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Para a sensibilidade do século XX, falar de “Santa” e “Inquisição” na mesma frase parece uma contradição. Nunca houve um assunto tão escrito – ou calado – como a Santa Inquisição. A mentalidade moderna tem uma dificuldade natural na compreensão de uma instituição como a Inquisição, porque o processo inquisitorial não foi baseado em doutrinas liberais, tais como a liberdade de pensamento que se tornou central na cultura ocidental no século 18. A mente moderna tem dificuldade em compreender a crença religiosa como algo objetivo, fora do âmbito do julgamento privado livre. A mente moderna não consegue ver a Igreja Católica como uma sociedade perfeita e soberana, onde a ortodoxia deve ser mantida a qualquer custo. A intolerância religiosa não é um produto exclusivo da Idade Média: em todos os lugares e sempre, no passado, homens incrédulos perturbavam o bem comum e a paz pública tanto quanto causavam dissensões religiosas e conflitos. Na Idade Média, tornou-se aceito que o tipo mais grave de crise foi o que ameaçava a unidade e a segurança da Igreja Latina, e não proceder contra os hereges com todos os meios à disposição da sociedade cristã, não só era tola, mas uma traição ao próprio Cristo. O conceito moderno do Estado secular, neutro em relação a todas as religiões, teria chocado a mente medieval. Os homens modernos experimentam dificuldade em compreender esta instituição, porque eles perderam de vista três fatos. Primeiro de tudo, eles deixaram de compreender a crença religiosa como algo objetivo, como um dom de Deus e, portanto, fora do âmbito do julgamento privado livre. Em segundo lugar, já não veem na Igreja uma sociedade perfeita e soberana, baseada substancialmente em uma pura e autêntica revelação, cujo primeiro e mais importante dever deve ser de naturalmente manter imaculado este original depósito da fé. Que a ortodoxia deveria ser mantida a qualquer custo parecia evidente para a mente medieval. A heresia, uma vez que afetava a alma, era um crime mais perigoso do que o assassinato, uma vez que a vida eterna da alma valia muito mais do que a vida mortal da carne. Finalmente, o homem moderno perdeu de vista uma sociedade em que a Igreja e o Estado constituem uma forma de governo coeso. A autoridade espiritual estava inseparavelmente entrelaçada com a secular da mesma forma que a alma se une com o corpo. Dividir os dois em compartimentos separados teria sido impensável. O Estado não pode ser indiferente sobre o bem-estar espiritual em seus assuntos sem ser culpado de traição ao seu primeiro Soberano, Nosso Senhor Jesus Cristo. Antes da revolução religiosa do século 16, esses pontos de vista eram comuns a todos os cristãos. Como observa William Thomas Walsh em Caracteres da Inquisição, a supressão positiva da heresia pelas autoridades eclesiásticas e civis na sociedade cristã é tão antiga como o monoteísmo em si. (Em nome da religião, Moisés matou muito mais pessoas do que Torquemada condenou). No entanto, a Inquisição, por si só, como um tribunal eclesiástico distinto, é de origem muito mais tardia. Historicamente, operada como uma fase no crescimento da legislação eclesiástica que adaptou determinados elementos do procedimento legal romano. Em seu próprio tempo, ela certamente não teria sido entendida como ela é apresentada hoje. Pois, como Edward Peters aponta tão bem em seu marco estudo sobre a Inquisição, “Inquisition”, a lenda da inquisição foi uma “invenção” das disputas religiosas e conflitos políticos do século 16. Mais tarde foi adaptado para as causas de tolerância religiosa e da iluminação filosófica e política nos séculos 17 e 18. Este processo, que sempre foi anti-católico e, geralmente, anti-espanhol, tornou-se universalizado. Assim, eventualmente, a Inquisição tornou-se representante de todas as religiões repressivas que se opunham a liberdade de consciência, liberdade política e esclarecimento filosófico. MITO 1: “A Inquisição medieval foi um supressivo, abrangente, e todo-poderoso órgão centralizado de repressão mantido pela Igreja Católica.” Realidade: Exceto na ficção, a Inquisição como um único todo-poderoso, terrível tribunal “cujos agentes trabalharam em todos os lugares para frustrar a verdade religiosa, a liberdade intelectual e liberdade política, até que foi derrubada em algum momento do iluminado século 19” simplesmente não existiu. O mito da Inquisição tomou forma nas mãos dos “reformadores anti-hispânicos e religiosos no século 16”. Foi uma imagem montada a partir de um corpo de lendas e mitos, que tomou forma no contexto da intensa perseguição religiosa do século 16. A Espanha, o maior poder na Europa, que havia assumido o papel de defensor do catolicismo, foi objeto de propaganda que degradou “A Inquisição” como a mais perigosa e característica arma dos católicos contra o protestantismo. Mais tarde, os críticos de qualquer tipo de perseguição religiosa iriam adotar o termo. Na verdade, não havia uma Inquisição monolítica, mas três inquisições distintas. A Inquisição da Idade Média começou em 1184 no sul da França em resposta à heresia cátara, e dissolveu-se no final do século 14 quando o catarismo morreu. Estudos mais recentes mostram conclusivamente que não há provas claras de que as pessoas na Europa medieval concebiam a Inquisição como um órgão de governo centralizado. Os papas dos tempos não tinham a intenção de estabelecer um tribunal permanente. Por exemplo, só em 367 que o título inquisitor haereticae pravitatis apareceu quando o dominicano Alberico foi enviado para a Lombardia. O Papa Gregório IX não estabeleceu a Inquisição como um tribunal distinto e separado, mas nomeou juízes permanentes que executaram funções doutrinárias em nome do papa. Quando eles sentavam, havia a Inquisição. Uma das lendas mais prejudiciais espalhada ao longo dos séculos é a imagem de um tribunal onisciente, onipotente cujos dedos alcançaram todos os cantos da terra. O pequeno número de inquisidores e seu alcance limitado de longe desmentem a retórica exagerada. No final do século 13, havia dois inquisidores para a totalidade de Languedoc (um dos focos de heresia albigense), dois para a província e de quatro a seis para o resto da França. Quanto à acusação de que a Inquisição era um corpo onipresente em toda a cristandade, a Inquisição nem sequer existia no norte da Europa, Europa Oriental, Escandinávia, ou na Inglaterra, País de Gales, Irlanda e Escócia. A grande maioria dos casos, no século 13, foi dirigida contra os hereges albigenses no sul da França. Não estava ainda estabelecida em Veneza até 1289 e os arquivos daquela cidade mostram que a pena de morte foi infligida pelo poder secular em apenas seis ocasiões no todo. “El Santo Oficio de la Santa Inquisição”, mais conhecido como a Inquisição espanhola, começou em 1478 como uma instituição do Estado designado para descobrir a heresia e desvios da verdadeira Fé. Mas Fernando e Isabel também o instituiu para proteger os conversos ou cristãos-novos, que se tornaram vítimas de indignação popular, preconceitos, medos e inveja. É importante notar que a Inquisição tinha autoridade sobre somente cristãos batizados, e que os não batizados eram completamente livres das suas medidas disciplinares a menos que violassem a lei natural. Por fim, o Santo Ofício em Roma, foi iniciado em 1542, o menos ativo e mais benigno dos três. Um estudo recente realizado por John Tedeschi, The Prosecution of Heresy, trata da Inquisição Romana e os procedimentos que se seguiram após a sua constituição em meados do século 16 na sua luta para preservar a fé e para erradicar a heresia. O valor do estudo de Tedeschi é que ele subverte os pressupostos de longa data sobre a corrupção, coação desumana, e a injustiça da Inquisição romana da Renascença, pressupostos que Tedeschi admitiu que abrigou quando começou sua extensa obra nos documentos. O que ele “gradualmente” começou a encontrar foi que a Inquisição não era um “tribunal rígido, uma câmara de horrores, ou um labirinto judicial do qual a fuga era impossível”. Tedeschi aponta que o processo inquisitorial incluía a prestação de um advogado de defesa. Além disso, ao acusado era dado o direito a um advogado e até mesmo receber uma cópia autenticada de todo o julgamento (com os nomes das testemunhas de acusação excluídos) para que ele pudesse dar uma resposta. Em contraste, nos tribunais seculares da época, o advogado de defesa ainda era colocado apenas um papel cerimonial, e ao criminoso era negado o direito a um advogado (até 1836), e as provas contra o acusado só eram lidas no tribunal, onde ele teria que fazer a defesa no local. Tedeschi concluiu que a Inquisição romana distribuiu justiça legal em termos da jurisprudência do início da Europa moderna e vai ainda mais longe ao dizer: “ talvez não seja exagero afirmar, de fato, que, em vários aspectos, o Santo Ofício foi um pioneiro na reforma do sistema judicial.” MITO 2: “A Inquisição nasceu da intolerância, crueldade e intolerância do mundo medieval, dominado pela Igreja Católica.” Realidade: A Inquisição encontrou o seu início em um ambiente calmo, medido e tentava criar um instrumento jurídico de conformidade que eliminaria o capricho, raiva e intolerância dos revolucionários. Além disso, os inquisidores medievais estavam combatendo um perigo social e não apenas teológico. No final do século 12, a Inquisição foi criada no sul da França em resposta à heresia albigense, que encontrou uma força especial nas cidades da Lombardia e Languedoc. É importante salientar os perigos sociais apresentados a toda a sociedade por este grupo, que não era apenas um protótipo do fundamentalismo protestante moderno, que é a visão popular dos nossos dias. O termo Albigense deriva da cidade de Albi, no sul da França, um centro de atividade dos cátaros. Os cátaros (o nome refere-se à designação dos seus adeptos como cátaros, palavra grega para os “puros”) consideravam que duas divindades, uma material e má, e outra imaterial e boa, lutavam pelas almas dos homens. Toda a criação material era má e era dever do homem escapar dela e rejeitar aqueles que a reconheciam como boa. O Deus do Antigo Testamento, que criou o mundo, era mau, era repudiado. Foi o Novo Testamento, tal como interpretado pelos cátaros, que atuou como guia para o homem para libertar sua alma espiritual da matéria má, o corpo. Uma autoridade do século 13, Rainier Sacconi, resumiu a crença dos cátaros assim: “As crenças gerais de todos os cátaros eram as seguintes: D. Sancho I e os Cátaros occitanos – Por Vitor Manuel Adrião Quinta-feira, Sep 1 2016 O diabo fez este mundo e tudo nele. Além disso, todos os sacramentos da Igreja, a saber, o batismo de água real e os outros sacramentos, são inúteis para a salvação e eles não são os verdadeiros sacramentos de Cristo e Sua igreja, mas são enganosos e diabólicos e pertencem à Igreja dos maus… Também uma crença comum a todos os cátaros é que o matrimônio carnal sempre foi um pecado mortal e que na vida futura alguém não sofrerá uma penalidade maior por adultério ou incesto do que pelo casamento legítimo, nem mesmo entre eles alguém seria mais severamente punido do que este assunto. Além disso, os cátaros negam a futura ressurreição do corpo. Eles acreditam também que comer carne, ovos ou queijo, mesmo em uma necessidade premente, é um pecado mortal; isso pela razão de que eles são gerados pelo coito. Também fazer juramento não é em nenhum caso admissível, este consequentemente, é um pecado mortal. Também que as autoridades seculares cometem o pecado mortal em punir malfeitores hereges. Também que ninguém pode alcançar a salvação, exceto em sua seita.” Os cátaros, assim, asseguravam que a missa era idolatria, a Eucaristia era uma fraude, o casamento mal, e a Redenção ridícula. Antes da morte, os adeptos recebiam o consolamentum, o único sacramento permitido e isso permitia a alma ser livre de matéria e voltar para Deus. Por esta razão, o suicídio por estrangulamento ou por inanição não só foi permitido, mas poderia até ser louvável. Ao pregar que o casamento era mal, que todos os juramentos eram proibidos, que o suicídio religioso era bom, que o homem não tinha vontade livre e, portanto, não poderia ser responsabilizado por suas ações, que a autoridade civil não tinha o direito de punir os criminosos ou defender o país na força, bateram na própria raiz da sociedade medieval. Por exemplo, a simples recusa de tomar juramentos teria minado todo o tecido das estruturas legais feudais, em que a palavra falada carregava igual ou maior peso do que a escrita. Até mesmo Charles Henry Lea, um historiador protestante amador da Inquisição que fez forte oposição a Igreja Católica, teve que admitir: “Essa era a crença cuja rápida difusão na Europa encheu a Igreja de um terror plenamente justificado. Por mais horror que nos possam inspirar os meios empregados para combatê-la, por mais piedade que devamos sentir por aqueles que morreram vítimas de suas convicções, reconhecemos sem hesitar que, nas circunstâncias, a causa da ortodoxia era a da civilização e do progresso. Se o catarismo se houvesse tornado dominante, ou pelo menos igual ao catolicismo, não há dúvida de que sua influência teria sido desastrosa” Em resposta à gravidade e brutalidade frequentes com o qual o norte Francês travou contra a Cruzada albigense, em que muitos hereges foram mortos sem julgamento formal ou audiência, o Papa Inocêncio III instituiu um processo de investigação para expor as seitas secretas. Outro problema enfrentado pelo papado foi a vontade por parte dos leigos de tomarem as medidas mais severas contra a heresia sem muita preocupação com a conversão e salvação dos hereges. O Papa Gregório IX é considerado o verdadeiro pai da instituição medieval, amigo tanto de São Francisco quanto de São Domingos. Ele chamaria as ordens mendicantes recém-descobertas para assumir a tarefa perigosa, árdua e indesejada de inquisidores. O que Papa Gregório IX instituiu era um tribunal extraordinário para investigar e julgar pessoas acusadas de heresia. O crescimento sem precedentes dos albigenses no sul da França certamente influenciou em sua decisão. No norte da França, também, a Igreja estava enfrentando a violência da multidão esporádica, que muitas vezes caia sobre os inocentes. A prática de colocar os hereges à morte por queima na fogueira estava assumindo a força de um costume estabelecido. O Papa também estava preocupado com os relatos vindos da Alemanha sobre uma seita conhecida como os Luciferianos, uma sociedade secreta com rituais fixos que profanavam a Hostia sagrada. No plano secular, o Papa estava enfrentando um poder formidável, o imperador Frederico II, o supostamente “moderno” e ‘liberal” Hohenstaufen, um governante totalmente indiferente ao bem-estar espiritual da Igreja e continuamente em desacordo com o Papado. O governante cristão só de nome, Frederico II foi fortemente influenciado pelos astrólogos e costumes muçulmanos (ele mantinha um harém); ele arruinou duas cruzadas, e foi excomungado duas vezes. Já em março de 1224, ele ordenou que qualquer herege condenado em Lombardia deveria ser queimado vivo (a pena romana antiga por alta traição) ou como uma penalidade menor, as suas línguas arrancadas. O Papa Gregório, estava com receio de que Frederico estava mandando homens as chamas que não eram hereges, mas apenas os seus próprios inimigos pessoais, e procurou encontrar uma maneira mais comedida para lidar com o problema. Em 1233 o Papa Gregório IX respondeu com sua própria solução: substituir a lei de Lynch por um processo legal regular, dirigido pelos dominicanos e franciscanos mendicantes. Eles seriam examinadores e juízes especialmente treinados para a detecção e conversão de hereges, protegidos da avareza e corrupção pelo voto de pobreza, e devotados à justiça. O primeiro ponto, portanto, a ser observado em conexão com a Inquisição mendicante é que ela surgiu em resposta a uma necessidade definida. Em matéria de heresia, introduziu a lei, sistema, e até mesmo a justiça onde havia um espaço ilimitado para a satisfação do ciúme político, animosidade pessoal, e o ódio popular. Quando encontramos um historiador descrevendo a introdução da Inquisição como um “passo em frente na teoria jurídica”, devemos entendê-lo nesse sentido. “Inquisitio” significa investigação, e esta foi a preocupação do Papa: uma investigação real, um processo judicial, em vez de linchamento de imediato, em vez de atos motivados por emoções irracionais e vingança privada. O segundo ponto é que as ordens mendicantes foram encarregadas da tarefa de preservar a integridade da Fé, bem como a segurança da sociedade. A incapacidade de conter a onda dessa heresia teria permitido um colapso na cristandade ocidental. Um dos tribunais mais bem-sucedidos em toda a história, conseguiu extirpar o veneno antissocial dos albigenses e, assim, preservou a unidade moral da Europa por mais de trezentos anos. MITO 3: “Os procedimentos hediondos da Inquisição foram injustos, cruéis, desumanos e bárbaros. A Inquisição queimava suas vítimas sobre o fogo, emparedava-as em paredes a definhar por toda a eternidade, quebravam suas articulações com martelos, e esfolavam-nas sobre rodas.” Realidade: Apesar das ficções góticas convincentes, a evidência nos leva a uma conclusão totalmente diferente. Os procedimentos da Inquisição são bem conhecidos através de toda uma série de bulas papais e outros documentos oficiais, mas, principalmente, por meio de tais formulários e manuais como foram preparados por São Raimundo Penaforte (1180-1275 d.C), o grande canonista espanhol, e Bernard Gui ( 1261-1331), um dos inquisidores mais célebres do início do século 14. Os inquisidores eram certamente interrogadores, mas eles eram especialistas teológicos que seguiram as regras e instruções meticulosamente e foram demitidos e punidos quando eles mostraram muito pouca consideração pela justiça. Quando, por exemplo, em 1223, Robert de Bourger anunciou alegremente seu objetivo de queimar os hereges, e não convertê-los, ele foi imediatamente suspenso e preso por toda a vida por Gregório IX. Os procedimentos inquisitoriais foram surpreendentemente justos e até mesmo brandos. Em contraste com outros tribunais seculares em toda a Europa no momento, eles aparecem como quase iluminados. O processo começava com uma convocação dos fiéis à igreja onde o inquisidor pregava um sermão solene, o Edit de Foi. Todos os hereges eram instados a se apresentar e confessar os seus erros. Este período foi conhecido como o “tempo de graça”, que geralmente durava entre 15-30 dias, durante os quais todos os transgressores não tinham nada a temer, já que a eles era prometida a readmissão à comunhão dos fiéis com uma penitência adequada após a confissão de culpa. Bernard Gui afirmou que este tempo de graça era uma instituição mais saudável e valiosa e que muitas pessoas foram reconciliados assim. Pois o principal objetivo do processo era colocar o herege de volta à graça de Deus; apenas por teimosia persistente que ele iria ser cortado da Igreja e abandonado à mercê do Estado. A Inquisição foi antes de tudo um escritório penitencial e proselitista, e não um tribunal penal. Ao menos que isto seja claramente reconhecido, a Inquisição aparece como uma monstruosidade ininteligível e sem sentido. Em teoria, era um pecador, e não um criminoso, que estava diante do Inquisidor. Se a ovelha perdida voltou para o redio, o Inquisidor era bem sucedido. Se não, o herege morreu em rebelião aberta contra Deus e, na medida em que o inquisidor estava em causa, a sua missão era um completo fracasso. Durante este tempo de graça, os fiéis eram ordenados a fornecer informações completas ao inquisidor sobre quaisquer hereges conhecidos por eles. Se ele pensava que havia motivos suficientes para proceder contra uma pessoa, um mandado era expedido para ele e ordenava a sua comparência perante um inquisidor em uma data especificada, sempre acompanhado por uma declaração escrita cheia de provas detidas pelo Inquisidor contra ele. Finalmente, poderia ser emitida uma ordem formal de prisão. Se o acusado não comparecesse, o que raramente ocorria, ele se tornaria um excomungado e um homem proscrito, isto é, ele não poderia ser protegido ou alimentado por qualquer pessoa sob pena de excomunhão. Embora os nomes das testemunhas contra os acusados eram suprimidas, ao acusado era dado a oportunidade de se proteger de acusações falsas, dando ao inquisidor uma lista detalhada dos nomes dos inimigos pessoais. Com isso, ele teria conclusivamente invalidado determinado testemunho contra ele. Ele também tinha o poder de apelar para uma autoridade superior, até mesmo o papado se necessário fosse. A vantagem final do acusado era que as testemunhas falsas eram punidas, sem misericórdia. Por exemplo, Bernard Gui descreve um pai que falsamente acusou seu filho de heresia. A inocência do filho rapidamente veio à luz, e o pai foi preso e condenado a prisão perpétua. Em 1264 Urbano IV acrescentou ainda que o inquisidor deve apresentar as provas contra o acusado a um corpo de periti [peritos] ou boni viri [bons homens] e aguardar o seu julgamento antes de prosseguir para a sentença. Agindo mais ou menos na capacidade de jurados, este grupo poderia ser de 30, 50, ou mesmo 80. Isto serviu para diminuir a enorme responsabilidade pessoal do inquiridor. Novamente, é importante enfatizar que este era um tribunal eclesiástico, que não declarou nem exerceu qualquer jurisdição sobre pessoas de fora da família da fé, isto é, o infiel professo ou o judeu. Somente aqueles que tinham sido convertidos ao cristianismo e tinha posteriormente revertido à sua antiga religião estavam sob a jurisdição da Inquisição medieval. A tortura foi autorizada pela primeira vez por Inocêncio IV na bula Ad Extirpanda de 15 de Maio, 1252, com limites que não poderiam causar a perda de um membro ou pôr em perigo a vida, só podia ser aplicada uma vez, e apenas se o acusado já parecesse praticamente condenado de heresia por provas múltiplas e determinadas. Certos estudos objetivos realizados por estudiosos recentes têm argumentado que a tortura era praticamente desconhecida no processo inquisitorial medieval. O registro de Bernard Gui, o inquisidor de Toulouse por seis anos, que examinou mais de 600 hereges, mostra apenas uma instância em que foi usada tortura. Além disso, nas 930 sentenças registradas entre 1307 e 1323 (e vale a pena notar que registros meticulosos foram mantidos por notários pagos escolhidos entre tribunais civis), a maioria dos acusados foi condenada à prisão, ou ao uso de cruzes, e penitências. Apenas 42 foram abandonados ao braço secular e queimados. Lendas sobre a brutalidade da Inquisição no que diz respeito ao número de pessoas condenadas à prisão e daquelas abandonada ao poder secular para serem queimadas na fogueira têm sido exageradas através dos anos. Trabalhando com cuidado a partir de registos existentes e documentos disponíveis, o professor Yves Dossat estimou que na diocese de Toulouse 5.000 pessoas foram investigadas durante os anos de 1245-1246. Destes, 945 foram julgados culpados de heresia ou envolvimento herético. Embora 105 pessoas foram condenadas à prisão, 840 receberam penitências menores. Após análise cuidadosa de todos os dados disponíveis, Dossat concluiu que em meados do século 13, apenas um em cada cem hereges condenados pela Inquisição eram abandonados ao poder secular para execução, e apenas 10-12 por cento, receberam sentenças de prisão. Além disso, os inquisidores muitas vezes reduziam as sentenças a penitências menores. O grande número de queimados detalhados em várias histórias são geralmente não autênticos, ou são uma invenção deliberada de propagandistas anticatólicas de séculos posteriores. A partir da evidência crescente, parece seguro afirmar que a integridade geral do Santo Ofício foi mantida em um nível extraordinariamente elevado, muito maior do que a dos tribunais seculares contemporâneas ou posteriores. MITO 4: “A Inquisição espanhola excedeu todas as barbáries, aterrorizando toda a sociedade com suas práticas tirânicas e cruéis.” Realidade: Em 6 de novembro de 1994, a BBC de Londres exibiu um testemunho incrível contra a falsidade dessas reivindicações em um documentário intitulado “O Mito da Inquisição espanhola”. Nele, os historiadores admitiram que “esta imagem é falsa. É uma distorção disseminada há 400 anos e aceita desde então. Cada caso que veio antes da Inquisição espanhola em sua história de 300 anos tinha seu próprio arquivo”. Agora, esses arquivos estão sendo reunidos e estudados adequadamente pela primeira vez. O prof. Henry Kamen, um especialista no campo, admitiu candidamente que os arquivos são detalhados, exaustivos, e trazem à luz uma versão muito diferente da Inquisição espanhola. Antipatias protestantes alimentaram esta campanha de propaganda contra a Igreja Católica e o poderoso líder da dinastia Habsburgo que comandava os exércitos mais poderosos na Europa, Carlos I da Espanha. Seus medos se intensificaram especialmente depois da batalha de Muhlberg, em 1547, onde os inimigos de Carlos eram virtualmente aniquilados. A sucessão de Felipe II ao trono espanhol e sua própria oposição dedicada ao Protestantismo espalhou tais temores. Como Philip escreveu a seu embaixador em Roma, em 1566: “Podeis assegurar a Sua Santidade que em vez de sofrer o menor dano à religião e ao serviço de Deus, eu preferiria perder todos os meus estados e uma centena de vidas se as tivesse. Pois eu não proponho nem desejo ser governante de hereges.” No entanto, enquanto os espanhóis muitas vezes triunfavam no campo de batalha, eles eram perdedores abjetos na guerra de propaganda. Eles não fizeram nenhuma defesa contra a lenda de crueldade e barbárie espanhola criada para que a Europa simpatizasse com a revolta protestante na Holanda. Difamar a Inquisição passou a ser a escolha mais natural de arma para alcançar este fim. Muitos folhetos e brochuras, numerosas e horrendas para enumerar aqui, têm sido escritos desde o século 16. Basta mencionar apenas alguns: A Apologia de William de Orange, escrito pelo francês huguenote Pierre Loiseleur de Villiers em 1581, consagrou toda a propaganda anti-Inquisição dos últimos quarenta anos em um documento político que “validava” a revolta holandesa. Em 1567, Renaldo González Montano publicou seuSanctae Inquisitionis Hispanicae Artes aliquot detectae ac palam traductae, que logo foi traduzido em todos os principais idiomas da Europa Ocidental e amplamente divulgado. Ele contribuiu decisivamente para o que se tornou conhecida como a“Lenda Negra”, que associada a Inquisição com os horrores da câmara de tortura. Estas contas foram ampliadas em cima por outros escritores protestantes, como o Rev. Ingram Cobain no século 19, que descreveu um de seus itens fictícios de tortura: a linda boneca em tamanho real que cortava a vítima com mil facas quando ele era forçado a abraçá-la. O mito foi criado e assumiu proporções que fazem fronteira com o ridículo na literatura, relatos de viajantes, narrativas maçônicas (veja a ilustração), sátiras (Voltaire, Zaupser), peças de teatro e óperas (Schiller, Verdi), histórias (Victor Hugo) e romances góticos de séculos mais tarde. No que diz respeito a tortura, Prof. Kamen disse recentemente: “Na verdade, a Inquisição usava tortura muito raramente. Em Valência, descobri que de 7.000 casos, apenas dois por cento sofreram alguma forma de tortura em tudo e, geralmente por não mais de 15 minutos… Eu não encontrei ninguém sofrendo tortura mais do que duas vezes”. O Prof. Jaime Contreras concordou: “Nós encontramos, ao comparar a Inquisição espanhola com outros tribunais, que a Inquisição espanhola utilizava a tortura muito menos. E se compararmos a Inquisição espanhola com tribunais de outros países, vemos que a Inquisição espanhola tem um registro praticamente limpo no que diz respeito à tortura.” Durante este mesmo período no resto da Europa, a crueldade física hedionda era comum. Na Inglaterra, transgressores eram executados por danificar arbustos em jardins públicos, caçar furtivamente veados, roubar lenços de uma mulher e tentativa de suicídio. Na França, os que roubaram ovelhas eram estripados. Durante o reinado de Henrique VIII, a punição reconhecida para um envenenador era para ser cozido vivo em um caldeirão. Até 1837, 437 pessoas foram executadas na Inglaterra em um ano por vários crimes, e até a passagem da Lei de Reforma, a morte era a pena reconhecida por falsificação, ladrões de cavalo, roubo, incêndio, roubo e interferência do serviço postal e sacrilégio. É claro que ao acusar a Inquisição espanhola sobre acusações específicas de crueldade física e brutalidade insensível, devemos proceder com alguma cautela. O mito do poder e do controle ilimitado exercido pela Inquisição espanhola também é infundado. Na Espanha do século 16, a Inquisição foi dividida em vinte tribunais, cada um cobrindo milhares de milhas quadradas. No entanto, cada tribunal não tinha mais do que dois ou três inquisidores e um punhado de funcionários administrativos. O Prof. Kamen observou: “… Estes inquisidores não tinham poder para controlar a sociedade na forma como os historiadores tem imaginado que tinham. Eles não tinham poder. Eles não tinham nenhuma função, eles não tinham as ferramentas para fazer o trabalho. Nós, reforçando essa imagem, demos-lhes as ferramentas que nunca existiram.” Na realidade, contato limitado da Inquisição com a população compõe parte da razão pela qual ela não atraiu a hostilidade dos espanhóis. Fora das grandes cidades, vilas viam um inquisidor uma vez a cada dez anos ou mesmo uma vez em um século. Uma razão para as pessoas apoiarem a Inquisição foi precisamente porque era raramente vista, e ainda menos frequentemente ouvida. Kamen também registra que, em cada período de História, há registros de crítica forte e amarga oposição. No entanto, baseado na exploração de documentos inquisitoriais pela primeira vez por Llorente, e depois por Henry Charles Lea, os estudiosos cometeram erro de estudar a Inquisição isoladamente de todas as outras dimensões da cultura e da sociedade espanhola, como se tivesse tido um papel central na religião, política, cultura e economia e como se nenhuma oposição ou crítica fosse permitida. A sátira de Menendez y Pelayo sobre aqueles que culpavam o tribunal por todos os males da Espanha ressalta este ponto de vista: “Por que não houve indústria na Espanha? Por causa da Inquisição. Por que nós espanhóis somos preguiçosos? Por causa da Inquisição. Por que há touradas na Espanha? Por causa da Inquisição. Por que os espanhóis tiram uma sesta? Por causa da Inquisição.” A Inquisição não pode ser responsabilizada pela “decadência da aprendizagem e da literatura espanhola”, afirma Peters em seu aclamado Inquisition estudo objetivo, apesar das afirmações do historiador protestante Charles Lea ou historiador católico Lord Acton. “Depois do trovão do Índice de 1559”, ele afirma: “que foi dirigido principalmente contra a piedade vernácula, nenhum ataque foi feito contra a literatura espanhola e nenhum em mais de cem escritores espanhóis entrou em conflito com a Inquisição. Na verdade, muito tempo depois das medidas de 1558-1559. A Espanha continuou a ter uma vida intelectual ativa baseada em uma experiência do mundo mais vasto da que a de qualquer outro país europeu”. Um mito final e mais importante continua a ser examinado. MITO 5: “O homem é mais livre e feliz quando o estado ou nação não faz profissão pública de qualquer religião verdadeira. Portanto, o verdadeiro progresso reside na separação entre Igreja e Estado.” Realidade: Este é o cerne da questão. O elemento mais dinâmico, a questão mais essencial é encontrada na atitude do espírito humano em relação às questões de religião e filosofia. Para entender completamente a resposta, é necessário assumir vários pressupostos. O conceito católico da história é baseado no fato de que os Dez Mandamentos são normas fundamentais do comportamento humano que correspondem à lei natural. Para auxiliar o homem na sua fraqueza, para guiar e dirigi-lo e preservá-lo de sua própria tendência para o mal e erro resultante do pecado original, Jesus Cristo deu à Igreja um magistério infalível para ensinar e orientar as nações. A adesão do homem ao Magistério da Igreja é o fruto da fé. Sem fé, o homem não pode conhecer e inteiramente praticar os Mandamentos. Portanto, como o homem eleva-se na ordem da graça pela prática da virtude inspirado pela graça, ele elabora uma cultura, uma ordem política, social e econômica em consonância com os princípios básicos e imutáveis da lei natural. Estas instituições e esta cultura assim formadas no seu conjunto podem ser chamadas de civilização cristã. Além disso, as nações e os povos só podem alcançar uma civilização perfeita, uma civilização em completa harmonia com a lei natural, no âmbito de uma civilização cristã e por meio de correspondência à graça e as verdades da fé. Por isso, o homem deve dar o seu reconhecimento firme à Igreja Católica como a única verdadeira Igreja de Deus e ao seu Magistério universal autêntico como infalível. Portanto, o homem deve saber, professar e praticar a fé católica. Historicamente, deve-se perguntar quando essa civilização cristã passou a existir. A resposta pode chocar e até mesmo irritar muitos. Houve um momento em que uma grande parte da humanidade conhecia este ideal de perfeição, conhecia e tendiam a ele com fervor e sinceridade. Este período, por vezes referido como a Idade de Ouro do cristianismo, é a época dos séculos 12 e 13, quando a influência da Igreja na Europa estava em seu apogeu. Princípios cristãos, então dominavam relações sociais mais completas do que em qualquer outro período antes ou depois, e o Estado cristão em seguida, aproximou-se mais de perto do seu pleno desenvolvimento. Leão XIII se refere a este período em sua encíclica Immortale Dei (1885) nos seguintes termos: “Houve uma época em que a filosofia do Evangelho governava os Estados. Nesta época a influência da sabedoria cristã e da sua sabedoria divina penetrava as leis, instituições e costumes dos povos, todas as categorias, todas as relações da sociedade civil. A religião instituída por Jesus Cristo, solidamente estabelecida em toda a dignidade era devida isso, floresceu em toda parte, devido ao favor dos príncipes e a proteção legítima dos magistrados. Neste tempo, o Sacerdócio e o Império estavam ligados com uma feliz concórdia e da troca amigável de bons ofícios. Organizados desta forma, a sociedade civil deu frutos superior a todas as expectativas e sua memória persiste e vai continuar a persistir, e nenhum artifício de seus inimigos será capaz de corromper e obscurecê-la.” Um retrato da sociedade católica implica acima de tudo uma ideia exata do que a relação entre a Igreja e a sociedade temporal deveria ser. O Estado, em princípio, tem a obrigação de professar oficialmente a verdade da fé católica, e, como consequência, proibir o funcionamento e o proselitismo de hereges. Não só a Igreja, mas toda a sociedade temporal foi criada para a salvação de nossas almas, como São Tomás de Aquino mostrou conclusivamente em De Regimine Principum. Nele, São Tomás nos mostra como absolutamente todas as coisas criadas por Deus foram criadas para a salvação de nossas almas e devem ser meios que servem de forma positiva para a nossa santificação. Os próprios homens foram criados para a salvação uns dos outros. É por isso que eles vivem juntos na sociedade. Assim, tanto a sociedade temporal quanto a espiritual deve contribuir para o objetivo principal da existência do homem, a salvação de sua alma eterna. Esta exposição da sociedade implica uma compreensão da hierarquia de valores, em que os valores espirituais têm um patrimônio maior do que os materiais. Por exemplo, na Summa Theologica (II, II, ii, 3), São Tomás observa que, se é apenas para condenar falsificadores até a morte, então certamente é necessário condenar à morte aqueles que tinham cometido o crime muito pior de falsificação da Fé. Pois a salvação eterna deve ser considerada maior do que a propriedade temporal e o bem-estar de todos devem ser considerados como maior do que o bem-estar do indivíduo. Estas afirmações têm consequências dolorosas para o espírito liberal dos nossos dias. Pois, se o Estado proclama que uma única religião é a verdadeira, ele tem a obrigação de princípio de proibir a difusão de seitas de carácter herético. Entende-se que na sociedade católica a maior finalidade do Estado está em reconhecer a Igreja Católica, na defesa dela, na aplicação de suas leis, no atendimento a ela. Em uma sociedade Católica, o Papa tem uma autoridade indireta sobre tudo o que toca nos interesses da Igreja. Desta forma, o Papa é elevado acima de todos os poderes temporais. Quando um chefe de Estado é herético, o papa tem o direito de depô-lo, como no caso de Henrique IV da França, o pretendente legítimo ao trono francês. Em outras palavras, um herege não tem o direito de governar um país católico. Como aponta o Padre Denis Fahey aponta, na realeza de Cristo, na Idade Média, o Estado cumpriu a sua obrigação de professar a religião que Deus mesmo havia estabelecido e através do qual Ele queria ser adorado e cultuado – a religião católica. Quando os católicos respondem às objeções dos não católicos sobre a Inquisição, eles às vezes parecem perder de vista o princípio formal da ordem animando a civilização da Idade Média. Se um Estado proclama uma religião como sendo a verdadeira religião, tem uma obrigação como uma questão de princípio de proibir a difusão de heresia e as seitas heréticas. Esta obrigação é muito dolorosa para a mentalidade liberal aceitar. A Heresia era considerada um crime, porque o Estado reconheceu a religião católica pelo o que objetivamente é, a verdadeira religião estabelecida por Deus, e não um arranjo temporário simples, aqui hoje, acabada amanhã. Ao apresentar os princípios do Reinado Social de Cristo, o Padre Denis Fahey diz: “A verdade é que o Estado, então, agarrou o princípio formal da organização social ordenada no mundo real e que a Inquisição foi criada para defender a seguridade do mundo em ordem contra os fomentadores da desordem… Esse mesmo princípio é pretendido por Deus para moldar a nova matéria e as novas circunstâncias de todas as idades que se sucederam. Socialmente organizado, o homem no mundo redimido por Nosso Senhor não é como Deus quer que ele seja, a menos que ele aceite o sobrenatural e a supranacional Igreja Católica. O mundo moderno tem se desviado da ordem e está sofrendo por sua apostasia e desordem. Esta grande verdade deve ser proclamada de forma inequívoca, para que a vida interior com a qual celebramos a festa da realeza de Cristo possa ser aprofundada. É infinitamente melhor cair lutando por a verdade integral do que ganhar uma vitória aparente por meias verdades.” Escurecer o nome da Santa Inquisição tem, obviamente, encontrado raiz nesta tendência generalizada, mesmo entre os príncipes da Igreja, de “reduzir gradualmente” estes princípios da ordem social católica. Enquanto, na base, o problema da Santa Inquisição deve ser examinado ao nível filosófico, também não há dúvida de que ao longo dos séculos “Inquisição” assumiu uma dimensão monstruosa fora de proporção com os fatos. As canetas de propagandistas protestantes durante a Reforma deram início ao processo de criação do mito, descrevendo a Inquisição como apenas mais um exemplo dos males de Roma. Em suas obras o tribunal foi apresentado como o instrumento supremo de intolerância. Onde quer que o catolicismo triunfasse, segundo eles, não só a liberdade religiosa, mas civil, era extinta. A Reforma, de acordo com esta interpretação, trouxe a libertação do espírito humano dos grilhões da escuridão e superstição. A Propaganda ao longo destas linhas provou-se surpreendentemente eficaz. No entanto, quanto os estudiosos da última década começaram a examinar os arquivos, os estudos mostraram que os interesses da verdade ordenam que a Inquisição fosse reduzida às suas dimensões adequadas. Sua importância pode ser muito exagerada, se contamos com as imagens altamente fictícias apresentadas pelos propagandistas, filósofos do Iluminismo da idade do romantismo e do liberalismo que se seguiram. Estes escritores, que ainda se inclui Lord Acton, falsamente assumem que a Inquisição era parte integrante de uma filosofia especial de intolerância flagrante e crueldade. Na realidade, ela evoluiu como um produto da sociedade que ela servia. Em suma, as mentes católicas objetivas que estão militantes contra os erros do liberalismo e do modernismo de nossa própria era e que olham com admiração o espírito e as instituições da Idade da Fé, podem permanecer com uma admiração saudável pela Santa Inquisição. – Marian Horvat, “The Holy Inquisition, Myth or Reality?”

 
 
 

O PAPADO NA IGREJA PRIMITIVA, PARTE 2 Certa vez, o Teólogo Stephen K Ray (ex-protestante que se tornou Católico) escreveu um e-Mail ao teólogo William Webster (ex-católico que se tornou protestante) questionando se os Pais da Igreja negaram a Primazia de Roma, a resposta foi essa: “Nenhum pai nega que Pedro teve uma primazia ou que existe uma sucessão petrina. A questão é como os pais interpretaram esses conceitos. Eles simplesmente não se apegaram à visão católica romana de séculos posteriores de que a primazia e sucessão eram ‘exclusivamente’ relacionadas aos bispos de Roma.’ Que admissão extraordinária; que verdade extraordinária. Muitos dos Padres estavam em desacordo teológico ou disciplinar com Roma (por exemplo, Cipriano e Irineu), mas eles nunca negaram a primazia de Roma.”.[1] Além da Igreja Romana, as Igrejas de Alexandria e Antioquia também eram centros importantes para o cristianismo e seus bispos possuíam jurisdição sobre certos territórios, mas eles, assim como todas as outras Igrejas, eram subordinados à Igreja de Roma. Várias indicações apontam à igreja de Roma como a principal responsável pelas inovações litúrgicas, como o domingo de páscoa, o jejum no sábado, e a Missa de Natal em 25 de Dezembro (hoje chamada de Missa do Galo) com o Papa São Telésforo no século II.[2] pois essa data já era celebrada entre os Cristãos, (como relatam Teófilo de Cesáreia, Clemente de Alexandria, Sexto Julio Africano e Santo Hipólito de Roma). Vimos no ultimo post, as origens do Primado de Pedro, e seu exercicio do mesmo. Contudo, poder-se-ia levantar a questão: a igreja de Roma sempre exercia suficiente autoridade por intermédio de seu bispo, para influenciar toda a cristandade? Para responder a esta pergunta é necessário verificar o status nesse período. Como relata Santo Irineu, após Pedro morrer, o episcopado de Pedro foi passado a São Lino, quando este morreu, foi á Santo Anacleto, e quando este morreu, á São Clemente. São Clemente I foi considerado posteriormente o primeiro Pai da Igreja por ter defendido publicamente o sistema religioso através da hierarquia sacerdotal e rituais dogmáticos. Por volta do ano 95, São Clemente I, 4° Bispo de Roma, escreveu uma carta à Igreja de Corinto para terminar com uma discórdia que havia irrompido dentro da Igreja e que havia resultado na deposição dos presbíteros (capitulo 47). O prestígio da igreja romana nesse caso está implícito no tom resoluto e, em alguns casos, mesmo ameaçador da carta de advertência dos Romanos, que espera obediência ao que Deus disse por meio da Igreja de Roma (conforme capítulos 47,59 e 63): “Leia a epístola do bendito apóstolo Paulo. O que ele escreveu para você na época em que o evangelho começou a ser pregado? Na verdade, sob a inspiração do Espírito, ele escreveu a você a respeito de si mesmo, e de Cefas e de Apolo, porque até então grupos haviam sido formados entre vocês. Mas essa inclinação para um acima do outro acarretou menos culpa sobre você, visto que suas parcialidades foram então mostradas para com os apóstolos, já de grande reputação, e para com um homem que eles haviam aprovado. Mas agora reflita quem são aqueles que o perverteram e reduziram a fama de seu famoso amor fraternal. É vergonhoso, amado, sim, altamente vergonhoso e indigno de sua profissão cristã, que se deve ouvir falar de que a mais firme e antiga igreja dos coríntios deve, por causa de uma ou duas pessoas, se envolver em sedição contra seus presbíteros . E esse boato atingiu não apenas nós, mas também aqueles que não estão ligados a nós; de forma que, por sua paixão, o nome do Senhor é blasfemado, enquanto o perigo também é trazido sobre vocês.” – Carta de Clemente aos Coríntios, capítulo 47 “Se, entretanto, alguém desobedecer às palavras faladas por Ele por intermédio de nós (Igreja de Roma), faça-o saber que se envolverá em transgressão e grave perigo; mas seremos inocentes deste pecado e, instantaneamente em oração e súplica, desejaremos que o Criador de tudo preserve ininterruptamente o número computado de Seus eleitos em todo o mundo por meio de Seu amado Filho Jesus Cristo, por meio de quem Ele nos chamou das trevas à luz, da ignorância ao conhecimento da glória de Seu nome, nossa esperança repousando em Seu nome que é a causa primordial de toda criatura – tendo aberto os olhos de nosso coração para o conhecimentode Você, que é o único que é o mais alto entre os mais elevados, santo entre os santos (Isaías 57,15), que abate a insolência dos soberbos (Isaías 13,11) que destrói os cálculos dos pagãos, que põe o baixo no alto e abaixa o exaltado; que enriquece e empobrece (1 Samuel 2,7), que mata e faz viver (Deuteronômio 32,39), único Benfeitor dos espíritos e Deus de toda a carne, que contempla as profundezas, testemunha ocular do ser humanoobras, a ajuda dos que estão em perigo, o Salvador dos que estão em desespero, o Criador e Guardião de todos os espíritos, que multiplicam as nações na terra, e de todos fazem a escolha daqueles que Te amam por meio de Jesus Cristo, Seu Filho amado, por meio de quem Você instruiu, santifique, honre- nos. Queremos que Você, Senhor, prove nossa ajuda e socorro. Aqueles de nós em aflição, exceto os humildes, têm pena; o aumento caído; sobre aqueles em necessidade surgem; os enfermos curam; os errantes de Seu povo se voltam; encha os famintos; resgatar aqueles de nós em títulos; levante aqueles que são fracos; confortar os tímidos; deixe todas as nações saberem que você é Deus sozinho e Jesus Cristo Teu Filho e nós somos o Teu povo e as ovelhas do Teu pasto.” – Carta de Clemente aos Coríntios, capítulo 59 A Igreja de Roma fala à Igreja de Corinto como um superior fala a um subordinado. No primeiro capítulo, o autor se desculpa imediatamente por não ter conseguido dedicar sua atenção antes às irregularidades existentes na longínqua Igreja de Corinto. Isso prova claramente que a vigilância cristã primitiva e a solicitude da comunidade pela comunidade não inspiraram sozinhas a composição da carta. Se fosse esse o caso, um pedido de desculpas por se intrometer na controvérsia estaria em ordem. Mas o Bispo de Roma considera um dever tratar do assunto e considera pecaminoso da parte deles se não lhe obedecem: “Mas se alguns desobedecerem às palavras que foram ditas por ele por intermédio de nós, que eles entendam que eles se enredarão em transgressão e não pouco perigo, mas nós seremos inocentes deste pecado”. Esse tom autoritário não pode ser adequadamente explicado com base nas estreitas relações culturais existentes entre Corinto e Roma, mas sim com base na relação de Autoridade da Igreja de Roma sobre Corinto. “Haveis de nos proporcionar alegria e prazer se vos submeterdes ao que escrevemos pelo Espírito Santo, cortando pela raiz a ira nascida do ciúme, conforme o pedido de paz e concórdia que vos fazemos por esta carta. Enviamos homens fiéis e discretos, cuja conversação desde a juventude até a velhice tem sido irrepreensível entre nós – os mesmos serão testemunhas entre você e nós. Isso nós fizemos, para que você possasaiba que toda a nossa preocupação foi e é que você possa rapidamente ficar em paz.” – Carta de Clemente aos Coríntios, capítulo 63.[3] Em síntese sobre este incidente, Santo Irineu (130-202), Bispo de Lyon, assim descreve o ocorrido do século I em sua obra no século II: “No pontificado de Clemente surgiram divergências graves entre os irmãos de Corinto. Então a Igreja de Roma enviou aos coríntios uma carta importantíssima para reuni-los na paz, reavivar-lhes a fé e reconfirmar a tradição que há pouco tempo tinham recebido dos apóstolos, isto é, a fé no único Deus, onipotente, o Criador do céu e da terra, o Criador do homem , que trouxe o dilúvio, e chamou Abraão , que conduziu o povo da terra do Egito , falou com Moisés, estabeleceu a lei, enviou os profetas, e que preparou fogo para o diabo e seus anjos.” – Contra as Heresias, livro 3, capitulo 3, verso 3.[4] Roma estava consciente de sua autoridade, e da responsabilidade que isto envolvia; Corinto também o reconheceu e curvou-se a ela. O fato de que a carta foi altamente respeitada e lida regularmente não somente em Corinto, mas em outras igrejas também, tanto assim que passou a ser considerada por alguns como inspirada, deixa implícita, a existência na consciência de cristãos não romanos de uma estima da igreja romana como tal, o que reconhece-lhe uma superioridade de posição. A autoridade de Clemente como bispo de Roma acaba corroborando a afirmação autêntica da Igreja Católica que defende que estas ações revelam que, já desde cedo, a Sé de Roma (e o seu bispo, que é o Papa) tinha primazia sobre os cristãos. Conforme narra o historiador Eusébio de Cesareia, Clemente, depois de nove anos de pontificado (88-97) “passou o sacro ministério para Evaristo”, e quanto este morreu, o passou para Alexandre I. E no ano 107, durante o pontificado de Alexandre, fora escrita uma carta á Igreja de Roma por Santo Inácio, 3° Bispo de Antioquia, que enviou outras 5 cartas a 5 Igrejas antes de ser martirizado devorado por feras. Santo Inácio de Antioquia, em sua Carta aos Romanos, de igual modo atribui epítetos respeitosos, honrosos e servis incomuns à igreja de Roma (conforme Prólogo). Enquanto em suas Epístolas às outras Igrejas Inácio admoesta e adverte os membros, em sua Carta dos Romanos ele expressa somente pedidos respeitosos: Em seu prólogo, Inácio descreve a igreja de Roma como sendo “digna de Deus, digna de honra, digna de felicitações, digna de louvor, digna de sucesso, dignamente pura e preeminente em amor”. Mesmo Teólogos da Igreja ortodoxa como Nikolay Afanássieff (professor de direito canônico e história da igreja no Instituto Teológico ortodoxo de Paris) e Alexander Schmemann (reitor do Seminário St. Vladimir (1962-83) e professor história da igreja e teologia litúrgica) escreveram em “The Church Which Presides in Love” (paginas 91-143) e The Idea of Primacy in Orthodox Ecclesiology” (pagina 145) que a frase “presidir em agape (no amor)”, usada para referir-se à Igreja de Roma na carta que Inácio de Antioquia lhe dirigiu no início do século II, contém uma definição da primazia universal daquela Igreja.O bispo de Roma, segundo os ortodoxos, é simplesmente “o primeiro entre iguais” (primus inter pares). Eles prontamente concedem a ele uma “primazia de honra”, que dizem ter sido reconhecida nos primeiros séculos. Afanassieff ainda escreve: “”Ele (Inácio) retratou as igrejas locais agrupadas, por assim dizer, em uma Assembleia Eucarística com cada igreja em seu lugar especial, e a Igreja de Roma, na cadeira, sentada em ‘primeiro lugar’. Assim, diz Inácio, a Igreja de Roma de fato tem a prioridade em todo o grupo de igrejas unidas pela concórdia. Não somos informados por Inácio (ou Clemente) por que a Igreja de Roma deveria presidir e não alguma outra igreja. Para Inácio, isso parecia auto-evidente, e provar isso era uma perda de tempo. Em seu período, nenhuma outra igreja reivindicou o papel que pertencia à Igreja de Roma.”.[5] O teologo da igreja ortodoxa russa John Meyendorff, explica a “primazia honorária” de Roma nos primeiros séculos da seguinte maneira: “A importância numérica [de Roma], sua posição (geográfica) central e, acima de tudo, a ortodoxia inabalável de seus bispos justificava sua primazia.”.[6] A veneração singular do bispo de Antioquia pela igreja romana é evidente quando, nas cartas destinadas às outras Igrejas. Inácio escreve: “à Igreja de Deus que está em (Éfeso, Esmirna, Filadélfia, Trália, Magnésia)” mas o tratamento dado à igreja de Roma é totalmente diferente: “à Igreja que preside na Região dos Romanos”. A Igreja de Roma presidia as demais Igrejas, isto é, que o seu Bispo era o chefe da Igreja Católica espalhada no mundo inteiro: “Inácio, também chamado Teóforo, à Igreja que recebeu misericórdia pela grandeza do Pai altíssimo e de Jesus Cristo Seu Filho único, Igreja amada e iluminada pela vontade d’Aquele que escolheu todos os seres, isto é, segundo a fé e a caridade de Jesus Cristo nosso Deus, ela que também preside na região dos romanos, digna de Deus, digna de honra, digna de ser chamada bem-aventurada, digna de louvor, digna de êxito, digna de pureza, e que preside na caridade na observância da lei de Cristo e que leva o nome do Pai. Saúdo-a também em nome de Jesus Cristo, filho do Pai.” – Carta de Inácio aos Romanos, prólogo A Igreja de Roma preside na caridade. Santo Inácio já havia dito na carta à Igreja de Magnesia que o Bispo local preside no lugar de Cristo, e o clero no lugar de seus Apóstolos (Carta aos Magnesios 6,1). Com “presidir” Santo Inácio fala de liderança, e a Igreja de Roma lidera a Igreja na caridade/amor (no grego original, “Ágape” que indica comunhão). Seu Bispo não é apenas um Bispo local, mas o Bispo Universal. A palavra prokathemai (que significa “presidir sobre”), ocorre duas vezes: a Igreja de Roma que “preside na região dos Romanos” e “preside no amor (Ágape)”. O amor (ágape) é sinônimo de “comunhão”,a comunidade cristã. A maioria dos estudiosos, inclusive protestantes concordam que Inácio atribuiu à Igreja de Roma a preeminência Universal. Isso estava tão claro nas palavras de Inácio, que o teologo protestante Robert Ellis Thompson ao perceber isso, alegou que suas epístolas seriam falsas, pois afirmavam um Episcopado Monárquico que ele se recusava a acreditar que existia: “Certamente, isso está muito longe de ser verdade quanto às epístolas atribuídas a Inácio de Antioquia, sob cuja autoridade somos solicitados a acreditar que a pluralidade de presbíteros-bispos foi substituída antes de 117 D.C. nas igrejas de Éfeso, Filadélfia, Tralles, Magnésia e Esmirna, com o surgimento de um episcopado monárquico que estava tão firmemente enraizado, ‘tão exaltado acima de todos os ofícios e tão completamente fora de discussão’ (cofirmação do teólogo luterano Adolf von Harnack) a ponto de fazer com que essas igrejas se tornassem diferentes daquilo que todos os outros escritores da época nos conduziram esperar.”.[7] Esta carta também se difere das demais por Inácio não querer ensinar nada a esta Igreja; ao contrário, reconhece que muito aprendeu dela: “A ninguém jamais invejaste; ensinastes a outros. Agora eu desejo que essas coisas possam ser confirmadas [por sua conduta], que em suas instruções você impõe [aos outros]. Pedi em meu favor unicamente a força exterior e interior, a fim de não apenas falar, mas também querer, de não apenas dizer-me cristão, mas de me manifestar como tal.” – Carta de Inacio aos Romanos, capítulo 3 Em sua recomendação final ele pede a Igreja de Roma que se lembre da Igreja da Síria: “Lembrai-vos, em vossas orações, da igreja da Síria, a qual tem Deus como seu pastor em meu lugar. O próprio Jesus Cristo a administrará, juntamente com vosso amor” – Carta de Inácio aos Romanos, capítulo 9.[8] Estas declarações provam que Inácio, Bispo de uma das maiores Igrejas que existiu, no início do segundo século, no minimo atribuía a Igreja de Roma precedência universal em prestígio e honra. É fato que esses escritos causam revolta e indignação em muitos protestantes. Apesar de muitos presbiterianos hoje aceitarem as Cartas de Inácio, João Calvino achava que eram falsas, pois via nela o ensino Apostólico da Quaresma e do considerava “outras corrupções” (papado). Sobre o conteúdo das epístolas Calvino falou: “No que diz respeito ao que pretendem ser a Inácio, se querem que seja da menor importância, deixe-os provar que os apóstolos promulgaram leis relativas à Quaresma e outras Corrupções. Nada pode ser mais nauseante do que os absurdos que foram publicados sob o nome de Inácio; e, portanto, a conduta daqueles que se fornecem com tais máscaras para o engano tem menos direito à tolerância.” (“as institutas da religião cristã” Livro I, Capítulo 13, Seção 29).[9] Não só a Epístola de Santo Inácio enfureceu Calvino, mas a Epístola de São Clemente também. Como dito no seu comentário sobre Filipenses 4,3 : “Aqueles que sustentam isso, citam Clemente e Inácio como suas autoridades. Se eles citassem corretamente, eu certamente não desprezaria homens de tal eminência. Mas, como escritos de Eusébio que são espúrios e foram inventados por monges ignorantes, eles não merecem muito crédito entre os leitores de bom senso. Vamos, portanto, inquirir quanto à coisa em si, sem tirar nenhuma falsa impressão das opiniões dos homens.”.[10] Muitos protestantes tendiam a negar a autenticidade de todas as epístolas atribuídas a Inácio porque atestam a existência de um episcopado monárquico no segundo século. Calvino rejeitou as (agora universalmente aceitas) epístolas de Santo Inácio de Antioquia, e a rejeição de Calvino por Inácio fora confirmada por teologos e historiadores protestantes como Philip Schaff (History of the Christian Church, Vol. II, página 165, “The Ignatian Controversy”) e William Dool Killen. Este William Dool Killen, ministro presbiteriano e historiador da igreja, publicou em 1886 um ensaio argumentando também que nenhuma das epístolas atribuídas a Inácio seria autêntica. Em vez disso, ele argumentou que Calisto, bispo de Roma, forjou as cartas por volta de 220 d.C. para angariar apoio para um episcopado monárquico, modelando o renomado Santo Inácio após sua própria vida para validar seu papado.[11] Ironicamente, killen também está admitindo a Primazia de Roma na Igreja Primitiva. Não só admite que os textos de Inácio atestam a Primazia de Roma (e por isso tenta provar que seriam falsas) mas admite a Primazia da mesma já no século III. Um verdadeiro tiro no pé. A única razão dos presbiterianos hoje aceitarem as Cartas de Santo Inácio, é o fato da maioria dos estudiosos provarem, e por isso aceitarem a autenticidade das sete epístolas originais.[12] e deixaremos aqui o link de um ótimo artigo comprovando que elas são.[13] Outro exemplo mais cômico, foi quando o famoso Teólogo Adventista brasileiro Leandro Quadros (que é inclusive usado como referência para protestantes não adventistas), assumiu a visão papista de Inácio (Isso em sua visão deformada do papado, assim como de tudo que existe). Revoltado com o que leu, Leandro solta a seguinte pérola em sua analise às cartas de Santo Inácio de Antioquia: “Ignorando essas orientações bíblicas, Inácio considerava o bispo romano como se fosse o próprio Deus e condenava àqueles que agiam contra as suas convicções.”.[14] Conforme a lista de Santo Irineu do século II, quando o Papa Alexandre I morreu após 8 anos de pontificado (107-115, como narra Eusébio de Cesareia em História Eclesiástica IV, 1) fora sucedido por Sisto I (115-126), e este por São Telésforo (126-137), e então Santo Higino. Falaremos mais dos acontecimentos que se deram a partir do seu pontificado na próxima parte. FONTES NOS COMENTÁRIOS

 
 
 

O PAPADO NA IGREJA PRIMITIVA, PARTE 1

O Papado no Cristianismo primitivo foi um período da história papal entre 30 d.C., em que São Pedro assumiu efetivamente seu papel pastoral como Cabeça Visível da Igreja, até o pontificado do Papa São Melquíades em 313, quando acabam as perseguições do Império Romano e inicia-se a Paz na Igreja. Nesse período do cristianismo surgiram frequentemente novos cismas e heresias, ao qual os Bispos de Roma tentavam solucionar, embora fatores como a distância geográfica por vezes, os limitavam. Nessa parte, falaremos do Primado Petrino, a liderança de São Pedro na Igreja, e como sua principal Igreja (a de Roma) se tornou a sede da Cristandade. A promessa e a entrega do primado a Pedro não é um fato isolado no Evangelho. Toda a narração histórica do ministério de Cristo conspira em atribuir no colégio dos Doze um lugar de preeminência ao futuro chefe da Igreja. Dir-se-ia que os evangelistas, tão sóbrios em informações sobre os outros Apóstolos, não perdem a oportunidade de falar de Pedro, de referir suas palavras, de registrar os sinais de predileção com que o distinguia o Salvador. A precedência é liderança do Colégio Apostólico por São Pedro é um fato assumido tanto por teólogos protestantes quanto Católicos, há um artigo muito bom no site Patheos mostrando isso: https://www.patheos.com/blogs/davearmstrong/2018/04/primacy-of-st-peter-verified-by-protestant-scholars.html”

Durante sua pregação, é a barca de Pedro a preferida por Cristo para doutrinar as turbas (Lucas 5,1-4), em Cafarnaum, na casa de Pedro é onde Ele se hospeda (Mateus 8,14, Marcos 1,29, Lucas 4,38), é Pedro quem, quase sempre, fala em nome dos Apóstolos, e é a Pedro, como o principal do grupo, que se dirigem os coletores de impostos para saber se o Mestre pagava o tributo do Templo, e Jesus paga a taxa legal por si e por Pedro (Mateus 17, 24-27). Em todos os catálogos dos Apóstolos, Pedro ocupa invariavelmente o primeiro lugar: o lugar de honra. Ao escrever suas memórias, em tempos posteriores, são os próprios evangelistas que se empenham em destacar o lugar preponderante de Simão no colégio apostólico. Quatro catálogos dos Apóstolos oferece-nos o Novo Testamento (Mateus 10,2-4, Marcos 3,16-19, Lucas 6,14-16, Atos 1,13). A ordem em que se sucedem os outros nomes varia de um para outro, mas em todos eles, assim como Judas, o traidor fecha sempre a enumeração, também Pedro, invariavelmente, ocupa o primeiro lugar: o lugar de honra. Nem é casual coincidência. São Mateus observa expressamente: “Primeiro, Simão que se chama Pedro”. Primeiro em quê? Em idade? Nenhum indício positivo o insinua, nem a velhice foi certamente o critério adotado pelos historiadores sagrados, que alteram a ordem dos outros nomes e mencionam João antes de outros Apóstolos mais idosos. Prioridade de vocação? Tampouco. A eleição para o apostolado foi simultânea para os Doze (Mateus 10,1, Marcos 3,13-15). A vocação inicial de Pedro para discípulo, se foi anterior à de muitos Apóstolos, não foi absolutamente a primeira. André e outro discípulo seguiram antes os passos do Messias (João 1,35-42). Um segundo chamado de Cristo feito nas bordas do lago Tiberíades e narrado pelos Evangelhos apresenta para os quatro Apóstolos Simão, André, João e Tiago uma simultaneidade moral que não permite estabelecer nenhuma prioridade cronológica.

Então Jesus finalmente muda o nome do pescador da Galileia: “Tu és Simão”, diz-lhe Jesus, “tu te chamarás Cefas, isto é, Pedra” (João 1,42), é fato que Cristo é a Pedra fundamental da Igreja: a Pedra angular e a Pedra de tropeço para os judeus, mas o fato de nosso Senhor ter mudado o nome de Simão para Cefas (do grego, Pedra) mostra a intenção d’Ele em fazer de Pedro seu representante (ou seja, aquele que age como Seu representante no governo da Igreja). Pois a imposição de um nome novo, conforme o costume de Deus, era rica de significados e de promessas (Como fora com Abraão, Sara, e Jacó). O mesmo evento da re-nomeação de Simão Bar-Jonas é narrado na famosa passagem de Mateus 16, onde Cristo entrega a São Pedro as chaves do Reino dos Céus, e concede a todos os Apóstolos o poder de ligar e desligar. Todos podiam ligar e desligar, mas ao entregar individualmente as chaves a Pedro, Jesus estava cumprindo uma profecia que aparece no Livro de Isaías (Isaías 22,15-23) em que o primeiro-ministro Sobna, que servia Ezequias (rei de Israel e descendente de Davi), é considerado indigno de seu posto e expulso por Deus, e Eliacim, filho de Hilquias, preenche o seu cargo:

“Contra Sobna, prefeito do palácio. Eis o que diz o Senhor, Deus dos exércitos: Vai ter com esse ministro, Depor-te-ei de teu cargo e arrancar-te-ei do teu posto. Naquele dia chamarei meu servo Eliacim, filho de Helcias. Revesti-lo-ei com a tua túnica, cingi-lo-ei com o teu cinto, e lhe transferirei os teus poderes; ele será um pai para os habitantes de Jerusalém e para a casa de Judá. Porei sobre seus ombros a chave da casa de Davi; se ele abrir, ninguém fechará, se fechar, ninguém abrirá;”

Muitas profecias messiânicas se referem a uma situação num futuro próximo e ao mesmo tempo a um futuro mais distante. Como por exemplo quando o Rei Davi quis construir o Templo, mas foi dito através do profeta Natã que ele não o faria, mas quando ele morresse, “um de seus filhos” edificaria a casa do Senhor, e teria o Trono confirmado por Ele para sempre (1 Crônicas 17,11-14). A profecia falava de Salomão, e ao mesmo tempo de Jesus Cristo. Em Isaías 22, Deus revela que irá instituir um administrador ou guardião para o palácio, entregando-lhe as chaves, e Jesus faz isso com São Pedro e as chaves do céu. Na Bíblia, o termo “chaves” tem sido usado como um símbolo de autoridade docente (Lucas 11,52), Jesus, filho de Davi e portanto, o rei do novo reino davídico: a Igreja, nomeia São Pedro como mestre primário da Igreja, um cargo que continuará com seus sucessores, assim como a posição de Eliacim no reino davídico do Antigo Testamento. Como dito pelo teólogo luterano Oscar Cullmann “Assim como em Isaías 22,22 o Senhor coloca as chaves da casa de Davi sobre os ombros de seu servo Eliacim, Jesus entrega a Pedro as chaves da casa do reino dos céus e com o mesmo golpe o estabelece como seu superintendente. Há uma conexão entre a casa da Igreja, cuja construção acabamos de mencionar e da qual Pedro é o alicerce, e a casa celestial da qual ele recebe as chaves. A conexão entre essas duas imagens é a noção do povo de Deus” Oscar Cullmann, “St. Peter: Disciple. Apostle, Martyr”, páginas 183-184) Com essas chaves, assim como Eliacim, São Pedro o primeiro Papa (bem como seus sucessores) tem a autoridade e o governo dado por Cristo, sobre a nova Casa de Davi, que é a Igreja na terra (Apocalipse 1,18, Apocalipse 3,7).

Quando Cristo ressuscita, Ele pergunta a Pedro se este o amava, Jesus perguntou isso por três vezes. Pedro respondeu que sim as três vezes. Foi uma forma de Jesus curar o remorso no coração de Pedro por causa das três negações que tinha feito de seu Mestre. Jesus o perdoou e, em seguida disse-lhe: “Apascenta as minhas ovelhas”. Óbvio que todos os Apóstolos eram pastores das ovelhas de Deus, bem como seus Bispos sucessores. Mas Cristo faz uma declaração individual à Pedro, se referindo à todas as ovelhas universalmente. Como explica o pastor luterano Richard Baumann antes de se converter ao Catolicismo: “Em João 21, a forma da ordem de autoridade, com aquele que está no comando, é claramente discernível como uma revelação de significado duradouro. Assim como o “guardião das chaves” foi o guardião do trono eterno de Davi, o pastor também governará a nação para sempre. O Messias prometido também foi descrito como aquele que alimentaria o povo de Deus (Mateus 2,6, João 21,15). Jesus, portanto, entregou Sua equipe pastoral a um dos discípulos para que todos os redimidos fossem um rebanho sob o mesmo pastor. Deve haver alguém que guarda e protege a todos nós do diabo que é um perseguidor. É preciso zelar pelos fracos e pequenos, e dirigir os fortes, servindo a todos os homens para que tenham vida e felicidade plena no Senhor. O serviço do pastor é, portanto, um ato de amor, um retorno de amor àquele que primeiro amou a Cristo e toda a humanidade. É o vínculo do amor de Jesus, e do amor de Deus e dos irmãos, que mantém toda a Igreja unida indissoluvelmente. Este serviço abrangente do pastor é estendido também aos seus companheiros pastores, os padres e bispos da Igreja ”. (“Too see Peter”, páginas 172-173)

Depois de Pentecostes, Apóstolos e fiéis serão um só coração e uma só alma sob o poder de Pedro. Desde o início os demais Apóstolos entenderam a missão especial de Pedro, conferida a ele por Jesus, e o respeitaram. No dia de Pentecostes é Pedro quem se levanta e toma a palavra para falar ao povo:

“Pedro, porém, pondo-se em pé com os onze, levantou a sua voz, e disse-lhes: Homens judeus, e todos os que habitais em Jerusalém, seja-vos isto notório, e escutai as minhas palavras.” Atos 2,14

E quando os Apóstolos foram presos e julgados pelo Sinédrio, é Pedro quem fala por eles:

“Então Pedro, cheio do Espírito Santo, respondeu-lhes: “Chefes do povo e anciãos, ouvi-me:” Atos 4,8

Outro fato importantíssimo do exercício dos poderes de Pedro, foi a admissão do primeiro gentio (Cornélio) na Igreja, em Jope, aceita por ele. Isto era algo inadmissível para os judeus, mas Jesus mostrou a Pedro que veio salvar a todos. Foi justamente Pedro quem teve a visão da Toalha com animais impuros, agora tornados puros por Deus, o que significava a entrada dos gentios na Igreja. Pedro entendeu isso, batizou Cornélio e sua família, Pedro reafirmou isso:

“E, subindo Pedro a Jerusalém, disputavam com ele os que eram da circuncisão, Dizendo: Entraste em casa de homens incircuncisos, e comeste com eles. Mas Pedro começou a fazer-lhes uma exposição por ordem, dizendo: ‘Estando eu orando na cidade de Jope, tive, num arrebatamento dos sentidos, uma visão; via um vaso, como um grande lençol que descia do céu e vinha até junto de mim. E, pondo nele os olhos, considerei, e vi animais da terra, quadrúpedes, e feras, e répteis e aves do céu’. E ouvi uma voz que me dizia: ‘Levanta-te, Pedro; mata e come’. Mas eu disse: ‘De maneira nenhuma, Senhor; pois, nunca em minha boca entrou coisa alguma comum ou imunda’. Mas a voz respondeu-me do céu segunda vez: ‘Não chames tu comum ao que Deus purificou’. E sucedeu isto por três vezes; e tudo tornou a recolher-se ao céu.” Atos 11,2-10

E Pedro defendeu esse ponto novamente no Concílio de Jerusalém. Este Concílio girou em torno da necessidade da circuncisão antes do gentio ser batizado. São Paulo e São Barnabé ensinavam, na Igreja de Antioquia, que não era necessário a circuncisão, mas alguns cristãos, vindos de Jerusalém à Antioquia ensinavam o contrário, e então o fez-se a necessidade do primeiro Concílio da Igreja. Concílio este, que ocorreu na Igreja de Jerusalém (de Tiago), a Igreja até então principal, mas mesmo a Igreja principal sendo a de Tiago, Pedro ainda expressou sua Primazia

“E, havendo grande contenda, levantou-se Pedro e disse-lhes: ‘Homens irmãos, bem sabeis que já há muito tempo Deus me elegeu dentre vós, para que os gentios ouvissem da minha boca a palavra do evangelho, e cressem’.” Atos 15,7

É muito relevante notar o que Pedro lembra a todos: “há muito tempo Deus me escolheu dentre vós”, pois a missão de Pedro sobre os demais Apostolos de evangelizar aos gentios e assim tornar a Igreja Universal, ja foi conferida a ele há muito tempo, e mais ainda do Senhor ter introduzido os gentios na Igreja pelo Batismo exatamente através de Pedro, e assim a tornado Universal (Mais uma vez Pedro…). É por meio de Pedro que a Igreja de Cristo tornou-se Católica. Em Atos 15,12 é dito que depois que Pedro falou, todos ficaram calados. Só “depois de terminarem” (Atos 15,13) é que Tiago toma a palavra para corroborar e completar o que Pedro decidiu. Tiago então expressou sua concordância com a decisão de São Pedro. Não sei sob que fundamentos alguns livros protestantes querem afirmar que foi Tiago, e não Pedro (a não ser o desejo deles de depreciar a autoridade de Pedro), quem presidiu o Concílio de Jerusalém. Basta ler Atos 15, para se tirar facilmente a conclusão. É relevante notar ainda que Paulo e Barnabé, bem como a importante comunidade cristã de Antioquia, a mais antiga depois da de Jerusalém, não resolveu a questão da circuncisão por ela mesma, mas foram levar a decisão para a Igreja Principal (de Jerusalém), e para Pedro e os Apóstolos. Isto mostra que no Cristianismo nunca ouve comunidades totalmente “independentes” ou igrejas que viviam independentes dos Apóstolos. A Igreja primitiva sempre esteve sob a jurisdição dos Apóstolos e de Pedro, como podemos ver em vários fatos. Após a perseguição que se seguiu à morte de Estevão, muitos gentios se converteram em Antioquia, pela pregação dos dispersos que lá se refugiaram. A notícia dessas coisas chegou aos ouvidos da Igreja de Jerusalém. Então a Igreja de Jerusalém enviou Barnabé à Antioquia (Atos 11,19-22). A Igreja de Jerusalém mantinha a vigilância. São Lucas registra que em cada Igreja os apóstolos instituiam anciãos e, após orações com jejuns encomendavam eles ao Cristo em quem tinham confiado (Atos 14,23). Esses fatos mostram claro que as igrejas particulares nunca foram independentes dos Apóstolos, e de Pedro especialmente, como querem os separados da Igreja Católica. Toda a Tradição Apostólica confirma isto.

Outro evento que atesta a Primazia de Pedro é o incidente em Antioquia narrado em Gálatas 2. Muitos o citam alegando que estaria contra o primado de Pedro, pois dizem que como Paulo teria feito uma crítica à Pedro, isso negaria sua autoridade primacial. Mas na verdade, o episódio apenas atesta que ela já era um fato:

“Mas quando Cefas veio a Antioquia, eu o enfrentei abertamente, porque ele se tinha tornado digno de censura. Com efeito, antes de chegarem alguns vindos da parte de Tiago, ele comia com os gentios, mas, quando chegaram, ele se subtraía e andava retraído, com medo dos circuncisos. Os outros judeus começaram também a fingir junto com ele, a tal ponto que até Barnabé se deixou levar pela sua hipocrisia. Mas quando vi que não andavam retamente segundo a verdade do evangelho, eu disse a Pedro diante de todos: se tu, sendo judeu, vives à maneira dos gentios e não dos judeus, porque obrigas os gentios a viverem como judeus?” Gálatas 2,11-14

Paulo, na ocasião não negou a autoridade primacial de Pedro. Não lhe desobedeceu nenhuma ordem, não lhe contrariou nenhuma doutrina, não lhe contestou nenhuma reivindicação. A passagem atesta que Pedro costumava comer/estar com os gentios. Não se tratava, de uma questão doutrinária. Ambos os apóstolos criam na universalidade do cristianismo e condenavam o particularismo judaico, o próprio Pedro havia antes batizado Cornélio e dito no Concílio de Jerusalém que “é pela graça do Senhor Jesus que nós cremos ser salvos, da mesma forma que eles (os gentios)” (Atos 15,11), e esta também é a doutrina de Paulo (Romanos 11,11, Efésios 2,8). O que aconteceu? Com a chegada dos Judeus da parte de Tiago, Pedro, que se sentava com os gentios, não fez por receio deles. Em outra ocasião Paulo, se submeteu à purificação e custeando as oblações legais de quatro nazireus pobres para não escandalizar os judeus também (Atos 21,15-26). Mas em Antioquia, o que talvez fosse justificável em Jerusalém não o era naquela cidade. A atitude de Pedro poderia resultar em prejuízos para a Igreja, Paulo percebeu isso e falou ao Príncipe dos Apóstolos que isso era arriscado Mas a oposição de Paulo revela, antes, a liderança de Pedro, por que se fosse outro apóstolo, Paulo talvez nem mencionasse o fato. Mas Paulo vai a Pedro Tanto que até Barnabé, colaborador de Paulo e, como este, opositor do partido judaizante (Atos 15,2) passou a desconsiderar os gentios (Gálatas 2,13), Pedro tinha autoridade primacial tão clara aos olhos da comunidade cristã primitiva, que o próprio Paulo disse que ele estava “obrigando” os gentios a viverem como judeus (Gálatas 2,14) A única explicação possível pra Paulo dizer que Pedro “obrigava”, era por causa da liderança que Pedro exercia sobre toda a Igreja. Poderia Pedro obrigar os Cristãos sem essa Autoridade? Não. Por isso, o destaque Primacial de Pedro como cabeça dos Apóstolos fora afirmado desde os primeiros seculos por Clemente de Alexandria, Tertuliano, Origenes, São Cipriano de Cartago, São Cirilo de Jerusalém, Santo Efrém da Síria, Papa Dâmaso I, São Jerônimo, Inocêncio I, Santo Agostinho, pelo I Concílio de Éfeso e Leão Magno.

E qual a necessidade de Deus criar um Papado? O simples fato da Instituição que é a Igreja de Cristo não ser uma anarquia. Em todas as coisas ordenadas a algum fim, é preciso haver algum dirigente, pelo qual se atinja diretamente o devido fim. Um navio, que se move para diversos lados pelo impulso dos ventos contrários, não chegaria ao fim de destino, se o piloto não o dirigisse até o porto. No caso do Cristão, deve haver para ele uma finalidade para o qual se ordenam toda a sua vida e ação: Deus. Acontece, porém, que os homens agem de modos diversos em vista do fim, o que a própria diversidade dos esforços e ações humanas comprova. Portanto, o Cristão precisa de um dirigente para o fim. Se é natural ao cristão viver numa familia de muitos (o rebanho de Cristo), há alguém entre os homens por quem seja governada a multidão. Pois se a cada ovelha tratasse cada uma do que lhe conviesse, dispersar-se-iam as Igrejas em diversidade, caso também não houvesse alguém cuidando do que pertence a ela, assim como se corromperia o corpo da Igreja se não houvesse alguma potência regedora comum que visasse o bem comum de todos os membros. Isso ponderando diz Salomão: “Onde não há governante, dissipar-se-á o povo” (provérbios 21,14). Se há uma Instituição que abrange todo o mundo, há necessidade de se aplicar a ela os mesmos termos. Por isso Jesus deixou claro que queria uma Igreja com hierarquias:

“Se teu irmão tiver pecado contra ti, vai e repreende-o entre ti e ele somente; se te ouvir, terás ganho teu irmão. Se não te escutar, toma contigo uma ou duas pessoas, a fim de que toda a questão se resolva pela decisão de duas ou três testemunhas. Se recusa ouvi-los, dize-o à Igreja. E se recusar ouvir também a Igreja, seja ele para ti como um pagão e um publicano.” Mateus 18,15-17

Ao dizer Igreja, Cristo se refere a autoridade, LIDERES, da Igreja, Ele queria uma hierarquia, e a hierarquia de uma Instituição SEMPRE leva a esferas de maior poder com menos pessoas até chegar em um árbitro máximo, e esse alguém como já vimos, era São Pedro. É racionável isso pela diferença do próprio de cada igreja e o comum de toda a Igreja Universal: o próprio divide e o comum une. Assim, importa existir além do que move ao bem particular de cada Igreja (seus ritos, litúrgias) o que mova ao bem comum de todas (um só batismo, uma só Fé, para Um só Senhor. Uma única Doutrina). Pelo que em todas as coisas ordenadas a um todo se acha algo diretivo a êle. E no mundo dos corpos, um só corpo (isto é, o celeste) dirige os demais por ordem da Providência Divina, e a todos os rege a criatura racional. Igualmente no homem, a alma rege o corpo, e entre as partes da alma, o irascível e o concupiscivel são dirigidos pela razão. Também entre as partes do corpo, uma deve ser a principal que todos move: o cérebro ou o coração.

Quando e como a Igreja Principal deixou de ser a de Jerusalém e se tornou a de Roma? Em Atos 28, ao sair da ilha de Malta Paulo partiu em direção a Siracusa, na Sicília. Dali, foi costeando até chegar em Régio da Calábria, já na Itália, depois Poteoli, e finalmente Roma. Os judeus, que afirmaram nada saber sobre Paulo por não terem recebido notícias da Judeia, pediram que Paulo lhes falasse sobre os cristãos. No dia combinado, muitos judeus foram à casa de Paulo para ouvir sua pregação, muitos judeus o rejeitaram, então Paulo lhes falou sobre uma profecia de Isaías (Isaías 6,9-10):

“Vai a este povo e dize: ‘Certamente ouvireis, e de nenhum modo entendereis; Certamente vereis, e de nenhum modo percebereis.’ Pois o coração deste povo se fez pesado e os seus ouvidos se fizeram tardos; e eles fecharam os olhos para não suceder que, vendo com os olhos e ouvindo com os ouvidos, entendam no coração e se convertam e eu os sare. Ficai sabendo, portanto, que esta salvação de Deus é enviada aos gentios; eles também a ouvirão.” Atos 28,26-28

O livro de Atos termina quando a Igreja encontra seu destino, e termina afirmando que Paulo viveu em Roma por mais tempo, e durante todo este tempo pregou lá. É fato (e nenhum Católico ou Protestante que estuda a Patristica nega isso) que ele foi martirizado junto de Pedro (co-fundador da Igreja de Roma), em Roma por ordens do imperador Nero. Assim afirmam São Clemente, Santo Inácio, Santo Irineu, e os outros Padres dos primeiros séculos Uma explicação bastante coerente a respeito da razão dos Apóstolos fazerem de Roma sua sede, é feita pelo historiador argentino Rúben Calderón Bouchet, na revista Gladius, ano 1, N° 1: “A atitude de Pedro e de Paulo ao tomar Roma como centro do seu apostolado foi, desde o começo, favorável a um entendimento profundo com as expressões mais notáveis da civilização helênico-romana. Paulo não perdeu nunca a oportunidade de fazer valer sua condição de cidadão romano para defender sua liberdade contra a ameaça dos seus antigos companheiros soldados. Os seguidores de Pedro não apenas oraram pela prosperidade do Império, como também começaram a levar a sério a possibilidade de converter o próprio imperador ao cristianismo. Nada digo sobre as primeiras expressões de arte cristã, pois todo mundo sabe que, embora nada originais, elas tomaram por razão o fornecido pela tradição estética da Grécia e de Roma. Basta ler o prólogo do Evangelho de São João para compreender que o Apóstolo do Verbo tentou uma interpretação teológica de Cristo que emprestava do helenismo uma de suas ideias mais fundamentais, a do Logos, e a introduzia com audácia singular para designar a posição de Cristo nas processões intradivinas. Política, arte, ciência, economia e língua vinham agora do mundo gentio greco-latino. De Israel se conservava a Escritura e, com ela, o conteúdo da tradição revelada, mas examinado à luz dos princípios impostos pelo mistério do Verbo Encarnado. Os usos e os costumes propriamente hebreus, de temperamento hebreu, não puderam resistir muito tempo em comparação com aqueles provenientes do mundo helenístico. Somente restou, talvez como modalidade literária, uma certa influência dos escritores do Antigo Testamento. O encontro de gregos e cristãos foi decisivo para o futuro de uma assembleia religiosa cuja catolicidade dependia dessa união. Escreve Werner Jaeger que o autor dos Atos dos Apóstolos viu isso com toda clareza quando narrou a visita de Paulo a Atenas, centro cultural e intelectual da Grécia clássica e símbolo de sua tradição histórica. “Paulo pregou neste venerável foro, o Areópago, perante uma audiência de filósofos estoicos e epicuristas, acerca do deus desconhecido. Citou o verso de um poeta grego: ‘porque somos também da sua linhagem’, e empregou argumentos amplamente estoicos, calculados para convencer mentes educadas na filosofia.”

Vale lembrar aos protestantes que a ideia de que a Igreja de Roma teria caído é totalmente contrária à Sagrada Escritura, pois foi São Paulo quem prometeu que Deus não tardará em esmagar Satanás debaixo dos pés dos Romanos (Romanos 16,20), E podem ter certeza, Deus esmagará satanás debaixo dos pés dos romanos.

São Pedro morreu no ano 67, na cidade de Roma, e seu cargo foi sucedido por São Lino, em seguida por Santo Anacleto (Como documentado por Santo Irineu no século II), e em seguida por São Clemente I, de quem falaremos na próxima parte.

 
 
 
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