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Escrita pelo ano 421, na mesma ocasião do De cura pro mortuis gerenda, é fruto maduro da teologia da idade adulta do bispo de Hipona. Opúsculo precioso entre todos, admirável síntese da teologia agostiniana. Revela-se ele, aí, como o protótipo do doutor cristão. Diz F. Cayré, na sua obra Précis de patrologie: “Em parte alguma, talvez, santo Agostinho tenha melhor condensado sua doutrina, nem melhor marcado seu método” (tomo I, p. 630). No capítulo que aqui transcrevemos (29,110), o tema é sobre o destino humano em seu coroamento futuro. TEXTO: “Não se pode negar que as almas dos defuntos sejam aliviadas pela piedade de seus parentes vivos, quando por elas é oferecido o sacrificio do Mediador ou quando são distribuídas esmolas na Igreja. Entretanto, essas obras aproveitam somente àqueles que em vida mereceram que esses sufrágios lhes fossem úteis após a morte. Com efeito, existe certo modo de viver não tão bom (nec tam bónus), para esses sufrágios póstumos deixa rem de ser úteis. E existe outro modo de viver não tão mau (nem tam malus), para que os defuntos não possam se beneficiar deles. Por outro lado, existem aqueles que viveram tão bem (talis in bene), que podem passar sem os sufrágios; e outros que viveram tão mal (talis in male), que não conseguem beneficiar-se deles, após a morte. Portanto, é sempre aqui na terra que os méritos são adquiridos e que asseguram a cada um, depois desta vida, o alívio ou o infortúnio. Ninguém espere obter de Deus, após a própria morte, o que negligenciou durante a vida. Assim sendo, as práticas observadas pela Igreja em vista de encomendar a Deus as almas dos defuntos não são contrárias à doutrina do Apóstolo que diz: “Todos nós compareceremos à barra do tribunal de Deus” (Rm 14,10), para receber “a retribuição do que tiver feito durante a sua vida no corpo, seja para o bem, seja para o mal” (2Cor 5,10). Pois, é enquanto vivia em seu corpo que cada um mereceu o benefício eventual das orações feitas em seu sufrágio. Portanto, não são todos os que podem se aproveitar. E por que o proveito não será o mesmo para todos, senão devido à vida diferente que tiverem aqui na terra? Então, quando o sacrifício do altar ou o da esmola são oferecidos na intercessão de todos os defuntos batizados, serão ação de graças para aqueles que foram muito bons (valde boni). Para aqueles que não foram de todo maus (non valde mali) serão meios de propiciação. E para aqueles que foram muito maus (pro valde maios), os sufrágios em sua intenção servirão apenas para consolar em alguma coisa os vivos, já que não lhes servem de ajuda. O que os sufrágios asseguram é ou bem a completa remissão (plena remissio), ou pelo menos, uma forma mais tolerável de expiação (tolerabilior fiat ipsa damnatio). A TRISTEZA PELA MORTE DOS ENTES QUERIDOS Sermão 172 O Apóstolo admoesta-nos a não nos entristecermos pelos que dormem, isto é, por nossos queridos defuntos, como aqueles que não têm esperança da ressurreição e da incorruptibilidade eterna. Por isso, a Escritura chama-os “aqueles que adormeceram”, para que, sabendo que dormem, não nos desesperemos, na certeza de que vão despertar. Por isso, cantamos no salmo: “Porventura o que dorme não será capaz de se levantar?” Sentimos pelos mortos uma tristeza de certa forma natural. Na verdade, não a fé, mas a natureza sente horror à morte. E não existiria morte para o homem, se não houvesse culpa e castigo. Os próprios animais, que foram criados para morrer, fogem da morte e amam a vida. Quanto mais o homem que foi criado para viver sem fim, se tivesse permanecido sem pecado! É inevitável que fiquemos tristes quando, ao morrer, deixam-nos os que amamos. Embora saibamos que não nos deixam para sempre, mas por um tempo nos precedem e depois iremos nós; quando a morte chega para pessoa amada, o sentimento do nosso amor se perturba. Por essa razão, o Apóstolo nos admoesta a não nos entristecermos, mas que não façamos como aqueles que não têm esperança. Entristecemo-nos, portanto, na morte dos nossos, não pelo fato de perdê-los, mas com a esperança de recuperá-los. Naquilo nos angustiamos; nisto nos consolamos. Ali a fraqueza sente; aqui a fé consola. Ali se entristece a condição humana; aqui cura a promessa divina. Por isso, a pompa dos funerais, o acompanhamento do cortejo, a suntuosa celebração do enterro, a opulência da sepultura são consolação dos vivos, não alívio dos mortos. Não há dúvida, porém, de que as orações da santa Igreja, o saudável sacrificio e as esmolas distribuídas em benefício por suas almas, ajudam os mortos, para que o Senhor tenha misericórdia com seus pecados. A Igreja universal mantém a tradição dos Padres: que se reze por aqueles que morreram na comunhão do corpo e do sangue de Cristo, quando são lembrados oportunamente na celebração da Eucaristia, e se declara que o sacrificio é oferecido também por eles. Quando, em sua memória praticam-se as obras de misericórdia, quem duvidará que as orações dirigidas a Deus aproveitam aos defuntos; mas somente àqueles que viveram de tal forma que lhes possam ser úteis após a morte. Os corações piedosos podem, portanto, entristecer-se com uma dor salutar pela morte de seus entes queridos e, por sua condição mortal podem derramar lágrimas que serão consoladas e diminuídas pela fé, pela qual cremos que os fiéis, quando morrem, caminham à nossa frente e passam para uma vida melhor. Sejam também consolados pelas atenções fraternas que lhes são apresentadas, seja nos funerais, de acordo com as possibilidades do enterro e da construção do sepulcro, já que na Escritura tudo isto conta entre as boas obras. Foram grandemente elogiados os que as praticavam não somente em benefício dos corpos dos Patriarcas e dos outros santos e dos restos mortais de todos aqueles que tombaram, mas também, ó Cristo, em favor de teu próprio corpo. Que se cumpram essas obrigações dos últimos deveres para com os nossos, sentimentos para a humana dor. Aos que amamos não só carnal, mas também espiritualmente, aos que estão mortos segundo a carne, não quanto ao espírito, ofereçamos, de modo muito mais solícito, mais insistente, mais abundante, aqueles bens que, de fato, têm préstimo para os espíritos dos finados: as oblações, as preces e os donativos. (Sermo 172,1-3) — transcrito da Liturgia Agostiniana das Horas, p. 234).

 
 
 

INTERVÊM OS MORTOS EM NOSSA VIDA? Incapacidade de comunicação em que estão os mortos “Por que não havemos de atribuir aos anjos essas operações por disposição da Providência divina que se serve de modo sábio dos bons como dos maus, conforme a inescrutável profundidade de seus julgamentos? Essas visões podem servir para instruir os vivos ou para enganá-los, para consola-los ou assustá-los, sendo cada um tratado, seja com misericórdia, seja com rigor, por aquele do qual a Igreja não celebra em vão “a misericórdia e a justiça” (Sl 100,1).” Apelo ao comportamento de sua mãe, após a morte “Tomem como quiserem o que vou dizer. Se deveras as almas dos mortos interviessem nos problemas dos vivos, aparecessem e nos falassem durante nosso sono, minha piedosa mãe – para não falar sobre outras pessoas — não me abandonaria uma única noite, ela que me seguiu por terra e por mar, a fim de partilhar comigo minha vida. Longe de mim crer, com efeito, que uma vida mais feliz a tornou indiferente, a ponto de não vir consolar em suas tristezas um filho que, em sua vida, foi seu grande amor.” Os mortos nada sabem sobre os vivos Por certo são verdadeiras as palavras do salmo: “Meu pai e minha mãe abandonaram-me, mas o Senhor me recolheu” (SI 26,10). Ora, se nossos pais nos abandonaram, podem eles se interessar por nossos problemas? E se eles ficam indiferentes, quais os mortos que poderão se inquietar com o que fazemos ou sofremos? * Declara o profeta Isaías: “Porque tu é que és o nosso pai. Abraão não nos conheceu, e Israel não soube de nós” (Is 63,16). Se os grandes patriarcas desconheceram o destino do povo do qual eram a fonte e cuja raça saiu como fruto de sua fé em Deus, como poderiam os mortos intervir, para conhecer e proteger, nos negócios e empreendimen tos dos vivos? E como declarar bem-aventurados os santos cuja morte precedeu nossas infelicidades, se eles continuarem sensíveis às desolações da vida humana? Não nos enganaríamos, por acaso, dizendo que eles estão em lugar de absoluta tranquilidade, caso se inquietas sem com a existência atormentada dos vivos? O que significa, então, esta promessa feita por Deus, como grande benefício ao piedosíssimo rei Josias, que ele morreria antes de os males iminentes caírem sobre seu país e seu povo, a fim de não ter a tristeza de os ver? Eis as palavras de Deus: “Ao rei de Judá que vos enviou a consultar o Senhor, direis assim: Eis o que diz o Senhor Deus de Israel: Porque ouviste as palavras do livro, e o teu coração se atemorizou e te humilhaste diante do Senhor, de pois de ouvidas as palavras contra este lugar e con tra os seus habitantes, isto é, que virão a ser o objeto de espanto e execração, e porque rasgaste as vestes e choraste diante de mim, eu te ouvi, diz o Senhor, por isso eu te farei descansar com teus pais e serás sepultado em paz no teu sepulcro, para que os teus olhos não vejam todos os males que eu hei de fazer cair sobre este lugar” (2Rs 22,18-20). Aterrorizado pelas ameaças divinas, Josias chorou e rasgou as vestes. Mas o pensamento que sua morte devia preceder todas as desgraças a virem, e a certeza da paz à qual havia sido chamado a gozar no repouso e que portanto não veria aqueles males, devolveram a serenidade de sua alma. As almas dos mortos estão, pois, em lugar de onde nada veem do que se passa ou do que acontece aos homens aqui na terra. Como, portanto, poderiam partilhar das misérias dos vivos, já que ou bem estão a suportar as suas próprias penas, caso as tenham merecido, ou bem estão a repousar como foi prometido a Josias, em lugar de paz? Aí não sofrem nem por si nem pelos outros, libertados que estão de todas as penas que sua dor pessoal e sua compaixão por outrem lhes ocasionavam quando ainda estavam vivos aqui na terra. *O pedido do rico epulão e o pobre Lázaro Dir-me-ão como objeção: se os mortos não se interessam pelos vivos, como se explica que aquele rico nos tormentos do inferno suplicasse a Abraão que enviasse Lázaro a seus cinco irmãos ainda vivos, para convencê-los a mudar de vida e evitar de virem, por sua vez, àquele lugar de tormentos? (Lc 16,27). Acaso se há de deduzir dessas palavras que ele sabia o que seus irmãos faziam ou sofriam nesse tempo? Preocupava-se ele com os vivos sem nada conhecer de seus atos, tal como nós temos cuidado dos mortos, ignorando o que eles fazem? Na verdade, se não nos interessássemos por eles não oraríamos na intenção deles. Aliás Abraão não enviou Lázaro à terra. Respondeu ao condenado que seus irmãos tinham Moisés e os profetas; que os ouvissem se queriam evitar aqueles suplícios.” Aqui, mais uma vez, poderão objetar. Como podia Abraão ignorar o que se passava aqui na terra, visto que sabia terem os vivos Moisés e os profetas, isto é, seus livros, e que seguindo-os escapariam aos tormentos do inferno? Não sabia ele igualmente que o rico tinha vivido em delícias e que Lázaro, o pobre, vivera na penúria e no sofrimento? Com efeito, disse: “Filho, lembra-te de que recebeste teus bens em vida, e Lázaro por sua vez os males” (Lc 16,25). Abraão estava pois a par dos fatos concernentes aos vivos, não aos mortos. É certo, mas esses fatos ele podia não os ter conhecido no momento em que ocorreram, mas após o falecimento dos dois, e sob as indicações do próprio Lázaro. Desse modo, a palavra do profeta não está desmentida: “Abraão não nos conheceu” (Is 63,16). Condições do relacionamento entre mortos e vivos Convenhamos, pois, que os mortos ignoram os acontecimentos daqui da terra, pelo menos no momento mesmo em que eles se realizam. Podem vir a conhecê-los mais tarde, por aqueles que vão ao seu encontro, uma vez mortos. Por certo, não ficam conhecendo tudo, mas somente aquilo que lhes for autorizado de ser revelado e que eles têm necessidade de conhecer. Os anjos, que velam sobre as coisas deste mundo, podem também lhes revelar alguns pontos julgados convenientes a cada um por aquele que tudo governa. Pois se os anjos não tivessem o poder de estarem presentes na morada dos vivos como na dos mortos, o Senhor Jesus não teria dito: “Aconteceu que o pobre morreu e foi leva do pelos anjos ao seio de Abraão” (Lc 16.22). Eles estão ora na terra ora no céu, visto que foi da terra que levaram aquele homem Deus quis lhes confiar. As almas dos mortos podem ainda conhecer, por revelação do Espírito Santo, alguns acontecimentos aqui da terra, cujo conhecimento lhes é necessário. Não somente fatos passados ou presentes, mas até futuros. É assim que os homens — não todos, mas unicamente os profetas – conheceram durante sua vida mortal, não a totalidade das coisas, mas aquelas que a Providência divina julgava bom lhes revelar. A Sagrada Escritura atestanos que alguns mortos foram enviados a certas pessoas vivas; e reciprocamente, algumas pessoas foram até a morada dos mortos. Assim, Paulo foi arrebatado ao Paraíso (2Cor 12,2). E o profeta Samuel, após sua morte, apareceu a Saul ainda vivo e lhe predisse o futuro (1Sm 28,15-19).13 É verdade que alguns negam que tenha sido Samuel que apareceu, pois sua alma era refratária a tais procedimentos mágicos, como dizem. Foi, conforme julgam, outro espírito, suscetível a essa arte maléfica que se revestiu de imagem semelhante a ele. Ora, o livro do Eclesiástico, atribuído a Jesus Ben Sirac (que por causa de certas semelhanças de estilo bem podia ser mesmo de Salomão), relata-nos em elogio dos Patriarcas que “Samuel profetizou mesmo de pois de morrer” (Eclo 46.23). O que não pode visar senão essa aparição de Samuel, defunto, a Saul. Poderia ser discutida a autoridade desse livro, sob o pretexto que não se encontra no cânon dos hebreus. (Mas há outro texto que convida a admitir esse envio de mortos aos vivos: a passagem das aparições de Moisés e Elias no Tabor). O que, pois, dizermos de Moisés, cujo Deuteronômio nos certifica da morte (Dt 34,5), e que apareceu vivo, como lemos no Evangelho, com Elias não morreu? (Mt 17,3). Os mortos só intervêm pelo poder de Deus – a aparição de são Félix Tudo o que precede deve servir para resolvermos esta questão: como manifestam os mártires que se interessam pelas coisas humanas, atendendo as nossas orações, já que os mortos ignoram o que fazem os vivos? Pois nós sabemos, com efeito, não por vagos rumores, mas por testemunhas dignas de fé, que o confessor Félix, cujo túmulo tu veneras piedosamente como santo asilo, deu não somente marcas de seus benefícios, mas até de sua presença, tendo aparecido aos olhos dos homens, por ocasião do cerco da cidade de Nola pelos bárbaros. Esses fatos excepcionais acontecem, graças à permissão divina, e estão longe de entrar na ordem normalmente estabelecida para cada espécie de criatura. Pois pelo fato de a água ter-se tornado subitamente em vinho pela palavra do Senhor (Jo 2,9), não devemos concluir – dessa operação divina excepcional e até única – que a água tenha poder de operar por si mesma essa transformação pela propriedade natural de seus elementos. Do fato de ter Lázaro ressuscitado (Jo 11,44) não segue tampouco que todo morto possa se levantar quando quiser, ou que possa ser erguido tal como qualquer homem adormecido é acordado por outro. Uns são os limites do poder humano, outras as marcas do poder divino. Uns são os fatos naturais, outros os miraculosos, ainda que Deus esteja presente na natureza, para a manter na existência, e a natureza tenha seu lugar inclusive nos milagres. Portanto, é preciso não acreditar que todos os defuntos, sem exceção, possam intervir nos problemas dos vivos pelo fato de, em certas circunstâncias, os mártires terem conseguido curas ou prestado outros socorros. É preciso compreender, antes, que é por efeito do poder divino que os mártires intervêm em nossos interesses. Pois os mortos não possuem por sua própria natureza tal poder.

 
 
 

A Igreja deu início à cultura ocidental, foi a partir das ruínas do Império Romano, e chegou aos povos como a portadora de uma civilização superior. O direito civil centrado na autoridade de Roma, a filosofia grega e a Tradição judaica: “O colapso da organização política do Império Romano deixara um grande vácuo que nenhum rei bárbaro ou general poderia preencher. Foi preenchido, contudo, pela Igreja, que assumiu a função de tutora e legisladora dos novos povos. Os padres latinos – Ambrósio, Agostinho, Leão e Gregório – foram, concretamente, os pais fundadores da cultura do Ocidente, na medida em que, por meio do árduo trabalho desses homens, os distintos povos do Ocidente puderam ser incorporados à comunidade espiritual da cristandade, adquirindo, dessa forma, uma cultura comum. Acima de tudo, foi esse empenho evangelizador que distinguiu o desenvolvimento do Ocidente do de outras civilizações da história.

Os Padres ensinaram os nórdicos a ler e escrever, e foram eles os responsáveis por guardar todas as tradições desses povos: “Os povos do norte não possuíam conhecimento da escrita, desconheciam a vida urbana e não dominavam a arte da cantaria. Resumindo, eram “bárbaros”. Foi somente por meio do cristianismo e dos elementos que vieram de uma cultura superior, transmitidos pela ação da Igreja, que a Europa ocidental adquiriu sua unidade e forma.”

Seguindo com uma observação do Padre Rivaux:

“A história da Igreja, não pôde deixar de dizer Aimé Martin, é uma história à parte, uma história moral lançada através da história material dos povos e destinada a espiritualizá-la. No meio de todas as coisas que passam, de todas as crenças que morrem, de todos os deuses que desaparecem, admiramo-nos de encontrar uma sociedade que nunca morre, uma religião que se engrandece. É que a Igreja não nasceu da ignorância dos povos ou da ambição dos homens, como as outras religiões, mas das luzes do céu e das necessidades da humanidade.” Dos fatos e testemunhos precedentes, resulta claramente que a soberania temporal da Santa Sé se funda nos títulos mais justos e mais honrosos, isto é, no voto legítimo dos povos abandonados por seus antigos senhores, na justa conquista dos franceses e nos serviços inapreciáveis que os sumos pontífices prestaram à Itália durante mais de dois séculos e nas circunstâncias mais difíceis. Por isso esta transformação se operou sem intrigas sem violências, sem lutas sangrentas, sem ter custado uma lágrima à humanidade. Não se acha talvez na história soberania alguma cuja origem seja tão legítima e tão respeitável!

Trecho retirado da obra tratado de História eclesiástica, padre Rivaux

A obra do Históriador Christopher Dawson recebeu uma análise do prior da ordem Beneditina, Rembert G. Weakland,Arcebispo de Milwauke: “Pesquisas recentes indicam que a religião ainda é uma força vital na cultura ocidental, embora de uma forma totalmente diferente do que ocorria nos períodos que Dawson analisa. Hoje em dia há uma enorme fragmentação no campo da cultura e a religião que se tornou um campo de batalha, dividido em compreensões diversas sobre a pessoa humana, Deus, o mundo e como eles se relacionam. Contudo, mesmo por baixo dessas diferenças, pode-se encontrar uma realidade humana comum, que revela uma sede espiritual que não pode ser eliminada da sociedade. Essas forças estão ressurgindo em países onde, por muitas gerações, poderosas forças contrárias tentaram suprimi-las. São indicações de que uma cultura totalmente secularizada não consegue se impor sobre nós; pelo contrário, uma nova forma de cultura religiosa parece estar se desenvolvendo.” (Rembert G. Weakland, O.S.B. (Prior da Ordem Beneditina Arcebispo de Milwaukee,12 de maio de 1991)

Os inimigos de Deus têm percebido que não existirá uma nova cultura sem uma Religião, Dawson e muitos outros nos indicaram que nossa cultura é viva por causa das nossas raízes cristãs: “A cultura do Ocidente é a atmosfera mental e emocional que há muito respiramos. Trata-se do ambiente que determina nosso modo de vida, assim como determinou o modo de vida de nossos antepassados. Portanto, não a conhecemos por meros meios documentais e arqueológicos, mas por causa de nossas próprias experiências.”

Por isso os inimigos de Deus tem percebido que é necessário desacreditar a Igreja:”Enquanto isso, fora do mundo acadêmico, novas forças sociais estão em operação, usando a história, ou uma versão particular da história, para alcançar fins político-sociais como meio para alterar a vida e as ações humanas. O surgimento dessas novas ideologias políticas e teorias ideológicas da história mostrou que o desenvolvi mento das especialidades científicas não abrandou, de forma alguma, a necessidade humana por uma fé histórica.”

Neste comentário fica bem definida tarefa e poder da civilização cristã ocidental: “No sentido moderno da expressão, uma ideologia é algo muito diferente da fé, embora se destine a cumprir as mesmas funções sociológicas. A primeira constitui-se como produto inteiramente humano, um instrumento por meio do qual a vontade política tenta moldar a tradição social para que dela possa se servir. Todavia, a fé aponta para além do mundo dos homens e de suas obras. Ela introduz a humanidade num campo de realidade muito mais alto e universal, em comparação ao mundo finito e temporal ao qual o Estado e a ordem econômica pertencem. Logo, a fé introduz na vida humana um elemento de liberdade espiritual que pode exercer uma imensa influência transformadora e criativa sobre a cultura social dos homens, durante sua trajetória histórica; assim como exerce influências igualmente transformadoras sobre a vida pessoal de cada um.”

Continua Dawson: “No Ocidente, o poder espiritual não foi imobilizado e cristalizado em uma ordem social sagrada, como ocorreu no Estado confuciano, na China, e no sistema de castas da Índia. Aqui, ele adquiriu liberdade e autonomia social e, consequentemente, sua atividade não ficou confinada à esfera religiosa e seus efeitos se disseminaram sobre todos os aspectos da vida social e intelectual.

“Esses efeitos secundários não ostentam necessariamente um valor religioso ou moral do ponto de vista cristão – mas eles não deixam de ser secundários e dependem dessa força espiritual que os criou, sem a qual eles seriam completamente diferentes ou nem sequer existiriam. “Isso é verdade para a cultura humanista apesar de todo o seu secularismo e naturalismo, tão característicos dela. Porém, quanto mais se estuda as origens do humanismo, mais se é obrigado a reconhecer a existência de um elemento que não é apenas espiritual, mas definitivamente cristão.

“As outras grandes culturas do mundo realizaram suas próprias sínteses entre religião e vida social, mantendo suas ordens sagradas imutáveis por séculos ou milênios. Mas a civilização ocidental foi esse grande fermento de mudança no mundo, justamente porque mudar o mundo tornou-se parte integral de seu ideal cultural. Séculos antes das grandes realizações da ciência e da tecnologia modernas, o homem ocidental já concebera a ideia de instauratio magna das ciências, que abriria novas formas de compreensão e alteraria os destinos da raça humana. Tampouco isso foi resultado da visão única de um gênio solitário. Hoje, sabemos que Francis Bacon, em seu pensamento, estava muito mais próximo da Idade Média que Macaulay e sua geração nos fizeram acreditar. De fato, em alguns aspectos, o pensamento de Francis Bacon se aproxima mais do universo mental de seu “xará”, Roger Bacon, do que do universo de Galileu. Foi Roger Bacon, afinal de contas, quem primeiro concebeu a ideia de uma síntese total entre o conhecimento científico e filosófico, um projeto destinado a alargar os laços da vida humana e dar à civilização cristã o poder de unir o mundo.”

“Uma vez apenas, na história da Europa ocidental, realmente observamos uma tentativa de criar uma unidade totalizadora da ordem sagrada, comparável ao modelo da cultura bizantina ou aos modelos orientais. Trata-se do Império Carolíngio, concebido como a sociedade de todos os povos cristãos sob o controle de uma monarquia teocrática que tentou regular cada detalhe da vida e do pensamento, abarcando inclusive os métodos dos cantos eclesiásticos e das regras monásticas por meio de decretos legislativos e inspeções governamentais. Mas esse foi um episódio breve e fracassado, que se destacou como grande contraste em relação ao curso principal do desenvolvimento do Ocidente. Mesmo assim, suas realizações culturais dependeram largamente das contribuições de elementos independentes que vieram de fora do império, como Alcuíno, da Inglaterra, João Escoto, da Irlanda, e Teodolfo da Espanha.”

Aqui nessa citação pode-se verificar que à ideia de uma Igreja que forçava um governo teocrático é totalmente desmentida: “Fora esse único caso excepcional, nunca houve nenhuma organização unitária da cultura do Ocidente, exceto, obviamente, a própria Igreja cristã, que forneceu um princípio eficiente de unidade social. E, mesmo durante a Idade Média, essa unidade religiosa imposta pela Igreja nunca se estruturou como uma verdadeira teocracia, semelhante aos modelos orientais, uma vez que envolvia um dualismo entre os poderes espiritual e temporal, o que acabou produzindo uma vital tensão interna nas sociedades do Ocidente, tornando-se o campo fértil para os movimentos de autocrítica e de mudança. Não obstante, por toda a história da Europa ocidental, até o século XIX, a ausência de uma organização unitária e de uma única fonte capaz de controlar toda cultura nunca pôs em risco a continuidade espiritual da tradição do Ocidente.”

“O surgimento da nova cultura europeia ocidental ficou condicionado a esse profundo dualismo entre duas culturas, duas tradições sociais e dois mundos espirituais – a sociedade guerreira dos reinos bárbaros com seus cultos heroicos e sua agressividade bélica em contraste com a sociedade pacífica da Igreja cristã, com seus ideais de ascetismo e renúncia e sua vida teológica. Tampouco sua importância está confinada (à Idade das Trevas), [termo criado na renascença como forma de desmerecer mil anos de história] – de 500 a 1000 d.C. Em certo grau, esse traço permaneceu característico da cultura medieval como um todo e seus efeitos ainda são discerníveis sobre a história da Europa ocidental. De fato, acredito que ele tem de ser considerado como a principal fonte motora desse elemento dinâmico cuja importância foi tão decisiva para a cultura do Ocidente.”

Esse processo criativo de assimilação cultural que encontra expressão consciente na tradição literária também esteve em operação na profundidade da consciência individual e na formação e consolidação das novas instituições. Podemos vê-lo na vida dos santos, nas leis dos reis, nas cartas dos missionários e dos eruditos e nas canções dos poetas. Sem dúvida, toda evidência que possuímos derrama apenas uma pálida e incerta luz sobre essas realidades vitais do processo social medieval. No entanto, nosso conhecimento sobre as origens da cultura do Ocidente é muito mais autêntico e detalhado que qualquer outro conhecimento que possuímos sobre as origens das outras grandes culturas da Antiguidade clássica e do Oriente.

“Os historiadores e filósofos cujas mentes foram formadas pelo iluminismo liberal do século XVIII tinham pouco interesse e não sentiam nenhuma afeição pelo período medieval – para eles, uma época na qual a escuridão das culturas bárbaras teriam se tornado ainda mais negras devido às superstições religiosas e ao ascetismo monástico.”

“Por outro lado, durante o século XIX, uma época em que as tendências nacionalistas encontraram no campo da história, mais que em qualquer outro lugar, um terreno fértil para seus propósitos, vemos um movimento contrario em direção a uma idealização um tanto ingênua e perigosa das culturas dos povos bárbaros teutônicos e eslavônicos, em detrimento da unidade cultural do Ocidente, que foi ignorada ou depreciada pelos movimentos nacionalistas”.

Somos filhos da Igreja, existe uma diferença entre uma sociedade que se desenvolveu sob a influência decisiva do Cristianismo, comparada àquelas com predominância do Islã, e outras religiões, onde à vida humana e os valores morais não tem um valor em si. Nunca seremos herdeiros de revolução, seja ela Protestante ou iluminista; o humanismo não tem identidade com o Cristianismo! O único humanismo que observamos é amar o próximo como a nós mesmos. Este é o motivo de toda a cultura, todo o Ocidente terem se constituídos com a raíz cristã: Nada pôde e nem poderá superar o Cristianismo. Por isso somos odiados.

 
 
 
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