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A Associação de Médios Católicos Italianos publicou um documento explicando a necessidade de contrariar os desvios legislativos da eutanásia e apelando à implementação da lei de 2010 sobre os cuidados paliativos. O texto surge no momento em que o Parlamento italiano continua sua análise do projeto de lei Bazzoli sobre o fim da vida. Presidente Boscia: cultura mortal alimentada pelos problemas do sistema de saúde.


Com o manifesto intitulado “O médico é pela vida, não ao razoável desumano por piedade”, a Associação de Médicos Católicos Italianos(AMCI) voltou a reiterar sua oposição a qualquer deriva da legislação e do sistema de saúde ligada à morte.

Os profissionais divulgaram o texto no atual contexto político, que vê duas iniciativas favoráveis à eutanásia e ao suicídio assistido: uma é o referendo que visa descriminalizar o artigo 579 do Código Penal que pune o homicídio do concordante (questão cuja legitimidade será avaliada nas próximas semanas pela Consulta); a outra é representada pelo projeto de lei sobre o fim de vida Bazzoli, em discussão no Parlamento.

Não confundir o desumano com piedade

O manifesto dos médicos católicos reafirma a absoluta incompatibilidade entre o agir médico e o matar. Além disso, recorda a necessidade de garantir o acesso aos cuidados paliativos e à terapia da dor em todo o país. Denuncia também o perigo do abandono terapêutico para todos os sujeitos frágeis a quem gostariam de oferecer uma “doce morte” antes que cuidados médicos e proximidade humana.  Os médicos exortam a “não confundir o desumano com piedade”.

O texto, assinado pelo presidente da AMCI Filippo Maria Boscia, destaca que “alguns começam a distinguir entre ‘vida’ e ‘não-vida’, entre ‘digna’ e ‘não-digna’, entre o ‘morrer com dignidade’ e o ‘morrer sem dignidade’, rotulando assim, com juízos subjetivos, muitas condições de vida frágil”.

“Reconhecemos que o pedido de suicídio assistido ou de eutanásia muitas vezes surge da recusa em continuar vivendo em condições de precariedade e grande sofrimento – continua Filippo. No entanto, deveríamos estar muito atentos para não aceitar facilmente o desumano por piedade, o desumano ‘razoável’ por compaixão”.

A AMCI reconhece depois que uma morte digna deve ser assegurada para todos: este é um princípio essencial do cuidar e esta ação não pode encontrar atalhos no que diz respeito às práticas de apoio e acompanhamento aos doentes nas últimas fases de sua vida. A defesa dos princípios éticos e da objeção de consciência também é clara: o suicídio assistido e a eutanásia – reiteram – “não são opções terapêuticas possíveis ou praticáveis na aliança médico-paciente e na relação de tratamento e confiança”.


Implementação imediata da lei sobre cuidados paliativos

Por todas essas razões, a Associação de Médicos pede ao Estado italiano que não negue formas de assistência e proteção aos doentes crônicos, idosos, deficientes e doentes mentais, apoiando formas de eutanásia social ou seleção de frágeis e fracos. A AMCI exorta as administrações públicas a implementarem o grande potencial da Lei 38/2010 para garantir o acesso aos cuidados paliativos e à “terapia da dor”, acompanhando a “necessidade de manter o doente terminal num percurso existencial, consubstanciado ao máximo pelas relações humanas e afetivas”. Essa força, segundo a Associação, representa “uma oportunidade de diálogo e melhoria da assistência à eubiosia (o contrário da eutanásia), ou seja, uma vida boa, um verdadeiro desafio para um renovado humanismo do cuidado”.

Boscia: tememos a cultura da eutanásia

“Neste último período, a relevância do ‘bem viver’, está se esfacelando sob o peso da exaltação das liberdades individuais, num momento particular da pandemia em que se registra a recusa de tratamentos nos hospitais”. Foi assim que o presidente da AMCI Filippo Maria Boscia, aprofundou os temas mais importantes do manifesto à Rádio Vaticano-Vatican News.

“Como médicos comprometidos com o tratamento – continua ele – devemos esclarecer a diferença entre o deixar morrer e o fazer morrer”. Segundo o presidente dos médicos católicos, vivemos uma cultura de eutanásia alimentada por alguns problemas no sistema de saúde, como a lotação de hospitais, adiamento de atendimentos e cirurgias e o abandono das famílias e dos pacientes. “Quando se percebe não ser aceitos na doença – continua Filippo – surge o desejo de dizer ‘vamos acabar com isso’. Mas é justamente aqui que devemos focar a questão”. 

Proximidade e cuidado para combater a cultura da morte

Doutor Boscia destaca ainda a necessidade de os doentes e pessoas com deficiência viverem relações de proximidade: “é isso que falta e que leva as pessoas a pedir a morte. Não temos alternativa como médicos, podemos somente trabalhar pela vida. A descriminalização da eutanásia não pode nos entusiasmar. Se nos pedem para ajudar a morrer, comprometem os fundamentos do bem comum e os princípios da solidariedade e justiça para com os mais frágeis, é uma questão de civilização”.

Razões econômicas por trás da eutanásia

Por fim, o presidente da AMCI destaca a importância da terapia da dor. “Não existem doenças incuráveis. Existem doenças incuráveis crônicas, mas essas precisam ser melhor tratadas porque estamos diante de um paciente mais frágil que os outros”. Para Boscia, a “deriva mortal” também tem razões ligadas às escolha de alocação de recursos, “porque curar os mais frágeis custa caro”.

Filippo, portanto, exclui qualquer tipo de “proximidade” dos médicos católicos a um texto da lei da eutanásia: “Faremos um caminho de escuta, mas que dever ser participado por todos os batizados na Igreja”. “O grito pela eutanásia é um grito de alarme de quem sofre – conclui – mas quando nós médicos nos aproximamos desta dor, cria-se um diálogo educativo, que também os jovens deveriam conhecer, porque estamos falando da passagem mais humana da nossa vida”. 

FONTE: Marco Guerra – Vatican News

 
 
 




No final da semana passada, o país da Bélgica se tornou  a primeira nação do mundo  a permitir  a eutanásia em doentes terminais  de qualquer idade .





O polêmico projeto de lei foi aprovado pelo Parlamento da Bélgica 86-44 e deve ser assinado pelo rei católico Philippe nos próximos dias.

Apesar de 60% da população da Bélgica se identificar como membros da Igreja Católica Romana, o pequeno país europeu terá agora a duvidosa distinção de ser o lar das leis de eutanásia mais progressistas do planeta.

Não há necessidade de discutir o quão bárbara essa lei realmente é. Escondidos atrás da máscara de empatia, os adoradores fanáticos do ídolo de sua escolha agora serão capazes de atrair os membros mais vulneráveis ​​da sociedade a fazer o ato gravemente pecaminoso de encontrar nosso Senhor face a face, não de acordo com Seus termos, mas de acordo com os seus próprios.

Os defensores da lei nos dizem que a eutanásia de menores só ocorrerá em circunstâncias específicas e que será cuidadosamente regulamentada. Em outras palavras, somente em ocasiões seguras, legais e raras o procedimento será realizado em crianças.

Parece familiar, não é?

A verdade é que, como o aborto, essa lei será abusada e incentivará outros países a adotarem atitudes imprudentes semelhantes em relação aos cuidados no final da vida.

Por mais nobres defensores das leis de eutanásia pensem que são suas intenções, eles estão cegos pelo fato de que o sofrimento é algo que todos devemos suportar. Na verdade, é parte do plano divino.

Certamente, alguns de nós recebem cruzes mais pesadas do que outras. Alguns menos.

Mas quando se trata da morte, temos que nos lembrar de que nenhum servo é maior do que seu senhor. E Jesus Cristo, sendo o salvador de toda a humanidade, sofreu uma morte brutal.

Cristo não foi apenas pregado a um pedaço de madeira, mas também açoitado em uma coluna, adornado com uma coroa de espinhos, rejeitado por multidões de judeus que poucos dias antes louvaram seu nome e foi forçado a carregar sua própria cruz. O que nos faz pensar que temos “direito” a uma morte menos dolorosa? Somos maiores que nosso salvador?

As horas finais que passamos nesta terra são um momento especial em nossa vida que Deus preparou para nós. Segundo a Congregação para a Doutrina da Fé, será o nosso momento de  compartilhar a paixão  de nosso Senhor. Isso significa necessariamente que seremos tentados a não prosseguir da maneira que Deus deseja que façamos.

Mas se formos obedientes à vontade de Deus e confiarmos Nele como os mártires da Igreja, seremos capazes de suportar qualquer sofrimento que Ele nos der.

São Lourenço aceitou seu sofrimento quando foi morto em uma grelha

É verdade que os mártires da Igreja, antes de entrarem na bem-aventurança eterna com Deus, sofreram muitos castigos horríveis. Alguns foram comidos vivos. Outros foram queimados na fogueira. Outros foram cozidos em grades de ferro e alguns foram apedrejados até a morte.

No entanto, para abraçar o caminho doloroso que foi colocado diante deles, esses seguidores altruístas de Cristo plantaram as sementes da Igreja. Sua obediência e sofrimento conquistaram graças especiais de Deus que ajudaram a sustentar Sua Igreja por dois mil anos.

Imagine, por um momento, se esses santos tivessem ouvido o Parlamento da Bélgica e decidido não pegar suas cruzes? Imagine se Santo Estêvão, o primeiro mártir da Igreja, fugisse e se escondesse de seus acusadores em vez de aceitar ser apedrejado até a morte. Como seria a Igreja se ele não tivesse obedecido à vontade de Deus? Como seria o mundo?

O sofrimento que Deus planejou para nós em nossos dias finais serve a um propósito maior do que sabemos. Muitas vezes, esses sofrimentos têm como objetivo obter a salvação de outros ou diminuir o tempo que nós mesmos temos de passar no purgatório. A eutanásia, pelo fato de nos impedir de sofrer, rejeita o plano de Deus. E ao participar dele, substituímos a vontade do Criador pela vontade da criatura.

Mas, como criaturas, essa é uma escolha que não podemos fazer. Assim como não decidimos quando nossa vida começou, não podemos decidir quando nossa vida vai acabar. Ore por aqueles legisladores na Bélgica e em todo o mundo que pensam que sim.

FONTE: CATHOLIC VOTE



 
 
 

Francisco foi entrevistado por Carlos Herrera da Rádio COPE. Pela primeira vez ele fala sobre a cirurgia em julho e também aborda temas como o Afeganistão, China, eutanásia, reforma da Cúria.


Salvatore Cernuzio – Cidade do Vaticano

Da operação no cólon a que foi submetido no último dia 4 de julho na Policlínica Gemelli  – e suas atuais condições de saúde -, à crise no Afeganistão e à preocupação com a população. Depois o diálogo com a China, o ponto de vista sobre a eutanásia e o aborto, ambos símbolos daquela “cultura do descarte” que sempre foi denunciada, o julgamento no Vaticano e, por fim, os desafios do seu pontificado como a reforma do A Cúria e a luta contra a corrupção e a pedofilia. Pontificado que, tendo chegado quase ao nono ano, ao contrário de boatos que circulam na mídia italiana e argentina, não será interrompido antes do previsto: “Nunca me passou pela cabeça renunciar”.

A entrevista que o Papa Francisco concedeu no último final de semana à Rádio Cope, emissora da Conferência Episcopal Espanhola, dura uma hora e meia. Esta é a primeira entrevista após a cirirgia de estenose diverticular e também a primeira para uma rádio na Espanha.

A saúde após a operação no Gemelli

Em entrevista ao jornalista Carlos Herrera, sob o olhar da imagem tão cara ao Pontífice de Nossa Senhora Desatadora dos Nós, colocada no hall da Casa Santa Marta, o Papa fala de temas da atualidade e não se esquiva das perguntas mais pessoais. A começar pela pergunta mais simples mas, neste momento de recuperação pós-operatória, a mais importante: “Como o senhor está?”.

“Ainda estou vivo”, responde Francisco com um sorriso. E conta que a sua vida foi salva por um enfermeiro do serviço de saúde da Santa Sé,  “um homem com mais de 30 anos de experiência”, que insistiu na cirurgia: “Ele salvou a minha vida! Disse-me: ‘Deve fazer uma operação’”. E isso, apesar do parecer contrário de alguns que sugeriram um tratamento “com antibióticos”. A insistência do enfermeiro, em vez disso, mostrou-se providencial, visto que a cirurgia revelou um quadro necrótico: agora, após a operação, revela Francisco, “tenho 33 centímetros a menos de intestino”. Fato, entretanto, que não o impede de levar uma vida “totalmente normal”. “Posso comer de tudo” e, tomando os “remédios adequados”, manter a agenda lotada: “Hoje,  audiência toda a manhã, toda a manhã”. Agenda que inclui também a viagem à Eslováquia e à Hungria de 12 a 15 de setembro próximo, a 34ª de seu pontificado.

“Renúncia? Nunca pensei nisso”

Ainda falando da própria saúde, o Papa desmente categoricamente as especulações de alguns jornais italianos e argentinos sobre uma possível renúncia ao pontificado. Questionado a este respeito, Francisco afirma: “Nunca me passou pela cabeça … Não sei de onde tiraram a ideia de que eu renunciaria!”. Com um toque de ironia, o Papa também explica que veio a saber de tais notícias muito depois: “Disseram-me também que na semana passada estava na moda. Eva (Fernández, correspondente da Cope para a Itália e o Vaticano, ndr ) disse-me … e eu disse a ela que não fazia ideia, porque aqui só leio um jornal de manhã, o jornal de Roma. Eu o leio porque gosto da forma como é apresentado um título, o leio rapidamente e pronto, não me deixo envolver no jogo. Eu não assisto televisão. E recebo, sim, mais ou menos, um relato das notícias do dia, mas descobri muito mais tarde, alguns dias depois, que havia algo sobre minha renúncia. Sempre que um Papa está doente, há sempre uma brisa ou um furacão de Conclave”.



A crise no Afeganistão

Amplo espaço na entrevista é dedicado à crise no Afeganistão, ferido pelos recentes ataques kamikaze e pela sangria de cidadãos após a tomada do poder pelo Talibã. “Uma situação difícil”, observa o Papa Francisco, que não entra em detalhes sobre os esforços que a Santa Sé vem realizando no plano diplomático para evitar represálias contra a população, mas elogia o trabalho da Secretaria de Estado. “Estou certo que está ajudando ou pelo menos oferecendo ajuda”, afirma, definindo o cardeal secretário de Estado, Pietro Parolin, como “o melhor diplomata que já conheci”: “Um diplomata que acrescenta, não um daqueles que subtrai, quem está sempre procurando, um homem de acordo”.

O Papa cita a seguir a chanceler alemã Angela Merkel, “uma das grandes figuras da política mundial”, em seu pronunciamento de 20 de agosto em Moscou: “É necessário colocar um fim na política irresponsável de intervir do exterior e construir a democracia em outros países, ignorando as tradições do povo”. “Incisivo… mas percebi um senso de sabedoria diante das palavras dessa mulher”, afirma Francisco. E, quando questionado a este respeito, define a retirada dos Estados Unidos do Afeganistão como “lícita”, após vinte anos de ocupação, mesmo se “o eco que existe em mim seja outra coisa”, nomeadamente o fato de “deixar o povo afegão ao seu destino”. Para o Papa, de fato, o problema a ser resolvido é outro: “Como desistir, como negociar uma saída”. “Pelo que vejo – diz ele na entrevista – nem todas as eventualidades foram levadas em consideração aqui, ao que parece, não quero julgar, nem todas as eventualidades. Não sei se haverá uma revisão ou não, mas certamente houve muito engano talvez por parte das novas autoridades. Eu falo em engano ou muita ingenuidade, não entendo”.

Diálogo com a China: este é o caminho a seguir

Do Afeganistão, o olhar permanece na Ásia, mas se desloca para a China e ao acordo sobre nomeação dos bispos renovado por mais dois anos. “Há quem insista que o senhor não se renove o acordo que o Vaticano assinou com aquele país, porque põe em perigo a sua autoridade moral”, observa o jornalista. “A China não é fácil, mas estou convencido de que não devemos renunciar ao diálogo”, responde o Papa. “Pode-se enganar no diálogo, pode-se cometer erros, tudo isso … mas é o caminho a seguir. Mas é o caminho a seguir. O que foi alcançado até agora na China foi pelo menos o diálogo … algumas coisas concretas como a nomeação de novos bispos, lentamente … Mas esses são passos que podem ser discutidos ​​e os resultados de uma parte ou de outra”.

A inspiração do Cardeal Casaroli

Para o Papa, o ponto de referência e inspiração é o cardeal Agostino Casaroli, por muito tempo secretário de Estado durante o pontificado de João Paulo II, já com João XXIII “o homem encarregado de construir pontes com a Europa Central”. O Pontífice cita “um belíssimo livro”, O martírio da paciência, no qual o purpurado narra suas experiências nos países comunistas: “Foi um pequeno passo atrás do outro, para construir pontes … Lentamente, lentamente, lentamente, foi conseguindo reservas de relações diplomáticas que no final significava nomear novos bispos e cuidar do povo fiel de Deus. Hoje, de alguma forma, devemos seguir passo a passo os caminhos do diálogo nas situações mais conflituosas”. A experiência com o Islã, com o Grande Imame Al-Tayyeb, foi muito positiva em muitos aspectos: “O diálogo, sempre o diálogo ou disponibilidade ao diálogo”.

Os desafios do pontificado

E o diálogo é uma das pedras angulares desses oito anos de pontificado que o Papa Francisco recorda na entrevista. A começar pela eleição de 13 de março de 2013, totalmente inesperada (“vim aqui com uma valise”), passando pelos vários desafios sempre enfrentados com o objetivo de concretizar o que foi acordado pelos cardeais nas reuniões pré-Conclave, tudo resumido na Evangelii Gaudium: “Penso que ainda existam diversas coisas a serem feitas, mas nada foi inventado por mim. Estou obedecendo ao que foi estabelecido no tempo devido”.

“Pequenos ajustes” na Cúria Romana

A reforma da Cúria Romana, novos avanços na transparência das finanças vaticanas e a prevenção de casos de abusos dentro da Igreja são as três questões nas quais Jorge Mario Bergoglio está trabalhando intensamente. Sobre a reforma da Cúria, o Papa assegura que “está andando passo a passo e bem” e revela que neste verão ele estava prestes a terminar de ler e assinar a nova constituição apostólica “Praedicar Evangelium”, cuja publicação foi, no entanto, atrasada “por causa da minha doença”. O documento, por sua vez, explica o Pontífice, “não conterá nada de novo em relação ao que vemos agora”, apenas algumas fusões de Dicastérios, como a Educação Católica com o Pontifício Conselho para a Cultura e o Dicastério da Nova Evangelização que se unirá à Propaganda Fide. “Pequenos ajustes”, explica o Papa.

O julgamento no Vaticano

A luta contra a corrupção nas finanças vaticanas continua a ser uma luta importante. “Foram feitos progressos na consolidação da justiça no Estado do Vaticano”, diz o Pontífice, e isto permitiu “que a justiça fosse mais independente, com meios técnicos, também com testemunhos registrados, coisas técnicas atuais, a nomeação de novos juízes, novos promotores…”. A referência é também para o maxi julgamento que começou em 27 de julho passado no Vaticano pelos atos ilícitos realizados com os fundos da Secretaria de Estado, que vê entre os dez réus o ex-substituto da Secretaria de Estado, o cardeal Angelo Becciu. Francisco, lembrando que todo o caso começou com as queixas de duas pessoas que trabalhavam no Vaticano e que viram irregularidades em seu trabalho, reiterou que ele não tem “medo da transparência ou da verdade”. Às vezes dói muito, mas a verdade é o que nos liberta”. Quanto a Becciu, cujas prerrogativas e direitos como cardeal ele revogou, explica que o cardeal havia sido julgado porque a lei do Vaticano assim o prevê: “Quero que ele seja inocente de todo o meu coração. Ele foi um colaborador meu e me ajudou muito. Ele é alguém por quem eu tenho uma certa estima como pessoa, então meu desejo é que ele se saia bem. Mas é uma forma afetiva da presunção de inocência… Além da presunção de inocência, eu quero que ele se saia bem. Agora cabe aos tribunais decidirem”.

Luta contra a pedofilia, apelo aos governos contra a pornografia infantil

O Papa também fala de justiça no que diz respeito ao flagelo da pedofilia. Quando perguntado sobre isto, ele primeiro elogia o cardeal Sean O’Malley, presidente da Comissão para a Proteção de Menores, por sua “coragem” e por todo o trabalho feito contra este crime desde quando era arcebispo de Boston, depois lança um forte apelo internacional aos governos para agirem e reagirem contra a pornografia infantil, “um problema global e grave”. “Às vezes me pergunto como alguns governos permitem a produção de pornografia infantil. Que não digam que não sabem. Hoje, com os serviços secretos, sabemos tudo. Um governo sabe que em seu país se produz pornografia pedófila. Para mim, esta é uma das coisas mais monstruosas que eu já vi”.

Eutanásia, sinal da “cultura do descartável

Com igual vigor, o Papa também aborda a questão da eutanásia, à luz das recentes leis aprovadas na Espanha. A legalização desta prática é um sinal da “cultura do descartável” que agora permeia as sociedades modernas: “O que é inútil é descartado”. Os idosos são descartáveis: eles são um incômodo. Também os doentes terminais; até mesmo as crianças indesejadas, e elas são enviadas ao remetente antes de nascerem”, afirma. É aquela “cultura do descarte”, denunciada desde o início do pontificado, que tem um grande impacto sobre o “inverno demográfico” do Ocidente e que afeta particularmente países como a Itália, onde a idade média é de 47 anos. “A pirâmide se inverteu… A cultura demográfica está com prejuízo porque olha para o lucro. Olha para o da frente… e às vezes usando a compaixão! O que a Igreja pede é que se ajudem as pessoas a morrerem com dignidade. Ela sempre o fez”, comenta Francisco. Ele não deixa de estigmatizar o aborto mais uma vez: “Diante de uma vida humana, eu me faço duas perguntas: é lícito eliminar uma vida humana para resolver um problema? É correto contratar um assassino para resolver um problema?”.

A esperança de estar em Glasgow para Cop26

O Papa também fala de abusos com relação à criação, uma de suas mais profundas preocupações, amadurecida nestes anos de pontificado. Francisco espera estar presente na Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP26) que será realizada de 1º a 12 de novembro em Glasgow: “Em linha de princípio, o programa é que eu vá. Tudo depende de como eu me sinta naquele momento. Mas, na verdade, meu discurso já está sendo preparado, e o programa é de estar presente lá”.

O motu proprio “Tratitionis Custodes”

O foco da entrevista muda então para o motu proprio Traditionis Custodes, que regula as missas em latim e que neste verão despertou algumas controvérsias nos setores eclesiásticos mais conservadores. O Papa responde a uma pergunta sobre o assunto elencando a cronologia que levou à assinatura do documento: “A história de Traditionis Custodes é longa. Quando Bento XVI tornou possível celebrar com o missal de João XXIII (anterior ao de Paulo VI, que é pós-conciliar) para aqueles que não se sentiam à vontade com a liturgia atual, que tinham uma certa nostalgia… pareceu-me uma das mais belas e humanas ações pastorais de Bento XVI, que é um homem de uma extraordinária humanidade. E assim começou. Esta foi a razão”. “A preocupação” – reitera o Papa, como no texto que acompanha o motu próprio -, “que mais aparecia era que algo feito para ajudar pastoralmente aqueles que tinham vivido uma experiência anterior, se transformasse em uma ideologia. Em outras palavras, uma coisa pastoral transformada em uma ideologia. Por isso tivemos que reagir com regras claras… Se você ler bem a carta e o decreto, você verá que esta é simplesmente uma reorganização construtiva, com cuidado pastoral e evitando excessos”.

Recomendações ao Dicastério para a Comunicação

Na entrevista com a Cope, também é mencionada a visita de 24 de maio último ao Dicastério para a Comunicação do Vaticano e as palavras de encorajamento, mas também de chamada de atenção dirigidas aos funcionários da mídia do Vaticano. “Foi uma reprimenda”, pergunta o jornalista. “A reação me divertiu”, explica o Papa, “eu disse duas coisas”. Primeiro, uma pergunta: quantas pessoas leem o L’Osservatore Romano? Eu não disse se é lido muito ou pouco. Uma pergunta. Eu acho legítimo perguntar isso, não? E a segunda pergunta, que era mais temática, (eu a fiz) quando, depois de ver todo o novo trabalho de união, o novo organograma, a funcionalização, falei da doença dos organogramas, que dá a uma realidade um valor mais funcional do que real. E digo: com toda essa funcionalidade, que é funcionar bem, não devemos cair no funcionalismo. O funcionalismo é o culto dos organogramas sem levar em conta a realidade. Parece que alguém não entendeu estas duas coisas que eu disse, ou talvez alguém não tenha gostado, ou não sei o quê, e interpretou isso como uma reprovação. É uma coisa normal, é uma pergunta e um aviso. Sim… Talvez algumas pessoas tenham ouvido dizer algo, e …. Acho que o Dicastério é muito promissor, é o Dicastério com o maior orçamento da Cúria no momento, é liderado por um leigo – espero que em breve haja outros liderados por um leigo ou uma leiga – e que está decolando com novas reformas. L’Osservatore Romano, que eu chamo de ‘o jornal do partido’, fez grandes progressos e o esforço cultural que está fazendo é maravilhoso”.

A família, o futebol, as lágrimas

Ao final da entrevista, outras questões eclesiais são abordadas, como, por exemplo, o caminho sinodal na Alemanha, para o qual o Papa recorda sua carta de junho de 2019, bem como questões internacionais como a independência da Catalunha e as políticas migratórias, para as quais o Pontífice argentino reitera a fórmula dos quatro verbos: “Acolher, proteger, promover, integrar”. O Papa não se esquiva de perguntas mais pessoais sobre temas como sua relação com sua família, em particular com sua avó Rosa, seu apoio ao time de futebol San Lorenzo, seu sentimento de ser “um pecador que tenta fazer o bem”. O Papa Francisco revela que não é um homem de lágrimas fáceis, embora seja verdade que algumas situações lhe causam tristeza, e confessa que o que ele mais sente falta dos tempos de Buenos Aires é “andar de uma paróquia a outra” ou os densos dias nebulosos do outono argentino enquanto escuta a música do compositor argentino Astor Piazzolla. “Eu gostaria de andar pela rua, mas tenho que me conter, porque não poderia andar dez metros”.

FONTE: VATICAN NEWS – 1 de setembro de 2021

 
 
 
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