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Por Padre José Eduardo

Uma das características da modernidade foi a utilização da razão como instrumento para compreender todos os fenômenos humanos. Ainda que limitada e, de certo modo, enclausurada em si mesma, a razão pôde atingir admiráveis progressos, especialmente tecnológicos. O período que estamos vivendo, denominado por muitos como pós-modernidade, caracteriza-se por uma desconfiança excessiva da razão, por um completo ceticismo em que haja uma realidade concreta e pela convicção de que tudo que existe é resultado de construtos político-discursivos.

É nesse contexto que ganhou corpo uma ideologia que eu denominaria como “mito do patriarcado”, que postula a existência de uma entidade maléfica que dirige todos os fios da arte, da cultura e da linguagem, os comportamentos individuais e inclusive a identidade das pessoas com o único objetivo de oprimir e matar as mulheres e os grupos que se escondem por detrás da diversidade sexual.

Segundo essa crença (porque se trata disso, de uma crença), todas as violências são “violências de gênero”, estruturais – com o que se tira muito da responsabilidade individual e se a transfere para a esfera do impessoal –, e o único modo de vencê-las é desconstruindo-nos a nós mesmos e, para isso, abrirmos mão do pensamento crítico e abraçarmos o credo no patriarcado. Troca-se a culpa individual pela coletiva.

Vemos essa “profissão de fé” sendo ensinada piedosamente em todas as cátedras de humanas no mundo inteiro, impondo-se-a coercitivamente, com os meios mais violentos possíveis, através de legislações e do sistema judiciário. De fato, a humanidade está entrando numa espécie de neo-obscurantismo que criminaliza toda crítica e toda dúvida como discurso de ódio. Para vencer o “patriarcado” usa-se dos mecanismos mais autoritários e repressivos.

O fanatismo das superstições de gênero nos leva a praticar rituais esotéricos absurdos, como falar de maneira estranha, cheia de escusas para que não nos chamem de “patriarcais”, enquanto vão sendo destruídas conquistas que foram adquiridas a grandes custas, como a liberdade de expressão, a igualdade perante a lei, a presunção de inocência, o ônus da prova, a liberdade de pensamento etc.

Mas, de onde surgiu este mito?

  1. ANTECEDENTES HISTÓRICOS: Marx e Engels

Toda a mitologia que reputa ao homem-macho a culpa de todos os crimes de todos os tempos tem a sua raiz no livro A origem da família, da propriedade privada e do Estado, publicado por Engels, o qual diz em seu prefácio: “os capítulos a seguir constituem, de certo modo, a execução de um testamento. Ninguém menos que Karl Marx havia reservado para si a tarefa de expor os resultados das pesquisas de Morgan em conexão com os resultados da sua – e, em certa medida, posso dizer nossa – investigação materialista da história e, desse modo, evidenciar toda a sua importância” (Engels, F, A origem da família, da propriedade privada e do Estado, Escala, São Paulo: s/d, p. 13).

Marx se inspirou nos trabalhos do antropólogo americano Lewis Henry Morgan, que fez um trabalho de análise de tribos indígenas iorquinas e havaianas e deduziu terem existido estratificações familiares mais rudimentares que teriam sido essencialmente mais promíscuas, quanto mais se retrocedesse no tempo. Todo o trabalho de Marx foi ampliar o alcance das deduções de Morgan (não demonstradas) e aplicá-las à humanidade como um todo (pura excogitação). O próprio Marx-Engels o confessa, quando diz “aquele estado social primitivo, admitindo-se que tenha realmente existido, pertence a uma época tão remota que não podemos esperar encontrar provas diretas de sua existência, nem mesmo entre os fósseis sociais, nos selvagens mais atrasados” (Ibidem, p. 47).

Segundo Marx-Engels, “a monogamia não aparece na história, portanto, absolutamente, como uma reconciliação entre o homem e a mulher e, menos ainda, como a forma mais elevada de matrimônio. Pelo contrário, ela surge sob a forma de escravização de um sexo pelo outro, como proclamação de um conflito entre os sexos, ignorado, até então, na pré-história. Num velho manuscrito inédito, redigido em 1846 por Marx e por mim, encontro a seguinte frase: ‘A primeira divisão do trabalho é a que se fez entre o homem e a mulher para a procriação dos filhos’. Hoje posso acrescentar: o primeiro antagonismo de classes que apareceu na história coincide com o desenvolvimento do antagonismo entre o homem e a mulher, na monogamia; e a primeira opressão de classes, com a opressão do sexo feminino pelo masculino. A monogamia foi um grande progresso histórico, mas, ao mesmo tempo, iniciou, juntamente com a escravidão e as riquezas privadas, aquele período, que dura até nossos dias, no qual cada progresso é simultaneamente um retrocesso relativo, e o bem-estar e o desenvolvimento de uns se verificam às custas da dor e da repressão de outros. É a forma celular da sociedade civilizada, na qual já podemos estudar a natureza das contradições e dos antagonismos que atingem seu pleno desenvolvimento nessa sociedade” (Ibidem, pp. 84-85).

Falando sobre o desaparecimento do matriarcado, que, segundo ele, seria mais antigo que o patriarcado, ele diz: “De oito tribos do Missouri, seis estão regidas pela linhagem e ordem de herança masculinas, duas pelas femininas. Entre os schawnees, os miamies e os delawares adotou-se o costume de dar aos filhos um nome pertencente à gens paterna, para fazê-los passar a esta, a fim de poderem herdar de seu pai. ‘Casuística inata nos homens a de mudar as coisas mudando-lhes os nomes e achar saídas para romper com a tradição sem sair dela, sempre que um interesse direto dá o impulso suficiente para isso’ (Marx). Resultou daí uma espantosa confusão, que só podia ser remediada – e parcialmente o foi – com a passagem ao patriarcado. ‘Esta parece ser a transição mais natural’ (Marx)” (Ibidem, p. 75).

  1. A TERCEIRA ONDA DO FEMINISMO: Millet e Firestone

Enquanto o movimento político iniciado por Marx se dividia e se multiplicava, o tema do patriarcado desapareceu completamente do seu ideário. Foi apenas na década de 1970 que as feministas da terceira onda, impulsionadas também pelo existencialismo ateu, ressuscitaram as teses de Engels e as transformaram numa verdadeira ideologia política.

Em seu livro principal, Política Sexual, Kate Millet escreve qu: “a primeira fase do feminismo, que durou até 1930, terminou em reforma em vez de revolução. Para que uma revolução sexual prosseguisse teria sido necessária uma transformação social verdadeiramente radical, a alteração do matrimônio e da família como foram conhecidos através de toda a história. Sem semelhantes mudanças radicais torna-se impossível erradicar os males que derivam destas instituições e que os reformadores julgavam particularmente ofensivos. Uma revolução sexual completa necessitaria o fim da ordem patriarcal através da abolição de sua ideologia que estabelece uma socialização diferenciada dos sexos. A ideologia patriarcal era de fato erodida e o patriarcado reformado, mas a ordem patriarcal social essencial permanecia. Como a maioria das pessoas não consegue conceber outra forma de organização social, a única alternativa para a sua perpetuação parecia ser o caos. O problema não é tanto que a ordem social requer a subordinação da mulher, mas que ela requer uma estrutura familiar que envolve a subordinação da mulher. Ademais, o patriarcado é necessário para o sistema familiar.

A União Soviética realizou um esforço consciente para eliminar o patriarcado e reestruturar a sua instituição mais básica, a família. Depois da revolução foram instituídas todas as leis possíveis para libertar os indivíduos das exigências da família: matrimônio livre e divórcio, contracepção e aborto a pedido. Mais do que tudo, as mulheres e as crianças foram libertadas do poder econômico do marido. Debaixo do sistema coletivista, a família começou a desintegrar-se segundo as próprias linhas sob as quais havia sido construída. Todas as providências legais foram tomadas para promover a igualdade política e econômica. Mas, mesmo com tudo isso, a experiência soviética falhou e foi abandonada. Nos anos trinta e quarenta a sociedade soviética voltou a assemelhar-se às sociedades patriarcais reformadas dos países ocidentais. A causa mais profunda para isto reside no fato de que, além da declaração de que a família compulsória estava extinta, a teoria Marxista falhou ao não oferecer uma base ideológica suficiente para uma revolução sexual e foi notavelmente ingênua em relação à força histórica e psicológica do patriarcado. Engels havia escrito apenas sobre a história e a economia da família patriarcal, mas não investigou os hábitos mentais nela envolvidos, e até mesmo Lenin admitiu que a revolução sexual não era adequadamente compreendida. Ninguém entendia que, embora devessem ser empreendidos todos os esforços para promover uma revolução sexual, o verdadeiro teste consistiria em mudar as atitudes. Conforme Trotsky comentou friamente: ‘Não se pode abolir a família, é necessário substituí-la’” (Millet, K. Sexual politics, University Illinois Press, Illinois: 2000, pp. 155-168).

Amiga de Millet, Shullamith Firestone parte da ideia de que “atingimos o estágio final do Patriarcado” (Firestone, Sh., A dialética do sexo, Labor do Brasil, Rio de Janeiro: 1976, p. 217) e chega a conclusões programáticas bastante interessantes, que cito aos saltos:

“1. A nutrição das crianças poderia ser assumida pela tecnologia, pois a maior parte da educação das crianças tem a ver com a manutenção das relações de poder, a internalização forçada das tradições familiares e muitos outros interesses do ego que lutam contra a felicidade da criança.

  1. Sob o socialismo, o trabalho estaria nas mãos de todos e visaríamos eliminar a dependência das mulheres e das crianças do trabalho dos homens, cada pessoa poderia escolher o seu estilo de vida à vontade, mudando-o de modo a satisfazer seus gostos, já que cada pessoa seria independente.

  2. O conceito de infância deve ser abolido, tendo as crianças plenos direitos legais, sexuais e econômicos, e não sendo as suas atividades educacionais e de trabalho diferentes das dos adultos. Durante os poucos anos de sua infância, substituímos a “paternidade” genética, psicologicamente destrutiva, pela difusão da responsabilidade entre um número maior de pessoas. A criança continuará estabelecendo relações de amor íntimas, mas, em vez de fortalecer laços estreitos com uma “mãe” e um “pai” legais, ela poderá criar esses tipos de relações com pessoas de sua própria escolha, de qualquer idade e sexo.

  3. Como não haverá nada impedindo, se a criança escolhesse se relacionar sexualmente com os adultos, mesmo que isso se desse com a sua própria mãe genética, não haveria razões a priori para ela rejeitar os seus avanços sexuais, uma vez que o tabu do incesto teria perdido valor. Os adultos poderiam voltar à sua sexualidade natural, “polimorfamente pervertida”. As relações com as crianças incluiriam o grau de sexualidade genital que elas fossem capazes de ter, a ausência de orgasmo não seria um problema. Os tabus referentes à sexualidade entre adultos e crianças e à homossexualidade desapareceriam, tanto quanto as amizades não-sexuais. Todas as relações íntimas incluiriam o relacionamento físico” (Ibidem, pp. 271-274).

3.DEOLOGIA DE GÊNERO

Valendo-se de todos os meios para o desmonte desse suposto patriarcado, as feministas radicais foram se fortalecendo intelectual e economicamente. De um lado, aproximaram-se do desconstrucionismo (Jacques Derridas) e do pós-estruturalismo (Michel Foucault), adotando uma estratégia discursiva; de outro lado, começaram a ser subsidiadas por grandes Fundações, que passaram a impulsionar o seu trabalho.

Foi assim que Judith Butler tomou o conceito de gênero inventado por John Money em seu macabro experimento e o reconfigurou a partir das filosofias mencionadas (ela mesmo o confessa em seu Undoing Gender, Routledge, New York: 2004, pp. 57-74).

Butler propõe, então, o gênero como uma “construção variável da identidade” (Problemas de gênero, Civilização Brasileira, Rio de Janeiro: 2015, p. 25) e diz que “o gênero é sempre um feito, ainda que não seja obra de um sujeito tido como preexistente à obra. No desafio de repensar as categorias de gênero fora da metafísica da substância, é mister considerar a relevância da afirmação de Nietzsche, em Genealogia da moral, de que ‘não há ser por trás do fazer, do realizar e do tornar-se; o fazedor é uma mera ficção acrescentada à obra — a obra é o tudo’. Numa aplicação que o próprio Nietzsche não teria antecipado ou aprovado, nós afirmaríamos como corolário: não há identidade de gênero por trás das expressões do gênero; essa identidade é performativamente constituída pelas próprias ‘expressões’ tidas como seus resultados” (Ibidem, p. 56).

Ou seja, para acabar com o patriarcado, Butler propõe diluir a própria ideia de pessoa e transformar a identidade num devir aleatório, sem qualquer estabilidade.

No final das contas, a própria Butler reconhece que a noção de patriarcado, ao fim e ao cabo, não passa de uma invenção discursiva, ou seja, de um MITO:

“Houve ocasiões em que a teoria feminista se sentiu atraída pelo pensamento de uma origem, de um tempo anterior ao que alguns chamariam de ‘patriarcado’, capaz de oferecer uma perspectiva imaginária a partir da qual estabelecer a contingência da história da opressão das mulheres. Surgiram debates para saber se existiram culturas pré-patriarcais; se eram matriarcais ou matrilineares em sua estrutura; e se o patriarcado teve um começo e está, consequentemente, sujeito a um fim. Compreensivelmente, o ímpeto crítico por trás desse tipo de pesquisa buscava mostrar que o argumento antifeminista da inevitabilidade do patriarcado constituía uma reificação e uma naturalização de um fenômeno histórico e contingente.

Embora se pretendesse que o retorno ao estado cultural pré-patriarcal expusesse a autorreificação do patriarcado, esse esquema pré-patriarcal acabou mostrando ser outro tipo de reificação. Mais recentemente, contudo, algumas feministas desenvolveram uma crítica reflexiva de alguns construtos reificados no interior do próprio feminismo. A própria noção de ‘patriarcado’ andou ameaçando tornar-se um conceito universalizante, capaz de anular ou reduzir expressões diversas da assimetria do gênero em diferentes contextos culturais. Quando o feminismo buscou estabelecer uma relação integral com as lutas contra a opressão racial e colonialista, tornou-se cada vez mais importante resistir à estratégia epistemológica colonizadora que subordinava diferentes configurações de dominação à rubrica de uma noção transcultural de patriarcado. Enunciar a lei do patriarcado como uma estrutura repressiva e reguladora também exige uma reconsideração a partir dessa perspectiva crítica. O recurso feminista a um passado imaginário tem de ser cauteloso, pois, ao desmascarar as afirmações autorreificadoras do poder masculinista, deve evitar promover uma reificação politicamente problemática da experiência das mulheres” (Ibidem, pp. 71-72).

  1. INCURSÕES TEOLÓGICAS

Como todo o movimento revolucionário embarcou de cabeça no dogmatismo de gênero e na crença fanática do patriarcado, não faltaram teólogos que propusessem uma hermenêutica despatriarcalizante das Escrituras, isto é, uma leitura que desmontasse a ideia de um “Deus Pai”.

Em seu recente livro A saudade de Deus (Vozes, Petrópolis: 2020), Leonardo Boff dedica toda uma parte ao tema. Ele começa defendendo a ideia de que o feminino precede ao masculino na sexogênese (cf. Ibidem, pp. 93-98), diz que as sociedades primitivas eram matriarcais, que o ideal do homem era gerar a vida e que isso se mitificou nas divindades femininas de mil seios, atacadas pelo relato patriarcal do Gênesis, que hostilizou a mulher, a serpente (!!!), a árvore e o sexo (cf. Ibidem, pp. 99-103). Em seguida, começa a falar sobre a necessidade de se adotar uma linguagem inclusiva para falar de Deus: “Deu Pai e Mãe” ou “Pai maternal” (cf. Ibidem, pp. 109-113), para, por fim, falar sobre a sensibilidade feminina de Jesus, chegando a conjecturar uma relação carnal entre Jesus e Maria Madalena (cf. Ibidem, pp. 114-120).

A assimilação de todo esse dogmatismo no interior da teologia é o cume de todo um processo de desmonte, que agora precisa valer-se da própria Igreja para se tornar efetivo na sociedade.

  1. REFLEXÃO CRÍTICA

A leitura histórico-crítica da Escritura deu aos marxistas o material para reduzirem toda a Divina Revelação a um fenômeno da luta de classes. Como essa luta agora foi redimensionada nos cânones da revolução sexual de gênero, a Escritura, portanto, pode ser lida, pelos pós-modernos, a partir de uma hermenêutica despatriarcalizante.

Ora, o absurdo dessa pretensão não é tanto a inversão cronológica (ler o passado imaginativamente a partir do presente, como descreve Butler em livro), mas a tentativa de ignorar a realidade concreta enquanto tal: ou seja, o patriarcado é um mito!

É, em função desse mito, se quer recalcular toda a Escritura e a Dogmática. O Verbo, nesse caso, não se teria tornado propriamente homem, visto que as categorias hibridizantes do masculino e feminino, como releva Boff em seu texto, teriam sido assumidas por Cristo, interpretando-se a sua humanidade sob chave freudiana. O Verbo não se teria feito homem, mas apenas humano.

Este é o poder de um mito: ressignificar a própria realidade para impor uma ideologia. Imaginar que as sociedades pré-tecnológicas pudessem ser matricarcais é tão somente um delírio, visto que a ascensão social feminina se deu propriamente como resultado do pregresso tecnológico. Isso é um fato simples e constatável!

Quando lemos os escritos antigos, como, por exemplo, a Economia do pseudo-Aristóteles, percebemos que as relações entre homem e mulher, ao contrário do que supõe o imaginário do mito do patriarcado, eram de divisão de competências, em que a complementaridade se dava não apenas no âmbito físico-biológico-reprodutivo, mas também doméstico-executivo. A família antiga era uma estrutura forte, em que o paterfamilias e a materfamilias se comportavam com certa proporcionalidade.

Como se pode ver claramente nos textos acima, a abolição do patriarcado equivale à simples extinção da família natural, no processo de secundarização da sociedade, em que a sua estrutura primária seria completamente superada por um tipo de organização coletivista. Se isso é péssimo para as famílias, é maravilhoso para os meta-poderes econômicos cujo interesse é diluir todas as estruturas para que os indivíduos se tornem átomos soltos, impessoais e despersonalizados, como uma mão de obra pura e simples no mercado. É a troca do nome pelo algoritmo, da pessoa pela função.

As Escrituras narram um processo claramente oposto. São Paulo no-lo diz em Efésios 3,14-15, quando confessa: “dobro os meus joelhos diante do Pai, do qual procede toda paternidade no céu e na terra”. A palavra aqui traduzida por “paternidade” é a palavra grega πατριὰ, patrìa. Poder-se-ia traduzi-la também por “patriarcado”?

O fato de que Deus não seja sexuado, mas lhe convenha a atribuição do masculino, nada tem a ver com a sexualização de Deus. Na arquetipia, Deus é ato e tudo o mais é potência, capacidade de receber o ser: ora, na gramática, não havendo sempre a possibilidade de adotar-se o gênero neutro (no português, aliás, quase não existe), adota-se aquele que a língua permite e que se adapte melhor à sua expressividade: como o masculino é a parte ativa na cópula e o feminino a parte passiva, simplesmente adota-se o masculino para Deus, sabendo que ele transcende essa realidade.

A luta de classes marxista foi substituída por uma luta de tipo metafísico, que alista a militância num tipo de ideal religioso, fundamentalista e imaginário: a crença numa entidade não localizada, anônima e atemporal, o patriarcado. Enquanto isso, toda a sociedade ruma para a perda dos direitos mais fundamentais e para o surgimento de um Estado Onipotente, que controla tudo, até o nosso modo de falar.

As classes pobres são as mais patriarcais. E isso é tão verdade que Marx mesmo os chamava de proletariado, palavra que vem de prole, filhos. Se “família” vem do latim famulus, servo, não é porque reduz todos os seus membros à servidão, mas porque, como menciona o pseudo-Aristóteles em sua Economia e Aristóteles em sua Política, essa unidade de produção fundamental é capaz de transformar até os servos em filhos, exatamente ao contrário do que faz o nosso sistema atual, que transforma os filhos em servos.

Salvar a família é a prioridade das prioridades. E todos precisamos rejeitar essas crendices e nos aferrar à norma da razão e da fé, tal como defende a Tradição da Santa Igreja Católica.

 
 
 

Por Padre José Eduardo

Uma das características da modernidade foi a utilização da razão como instrumento para compreender todos os fenômenos humanos. Ainda que limitada e, de certo modo, enclausurada em si mesma, a razão pôde atingir admiráveis progressos, especialmente tecnológicos. O período que estamos vivendo, denominado por muitos como pós-modernidade, caracteriza-se por uma desconfiança excessiva da razão, por um completo ceticismo em que haja uma realidade concreta e pela convicção de que tudo que existe é resultado de construtos político-discursivos.

É nesse contexto que ganhou corpo uma ideologia que eu denominaria como “mito do patriarcado”, que postula a existência de uma entidade maléfica que dirige todos os fios da arte, da cultura e da linguagem, os comportamentos individuais e inclusive a identidade das pessoas com o único objetivo de oprimir e matar as mulheres e os grupos que se escondem por detrás da diversidade sexual.

Segundo essa crença (porque se trata disso, de uma crença), todas as violências são “violências de gênero”, estruturais – com o que se tira muito da responsabilidade individual e se a transfere para a esfera do impessoal –, e o único modo de vencê-las é desconstruindo-nos a nós mesmos e, para isso, abrirmos mão do pensamento crítico e abraçarmos o credo no patriarcado. Troca-se a culpa individual pela coletiva.

Vemos essa “profissão de fé” sendo ensinada piedosamente em todas as cátedras de humanas no mundo inteiro, impondo-se-a coercitivamente, com os meios mais violentos possíveis, através de legislações e do sistema judiciário. De fato, a humanidade está entrando numa espécie de neo-obscurantismo que criminaliza toda crítica e toda dúvida como discurso de ódio. Para vencer o “patriarcado” usa-se dos mecanismos mais autoritários e repressivos.

O fanatismo das superstições de gênero nos leva a praticar rituais esotéricos absurdos, como falar de maneira estranha, cheia de escusas para que não nos chamem de “patriarcais”, enquanto vão sendo destruídas conquistas que foram adquiridas a grandes custas, como a liberdade de expressão, a igualdade perante a lei, a presunção de inocência, o ônus da prova, a liberdade de pensamento etc.

Mas, de onde surgiu este mito?

  1. ANTECEDENTES HISTÓRICOS: Marx e Engels

Toda a mitologia que reputa ao homem-macho a culpa de todos os crimes de todos os tempos tem a sua raiz no livro A origem da família, da propriedade privada e do Estado, publicado por Engels, o qual diz em seu prefácio: “os capítulos a seguir constituem, de certo modo, a execução de um testamento. Ninguém menos que Karl Marx havia reservado para si a tarefa de expor os resultados das pesquisas de Morgan em conexão com os resultados da sua – e, em certa medida, posso dizer nossa – investigação materialista da história e, desse modo, evidenciar toda a sua importância” (Engels, F, A origem da família, da propriedade privada e do Estado, Escala, São Paulo: s/d, p. 13).

Marx se inspirou nos trabalhos do antropólogo americano Lewis Henry Morgan, que fez um trabalho de análise de tribos indígenas iorquinas e havaianas e deduziu terem existido estratificações familiares mais rudimentares que teriam sido essencialmente mais promíscuas, quanto mais se retrocedesse no tempo. Todo o trabalho de Marx foi ampliar o alcance das deduções de Morgan (não demonstradas) e aplicá-las à humanidade como um todo (pura excogitação). O próprio Marx-Engels o confessa, quando diz “aquele estado social primitivo, admitindo-se que tenha realmente existido, pertence a uma época tão remota que não podemos esperar encontrar provas diretas de sua existência, nem mesmo entre os fósseis sociais, nos selvagens mais atrasados” (Ibidem, p. 47).

Segundo Marx-Engels, “a monogamia não aparece na história, portanto, absolutamente, como uma reconciliação entre o homem e a mulher e, menos ainda, como a forma mais elevada de matrimônio. Pelo contrário, ela surge sob a forma de escravização de um sexo pelo outro, como proclamação de um conflito entre os sexos, ignorado, até então, na pré-história. Num velho manuscrito inédito, redigido em 1846 por Marx e por mim, encontro a seguinte frase: ‘A primeira divisão do trabalho é a que se fez entre o homem e a mulher para a procriação dos filhos’. Hoje posso acrescentar: o primeiro antagonismo de classes que apareceu na história coincide com o desenvolvimento do antagonismo entre o homem e a mulher, na monogamia; e a primeira opressão de classes, com a opressão do sexo feminino pelo masculino. A monogamia foi um grande progresso histórico, mas, ao mesmo tempo, iniciou, juntamente com a escravidão e as riquezas privadas, aquele período, que dura até nossos dias, no qual cada progresso é simultaneamente um retrocesso relativo, e o bem-estar e o desenvolvimento de uns se verificam às custas da dor e da repressão de outros. É a forma celular da sociedade civilizada, na qual já podemos estudar a natureza das contradições e dos antagonismos que atingem seu pleno desenvolvimento nessa sociedade” (Ibidem, pp. 84-85).

Falando sobre o desaparecimento do matriarcado, que, segundo ele, seria mais antigo que o patriarcado, ele diz: “De oito tribos do Missouri, seis estão regidas pela linhagem e ordem de herança masculinas, duas pelas femininas. Entre os schawnees, os miamies e os delawares adotou-se o costume de dar aos filhos um nome pertencente à gens paterna, para fazê-los passar a esta, a fim de poderem herdar de seu pai. ‘Casuística inata nos homens a de mudar as coisas mudando-lhes os nomes e achar saídas para romper com a tradição sem sair dela, sempre que um interesse direto dá o impulso suficiente para isso’ (Marx). Resultou daí uma espantosa confusão, que só podia ser remediada – e parcialmente o foi – com a passagem ao patriarcado. ‘Esta parece ser a transição mais natural’ (Marx)” (Ibidem, p. 75).

  1. A TERCEIRA ONDA DO FEMINISMO: Millet e Firestone

Enquanto o movimento político iniciado por Marx se dividia e se multiplicava, o tema do patriarcado desapareceu completamente do seu ideário. Foi apenas na década de 1970 que as feministas da terceira onda, impulsionadas também pelo existencialismo ateu, ressuscitaram as teses de Engels e as transformaram numa verdadeira ideologia política.

Em seu livro principal, Política Sexual, Kate Millet escreve qu: “a primeira fase do feminismo, que durou até 1930, terminou em reforma em vez de revolução. Para que uma revolução sexual prosseguisse teria sido necessária uma transformação social verdadeiramente radical, a alteração do matrimônio e da família como foram conhecidos através de toda a história. Sem semelhantes mudanças radicais torna-se impossível erradicar os males que derivam destas instituições e que os reformadores julgavam particularmente ofensivos. Uma revolução sexual completa necessitaria o fim da ordem patriarcal através da abolição de sua ideologia que estabelece uma socialização diferenciada dos sexos. A ideologia patriarcal era de fato erodida e o patriarcado reformado, mas a ordem patriarcal social essencial permanecia. Como a maioria das pessoas não consegue conceber outra forma de organização social, a única alternativa para a sua perpetuação parecia ser o caos. O problema não é tanto que a ordem social requer a subordinação da mulher, mas que ela requer uma estrutura familiar que envolve a subordinação da mulher. Ademais, o patriarcado é necessário para o sistema familiar.

A União Soviética realizou um esforço consciente para eliminar o patriarcado e reestruturar a sua instituição mais básica, a família. Depois da revolução foram instituídas todas as leis possíveis para libertar os indivíduos das exigências da família: matrimônio livre e divórcio, contracepção e aborto a pedido. Mais do que tudo, as mulheres e as crianças foram libertadas do poder econômico do marido. Debaixo do sistema coletivista, a família começou a desintegrar-se segundo as próprias linhas sob as quais havia sido construída. Todas as providências legais foram tomadas para promover a igualdade política e econômica. Mas, mesmo com tudo isso, a experiência soviética falhou e foi abandonada. Nos anos trinta e quarenta a sociedade soviética voltou a assemelhar-se às sociedades patriarcais reformadas dos países ocidentais. A causa mais profunda para isto reside no fato de que, além da declaração de que a família compulsória estava extinta, a teoria Marxista falhou ao não oferecer uma base ideológica suficiente para uma revolução sexual e foi notavelmente ingênua em relação à força histórica e psicológica do patriarcado. Engels havia escrito apenas sobre a história e a economia da família patriarcal, mas não investigou os hábitos mentais nela envolvidos, e até mesmo Lenin admitiu que a revolução sexual não era adequadamente compreendida. Ninguém entendia que, embora devessem ser empreendidos todos os esforços para promover uma revolução sexual, o verdadeiro teste consistiria em mudar as atitudes. Conforme Trotsky comentou friamente: ‘Não se pode abolir a família, é necessário substituí-la’” (Millet, K. Sexual politics, University Illinois Press, Illinois: 2000, pp. 155-168).

Amiga de Millet, Shullamith Firestone parte da ideia de que “atingimos o estágio final do Patriarcado” (Firestone, Sh., A dialética do sexo, Labor do Brasil, Rio de Janeiro: 1976, p. 217) e chega a conclusões programáticas bastante interessantes, que cito aos saltos:

“1. A nutrição das crianças poderia ser assumida pela tecnologia, pois a maior parte da educação das crianças tem a ver com a manutenção das relações de poder, a internalização forçada das tradições familiares e muitos outros interesses do ego que lutam contra a felicidade da criança.

  1. Sob o socialismo, o trabalho estaria nas mãos de todos e visaríamos eliminar a dependência das mulheres e das crianças do trabalho dos homens, cada pessoa poderia escolher o seu estilo de vida à vontade, mudando-o de modo a satisfazer seus gostos, já que cada pessoa seria independente.

  2. O conceito de infância deve ser abolido, tendo as crianças plenos direitos legais, sexuais e econômicos, e não sendo as suas atividades educacionais e de trabalho diferentes das dos adultos. Durante os poucos anos de sua infância, substituímos a “paternidade” genética, psicologicamente destrutiva, pela difusão da responsabilidade entre um número maior de pessoas. A criança continuará estabelecendo relações de amor íntimas, mas, em vez de fortalecer laços estreitos com uma “mãe” e um “pai” legais, ela poderá criar esses tipos de relações com pessoas de sua própria escolha, de qualquer idade e sexo.

  3. Como não haverá nada impedindo, se a criança escolhesse se relacionar sexualmente com os adultos, mesmo que isso se desse com a sua própria mãe genética, não haveria razões a priori para ela rejeitar os seus avanços sexuais, uma vez que o tabu do incesto teria perdido valor. Os adultos poderiam voltar à sua sexualidade natural, “polimorfamente pervertida”. As relações com as crianças incluiriam o grau de sexualidade genital que elas fossem capazes de ter, a ausência de orgasmo não seria um problema. Os tabus referentes à sexualidade entre adultos e crianças e à homossexualidade desapareceriam, tanto quanto as amizades não-sexuais. Todas as relações íntimas incluiriam o relacionamento físico” (Ibidem, pp. 271-274).

3.DEOLOGIA DE GÊNERO

Valendo-se de todos os meios para o desmonte desse suposto patriarcado, as feministas radicais foram se fortalecendo intelectual e economicamente. De um lado, aproximaram-se do desconstrucionismo (Jacques Derridas) e do pós-estruturalismo (Michel Foucault), adotando uma estratégia discursiva; de outro lado, começaram a ser subsidiadas por grandes Fundações, que passaram a impulsionar o seu trabalho.

Foi assim que Judith Butler tomou o conceito de gênero inventado por John Money em seu macabro experimento e o reconfigurou a partir das filosofias mencionadas (ela mesmo o confessa em seu Undoing Gender, Routledge, New York: 2004, pp. 57-74).

Butler propõe, então, o gênero como uma “construção variável da identidade” (Problemas de gênero, Civilização Brasileira, Rio de Janeiro: 2015, p. 25) e diz que “o gênero é sempre um feito, ainda que não seja obra de um sujeito tido como preexistente à obra. No desafio de repensar as categorias de gênero fora da metafísica da substância, é mister considerar a relevância da afirmação de Nietzsche, em Genealogia da moral, de que ‘não há ser por trás do fazer, do realizar e do tornar-se; o fazedor é uma mera ficção acrescentada à obra — a obra é o tudo’. Numa aplicação que o próprio Nietzsche não teria antecipado ou aprovado, nós afirmaríamos como corolário: não há identidade de gênero por trás das expressões do gênero; essa identidade é performativamente constituída pelas próprias ‘expressões’ tidas como seus resultados” (Ibidem, p. 56).

Ou seja, para acabar com o patriarcado, Butler propõe diluir a própria ideia de pessoa e transformar a identidade num devir aleatório, sem qualquer estabilidade.

No final das contas, a própria Butler reconhece que a noção de patriarcado, ao fim e ao cabo, não passa de uma invenção discursiva, ou seja, de um MITO:

“Houve ocasiões em que a teoria feminista se sentiu atraída pelo pensamento de uma origem, de um tempo anterior ao que alguns chamariam de ‘patriarcado’, capaz de oferecer uma perspectiva imaginária a partir da qual estabelecer a contingência da história da opressão das mulheres. Surgiram debates para saber se existiram culturas pré-patriarcais; se eram matriarcais ou matrilineares em sua estrutura; e se o patriarcado teve um começo e está, consequentemente, sujeito a um fim. Compreensivelmente, o ímpeto crítico por trás desse tipo de pesquisa buscava mostrar que o argumento antifeminista da inevitabilidade do patriarcado constituía uma reificação e uma naturalização de um fenômeno histórico e contingente.

Embora se pretendesse que o retorno ao estado cultural pré-patriarcal expusesse a autorreificação do patriarcado, esse esquema pré-patriarcal acabou mostrando ser outro tipo de reificação. Mais recentemente, contudo, algumas feministas desenvolveram uma crítica reflexiva de alguns construtos reificados no interior do próprio feminismo. A própria noção de ‘patriarcado’ andou ameaçando tornar-se um conceito universalizante, capaz de anular ou reduzir expressões diversas da assimetria do gênero em diferentes contextos culturais. Quando o feminismo buscou estabelecer uma relação integral com as lutas contra a opressão racial e colonialista, tornou-se cada vez mais importante resistir à estratégia epistemológica colonizadora que subordinava diferentes configurações de dominação à rubrica de uma noção transcultural de patriarcado. Enunciar a lei do patriarcado como uma estrutura repressiva e reguladora também exige uma reconsideração a partir dessa perspectiva crítica. O recurso feminista a um passado imaginário tem de ser cauteloso, pois, ao desmascarar as afirmações autorreificadoras do poder masculinista, deve evitar promover uma reificação politicamente problemática da experiência das mulheres” (Ibidem, pp. 71-72).

  1. INCURSÕES TEOLÓGICAS

Como todo o movimento revolucionário embarcou de cabeça no dogmatismo de gênero e na crença fanática do patriarcado, não faltaram teólogos que propusessem uma hermenêutica despatriarcalizante das Escrituras, isto é, uma leitura que desmontasse a ideia de um “Deus Pai”.

Em seu recente livro A saudade de Deus (Vozes, Petrópolis: 2020), Leonardo Boff dedica toda uma parte ao tema. Ele começa defendendo a ideia de que o feminino precede ao masculino na sexogênese (cf. Ibidem, pp. 93-98), diz que as sociedades primitivas eram matriarcais, que o ideal do homem era gerar a vida e que isso se mitificou nas divindades femininas de mil seios, atacadas pelo relato patriarcal do Gênesis, que hostilizou a mulher, a serpente (!!!), a árvore e o sexo (cf. Ibidem, pp. 99-103). Em seguida, começa a falar sobre a necessidade de se adotar uma linguagem inclusiva para falar de Deus: “Deu Pai e Mãe” ou “Pai maternal” (cf. Ibidem, pp. 109-113), para, por fim, falar sobre a sensibilidade feminina de Jesus, chegando a conjecturar uma relação carnal entre Jesus e Maria Madalena (cf. Ibidem, pp. 114-120).

A assimilação de todo esse dogmatismo no interior da teologia é o cume de todo um processo de desmonte, que agora precisa valer-se da própria Igreja para se tornar efetivo na sociedade.

  1. REFLEXÃO CRÍTICA

A leitura histórico-crítica da Escritura deu aos marxistas o material para reduzirem toda a Divina Revelação a um fenômeno da luta de classes. Como essa luta agora foi redimensionada nos cânones da revolução sexual de gênero, a Escritura, portanto, pode ser lida, pelos pós-modernos, a partir de uma hermenêutica despatriarcalizante.

Ora, o absurdo dessa pretensão não é tanto a inversão cronológica (ler o passado imaginativamente a partir do presente, como descreve Butler em livro), mas a tentativa de ignorar a realidade concreta enquanto tal: ou seja, o patriarcado é um mito!

É, em função desse mito, se quer recalcular toda a Escritura e a Dogmática. O Verbo, nesse caso, não se teria tornado propriamente homem, visto que as categorias hibridizantes do masculino e feminino, como releva Boff em seu texto, teriam sido assumidas por Cristo, interpretando-se a sua humanidade sob chave freudiana. O Verbo não se teria feito homem, mas apenas humano.

Este é o poder de um mito: ressignificar a própria realidade para impor uma ideologia. Imaginar que as sociedades pré-tecnológicas pudessem ser matricarcais é tão somente um delírio, visto que a ascensão social feminina se deu propriamente como resultado do pregresso tecnológico. Isso é um fato simples e constatável!

Quando lemos os escritos antigos, como, por exemplo, a Economia do pseudo-Aristóteles, percebemos que as relações entre homem e mulher, ao contrário do que supõe o imaginário do mito do patriarcado, eram de divisão de competências, em que a complementaridade se dava não apenas no âmbito físico-biológico-reprodutivo, mas também doméstico-executivo. A família antiga era uma estrutura forte, em que o paterfamilias e a materfamilias se comportavam com certa proporcionalidade.

Como se pode ver claramente nos textos acima, a abolição do patriarcado equivale à simples extinção da família natural, no processo de secundarização da sociedade, em que a sua estrutura primária seria completamente superada por um tipo de organização coletivista. Se isso é péssimo para as famílias, é maravilhoso para os meta-poderes econômicos cujo interesse é diluir todas as estruturas para que os indivíduos se tornem átomos soltos, impessoais e despersonalizados, como uma mão de obra pura e simples no mercado. É a troca do nome pelo algoritmo, da pessoa pela função.

As Escrituras narram um processo claramente oposto. São Paulo no-lo diz em Efésios 3,14-15, quando confessa: “dobro os meus joelhos diante do Pai, do qual procede toda paternidade no céu e na terra”. A palavra aqui traduzida por “paternidade” é a palavra grega πατριὰ, patrìa. Poder-se-ia traduzi-la também por “patriarcado”?

O fato de que Deus não seja sexuado, mas lhe convenha a atribuição do masculino, nada tem a ver com a sexualização de Deus. Na arquetipia, Deus é ato e tudo o mais é potência, capacidade de receber o ser: ora, na gramática, não havendo sempre a possibilidade de adotar-se o gênero neutro (no português, aliás, quase não existe), adota-se aquele que a língua permite e que se adapte melhor à sua expressividade: como o masculino é a parte ativa na cópula e o feminino a parte passiva, simplesmente adota-se o masculino para Deus, sabendo que ele transcende essa realidade.

A luta de classes marxista foi substituída por uma luta de tipo metafísico, que alista a militância num tipo de ideal religioso, fundamentalista e imaginário: a crença numa entidade não localizada, anônima e atemporal, o patriarcado. Enquanto isso, toda a sociedade ruma para a perda dos direitos mais fundamentais e para o surgimento de um Estado Onipotente, que controla tudo, até o nosso modo de falar.

As classes pobres são as mais patriarcais. E isso é tão verdade que Marx mesmo os chamava de proletariado, palavra que vem de prole, filhos. Se “família” vem do latim famulus, servo, não é porque reduz todos os seus membros à servidão, mas porque, como menciona o pseudo-Aristóteles em sua Economia e Aristóteles em sua Política, essa unidade de produção fundamental é capaz de transformar até os servos em filhos, exatamente ao contrário do que faz o nosso sistema atual, que transforma os filhos em servos.

Salvar a família é a prioridade das prioridades. E todos precisamos rejeitar essas crendices e nos aferrar à norma da razão e da fé, tal como defende a Tradição da Santa Igreja Católica.

 
 
 

No entanto, a CNBB já havia esclarecido que o grupo feminista não é compatível com a verdadeira fé católica

Por Aleteia – Uma ONG pró-aborto ganhou na justiça brasileira o direito de se declarar “católica”, muito embora se posicione de modo explicitamente contrário a preceitos fundamentais do Catecismo da Igreja Católica.

Trata-se do controverso grupo que se intitula “Católicas pelo Direito de Decidir”.

Nesta última terça-feira, 30 de agosto, a Terceira Turma do Superior Tribunal de Justiça (STJ) derrubou uma anterior decisão que proibia o grupo de usar em seu nome a palavra “católicas”.

Essa anterior decisão havia sido tomada pelo Tribunal de Justiça de São Paulo (TJSP) em outubro de 2020, a pedido da Associação Centro Dom Bosco, uma organização leiga católica sediada no Rio de Janeiro. O TJSP havia reconhecido a incompatibilidade entre os propósitos da ONG e a religião católica.

De fato, a ONG contesta a doutrina da Igreja no tocante aos eufemisticamente denominados “direitos sexuais e reprodutivos das mulheres”, o que inclui o alegado “direito” ao aborto. Segundo a ONG, a defesa dessa posição ideológica não seria incompatível com “os valores do catolicismo”. Via Twitter, a ONG declarou:

“Atuamos com base na justiça, dignidade humana, liberdade de consciência e o direito de decidir, princípios democráticos, tanto quanto cristãos”.

A Igreja Católica, no entanto, é explícita na sua doutrina contrária ao aborto.

O número 2322 do Catecismo da Igreja Católica afirma que “desde que foi concebida, a criança tem direito à vida”, acrescentando que “o aborto direto, isto é, querido como fim ou como meio, é uma ‘prática infame’, gravemente contrária à lei moral. A Igreja pune com a pena canónica da excomunhão este delito contra a vida humana”.

O número 2272 explicita que, com essa punição, “a Igreja não pretende restringir o campo da misericórdia; simplesmente manifesta a gravidade do crime cometido, o prejuízo irreparável causado ao inocente que foi morto, aos seus pais e a toda a sociedade”.

Em sua sentença, a Terceira Turma do STJ se concentrou na alegada falta de “legitimidade ativa” da Associação Centro Dom Bosco para acionar a Justiça, considerando que somente a própria Igreja Católica seria a única entidade capaz de entrar com ação contra a ONG Católicas Pelo Direito de Decidir.

A relatora do processo, ministra Nancy Adrighi, afirmou que “ninguém pode pleitear direito alheio em nome próprio”, acrescentando que “a associação autora não é titular do direito que pretende ver tutelado, notadamente porque não possui ingerência sobre a utilização, por terceiros, da expressão católicas”.

O Centro Dom Bosco questionou essa interpretação. Seu presidente, Pedro Luiz de Affonseca, que é advogado e membro da União dos Juristas Católicos do Rio de Janeiro (UJUCARJ), declarou à agência de notícias ACI Digital:

“Todo fiel católico é membro da Santa Igreja, Corpo Místico de Nosso Senhor Jesus Cristo. Não se trata de pleitear direito alheio em nome próprio, mas direito próprio em nome próprio. Pelo raciocínio equivocado do STJ, a própria Conferência Episcopal dos Bispos do Brasil (CNBB) não teria legitimidade, pois não integra a hierarquia eclesiástica e o Magistério da Igreja. Mas cada um dos bispos, individual ou coletivamente, teria legitimidade, ou mesmo o núncio apostólico, representante da Santa Sé no Brasil”.

Quanto à ONG em questão, foi fundada em 1983 em São Paulo a partir do grupo feminista norte-americano Catholics for Choice (Católicos pela Escolha), que tem filiais em diversos países, particularmente na América Latina.

A conferência episcopal dos Estados Unidos já se pronunciou oficial e publicamente a respeito do fato de que essa ONG, muito embora insista em usar incoerentemente o termo “católicos” em seu nome, não é de fato católica.

CNBB também já emitiu nota oficial esclarecendo que o grupo feminista constituído no Brasil em 1993 não é compatível com a verdadeira fé católica. Leia também Alerta: “Católicas pelo Direito de Decidir” não são Católicas!

 
 
 
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