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SANTO DO DIA – 20 DE MARÇO – SÃO CUTIBERTO Bispo (634-687) Natural da vizinhança do mosteiro de Mailros, na ilha de Lindisfarne. Desde a juventude, foi privilegiado com graças especiais que o atraíram para Deus.

Uma noite em que guardava um rebanho, viu, quando rezava, subir ao céu a alma de santo Aidão, cuja morte soube pela manhã do dia seguinte. Sentiu-se de tal modo tocado com essa visão, que se tornou monge na abadia de Mailros, na região dos Merciões, mas habitada por irlandeses.

Foi um dos monges enviados para fundar a abadia de Tipom. Quando esta foi dada a São Wilfredo, retirou-se com os outros do rito irlandês e retornou a Mailros, onde foi prior algum tempo depois. Saía algumas vezes para ir aos lugares afastados, ou inacessíveis, instruir os camponeses, que todos os outros eclesiásticos descuravam, por causa da pobreza e da pouca formação que possuíam. E algumas vezes ficava com eles durante três semanas ou um mês, e batizava os que ainda não eram cristãos. Fazia grande número de milagres.

Seu abade o enviou novamente ao mosteiro de Lindisfarne. Lá encontrou montes, desregrados, os quais reconduziu ao bom caminho, pela doçura e pela paciência. Derramava abundantes lágrimas quando celebrava a missa e quando ouvia as confissões dos pecadores.

Após ter sido, durante doze anos, prior em Lindisfarne, retirou-se para a ilha de Farne, para lá viver em solidão. Vivia do trabalho das próprias mãos e negligenciava de tal modo o corpo, que não de descalçava durante vários anos, a não ser na quinta-feira santa para o lava pés. Fez ainda inúmeros milagres.

São Cutiberto passara vários anos nessa solidão quando São Teodoro reuniu um concílio em presença do rei Egfrido, no ano de 684, quando foi eleito inânimo bispo de Lindisfarne.

Enviaram-lhe vários mensageiros, sem conseguirem arrancá-lo do retiro. Foi necessário que o rei lá fosse em pessoa com São Trumwin, bispo dos pictos, e várias pessoas de consideração. Mesmo assim, tiveram dificuldades em convencê-lo.

Sua sagração foi adiada para o ano seguinte, e celebrada em York, na presença do rei, no dia de Páscoa, 26 de Março de 685. Sete bispos assistiram à cerimônia e à testa deles, São Teodoro. O novo bispo de Lindisfarne continuou guardando as observâncias monásticas, aplicando-se, todavia, com grande cuidado à instrução de seu povo.

Visitava toda a diocese, até as menores vilas, para dar conselhos salutares e impor as mãos aos novos batizados, para que eles recebessem a graça do Espírito Santo. Fez ainda muitos milagres durante seu episcopado, principalmente para a cura de doentes.

Morreu, porém, ao cabo de dois anos, em 687, no dia 20 de Março dia em que a igreja lhe honra a memória. A vida de São Cutiberto foi escrita por outro santo, o venerável Beda, que vivia nessa época e que tomou todas as precauções para não dizer senão coisas das quais não se possa duvidar.

Conheça mais sobre São Cutiberto

Vida

Cuteberto ou São Cutiberto foi um monge, bispo e eremita associado aos monastérios de Melrose e Lindisfarne no Reino da Nortúmbria no Nordeste da Inglaterra.[1] Depois de sua morte, ele se tornou um dos mais importantes santos medievais do norte da Inglaterra, sendo considerado o santo patrono da região e sua festa litúrgica é celebrada em 20 de março.

Cresceu próximo a Abadia de Melrose, uma casa-filha de Lindisfarne, hoje na Escócia. Ele decidiu se tornar monge após uma visão numa noite em 651 da morte de Santo Aidan, o fundador de Lindisfarne, mas primeiro precisou passar alguns anos em serviços militares. Ele alcançou rápido o posto de guest-master no monastério de Ripon, pouco depois de 655, mas teve que voltar com Eata a Melrose quando Vilfrido recebeu o comando do monastério.[2] Por volta de 662 foi nomeado prior de Melrose e em 665 prior de Lindisfarne. Em 684 foi nomeado bispo de Lindisfarne mas no final de 686 renunciou e voltou a vida de isolamento como eremita quando ele sentiu que estava prestes a morrer, embora ele provavelmente estivesse por volta dos 50 anos.[3]

Origens

Cuteberto nasceu em 634 no que hoje é conhecido como as Fronteiras Escocesas, alguns anos depois da conversão ao cristianismo do Rei Eduíno em 627, cuja religião aos poucos também foi adotado pelo resto de seu povo. Eduíno foi batizado por Paulino de York, um italiano que veio junto com a missão gregoriana de Roma, porém o seu sucessor Osvaldo da Nortúmbria convidou monges irlandeses de Iona para fundar o monastério de Lindisfarne, onde Cuteberto passou grande parte da vida.

As tensões entre as tradições celtas e as romanas, frequentemente exacerbadas pelo Santo Vilfrido, um defensor intransigente dos ritos romanos foram uma das principais características da vida de Cuteberto. O próprio Cuteberto, embora educado seguindo as tradições celtas, seguiu seu mentor Eata aceitando o modo romano após o Concílio de Whitby em 664. As biografias recentes se concentram nos diversos milagres que seguiram seus primeiros anos de vida, mas ele era evidentemente um pregador incansável, que viajava por todo o reino divulgando o Cristinanismo e também era capaz de causar uma boa impressão entre a realeza e a nobreza. Ao contrário de Vilfrido, tinha um estilo de vida austero e mesmo após decidir viver como eremita continuou recebendo vários visitantes.

Durante uma noite na sua infância Cuteberto teve uma visão de Aidan sendo conduzido ao céu por anjos, pouco depois chegou a notícia de que Aidan falecera naquela noite. O historiador Edwin Burton sugere que os pais de Cuteberto eram pessoas humildes, uma vez que quando menino ele costumava cuidar das ovelhas perto do monastério de Melrose. Sua história menciona que ele chegou a prestar serviços militares, mas em algum momento decidiu entrar para o Monastério de Melrose, sob o priorado de Boisil. Após a morte de Boisil em 661, Cuteberto o sucedeu como prior do monastério. São Cuteberto era possivelmente primo de segundo grau do Rei Aldfrite da Northumbria (de acordo com a genealogia irlandesa), o que pode explicar a razão de propor que Aldfrite fosse coroado rei.

Carreira

A fama de piedoso, diligente e obediente de Cuteberto cresceu rapidamente. Quando Alchfrith, rei de Deira, fundou um novo monastério em Ripon, Cuteberto tornou-se seu praepositus hospitum ou guest master de Eata. Quando o monastério foi dado a Vilfrido, Eata and Cuteberto voltaram para Melrose. Uma enfermidade se abateu sob o monastério em 664 e quando o prior morreu, Cuteberto assumiu a posição.

Depois do Concílio de Whitby, Cuteberto começou a adotar os costumes romanos e seu antigo prior Eata, convidou a introduzí-los em Lindisfarne como prior do local. Seu asceticismo era complementado pela sua generosidade com os pobres e a reputação do seu dom de cura e da visão atrairam muitas pessoas para se consultar com ele, ganhando a alcunha de “Wonder Worker of Britain”. Ele continuou seu trabalho missionário viajando pelo país desde Berwickshire até Galloway realizando seu trabalho pastoral, chegando a fundar uma pequena capela em Dull na Escócia, com uma grande cruz de pedra e uma pequena cela para seu uso, o local foi transformado em um monastério e mais tarde na Universidade de St Andrews. Também lhe é atribuída a fundação da Igreja Paroquial de São Cuthbert em Edimburgo.

Vida como eremita

Cuteberto aposentou-se em 676, movido pelo desejo de ter uma vida de contemplação. Com a permissão de seu abade ele se mudou para um lugar que o Arcebispo Eyre chamou de Ilha de São Cuteberto próximo a Lindisfarne, porém Raine acha que ficava perto de Holburn, num lugar conhecido como Caverna de São Cuteberto. Pouco tempo depois se mudou para a Ilha Farne Interior na costa da Nortúmbria onde se forçou a ter uma vida de austeridade. No início ele recebia visitantes, porém mais tarde se confinou em uma cela onde apenas abria uma janela para dar sua bênção. Recebeu a visita da abadessa Elfleda, filha de Oswiu da Nortúmbria, que sucedeu Santa Hilda como abadessa de Whitby em 680. O encontro aconteceu na ilha de Coquet.

Eleição ao bispado de Lindisfarne Em 684, Cuteberto foi eleito Bispo de Hexham, no Concílio de Twyford mas ele estava relutante em deixar seu retiro para assumir o cargo, somente após uma visita de uma comitiva, que incluía o Rei Egfrido que ele concordou em assumir as responsabilidades do bispado, porém com a condição de que ele fosse indicado para Bispo de Lindisfarne, trocando com Eata, que iria para Hexham. Ele foi consagrado em York pelo Arcebispo Teodoro e seis bispos em 26 de março de 685. Entretanto, após o Natal ele voltou a sua cela na Ilha Farne (duas milhas de Bamburgo, Northumberland), onde faleceu em 20 de março de 687.

Legado

Diversos milagres foram atribuídos a Cuteberto após sua morte, inclusive Alfredo, o Grande Rei de Wessex foi inspirado e encorajado em sua luta contra os dinamarqueses através de um sonho que teve com Cuteberto. Desde então a Casa de Wessex, que vieram a se tornar os reis da Inglaterra, construíram um local para o culto a Cuteberto, que também serviu como uma mensagem política, tendo em vista que eles eram de lados geograficamente opostos no reino. Cuteberto foi “uma figura de conciliação e um ponto de convergência para a reforma da identidade da Nortúmbria e da Inglaterra após a absorção da população dinamarquesa na sociedade anglo-saxã. Ele foi descrito como “talvez sendo o mais famoso santo do priorado da Inglaterra até a morte de Thomas Becket em 1170.” Em 698 Cuteberto foi exumado e sepultado novamente em Lindisfarne em um caixão de carvalho decorado conhecido como Caixão de São Cuteberto. O santuário de Cuteberto na Catedral de Durham foi um importante local de peregrinação durante a Idade Média, até que foi desapropriada por comissários de Henrique VIII na Dissolução dos Mosteiros.

Durante o período medieval, São Cuteberto tornou-se politicamente importante na definição da identidade das pessoas que moravam na região semi-autônoma conhecida como Liberty de Durham, que se tornou depois o Condado Palatino de Durham. Dentro desta área o Bispo de Durham]] tinha tanto poder quanto o rei da Inglaterra e o santo se tornou um símbolo poderoso da autonomia da região. Os habitantes ficaram conhecidos como haliwerfolc, que pode ser traduzido como “povo do santo” e Cuteberto ganhou a reputação de protetor feroz de seus domínios. Por exemplo, existe uma estória de que a Batalha da cruz de Neville em 1346 o prior da Abadia de Durham teve uma visão de Cuteberto ordenando que ele pegasse o manto corporax do santo e o erguesse no campo de batalha como uma bandeira. Com isso, o prior e seus monges estariam protegidos “pela meditação de São Cuteberto e pela presença da relíquia.”

 
 
 

SANTO DO DIA – 19 DE MARÇO – SÃO JOSÉ Esposo da Virgem Maria Do esposo de Maria sabemos somente aquilo que nos dizem os evangelistas Mateus e Lucas, mas é o que basta para colocar esse incomparável ‘homem justo’ na mais alta cátedra de santidade e de nossa devoção, logo abaixo da Mãe de Jesus.

Venerado desde os primeiros séculos no Oriente, seu culto se difundiu no Ocidente somente no século IX, mas num crescendo não igual ao de outros santos. Em 1621, Gregório XV declarou de preceito a festa litúrgica deste dia; Pio IX elegeu são José padroeiro da Igreja, e os papas sucessivos o enriqueceram de outros títulos, instituindo uma segunda comemoração no dia 1º de maio, ligada a seu modesto e nobre ofício de artesão.

O privilégio de ser pai adotivo do Messias constitui o título mais alto concedido a um homem. O extraordinário evento da Anunciação e da divina maternidade de Maria – da qual foi advertido pelo anjo depois da sofrida decisão de repudiar a esposa – coloca são José sob uma luz de simpatia humana, em razão do papel de devoto defensor da incolumidade da Virgem Mãe, mistério prenunciado pelos profetas, mas acima da inteligência humana.


Resolvido o angustiante dilema, José não se questiona. Cumpre as prescrições da lei: dirige-se a Belém para o recenseamento, assiste Maria no parto, acolhe os pastores e os reis Magos com útil disponibilidade, conduz a salvo Maria e o Menino para subtraí-lo do sanguinário Herodes, depois volta à laboriosa quietude da casinha de Nazaré, partilhando alegrias e dores comuns a todos os pais de família que deviam ganhar o pão com o suor de sua fronte. Nós o revemos na ansiosa procura de Jesus, que ele conduz ao templo por ter cumprido os 12 anos de idade.

Enfim, o Evangelho se despede dele com uma imagem rica de significado, que coloca mais de um tema para nossa reflexão: Jesus, o filho de Deus, o Messias esperado, obedece a ele e a Maria, crescendo em sabedoria, idade e graça.

Como Deus, honra a São José!

Coloca-o por assim dizer, em seu próprio lugar. Confiou-lhe seu Filho único, um Deus feito homem, com sua Santíssima Mãe. Confiou-lhe tais pessoas sob a mais afetuosa confiança. José é o esposo legítimo de Maria, e, neste sentido, o pai de Jesus, pai legal, pai adotivo, mas sobretudo, pai por afeição. Foi ele o primeiro homem a quem Deus revelou o cumprimento da grande promessa feita aos nossos primeiros pais, após a queda.

Promessa de graça e de misericórdia, renovada de geração em geração aos profetas e patriarcas; promessa aplicada pelo profeta Isaías à casa de Davi, atribuindo-lhe, desde então, grande glória: Eis que a Virgem conceberá e dará à luz um Filho e chamá-lo-ão Emanuel, isto é, Deus conosco.

O anjo do Senhor lhe disse: “José, Filho de Davi, não receies ficar com Maria, tua esposa, Ela dará à luz um filho, ao qual darás o nome de Jesus ou Salvador, dado que ele salvará o povo dos pecados”. Tu lhe darás o nome de Jesus …. Que glória para o humilde e casto José! São Jerônimo nos diz em seu livro contra o herético Helvídio, que São José sempre foi virgem, e é sabido que, após ter-se unido à santa esposa, viveu sempre na mais perfeita continência. Por isso, justifica-se a intimidade que o céu lhe dedica.

Foi ele que Deus encarregou de cuidar do Divino Infante. Foi ele que o anjo mandou o levasse de Belém ao Egito, desde à Judéia, da Judéia a Nazaré. Como Jesus honrava o estremecido pai! Como Maria honrava o casto esposo! Que felicidade, que honra para ele morrer entre os braços de Jesus e de Maria! Aprendamos de Deus a glorificar tão grande santo.

Como São José se tornou o que é? Ele era humilde, pobre, dócil, temente a Deus. Descendia da família real de Davi, porém vivia do trabalho de suas mãos. Vindo para a cidade dos pais, Belém, viu-se obrigado a morar em um estábulo, Todavia não se lamentou. O anjo lhe disse, durante a noite, que fugisse para o Egito. Levantou-se no mesmo instante. Os maiores mistérios lhe foram revelados. E o segredo foi guardado com fidelidade inquebrantável.

Como não devia amar a Jesus e a Maria! Venerava sua castíssima esposa como o templo vivo de Deus, do qual ele mesmo foi instituído guarda. Com que piedade terna não devia carregar nos braços o Menino Jesus, cobrindo-o de beijos, dirigindo-lhe os primeiros passos, recolhendo-lhe as primeiras palavras. Oh! Quem poderá compreender a amizade recíproca desse pai e dessa criança!

Consideremos um pouco os principais acontecimentos da vida de São José.

A Santa Família morava, a princípio, em Nazaré, Foi lá que Cristo foi concebido. Mas, segundo a profecia, deveria nascer em Belém. Como, pois, iria a profecia ser cumprida? Admiremos a Providência de Deus. O imperador romano, César Augusto, desejoso de saber o número dos súditos de seu império, ordenou fosse cada qual inscrever-se na sua terra natal. Como José era originário de Belém, para lá e dirigiu com Maria, sua esposa. Como a cidade fosse pequena e para lá acorresse enorme multidão, foram obrigados a se abrigarem em um estábulo. E foi nesse lugar que Jesus nasceu. OH, que santa família a de Jesus, Maria e José. Sim, foi no estábulo de Belém que ela se tornou completa! Quem não ambicionaria a glória desse estábulo?

Os anjos do céu a proclamam. Glória a Deus no mais alto dos céus, diziam, e paz na terra aos homens de boa vontade. Anunciaram a boa nova aos pastores: Não temais, hoje vos nasceu um Salvador, que é o Cristo Senhor, na cidade de Davi. Eis o sinal pelo qual o reconhecereis. Encontrareis um menino envolto em faixas e deitado em uma manjedoura. Vinde, humildes pastores, vinde, sede os primeiros! E ei-los a contar a Maria e a José o que viram e ouviram. Maria e José se encheram de admiração e de alegria.

Depois dos pastores de Belém vieram os reis do Oriente, os magos. Ofereceram ao novo rei dos judeus ouro, incenso e mirra. Novo motivo de admiração por parte de Maria e de José. Iluminados pelo Espírito de Deus, viram nesses magos o cumprimento das profecias; viram as primeiras conversões dos gentios a Deus. E esses gentios somos nós mesmos. Desde então nos regozijamos pelos corações de Maria e de José.

Mas isso não é tudo. Quarenta dias após o nascimento do infante Jesus, São José o apresentou, com Maria, no templo,para oferecê-lo a Deus e resgatá-lo pelo sacrifício de duas rolinhas. Maria e José foram as pessoas que o ofereceram a Deus, no templo, ele, o Filho eterno e único de Deus, feito homem e vítima.

O santo velho Simeão o reconheceu, o abraçou, adorou e o proclamou, não apenas glória de Israel, mas Salvador de todos os povos, luz de todas as nações. Uma santa profetisa juntou seus louvores. Maria e José se encheram de admiração. Simeão os bendisse e a Maria, mãe do menino, dirigiu estas palavras: “Este foi posto para ruína e para a ressurreição de muitos em Israel e como sinal de contradição. E tua alma será traspassada por uma espada, para que sejam descobertos os pensamentos de muitos, escondidos no fundo do coração”. Essa espada, essas contradições, começarão imediatamente.

Após a partida dos magos e a apresentação no templo, eis que um anjo do Senhor apareceu em sonho a José e lhe disse: “Levanta-te, toma a criança e sua mãe e foge para o Egito e fica lá até que te avise, porque Herodes procurará o menino, para matá-lo.” José levantou-se, tomou a criança e a mãe durante a noite e se retirou para o Egito. Lá ficou até a morte de Herodes; para que se cumprisse o que o Senhor tinha anunciado pelo profeta, ou seja: Do Egito chamei meu Filho.

Se Deus nos tivesse encarregado do bem-estar da santa família, provavelmente, em seu lugar de fazê-la pobre, tê-la-iamos feito muito mais rica do que Abraão. Em lugar de fazer com que Jesus nascesse em um estábulo, ter-lhe-íamos dado um berço mais rico do que o de Salomão. Deus não pensou como nós, Não somente quis que a santa família fosse pobre, mas obrigou-a em um estábulo. As riquezas e os palácios, deixou-os para o malvado Herodes, que, ao invés de nisso encontrar felicidade, encontrou invejas, ódios e todas as paixões. Não é tudo. Poder-se-ia esperar que a santa família fosse ao menos tranqüila em sua pobreza. Mas, isso não se deu, porque teve de fugir em plena noite, como se fosse uma família de malfeitores. Atravessou os desertos e dirigiu-se para o Egito, país desconhecido, onde não havia outro recurso que a Providência e o trabalho das próprias mãos. Anjos do céu, cuidai destes pobres emigrantes!

E durante esse tempo, que fez Herodes! Matou as criancinhas de Belém e dos arredores. E não parou aí a mortandade. Matou o avô de sua esposa, o cunhado, a própria mulher e três filhos. Quis matar a si mesmo. Ordenou que, à sua morte, fossem mortos os principais chefes de família, para que nos seus funerais houvesse muito pranto.

O palácio deste homem malvado era feito de invejas, ódios, acusações de uns contra os outros, conspirações, assassinatos, envenenamentos. Era verdadeira imagem do inferno. Santa família de Jesus, Maria e José, preservai-nos, preservai-me de algo semelhante! Refugio-me no vosso seio. Dignai-vos receber-me, se não como criancinha, pelo menos como servo. Prefiro ser humilde na casa de Deus, a habitar nos palácios dos pecadores.

Após a morte de Herodes, um anjo apareceu em sonho a José, no Egito, dizendo-lhe: “Levanta-se, toma o menino e sua mãe e volta para o país o de Israel, porque já não são mortos os que procuravam a alma da criança”. José se levantou, tomou a criança e a mãe e voltou para a terra de Israel, Mas, sabendo que Arquelau reinava na Judéia, em lugar de Herodes, seu pai, temeu ir para lá. E, advertido em sonho por aviso divino, retirou-se para a Galiléia. Lá chegando, foi morar em uma pequena cidade chamada Nazaré, a fim de que se cumprisse o que havia sido dito pelos profetas: “Será chamado Nazareno”. Em hebraico, Notzer ou Notzri.(…)

José e Maria segundo o preceito da lei, não faltavam, todos os anos, às celebrações da Páscoa, no templo de Jerusalém. perda e encontro de Jesus no templo.bmpLevavam o filho querido junto, que percebia essa santa observância e talvez se deixasse instruir a respeito do mistério dessa festa, Ele já estivera nela antes de nascer; Ele era o fundo da desta, dado que era o verdadeiro cordeiro que devia ser imolado e comido em memória de nossa passagem para a vida futura. Mas Jesus, sempre submisso aos pais mortais durante sua infância, deixou um dia patente que sua submissão não povinha da fraqueza e da incapacidade de uma idade ignorante, mas de ordem mais profunda.

Escolheu, para cumprir esse mistério, a idade dos doze anos, quando se começava a obter capacidade de raciocínio e de reflexões mais sólidas, a fim de não parecer querer forçar a natureza, mas, antes, seguir-lhe o curso e o progresso. A subtração de Jesus, escapando à sua santa Mãe e ao santo José, não é uma punição, mas um exercício. Não se lê que tenham sido acusados de tê-lo perdido por negligência ou por qualquer falta; é, pois, uma humilhação e um exercício. Primeiramente, sentiram-se inquietos, depois tristes, pelo fato de não o encontrarem entre os parentes e os conhecidos entre os quais julgavam estar. Quantas vezes, se nos é permitido fazer conjeturas, quantas vezes o santo ancião deve ter-se mortificado, pelo pouco cuidado que tivera com o depósito celeste! Como não teria ficado aflita com ele a terna Mãe, como a melhor esposa que jamais existiu?

Os encantos do santo menino eram surpreendentes. É para admitir que todos os quisessem para si. E nem Maria nem José podiam deixar de crer que estivesse em qualquer grupo de viajantes, porque as pessoas da mesma região iam de Jerusalém em grupos, para se fazerem companhia. Assim, Jesus escapou facilmente e seus pais caminharam um dia sem se aperceberem da perda.

Voltai a Jerusalém. Não é entre os parentes nem entre os homens que se deve procurar Jesus Cristo. É na cidade santa. É no templo que o encontraremos ocupado com os assuntos de seu Pai. Com efeito, após três dias de procura laboriosa, quando tinha sido bastante pranteado e procurado, o santo menino se deixou encontrar no templo.

Estava sentado no meio dos doutores. Estes o escutavam e o interrogavam. E todos os que ouviam se admiravam de sua prudência e de suas respostas. Ei-lo, pois, de um lado, sentado com os doutores, como se ele mesmo fosse um deles e tivesse nascido para ensiná-los; e de outro, não o vemos dar lições expressas. Escutava, interrogava os que eram reconhecidos como mestres em Israel, não juridicamente, por assim dizer, nem dessa maneira autêntica da qual usou mais tarde. Era, se podemos dizer, um menino, e como que desejoso de ser instruído. E por isso que foi dito que escutava e respondia, por sua vez, os doutores que o interrogavam; e se admiravam de suas respostas, menino modesto que era, doce e bem instruído, nele percebendo, como é claro algo de superior, de sorte que o deixavam tomar lugar entre os mestres.(…)

Seus pais ficaram admirados de encontrá-lo entre os doutores, aos quais causava espanto. O que assinala que estes não viam nele nada de extraordinário no comum da vida, porque tudo estava como que envolto no véu da infância; e Maria, que era a primeira a sentir a perda de um filho tão querido, foi também a primeira a lamentar-lhe a ausência.

E, meu filho, disse Ela, por que nos fizestes isso? Teu pai e eu, aflitos, te procurávamos. Notai: teu pai e eu.

Ela disse pai e, de fato, ele o era, como já vimos; pai, não somente pela adoção do santo menino, mas ainda verdadeiramente pai pelo sentimento, pelo cuidado, pela doçura; o que fez como que Maria dissesse: teu pai e eu, aflitos. Iguais na aflição, porque sem ter tomado parte no teu nascimento, partilha comigo da alegria de te possuir e da dor de te perder. Todavia, mulher obediente e respeitosa, nomeia a José por primeiro: teu pai e eu, dando-lhe a honra de tratá-lo como se fosse pai a exemplo dos demais. (…)

Por que me procuráveis? Não sabíeis que devo ocupar-se das coisas de meu Pai? Eis a resposta sublime do menino. Teria com isso corrigido a Maria, por ter chamado a José de seu pai? Absolutamente. Ele lembra apenas a doce lembrança de seu verdadeiro pai, Deus, cuja vontade, assunto do qual quer falar, deve ser sua ocupação. A vontade do Pai era que lhe dessem então, uma amostra da sabedoria da qual estava pleno e que vinha declarar, juntamente com a superioridade como devia tratar os pais mortais sem seguir a carne e o sangue, seus superiores de direito, a eles submetido por deferência especial. (…)

Compete esclarecer que, pelo que parece, (Jesus) perdeu José antes do tempo de seu ministério. Por ocasião da paixão, deixou sua Mãe com o discípulo bem amado, que a recebeu em sua casa, coisa que não teria feito, se José, seu casto esposo, ainda estivesse vivo. Desde o começo de seu ministério, vê-se Maria convidada com Jesus às bodas de Caná; não se fala de José.

Pouco depois, vemo-lo em Cafarnaum, com sua Mãe, irmãos e discípulos. José não aparece. Maria aparece muitas vezes. Mas, depois de ter sido educado por São José, não se fala mais deste santo homem. E quando, no começo de seu ministério, Jesus Cristo vinha pregar em sua terra, dizia-se: Não é este o carpinteiro filho de Maria? Como ele, não nos envergonhemos pelo fato de o terem visto, por assim dizer, manter a oficina, sustentar com seu trabalho a Mãe viúva e levar adiante o pequeno comércio de uma profissão que garantia a subsistência de ambos.

Sua mãe não se chama Maria? Não temos entre nós seus irmãos Jacó e José, e Simão e Judas e suas irmãs? Não se fala de seu pai. Aparentemente, pois, jaó havia perdido. Jesus o servira durante sua última doença. Feliz pai a quem tal filho fechou os olhos! Verdadeiramente, morreu-lhe nos braços e como que num beijo do Senhor. Jesus ficou para consolar sua Mãe, para servi-la. Nisso consistiu todo seu exercício.

Santa família de Jesus, Maria e José, ah, se todas as famílias vos fossem semelhantes! O céu começaria na terra! Não teríamos guerras, violências, injustiças, processos, ódios, Por toda parte reinaria a paz, a união, a concórdia, a caridade. Todos amariam todos em Deus e Deus em todos.

São José – O varão a quem Deus chamou de pai

Há certos homens, ao longo da História, cuja grandeza ultrapassa qualquer lenda e esgota mesmo a mais rica capacidade de imaginação. Tais homens parecem ser objeto de uma especial predileção de Deus, o qual Se compraz em adornar cuidadosamente suas almas com o brilho das virtudes e de raríssimos dons. Predestinados desde o nascimento, sua vida se desenvolve em meio a aventuras extraordinárias e assombrosas que ora lhes favorecem o desempenho da missão, ora levantam-se como obstáculos intransponíveis, dando ocasião a lances de confiança e audácia que tornam suas pessoas ainda mais dignas de admiração.

No Antigo Testamento encontramos narrativas dessas a cada passo. Extasiamo-nos diante do poder de um Moisés, que com o simples gesto de levantar seu cajado dividiu as águas do mar em duas gigantescas muralhas líquidas; ou perante a serena autoridade de Josué, que não duvidou em dar ordens ao próprio sol para deter o seu curso. Mais adiante, impressionam-nos a força de Sansão, ao carregar nos ombros as portas de Gaza, e o zelo ardoroso do profeta Elias, fazendo cessar a chuva durante três anos. A todos eles a Providência Divina concedeu o domínio sobre a natureza, essa fé que move montanhas e as faz saltar como cabritos…

Tais prodígios sublinhavam o poder justiceiro do Criador e visavam, sobretudo, educar uma humanidade manchada pelo pecado original, sobre a qual ainda não se haviam derramado os benefícios da Redenção.

Uma nova economia da graça

Chegada a plenitude dos tempos, as manifestações da onipotência divina, longe de diminuir, atingiram um auge de profundidade e esplendor. No Novo Testamento, porém, a grandeza se esconde muitas vezes sob os véus da comum existência humana, e isso é permitido por Deus para aumentar nossos méritos e acrisolar ainda mais nossa fé.

O exemplo paradigmático dessa nova economia da graça, nós o vemos realizar-se num varão cuja vida transcorreu na humildade e no silêncio, mas que mereceu ouvir dos lábios do Homem-Deus o doce nome de pai!

Sem dúvida, Moisés, ao abrir o mar em duas partes, ou Josué, ao parar o sol, marcaram de forma indelével as futuras gerações. Mas, o que é ter sujeitado os elementos, criaturas inanimadas, diante da honra suprema de ser obedecido por Aquele de quem canta o salmista: “Mais forte que o bramido das ondas caudalosas, mais poderoso que o rebentar das vagas, é o Senhor lá nas alturas” (Sl 92, 4), e que mais tarde foi visto por Malaquias quando disse: “Para vós, que temeis o meu nome, nascerá o Sol da Justiça trazendo salvação em suas asas” (Ml 3, 20)? O que significa ter carregado às costas as portas de Gaza, em confronto com a glória de estreitar nos braços Aquele que afirmou de Si mesmo: “Eu sou a porta das ovelhas” (Jo 10, 7)? Caberá alguma comparação entre o profeta que fez parar a chuva e o patriarca cujas preces aceleraram a “chuva do Justo vindo das alturas” (cf. Is 45, 8)?

Uma das mais altas vocações da História

São José, o homem justo por excelência, o glorioso esposo de Maria e pai legal do Filho de Deus, é certamente um dos santos mais venerados pela piedade popular. No entanto, quase só ouvimos falar dele como “o artesão de Nazaré” ou “o padroeiro dos operários”. Esses títulos são muito legítimos, mas estão longe de nos dar idéia do píncaro de santidade ao qual Deus houve por bem elevá-lo. Ele nunca será devidamente conhecido e venerado por nós se — repetindo em nossa época a triste cegueira dos habitantes de Nazaré — o considerarmos apenas como o pobre carpinteiro da Galiléia.

Para não nos tornarmos culpados de um erro que poderia ser qualificado de “calúnia hagiográfica”, procuremos analisar a verdade a respeito deste varão destinado a uma das mais altas vocações da História.

Deus escolhe sempre o mais belo

Deus Todo-Poderoso, para quem “nada é impossível” (Lc 1, 37) e que tudo governa com sabedoria infinita, possui algo que poderíamos chamar de sua “única limitação”: ao criar, Ele nada pode escolher de menos belo e perfeito, ou que não seja para sua glória. Desde toda a eternidade, ao determinar a Encarnação do Verbo, quis o Pai que — apesar das aparências de pobreza e humildade através das quais Se mostraria, e que contribuiriam para sua maior exaltação — a vinda de seu Filho ao mundo se revestisse da suprema pulcritude conveniente a Deus. Assim, dispôs que Ele fosse concebido por uma Virgem, concebida por sua vez sem pecado original, unindo em Si as alegrias da maternidade à flor da virgindade. Porém, para completar o quadro, tornava-se necessária a presença de alguém que projetasse na terra a própria “sombra do Pai”. Para tal missão Deus destinou José, ao qual poderíamos aplicar as palavras da Escritura, referindo-se a seu antepassado Davi: “O Senhor escolheu para Si um homem segundo o seu coração” (1 Sm 13, 14).

Varão justo por excelência

Levando em conta o axioma latino: “nemo summus fit repente” e o acertado dito de Napoleão: “a educação de uma criança começa cem anos antes de ela nascer”, é provável que, em atenção à sua missão e ao seu papel de educador junto ao Menino-Deus, José tenha sido santificado já no seio materno, como o foi João Batista no ventre de Santa Isabel. Essa tese é defendida por diversos autores e pode sintetizar-se nas palavras de São Bernardino de Sena: “Sempre que a graça divina escolhe alguém para algum favor especial ou para algum estado elevado, concede-lhe todos os dons necessários à sua missão; dons que a ornam abundantemente”.

O louvor de José, tal como o Evangelho no-lo traça, encerra-se numa única e breve frase: era justo. Tal elogio, à primeira vista de um laconismo desconcertante, nada tem de medíocre. Na linguagem bíblica, o adjetivo “justo” designa todas as virtudes reunidas. No Antigo Testamento, justo é aquele a quem a Igreja dá o nome de santo: justiça e santidade exprimem a mesma realidade.

O próprio silêncio das Escrituras a seu respeito nos revela um aspecto primordial de sua perfeição: a contemplação. São José é o modelo da alma contemplativa, mais desejosa de pensar que de agir, embora seu ofício de carpinteiro o levasse a consagrar tanto tempo ao trabalho. Nele vemos realizar-se o ensinamento de São Tomás: a contemplação é superior à ação, porém, mais perfeita ainda é a junção de uma e de outra numa mesma pessoa.

Ao serrar a madeira, fabricar um móvel ou um arado, José mantinha sempre seu espírito voltado para o sobrenatural, elevando-se para o aspecto mais sublime das coisas e considerando tudo sob o prisma de Deus. Suas atitudes refletiam a seriedade e a altíssima intenção com a qual sempre agia, e isso contribuía para o maior primor dos trabalhos por ele executados. Sua humilde condição de trabalhador manual em nada lhe diminuía a nobreza. Reunia em si, de forma admirável, as duas classes sociais: como legítimo herdeiro do trono de Davi, conservava em seu porte e semblante a distinção e a elegância próprias a um príncipe, aliando-as, porém, a uma alegre simplicidade de caráter. Para ele, mais importante do que a nobreza de sangue é aquela que se alcança pelo brilho da virtude; e esta, ele a possuía largamente.

A Providência, entretanto, o destinava a alcançar a mais alta honra que se possa dar a uma criatura concebida no pecado original e o colocava em desproporção com todo o restante dos homens. Diz São Gregório Nazianzeno: “O Senhor conjugou em José, como num sol, tudo quanto os outros santos têm, em conjunto, de luz e de esplendor”. Todas as glórias acumulam-se neste varão incomparável, cuja existência terrena transcorre dentro de uma sublimidade ignorada por seus conhecidos e compatriotas, num silêncio e apagamento quase completos.


Admirável consonância entre duas almas virgens

No Antigo Testamento, a virgindade ainda não adquirira o prestígio do qual passou a gozar na Era Cristã. Muito pelo contrário, quem não constituísse família, ou se visse impossibilitado de gerar filhos, era considerado maldito por Deus. “A espera do Messias dominava a tal ponto os espíritos, que o desprezo do casamento equivalia a uma recusa desonrosa de contribuir para a vinda d’Aquele que havia de restaurar o reino de Israel” (1). De acordo com a opinião generalizada, José, movido por uma especial moção do Espírito Santo, decidira permanecer virgem por toda a vida. Porém, não querendo singularizar-se, contrariando os costumes de seu tempo, resignara-se a contrair matrimônio, convencido de que o Senhor, tendo lhe inspirado esse bom propósito, o ajudaria a levá-lo a cabo.

Cedendo, pois, às exigências sociais, resolveu pedir a mão de Maria, a qual ele provavelmente já conhecia, pois ambos pertenciam à mesma tribo e habitavam na mesma aldeia. Tudo indica que naquela época os pais de Maria haviam falecido e Ela vivia sob a tutela de algum parente. Sem levar em conta a opinião da jovem, seu tutor apenas Lhe comunicou ter aceito o pedido de um pretendente a ser seu marido.

É sabido que Maria, desde a infância, consagrara ao Senhor sua virgindade. Entretanto, acostumada a obedecer, inclinou-Se ante a decisão de seus parentes, acreditando ser essa a manifesta vontade da Providência. Se conservava algum receio, deve este ter-se dissipado quando soube que o escolhido era José, o nobre descendente da estirpe de Davi, em cuja alma Ela já vira, por seu aguçado dom de discernimento, as altíssimas qualidades postas por Deus.

Antes dos esponsais, Maria precisava dar a conhecer ao seu noivo o voto de virgindade, sob pena de o matrimônio ser nulo. Fê-lo de forma séria e decidida, falando com toda a simplicidade de seu inocente coração. José pensou estar ouvindo uma voz do Céu e reconheceu, emocionado, a mão da Providência atendendo às suas preces. É impossível ter idéia do grau de concórdia dessas duas almas, ao se revelarem mutuamente seus mais íntimos mistérios. Desde esse instante, José passou a ser o modelo perfeito do devoto de Nossa Senhora. Podemos bem imaginar que, já nesse primeiro encontro, a graça o tocou de maneira especial, levando-o a consagrar-se como escravo de amor Àquela que, mais do que esposa, já considerava como Senhora e Rainha.

Proporcionado a Jesus e Maria

O contrato matrimonial deveria ser acertado entre as duas famílias. Um ponto ao qual se costumava dar escrupulosa importância, sobretudo entre pessoas de nobre origem, era a igualdade de condições. Tanto Maria quanto José eram da tribo de Judá e descendentes de Davi. Mais, porém, do que qualquer requisito social, sobre aquele matrimônio pairava, desde toda a eternidade, um desígnio divino. Para a rea­lização da vontade do Altíssimo, deveria o esposo ser proporcionado à esposa, o pai ao filho, a fim de sustentar com toda dignidade a honra de ser pai adotivo de Deus. E houve só um homem criado e preparado para essa missão, inteiramente à altura de exercê-la: São José. Ele estava na proporção de Jesus Cristo e de Maria Santíssima.

Para fazermos uma idéia exata da magnitude de sua personalidade, devemos imaginá-lo como sendo uma versão masculina de Nossa Senhora, o homem dotado de sabedoria, força e pureza bastantes para governar as duas criaturas mais excelsas saídas das mãos de Deus: a Humanidade santíssima de Nosso Senhor e a Rainha dos anjos e dos homens.

Em Israel os esponsais equivaliam juridicamente ao casamento de hoje. A partir dessa cerimônia — na qual o noivo colocava um anel de ouro no dedo de sua prometida, dizendo: “Este é o anel pelo qual tu te unes a mim diante de Deus, segundo o rito de Moisés” — ambos passavam a pertencer de forma irrevogável um ao outro e a partir de então se consideravam esposos. Contudo, a coabitação era em geral adiada pelo prazo de um ano, para dar tempo à esposa de completar o enxoval e ao marido de preparar a casa.

Maria e José, fiéis cumpridores da Lei, ativeram-se a todas essas formalidades. Mas um segredo Divino envolvia seu caso concreto, do qual certamente nenhuma das testemunhas do acontecimento — parentes e amigos — chegou a suspeitar. Ali estavam “duas almas virgens que se prometiam mútua fidelidade, uma fidelidade que consistiria em guardarem ambos a virgindade”.

Quanto mais uma pessoa sofre, mais é digna de amor

Nesse intervalo entre os esponsais e as bodas, Maria recebeu a embaixada do Arcanjo Gabriel. O Evangelho de Mateus deixa-o bem claro ao afirmar: “Antes de coabitarem, aconteceu que Ela concebeu por virtude do Espírito Santo” (Mt 1, 18). Supérfluo seria nos estendermos aqui sobre os detalhes da Anunciação e da Encarnação do Verbo, já tão conhecidos e tantas vezes comentados. Um ponto apenas é preciso deixar bem claro: poucos dias depois desse acontecimento, Maria dirigiu-se apressadamente para o pequeno po­voa­do das montanhas da Judéia onde habitavam seus primos, Zacarias e Isabel. Boa parte dos comentaristas defende a idéia de que José acompanhou sua esposa na viagem de ida e, transcorridos três meses, foi buscá-La. Tal opinião parece bem fundada, pois a juventude de Maria e as dificuldades de um penoso percurso eram razões de sobra para mover a solicitude de um esposo fiel e zeloso, como era o seu.

Depois do regresso a Nazaré, não tardou ele a perceber os primeiros sinais da gravidez de sua desposada. No começo, relutou em acreditar, julgando-se vítima de uma alucinação. Passados, porém, alguns dias, não pôde mais duvidar da realidade patente ante seus olhos: Maria trazia uma criança em seu seio.

Nesse momento eclodiu, como violento turbilhão, o drama na vida de São José. Talvez a provação mais terrível que uma mera criatura humana — fazendo abstração da Santíssima Virgem ao longo da Paixão — jamais tenha enfrentado. Essa era, entretanto, a divina vontade do Menino que Se formava nas puríssimas entranhas de Maria. Desejava Ele que seu nascimento viesse com o selo indelével da dor santamente aceita, para dar-nos a lição de que quanto mais uma pessoa sofre, tanto mais é digna de amor. O pai adotivo que escolhera como imagem de seu Pai Celestial, Ele o submetia a uma dura prova, dando-lhe oportunidade de levar seu heroísmo a alturas inimagináveis. Ao mesmo tempo, aparecia com maior esplendor a virgindade de Nossa Senhora.

O herói da fé

A perplexidade de José não consistia, como pensaram alguns Padres antigos, em duvidar da fidelidade de sua esposa. Tal hipótese contunde a nossa piedade, pois desmerece a perfeição eminente alcançada pelo santo Patriarca e, ademais, Deus não permitiria que a honra virginal de Maria pudesse ser ferida por uma suspeita no espírito de José. O texto do Auctor imperfecti exprime com belíssimas palavras a postura dele diante do fato:

“Ó inestimável louvor de Maria! São José acreditava mais na castidade de sua esposa do que naquilo que seus olhos viam, mais na graça do que na natureza. Via claramente que sua esposa era mãe e não podia acreditar que fosse adúltera; acreditou que era mais possível uma mulher conceber sem varão do que Maria poder pecar” (3).

Sua angústia tornava-se tanto mais lancinante quanto mais via resplandecer a virtude no rosto angelical de Maria. Por um lado, a evidência saltava-lhe aos olhos, por outro, considerava fora de cogitação a possibilidade de aquela criatura tão inocente ter cometido um pecado. Ora, se a concepção de Maria era obra sobrenatural, o que fazia ele ali? Não estaria ofendendo a Deus, intrometendo-se num mistério para ele incompreensível, o qual se lhe afigurava como absolutamente divino? Não seria ele um intruso, atrapalhando os planos do Altíssimo?

José não julgou. Suspendeu o juízo da carne ante os inescrutáveis desígnios de Deus. Subjugou a razão humana à fé inabalável e procurou uma saída para o caso, pois, como resume São Tomás. Desde o princípio descartou a hipótese de denunciá-La, como o exigia o Deuteronômio, segundo o qual a mulher deveria sofrer a pena de lapidação. Estava convicto da inocência de Maria e estremecia diante dessa idéia.

Existia também a opção do repúdio: a Lei de Moisés permitia ao homem despedir sua mulher, dando-lhe o libelo de divórcio. Mas essa possibilidade repugnava-lhe igualmente, porque atentaria contra a reputação da Santa Virgem. Numa pequena aldeia, onde todos os habitantes se conheciam, tal atitude daria margem a suspeitas sobre o comportamento de Maria: por qual motivo o marido A teria afastado de repente? No futuro, a Virgem traria sempre a marca de uma mulher rejeitada.

A solução encontrada por José não se achava nos livros da Lei, mas partiu de seu coração: “Resolveu deixá-La secretamente” (Mt 1, 19). Agindo assim, salvaguardava a fama de sua esposa, pois Ela seria vista como uma pobre jovem abandonada pela crueldade de um homem sem palavra. A culpa recairia toda sobre ele.

Nesse passo de sua vida, José revelou o brilho alcandorado de sua nobre alma, sua sabedoria e sua humildade levadas ao grau heróico. Com efeito, a ele poderíamos aplicar estas belas palavras de um autor francês: “O herói é um grande coração que se ignora, uma grande alma que se esquece de si mesma. (…) Todas as fraquezas de nossa pobre natureza humana estão concentradas em torno desse egoísmo que faz de cada um de nós o centro do Universo. O herói é aquele que rompeu esse círculo estreito onde todas as naturezas, até mesmo as mais dotadas, vegetam ou se estiolam. Esse “eu” que em alguns é rei, nele, durante toda sua vida, permanece escravo”.

Esqueceu-se completamente de si, preferindo desacreditar-se diante da opinião pública, a ver o prestígio de Maria manchado.

Além do mais, renunciava também à sua própria felicidade: tinha de abandonar Nossa Senhora, o maior tesouro da terra. Isso era um sofrimento imenso, pois para ele o convívio com Maria significava um verdadeiro Paraíso. D’Ela aprendera, nos seus gestos mais simples, lições excelsas de sabedoria e de bondade; ao contemplá-La, sentia-se mais próximo de Deus. E via-se agora obrigado a sacrificar aquilo que mais apreciava em sua vida! Passaria seus dias longe, venerando um mistério que não entendera.

Durante alguns dias, José maturou sua resolução, decidido a pô-la em prática. Numa noite enevoada e sem lua encontrou ocasião propícia, preparou seus pobres pertences e deitou-se para refazer as forças antes da partida. Pouco a pouco, por uma ação angélica, seu coração aflito serenou e ele adormeceu profundamente. Como outrora com Abraão, o Senhor esperara até o último instante para deter o golpe fatal. No meio da noite apareceu-lhe um anjo, anunciando: “José, filho de Davi, não temas receber Maria por esposa, pois o que n’Ela foi concebido vem do Espírito Santo. Ela dará à luz um filho, a quem porás o nome de Jesus, porque Ele salvará o seu povo de seus pecados” (Mt 1, 20-21).

“Os que semeiam entre lágrimas, recolherão com alegria” (Sl 125, 5)

É impossível medir o gozo de José ao despertar do sonho. Logo ao alvorecer, correu a encontrar-se com sua esposa. Mas como se sentia agora mais tomado pela veneração e ternura que culminavam no ardoroso desejo de servi-La! Certamente nada disse a Maria, mas a alegre expressão do seu semblante era mais eloqüente do que as palavras. De joelhos, adorou a Deus no seio virginal de sua Mãe, primeiro tabernáculo no qual Se dignara habitar sobre a terra. Um Deus que também era seu filho, pois os dizeres do anjo manifestavam com clareza a autoridade a ele outorgada sobre o fruto de sua esposa: “um filho a quem porás o nome de Jesus”.

Paternidade nova, única e especial

A paternidade de São José em relação a Cristo tem sido um tema muito discutido pelos autores. Os títulos multiplicam-se: pai legal, pai putativo, pai nutrício, pai adotivo, pai virginal… Cada um deles define aspectos parciais e incompletos, sem chegar a exprimir por inteiro a paternidade deste varão excepcional. O Pe. Bonifácio Llamera OP parece ter chegado a uma conclusão satisfatória:

“A paternidade de São José em relação a Jesus é certamente distinta de qualquer outra paternidade natural, seja física ou adotiva. É verdadeira paternidade, mas muito singular. É uma paternidade nova, única e especial, pois não procede da geração segundo a natureza, mas está fundada num vínculo moral inteiramente real. E tão real é esta paternidade singular, como é verdadeiro o vínculo matrimonial entre Maria e José. (…)

“Esta paternidade de São José, tão admirável como difícil de expressar numa palavra, é confirmada e esclarecida pelos Santos Padres e autores de obras sobre o santo Patriarca, os quais concentraram em três vínculos principais a subtil realidade que une São José a Jesus: o direito, que é conjugal; a virgindade e a autoridade que adornam o mistério de São José”.

Na encíclica Quamquam pluries, o Papa Leão XIII afirmou: “É verdade que a dignidade da Mãe de Deus é tão alta que nada a pode ultrapassar. Porém, como existe entre a Virgem e São José um laço conjugal, não há a menor dúvida de que ele se aproximou mais do que ninguém dessa dignidade supereminente que coloca a Mãe de Deus muito acima de todas as criaturas.”

Uma criatura dando conselhos ao Criador…

Quantas vezes teve São José nos braços o Divino Infante? O dia inteiro no convívio com o Menino Jesus, observando-O rezar, falar, fazer todos os atos de sua vida comum… Nessa contemplação constante, para a qual ele tinha uma alma maravilhosamente apta, recebia graças extraordinárias e se deixava modelar. Por vezes, o Menino parava diante dele e dizia: “Peço-vos um conselho: como devo fazer tal coisa?” E São José se comovia, considerando que quem estava lhe pedindo um conselho era o próprio Filho de Deus!

A esse homem a Providência concedeu lábios suficientemente puros e humildade bastante grande para fazer essa coisa formidável: responder a Deus. A criatura plasmada pelas mãos do Criador dava-Lhe conselhos! Ele foi o predestinado para exercer uma verdadeira autoridade sobre Nossa Senhora e o Menino Jesus, o privilegiado que alcançou uma altíssima intimidade com Jesus e Maria, o bem-aventurado a quem foi outorgada a graça de expirar entre os braços de Deus, seu Filho, e da Mãe de Deus, sua Esposa!

“Ao vencedor concederei assentar-se comigo no meu trono” (Ap 3, 21)

“Não separe o homem o que Deus uniu” (Mt 19, 6). Se, ao longo de sua existência terrena, José foi o inseparável companheiro da Virgem Maria, partilhando suas dores e alegrias, é inconcebível que na eternidade essa convivência não tenha atingido sua plenitude. Ora, para o convívio ser perfeito, é necessário estar juntos e olhar-se. Por esta razão, uma forte corrente de teólogos defende a tese de que “sem a assunção gloriosa de José em corpo e alma, a Sagrada Família reconstituída no Céu teria tido uma nota discordante na sua exaltação e glória” (6).

A esse respeito, afirma São Francisco de Sales:

“Se é verdade o que devemos acreditar, que, em virtude do Santíssimo Sacramento que recebemos, os nossos corpos hão de ressuscitar no dia do Juízo Final, como podemos duvidar de que Nosso Senhor tenha feito subir ao Céu, em corpo e alma, o glorioso São José, o qual teve a honra e a graça de trazê-Lo tantas vezes em seus braços benditos? Não resta dúvida, pois, de que São José está no Céu em corpo e alma”.

Uma nobreza mais resplandecente do que o sol

Tenha-se em conta que a nobreza humana pode ser considerada em sua causa, em sua essência e em sua ação.

Considerando-a em sua causa, é a nobreza de origem, no que foi singularíssimo São José, pois tem sua origem numa tríplice dignidade: corporal, espiritual e celeste. Ou seja, uma dignidade real, sacerdotal e profética, que é celestial, pois predizer o futuro é só de Deus. Davi foi rei, Abraão patriarca, Natã profeta, e os três foram antepassados de São José.

São José era nobre em sua essência, quer dizer, na sua própria pessoa, porque encontramos nela tríplice nobreza: ele foi justo em sua alma, alcançou a dignidade de esposo da Rainha do Céu e teve ofício de pai nutrício do Filho de Deus.

Também em suas obras ele deu provas, ao mundo inteiro, de uma singular nobreza. Recebeu em sua casa o Salvador do mundo, O conduziu são e salvo através de vários países, O serviu e alimentou durante muitos anos com seus trabalhos e seus suores.

Esses são os raios que emite a nobreza do santíssimo José, tornando-a mais resplandecente que o mesmo sol.

(Pe. Isidoro de Isolano, Suma dos dons de São José)

“Tome este glorioso Santo por mestre”

Só peço, por amor de Deus, que o comprove quem não acreditar em mim, e verá por experiência própria como é vantajoso encomendar-se e ter devoção a este glorioso Patriarca. Sobretudo as pessoas de oração deveriam ser-lhe afeiçoadas. Pois não sei como podem pensar na Rainha dos Anjos e no longo tempo que passou com o Menino Jesus, sem agradecer a São José pelo muito bem que lhes fez. Quem não encontrar mestre que lhe dê orientação na oração, tome este glorioso Santo por mestre, e não errará o caminho.

(Santa Teresa de Jesus, Livro da Vida)

Morte de São José

Por ter falecido nos braços de Jesus e Maria, São José é o padroeiro da boa morte. Pois se julga, e com razão, que ninguém foi tão bem assistido como ele em seus últimos momentos.

Por ter falecido nos braços de Jesus e Maria, São José é o padroeiro da boa morte. Pois se julga, e com razão, que ninguém foi tão bem assistido como ele em seus últimos momentos. Quase se poderia dizer que por isso o termo de sua vida foi tão suave e consolador que dele esteve ausente qualquer sofrimento ou angústia.

No entanto, não podemos esquecer que para José esta foi a suprema perplexidade de sua existência terrena. Pois, ao falecer, separava-se do convívio inefável com sua virginal esposa e com Jesus, o Filho de Deus. José partia para a Eternidade, deixando na terra o seu Céu…

A consideração do exemplo e dos preciosos dons concedidos por Deus ao pai adotivo de Jesus nos leve a confiar na poderosa intercessão daquele a quem o próprio Filho de Deus obedeceu: “E era-Lhes submisso” (Lc 2, 51).

“O exemplo de São José – afirmou o Papa Bento XVI na comemoração de sua festa litúrgica – é para todos nós um forte convite a desempenhar com fidelidade, simplicidade e humildade a tarefa que a Providência nos destinou. Penso antes de tudo, nos pais e nas mães de família, e rezo para que saibam sempre apreciar a beleza de uma vida simples e laboriosa, cultivando com solicitude o relacionamento conjugal e cumprindo com entusiasmo a grande e difícil missão educativa. Aos sacerdotes, que exercem a paternidade em relação às comunidades eclesiais, São José obtenha que amem a Igreja com afeto e dedicação total, e ampare as pessoas consagradas na sua jubilosa e fiel observância dos conselhos evangélicos de pobreza, castidade e obediência.

Proteja os trabalhadores de todo o mundo, para que contribuam com as suas várias profissões para o progresso de toda a humanidade, e ajude cada cristão a realizar com confiança e com amor a vontade de Deus, cooperando assim para o cumprimento da obra da salvação”

 
 
 

SANTO DO DIA – 18 DE MARÇO – SÃO CIRILO DE JERUSALÉM Bispo e doutor da Igreja (315-386)

Desde o início dos tempos cristãos a heresia se infiltrara na Igreja, mas, foi no século IV, que ocorreram as do arianismo e do nestorianismo causando profundas divisões. Cirilo viveu nesse período em Jerusalém, perto de onde nascera em 315, de pais cristãos e bem situados financeiramente. Muito preparado, desde a infância, nas Sagradas Escrituras e nas matérias humanísticas, em 345 foi ordenado sacerdote.

Em 348, foi consagrado, bispo de Jerusalém. Ocupou o cargo durante aproximadamente trinta e cinco anos, dezesseis dos quais passou no exílio, em três ocasiões diferentes. A primeira porque o bispo Acácio, de grande influência na Igreja, cuja obra foi citada por São Jerônimo, acusou Cirilo de heresia. A segunda por ordem do imperador Constâncio que entendeu ser Cirilo realmente um simpatizante dos hereges, mas em sua defesa atuaram os bispos, Atanásio e Hilário, ambos Padres da Igreja assim como o próprio bispo Cirilo o é. A terceira, foi a mais longa, porque o imperador Valente, este sim herege, decidiu mandar de volta ao exílio todos os bispos anistiados, fato que fez Cirilo peregrinar durante onze anos, por várias cidades da Ásia, até a morte do soberano, em 378.

O seu trabalho, entretanto resistiu a tudo e chegou até nossos dias e especialmente porque ele sabia ensinar o Evangelho, como poucos. Em sua cidade, logo que se tornou sacerdote e no início do episcopado era o responsável por preparar os catecúmenos, isto é, os adultos que se convertiam e iriam ser batizados. Foi nesse período que escreveu dezoito discursos catequéticos, um sermão, a carta ao imperador Constantino e outros pequenos fragmentos. Treze escritos eram dedicados à exposição geral da doutrina e cinco dedicados ao comentário dos ritos Sacramentais da iniciação cristã. Assim, seus escritos explicam detalhadamente os ‘como’ e os ‘porquês’ de cada oração, do batismo, da crisma, da penitência, dos sacramentos e dos mistérios do Cristianismo, ditos dogmas da Igreja.

Cirilo também soube viver a religião na prática. Numa época de grande carestia, por exemplo, não hesitou em vender valiosos vasos litúrgicos e outras preciosidades eclesiásticas, para matar a fome dos pobres da cidade. Ele morreu no ano 386.

Desde o início de sua vida religiosa, Cirilo cujo caráter era afável e suave, sempre preferiu a catequese aos assuntos polêmicos, chegando quase a se comprometer com os arianos e semi-arianos. Porém, de maneira contundente aderiu à doutrina ortodoxa da Igreja no III Concílio ecumênico de Constantinopla, em 382, no qual ficou clara sua sempre fiél postura à Santa Sé e à Verdade de Cristo. Nessa oportunidade teve em seu favor a eloquência das vozes dos sinceros bispos e amigos, Atanásio e Hilário, que o chamaram ‘valente lutador para defender a Igreja dos hereges que negam as verdades de nossa religião’.

Sua canonização demorou porque, durante muito tempo, seu pensamento teológico foi considerado vacilante, como dizem os registros. Em 1882, o Papa Leão XIII, na solenidade em que instituiu sua veneração, honrou São Cirilo de Jerusalém com os títulos de doutor da Igreja e príncipe dos catequistas católicos.


Conheça mais sobre São Cirilo de Jerusalém

Nossa atenção se concentra hoje em São Cirilo de Jerusalém. Sua vida representa o cruzamento de duas dimensões: por um lado, a atenção pastoral, e por outro, a participação, apesar dele, das acesas controvérsias que turbaram então a Igreja do Oriente.

Nascido em torno do ano 315, em Jerusalém ou perto dela, Cirilo recebeu uma ótima formação literária, que se converteu no fundamento de sua cultura eclesiástica, centrada no estudo da Bíblia. Ordenado presbítero pelo bispo Máximo, quando este morreu ou foi deposto, no ano 348, foi ordenado bispo por Acácio, influente metropolitano de Cesaréia da Palestina, filo-ariano, convencido de que era seu aliado. Por este motivo, deu-se a suspeita de que havia alcançado a nomeação episcopal após ter feito concessões ao arianismo.

Na realidade, rapidamente, Cirilo enfrentou Acácio não só no campo doutrinal, mas também no da jurisdição, pois Cirilo reivindicava a autonomia de sua própria sede com relação à do metropolitano de Cesaréia. Em cerca de vinte anos, Cirilo experimentou três exílios: o primeiro, no ano 357, após ter sido deposto por um Sínodo de Jerusalém; no ano 360, um segundo exílio provocado por Acácio e, por último, um terceiro, mais longo — durou onze anos –, no ano 367, por iniciativa do imperador filo-ariano Valente. Só em 378, depois da morte do imperador, Cirilo pôde voltar a tomar definitivamente posse de sua sede, restabelecendo entre os fiéis a unidade e a paz.

A favor de sua ortodoxia, posta em dúvida por algumas fontes da época, advogam outras fontes da mesma antiguidade. Entre elas, a mais autorizada é a carta sinodal do ano 382, depois do segundo Concilio ecumênico de Constantinopla (381), no qual Cirilo havia participado com um papel destacado. Nessa carta, enviada ao pontífice romano, os bispos orientais reconhecem oficialmente a mais absoluta ortodoxia de Cirilo, a legitimidade de sua ordenação episcopal e os méritos de seu serviço pastoral, ao qual a morte pôs ponto final no ano de 387.

Dele conservamos 24 famosas catequeses, que pronunciou como bispo por volta do ano 350. Introduzidas por uma «Procatequese» de acolhida, as primeiras 18 estão dirigidas aos catecúmenos ou «iluminados» («photizomenoi»). Foram pronunciadas na basílica do Santo Sepulcro. As primeiras (1-5) falam respectivamente das disposições prévias ao Batismo, da conversão dos costumes pagãos, do sacramento do Batismo, das dez verdades dogmáticas contidas no Credo ou Símbolo da fé.

As sucessivas (6-18) constituem uma «catequese contínua» sobre o Símbolo de Jerusalém, em chave antiariana. Entre as últimas cinco (19-23), chamadas «mistagógicas», as duas primeiras desenvolveram um comentário aos ritos do Batismo, as últimas três falam do crisma, do Corpo e do Sangue de Cristo e da liturgia eucarística. Incluem a explicação do Pai Nosso («Oratio dominica»), que apresenta um caminho de iniciação à oração, que se desenvolve paralelamente à iniciação aos três sacramentos, o Batismo, a Confirmação e a Eucaristia.

O fundamento da educação na fé cristã se desenvolvia, em parte, em chave polêmica contra os pagãos, judeu-cristãos e adeptos do maniqueísmo. A argumentação se fundamentava na aplicação das promessas do Antigo Testamento, com uma linguagem cheia de imagens. A catequese era um momento importante, marcado no amplo contexto de toda a vida, em particular a litúrgica, da comunidade cristã, em cujo seio materno acontecia a gestação do futuro fiel, acompanhada pela oração e pelo testemunho dos irmãos.

Em seu conjunto, as homilias de Cirilo constituem uma catequese sistemática sobre o renascimento através do Batismo. Ao catecúmeno, ele diz: «Caíste nas redes da Igreja (cf. Mateus 13, 47): com vida serás colhido; não fujas; é Jesus quem te jogou a isca, e não para destinar-te a morte, mas para, entregando-te a ela, recobrar-te vivo: pois é necessário que tu morras e ressuscites (cf. Romanos 6, 11.14)… Morre aos pecados e vive para a justiça; fá-lo desde hoje» («Procatequese» 5).

Desde o ponto de vista doutrinal, Cirilo comenta o Símbolo de Jerusalém recorrendo à «tipologia» das Escrituras, em relação «sinfônica» entre os dois Testamentos, até chegar a Cristo, centro do universo. A tipologia será eficazmente descrita por Agostinho de Hipona: «O Novo Testamento está escondido no Antigo, enquanto o Antigo se torna manifesto no Novo» («De catechizandis rudibus» 4, 8).

A catequese moral está ancorada com uma profunda unidade na catequese doutrinal: faz que o dogma descenda progressivamente nas almas, que deste modo são alentadas a transformar os comportamentos pagãos na nova vida em Cristo, dom do Batismo.

Por último, a catequese mistagógica constituía a reunião da educação que Cirilo ministrava aos que já não eram catecúmenos, mas neobatizados ou neófitos durante a semana da Páscoa. Levava-os a descobrir, nos ritos batismais da Vigília pascal, os mistérios contidos neles e que ainda não lhes haviam sido desvelados. Iluminados por uma fé mais profunda graças ao Batismo, os neófitos eram capazes finalmente de compreendê-los melhor, ao ter celebrado os ritos.

Este texto explica o mistério do Batismo: «Fostes submersos três vezes na água, levantando-vos também três vezes. Também nisso significastes em imagem e simbolicamente a sepultura de Cristo por três dias. Pois, assim como nosso Salvador passou três dias e três noites no seio da terra (cf. Mateus 12, 40), também vós imitastes o primeiro dia que Cristo passou no sepulcro ao levantar-vos da água pela primeira vez e, com a imersão, a primeira noite, pois do mesmo modo que o que está na noite já não vê, e o que se move no dia caminha na luz, vós, ao submergir-vos, como na noite, deixastes de ver, mas, ao sair, fostes postos como no dia. No mesmo momento haveis morrido e haveis nascido, e aquela água chegou a ser para vós sepulcro e mãe… Para vós.. o tempo de morrer coincidiu com o tempo de nascer. E um tempo único conseguiu ambas coisas, pois com vossa morte coincidiu vosso nascimento» («Segunda Catequese Mistagógica», 4).

O mistério que é preciso assimilar é o plano de Deus, que se realiza através das ações salvíficas de Cristo na Igreja. Por sua vez, a dimensão mistagógica está acompanhada pela dos símbolos que expressam a vivência espiritual que fazem «explodir».

Deste modo, a catequese de Cirilo, em virtude dos três elementos descritos — doutrinal, moral e, por último, mistagógico — converte-se em uma catequese global no espírito. A dimensão mistagógica se converte em síntese das duas primeiras, orientando-as à celebração sacramental, na qual se realiza a salvação de todo o homem.

Trata-se, em definitivo, de uma catequese integral que implica o corpo, a alma e o espírito e continua sendo emblemática para a formação catequética dos cristãos de hoje.

Catequeses Mistagógicas de S. Cirilo de Jerusalém

Prefácio

A obra catequética de S. Cirilo de Jerusalém compõe-se de 2 Catequeses. No presente volume apresentamos as Catequeses Mistagógicas. Deixamos para um próximo volume a Catequese Preli-minar e as 18 Catequeses Pré-batismais. Publicamos em primeiro lugar as Catequeses Mistagógicas não só pela importância das mesmas, mas por constituírem uma unidade de doutrina que nos abre as portas para uma melhor compreensão e aproveitamento das demais Catequeses.

As Catequeses de S. Cirilo são consideradas como sendo a coleção catequética, após a de Agostinho, a mais completa que a Antigüidade nos legou. Através delas podemos apreciar o con-teúdo de tudo quanto constituía a educação religiosa ministrada aos que se convertiam ao Cristianismo. O Credo, detalhadamente comentado, é tido como uma jóia preciosa do tesouro teológico da Igreja Primitiva. Nas Catequeses Pré-batismais o Credo, muito semelhante ao Credo Niceno-constantinopolitano, nos é transmitido com comentários e interpretações próprias da época. Nas Catequeses Mistagógicas é o culto cristão: Batismo, Confirmação, Celebração Eucarística, com o respectivo rito, que é explicado. Pelas Catequeses temos acesso ao anúncio da fé da Igreja Primitiva e às manifestações culturais desta fé.

A tradução de toda a obra catequética foi feita por fr. Frederico Vier, O.F.M. Durante os últimos anos de sua vida, ele consagrou as horas que lhe sobravam do cansativo trabalho de Revisor e Vice-Diretor da Editora Vozes a este trabalho de tradução das Catequeses de S. Cirilo. É a ele que dedicamos esta obra como expressão de uma vida de dedicação incansável e de perseverança inexaurível. Era com amor que o víamos horas a fio tentando descobrir a melhor expressão, o termo mais apropriado para designar o pensamento do bispo de Jerusalém. A experiência de anos na revisão de textos e manuscritos o tornou sensível às sutilezas da língua e solidificou seu desejo de fidelidade ao autor. Infelizmente, a morte o colheu antes que tivesse concluído a obra. Coube-nos, com a colaboração de fr. Salésio Hillesheim, O.F.M., concluí-la.

Petrópolis, 21 de agosto de 1976.

Frei Fernando A. Figueiredo, O.F.M.

Introdução

  1. Dados biográficos

No ano 348 tornou-se Cirilo bispo da cidade de Jerusalém, onde provavelmente nasceu por volta do ano 315. Fora em 345 ordenado sacerdote por Máximo II, a quem sucederia após sua morte ou deposição levada a efeito pelos eusebianos. Muito depressa Acácio, metropolita da Província e um dos chefes dos eusebianos, investe contra Cirilo, defensor da fé de Nicéia. Seguem-se acusações mútuas acerca da fé de cada um. Cirilo é exilado por três vezes em uma situação parecida à de S. João Crisóstomo com Teófilo de Alexandria.

Em 358/9 o concílio de Seleucia o restabelece em sua sé episcopal. No ano seguinte será desterrado por ordem do Imperador Constâncio, movido por Acácio e seguidores. Ele permanece no desterro até 362, quando é favorecido pela anistia geral proclamada por Juliano. Porém, em 367, apesar da morte de Acácio, ele volta ao exílio até que, em 378, Graciano decreta a suspensão do desterro para todos os bispos católicos. Em 381 encontramo-lo entre os padres conciliares do primeiro Concílio de Constantinopla. A liturgia ocidental e oriental comemora no dia 18 de março a sua morte, que deve ter-se dado no ano de 387.

É necessário distinguir em Cirilo o teólogo e a testemunha da fé e da Tradição cristã, de modo geral, e da Igreja de Jerusalém, em particular. Como teólogo ele não apresenta a profundidade doutrinal dos Padres da segunda metade do século IV, defensores da ortodoxia, como S. Atanásio e S. Hilário ou teólogos como Basílio e os demais Padres Capadócios que marcarão o pensamento teológico, influenciando as gerações futuras. Mas é uma valiosa testemunha da Tradição antiga e eco da fé católica professada em Nicéia e, mais tarde, no primeiro Concílio de Constantinopla.

  1. Caracterização da época

Uma rápida visão da época em que viveu Cirilo ajudar-nos-á a melhor apreender o motivo que subjaz a muitos ditos seus ao longo de suas obras.

No século II a Igreja se vê diante de correntes religiosas que se esforçam para exercer uma espécie de sedução sobre os homens de seu tempo: a gnose e as religiões de Mistério. O gnosticismo continuará presente nos séculos posteriores sob formas diversas, sendo combatido por Justino, Santo Ireneu, Tertuliano e o autor dos Philosophumena. Localizar-se-á, sobretudo, no Egito e na Síria. A gnose fala de uma centelha divina no homem, o qual, provindo do reino divino, caiu neste mundo. Aqui o homem se encontra submisso ao destino, ao nascimento, à morte e tem necessidade de ser despertado por seu arquétipo celeste ao qual ele finalmente se reunirá. Esta libertação se dá pelo conhecimento (gnose), que consiste essencialmente em conhecer-se, melhor, se reduz à necessidade de reconhecer o elemento divino que constitui o verdadeiro «eu». Liberta-se assim de todos os «poderes» que o retêm no «profano» e no erro.

Ao mesmo tempo que tais correntes angariavam adeptos, no interior da Igreja se assistia ao surgimento de doutrinas anti-trinitárias. Incapazes de admitir a diversidade de Pessoas na uni-dade de uma e mesma Natureza divina, negavam alguns a divindade do Cristo reduzindo-o a um simples homem dotado de extraordinários poderes e virtudes (dinamistas), ou explicavam sua personalidade como mera modalidade da de Deus Pai (modalistas, patripassianos). Em relação ao Filho, temos Noeto e Práxeas; em relação ao Espírito Santo, temos Sabélio.

Daí à doutrina sustentada por Ario, sacerdote da Igreja de Alexandria, seria um passo. Logo após a vitória sobre Licínio, Constantino, único imperador, escreve a Alexandre, bispo de Alexandria, para que ele se ponha de acordo com Ario. Alexandre se escandalizara com as posições cristológicas de seu sacerdote Ario, que, de mil maneiras, mesmo através de cânticos populares, ensinava que o Cristo não é verdadeiramente Deus. Em uma carta a Eusébio de Nicomedia, Ario expõe sua posição: «Ele (o Cristo) começou a existir por um ato de vontade. Antes de ser gerado Ele não era». Tal discussão culminará com o primeiro Concílio Ecumênico de Nicéia, em 325, onde se proclamará, contra o arianismo, a divindade do Filho e sua consubstancialidade (homo-ousía) com o Pai.A luta ariana (318-381) coincide com a vida de S. Cirilo e caracteriza este período. Concílios e sínodos, fórmulas e mais fórmulas de fé, mútuas condenações constituem a tecedura desta luta. Para aumentar a confusão dos fiéis, surgiram, dentro das correntes heterodoxas, outras com matizes diversos, uma mais extremada, a dos anomeus, outra mais mitigada; a dos semi-arianos ou homoioúsios. A muitos faltavam serenidade e magnanimidade, deixando-se envolver em intrigas e mesmo fraudes e violências.

Em meio a tal situação se destacam a ousadia e a sobriedade, a profundidade e a mente esclarecida de um Basílio Magno, Gregório Nazianzeno, Gregório de Nissa, Cirilo de Alexandria e outros. S. Cirilo em suas catequeses alerta os fiéis não só contra as afirmações anticristãs provindas do meio gentílico ou judaico, mas também contra as asserções heréticas. Enumera os vícios dos deuses adorados pelos pagãos, assim como de seus adoradores. Busca no A.T. anúncios e prefigurações do N.T., em oposição aos judeus, e mostra a unidade de ambos os Testamentos, o que era rejeitado pelos gnósticos. Levanta-se contra os hereges, cujas obras ele diz ter lido: «Estas coisas, fala Cirilo, estão nos livros dos maniqueus, eu as li, porque não cria nos que me falavam delas; e as examinei cuidadosamente para segurança vossa e ruína dos outros».

Muito se escreveu sobre o fato de Cirilo jamais empregar o termo homooúsios: consubstancial. Todavia, a simples leitura de suas catequeses nos mostra um Cirilo preocupado em ser o mais simples possível, evitando sempre que possível o emprego de termos teológicos. Ele tem diante de si pessoas pouco versadas em doutrina cristã, às quais deseja transmitir de modo acessível e com proveito suas instruções. Daí o fato de ele expor a doutrina em uma terminologia fundamentalmente bíblica. Ademais, o termo homooúsios foi compreendido por alguns em um sentido sabeliano, que Cirilo tantas vezes combate.

  1. Particularidades da Igreja de Jerusalém

Através das próprias catequeses de S. Cirilo podemos ter uma idéia da Igreja de Jerusalém. O costume da catequese era cuidadosamente observado em Jerusalém. Se em outras Igrejas a exposição do Credo se resumia a duas, três ou mais apresentações, em Jerusalém se lhe dedicava todo o tempo da Quaresma. Compreende-se o motivo pelo qual o conjunto das catequeses nos oferece todo um sistema doutrinário. Na Catequese Preliminar ele nos faz ver a importância conferida a esta ação catequética: «Aprende o que ouves e guarda-o para sempre. Não creias serem estas homilias habituais. Também elas são boas e dignas de fé».

Cirilo pronuncia as catequeses na Igreja da Ressurreição e na Capela do Santo Sepulcro. Para que alguém fosse admitido ao catecumenato exigia-se, segundo menciona Eusébio, a imposição das mãos e a oração. O primeiro Concílio de Constantinopla (381) nos fala dos exorcismos e da insuflação, feitos em três dias consecutivos. No primeiro dia, diz o Concílio, fazemo-los cristãos; no segundo catecúmenos; no terceiro os exorcizamos, soprando por três vezes o rosto e os ouvidos e assim os catequizamos. 4 São Cirilo se refere expressamente aos exorcismos 5, os quais são recebidos com a face coberta com um véu: «O teu rosto foi coberto com um véu, a fim de que todo o teu pensamento não estivesse disperso, e o olhar, divagando, não fizesse vagar também o coração».

Após o primeiro grau de Catecumenato passa-se ao dos Competentes com todo um período de preparação e que antecedia em algumas semanas à Páscoa. O bispo lhes dirigia uma exortação, seguida da inscrição nos registros da Igreja. Esta se fazia, em Jerusalém, no princípio da Quaresma e num mesmo dia. Recebiam então o nome de fiéis. «Vê que, sendo chamado fiel, tua intenção não seja de um infiel».

Findo o que se seguia à preparação imediata para o batismo que compreendia duas partes principais:

a) Preparação ascética, que Cirilo descreve na Catequese Preliminar, na primeira e na segunda Catequese. Três obras a caracterizam: o jejum, a penitência e a confissão dos pecados.

Jejum – O jejum se estendia, na comunidade jerosolimitana, pelo espaço de 40 dias, inclusive os sábados e domingos , e abarcava também a abstinência de vinho e carnes. Além deste jejum quaresmal existia o jejum pascal, muito mais rigoroso.

Penitência – Acentua-se não só a penitência externa, mas também a interna como meio imprescindível para uma digna recepção do batismo. Diz Cirilo: «Prepara teu coração para re-ceberes as doutrinas, para participares dos sagrados mistérios». É o convite à renúncia a todo mau hábito e à purificação dos pecados. «Deixa desde já toda obra má; que tua língua não fale palavras inconvenientes; que teu olhar já não peque mais e que teu espírito não se ocupe com coisas vãs.” Este espírito de penitência é fruto da graça de Deus implorada na oração. Por isso Cirilo insiste que seus ouvintes sejam assíduos à oração: “Reza com insistência a fim de que Deus te faça digno dos celestes e imortais mistérios. Não cesses nem de dia nem de noite”. Quarenta dias, no entanto, é pouco tempo de preparação para os que viveram entregues às vaidades. Daí a necessidade de receber com toda devoção os exorcismos , assistir às catequeses com pureza de intenção. Confissão – S. Cirilo desenvolve de modo todo especial o inciso sobre a confissão dos pecados. No início da primeira Catequese ele exclama: «Vós que estais cobertos com o manto das transgressões e estais ligados com as cadeias dos vossos pecados, escutai a voz profética que diz: Lavai-vos, purificai-vos». Em outra Catequese ele repete: «Quão excelente é confessar-se».

A segunda Catequese é praticamente uma grande exortação à confissão apresentada não como mero relato de pecados, mas expressando uma situação existencial e conseqüente vontade de mudar de vida. Os termos que ocorrem para designar a confissão são significativos: (confissão) e (penitência).

b) Preparação catequética. Nota-se aqui a diferença da Igreja de Jerusalém das demais Igrejas. Como já dissemos acima, em Jerusalém se emprega toda a Quaresma para explicar o Credo, enquanto nas demais igrejas a exposição do Credo se restringe a duas ou mais apresentações. Cirilo profere 23 catequeses, o que por si só exprime a importância que é dada à catequese na preparação batismal. As dezoito primeiras se dirigem aos que se preparam para o batismo e comentam basicamente o Credo artigo por artigo. As últimas cinco são pronunciadas para os recém-batizados, durante a semana da Páscoa, na capela do Santo Sepulcro. As cinco tratam da doutrina, dos ritos e cerimônias dos sacramentos do Batismo, da Confirmação e da Eucaristia.

  1. Apresentação geral de sua obra

Como já assinalamos Cirilo pronuncia 23 catequeses que podem ser divididas em dois blocos distintos: As 18 primeiras pronunciadas em preparação para o batismo e as 5 últimas aos já batizados. Quase todas foram proferidas na Igreja do Santo Sepulcro e, como observa J. Quasten, «uma nota conservada em diversos manuscritos recorda que elas foram copiadas em estenografia, ou, ainda; que elas representam a transcrição de um de seus ouvintes, e não uma cópia «manu propria» do bispo». Precede às 18 primeiras uma alocução preliminar ou introdução geral, na qual Cirilo prepara os ouvintes para receber, com maior proveito, as instruções pré-batismais. Após uma ardorosa recepção: «Já vos impregna, ó iluminandos, o odor da bem-aventurança», o bispo acentua a necessidade da penitência e purificação dos pecados, da prece e da disciplina pessoal e de uma intenção livre de todo interesse mundano para se aproximar do sacramento de iniciação. O mesmo é repetido nas duas primeiras catequeses, que versam sobre o pecado e a penitência. Na terceira, ele trata do batismo e de seus efeitos. A quarta é um breve compêndio da doutrina sobre a fé. Aí ele expõe as verdades necessárias ao homem para que ele se salve. Em primeiro lugar, alude ao Credo onde se professa o Deus Criador, seu Filho Jesus Cristo e o Espírito Santo. Em seguida, apresenta a doutrina cristã sobre o homem, sua natureza, sua vida moral e seu fim último. Finalmente, discorre sobre o conhecimento de Deus e de nós mesmos, fundado na Sagrada Escritura.

Da quinta à décima oitava Catequese Cirilo dá uma explicação detalhada dos artigos do Credo, que se aproxima muito da fórmula do Concílio de Constantinopla (381). Por exemplo, na quinta ele expõe a palavra Credo. Segue-se o primeiro artigo: “Creio em um só Deus” e assim por diante.

As Catequeses Mistagógicas (19-23) versam sobre os sacramentos recebidos pelos neófitos na vigília pascal. Doutrina que permanecera até então oculta. Daí o nome de catequeses mistagógicas. Nas duas primeiras, o bispo busca explicar as cerimônias que precederam ao batismo. Na terceira fala da Confirmação; na quarta da Eucaristia e na quinta trata da liturgia da Santa Missa.

  1. Autoria das Catequeses

A. Piédagnel apresenta, na edição francesa das Catequeses Mistagógicas, uma visão histórica bastante ampla da questão da autoria das catequeses, em geral, e das Mistagógicas, em particular.

A questão surgiu no século XVI com Josias Simler que, fundado em um catálogo de manuscritos gregos da cidade de Augsburgo, conclui que a totalidade das catequeses são erroneamente atribuídas a Cirilo. Teriam sido proferidas por João II de Jerusalém, sucessor de Cirilo. Mais tarde, o protestante Thomas Mille refere-se não mais ao catálogo, mas aos títulos encontrados em tal manuscrito e que não indicam a autoria das catequeses «ad illuminandos». As cinco mistagógicas têm, no entanto, a João como autor. Mesmo assim Thomas as atribui a Cirilo. A edição de A. Touttée, beneditino, algum tempo depois, busca provar a autoria de Cirilo para as Mistagógicas.

No século XIX as edições de W. K. Reischl e J. Rupp, embora assinalem que o Codex Monacencis 394 por duas vezes citava as mistagógicas como sendo pronunciadas por João II, consideram não ser um argumento válido para negar a autoria de Cirilo face a tantos outros testemunhos em seu favor.

Quatro outros manuscritos, o Ottobonianus 86 (s.X-XI), o Ottobonianus 446 (s.XV), o Vaticanus 602 (s. XVI) e o Monacensis 278 (s.XVI), atribuem as mistagógicas ora a Cirilo, ora a João. Por causa de tais manuscritos, Th. Schermann, W. J. J. Swaans, M. Richard, W. Telfer, G. Kretschmar e outros fazem remontar a redação das mistagógicas para o final do IV século, atribuindo-as a João II.

Apesar de tais objeções, diversos autores citam outros manuscritos, como por ex. o Bodleianus Roe 25, o Vindobonensis 55 etc., que apresentam as catequeses mistagógicas sem nome do autor, logo após a Catequese Preliminar e as 18 Pré-batismais. Antecede à Catequese Preliminar o nome de Cirilo. Existe também uma tradição literária, embora tardia (séc. VIII-XI), na qual encontram-se citações das Catequeses Mistagógicas com o nome de Cirilo. Ademais, fez-se toda uma análise das diversas catequeses chegando-se a inúmeras provas que falam de um único e mesmo autor, Cirilo. O estudo comparativo entre passagens de textos de cada grupo de catequeses indica uma origem comum. «Touttée, escreve A. Piédagnel, assinalava também o emprego do mesmo método de exposição nas duas séries de catequeses: ele consiste em partir de uma citação da Escritura, em se referir ao longo da Catequese a numerosos textos, do AT em particular, em intercalar aí algumas paráfrases, em terminar por uma exortação de ordem moral e uma doxologia idêntica».

Chegou-se assim a um consenso final de que não se encontra na tradição manuscrita um respaldo suficiente para negar a autoria de Cirilo não só em relação à Catequese Preliminar e às 18 Pré-batismais, como também em relação às Catequeses Mistagógicas.

  1. Conteúdo doutrinário das Catequeses

A doutrina exposta por S. Cirilo nas Catequeses se resume basicamente ao Credo. Eis a profissão de fé da comunidade de Jerusalém:

  1. Cremos em um Deus, Pai Todo-poderoso, Criador do céu e da terra, de todas as coisas visíveis e invisíveis.

  2. E em um Senhor Jesus Cristo, Filho Unigênito de Deus, gerado do Pai, Deus verdadeiro, antes de todos os séculos, pelo qual foram feitas todas as coisas.

  3. Que veio na carne e se fez homem (da Virgem e do Espírito Santo).

  4. Foi crucificado e sepultado.

  5. Ressuscitou ao terceiro dia.

  6. E subiu aos céus e está sentado à direita do Pai.

  7. E virá na glória para julgar os vivos e os mortos, cujo reino não terá fim.

  8. E em um Espírito Santo, o Paráclito que falou nos pro-fetas.

  9. E em um batismo de penitência para remissão dos pecados.

  10. E em uma santa católica Igreja.

  11. E na ressurreição da carne.

  12. E na vida eterna.

O símbolo não se encontra escrito integralmente nas Catequeses. Isso por causa da disciplina do arcano. Cirilo insiste sobre o segredo que os candidatos devem conservar não divulgando o que lhes fora ensinado. «Oferecemo-vos em poucos versículos o dogma inteiro da fé. Quero que o fixeis com as próprias palavras e o repitais convosco mesmos com todo cuidado, não o escrevendo em papel, mas gravando-o na memória de vosso coração».

O texto acima apresentado foi restabelecido por Touttée a partir do que se podia colher cá e lá nos títulos e ao longo das Catequeses. Todavia, a reconstrução, embora nos sugira qual seja o Credo de Cirilo, não é autêntica em todas as suas partes. Nas Catequeses 9,4 e 10,3 temos citações de Cirilo e que foram certamente transcritas de modo fiel pelos taquígrafos. Quanto aos títulos não se dá o mesmo. Parecem ser mais apresentações do redator que do próprio Cirilo. O redator procura resumir em poucas palavras o assunto a ser tratado nas Catequeses. Apesar destas dificuldades o texto exprime substancialmente o símbolo de Cirilo.

As Catequeses falam da fé e de suas fontes: a Sagrada Escritura e a Tradição, unidade e trindade de Deus, divindade e consubstancialidade das três Pessoas, mistério da Redenção, anjos, origem divina do homem, espiritualidade e imortalidade da alma, livre arbítrio, pecado, novíssimos, Igreja, sacramentos. Sobre o Cristo Cirilo rejeita o arianismo e apresenta sua posição que concorda com a fé de Nicéia. Cristo é verdadeiramente Deus. Ele é um com o Pai. «São um pela dignidade da divindade (…) Um são eles, porque não há entre eles discórdia ou separação, pois não são umas as obras criadas por Cristo, outras as criadas pelo Pai». O Espírito Santo é professado como uma personalidade distinta do Pai e do Filho, gozando igualmente da mesma divindade. Ele proclama sua fé trinitária: «Indivisa a fé, inseparável a piedade. Não fazemos separação na Santíssima Trin-dade, como alguns; nem confusão, como Sabélio».

Estes temas não são tratados de modo igual, pois o objetivo de Cirilo é explicar o Símbolo e não apresentar um tratado sobre cada um dos temas. As Catequeses Mistagógicas, no entanto, falarão extensamente do Batismo, da Confirmação e da Eucaristia. Cirilo apresenta uma visão geral do batismo, explicitando o significado da unção e da imersão, e aponta seus efeitos, eficácia, necessidade, autor, sujeito e ministro.

Pelo batismo o cristão participa da vida mesma de Cristo. Cristo assumiu toda a realidade humana para que pudéssemos participar da salvação. «Batizados em Cristo e dele revestidos vos tornastes conformes ao Filho de Deus». Esta semelhança ao Filho é significada especificamente na Crisma, quando, «ungidos com o óleo, fostes feitos participes e companheiros de Cristo». Este processo de assemelhação ao Filho se realiza no e pelo próprio Filho, que se torna alimento espiritual. «Em forma de pão te é dado o corpo, e em forma de vinho o sangue, para que te tornes, tomando o corpo e o sangue de Cristo, concorpóreo e consangüíneo com Cristo». Ele é bastante explícito ao declarar que o pão e o vinho não são simples elementos, mas «são, conforme a afirmação do Mestre, corpo e sangue». 30 A coroa ou o «edifício espiritual» de toda instrução é a celebração eucarística, que o bispo de Jerusalém descreve minuciosamente interpretando a liturgia eucarística em seu desenrolar.

Vê-se pois a importância e o sentido das Catequeses de S. Cirilo não só para a Catequese e para a Liturgia, como também para a Teologia, que tem nelas o testemunho da Tradição cristã sobre as principais verdades de fé.

  1. Método e estilo

Em suas obras, Cirilo não nos deixa perceber que tenha observado um método com regras precisas. Com isso não se quer dizer que não haja certa ordem ao longo da exposição. Por vezes ele começa apresentando o erro dos hereges e mostra o ponto fraco da doutrina deles, para então expor a verdadeira doutrina e os argumentos que a apóiam. Outras vezes segue exatamente o caminho oposto. E quando a doutrina é puramente moral, como na Catequese Preliminar; ele não observa nenhuma ordem. Ele apresenta suas considerações assim como elas lhe vêem à mente. Penitência, aversão ao pecado, oração, leitura da Bíblia, rejeição da heresia, distanciamento de espectáculos e jogos maus ou perigosos, são recomendações que voltam sempre que é possível.

Quanto ao estilo, ele é bastante popular e simples. Diante de um auditório, que era de iniciantes na fé, sua linguagem assume uma feição muito familiar. É em tom de conversação que ele desenvolve as instruções. Muitas vezes ele deixa o tratamento «vós», que é empregado quando ele se dirige aos seus ouvintes de modo geral, e fala em «tu» como se estivesse se dirigindo pessoalmente a alguém. Refletem as Catequeses comunicação e clareza de linguagem. Algumas vezes porém ele deixa perceber uma eloqüência muito viva. Lemos na sexta Catequese: «Lembrai-vos do que foi dito: Que consórcio há entre a justiça e a iniqüidade? Que comunidade entre a luz e as trevas? (…) Aqui há ordem, aqui há disciplina, aqui há seriedade, aqui há castidade, aqui é considerado pecado olhar alguma mulher com olhos concupiscentes. Aqui o matrimônio é mantido em santidade (…). Associa-te às ovelhas. Foge dos lobos. Não te afastes da Igreja…».

Extratos pelo Apostolado Veritatis Splendor segundo a obra CATEQUESES MISTAGÓGICAS, S. Cirilo de Jerusalém. Coordenador: Frei Alberto Beckhäuser, O.F.M. Tradução de Frei Frederico Vier, O.F.M. Introdução e notas de Frei Fernando Figueiredo, O.F.M. Petrópolis, Editora Vozes Ltda. 1977.

 
 
 
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