto ser humano, mas é um prêmio que se recebe por responder positivamente ao plano de Deus para cada um, pois, Ele espera que cada um o reconheça como Deus, siga sua lei e se sirva dos meios de santificação que deixou. A misericórdia de Deus exige de nós mudança de vida. Não confie nessa misericórdia falsa, porque a que vem do Senhor causa em nós reação e conversão.

A salvação de Deus é para todos. Não preguemos meias verdades, preguemos verdade inteira, renunciemos a vida velha e entremos pela porta estreita. Jesus quer que olhemos para o hoje, como estamos nos posicionando em relação a Jesus. Muitas vezes somos prepotentes, porque vamos nos enchendo de nós mesmos. Mas é preciso nascer hoje para a vida nova. Sejamos justos, porque Deus é justiça, misericórdia e amor. O nosso lugar é o céu e não vamos desistir diante da cruz do dia a dia. Porque lá no céu vai ser alegria e realização plena. Meus irmãos, coragem. Percorre-se longo caminho na empreitada em busca da salvação.Deus, efetivamente, quer que o homem realize a missão que lhe cabe, porquanto Ele sempre provê o necessário para tal, através de sua infinita bondade e misericórdia.

Revela Santa Faustina, em seu Diário: “Ó infelizes, que não aproveitais esse milagre de misericórdia de Deus! Clamareis em vão, pois já será tarde demais. Vi duas estradas: Uma estrada larga, atapetada de areia e flores, cheia de alegria e de música e de vários prazeres. As pessoas caminhavam por essa estrada dançando e divertindo-se — estavam chegando ao fim, sem se aperceberem disso. E, no final dessa estrada, havia um enorme precipício, ou seja, o abismo do Inferno. Essas almas caíam às cegas na voragem desse abismo; à medida que iam chegando, assim tombavam. E seu número era tão grande que não era possível contá-las. E avistei uma outra estrada, ou antes uma vereda, porque era estreita e cheia de espinhos e de pedras, por onde as pessoas seguiam com lágrimas nos olhos e sofrendo dores diversas. Uns tropeçavam e caíam por cima dessas pedras, mas logo se levantavam e iam adiante. E no final da estrada havia um magnífico jardim, repleto de todos os tipos de felicidade e aí entravam todas essas almas. Já no primeiro momento, esqueciam de seus sofrimentos” (Fonte: DIÁRIO DE SANTA FAUSTINA, 1448 e 153)

Quem não está convencido da plena seriedade da Eternidade, não convence ninguém, e só pregará um evangelho que não é o de Cristo. Muitos dizem-se tão misericordiosos, mas no fundo são deveras cruéis, pois ao não pregarem abertamente sobre as consequências do pecado, induzem o pecador em erro, levando-o a adiar a sua conversão, e dessa forma conduzem-no ao erro, pois este acumula pecados sobre pecados, obstinando-se no pecado, esperançado que um dia terá perdão mesmo sem o mínimo arrependimento. Só que, a muitos, a morte surpreende-os, sem terem tempo ou condições para se prepararem convenientemente.

Já dizia NOSSO SENHOR JESUS CRISTO á Santa Catarina de Sena: «Por presunção, erroneamente, firmam-se na esperança de serem perdoados, mas continuam a ofender-Me, pensando mesmo assim poderem contar com a Minha misericórdia. Jamais ofereci ou ofereço a Minha misericórdia para que Me ofendam. A finalidade do Meu perdão é para que, pela Misericórdia, os pecadores se defendam do Demônio e da confusão de espírito. Mas agem diversamente. Ofendem-Me porque sou Bom!» (Fonte: SANTA CATARINA DE SENA, LIVRO: O Diálogo, 14)

Diz São João Crisóstomo: “Essa misericórdia sobre a qual vós contais para poder pecar, dizei-me, quem vo-la prometeu? Não Deus, certamente, mas o demônio, obstinado em vos perder. Cuidado, de dar ouvidos a este monstro infernal que vos promete a misericórdia celeste…..’Deus é cheio de misericórdia, eu pecarei e em seguida confessar-me-ei’. Eis aí a ilusão, ou antes, a armadilha que o demônio usa para arrastar tantas almas ao inferno!”

Busquemos pois, com urgência, o sacramento da confissão, verdadeiramente arrependidos, pois, afirma São Bernardo: “…que o coração, obstinado no mal durante a vida, se esforçará, no momento da morte, para sair do estado de condenação; mas não chegará a livrar-se dele, e, oprimido por sua própria malícia, terminará a sua vida no mesmo estado”

Tendo amado o pecado, amava também o perigo da condenação. É por isso justamente que o Senhor permitirá que ele pereça nesse perigo, no qual quis viver até à morte. Santo Agostinho disse que: “…aquele que não abandona o pecado antes que o pecado abandone a ele, dificilmente poderá na hora da morte detestá-lo como é devido, pois tudo o que fizer nessa emergência, o fará obrigadamente, e não verdadeiramente arrependido”.

O arrependimento, que é essencial à verdadeira conversão (cf. At 2,38; 17,30), envolve morte do pecado (cf. Rm 6). A Bíblia usa termos como “matar o velho homem e revestir-se com o novo”, e descreve com minúcias as mudanças exatas que precisam ser feitas (cf. Ef. 4,17-32; Cl 3). Maus hábitos como embriaguez, imoralidade sexual, ira, ganância e orgulho, precisam ser eliminados da própria vida, ao passo que devem ser acrescentados o amor, a verdade, a pureza, o perdão e a humildade. Este é o resultado do verdadeiro arrependimento. A tendência de muitas pessoas do Século XXI tem sido amenizar as exigências da conversão e inventar um plano mais fácil. Muitas pessoas tentam buscar a conversão e ajudar outras a se converterem sem arrependimento. Isso não é possível. Pois, elas ensinam um cristianismo indolor, que não exige sacrifício. Elas salientam as emoções, a felicidade e as bênçãos, porém pensam muito pouco sobre as mudanças reais que a conversão exige na vida diária da pessoa. Entendamos isto claramente: não há conversão sem arrependimento, e não há misericórdia sem arrependimento e conversão!!

A urgência da conversão está expressa em nosso cotidiano da vida. Jesus Cristo é a manifestação radical e definitiva do amor de Deus por nós. Mas para que esse verdadeiro e incomparável amor de Deus se torne comunhão, temos de nos abrir diariamente a graça de Deus, desejá-lo no íntimo do nosso ser, mudar em nós aquelas atitudes que dificultam ou mesmo impedem a conversão. Vamos fazer um verdadeiro exame de consciência. Reexaminar nossas atitudes e buscar de coração aberto um verdadeiro arrependimento de nossos pecados.

Reflitamos de forma demasiadamente simples sobre o amor. Amor é não querer que o mal aconteça a nós e a ninguém, para isso temos limites que muitas vezes só conseguimos suportar por Amor. Logo, este deus-amor não se encaixa em sua omissão, pois permite que as pessoas se atolem até o pescoço com essa liberdade que conduz à ruina da pessoa humana, confundindo a individualidade da pessoa humana com o egoísmo.

Por isso eu digo que esse deus-amor bonzinho ao ponto de nos permitir afundar na nossa própria miséria e de nos deleitarmos nela, deve ser tido como nada. Abra-se sim ao Deus da Redenção, ao Deus que falou ao Povo de Israel, ao Deus que nos deixou por herança a sua própria obra que é a Santa Igreja, na qual se congrega todo o seu povo e que o conduz a presença deste Deus que é Amor, mas que também è JUSTIÇA , e corrige aqueles que ama e castiga aqueles que tem por seus filhos. Claro, ao dizerem sobre Deus Amor verifique se ele é o Deus que a Igreja ensina, pois ela foi fundada por Ele e enviada a anunciá-Lo sem enganos até o fim dos tempos , se é o Deus da Bíblia, o Deus da Divina Revelação Cristã, completa e imperecível. Deus é Pai, é Amor é Vida. O Deus Verdadeiro.

Equipe Templário de Maria

 
 
 

Antigamente se pensava que sim, embora a Igreja nunca tenha ensinado isso oficialmente; pois ela nunca disse o nome de um condenado. Hoje, com a ajuda da psicologia e psiquiatria, sabemos que a culpa do suicida pode ser muito diminuída devido a seu estado de alma.

O Catecismo da Igreja Católica ensina que:

§2280 Cada um é responsável por sua vida diante de Deus que lha deu e que dela é sempre o único e soberano Senhor. Devemos receber a vida com reconhecimento e preservá-la para sua honra e a salvação de nossas almas. Somos os administradores e não os proprietários da vida que Deus nos confiou. Não podemos dispor dela.

§2281 O suicídio contradiz a inclinação natural do ser humano a conservar e perpetuar a própria vida. É gravemente contrário ao justo amor de si mesmo. Ofende igualmente o amor do próximo porque rompe injustamente os vínculos de solidariedade com as sociedades familiar, nacional e humana, às quais nos ligam muitas obrigações. O suicídio é contrário ao amor do Deus vivo.

Mas o Catecismo lembra também que a culpa da pessoa suicida pode ser muito diminuída:

§2282 Se for cometido com a intenção de servir de exemplo, principalmente para os jovens, o suicídio adquire ainda a gravidade de um escândalo. A cooperação voluntária ao suicídio é contrário à lei moral. Distúrbios psíquicos graves, a angústia ou o medo grave da provação, do sofrimento ou da tortura podem diminuir a responsabilidade do suicida”.

Leia também:

Portanto, ninguém deve pensar que a pessoa que se suicidou esteja condenada por Deus; os caminhos de Sua misericórdia são desconhecidos de nós. O Catecismo manda rezar por aqueles que se suicidaram:

§2283 Não se deve desesperar da salvação das pessoas que se mataram. Deus pode, por caminhos que só ele conhece, dar-lhes ocasião de um arrependimento salutar. A Igreja ora pelas pessoas que atentaram contra a própria vida.

Certa vez, São João Maria Vianney, também conhecido como Cura D’Ars, ao celebrar a Santa Missa notou que uma mulher vestida de luto estava no final da igreja chorando, seu marido havia se suicidado na véspera, saltando da ponte de um rio. O santo foi até ela no final da Celebração Eucarística e lhe disse: Pode parar de chorar, seu marido foi salvo, está no Purgatório; reze por sua alma. E explicou à pobre viúva: Por causa daquelas vezes que ele rezou o Terço com você, no mês de maio, Nossa Senhora obteve de Deus para ele a graça do arrependimento antes de morrer. Não devemos duvidar dessas palavras.

Prof. Felipe Aquino

 
 
 

Ateísmo e suas causas – por Antonio Royo Marín

1. Noção e divisão

O ateísmo consiste na negação radical da existência de Deus. Ateu (do grego ἄθεος = sem Deus) é o sujeito que ignora ou se nega a aceitar a existência do Ser Supremo e que, por isso, não pratica religião alguma.

Existem duas classes de ateus: teóricos e práticos.

a) TEÓRICOS são os que negam a Deus no plano das ideias. Este ateísmo se subdivide em duas classes: teórico-negativo, se coincide com a simples ignorância da existência de Deus; e teórico-positivo, se nega a doutrina da existência de Deus que proclamam os demais homens e pretende demonstrar o contrário.

b) PRÁTICOS são aqueles que, embora conheçam em teoria a existência de Deus, vivem praticamente como se Deus não existisse, ou seja, sem ter nada para com a lei de Deus na sua conduta prática.

2. Modos de conhecer a Deus

Antes de especificar se podemos ser ateus teóricos (positivos ou negativos) convém recordar que a Deus lhe pode conhecer de duas maneiras:

a) COMO AUTOR DA NATUREZA, e neste sentido se pode chegar a seu conhecimento pela demonstração à luz da razão natural.

b) COMO AUTOR DA ORDEM SOBRENATURAL da graça e da glória, neste sentido só pode ser conhecido por via de revelação sobrenatural.

Conclusões

Tendo em conta tudo isto, vamos especificar a doutrina sobre as diferentes classes de ateísmo nas suas claras conclusões.

Conclusão 1ª. Existem de fato muitos ateus práticos, não só entre pagãos, mas também entre os cristãos.

É um fato tristíssimo que não necessita demonstração. Basta abrir os olhos para ver em qualquer parte do mundo multidões de homens que vivem praticamente como se Deus não existisse. Preocupados unicamente pelas coisas da terra, absorvidos por seus negócios temporais ou entregues desenfreados aos vícios e prazeres, vivem como se Deus não existisse, completamente contrários às exigências de sua lei santíssima. Muitos deles – a imensa maioria – não negam teoricamente a existência de Deus, mas vivem de fato como se Deus não existisse. São, claramente, ateus práticos, embora não sejam teóricos. Deles dizia o apóstolo São Paulo:

“Confessam que conhecem a Deus, mas o negam com seus atos. São pessoas abomináveis, rebeldes e incapazes de qualquer obra boa” (Tito 1, 16).

E em outro lugar:

“Já vos disse muitas vezes, e agora o repito, chorando: há muitos por aí que se comportam como inimigos da cruz de Cristo. O fim deles é a perdição, o deus deles é o ventre, a glória deles está no que é vergonhoso. Apreciam só as coisas terrenas!” (Filipenses 3, 18-19).

Neste último texto recorre São Paulo uma das razões principais do ateísmo prático, como veremos mais abaixo ao examinar as suas causas.

Conclusão 2ª. Existem muitíssimos ateus teóricos negativos que ignoram Deus como autor da ordem sobrenatural.

Como recordamos há um momento, para conhecer a Deus como autor da ordem sobrenatural é indispensável a divina revelação. Apenas com as forças da razão natural podemos chegar a demonstrar a existência de Deus enquanto criador da ordem natural, mas nada podemos alcançar da ordem sobrenatural (verbi gratia, do mistério da Santíssima Trindade, da graça e da glória, etc), que está mil vezes acima da ordem natural, transcendendo-lhe infinitamente.

É o caso de milhões de pagãos a quem não chegou todavia a luz do Evangelho. Conhecem a Deus como o autor da Natureza e muitos deles o adoram e servem a sua maneira, mas o ignoram como o autor da ordem sobrenatural da graça e da glória. Como é sabido, esta infidelidade puramente negativa, fruto da ignorância, é compatível com a salvação eterna se estão de boa fé em seu erro e se esforçam em cumprir os preceitos da lei natural com a ajuda da graça divina, que Deus não nega a nenhum homem de boa vontade: “E na terra aos homens de boa vontade” (Lucas 2, 14).

Conclusão 3ª. Não existem nem podem existir ateus teóricos-negativos que ignoram a existência de Deus como autor da ordem natural, a menos por longo tempo.

A razão é porque a existência de Deus como autor da ordem natural se impõe de uma maneira tão clara para todos homens, que apenas estando completamente cego para não vê-la brilhar na formosura e ordem admirável da natureza, na imensidão da noite estrelada, etc; a parte de que em qualquer parte do mundo e em qualquer religião podem os homens contemplar a variedade de coisas que lhe falam forçosamente de Deus: templos, ritos religiosos, respeitos aos mortos, etc. Não é possível, por conseguinte, permanecer – ao menos por muito tempo – na completa ignorância da existência de Deus como o autor da ordem natural.

Escutemos um teólogo contemporânea expondo estas ideias: [1]

No que concerne ao ateísmo negativo, a maior parte dos teólogos convém em afirmar que a ignorância completa de Deus não pode dar-se em um ser humano que tenha plena consciência de si mesmo. Segundo esta opinião, uma ideia qualquer acerca de um ‘Tu’ sobre-humano se impõe com tal espontaneidade e viveza ao pensamento são e reto, que não haverá jamais um homem plenamente consciente de si mesmo e à de que Deus exista, por mais imperfeitas que sejam as representações nas que Deus apareça.

A razão disso radica no que o homem, no mais íntimo do seu ser, tem afinidade com Deus, de modo que esta estrutura íntima de sua essência há de ser conhecida de algum modo, pelo menos por pressentimento.

Efetivamente, segundo os testemunhos da história, não posso encontrar um povo que não creia em Deus ou deuses. Este fato se prova com certa segurança que, de não impedi-lo à força, o conhecimento de Deus é inseparável da consciência que o homem tem de si mesmos.

Conclusão 4ª. É impossível que existam verdadeiros ateus teóricos-positivos, ou seja, homens que estão firmementes convencidos de que Deus não existe.

A razão é porque é impossível que o erro encontre argumentos verdadeiros para a verdade. A existência de Deus como autor da ordem natural está demonstradíssima, com argumentos irrebatíveis, pela simples razão natural; e, por si faltar algo, temos o testemunho infalível do mesmo Deus, que se dignou a nos revelar sua própria existência, inclusive como autor da ordem sobrenatural.

É um fato que existem uma infinidade de sistemas filosóficos ateístas, ou seja, que prescindem a existência de Deus em sua especulação e o excluem positivamente em seu desejo; mas daí não se segue que seus patrocinadores sejam efetivamente ateus por convicção. Uma coisa é a doutrina que se proclama teoricamente – embora seja com muita força e entusiasmo – e outra muito distinta da convicção íntima que dela se possa ter. Não há nenhum filósofo idealista que esteja tão convencido de que as coisas exteriores são pura ilusão da mente – como proclama seu sistema – que não comece a correr ao ver um touro que se aproxime impetuosamente contra ele.

Causas do ateísmo.

Ao examinar a continuação das principais causas do ateísmo, encontraremos a explicação e o porquê de tantos sistemas ateus como os que apareceram no mundo em todas as épocas da história da filosofia.

Como acabamos de ver, o ateísmo não pode ter causa racional alguma. Mas tem, no entanto, muitas causas de índole prática e afetiva. Vamos recordar algumas das mais importantes. [2]

1.ª O PREDOMÍNIO DAS PAIXÕES BAIXAS.

É uma das causas mais frequentes e eficazes do ateísmo. O homem que se entrega desenfreadamente aos seus instintos baixos e que, ao sentir a reprovação da sua própria consciência, que atua como pregoeira de Deus, se sente impotente para libertar-se de sua escravidão passional, chega um momento em que se rebela contra essa consciência e esse Deus que não lhe deixam viver em paz. Se esforçará por todos os meios ao seu alcance para convencer a si mesmo de que Deus não existe, e, em sua desesperação por não encontrar argumentos convincentes que lhe levem à negação teórica de Deus, lhe negará ao menos na prática, afundando-se cada vez mais na lama e imundice de seus vícios e pecados. Com razão dizia La Bruyère: “Quisera eu ver um homem sóbrio, moderado, casto e justo negando a existência de Deus. Esse homem, pelo menos, falaria desinteressadamente; mas um homem assim não se encontra em nenhuma parte”.

É um fato indiscutível que a polícia resulta em incômodo para os malfeitores. Por isso um homem tão suspeito de fanatismo religioso como Jean-Jacques Rousseau pôde escrever essas judiciosas palavras: “Mantende vossa alma em estado de desejar que Deus exista, e não duvidar nunca Dele”. E antes de Rousseau havia dito já Bacon de Verulâmio: “Ninguém nega a existência de Deus senão aquele a quem convém que não exista”.

2.ª O ORGULHO E O ÓDIO.

Escutemos Schmaus esta outra causa do ateísmo [3]:

O orgulho e o ódio. Estas duas atitudes são as que mais diretamente se opõe a abandonar nas mãos de Deus.

O ORGULHO se encerra em si mesmo, e fora de si mesmo não reconhece nenhuma classe de valor. É mais, como ele afirma, ao bastar a si mesmo não necessita desses valores. Crê que Deus, cujos mandatos deve reconhecer o homem, é um perigo que ameaça a liberdade e grandeza humanas. Recolhe para si uma espécie de grandeza divina. Neste sentido, afirma Bakunin que Deus, ainda no caso de que existisse, deveria ser destruído. Nietzsche, em idêntico sentido, dizia: “Como poderia eu tolerar não ser um deus caso haja deuses? Por conseguinte não há deuses”. A mesma vida de Nietzsche expõe como a atitude orgulhosa pode chegar a adquirir uma influência fatal sobre o homem. Nietzsche continua: “Eu tirei a conclusão, e agora é ela que me arrasta”. A autodivinização do homem incapaz de tolerar a existência de Deus se encarna no além-homem criado por Nietzsche, ser a quem se atribuem todas as opiniões que segundo a fé do crente corresponderiam somente a Deus. Muitas formas de filosofia existencial, não obstante falar de transcendência, negam a existência do Deus vivo porque Deus limita a liberdade e a independência do homem.

O ÓDIO, a outra atitude hostil a Deus, é a resposta que o coração humano, egoísta e enfrascado no mal, dá à santidade e superioridade de Deus. Como Deus é em tudo radicalmente distinto ao homem, se apresenta ante este impondo exigências e obrigações e constitui um motivo de profundo desassossego para o homem que vive num estado de autonomia exagerado, que crê bastar a si mesmo, que se isola hermeticamente e nega quanto não seja ele mesmo. Assim surge um sentimento de mal-estar que pode chegar a se converter em repugnância ou ainda em ódio absoluto. O ódio é uma reação natural contra a santidade pessoal de Deus, um ato de rebeldia contra Ele, algo egocêntrico e prazenteiro. O grau máximo de seu desenvolvimento lhe constitui essa forma de vida a que chamamos de Inferno. O ódio consumado pelo homem em sua peregrinação é precursor dessa rebelião consumada e satânica, própria do Inferno. O homem, obcecado pelo ódio, fica incapacitado para perceber dentro da História os valores divinos. O ódio a Deus é mais intenso que qualquer outra forma que possa dar ao ódio, já que é dirigido contra um valor que é infinitamente superior a todo outro valor. Deus é para o homem o mais importante valor pessoal, assim como é o valor mais próximo. Por isso, para rechaçar a Deus, o homem tem que fazer esforços muito maiores para rechaçar do que faria para rechaçar qualquer outro tipo de valor.

O que já dissemos continua válido no que concerne à época histórica nascida em Cristo. Porque Deus, por assim dizer, castiga ao homem em Cristo, e o homem, que agora quer se desentender deste Deus que se revela e nos aproxima de Cristo, tem que se esforçar muito mais que o incrédulo dos tempos anteriores ao cristianismo. Daí resulta que o ódio a Deus na era cristã apresenta um grau de especial intensidade, nem conhecido nem sequer possível nos tempos pré-cristãos.

3.ª A ORIENTAÇÃO MATERIALISTA DA VIDA MODERNA.

Estamos na época da tecnologia e do progresso material. A grandeza dos homens e a das nações se mede quase exclusivamente pela sua força econômica ou por seu poderio militar. Aos grandes problemas do coração e da inteligência se lhes concede menos importância que disparar uma bomba de cem megatons ou colocar um foguete em Marte. O homem, escravizado pela tecnologia, perdeu de vista o panorama soberano de seus destinos eternos. Se deixa arrastar, quase inconscientemente, pelo ambiente materialista que se respira em todas as partes. Viver: eis aí o único ideal da grande maioria dos homens. Viver, se entende, a vida de aqui embaixo. A de lá em cima, ante a majestade de Deus, nem sequer planeja. O resultado de tamanha inconsciência é um ateísmo prático, cheio de indiferença e frieza frente ao problema teórico da existência de Deus e, por conseguinte, frente ao problema de mais adiante.

Tais são as principais causas do ateísmo. Como se vê, nenhuma delas tem sua raiz na inteligência, senão unicamente no coração dominado pelas paixões, pelo orgulho e o ódio, ou pela corrente materialista da época moderna.

 
 
 
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Esta obra é inteiramente dedicada à Santíssima Virgem Maria!

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