top of page

TODOS OS PRODUTOS

Eventos futuros

INTERVÊM OS MORTOS EM NOSSA VIDA? Incapacidade de comunicação em que estão os mortos “Por que não havemos de atribuir aos anjos essas operações por disposição da Providência divina que se serve de modo sábio dos bons como dos maus, conforme a inescrutável profundidade de seus julgamentos? Essas visões podem servir para instruir os vivos ou para enganá-los, para consola-los ou assustá-los, sendo cada um tratado, seja com misericórdia, seja com rigor, por aquele do qual a Igreja não celebra em vão “a misericórdia e a justiça” (Sl 100,1).” Apelo ao comportamento de sua mãe, após a morte “Tomem como quiserem o que vou dizer. Se deveras as almas dos mortos interviessem nos problemas dos vivos, aparecessem e nos falassem durante nosso sono, minha piedosa mãe – para não falar sobre outras pessoas — não me abandonaria uma única noite, ela que me seguiu por terra e por mar, a fim de partilhar comigo minha vida. Longe de mim crer, com efeito, que uma vida mais feliz a tornou indiferente, a ponto de não vir consolar em suas tristezas um filho que, em sua vida, foi seu grande amor.” Os mortos nada sabem sobre os vivos Por certo são verdadeiras as palavras do salmo: “Meu pai e minha mãe abandonaram-me, mas o Senhor me recolheu” (SI 26,10). Ora, se nossos pais nos abandonaram, podem eles se interessar por nossos problemas? E se eles ficam indiferentes, quais os mortos que poderão se inquietar com o que fazemos ou sofremos? * Declara o profeta Isaías: “Porque tu é que és o nosso pai. Abraão não nos conheceu, e Israel não soube de nós” (Is 63,16). Se os grandes patriarcas desconheceram o destino do povo do qual eram a fonte e cuja raça saiu como fruto de sua fé em Deus, como poderiam os mortos intervir, para conhecer e proteger, nos negócios e empreendimen tos dos vivos? E como declarar bem-aventurados os santos cuja morte precedeu nossas infelicidades, se eles continuarem sensíveis às desolações da vida humana? Não nos enganaríamos, por acaso, dizendo que eles estão em lugar de absoluta tranquilidade, caso se inquietas sem com a existência atormentada dos vivos? O que significa, então, esta promessa feita por Deus, como grande benefício ao piedosíssimo rei Josias, que ele morreria antes de os males iminentes caírem sobre seu país e seu povo, a fim de não ter a tristeza de os ver? Eis as palavras de Deus: “Ao rei de Judá que vos enviou a consultar o Senhor, direis assim: Eis o que diz o Senhor Deus de Israel: Porque ouviste as palavras do livro, e o teu coração se atemorizou e te humilhaste diante do Senhor, de pois de ouvidas as palavras contra este lugar e con tra os seus habitantes, isto é, que virão a ser o objeto de espanto e execração, e porque rasgaste as vestes e choraste diante de mim, eu te ouvi, diz o Senhor, por isso eu te farei descansar com teus pais e serás sepultado em paz no teu sepulcro, para que os teus olhos não vejam todos os males que eu hei de fazer cair sobre este lugar” (2Rs 22,18-20). Aterrorizado pelas ameaças divinas, Josias chorou e rasgou as vestes. Mas o pensamento que sua morte devia preceder todas as desgraças a virem, e a certeza da paz à qual havia sido chamado a gozar no repouso e que portanto não veria aqueles males, devolveram a serenidade de sua alma. As almas dos mortos estão, pois, em lugar de onde nada veem do que se passa ou do que acontece aos homens aqui na terra. Como, portanto, poderiam partilhar das misérias dos vivos, já que ou bem estão a suportar as suas próprias penas, caso as tenham merecido, ou bem estão a repousar como foi prometido a Josias, em lugar de paz? Aí não sofrem nem por si nem pelos outros, libertados que estão de todas as penas que sua dor pessoal e sua compaixão por outrem lhes ocasionavam quando ainda estavam vivos aqui na terra. *O pedido do rico epulão e o pobre Lázaro Dir-me-ão como objeção: se os mortos não se interessam pelos vivos, como se explica que aquele rico nos tormentos do inferno suplicasse a Abraão que enviasse Lázaro a seus cinco irmãos ainda vivos, para convencê-los a mudar de vida e evitar de virem, por sua vez, àquele lugar de tormentos? (Lc 16,27). Acaso se há de deduzir dessas palavras que ele sabia o que seus irmãos faziam ou sofriam nesse tempo? Preocupava-se ele com os vivos sem nada conhecer de seus atos, tal como nós temos cuidado dos mortos, ignorando o que eles fazem? Na verdade, se não nos interessássemos por eles não oraríamos na intenção deles. Aliás Abraão não enviou Lázaro à terra. Respondeu ao condenado que seus irmãos tinham Moisés e os profetas; que os ouvissem se queriam evitar aqueles suplícios.” Aqui, mais uma vez, poderão objetar. Como podia Abraão ignorar o que se passava aqui na terra, visto que sabia terem os vivos Moisés e os profetas, isto é, seus livros, e que seguindo-os escapariam aos tormentos do inferno? Não sabia ele igualmente que o rico tinha vivido em delícias e que Lázaro, o pobre, vivera na penúria e no sofrimento? Com efeito, disse: “Filho, lembra-te de que recebeste teus bens em vida, e Lázaro por sua vez os males” (Lc 16,25). Abraão estava pois a par dos fatos concernentes aos vivos, não aos mortos. É certo, mas esses fatos ele podia não os ter conhecido no momento em que ocorreram, mas após o falecimento dos dois, e sob as indicações do próprio Lázaro. Desse modo, a palavra do profeta não está desmentida: “Abraão não nos conheceu” (Is 63,16). Condições do relacionamento entre mortos e vivos Convenhamos, pois, que os mortos ignoram os acontecimentos daqui da terra, pelo menos no momento mesmo em que eles se realizam. Podem vir a conhecê-los mais tarde, por aqueles que vão ao seu encontro, uma vez mortos. Por certo, não ficam conhecendo tudo, mas somente aquilo que lhes for autorizado de ser revelado e que eles têm necessidade de conhecer. Os anjos, que velam sobre as coisas deste mundo, podem também lhes revelar alguns pontos julgados convenientes a cada um por aquele que tudo governa. Pois se os anjos não tivessem o poder de estarem presentes na morada dos vivos como na dos mortos, o Senhor Jesus não teria dito: “Aconteceu que o pobre morreu e foi leva do pelos anjos ao seio de Abraão” (Lc 16.22). Eles estão ora na terra ora no céu, visto que foi da terra que levaram aquele homem Deus quis lhes confiar. As almas dos mortos podem ainda conhecer, por revelação do Espírito Santo, alguns acontecimentos aqui da terra, cujo conhecimento lhes é necessário. Não somente fatos passados ou presentes, mas até futuros. É assim que os homens — não todos, mas unicamente os profetas – conheceram durante sua vida mortal, não a totalidade das coisas, mas aquelas que a Providência divina julgava bom lhes revelar. A Sagrada Escritura atestanos que alguns mortos foram enviados a certas pessoas vivas; e reciprocamente, algumas pessoas foram até a morada dos mortos. Assim, Paulo foi arrebatado ao Paraíso (2Cor 12,2). E o profeta Samuel, após sua morte, apareceu a Saul ainda vivo e lhe predisse o futuro (1Sm 28,15-19).13 É verdade que alguns negam que tenha sido Samuel que apareceu, pois sua alma era refratária a tais procedimentos mágicos, como dizem. Foi, conforme julgam, outro espírito, suscetível a essa arte maléfica que se revestiu de imagem semelhante a ele. Ora, o livro do Eclesiástico, atribuído a Jesus Ben Sirac (que por causa de certas semelhanças de estilo bem podia ser mesmo de Salomão), relata-nos em elogio dos Patriarcas que “Samuel profetizou mesmo de pois de morrer” (Eclo 46.23). O que não pode visar senão essa aparição de Samuel, defunto, a Saul. Poderia ser discutida a autoridade desse livro, sob o pretexto que não se encontra no cânon dos hebreus. (Mas há outro texto que convida a admitir esse envio de mortos aos vivos: a passagem das aparições de Moisés e Elias no Tabor). O que, pois, dizermos de Moisés, cujo Deuteronômio nos certifica da morte (Dt 34,5), e que apareceu vivo, como lemos no Evangelho, com Elias não morreu? (Mt 17,3). Os mortos só intervêm pelo poder de Deus – a aparição de são Félix Tudo o que precede deve servir para resolvermos esta questão: como manifestam os mártires que se interessam pelas coisas humanas, atendendo as nossas orações, já que os mortos ignoram o que fazem os vivos? Pois nós sabemos, com efeito, não por vagos rumores, mas por testemunhas dignas de fé, que o confessor Félix, cujo túmulo tu veneras piedosamente como santo asilo, deu não somente marcas de seus benefícios, mas até de sua presença, tendo aparecido aos olhos dos homens, por ocasião do cerco da cidade de Nola pelos bárbaros. Esses fatos excepcionais acontecem, graças à permissão divina, e estão longe de entrar na ordem normalmente estabelecida para cada espécie de criatura. Pois pelo fato de a água ter-se tornado subitamente em vinho pela palavra do Senhor (Jo 2,9), não devemos concluir – dessa operação divina excepcional e até única – que a água tenha poder de operar por si mesma essa transformação pela propriedade natural de seus elementos. Do fato de ter Lázaro ressuscitado (Jo 11,44) não segue tampouco que todo morto possa se levantar quando quiser, ou que possa ser erguido tal como qualquer homem adormecido é acordado por outro. Uns são os limites do poder humano, outras as marcas do poder divino. Uns são os fatos naturais, outros os miraculosos, ainda que Deus esteja presente na natureza, para a manter na existência, e a natureza tenha seu lugar inclusive nos milagres. Portanto, é preciso não acreditar que todos os defuntos, sem exceção, possam intervir nos problemas dos vivos pelo fato de, em certas circunstâncias, os mártires terem conseguido curas ou prestado outros socorros. É preciso compreender, antes, que é por efeito do poder divino que os mártires intervêm em nossos interesses. Pois os mortos não possuem por sua própria natureza tal poder.

 
 
 

A Igreja deu início à cultura ocidental, foi a partir das ruínas do Império Romano, e chegou aos povos como a portadora de uma civilização superior. O direito civil centrado na autoridade de Roma, a filosofia grega e a Tradição judaica: “O colapso da organização política do Império Romano deixara um grande vácuo que nenhum rei bárbaro ou general poderia preencher. Foi preenchido, contudo, pela Igreja, que assumiu a função de tutora e legisladora dos novos povos. Os padres latinos – Ambrósio, Agostinho, Leão e Gregório – foram, concretamente, os pais fundadores da cultura do Ocidente, na medida em que, por meio do árduo trabalho desses homens, os distintos povos do Ocidente puderam ser incorporados à comunidade espiritual da cristandade, adquirindo, dessa forma, uma cultura comum. Acima de tudo, foi esse empenho evangelizador que distinguiu o desenvolvimento do Ocidente do de outras civilizações da história.

Os Padres ensinaram os nórdicos a ler e escrever, e foram eles os responsáveis por guardar todas as tradições desses povos: “Os povos do norte não possuíam conhecimento da escrita, desconheciam a vida urbana e não dominavam a arte da cantaria. Resumindo, eram “bárbaros”. Foi somente por meio do cristianismo e dos elementos que vieram de uma cultura superior, transmitidos pela ação da Igreja, que a Europa ocidental adquiriu sua unidade e forma.”

Seguindo com uma observação do Padre Rivaux:

“A história da Igreja, não pôde deixar de dizer Aimé Martin, é uma história à parte, uma história moral lançada através da história material dos povos e destinada a espiritualizá-la. No meio de todas as coisas que passam, de todas as crenças que morrem, de todos os deuses que desaparecem, admiramo-nos de encontrar uma sociedade que nunca morre, uma religião que se engrandece. É que a Igreja não nasceu da ignorância dos povos ou da ambição dos homens, como as outras religiões, mas das luzes do céu e das necessidades da humanidade.” Dos fatos e testemunhos precedentes, resulta claramente que a soberania temporal da Santa Sé se funda nos títulos mais justos e mais honrosos, isto é, no voto legítimo dos povos abandonados por seus antigos senhores, na justa conquista dos franceses e nos serviços inapreciáveis que os sumos pontífices prestaram à Itália durante mais de dois séculos e nas circunstâncias mais difíceis. Por isso esta transformação se operou sem intrigas sem violências, sem lutas sangrentas, sem ter custado uma lágrima à humanidade. Não se acha talvez na história soberania alguma cuja origem seja tão legítima e tão respeitável!

Trecho retirado da obra tratado de História eclesiástica, padre Rivaux

A obra do Históriador Christopher Dawson recebeu uma análise do prior da ordem Beneditina, Rembert G. Weakland,Arcebispo de Milwauke: “Pesquisas recentes indicam que a religião ainda é uma força vital na cultura ocidental, embora de uma forma totalmente diferente do que ocorria nos períodos que Dawson analisa. Hoje em dia há uma enorme fragmentação no campo da cultura e a religião que se tornou um campo de batalha, dividido em compreensões diversas sobre a pessoa humana, Deus, o mundo e como eles se relacionam. Contudo, mesmo por baixo dessas diferenças, pode-se encontrar uma realidade humana comum, que revela uma sede espiritual que não pode ser eliminada da sociedade. Essas forças estão ressurgindo em países onde, por muitas gerações, poderosas forças contrárias tentaram suprimi-las. São indicações de que uma cultura totalmente secularizada não consegue se impor sobre nós; pelo contrário, uma nova forma de cultura religiosa parece estar se desenvolvendo.” (Rembert G. Weakland, O.S.B. (Prior da Ordem Beneditina Arcebispo de Milwaukee,12 de maio de 1991)

Os inimigos de Deus têm percebido que não existirá uma nova cultura sem uma Religião, Dawson e muitos outros nos indicaram que nossa cultura é viva por causa das nossas raízes cristãs: “A cultura do Ocidente é a atmosfera mental e emocional que há muito respiramos. Trata-se do ambiente que determina nosso modo de vida, assim como determinou o modo de vida de nossos antepassados. Portanto, não a conhecemos por meros meios documentais e arqueológicos, mas por causa de nossas próprias experiências.”

Por isso os inimigos de Deus tem percebido que é necessário desacreditar a Igreja:”Enquanto isso, fora do mundo acadêmico, novas forças sociais estão em operação, usando a história, ou uma versão particular da história, para alcançar fins político-sociais como meio para alterar a vida e as ações humanas. O surgimento dessas novas ideologias políticas e teorias ideológicas da história mostrou que o desenvolvi mento das especialidades científicas não abrandou, de forma alguma, a necessidade humana por uma fé histórica.”

Neste comentário fica bem definida tarefa e poder da civilização cristã ocidental: “No sentido moderno da expressão, uma ideologia é algo muito diferente da fé, embora se destine a cumprir as mesmas funções sociológicas. A primeira constitui-se como produto inteiramente humano, um instrumento por meio do qual a vontade política tenta moldar a tradição social para que dela possa se servir. Todavia, a fé aponta para além do mundo dos homens e de suas obras. Ela introduz a humanidade num campo de realidade muito mais alto e universal, em comparação ao mundo finito e temporal ao qual o Estado e a ordem econômica pertencem. Logo, a fé introduz na vida humana um elemento de liberdade espiritual que pode exercer uma imensa influência transformadora e criativa sobre a cultura social dos homens, durante sua trajetória histórica; assim como exerce influências igualmente transformadoras sobre a vida pessoal de cada um.”

Continua Dawson: “No Ocidente, o poder espiritual não foi imobilizado e cristalizado em uma ordem social sagrada, como ocorreu no Estado confuciano, na China, e no sistema de castas da Índia. Aqui, ele adquiriu liberdade e autonomia social e, consequentemente, sua atividade não ficou confinada à esfera religiosa e seus efeitos se disseminaram sobre todos os aspectos da vida social e intelectual.

“Esses efeitos secundários não ostentam necessariamente um valor religioso ou moral do ponto de vista cristão – mas eles não deixam de ser secundários e dependem dessa força espiritual que os criou, sem a qual eles seriam completamente diferentes ou nem sequer existiriam. “Isso é verdade para a cultura humanista apesar de todo o seu secularismo e naturalismo, tão característicos dela. Porém, quanto mais se estuda as origens do humanismo, mais se é obrigado a reconhecer a existência de um elemento que não é apenas espiritual, mas definitivamente cristão.

“As outras grandes culturas do mundo realizaram suas próprias sínteses entre religião e vida social, mantendo suas ordens sagradas imutáveis por séculos ou milênios. Mas a civilização ocidental foi esse grande fermento de mudança no mundo, justamente porque mudar o mundo tornou-se parte integral de seu ideal cultural. Séculos antes das grandes realizações da ciência e da tecnologia modernas, o homem ocidental já concebera a ideia de instauratio magna das ciências, que abriria novas formas de compreensão e alteraria os destinos da raça humana. Tampouco isso foi resultado da visão única de um gênio solitário. Hoje, sabemos que Francis Bacon, em seu pensamento, estava muito mais próximo da Idade Média que Macaulay e sua geração nos fizeram acreditar. De fato, em alguns aspectos, o pensamento de Francis Bacon se aproxima mais do universo mental de seu “xará”, Roger Bacon, do que do universo de Galileu. Foi Roger Bacon, afinal de contas, quem primeiro concebeu a ideia de uma síntese total entre o conhecimento científico e filosófico, um projeto destinado a alargar os laços da vida humana e dar à civilização cristã o poder de unir o mundo.”

“Uma vez apenas, na história da Europa ocidental, realmente observamos uma tentativa de criar uma unidade totalizadora da ordem sagrada, comparável ao modelo da cultura bizantina ou aos modelos orientais. Trata-se do Império Carolíngio, concebido como a sociedade de todos os povos cristãos sob o controle de uma monarquia teocrática que tentou regular cada detalhe da vida e do pensamento, abarcando inclusive os métodos dos cantos eclesiásticos e das regras monásticas por meio de decretos legislativos e inspeções governamentais. Mas esse foi um episódio breve e fracassado, que se destacou como grande contraste em relação ao curso principal do desenvolvimento do Ocidente. Mesmo assim, suas realizações culturais dependeram largamente das contribuições de elementos independentes que vieram de fora do império, como Alcuíno, da Inglaterra, João Escoto, da Irlanda, e Teodolfo da Espanha.”

Aqui nessa citação pode-se verificar que à ideia de uma Igreja que forçava um governo teocrático é totalmente desmentida: “Fora esse único caso excepcional, nunca houve nenhuma organização unitária da cultura do Ocidente, exceto, obviamente, a própria Igreja cristã, que forneceu um princípio eficiente de unidade social. E, mesmo durante a Idade Média, essa unidade religiosa imposta pela Igreja nunca se estruturou como uma verdadeira teocracia, semelhante aos modelos orientais, uma vez que envolvia um dualismo entre os poderes espiritual e temporal, o que acabou produzindo uma vital tensão interna nas sociedades do Ocidente, tornando-se o campo fértil para os movimentos de autocrítica e de mudança. Não obstante, por toda a história da Europa ocidental, até o século XIX, a ausência de uma organização unitária e de uma única fonte capaz de controlar toda cultura nunca pôs em risco a continuidade espiritual da tradição do Ocidente.”

“O surgimento da nova cultura europeia ocidental ficou condicionado a esse profundo dualismo entre duas culturas, duas tradições sociais e dois mundos espirituais – a sociedade guerreira dos reinos bárbaros com seus cultos heroicos e sua agressividade bélica em contraste com a sociedade pacífica da Igreja cristã, com seus ideais de ascetismo e renúncia e sua vida teológica. Tampouco sua importância está confinada (à Idade das Trevas), [termo criado na renascença como forma de desmerecer mil anos de história] – de 500 a 1000 d.C. Em certo grau, esse traço permaneceu característico da cultura medieval como um todo e seus efeitos ainda são discerníveis sobre a história da Europa ocidental. De fato, acredito que ele tem de ser considerado como a principal fonte motora desse elemento dinâmico cuja importância foi tão decisiva para a cultura do Ocidente.”

Esse processo criativo de assimilação cultural que encontra expressão consciente na tradição literária também esteve em operação na profundidade da consciência individual e na formação e consolidação das novas instituições. Podemos vê-lo na vida dos santos, nas leis dos reis, nas cartas dos missionários e dos eruditos e nas canções dos poetas. Sem dúvida, toda evidência que possuímos derrama apenas uma pálida e incerta luz sobre essas realidades vitais do processo social medieval. No entanto, nosso conhecimento sobre as origens da cultura do Ocidente é muito mais autêntico e detalhado que qualquer outro conhecimento que possuímos sobre as origens das outras grandes culturas da Antiguidade clássica e do Oriente.

“Os historiadores e filósofos cujas mentes foram formadas pelo iluminismo liberal do século XVIII tinham pouco interesse e não sentiam nenhuma afeição pelo período medieval – para eles, uma época na qual a escuridão das culturas bárbaras teriam se tornado ainda mais negras devido às superstições religiosas e ao ascetismo monástico.”

“Por outro lado, durante o século XIX, uma época em que as tendências nacionalistas encontraram no campo da história, mais que em qualquer outro lugar, um terreno fértil para seus propósitos, vemos um movimento contrario em direção a uma idealização um tanto ingênua e perigosa das culturas dos povos bárbaros teutônicos e eslavônicos, em detrimento da unidade cultural do Ocidente, que foi ignorada ou depreciada pelos movimentos nacionalistas”.

Somos filhos da Igreja, existe uma diferença entre uma sociedade que se desenvolveu sob a influência decisiva do Cristianismo, comparada àquelas com predominância do Islã, e outras religiões, onde à vida humana e os valores morais não tem um valor em si. Nunca seremos herdeiros de revolução, seja ela Protestante ou iluminista; o humanismo não tem identidade com o Cristianismo! O único humanismo que observamos é amar o próximo como a nós mesmos. Este é o motivo de toda a cultura, todo o Ocidente terem se constituídos com a raíz cristã: Nada pôde e nem poderá superar o Cristianismo. Por isso somos odiados.

 
 
 

A EXTREMA DIREITA: O “MAGISTEROVACANTISMO” O título certamente fará o leitor sorrir. Na verdade, talvez este tenha sido o único “-ismo” ainda ausente entre os muitos que pontilharam a galáxia tradicionalista na era pós-conciliar (foram cunhados os termos sedevacantismo, sedeprivacionismo, anticonciliarismo e certamente muitos outros que escapam àqueles que, como este autor, geralmente preferem se ater a apenas um: o são realismo da filosofia perennis). No entanto, descreve uma atitude que não está de modo algum ausente, mas antes bastante difundida nestes círculos. É a ideia de que, depois do Concílio Vaticano II, o Magistério simplesmente deixaria de existir. Tout court. Esta tese assume nuances diferentes de acordo com a posição eclesial daqueles que a afirmam (para alguns é uma consequência lógica do fato de que, a partir do Concílio, a Sé Apostólica estaria vaga; para outros, derivaria da ausência da intenção de ensinar magisterialmente pelos Pontífices a partir de Paulo VI), mas em todo caso colide tanto com o sensus Ecclesiæ quanto, mais simplesmente, com o sentido da realidade. Essa visão se choca com o senso eclesial porque, se o Magistério é, como ensina Pio XII, a norma próxima da fé[2], o resultado é que a Igreja, assim como não poderia manter-se por muito tempo (como os sessenta anos que nos separam do último Concílio) sem um Papa reinante, tampouco poderia manter-se assim sem o Magistério (exercido in actu). Portanto, afirmar que, por mais de cinquenta anos, o Magistério não existe mais (a não ser em estado de pura potência) abre as portas para as mesmas consequências às quais o sedevacantismo conduz, ou seja, questionar a promessa de Jesus Cristo à sua Igreja: “As portas do inferno não prevalecerão contra ela” (Mt 16,18). Mas também se choca com o simples senso da realidade, com um realismo saudável, pois não somos nós que podemos determinar a priori, com base em uma tese pré-concebida, qual é a autoridade de um texto promulgado pelo Papa, mas é o próprio Papa que manifesta sua intenção (a sua mens [intenção], segundo o termo consagrado). Agora, é certamente inegável que a concepção do Magistério sofreu uma profunda mudança ao longo das últimas décadas (pense, como sinais externos desta mudança, no fato de que o número de pronunciamentos do Magistério cresceu enormemente, enquanto sua solenidade diminuiu proporcionalmente, e que mais e mais órgãos foram acrescentados aos tradicionais, como as Comissões pontifícias ou teológicas, cujo grau de autoridade nem sempre é totalmente claro). Os argumentos a favor desta tese não são, portanto, inteiramente sem fundamento[3]. No entanto, seu limite consiste na tentativa de demonstrar que esta nova concepção diz respeito a todos os atos do Magistério pós-conciliar sem exceção, quando os fatos parecem mostrar o contrário: isto é, que mesmo em um contexto tão confuso, não faltam pronunciamentos oficiais cujo conteúdo, tom e propósito mostram claramente que o Papa realmente pretende fazer uso de sua autoridade magisterial, da maneira e sentido tradicionais do termo. Vamos citar alguns exemplos. O Concílio Vaticano II “ensina […] que com a consagração episcopal é conferida a plenitude do sacramento da ordem” (Lumen Gentium, 22). Este ensino correspondia, além disso, aos votos de uma grande maioria dos Padres Conciliares (incluindo Mons. Lefebvre)[5]. Certamente não é uma definição de fé, mas seria contra todo bom senso dizer que neste ponto preciso o Concílio não empenhou sua autoridade como autêntico Magistério (aos teólogos então resta discutir o status teológico exato do pronunciamento: aquele de doutrina católica pareceria, entretanto, à primeira vista, a mais apropriada[6]). Outro exemplo bastante claro é, para permanecer nos anos do Concílio, a solene proclamação por Paulo VI de Maria “Mãe da Igreja”, um ato ao qual “nada faltava… para que fosse verdadeiramente inspirado pelo Espírito Santo… um acontecimento extraordinário…, [sobre o qual] nunca se falará o suficiente, porque na história da Igreja, o Concílio Vaticano II permanecerá acima de tudo o que proclamou Maria “Mãe da Igreja”. […] Nenhuma das verdades afirmadas no Concílio terá, de fato, a mesma importância que esta”[7] (Mons. Lefebvre); ou mesmo (alguns anos depois) o “Credo do Povo de Deus” do próprio Pontífice, “um ato que, do ponto de vista dogmático, é mais importante que todo o Concílio […]. Este Credo, que foi elaborado para afirmar a fé de Pedro, e pelo sucessor de Pedro, foi revestido com uma solenidade absolutamente extraordinária, porque o Papa manifestou sua intenção de fazê-lo como sucessor de Pedro […], como Vigário de Cristo. […] Consequentemente, realizou um ato que empenha a fé da Igreja. Assim temos o consolo e a confiança de sentir que o Espírito Santo não abandona Sua Igreja”[8] (Mons. Lefebvre). Em tempos mais recentes, podemos citar como exemplos o documento (Ordinatio sacerdotalis) no qual João Paulo II reafirmou, em termos de solenidade igual apenas nos Papas pré-conciliares[9], a impossibilidade de conferir o sacramento da ordenação às mulheres, e as passagens da encíclica Evangelium vitæ em que reitera a condenação do aborto (diferentemente dos argumentos filosóficos apresentados no mesmo texto em apoio a esta condenação, que não têm necessariamente a mesma autoridade). O católico que verdadeiramente reconhece (ou seja, com todas as consequências que isso implica) que o Papa é tal e a Sé não está vaga, como poderia negar o caráter magisterial de tais pronunciamentos[10]? Nem mesmo o fato de que os mesmos documentos, em outros pontos, apresentem doutrinas diferentes das do Magistério anterior pode constituir uma objeção a seu valor magisterial, pois “há um Magistério pastoral ordinário que pode conter erros ou simplesmente expressar opiniões”[11] (Mons. Lefebvre). [2] Cf. PIO XII, Encíclica Humani generis de 12 de agosto de 1950: “Embora este Magistério sagrado deva ser para qualquer teólogo, em matéria de fé e moral, a próxima e universal norma de verdade (na medida em que Cristo Senhor lhe confiou o depósito da fé – isto é, a Sagrada Escritura e a Tradição Divina – para ser guardada, defendida e interpretada), às vezes é ignorado, como se não houvesse o dever por parte dos fiéis de evitar até mesmo aqueles erros que, em maior ou menor medida, se aproximam da heresia”. Os teólogos geralmente tiram daí a conclusão de que a Sagrada Escritura e a Tradição constituem a “norma remota” da fé, da qual a inteligência dos fiéis não pode tirar conclusões diretas sobre as verdades da fé, mas sempre mediatamente, ou seja, através de uma norma última (o Magistério) que regule sua consciência de forma mais próxima. [3] Outros sinais interessantes desta nova concepção do Magistério podem ser vistos em algumas passagens extraídas dos próprios textos do Magistério, como a Encíclica Ecclesiam suam de Paulo VI, na qual o Papa declara que deseja dar a seu ministério uma finalidade principalmente dialógica e pastoral (cf. § 7: “A Igreja deve entrar em diálogo com o mundo em que se encontra vivendo. A Igreja se torna palavra; a Igreja se torna mensagem; a Igreja se torna colóquio”). Quando é esta forma de exercício “dialógico” do Magistério que se exerce, pode-se de fato perguntar, por meio de hipóteses teológicas, se estes atos podem realmente enquadrar-se nas categorias tradicionais do Magistério. No entanto, mesmo admitindo a validade desta hipótese, o fato de os Pontífices pós-conciliares terem, por um lado, em grande parte assumido este exercício “dialógico” do Magistério, não os impede de recorrer também, em outras circunstâncias, ao modo tradicional de exercício do Magistério. [4] Mesmo o fato de que os Pontífices do Pós-Concílio admitam o princípio da liberdade religiosa tal como formulado pelo Concílio Vaticano II em Dignitatis Humanæ não pode constituir um argumento em apoio a esta tese, porque neste documento, se se afirma o direito de não ser impedido no exercício do culto religioso ao qual se adere em consciência, certamente não é negado que o Magistério da Igreja é vinculante à consciência daqueles que aderem ao culto católico. [5] De fato, os teólogos haviam debatido por muitos séculos se o episcopado, considerado distintamente do presbitério, era um sacramento. E, mesmo antes do Concílio, o próprio Pio XII, em Sacramentum Ordinis, embora não dirima definitivamente a questão, parece alinhar-se decisivamente com a solução afirmativa (cf. FRANCISCO A. SOLÁ S.I., De sacramentis vitæ socialis christianæ, em AA.VV., Sacræ theologiæ summa, BAC, Madrid 1957, vol. IV, pp. 596-607). [6] Ver I. SALAVERRI S.I., De Ecclesia Christi, in AA.VV., Sacræ theologiæ summa, BAC, Madrid 1962, vol. I, p. 793: “A ‘doutrina católica’, entendida estritamente, é aquela que o Magistério universal ensina de forma meramente autêntica, isto é, por um ato de verdadeira autoridade doutrinária, mas sem excluir completamente a possibilidade de erro. De fato […] existe na Igreja um Magistério universal e autêntico ao qual se deve o assentimento interno e religioso, embora não tenha a intenção de definir algo por um ato de autoridade infalível […]. Uma doutrina ensinada autenticamente pela Igreja com este menor grau de autoridade, já que é proposta pelo Magistério universal, é habitualmente chamada de ‘doutrina católica’ no sentido estrito. E uma doutrina contrária a ela pode ser definida como ‘erro na doutrina católica’ (Doctrina Catholica stricte est ea quam universale Magisterium docet mere authentice, actu nempe doctrinalis veræ auctoritatis, sed non excludente possibilitatem erroris. Nam […] est in Ecclesia Magisterium universale et authenticum, cui debetur assensus internus et religiosus, etsi non intendat auctoritatis actu infallibili aliquid definire […]. Doctrina quæ hoc minori auctoritatis graduada ab Ecclesia authentice docetur, quia ab universali Magisterio proponitur, appelari consuevit Doctrina Catholica stricte. Contraria vero dici potest error in Doctrina Catholica). [7] M. LEFEBVRE, Marie, Mère de l’Eglise, in Lettres pastorales et écrits, Editions Fideliter, Escurolles 1989, p. 211-212. Esta citação, retirada de uma das circulares (Avis du mois) que Mons. Lefebvre, como Superior Geral dos Padres do Espírito Santo, enviava mensalmente a seus coirmãos, é datada de 1965. Seu tom de elogio ao Concílio não deve surpreender nem contradiz as críticas que o Arcebispo, já no ano seguinte, faria contra vários pronunciamentos do Concílio: estas linhas só mostram que, até que, pouco tempo depois, tivesse provas em contrário, Mons. Lefebvre ainda queria esperar que o Concílio trouxesse aquelas luzes e aqueles frutos que, ainda no momento de sua convocação e seus procedimentos, ele esperava dele; e, também, que sempre manteve um julgamento equilibrado, sabendo distinguir desde o início os pronunciamentos nos quais o Concílio realmente comprometeu sua autoridade magisterial, fazendo eco da Tradição, daqueles nos quais se desviou. [8] Id. in M. Lefebvre, Après le Concile: l’Eglise devant la crise moral contemporaine (Conferência ocorrida em 1969 na Faculdade Autonôma de Economia e Direito de Paris), in M. Lefebvre, Un évêque parle, Dominique Martin Morin, Parigi 1974, pp. 104-105. [9] “A fim de eliminar toda dúvida sobre um assunto de grande importância, que diz respeito à própria constituição divina da Igreja, em virtude do meu ministério de confirmação dos irmãos, declaro que a Igreja não tem de modo algum o poder de conferir a ordenação sacerdotal às mulheres, e que esta sentença deve ser mantida definitivamente por todos os fiéis da Igreja” (n. 4). [10] Não confundir “magisterial” com “infalível”. Uma coisa é verificar o caráter magisterial de um texto, outra bem diferente é determinar seu status teológico e, eventualmente, sua infalibilidade. [11] M. LEFEBVRE, Réflexions sur la question du magistère de l’Eglise, in Cor Unum. Vinculum membrorum Fraternitatis Sancti Pii X, n. 101, p. 30. A redação deste texto foi ocasionada por uma frase em um artigo de Fideliter, a revista do Distrito francês da Fraternidade de São Pio X, que causou alguma controvérsia. A frase acusada foi a seguinte: “Ao contrário de todos os Concílios Ecumênicos anteriores, o Vaticano II quis a si mesmo como ‘Concílio Pastoral’ e não definiu nenhum ponto de doutrina no sentido de uma definição irreformável e infalível: os documentos do Concílio, consequentemente, pertencem no máximo ao Magistério ordinário da Igreja, do qual não está excluída a possibilidade de se encontrarem erros” (Fideliter, n. 46, julho-agosto de 1985). D. Lefebvre tomou a defesa da Fideliter, afirmando que esta frase “não é em si mesma suscetível de incriminação, desde que não se refira ao Magistério ordinário e universal como definido pelo Vaticano I. Certamente existe um Magistério pastoral comum que pode conter erros ou expressar opiniões simples”.

 
 
 
CONTATO
Avalie-nosRuimNão muito bomBomMuito bomÓtimoAvalie-nos

Agradecemos pelo envio !

© 2019 - 2023. INTERVENÇÃO DIVINA - Criado por Divino Design.

Esta obra é inteiramente dedicada à Santíssima Virgem Maria!

bottom of page
ConveyThis