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A CONVERSÃO DOS VIKINGS

Você gostou do filme Thor? Deveria agradecer a Igreja Católica por saber que existiu uma mitologia nórdica, quer saber o motivo? Leia com atenção está narrativa da História cultural.É muito recorrente na historiografia contemporânea observarmos acusações de que a cultura europeia com seu cristianismo ocidental não respeitou outras culturas, e tentou acabar com a cultura que encontrou nas Américas, África e extremo oriente, isso não tem como se sustentar quando observamos a construção da Europa como um continente pluralista, na questão religiosa e cultural, sua religião foi convertida ao Cristianismo, mas sua cultura foi mantida pelo próprio Cristianismo, através dos padres que escreviam os detalhes da sua cultura e mitologia, vejamos.

Snorri Sturluson foi um historiador e político que compôs as Eddas e outras obras mitológicas e históricas, elas são as principais fontes sobre a mitologia nórdica. Sturluson foi criado em Oddi, principal centro cultural e de aprendizagem da Islândia onde foi estabelecida uma igreja desde a introdução do cristianismo no país, e posteriormente uma escola pelo padre Saemundr Frooi. Lá ele teve toda sua educação em latim e teve contato com obras e tradições mitologicas, dentre elas as sagas dos reis nórdicos escrita pelo padre Saedmundr.

Posteriormente mudou-se para Reykholt, também outro foco de cristianização da Islândia, onde compilou outras obras na escola da histórica Igreja. Podemos extrair duas coisas  disso tudo: que a Igreja Católica  nunca matou  cultura alguma, mas sim enriqueceu-las.  A outra é que sem o catolicismo, a que tanto atacam a Igreja e fazem apologia a  crenças pagãs sequer conhecerían-nas.

Aqui podemos verificar algumas citações acadêmicas:  “Seu relato é colorido por sua educação cristã, que o teria ensinado a esperar que uma religião fosse sistema de crenças coerentes “ (Faulkes, A. (2005). Edda – Prologue and Gylfaginning. London:

Viking society for northern research, University College London.) “Essa tentativa de criar um relato único e unificado de algo que é múltiplo por excelência, é provavelmente o resultado de uma visão cristã unificadora das coisas. O cristianismo não funciona com várias versões: a doutrina trabalha com revelações, com versões únicas e verdadeiras de coisas que estão contidas na Bíblia. Tendo em mente que Snorri tinha uma Educação cristã, tanto na religião quanto no modo de pensar, o cristianismo também teve um impacto na Prosa Edda, na medida em que agiu através da visão do autor sobre o material no qual ele escreve: ele estava tentando fazer uma conjunção difusa de histórias que se encaixam, transformando o múltiplo em um, fazendo sentido coerente de uma multidão de contos conflitantes. Ou seja, mais uma vez, aplicar uma visão cristã  unificadora e centralizadora de um material disperso oral antigo” “De fato, uma ironia da mitologia escandinava é que sem o cristianismo, isso não teria sido registrado, pois a Igreja trouxe a cultura e tecnologia da escrita” (Lindow, J. (2005). Mythology and Mythography. In: Old Norse-Icelandic literature – a critical guide. Toronto: University of Toronto Press)

“A igreja era realmente responsável por trazer a cultura literária e o alfabeto latino para Escandinávia. Sabe-se que os escandinavos usavam um alfabeto rúnico em tempos pré-cristãos, mas estes não foram utilizados para fins literários, apenas para inscrições menores em utensílios, armas, pedras memoriais e talvez rituais mágicos. Somente após a vinda do cristianismo começou a vasta produção literária na região. Este processo concretizou-se graças às mudanças trazidas pela Igreja tanto culturalmente, com a difusão do hábito de ler e escrever entre uma minoria educada, bem como tecnicamente, com as habilidades necessárias para produzir pergaminhos com pele de animal, tinta e pena, e o mais importante, a já mencionada introdução do alfabeto latino”

(Clunies Ross, M. (2010). The Cambridge Introduction to the Old Norse-Icelandic Saga. Cambridge: Cambridge University Press.) “”é importante enfatizar que a tradição oral não deixou de existir ao mesmo tempo dando lugar a escrita. Pelo contrário, ambas as formas coexistiram. Assim, podemos imaginar a influência da vinda do cristianismo nas tradições [orais e escritas]. ”

(Palamin, F. (2011). Edda em Prosa, Snorri Sturluson e suas influências cristãs. Anais do III Encontro nacional do GT História das Religiões e das Religiosidades – Questões teórico-metodológicas no estudo das religiões e religiosidades. Revista Brasileira de História das Religiões, 3, 9.)

“As elsewhere in Europe, once Iceland had been brought within the family of the Catholic Church it acquired with it the Church’s technology of reading and writing and its international literature of learning, philosophy, and long, well-structured stories of saints and distant lands and peoples. But, for whatever reason, in Iceland things were different: having gained the new technology and the learning that went with it, the Icelanders were not content merely to translate and reproduce the literature the Church supplied them with, but set about exploiting their newly acquired skills to write down their own stories and poems as well as to create new ones.” (Sigurðsson, G. (2004). The Medieval Icelandic Saga and Oral Tradition: A Discourse on Method)

 
 
 

A IGREJA, A IDADE MÉDIA E O ENSINO

Vivemos no século XXI, mas observando o nível de informações acerca da Idade Média, têm-se a impressão que estamos em pleno iluminismo, a revolução francesa parece que está no senso comum, certamente nem o mais otimista dos forjadores de de mitos e lendas do iluminismo acreditaria que suas mentiras estão sendo usadas no século XXI.

Vamos analisar neste artigo a questão da educação na Idade média, pode-se perceber que foi um momento de grande apoio aos mais pobres na educação, para este artigo vamos observar a obra de Régine Pernoud, está historiadora nos traz a seguinte narrativa sobre a criança. “A criança, na idade Média como em todas as épocas, vai a escola. E, em geral, a escola da sua paróquia ou do mosteiro mais próximo. Com efeito, todas as igrejas agregam a si uma escola, o concilio de Latrão, em 1179, faz-lhes disso uma obrigação estrita, e é uma disposição corrente, ainda visível em Inglaterra, país mais conservador do que o França, encontrar reunidos a igreja, o cemitério e a escola. Frequentemente também, são as fundações senhoriais que asseguram a instrução das crianças: uma aldeiazinha das margens do Sena, Rosny, tinha, desde o inicio do século XIII, uma escola fundada por volta do ano 1200 pelo seu senhor, Guy V Mauvoisin.”(p.95)

Aqui observasse a relação cultural nas aldeias e problemas de relações entre professor e alunos, sempre um professor deve ser impor, e zelar pela disciplina em sala de aula>

“Por vezes, também, trata-se de escolas puramente privadas: os habitantes de um lugarejo associam-se para sustentar um professor encarregado de ensinar as crianças; um pequeno texto divertido conservou-nos a petição de alguns pais solicitando a demissão de um professor, que não tendo sabido fazer-se respeitar pelos seus alunos é por eles desrespeitado, ao ponto de eum peugeot grafionibus – de eles o picarem com os seus grafiones, os estiletes com os quais eles escrevem nas suas tabuinhas revestidas de cera.” (P.95).

Observasse que as escolas monásticas tiveram talvez ainda mais renome, em Paris, encontram-se desde o século XII três séries de estabelecimentos escolares: “a escola Notre-Dame, ou grupo de escolas do bispado, cuja direção é assumida pelo chantre para as classes elementares e pelo chanceler para o grau superior, as escolas das abadias como Sainte-Geneviève, Saint-Victor ou Saint-Germain-des-Prés enfim, as instituições particulares abertas pelos professores que obtiveram a licença de ensino, como Abelardo, por exemplo.”

A autora nos informa que a criança era ai admitida com sete ou oito anos de idade e o ensino que preparava para os estudos da Universidade estendia-se como hoje por uma dezena de anos: são os números que o abade Gilles le Muisit dá. Os rapazes eram separados das moças, que tinham, em geral, os seus estabelecimentos particulares, menos numerosos talvez, mas onde os estudos eram muito ativos. “A abadia de Argenteuil, onde foi educada Heloisa, ensinava as moças a Santa Escritura, as letras, a medicina e mesmo a cirurgia sem contar o grego e o hebraico que Abelardo lá ensinou. Em geral as pequenas escolas proporcionam aos seus alunos as noções e gramática, de aritmética, de geometria, de música e de teologia que Ihes permitiriam aceder às ciências estudadas nas Universidades; é possível que algumas tenham comportado uma espécie de ensino técnico”. A Histoire Littéraire cita, por exemplo, a escola de Vassor na diocese de Metz, na qual, “aprendendo a Santa Escritura e as letras, se trabalhava o ouro, a prata, o cobre¹.

Nas fontes primárias observasse as recordações de Gilles le Muisit, ele lembrando as suas recordações de juventude; é que, de facto, nessa época as crianças de todas as<>a da sociedade eram instruídas juntas, vê-se uma anedota célebre que mostra “Carlos Magno sendo severo para com os filhos dos barões que mostra que se mostravam preguiçosos, ao contrário dos filhos dos servos pobres. A única distinção estabelecida consistia nas retribuições pedidas, sendo o ensino gratuito para os pobres e pago para os ricos. Esta gratuidade podia prolongar-se, vê-lo-emos, por toda a duração dos estudos, e mesmo para o acesso ao ensino, uma vez que o concilio de Latrão, já citado, proíbe às pessoas que têm a missão de dirigir e tomar conta das escolas «de exigir dos candidatos ao professorado uma qualquer remuneração pela outorga da licença».”

Há aliás, pouca diferença, na Idade Média, na educação dada às crianças de diversas condições; “os filhos dos vassalos menores são às crianças de diversas condições na residência senhorial juntamente com os do suserano, ricos burgueses são submetidos à mesma aprendizagem que o último dos artesãos, se querem tomar conta, por sua vez, da loja paterna. É sem dúvida por isso que temos tantos exemplos de grandes personagens saídos de famílias de condição humilde: “Suger, que governa a França durante a cruzada de Luís VII, é filho de servos; Maurice de Sully, o bispo de Paris que mandou construir Notre-Dame, nasceu de um mendigo; São Pedro Damião, na sua infância, guarda porcos, e uma das mais vivas luzes da ciência medieval, Gerbert d’Aurillac, é igualmente pastor; o papa Urbano VI é filho de um pequeno sapateiro de Troyes e Gregório VII, o grande papa da Idade Média, de um pobre pastor de cabras. Inversamente, muitos dos grandes senhores são letrados cuja educação não devia diferir muito da dos clérigos: Roberto, o Piedoso, compõe hinos e sequências latinas; Gui Thermix, príncipe da Aquitania, é o primeiro, cronologicamente, dos trovadores; Ricardo Coração-de-Leão deixou-nos poemas, assim como os senhores de Ussel, dos Baux e tantos outros – para não falar de casos mais excepcionais, como o do rei de Espanha Afonso X, Astrônomo, que escreve sucessivamente poemas e obras de direito, faz progredir notavelmente os conhecimentos astronômicos da época com a redação das sua a das suas Tables Alphonsines [Tábuas Afonsinas), deixa uma vasta Chronique [Crónica] sobre as origens da História de Espanha e uma compilação de direito canónico e de direito romano e foi o primeiro Code [Código] do seu país.

Vemos estudantes mais capacitados, irem naturalmente para às Universidade; e cada um escolhe sua especialidade, em Montpellier, é a medicina; desde de 1181que Guilherme VII deu a qualquer particular, quem quer que seja e venha de onde vier, a liberdade de ensinar está arte, desde que apresente as garantias de saberes suficientes. Em Orleans a especialidade é o direito canônico, Bolonha o direito Romano. Mas é Paris o centro dos estudos de toda Europa, são recebidos estudantes “da Alemanha, Itália, Inglaterra, Dinamarca e Noruega.

Estas Universidades são criações da Igreja Católica. A bula Parens scientiarum de Gregório IX pode ser considerada como a carta de fundação da Universidade medieval, com os regulamentos promulgados em 1215, pelo cardeal-núncio Roberto de Courçon, agindo em nome de Inocêncio III, e que reconheciam explicitamente aos professores e aos alunos o direito de associação. Criada pelo papado, a universidade tem um carácter inteiramente eclesiástico: os professores pertencem todos à Igreja, e as duas grandes ordens que ilustram século XIII, Franciscana e Dominicana, e serão frequentadas por um S. Boaventura e um S. Tomás de Aquino; os alunos, mesmo aqueles que não se destinam ao sacerdócio, são chamados clérigos, e alguns deles usam a tonsura –o que não quer dizer que aí apenas se ensine a teologia, uma vez que o seu programa comporta todas as grandes disciplinas científicas e filosóficas, da gramática à dialética, passando pela música e pela geometria.

Nas universidade os professores e estudantes formam um corpo livre. Filipe Augusto tinha, desde o ano 1200, tirado os seus membros da jurisdição civil, estes professores, alunos e mesmo os criados destes dependem apenas dos tribunais eclesiásticos, o que é considerado um privilégio e consagra a autonomia desta corporação de elite. Professores e estudantes estão, portanto, inteiramente isentos de obrigações relativas ao poder central; administram-se a si próprios, tomando em comum as decisões que lhes respeitam e gerem a sua tesouraria sem nenhuma ingerência do Estado. É esta a característica essencial da Universidade medieval e, provavelmente, aquela que mais a distingue da de hoje. “A universidade, mais ainda do que nos nossos dias, é, na Idade Média, um mundo turbulento.”

Vemos na Idade Média a internacionalização do saber, isso se deveu unicamente pelo Cristianismo, continua Pernoud a nos informar que toda Europa era agraciada com o desenvolvimento de todas as artes liberais e conhecimentos científicos.

“É também um mundo cosmopolita; as quatro «nações» entre as quais estavam repartidos os clérigos parisienses indicam-no suficientemente: havia os Picardos, os Ingleses, os Alemães e os Franceses.

Os estudantes vindos de cada um destes países eram, portanto, suficientemente numerosos para formar um grupo que tinha a sua autonomia, os seus representantes, a sua atividade particular; fora disto, assinalam-se correntemente nos registros nomes italianos, dinamarqueses, húngaros e outros. Os professores que ensinam vêm, também eles, de todas as partes do mundo: Siger de Brabant, Jean de Salisbury usam nomes significativos; Alberto Magno vem da Renânia, S. Tomás de Aquino e S. Boaventura, de Itália.”

Não há, então, obstáculo às trocas de pensamento, e só se julga um professor pela amplidão do seu saber. “Este mundo matizado possui uma língua comum, o latim, o único falado na Universidade; é, sem dúvida, o que lhe evita ser uma nova Torre de Babel, apesar dos grupos diversificados de que é composta; o uso do latim facilita as relações, permite aos sábios comunicar de uma ponta à outra da Europa, dissipa, de antemão, qualquer confusão na expressão e salvaguarda também a unidade de pensamento. Os problemas que apaixonam os filósofos são os mesmos, em Paris, em Edimburgo, em Oxford, em Colónia ou em Pavia, ainda que cada centro e cada personalidade lhes imprimam o seu carácter próprio. Tomás de Aquino, vindo de Itália, em Páris acaba de esclarecer e de ultimar uma doutrina cujas bases ele concebera escutando, em Colônia, as lições de Alberto Magno. Nada se parece menos com um vaso fechado, vemo-lo, do que a Sorbonne do século XIII.” PERNOUD, Pernoud. Luz sobre a Idade Média. Europa-América publicações Ltda, Lisboa, 1996.

 
 
 
  1. O Renascimento Caronlígio

  2. Dado o que vimos até aqui, é perceptível que para os humanistas da Itália do século XV era evidente que a sua época tinha visto a arte renascer das cinzas; isto era uma unanimidade entre os humanistas de renome ao sublinharem o sincronismo entre esta ressurreição e a das belas-letras. Marsílio Ficino (DELUMEAU, 2017) em que proclamava: “É, sem dúvida, uma idade de ouro que voltou a trazer à luz as artes liberais antes quase desaparecidas: gramática, eloquência, pintura, arquitetura, escultura, música. E tudo isso em Florença”. Como a consequência dessa auto-valorização exacerbada foi a total rejeição a tempos e movimentos diversos que o próprio humanismo, avaliemos outras construções, partindo do chamado Renascimento Carolíngio, de traços rudimentares e restritos mas com méritos sócio-culturais que não pode-se descartar, a menos que cometendo arbitrariedades históricas. O principal ator deste movimento foi primeiro imperador do Sacro Império Romano (governou entre 768 – 814). Um dos estopins da iniciativa era o indicativo de que o preparo que os padres (importantes protagonistas sociais e com forte influência moral/ educacional na sociedade da época) recebiam não era de boa qualidade. Dirá-nos a este respeito Diane Moczar:

No tempo de Carlos Magno haviam padres deturpando o latim de tal maneira que diziam as fórmulas sacramentais de modo errado. Carlos Magno insistiu para que esses padres fossem corretamente instruídos e para que os monges que copiavam e compunham os textos — incluindo cartas — fizessem o trabalho corretamente. Ele comenta, em uma de suas cartas (ditada, pois ele, ironicamente, nunca aprendera a escrever) que recebia cartas de monges repletas de frases toscas e que isso deveria acabar, “pois se a habilidade em escrever era pouca, a sabedoria para entender a Sagrada Escritura seria menor do que deveria” (MOCZAR, 2010; p.51).

A mudança da concepção social proposta no renascimento carolíngio foi, até certo ponto, revolucionária dada o contraste com as práticas dos bárbaros anteriores e contemporâneos, todavia, foi um processo bastante lento; um construção (ou reconstrução) civilizacional levada a cabo pela Igreja Católica com a plena anuência do império. Fora do “mundo secular” (sociedade não religiosa), a atuação da Igreja lentamente impôs uma nova perspectiva à educação infantil: o monacato (JOHNSON apud DA COSTA, 2002). Os monges criaram verdadeiros “jardins de infância” nos mosteiros, recebendo indistintamente todas as crianças que lhes eram entregues, vestindo-as, alimentando-as e educando-as, num sistema integral de formação educacional (NUNES, 1979; p.113). As comunidades monásticas célticas foram as que mais avançaram nesse novo modelo de educação, pois se opunham radicalmente às práticas pedagógicas vigentes das populações bárbaras, que defendiam o endurecimento do coração já na infância. As crianças eram educadas por todos do mosteiro até a idade de quinze anos no período carolíngio (ROUCHE apud DA COSTA, 2002) – séculos VIII a X – e, apesar do avanço da implantação da família conjugal simples (modelo cristão) com uma média de 2 filhos por casal e um período de aleitamento de dois anos, a prática do infanticídio continuava comum. Além disso, a idade média dos nubentes era muito baixa (entre 14 e 15 anos de idade), a poligamia e a violência sexual eram recorrentes, pelo menos na aristocracia, e ainda estava em vigência a eventual escravidão de crianças. Não é preciso muito esforço para constatar que a vida das crianças em um mosteiro era de muito mais dignidade do que no resto da sociedade. Por parte da alta hierarquia da Igreja, os bispos carolíngios do século IX tentaram regulamentar o casamento cristão, redigindo uma série de tratados (os chamados “espelhos”). Neles, o casamento era valorizado, a mulher reconhecida como pessoa com pleno direito familiar e em pé de igualdade com o marido e a violência sexual denunciada como crime grave e do âmbito da justiça pública. Para o nosso tema, o que interessa é que as crianças também foram objeto de reflexão nesses espelhos: a maternidade foi considerada um valor (caritas) e o casal tinha a obrigação de aceitar e reconhecer os filhos. Pode-se concluir, deste modo, que a ação da ordem clerical foi dupla: de um lado, os bispos lutaram contra a prática do infanticídio, de outro, os monges revalorizaram a criança, que passou por um processo de educação direcionada, de cunho integral e totalmente igualitária. Para exemplificar, as escolas monacais carolíngias davam preferência a crianças filhas de escravos e servos, em vez de filhos de homens livres, a ponto de Carlos Magno ser obrigado a pedir que os monges recebessem também para educar crianças filhas de homens livres, além de uma distinção entre o ensino gratuito para os pobres e pago para os ricos (PERNOUD, 1996;P.97). Dentre outras empreitadas notáveis, pode-se citar também que é deste movimento o mérito de conservar e de copiar numerosos manuscritos de autores antigos, os quais constituíram uma preciosa reserva para a posteridade. Ainda antes do renascimento carolíngio, em um comentário de São Cesário de Arles (c. 470-542) sobre o mosteiro onde passou a infância, é possível dar-se conta da educação que as crianças recebiam; ele dirá: “Essa ilha santa acolheu minha pequenez nos braços de seu afeto. Como uma mãe /ilustre e sem igual e como uma ama-de-leite que dispensa a todos os bens, ela se esforçou para me educar e me alimentar” (CESÁRIO apud DA COSTA, 2002; p. 894). Os séculos XI e XII assistiram, por seu lado, a uma recuperação dos estudos clássicos; em relação a esta época também se falou, é claro que com excesso de «Renascimento». Delumeau nos dirá que:

Em França, nas escolas que floresciam nas proximidades dos cabidos clericais, comentava-se Virgílio, Ovídio, Juvenal, Horácio, Lucano Salústio, etc. Nos debates morais não se receava citar o De amicitia de Cícero e as epistolas de Séneca. As freiras liam devotamente a Arte de Amar de Ovídio; e eram feitos comentários e interpretações de As Metamorfoses. (DELUMEAU, 2017).

Ainda Delumeau (2017) dirá:

Será necessário para demonstrar a sobrevivência, durante os longos séculos da Idade Média, de uma Antiguidade, ainda que normalmente deformada, evocar o grande sucesso de Romance de Tebas, de Tróia ou de Eneias? Um facto menos conhecido, mas talvez mais significativo: Petrarca possuía na sua biblioteca o Liber ymaginum deorum de Albricus, espécie de dicionário mitológico composto no início do século XIII. Petrarca utilizou-o diretamente para escrever o terceiro canto da sua epopéia latina, África, que enaltece a figura de Cipião. Por conseguinte, o Humanismo, quando nasceu, não receava usar as coletâneas medievais que se referiam à Antiguidade. (DELUMEAU, 2017; p.76)

Por tudo exposto, dada a extensão e o volume de iniciativas culturais que não só o renascimento carolíngio, como a própria Idade Média foram mais que períodos de transição ou “de passagem”, menos ainda pode se dizer destes que tenham sido períodos intelectual, social e culturalmente estéreis.

 
 
 
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