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Cheguei à Missa atrasado, e agora?

Quando nos atrasamos para a Missa dominical, qual é o critério para saber se chegamos muito tarde? Se perdemos o Evangelho, temos a obrigação de ficar para a Missa seguinte? O que fazer se a Missa a que chegamos atrasados for a última do dia?

Quando nos atrasamos para a Missa dominical, qual é o critério para saber se chegamos muito tarde? Quando eu era criança, disseram-me que não era permitido perder a leitura do Evangelho. Posteriormente, soube que não era permitido perder o ofertório. Se perdemos o Evangelho ou o ofertório, temos a obrigação de ficar para a Missa seguinte? Ou temos apenas de assistir à parte que perdemos? O que deveríamos fazer se a Missa a que chegamos atrasados fosse a última do dia? (Um leigo)
Tenho uma paroquiana que frequenta a Missa diária e chega na hora da comunhão. Perguntei por que ela não assiste à Missa completa. Ela disse que tenta acordar mais cedo, mas não consegue. Então, disse a ela que, de acordo com a doutrina da Igreja, não podemos receber a Comunhão se perdermos a leitura do Evangelho. A Igreja nos ensina que devemos participar de toda a liturgia quando vamos à Missa. Poderia me ajudar e indicar qual trecho do Código de Direito Canônico trata das regras para receber a Eucaristia neste caso? Espero que possa me ajudar, pois não consigo encontrar o parágrafo específico (Um padre).

O que o direito canônico diz a respeito de cada uma dessas questões? Absolutamente nada. Não há nenhuma menção a elas no Código de Direito Canônico. Isso explica por que o padre em questão não conseguiu “encontrar o parágrafo específico”.

No entanto, isso não significa que seja impossível responder a elas. A teologia moral católica pode ser facilmente aplicada aqui, e esta é uma das razões por que o Código não precisa tratar dessa situação. Há outras boas razões pelas quais o direito canônico não se pronuncia sobre chegar atrasado à Missa, algo que analisaremos em breve.

O Cânon 1247 nos diz o que nós católicos já sabemos: somos obrigados a assistir à Missa aos domingos e dias de preceito. Portanto, o pressuposto lógico é que, se a Missa dominical começa às 9h30min, por exemplo, devemos chegar antes disso para poder estar presentes durante a Missa inteira.

Mas, como todos sabemos, a vida real nem sempre funciona assim. Por milhões de razões (falarei disso mais adiante), podemos nos dar conta de que entramos na igreja às 9h35min ou mesmo às 10h. O que temos de fazer, então? É minimamente razoável que os católicos suponham haver alguma “regra” sobre isso — como as supostas “regras” mencionadas por nosso leitor leigo, as quais diriam respeito à chegada antes do Evangelho ou do ofertório. Na verdade, tais regras não existem.

Porém, antes que você critique a Igreja por não estabelecer regras para essa situação, pense no seguinte: o que aconteceria se a Igreja Católica dissesse oficialmente aos fiéis que, por exemplo, “o preceito é cumprido quando o fiel chega antes do Evangelho nas Missas dominicais e em dias de preceito”?

O efeito colateral que surgiria rapidamente dessa declaração é fácil de prever. Inúmeros católicos que até agora se preocuparam em chegar à igreja antes do início da Missa dominical concluiriam que não é necessário fazê-lo, já que basta chegar com alguns minutos de atraso. Muitas pessoas decidiriam de forma equivocada que não há problema em perder partes da Missa anteriores ao Evangelho, o que equivale a pensar que elementos como o ato penitencial e o Glória não são importantes — do contrário, por que a Igreja diria que podemos chegar depois do término dessas orações?

Porém, antes que você critique a Igreja por não estabelecer regras para essa situação, pense no seguinte: o que aconteceria se a Igreja Católica dissesse oficialmente aos fiéis que, por exemplo, “o preceito é cumprido quando o fiel chega antes do Evangelho nas Missas dominicais e em dias de preceito”?

O efeito colateral que surgiria rapidamente dessa declaração é fácil de prever. Inúmeros católicos que até agora se preocuparam em chegar à igreja antes do início da Missa dominical concluiriam que não é necessário fazê-lo, já que basta chegar com alguns minutos de atraso. Muitas pessoas decidiriam de forma equivocada que não há problema em perder partes da Missa anteriores ao Evangelho, o que equivale a pensar que elementos como o ato penitencial e o Glória não são importantes — do contrário, por que a Igreja diria que podemos chegar depois do término dessas orações?

Em muito pouco tempo, os sacerdotes veriam que, no horário marcado para o início da Missa, a igreja estaria praticamente vazia, com a maioria dos fiéis a entrar durante as leituras (e a distrair todo o mundo). Em reação, alguns sacerdotes passariam a esperar alguns minutos para começar a Missa, mas quando os paroquianos se dessem conta disso, chegariam ainda mais tarde. No final das contas, os horários agendados para as Missas não teriam mais sentido!

Para piorar, os católicos que tentavam em vão chegar à Missa pontualmente, mesmo atrasando alguns minutos, seriam encorajados a chegar quando quisessem. Pensando em chegar à igreja logo antes do Evangelho, poderiam em vez disso chegar durante a recitação do Credo.

Em suma, o estabelecimento de regras a respeito do atraso para a Missa criaria uma “bola de neve” e causaria mais problemas do que resolveria outros. Quando uma regra deixa de ser absoluta, não há como voltar atrás. Portanto, quando a Igreja nos diz que precisamos ir à Missa aos domingos e dias de guarda, ela quer dizer apenas isso.

Mesmo assim, como foi dito acima, muitos católicos realmente chegam atrasados à Missa por diferentes motivos, e eles gostariam de receber alguma orientação! Ironicamente, esta frase contém uma expressão decisiva (“por diferentes motivos”), algo que quase sempre é negligenciado nessas discussões. Por que chegaram tarde? Qual é a razão de não conseguirem chegar antes do início da Missa? Este é um ponto fundamental, porque é aqui que entra em jogo a teologia moral.

Este fato é inegável: às vezes, acontecem coisas que realmente não conseguimos prever ou controlar, fazendo-nos chegar atrasados à Missa. O carro para de funcionar no meio do caminho; o bebê vomita na mãe justamente quando se está na porta de casa, obrigando-a a correr de volta para dentro de casa e trocar de roupa; há uma colisão entre vários carros na via principal, forçando todos a pegar um caminho mais longo e indireto; um médico está a caminho da Missa e interrompe o percurso para ajudar uma pessoa que desmaiou na calçada; o ônibus que sempre é usado para chegar ao destino não passou em determinado dia etc.

Se nos esforçarmos com sinceridade e da melhor maneira possível para chegar a tempo à igreja, e se algo verdadeiramente inesperado acontecer e provocar nosso atraso, qualquer teólogo competente dirá que não podemos ser responsabilizados moralmente por isso. Invariavelmente, advogados dirão a mesma coisa na esfera legal, e pelas mesmas razões: se não soubéssemos de modo algum que aconteceria X, e se não pudéssemos fazer nada a respeito disso, então, como regra geral, não poderíamos ser responsabilizados. Portanto, “punir” pessoas que chegam atrasadas à Missa por razões desse tipo não faz sentido algum. E leis bem fundamentadas devem ser razoáveis por definição.

É claro que essa moeda tem dois lados. Se apertarmos o botão de soneca do despertador, ou se ficarmos enrolando em casa para ver mensagens antes de ir à igreja, ou se demorarmos demais em nosso caminho para a Missa… então a culpa do atraso seria claramente nossa. É tentador nos esquivar da responsabilidade. (“Mas temos filhos!” é uma desculpa muito popular, como se não soubéssemos de antemão que temos de acordar mais cedo e/ou cutucá-los de forma mais insistente para que se arrumem para a Missa a tempo.)

Uma regra prática óbvia é a seguinte: quando descobrimos a que horas temos de acordar/sair de casa para chegar pontualmente à igreja — fazendo concessões razoáveis para coisas aleatórias que podem acontecer no trajeto e nos atrasar —, então não deveríamos acordar/sair de casa depois desse horário. É assustadoramente fácil encontrar católicos que se atrasam para a Missa semana após semana pelas mesmas razões, algo que eles naturalmente têm condição de prever. (Curiosamente, essas mesmas pessoas se esforçam para chegar pontualmente ao aeroporto quando estão de férias.)

Quando analisamos dessa perspectiva um caso de atraso na Missa dominical, fica claro de imediato o que é necessário fazer para reparar essa situação (se é que há necessidade de fazer algo). Quem não tem culpa não tem motivo para ficar se punindo; quem tem culpa, naturalmente deve se redimir. Por isso, se agora voltarmos às perguntas do nosso leitor leigo, fica evidente que a resposta para todas elas é: “Depende”.

O bom senso determina que, se chegarmos atrasados à Missa — mesmo que não tenhamos culpa — a ponto de perder boa parte dela, deveríamos ir em outro horário. Em grande medida, isso pode tornar-se um juízo subjetivo. A devoção e o amor a Deus impelem muitos católicos a permanecer durante a Missa seguinte ou durante parte dela porque assim o desejam — uma atitude digna de louvor a ser encorajada, mas que não constitui uma “regra”.

Repare que, até o momento, falamos sobre chegar atrasado à Missa nos dias em que ela é obrigatória. A assistência à Missa em dias de semana comuns não é obrigatória, embora, naturalmente, seja louvável fazê-lo. Portanto, se chegamos atrasados à Missa em dia de semana (ainda que sejamos inteiramente culpados), qual é a consequência? Nenhuma. É claro, pode ser frustrante para um sacerdote, como o da pergunta, ver um paroquiano entrar tarde na igreja e chegar atrasado à Missa diária dia após dia; mas, a rigor, essa pessoa não está fazendo nada errado do ponto de vista legal. Afinal, o que é preferível: chegar tarde à Missa diária ou não ir à Missa diária?

Como indicam as duas perguntas acima, há uma incompreensão comum segundo a qual atrasar-se para a Missa por qualquer razão implicaria algum tipo de punição. Mas, como acabamos de ver, trata-se de má teologia, já que não devemos ser punidos quando realmente não cometemos nenhum erro. Particularmente, a noção de que “não devemos receber a Sagrada Comunhão” se (por qualquer motivo) nos atrasarmos para a Missa, não possui nenhum fundamento sólido na teologia sacramental.

O Cânon 843, §1, afirma claramente que não se pode negar os sacramentos aos fiéis (1) “que oportunamente os pedirem”, (2) “se estiverem devidamente dispostos” e (3) se não houver nenhuma lei que os impeça de recebê-los. Um exemplo concreto pode servir para ilustrar como o Cânon 843, §1, se aplica a este caso.

Imagine que normalmente você vai à Missa dominical bem cedo após um plantão noturno no hospital, e que costuma chegar pontualmente, sem nenhum problema, mas esta semana alguma emergência incomum impediu que você saísse do trabalho a tempo, fazendo-o chegar tarde à Missa. Você está preparado para receber Nosso Senhor na Eucaristia com devoção (então está “devidamente disposto”), não foi excomungado nem recebeu outra sanção semelhante (ou seja, “pelo direito” não se encontra impedido de receber a Comunhão), então você se aproxima do sacerdote durante a distribuição da Eucaristia aos fiéis (um momento oportuno). Em tais circunstâncias, não há absolutamente nenhuma razão, teológica ou canônica, para que lhe seja negada a Sagrada Comunhão — ainda que você tenha se atrasado para a Missa. O que o padre da pergunta acima vê como “doutrina da Igreja” não passa de fantasia.

Dito isto, existem situações em que há uma verdadeira conexão entre deixar de receber a Comunhão e chegar atrasado à Missa. É triste, mas é verdade que alguns católicos entram na igreja 30 ou 40 minutos mais tarde, como se estivessem passeando, e quando tomam assento começam imediatamente a bater papo ou a brincar com o telefone celular, não fazendo nenhum esforço para acompanhar a Missa (ou o que resta dela).

Obviamente, tais pessoas não têm a intenção de ir à Missa para mostrar a Deus todo-poderoso a reverência que lhe é devida. Na verdade, muitas vezes é até difícil entender por que essas pessoas se preocupam em ir à igreja. Embora não possamos acessar a mente e o coração delas para saber o que acontece lá dentro, sua conduta exterior oferece todos os sinais de que elas não estão “devidamente dispostas” para receber a Eucaristia, como diz o Cânon 843, §1; portanto, elas não deveriam recebê-la.

Neste caso específico, o atraso na chegada à Missa é apenas um dos muitos sintomas que revelam uma completa falta de fé e reverência. Mas afirmar que católicos desse tipo “chegam atrasados à Missa” e “não deveriam receber a Comunhão” é algo bem diferente de afirmar de modo absoluto que chegar tarde à Missa e abster-se de comungar são coisas que sempre andam juntas. Não andam.

Então, que lição podemos tirar de tudo isso? Antes de mais nada, temos o dever de fazer tudo o que estiver ao nosso alcance para chegar pontualmente à Missa de preceito. Ponto final. Quando não nos esforçamos adequadamente e, por essa razão, nos atrasamos, somos culpados e precisamos fazer algo para reparar a falta diante de Deus (a depender da duração do atraso, a melhor coisa a fazer é ir a outra Missa).

Quando tomamos todas as precauções razoáveis e reservamos tempo suficiente para chegar à igreja antes do início da Missa, mas algo realmente imprevisto acontece e nos faz chegar atrasados, então não somos moralmente responsáveis por isso. Ainda que decidamos fazer alguma reparação diante de Deus, permanecendo durante toda a Missa seguinte ou parte dela — supondo, naturalmente, que haja outra! —, em sentido estrito podemos considerar que não estamos moralmente obrigados a fazer isso.

Quanto à recepção da Sagrada Comunhão, não existe nenhuma conexão automática entre isso e chegar pontualmente à Missa. Se estivermos devidamente dispostos a receber Nosso Senhor, então devemos recebê-lo. Qualquer sacerdote que tentasse impedir alguém de comungar apenas porque a pessoa chegou atrasada à Missa, sem que haja nenhum outro motivo correlato, violaria inequivocamente o direito dela a receber os sacramentos.

Já deve estar claro que a Igreja não errou ao não estabelecer nenhuma regra oficial a respeito da chegada pontual à Missa em dias de preceito. Temos o dever de fazer tudo o que estiver ao nosso alcance para garantir que chegaremos pontualmente, sempre conscientes de que, às vezes, podem ocorrer imprevistos sobre os quais não temos nenhum controle e pelos quais não podemos ser culpados.

Fonte: Cathy Caridi | Tradução: Equipe Christo Nihil Præponere

 
 
 

O uso de imagens e quadros religiosos em igrejas e dentro de casa é muito difundido desde os tempos remotos. Contudo, a questão das imagens sagradas ainda costuma ser bastante polêmica; e na relação entre a Igreja e os protestantes, a polêmica se acirra mais ainda, porque essas pessoas, entre muitos outros erros, acham que os católicos adoram imagens, o que não é verdade.

Diferença entre veneração e adoração

Numa discussão, o primeiro passo é precisar os termos, e por isso, de início, é necessário distinguir entre adorar e venerar.

Adoração é um ato de culto que se presta somente a Deus. Nem sequer a Virgem Maria, a mais sublime das criaturas saídas das mãos do Altíssimo, pode ser adorada. Não podemos adorar nem mesmo nossos pais. É claro que uma criança que diz “eu adoro meu pai” não comete uma falta, pois, na realidade, o que ela quis dizer é que “ama muito seu pai”. Por extensão, podemos dizer que adoramos algo ou alguém que nos agrada. Mas nem por isso somos idólatras ou politeístas.

Veneração, segundo o dicionário Houaiss, é: dedicar reverente respeito e deferência a, ter grande consideração por. Ou seja, qualquer pessoa que, a algum título, é digna de respeito, pode ser venerada. Eu posso e devo venerar os meus pais, como também devo consideração e deferência por alguma autoridade civil ou religiosa.

Católicos adoram imagens? (Idolatria)

Nós católicos não adoramos imagens. Adorar uma imagem é fazer dela um ídolo (em grego, εἴδωλον, eidolon), algo (objeto ou criatura) que é colocado no lugar de Deus, ou seja, um falso deus, e a Igreja em seus 2.000 anos de história nunca ensinou tal prática. Para nós católicos, as imagens não têm o mesmo significado que tinham para os pagãos, que as consideravam realmente como deuses. Nós não as adoramos e sabemos perfeitamente que são representações, seja de Cristo, seja de alguma criação de Deus.

Deus condena a idolatria. Mas seria lícito para um cristão confeccionar ou possuir imagens?

Vejamos o que a Bíblia diz sobre isso:

Querubins de Ouro

“O Senhor disse a Moisés: […] Farás dois querubins de ouro; e os farás de ouro batido, nas duas extremidades da tampa, um de um lado e outro de outro, fixando-os de modo a formar uma só peça com as extremidades da tampa. Terão esses querubins suas asas estendidas para o alto, e protegerão com elas a tampa, sobre a qual terão a face inclinada. Colocarás a tampa sobre a arca e porás dentro da arca o testemunho que eu te der. Ali virei ter contigo, e é de cima da tampa, do meio dos querubins que estão sobre a arca da aliança, que te darei todas as minhas ordens para os israelitas.” (Ex 25, 1. 18-22)
“Farás o tabernáculo com dez cortinas de linho fino retorcido de púrpura violeta, púrpura escarlate e de carmesim, sobre as quais alguns querubins serão artisticamente bordados.” (Ex 26, 1)
“Fez dois querubins de ouro, feitos de ouro batido, nas duas extremidades da tampa, um de um lado, outro de outro, de maneira que faziam corpo com as duas extremidades da tampa. Esses querubins, com as faces voltadas um para o outro, tinham as asas estendidas para o alto, e protegiam com elas a tampa para a qual tinham as faces inclinadas. “(Ex 37, 7-9)

Vemos acima que por vontade de Deus, as cortinas do tabernáculo deviam ser bordadas com imagens de anjos e a arca da aliança devia ter duas esculturas de anjos.

A Serpente de Bronze

Neste próximo exemplo, Deus quis agir por intermédio de uma imagem, uma serpente de bronze, ordenando que Moisés a fizesse:

“e o Senhor disse a Moisés: “Faze para ti uma serpente ardente e mete-a sobre um poste. Todo o que for mordido, olhando para ela, será salvo.” Moisés fez, pois, uma serpente de bronze, e fixou-a sobre um poste. Se alguém era mordido por uma serpente e olhava para a serpente de bronze, conservava a vida.” (Nm 21, 8-9)

Note que Deus não só permitiu o uso da imagem, como também a utiliza para o seu serviço. É importante distinguir bem a diferença entre a idolatria de imagens, com a confecção de imagens, pois é exatamente neste ponto onde muitos interpretam as escrituras por seu próprio juízo e fazem confusão. Enquanto Deus proíbe a adoração de imagens, o próprio Deus ordena a confecção de imagens em diversas narrações bíblicas já citadas acima. A seguir, podemos observar bem a diferença entre usar a serpente de bronze conforme Deus ordenou e adorar a serpente de bronze, caracterizando assim, o pecado da idolatria:

“Destruiu os lugares altos, quebrou as estelas e cortou os ídolos de pau asserás. Despedaçou a serpente de bronze que Moisés tinha feito, porque os israelitas tinham até então queimado incenso diante dela. (Chamavam-na Nehustã).” (II Rs 18, 4)

Fizeram da serpente de bronze um ídolo, um falso deus. Na continuação dos mesmos textos bíblicos, vemos que essa geração idólatra vivia na total desobediência:

“Assim aconteceu porque eles não tinham escutado a voz do Senhor, seu Deus, mas tinham quebrado a sua aliança, recusando-se a ouvir e executar o que ordenara Moisés, servo do Senhor.” (II Rs 18, 12)

Observemos que a serpente de bronze foi a primeira imagem que nos remetia a nosso Senhor Jesus Cristo, conforme escrito no novo testamento:

“Como Moisés levantou a serpente no deserto, assim deve ser levantado o Filho do Homem, para que todo homem que nele crer tenha a vida eterna.” (Jo 3, 14-15)

A seguir, assista o vídeo do Padre Paulo Ricardo onde ele nos alerta para o perigo da idolatria e nos mostra como venerar os santos e suas imagens é uma forma de glorificar a Deus:


É lícito ajoelhar-se e beijar algo (objeto ou criatura) que não é Deus?

“Josué rasgou suas vestes e prostrou-se com a face por terra até a tarde diante da arca do Senhor, tanto ele como os anciãos de Israel, e cobriram de pó as suas cabeças.” (Js 7, 6)

“Abraão levantou os olhos e viu três homens de pé diante dele [anjos]. Levantou-se no mesmo instante da entrada de sua tenda, veio-lhes ao encontro e prostrou-se por terra.” (Gn 18, 2)

“Moisés saiu ao encontro de seu sogro, prostrou-se e beijou-o. Informaram-se mutuamente sobre a sua saúde e entraram na tenda.” (Ex 18, 7)

“Davi, tendo levantado os olhos, viu o anjo do Senhor que estava entre o céu e a terra, com uma espada desembainhada em sua mão, dirigida contra Jerusalém. Então Davi e os anciãos, cobertos de sacos, prostraram-se com o rosto por terra.” (I Cr 21, 16)

“Acordou o carcereiro e, vendo abertas as portas do cárcere, supôs que os presos haviam fugido. Tirou da espada e queria matar-se. Mas Paulo bradou em alta voz: Não te faças nenhum mal, pois estamos todos aqui. Então o carcereiro pediu luz, entrou e lançou-se trêmulo aos pés de Paulo e Silas.” (At 16, 27-29)

Assim como é um erro acusar Josué (que se prostrou perante a arca da aliança), Abraão, Moisés, Davi e os anciãos de idólatras por terem se prostrado diante de algo que não é Deus, também é um erro acusar de idolatria alguém que se prostra diante de uma imagem sacra que sabe perfeitamente que são representações, seja de Cristo, seja de alguma criação de Deus. O ato de ajoelhar-se diante de algo sem a intenção de adoração, é uma forma de demonstrar respeito, humildade, reverência, veneração e admiração, lembremos que adorar uma imagem é fazer dela um ídolo, algo (objeto ou criatura) que é colocado no lugar de Deus, ou seja, um falso deus, e a Igreja nunca ensinou tal prática. Para nós católicos, as imagens não têm o mesmo significado que tinham para os pagãos, que as consideravam realmente como deuses.

“O culto da religião não se dirige às imagens em si como realidades, mas as considera em seu aspecto próprio de imagens que nos conduzem ao Deus encarnado. Ora, o movimento que se dirige à imagem enquanto tal não termina nela, mas tende para a realidade da qual é imagem.” (Santo Tomás de Aquino, S. Th. II-II, 81,3, ad 3, Século XIII).

Assista o vídeo do Prof. Felipe Aquino a seguir:


Por exemplo, prostrar-se diante de uma imagem de Nossa Senhora, é na realidade prostrar-se diante da própria Mãe de Nosso Senhor Jesus Cristo, e quem não prestaria semelhante reverência diante da única pessoa que carregou o próprio Deus em seu ventre materno? A mesma reverência nós prestamos diante de imagens dos anjos e daqueles que foram grandes exemplos de fiéis seguidores de Cristo na terra, os santos, ambos dignos de nossa mais sincera veneração, admiração e respeito. Nas Sagradas Escrituras encontramos diversas outras passagens com reverência semelhante, vejamos algumas:

“Quando Davi chegou perto de Ornã, este o viu; saiu da eira e se prostrou diante de Davi, com o rosto contra a terra.” (I Cr 21, 21)
“E ele [Jacó], passando adiante, prostrou-se até a terra sete vezes antes de se aproximar do seu irmão. Mas Esaú correu-lhe ao encontro e beijou-o; ele atirou-se ao seu pescoço e beijou-o; e puseram-se a chorar. Levantando os olhos, Esaú viu as mulheres e as crianças: ‘Quem são estes que tens contigo?’, perguntou ele. ‘São, respondeu Jacó, os filhos que aprouve a Deus dar ao teu servo.’ Aproximaram-se então as servas com seus filhos e prostraram-se. Lia com seus filhos adiantaram-se por sua vez e prostraram-se, e, enfim, José e Raquel, que se prostraram também.” (Gn 33, 3-7)
“e me prostro voltado para o teu sagrado templo. […] ” (Sl 138 [137], 2)

Observação: Lembremos que o templo citado na ultima passagem, era repleto de imagens por dentro e por fora, e que os moldes e características do templo foram prescritos pelo próprio Deus. Continuando:

“[…] Enquanto Manué e sua mulher olhavam subir para o céu a chama do sacrifício que estava sobre o altar, viu que o anjo do Senhor subia na chama. À vista disso, Manué e sua mulher caíram com o rosto por terra.” (Jz 13, 19-20)
“Então ela veio e lançou-se aos pés de Eliseu, prostrando-se por terra. Em seguida tomou o filho e saiu.” (II Rs 4, 37)
“Então o Senhor abriu os olhos de Balaão, e ele viu o anjo do Senhor que estava no caminho com a espada desembainhada na mão. Inclinou-se e prostrou-se com a face por terra.” (Nm 22, 31)
“Quando Abigail avistou Davi, desceu prontamente do jumento e prostrou-se com o rosto por terra diante dele.” (I Sm 25, 23)

“Depois disse Davi a toda a assembléia: Bendizei ao Senhor, nosso Deus. E toda a assembléia bendisse ao Senhor, o Deus de seus pais, inclinando-se e prostrando-se diante do Senhor e diante do rei.” (I Cr 29, 20)

Perceba que esta ultima passagem nos mostra dois atos parecidos, porém com sentidos e razões diferentes: eles se prostram a Deus, para adorá-lo, mas também ao Rei, para reverenciá-lo. Deus em momento algum se enfureceu com aquilo e não os repreendeu. É oportuno observar que, na Bíblia, quando o ato de prostrar-se é recusado, é identificado com clareza nos textos bíblicos que o problema não está em se prostrar, mas em se prostrar para adorar:

“Prostrei-me aos seus pés para adorá-lo, mas ele me diz: Não faças isso! Eu sou um servo, como tu e teus irmãos, possuidores do testemunho de Jesus. Adora a Deus. Porque o espírito profético não é outro que o testemunho de Jesus.” (Ap 19, 10)

Vemos que o anjo percebeu a intenção de João, por isso o repreendeu para que ali não houvesse um ato indevido de adoração, que cabe somente a Deus. A seguir, vemos uma situação semelhante:

“Quando Pedro estava para entrar, Cornélio saiu a recebê-lo e prostrou-se aos seus pés para adorá-lo. Pedro, porém, o ergueu, dizendo: Levanta-te! Também eu sou um homem!” (At 10, 25-26)

Conforme bem especificado no texto, a prostração de Cornélio não foi uma simples reverência, mas tinha a clara intenção de adoração.

Concluindo a questão, é lícito ajoelhar-se e beijar algo (objeto ou criatura) que não é Deus, quando não há a intenção de adoração no coração daquele que o faz, ou seja, quando o receptor do ato não é colocado no lugar de Deus, como um ídolo, um falso deus, por isso a Igreja não repreende quando tal reverência é realizada à imagem sacra, ao sacerdote, às relíquias dos santos, ao altar, etc. A Igreja nos ensina a realizar tal ato com a intenção de veneração, respeito, humildade, reverência, admiração e não adoração.

O que a Igreja nos ensina sobre as imagens?

A imagem sagrada, o ícone litúrgico, representa principalmente Cristo. Não pode representar o Deus invisível e incompreensível: foi a Encarnação do Filho de Deus que inaugurou uma nova economia das imagens: “Outrora Deus, que não tem nem corpo nem figura, não podia de modo algum, ser representado por uma imagem. Mas agora, que Ele se fez ver na carne e viveu no meio dos homens, eu posso fazer uma imagem daquilo que vi de Deus […] Contemplamos a glória do Senhor com o rosto descoberto.” (São João Damasceno, doutor da Igreja, †749, De Sacris Imaginibus Oratio 1, 16: PTS 17, 89 e 92 (PG 94, 1245 e 1248)) A iconografia cristã transpõe para a imagem a mensagem evangélica que a Sagrada Escritura transmite pela palavra. Imagem e palavra esclarecem-se mutuamente: “Para dizer brevemente a nossa profissão de fé, nós conservamos todas as tradições da Igreja, escritas ou não, que nos foram transmitidas intactas. Uma delas é a representação pictórica das imagens, que está de acordo com a pregação da história evangélica, acreditando que, de verdade e não só de modo aparente, o Deus Verbo se fez homem, o que é tão útil como proveitoso, pois as coisas que mutuamente se esclarecem têm indubitavelmente uma significação recíproca.” (II Concílio de Niceia, em 787, Terminus: COD p. 135.). Todos os sinais da celebração litúrgica fazem referência a Cristo: também as imagens sagradas da Mãe de Deus e dos santos. De fato, elas significam Cristo que nelas é glorificado; manifestam “a nuvem de testemunhas” (Heb 12, 1) que continuam a participar na salvação do mundo e às quais estamos unidos, sobretudo na celebração sacramental. Através dos seus ícones, é o homem “à imagem de Deus”, finalmente transfigurado “à sua semelhança”, que se revela à nossa fé – como ainda os anjos, também eles recapitulados em Cristo: “Seguindo a doutrina divinamente inspirada dos nossos santos Padres e a tradição da Igreja Católica, que nós sabemos ser a tradição do Espírito Santo que nela habita, definimos com toda a certeza e cuidado que as veneráveis e santas imagens, bem como as representações da Cruz preciosa e vivificante, pintadas, representadas em mosaico ou de qualquer outra matéria apropriada, devem ser colocadas nas santas Igrejas de Deus, sobre as alfaias e vestes sagradas, nos muros e em quadros, nas casas e nos caminhos: e tanto a imagem de nosso Senhor, Deus e Salvador, Jesus Cristo, como a de Nossa Senhora, a puríssima e santa Mãe de Deus, a dos santos anjos e de todos os santos e justos.” (II Concílio de Niceia, 787, Definitio de Sacris Imaginibus: DS 600.). “A beleza e a cor das imagens estimulam a minha oração. É uma festa para os meus olhos, e, tal como o espetáculo do campo, impele o meu coração a dar glória a Deus” (São João Damasceno, doutor da Igreja, †749 De Sacris Imaginibus Oratio 1, 47: PTS 17. 151 (PG 94, 1268). A contemplação dos sagrados ícones, unida à meditação da Palavra de Deus e ao canto dos hinos litúrgicos, entra na harmonia dos sinais da celebração, para que o mistério celebrado se imprima na memória do coração e se exprima depois na vida nova dos fiéis. (Catecismo da Igreja Católica. Parágrafos 1159-1162)
As santas imagens, presentes em nossas Igrejas e em nossas casas, destinam-se a despertar e a alimentar a nossa fé no mistério de Cristo. Por meio do ícone de Cristo e de suas obras salvíficas, é a Ele que adoramos. Mediante as santas imagens da santa Mãe de Deus, dos anjos e dos santos, veneramos as pessoas nelas representadas. (Catecismo da Igreja Católica. Parágrafo 1192)
“Não farás para ti nenhuma imagem esculpida…”: Esta imposição divina comportava a interdição de qualquer representação de Deus feita pela mão do homem. O Deuteronômio explica: “Tomai muito cuidado convosco, pois não vistes imagem alguma no dia em que o Senhor vos falou no Horeb do meio do fogo. Portanto, não vos deixeis corromper, fabricando para vós imagem esculpida do quer que seja.” (Dt 4, 15-16). Quem Se revelou a Israel foi o Deus absolutamente transcendente. “Ele é tudo”, mas, ao mesmo tempo, “está acima de todas as suas obras.” (Eclo 43, 27-28). Ele é “a própria fonte de toda a beleza criada.” (Sb 13, 3). No entanto, já no Antigo Testamento Deus ordenou ou permitiu a instituição de imagens, que conduziriam simbolicamente à salvação pelo Verbo encarnado: por exemplo, a serpente de bronze (Cf. Nm 21, 4-9; Sb 16, 5-14; Jo 3, 14-15), a arca da Aliança e os querubins (Cf. Ex 25, 10-22; 1 Rs 6, 23-28; 7, 23-26). Com base no mistério do Verbo encarnado, o sétimo Concílio ecumênico, de Niceia (ano de 787) justificou, contra os iconoclastas, o culto dos ícones: dos de Cristo, e também dos da Mãe de Deus, dos anjos e de todos os santos. Encarnando, o Filho de Deus inaugurou uma nova economia das imagens. O culto cristão das imagens não é contrário ao primeiro mandamento, que proíbe os ídolos. Com efeito, “a honra prestada a uma imagem remonta ao modelo original” (São Basílio Magno, †379, Liber de Spiritu Sancto, 18, 45: SC 17bis. 406 (PG 32, 149)) e “quem venera uma imagem venera nela a pessoa representada” (II Concílio de Niceia, Definitio de Sacris Imaginibus: DS 601; cf. Concílio de Trento, Sess. 25ª, Decretum de Invocatione, Veneratione et Reliquiis Sanctorum, et Sacris Imaginibus: DS 1821-1825; II Concílio do Vaticano, Const. Sacrosanctum Concilium, 125: AAS 56 (1964) 132: Id., Const. dogm. Lumen Gentium, 67: AAS 57 (1965) 65-66.). A honra prestada às santas imagens é uma veneração respeitosa, e não uma adoração, que só a Deus se deve: “O culto da religião não se dirige às imagens em si mesmas como realidades, mas olha-as sob o seu aspecto próprio de imagens que nos conduzem ao Deus encarnado. Ora, o movimento que se dirige à imagem enquanto tal não se detém nela, mas orienta-se para a realidade de que ela é imagem.” (São Tomás de Aquino, doutor da Igreja, †1274, Summa theologiae, 2-2. q. 81, a. 3, ad 3: Ed. Leon. 9, 180.). O culto das imagens sagradas funda-se no mistério da encarnação do Verbo de Deus. E não é contrário ao primeiro mandamento. (Catecismo da Igreja Católica. Parágrafos 2129-2132; 2141)
Guias para a oração: […] A escolha de um lugar favorável não é indiferente para a verdade da oração: para a oração pessoal, pode servir um recanto de oração, com a Sagrada Escritura e ícones (imagens) para aí se estar “no segredo diante do Pai” (Cf. Mt 6, 6). Em uma família cristã, este gênero de pequeno oratório favorece a oração em comum; […] As expressões da oração: […] A meditação é sobretudo uma busca. O espírito procura compreender o porquê e o como da vida cristã, para aderir e corresponder ao que o Senhor lhe pede. Exige uma atenção difícil de disciplinar. Habitualmente, recorre-se à ajuda de um livro e os cristãos não têm falta deles: a Sagrada Escritura, em especial o Evangelho, os santos ícones (as imagens), os textos litúrgicos do dia ou do tempo, os escritos dos Padres espirituais, as obras de espiritualidade, […] (Catecismo da Igreja Católica. Parágrafos 2691; 2705)

Concluindo o assunto de estudo, ouça a seguir um áudio sobre as imagens e a idolatria perante o primeiro mandamento Amar Deus sobre todas as coisas:


Finalizando este capítulo sobre as questões das imagens, ouça o áudio a seguir onde o Prof. Felipe Aquino aborda a importância das imagens sacras na liturgia católica:


 
 
 

Vivemos em uma sociedade cujo objetivo principal é uma busca constante por conforto e prazer, repelindo qualquer tipo de sofrimento a todo custo. Jesus, entretanto, que experimentou o sofrimento humano integralmente, aponta para nós que o sofrimento não é nosso inimigo, ao contrário do que o mundo ensina, mas um aliado no caminho da salvação.

Deus não é causa do sofrimento. Deus apenas permite o sofrimento, pois o homem tem a liberdade de escolher aquilo que quer. Ele fez todos os seres humanos livres, inteligentes, e nobres. A partir disto quando o homem faz a escolha errada ele coloca o sofrimento no mundo, como consequência da vida. Mas de todo sofrimento Deus tira um bem, uma lição para o homem cresça e se torne mais maduro.

Jesus Cristo nos faz compreender o significado do sofrimento. Ninguém sofreu como Ele e ninguém como Ele soube enfrentar o sofrimento e dar-lhe um sentido transcendente. Um dia Karl Wuysman, escritor francês, entre o revolver e o crucifixo, escolheu o crucifixo. O fato de Jesus ter sofrido como ninguém, e ser Deus e Santo, mostra que o sofrimento não é castigo.

Uma prova de que Deus não deseja o sofrimento, e não o manda como castigo a alguém, é que um sinal forte de que o Reino de Deus já estava entre nós, eram as curas, os milagres, os exorcismos, etc, que Jesus fazia, isto é, vitórias sobre o mal e sobre o sofrimento.

Mais do que a saúde física, Deus quer para os seus filhos a salvação eterna. Jesus Cristo, ao se encarnar, experimentou o sofrimento humano. Portanto, Jesus fez do sofrimento a matéria-prima da salvação da humanidade e São Paulo disse que “completo na minha carne o que falta para a Paixão de Cristo no seu corpo que é a Igreja” (Cl 1,24). Assim, todo sofrimento é salvífico desde que Cristo morreu na cruz; como estamos unidos a ele por nosso Batismo nosso sofrimento se une ao dele pela salvação do mundo. Daí o seu valor.


Alguns perguntam: se Deus existe, então, como pode permitir tanta desgraça? A resposta católica para o problema do sofrimento foi dada de maneira clara por S. Agostinho († 430), e por S. Tomás de Aquino († 1274): “A existência do mal não se deve à falta de poder ou de bondade em Deus; ao contrário, Ele só permite o mal porque é suficientemente poderoso e bom para tirar do próprio mal o bem” (Suma Teológica l qu, 22, art. 2, ad 2). “Tudo concorre para o bem dos que amam a Deus” (Rm 8,28). Deus, sendo Perfeitíssimo, não pode ser causa do mal, logo, esta é a própria criatura, que pode falhar, já que não é perfeita como o seu Criador. Por outro lado, o mal pode ser também o uso mau de coisas boas. Uma faca é boa na mão da cozinheira, mas na mão do assassino… O sofrimento da humanidade, sobretudo, é também fruto do pecado. São Paulo disse que “o salário do pecado é a morte” (Rm 6,23). Os nossos erros geram sofrimentos para os nossos descendentes também. Os filhos não herdam os pecados dos pais, mas podem sofrer pelas consequências desses pecados.

O Papa João Paulo II, em 11/02/84, na Carta Apostólica sobre o sofrimento disse que: “O sentido do sofrimento é tão profundo quanto o homem mesmo, precisamente porque manifesta, a seu modo, a profundidade própria do homem e ultrapassa esta. O sofrimento parece pertencer à transcendência do homem” (Dor Salvífica, nº 2).

Para que o homem fosse “grande”, digno, nobre, Deus o fez livre, inteligente, com sensibilidade, vontade, memória, etc. Deus não poderia impedir o homem de lhe dizer Não; senão lhe tiraria a liberdade, e ele seria apenas um robô, marionete, teleguiado. E Deus não quis isto. Deus não é paternalista; é Pai; não fica “passando a mão por cima” dos erros dos filhos. Esta é a lei da justiça: quem erra deve arcar as conseqüências dos seus erros. “Deus não fez a morte nem tem prazer em destruir os viventes” (Sab.1,13).

Por que Deus permite o sofrimento dos inocentes?

Ver inocentes sofrendo e morrendo toca o coração. Por que precisamente eles têm de sofrer? Qual é o sentido da sua dor? Se Deus existe, se Ele nos ama, por que não impede estas injustiças?

oda pessoa está chamada a aliviar o sofrimento dos inocentes e a lutar contra as suas causas. No entanto, o seu sentido só pode ser descoberto na perspectiva da vida eterna: essa injustiça causada pela liberdade humana mal utilizada foi transformada por Cristo em caminho que conduz cada pessoa à ressurreição – e a humanidade, à felicidade definitiva.

O sofrimento das crianças – e, em geral, dos inocentes – suscita muita dor e incompreensão, o que leva algumas pessoas a negar que Deus existe, enquanto outras se convencem precisamente de que tem de existir uma vida eterna, na qual se fará justiça e o amor finalmente triunfará.

A maneira como as doenças, a fome, as guerras, os abusos, o abandono, a morte afetam os inocentes interroga e inquieta profundamente o homem e põe sua fé à prova.

“Como posso acreditar em Deus, quando Ele permite a morte de uma criança inocente?”, questionava Ivan em “Os irmãos Karamazov”, de Dostoiévski. Como ele, muitos rejeitam Deus ou o culpam, ao não encontrar resposta diante do grito dessas vítimas.

O sofrimento dos inocentes apresenta muitas perguntas, também aos que têm fé, como, por exemplo: por que algumas pessoas sofrem tanto e outras não?

O sofrimento dos inocentes – crianças, mártires, Nossa Senhora e o próprio Cristo – continua sendo um mistério. Adentrar-se nele significa aprofundar no mistério do mal.


Perspectiva da vida eterna

Para o Beato Carlo Gnochi, capelão italiano que atendeu muitas crianças feridas durante a Segunda Guerra Mundial, “quando se chega a compreender o significado da dor das crianças, tem-se nas mãos a chave para compreender toda dor humana; e quem consegue sublimar o sofrimento dos inocentes está em condições de consolar a pena de todo homem ferido e humilhado pela dor”.

É somente a partir da perspectiva da vida eterna que se pode vislumbrar o sentido dos sofrimentos dos inocentes.

Efetivamente, depois da morte, Deus colocará cada coisa em seu lugar, sem deixar espaço para o absurdo ou para o acaso, mas somente ao mais pleno amor – para o qual é necessária a liberdade.

Esta esperança dá forças para confiar em Deus, quem permite o que aos olhos humanos parece algo sem sentido e lhe dá um grande valor, sobretudo por meio de Cristo crucificado e glorificado.

Cada pessoa está chamada a respeitar e estimar profundamente os inocentes que sofrem, a compartilhar a sua dor, a ajudar a aceitá-la e a uni-la à de Cristo, bem como a fazer todo o possível para aliviar esse sofrimento e impedir a injustiça que o causa.

Cristo ensina tanto a fazer o bem com o sofrimento como a fazer o bem a quem sofre. A Igreja vê as vítimas inocentes como dignas de ser honradas e as ama e ajuda em suas necessidades materiais e espirituais. Ela as assiste, acolhe e defende, mas também compartilha e carrega o seu sofrimento, ajudando-as muitas vezes a descobrir e viver o seu grande valor, recordando-lhes da sua libertação final. Assim, os inocentes que sofrem despertam a entrega (o amor) de outras pessoas a eles, mas também sua própria união a Cristo e a entrega da sua valiosa dor para lutar contra o mal.

Com relação à luta concreta contra os males físicos que açoitam os inocentes – pobreza, fome, doença, entre outros –, Bento XVI recorda que não é somente a filantropia que beneficia o gênero humano, mas que isso faz parte da redenção “total” de Cristo. Ao mesmo tempo, constata que somente Deus pode eliminar por completo o sofrimento do mundo e que n’Ele está a esperança.

Os inocentes podem sofrer males físicos ou morais, provenientes da maldade de outros, mas não o pior sofrimento de todos: o eterno, do qual Cristo salva.

Diferenciar o sofrimento, em seu sentido fundamental e definitivo – permanecer afastado do Amor por toda a eternidade –, das suas múltiplas dimensões temporais ajuda a aproximar-se do mistério do sofrimento dos inocentes.

Diferentes tipos de males

Segundo o professor de teodiceia José Antonio Galindo, existem males físicos que provocam sofrimento e/ou causam a morte do ser humano; são provenientes da natureza do mundo (terremotos, tsunamis, incêndios) ou da natureza humana (todo tipo de doenças corporais e psíquicas).

Também existem males morais, causados pela conduta moral negativa; são procedentes do pecado da pessoa (muitos pecados ou vícios originam doenças, além de privar da graça de Deus) ou da maldade de outros (guerras, genocídios, perseguições, ódio, vinganças).

No entanto, muito além do sofrimento temporal, existe o sofrimento definitivo: a perda da vida eterna. Cristo protege o homem desse grande mal, tocando-o em suas raízes – o pecado e a morte –, que Ele vence com a sua obediência e com a sua ressurreição; graças aos seus méritos e à misericórdia divina, inclusive as crianças que morrem sem receber o Batismo podem se salvar desse sofrimento eterno.

A criança sofre pela sua condição de ser humano: ainda que não tenha pecado pessoalmente, está envolvida na expiação do pecado, o primeiro e todos os cometidos ao longo da história. Além disso, também participa do sofrimento salvador de Cristo.

Comunidade humana

Por que um inocente tem de sofrer, alguém que não fez mal algum? Esta é uma pergunta frequente de quem vê a dor somente como uma pena pela própria culpa. Mas, segundo a concepção cristã, a humanidade forma uma comunidade cujos membros participam tanto do seu bem como do seu mal. Por isso, as pessoas são submetidas às consequências do pecado – entre estas, o sofrimento e a morte.

Por isso, quando uma criança sofre, entra em ação a comunhão com Adão (que rejeitou viver segundo os ensinamentos de Deus, introduzindo a vulnerabilidade na existência humana) e a solidariedade com todos os seres humanos – uma solidariedade “negativa”, pela qual tem de sofrer, por exemplo, as consequências de decisões egoístas, mas também uma comunhão do bem, pela qual a criança se beneficia de muitos sacrifícios alheios e do progresso da humanidade.

O sofrimento dos inocentes tem, além disso, uma terceira fonte: a solidariedade com o sacrifício inocente de Cristo, alcançado pelo Batismo. A graça ilumina e eleva então esse sofrimento, que se converte em caminho de sua libertação, em acontecimento de purificação e redenção. Cristo transforma radicalmente o sentido do sofrimento, que deixa de ser puro castigo, prova ou correção, para se tornar a potência que salva por amor.

União a Cristo

As pessoas que sofrem sem o peso das suas próprias culpas não o fazem em vão. Unidas intimamente a Cristo, podem contribuir de maneira excepcional para a salvação dos homens.

A lei segundo a qual “a morte de um é a vida de outro”, referida aos seres materiais, afeta também o homem. A dor tem um caráter purificador e pode ser um caminho de crescimento e maturidade, não somente pessoal, mas também de toda a família humana. Nela, a pessoa encontra a si mesma, sua própria humanidade, dignidade e missão, e se atualiza o sentimento de compaixão.

E quando o sofrimento se funde com o amor redentor, transforma-se em uma força contra o mal no mundo. Foi por meio de um martírio inocente que Jesus assumiu todas as dores e sofrimentos da humanidade e a redimiu.

Desde então, todas as pessoas podem cooperar na Redenção, participando da vida e da dor de Cristo. Mas algumas estão chamadas a sofrer não pelas suas culpas, mas pelas de todos. E quanto mais limpa sua alma estiver das culpas pessoais, mais se parecerá com a do Cordeiro de Deus. Ele, com sua força transformadora, se faz presente em toda pessoa que sofre, mas no inocente de maneira mais clara, mais imediata.

Além de redimir com Cristo, os inocentes que sofrem são também intercessores e podem conseguir favores de Deus mais facilmente que outras pessoas. Com informações de Cleofas e padrepauloricardo.org.

 
 
 
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