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A DEFINIÇÃO DOS LIVROS DA BÍBLIA

Fontes da Revelação Tomus Damasi

O decreto [Decretum Damasi], posteriormente incorporado ao decreto gelasiano [Decretum Gelasii], se não é do Papa Dâmaso, provavelmente foi redigido antes do ano 405, visto que, nesse ano, o Papa Inocêncio I, numa carta ao bispo Exupério datada de 20/02, atribuiu ao Apóstolo São João as três epístolas do cânon. Nenhum autor afinado com a prática romana poderia, depois de tal ano, atribuir ao evangelista só a primeira epístola e as duas seguintes a um presbítero João, como faz o nosso decreto. De qualquer modo, mesmo na hipótese de não ser autêntico, costuma-se reconhecer no decreto uma origem damasiana, ao menos quanto à substância.

Devemos agora tratar das divinas Escrituras, tanto no que toda a Igreja Católica aceita quanto no que deve ela recusar.

Ordem do Antigo Testamento: Genesis, um livro; Êxodo, um livro; Levítico, um livro; Números, um livro; Deuteronômio, um livro; Jesus de Nave, um livro; Juízes, um livro; Rute, um livro; Reis, quatro livros; Paralipômenos, dois livros; Cento e cinquenta Salmos, um livro; De Salomão, três livros; Provérbios, um livro; Eclesiastes, um livro; Cântico dos Cânticos, um livro. Continua: Sabedoria, um livro; e Eclesiástico, um livro. Série de profetas: Isaías, um livro; Jeremias, um livro; com Cinoth, isto é, suas Lamentações; Ezequiel, um livro; Daniel, um livro; Oséias, um livro; Amós, um livro; Miquéias; um livro; Joel, um livro; Abdias, um livro; Jonas, um livro; Naum, um livro; Habacuc, um livro; Sofonias, um livro; Ageu, um livro; Zacarias, um livro; e Malaquias, um livro. Série de histórias: Jó, um livro; Tobias, um livro; Esdras, dois livros; Ester, um livro; Judite, um livro; e Macabeus, dois livros.

Ordem das Escrituras do Novo e eterno Testamento que a Santa Igreja Católica reconhece [e venera]: os Evangelhos segundo Mateus, um livro; segundo Marcos, um livro; segundo Lucas, um livro; e segundo João, um livro. As Epísstolas de Paulo Apóstolo em número de 14: aos Romanos, uma; aos Coríntios, duas; aos Efésios, uma; aos Tessalonicenses, duas; aos Gálatas, uma; aos Filipenses, uma; aos Colossenses, uma; a Timóteo, duas; a Tito, uma; a Filemon, uma; e aos Hebreus, uma. Continua: o Apocalipse de João, um livro; e Atos dos Apóstolos, um livro. Série das epistolas canônicas, em número de sete: do Apóstolo Pedro, duas; do Apóstolo Tiago, uma; do Apóstolo João, uma; do presbítero João, duas; e do Apóstolo Judas zelote, uma. Conclui-se, assim, o cânon do Novo Testamento.

2) Antigos estatutos da Igreja (séc. V ?)

Trata-se de uma seleção de documentos anteriores oriundos de diversas fontes. Hoje comumente são datados da segunda metade do século V e atribuídos a Genádio de Marselha. Não é, portanto, um decreto conciliar, como durante muito tempo se pensou, mas tem grande autoridade pela enorme difusão que em pouco tempo conseguiu, tanto nas Galias como na Espanha. Trata-se de um documento que estabelece algumas bases de reforma, sobretudo do clero, muito necessitado dela, com 102 capítulos precedidos de uma introdução, que é a profissão de Fé exigida do bispo antes de sua sagração.

Sua importância não é tanto pela difusão que teve, mas pelo fato de que muitas de suas fórmulas, precisamente as que se referem aos Livros Sagrados, foram assumidas por diversos Papas em suas profissões de Fé. É o caso, por exemplo, da que foi proposta por Leão IX a Pedro, bispo de Antioquia, em 13/04/1053 e a de Inocêncio III ao bispo de Tarragona em 18/12/1208 a fim de que a subscrevessem Durand de Huesca e os valdenses. Outro exemplo é a profissão que foi lida por Gregório X na IV sessão do II Concílio de Lyon (06/07/1274).

Omitindo as transcrições posteriores, reportamo-nos unicamente ao texto original dos Statuta Ecclesiae antiqua, que confessa que Deus é o Autor dos livros do Antigo e do Novo Testamento. TEXTO: C. MUNIER, Les Statuta Ecclesiae antiqua (Bibl. De l’Institut de droit canonique de l’Université de Strasbourg 5), Paris, 1960, 77.

“[Ao novo bispo] deve-se também perguntar se crê que o Autor do Antigo e do Novo Testamento, isto é, da Lei dos Profetas e dos Apóstolos, é sempre o único e mesmo Deus (…)”. Concílio de Florença (XVII ecumênico) Bula Cantate Domino de Eugênio IV (sess. XI – 04/02/1442)

Enquanto em Basileia um pequeníssimo número de bispos continuava um simulacro de concilio, Eugênio IV decidiu convocar um Concílio de verdade em Ferrara para restabelecer a unidade com os orientais (XVII ecumênico). A assembleia se reuniu em Ferrara em janeiro de 1438, depois se transferiu para Florença e ali foram ultimados os decretos de união com os gregos (06/07/1439), com os armênios (22/11/1439) e com os jacobitas, assim chamados pelo nome do fundador, Jacó de Tella (Bar Addai), que os coptas e os etíopes seguiam desde o séc. VI. Neste último decreto (04/02/1442), foi diretamente abordado o problema do cânon, porque os jacobitas admitiam como inspirados também certos livros apócrifos. Professavam, além disso, uma espécie de maniqueísmo que diminuía o valor do Antigo Testamento, como se o Deus que o inspirou fosse um Deus de segunda categoria.

A Sacrossanta Igreja Romana professa que um só e mesmo Deus é o Autor do Antigo e do Novo Testamento, isto é, da Lei dos Profetas e também do Evangelho, porque os santos de um e de outro Testamento falaram sob a inspiração do mesmo Espirito Santo. Os Livros que ela (a Igreja) aceita e venera estão contidos nos seguintes títulos: (Será colocada a lista dos livros no próximo artigo).

Por esse motivo, a Igreja condena a loucura dos maniqueus, que estabelecem dois princípios primeiros: um das coisas visíveis; outro das invisíveis. Afirmam ainda que um era o Deus do Novo Testamento e outro o do Antigo.

No próximo artigo falaremos do Concílio.de Trento.+

 
 
 

O CÂNON DA SAGRADA ESCRITURA

Dando continuidade ao tema sobre as fontes da Revelação, iremos fazer alguns artigos, esse e mais um sobre as Sagradas Escrituras. Os textos sagrados do cristianismo se dividem em livros do Antigo e do Novo Testamento: os primeiros foram compostos antes de Cristo; os segundos, nos tempos apostólicos. Chamam-se sagrados porque são inspirados, isto é, escritos pelos respectivos autores sob influxo divino, de tal modo que, por essa razão, se pode afirmar que Deus é seu Autor. O conjunto dos Livros inspirados chama-se cânon da Sagrada Escritura.

a) O Antigo Testamento

Existem dois cânones do Antigo Testamento: palestinense (Biblia hebraica), compilado por Esdras e Neemias (cf. 2 Mc 2,13) no século IV a.C, no tempo de Artaxerxes, e fixado definitivamente no século I de nossa era pela Escola de Jâmnia. Foi usado na Palestina e era o único reconhecido como autêntico pelos fariseus. Compreende os livros mais antigos, chamados protocanônicos (a terminologia é de Sixto de Sena, ano 1569), num total de 38 livros; mas há autores que não concordam com o número, porque consideramos doze profetas menores um único volume, ou melhor, integram Rute e Lamentações respectivamente em Juízes e em Jeremias. Outros não desdobram o livro das Crônicas nem o de Esdras.

O cânon chamado alexandrino é a tradução grega dos Setenta e contém sete livros a mais que o anterior: Sabedoria, Eclesiástico [Sirac, Baruc, Tobias, Judite, 1-2 Macabeus e alguns trechos de Daniel e Ester (livros deuterocanônicos). Esta Biblia era a usada pelos judeus da diáspora e pelos primeiros cristãos. Os Apóstolos citam tanto uma como outra (cf. Tg 1, 19; 1 Pd 1, 6-7; Hb 1,3; 11, 34ss)

Durante muito tempo vingou entre os eruditos não católicos a teoria de que o cânon alexandrino tinha ampliado o cânon hebraico, ou palestinense. O chamado concilio de Jâmnia, localidade próxima à atual Jafa, não reconheceu este acréscimo, e por isso não reconheceu como inspirados os sete livros deuterocanônicos. Esta tendência era comum entre os reformadores do século XVI.

Recentemente, porém, graças sobretudo às descobertas de Qûmran, o Cânon tradicional católico foi confirmado, porque se descobriu que aquela comunidade hebraica dispunha de uma coleção semelhante à tradução dos Setenta. Não foram, portanto, os alexandrinos que ampliaram o catálogo dos Livros Sagrados, mas a Escola de Jâmnia que o reduziu.

b) O Novo Testamento

Quanto ao Novo Testamento, alguns de seus livros são citados como Escrituras no próprio texto (cf. 2 Pd 3,16; 1 Tm 5,18 comparado com Lc 10,7). Os Padres Apostólicos e os Apologistas do século II conhecem e citam quase todos os escritos do Novo Testamento e lhes atribuem uma autoridade semelhante ou maior ao do Antigo Testamento, porque contêm o ensinamento de Cristo e dos Apóstolos. Pelos anos 181-182 Teófilo de Antioquia equipara os Evangelhos à Lei e aos profetas “porque todos são inspirados pelo mesmo Espírito de Deus”, e por primeiro qualifica como palavra de Deus algumas citações das Epistolas de São Paulo’. Na segunda metade do século II Santo Irineu aplica aos Evangelhos o termo Escritura , e São Clemente de Alexandria já fala de Antigo e Novo Testamento”.

c) A fixação do Cânon

A determinação solene e universal do Cânon da Sagrada Escritura é obra do Concilio de Florença com a Bula Cantate Domino de 04/02/1442, mas ele já estava fixado, desde tempos remotíssimos, em documentos episcopais, sinodais e também papais, que recusavam os apócrifos e davam a lista completa dos escritos canônicos. Assim, por exemplo, a Carta Pascal de Santo Atanásio (367) relaciona todos os 27 livros do Novo Testamento, ai incluída a Epistola aos Hebreus, a segunda e terceira de São João e a de São Judas Tadeu, sobre as quais havia antes alguma dúvida. Em Santo Atanásio temos um testemunho autorizado do Oriente; no Ocidente temos a lista completa dos 45 livros do Antigo Testamento e dos 27 do Novo no decreto atribuído ao Papa São Damaso (382?), lista que se repete nos Concílios de Hipona (393) e de Cartago (397) e na carta do Papa Inocêncio I a Exupério, bispo de Toulouse (405), e, bem mais tarde, no sínodo “in Trullo” de 692.

d) Canonicidade e inspiração

Como o cânon da Sagrada Escritura é o conjunto dos Livros que a Igreja reconhece como sagrados, isto é, de origem divina, o problema da canonicidade é, no fundo, análogo ao da inspiração: são canônicos os Livros Sagrados, e são sagrados os que têm a Deus por Autor, e têm a Deus por Autor os que são inspirados por Ele. O exato conceito de inspiração aparece gradativamente nos documentos da Igreja, à medida que surgem inexatidões que o Magistério se sente na obrigação de retificar. Primeiro, fala-se simplesmente de Livros que se recebem e se leem na Igreja; é o que acontece com o fragmento de Muratori (fins do século II-início do III). Mais tarde, relacionam-se os textos que se podem ler com segurança na Igreja’, que o Concilio de Laodicéia (ano 360) chama canônicos. O decreto do Papa Damaso (382?) fala de livros ou “Escrituras divinas” [scripturis divinis]. O Concilio de Hipona (ano 393), seguido pelo de Cartago (ano 397), ao redigir a lista dos Livros canônicos precisa que estes e não outros são os que estão sob o nome de “Escrituras divinas” e que podem ser lidos na Igreja’. Os Statuta Ecclesiae antiqua (séc. V-VI) usam a fórmula “Deus Autor do Antigo e do Novo Testamento” repetida na profissão de fé Leão IX (1053) e em outras posteriores. Finalmente, concílio de Florença (1442) e o de Trento (1546) denominam inspiração o modo da intervenção divina na composição dos Livros Sagrados, e o Vaticano I, em 1870, explicita o conceito com maiores detalhes.

Este texto terá continuidade.

 
 
 

A PREGAÇÃO DE SÃO DINIS DECAPITADO NO CONTEXTO ALEGÓRICO MEDIEVAL

Neste presente artigo, vamos tratar de um personagem da História da Igreja. Trata-se de São Dinís, de Paris. Este personagem tem sido alvo de controvérsias devido a uma interpretação errada de sua morte e de sua iconografia (está segurando sua cabeça após ser decapitado, e continua pregando). Ele pode ser classificado como um dos grandes heróis da fé e da cultura medieval. A controvérsia existe tanto por parte de Católicos ou Protestantes devido à sua história não ser conhecida e compreendida da maneira correta. Tal controvérsia é descabida, pois, na própria Idade Média, sabia-se distinguir os estilos de linguagem. Dessa forma, para chegarmos até o desfecho da sua construção histórica, será necessário explicar como a sociedade medieval francesa escrevia e compreendia a literatura em todos os seus aspectos.

Uma boa parte da produção literária da Idade Média ficou em manuscritos por muito tempo nas bibliotecas, mas a Escola dos Analles mudou essa perspectiva, juntamente com a grande medievalista Régine Pernoud. A partir das pesquisas desses grandes historiadores, podemos hoje ter uma compreensão da cultura e mentalidade da sociedade medieval.

Observa-se que a Idade Média não havia ignorado a Antiguidade. “Horácio, Séneca, Aristóteles, Cícero e muitos outros são estudados e citados frequentemente e os principais heróis das literaturas antigas, Alexandre, Heitor, Piramo e Tisbe, Fedro e Hipólito, inspiraram, por seu turno, todos os autores medievais; as Metamorfoses e as Heroides, de Ovídio, foram traduzidas por várias vezes seguidas; sobretudo, a Idade Média amou profundamente Virgílio, manifestando nisso um gosto indiscutível, uma vez que Virgílio foi, sem dúvida, o único poeta latino digno deste nome. Mas, se se vê então na Antiguidade um reservatório de imagens, de histórias e de sentenças morais, não se vai ao ponto de a enaltecer como um modelo, como o critério de toda a obra de arte; admite-se que é possível fazer tão bem e melhor do que ela; admiram-na, mas preservar-se-iam de a imitar.” (Pernoud; P.109)

Em contrapartida, a literatura medieval francesa é fruto inteiramente da sua sociedade. Sem influência exterior relevante direta, reproduz seus menores contornos e mínimos detalhes.

“Todas as classes sociais, todos os acontecimentos históricos, todos os traços da alma francesa nela revivem, num fresco deslumbrante. É que a poesia foi a grande ocupação da Idade Média e uma das suas paixões mais vivas. Reinava por toda a parte: na igreja, no castelo, nas festas e nas praças públicas; não havia festin sem ela, nem festejo em que ela não desempenhasse o seu papel, na sociedade, universidade, associação ou confraria; permeava todas as classes da sociedade.”(Pernoud, 109)

“Se se pode falar, na Idade Média, de uma literatura do povo, de uma literatura clerical e de uma literatura da nobreza, isso deve compreender-se antes como uma nota dominante, pois, tanto nos seus criadores como no seu público, as obras em geral participam tanto de umas como de outras classes, com apenas um gosto mais marcado aqui ou ali.” (Pernoud, P. 111)

E este domínio literário é tão móvel quanto vasto. “Deparamos com extremas dificuldades quando queremos fazer uma edição critica de uma canção de gesta ou de um poema medieval. Também aí, parece que se fez mal em trazer para os textos da Idade Média um método que só convida às obras antigas ou modernas. Na realidade, há sempre, não uma, mas múltiplas formas de uma mesma obra” (Pernoud, P. 11), (…) “Para nós, uma obra literária é coisa pessoal e imutável, fixada na forma que o seu autor lhe deu: daí a nossa obsessão do plagiato.” (Pernoud, p.111)

Na Idade Média, o anonimato é corrente. Sobretudo, uma ideia, uma vez emitida, pertence imediatamente ao domínio público. Passa de mão em mão, ornamentada com mil fantasias, sofre todas as adaptações imagináveis e só cai no esquecimento quando dela se esgotaram os múltiplos aspectos. “O poema leva uma vida independente da do seu criador, é coisa móvel, e renascendo incessantemente; qualquer descoberta é retomada, modificada, amplificada, rejuvenescida, com o movimento e a animação que caracterizam a vida.” (Pernoud, 111)

“Ao lado destes temas universais, alguns temas são especiais da literatura da Idade Média. Entre outros, a mágica; assiste-se a um transbordar da imaginação; o mundo real e os seus tesouros não bastaram à inspiração dos contistas: foi-lhes necessário beber da fantasmagoria e semear de maravilhas a vida dos seus heróis. Bem frequentemente, estes pormenores imaginários são apenas figuras encobrindo altas verdades. A alegoria está entre estas: podemos achar artificiais estas evocações de qualidades abstratas, este modo de fazer falar Doce Pensar e Falso Parecer, de invocar Esperança e de mal dizer Desconfiança ou Traição. É, em todo o caso, mais um indício dessa vida prodigiosa que anima as letras medievais e que dá uma alma, um corpo, uma linguagem a todas as coisas, mesmo às mais imateriais. Sabe-se qual foi o gosto da época por tudo aquilo que é concreto, pessoal, visível. O processo alegórico, que se alia curiosamente ao culto da imagem, manifesta este gosto mais uma vez (….) A alegoria parece ser apenas a transposição de um mundo invisível, ao qual damos de novo um lugar de eleição.” (152)

Temos, além do mais, de contar com essa aptidão, bem medieval para procurar o sentido oculto das coisas, para ver na natureza nos símbolos. “Para os nossos antepassados, a história natural propriamente dita apenas apresentava um interesse muito secundário (…) toda a manifestação de uma verdade espiritual, ao contrário, cativava-os no mais alto grau; de tal modo que a sua visão do mundo exterior não passa, as mais das vezes, de um simples suporte para dar suporte às lições morais: assim acontece com esses bestiários em que, ao descrever animais — tanto os mais familiares como os mais fantásticos — os autores veem nos seus hábitos, reais ou supostos, a imagem de uma realidade superior. O licorne, que só uma virgem pode acorrentar, representa para eles o Filho de Deus encarnando no seio da Virgem Maria: o galo canta para anunciar as horas:”(152)

“O onocentauro, metade homem e metade asno, é o homem arrastado pelos seus maus instintos; o nycticorax, que se alimenta de dejetos e de trevas e que só voa em movimentos de recuo, é o povo judeu virando as costas à Igreja e atingido pela maldição; a fénix, ave única e de cor púrpura, que morre numa fogueira e que ao terceiro dia ressuscita das cinzas, é Cristo vencendo a morte.”(152)

“O conjunto, de uma poesia sombria dá exatamente a medida do que o homem da Idade Média gostava de descobrir na natureza: “não um sistema de leis e de princípios cuja classificação, provavelmente, o teria aborrecido, a supor que a tivesse conhecido, mas um mundo fremente de beleza, profuso e secreto”.(153

Certa ou erradamente, colocavam no mesmo plano a verdade histórica e a verdade moral – preferindo, se necessário fosse, esta àquela. “Pense-se, por exemplo, no popular da Idade Média, de São Jorge vencendo o dragão. A questão de saber o que poderia ter sido exatamente esse dragão monstruoso e qual o grau de autenticidade que lhe devia ser atribuído nem sequer aflorava os espíritos da época. O que importava era a lição de coragem que essa luta lendária deve inspirar ao cavaleiro cristão. Por um processo análogo, os sermonários da época atribuem imensos pormenores miraculosos aos santos que elogiam e atribuem indiferentemente a um ou a outro este ou aquele milagre. São Dinis decapitado, segurando a cabeça debaixo do braço, teria tido numerosos imitadores. Porém nem o público nem o predicador se deixavam iludir, e seria uma grande ingenuidade tomá-los à letra: o essencial para eles não era a exatidão do pormenor, mas a verdade do conjunto e da lição a tirar.(153 “Não podemos expressar, pensar e compreender sequer a nossa própria experiência a não ser dentro dos limites do nosso poder sobre a linguagem – e esses limites foram estabelecidos para nós pelos nossos grandes escritores.” Northrop Frye, na citação acima, faz uma importante revelação, a de que a literatura nos ensina sobre as experiências humanas através da imaginação.

Em Huizinga, vemos Jean Gerson tratar de problemas de superstição e crenças populares. “Uma forma mecânica com que se tendia a multiplicar quando não havia nenhuma interferência de uma autoridade rígida”. “Jean Gerson toma esse costume como motivo para um tratado contra a superstição de um modo geral (…)”.(p.251)

“Ele foi um dos que enxergam nitidamente o perigo representado pela proliferação de ideias religiosas para a Igreja. Com o seu espirito aguçado, e de certa forma sensato, ele também percebe algo do fundamento psicológico que favorece o surgimento de todas essas crenças.”(p.251)

Elas nascem ex sola hominum phantasiatione et melancholica imaginatione exclusivamente da fantasia e da imaginação melancólica das pessoas: é uma corrupção da força imaginativa causada por uma lesão cerebral interna e esta, por sua vez, resultado de inspirações diabólicas. Assim, o diabo acaba por conseguir seu quinhão.

“Trata-se de um processo de contínua redução do infinito às coisas finitas, uma desintegração do milagre em átomos.”(p.251) Para concluir, podemos recorrer à obra de Daniel Rops. Nela podemos encontrar o relato do martírio de São Dinís, junto com seus companheiros: “É no entanto, à perseguição de Décio que as mais respeitáveis tradições ligam o martírio de São Dinís – bispo de Paris, que teria sido decapitado no lugar que ainda hoje tem o seu nome, juntamente com os seus companheiros Rústico e Eleutério(…)”. Não existe nenhuma menção ao Santo decapitado andando e pregando; essa é uma mensagem alegórica, e assim deve ser observada.

PERNOUD, Régine; Luz sobre a Idade Média HUIZINGA, Johan; o outono da Idade Média ROPS, Daniel; A Igreja dos Apóstolos e mártires

 
 
 
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