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A CONVERSÃO DOS VIKINGS

Você gostou do filme Thor? Deveria agradecer a Igreja Católica por saber que existiu uma mitologia nórdica, quer saber o motivo? Leia com atenção está narrativa da História cultural.É muito recorrente na historiografia contemporânea observarmos acusações de que a cultura europeia com seu cristianismo ocidental não respeitou outras culturas, e tentou acabar com a cultura que encontrou nas Américas, África e extremo oriente, isso não tem como se sustentar quando observamos a construção da Europa como um continente pluralista, na questão religiosa e cultural, sua religião foi convertida ao Cristianismo, mas sua cultura foi mantida pelo próprio Cristianismo, através dos padres que escreviam os detalhes da sua cultura e mitologia, vejamos.

Snorri Sturluson foi um historiador e político que compôs as Eddas e outras obras mitológicas e históricas, elas são as principais fontes sobre a mitologia nórdica. Sturluson foi criado em Oddi, principal centro cultural e de aprendizagem da Islândia onde foi estabelecida uma igreja desde a introdução do cristianismo no país, e posteriormente uma escola pelo padre Saemundr Frooi. Lá ele teve toda sua educação em latim e teve contato com obras e tradições mitologicas, dentre elas as sagas dos reis nórdicos escrita pelo padre Saedmundr.

Posteriormente mudou-se para Reykholt, também outro foco de cristianização da Islândia, onde compilou outras obras na escola da histórica Igreja. Podemos extrair duas coisas  disso tudo: que a Igreja Católica  nunca matou  cultura alguma, mas sim enriqueceu-las.  A outra é que sem o catolicismo, a que tanto atacam a Igreja e fazem apologia a  crenças pagãs sequer conhecerían-nas.

Aqui podemos verificar algumas citações acadêmicas:  “Seu relato é colorido por sua educação cristã, que o teria ensinado a esperar que uma religião fosse sistema de crenças coerentes “ (Faulkes, A. (2005). Edda – Prologue and Gylfaginning. London:

Viking society for northern research, University College London.) “Essa tentativa de criar um relato único e unificado de algo que é múltiplo por excelência, é provavelmente o resultado de uma visão cristã unificadora das coisas. O cristianismo não funciona com várias versões: a doutrina trabalha com revelações, com versões únicas e verdadeiras de coisas que estão contidas na Bíblia. Tendo em mente que Snorri tinha uma Educação cristã, tanto na religião quanto no modo de pensar, o cristianismo também teve um impacto na Prosa Edda, na medida em que agiu através da visão do autor sobre o material no qual ele escreve: ele estava tentando fazer uma conjunção difusa de histórias que se encaixam, transformando o múltiplo em um, fazendo sentido coerente de uma multidão de contos conflitantes. Ou seja, mais uma vez, aplicar uma visão cristã  unificadora e centralizadora de um material disperso oral antigo” “De fato, uma ironia da mitologia escandinava é que sem o cristianismo, isso não teria sido registrado, pois a Igreja trouxe a cultura e tecnologia da escrita” (Lindow, J. (2005). Mythology and Mythography. In: Old Norse-Icelandic literature – a critical guide. Toronto: University of Toronto Press)

“A igreja era realmente responsável por trazer a cultura literária e o alfabeto latino para Escandinávia. Sabe-se que os escandinavos usavam um alfabeto rúnico em tempos pré-cristãos, mas estes não foram utilizados para fins literários, apenas para inscrições menores em utensílios, armas, pedras memoriais e talvez rituais mágicos. Somente após a vinda do cristianismo começou a vasta produção literária na região. Este processo concretizou-se graças às mudanças trazidas pela Igreja tanto culturalmente, com a difusão do hábito de ler e escrever entre uma minoria educada, bem como tecnicamente, com as habilidades necessárias para produzir pergaminhos com pele de animal, tinta e pena, e o mais importante, a já mencionada introdução do alfabeto latino”

(Clunies Ross, M. (2010). The Cambridge Introduction to the Old Norse-Icelandic Saga. Cambridge: Cambridge University Press.) “”é importante enfatizar que a tradição oral não deixou de existir ao mesmo tempo dando lugar a escrita. Pelo contrário, ambas as formas coexistiram. Assim, podemos imaginar a influência da vinda do cristianismo nas tradições [orais e escritas]. ”

(Palamin, F. (2011). Edda em Prosa, Snorri Sturluson e suas influências cristãs. Anais do III Encontro nacional do GT História das Religiões e das Religiosidades – Questões teórico-metodológicas no estudo das religiões e religiosidades. Revista Brasileira de História das Religiões, 3, 9.)

“As elsewhere in Europe, once Iceland had been brought within the family of the Catholic Church it acquired with it the Church’s technology of reading and writing and its international literature of learning, philosophy, and long, well-structured stories of saints and distant lands and peoples. But, for whatever reason, in Iceland things were different: having gained the new technology and the learning that went with it, the Icelanders were not content merely to translate and reproduce the literature the Church supplied them with, but set about exploiting their newly acquired skills to write down their own stories and poems as well as to create new ones.” (Sigurðsson, G. (2004). The Medieval Icelandic Saga and Oral Tradition: A Discourse on Method)

 
 
 

A IGREJA, A IDADE MÉDIA E O ENSINO

Vivemos no século XXI, mas observando o nível de informações acerca da Idade Média, têm-se a impressão que estamos em pleno iluminismo, a revolução francesa parece que está no senso comum, certamente nem o mais otimista dos forjadores de de mitos e lendas do iluminismo acreditaria que suas mentiras estão sendo usadas no século XXI.

Vamos analisar neste artigo a questão da educação na Idade média, pode-se perceber que foi um momento de grande apoio aos mais pobres na educação, para este artigo vamos observar a obra de Régine Pernoud, está historiadora nos traz a seguinte narrativa sobre a criança. “A criança, na idade Média como em todas as épocas, vai a escola. E, em geral, a escola da sua paróquia ou do mosteiro mais próximo. Com efeito, todas as igrejas agregam a si uma escola, o concilio de Latrão, em 1179, faz-lhes disso uma obrigação estrita, e é uma disposição corrente, ainda visível em Inglaterra, país mais conservador do que o França, encontrar reunidos a igreja, o cemitério e a escola. Frequentemente também, são as fundações senhoriais que asseguram a instrução das crianças: uma aldeiazinha das margens do Sena, Rosny, tinha, desde o inicio do século XIII, uma escola fundada por volta do ano 1200 pelo seu senhor, Guy V Mauvoisin.”(p.95)

Aqui observasse a relação cultural nas aldeias e problemas de relações entre professor e alunos, sempre um professor deve ser impor, e zelar pela disciplina em sala de aula>

“Por vezes, também, trata-se de escolas puramente privadas: os habitantes de um lugarejo associam-se para sustentar um professor encarregado de ensinar as crianças; um pequeno texto divertido conservou-nos a petição de alguns pais solicitando a demissão de um professor, que não tendo sabido fazer-se respeitar pelos seus alunos é por eles desrespeitado, ao ponto de eum peugeot grafionibus – de eles o picarem com os seus grafiones, os estiletes com os quais eles escrevem nas suas tabuinhas revestidas de cera.” (P.95).

Observasse que as escolas monásticas tiveram talvez ainda mais renome, em Paris, encontram-se desde o século XII três séries de estabelecimentos escolares: “a escola Notre-Dame, ou grupo de escolas do bispado, cuja direção é assumida pelo chantre para as classes elementares e pelo chanceler para o grau superior, as escolas das abadias como Sainte-Geneviève, Saint-Victor ou Saint-Germain-des-Prés enfim, as instituições particulares abertas pelos professores que obtiveram a licença de ensino, como Abelardo, por exemplo.”

A autora nos informa que a criança era ai admitida com sete ou oito anos de idade e o ensino que preparava para os estudos da Universidade estendia-se como hoje por uma dezena de anos: são os números que o abade Gilles le Muisit dá. Os rapazes eram separados das moças, que tinham, em geral, os seus estabelecimentos particulares, menos numerosos talvez, mas onde os estudos eram muito ativos. “A abadia de Argenteuil, onde foi educada Heloisa, ensinava as moças a Santa Escritura, as letras, a medicina e mesmo a cirurgia sem contar o grego e o hebraico que Abelardo lá ensinou. Em geral as pequenas escolas proporcionam aos seus alunos as noções e gramática, de aritmética, de geometria, de música e de teologia que Ihes permitiriam aceder às ciências estudadas nas Universidades; é possível que algumas tenham comportado uma espécie de ensino técnico”. A Histoire Littéraire cita, por exemplo, a escola de Vassor na diocese de Metz, na qual, “aprendendo a Santa Escritura e as letras, se trabalhava o ouro, a prata, o cobre¹.

Nas fontes primárias observasse as recordações de Gilles le Muisit, ele lembrando as suas recordações de juventude; é que, de facto, nessa época as crianças de todas as<>a da sociedade eram instruídas juntas, vê-se uma anedota célebre que mostra “Carlos Magno sendo severo para com os filhos dos barões que mostra que se mostravam preguiçosos, ao contrário dos filhos dos servos pobres. A única distinção estabelecida consistia nas retribuições pedidas, sendo o ensino gratuito para os pobres e pago para os ricos. Esta gratuidade podia prolongar-se, vê-lo-emos, por toda a duração dos estudos, e mesmo para o acesso ao ensino, uma vez que o concilio de Latrão, já citado, proíbe às pessoas que têm a missão de dirigir e tomar conta das escolas «de exigir dos candidatos ao professorado uma qualquer remuneração pela outorga da licença».”

Há aliás, pouca diferença, na Idade Média, na educação dada às crianças de diversas condições; “os filhos dos vassalos menores são às crianças de diversas condições na residência senhorial juntamente com os do suserano, ricos burgueses são submetidos à mesma aprendizagem que o último dos artesãos, se querem tomar conta, por sua vez, da loja paterna. É sem dúvida por isso que temos tantos exemplos de grandes personagens saídos de famílias de condição humilde: “Suger, que governa a França durante a cruzada de Luís VII, é filho de servos; Maurice de Sully, o bispo de Paris que mandou construir Notre-Dame, nasceu de um mendigo; São Pedro Damião, na sua infância, guarda porcos, e uma das mais vivas luzes da ciência medieval, Gerbert d’Aurillac, é igualmente pastor; o papa Urbano VI é filho de um pequeno sapateiro de Troyes e Gregório VII, o grande papa da Idade Média, de um pobre pastor de cabras. Inversamente, muitos dos grandes senhores são letrados cuja educação não devia diferir muito da dos clérigos: Roberto, o Piedoso, compõe hinos e sequências latinas; Gui Thermix, príncipe da Aquitania, é o primeiro, cronologicamente, dos trovadores; Ricardo Coração-de-Leão deixou-nos poemas, assim como os senhores de Ussel, dos Baux e tantos outros – para não falar de casos mais excepcionais, como o do rei de Espanha Afonso X, Astrônomo, que escreve sucessivamente poemas e obras de direito, faz progredir notavelmente os conhecimentos astronômicos da época com a redação das sua a das suas Tables Alphonsines [Tábuas Afonsinas), deixa uma vasta Chronique [Crónica] sobre as origens da História de Espanha e uma compilação de direito canónico e de direito romano e foi o primeiro Code [Código] do seu país.

Vemos estudantes mais capacitados, irem naturalmente para às Universidade; e cada um escolhe sua especialidade, em Montpellier, é a medicina; desde de 1181que Guilherme VII deu a qualquer particular, quem quer que seja e venha de onde vier, a liberdade de ensinar está arte, desde que apresente as garantias de saberes suficientes. Em Orleans a especialidade é o direito canônico, Bolonha o direito Romano. Mas é Paris o centro dos estudos de toda Europa, são recebidos estudantes “da Alemanha, Itália, Inglaterra, Dinamarca e Noruega.

Estas Universidades são criações da Igreja Católica. A bula Parens scientiarum de Gregório IX pode ser considerada como a carta de fundação da Universidade medieval, com os regulamentos promulgados em 1215, pelo cardeal-núncio Roberto de Courçon, agindo em nome de Inocêncio III, e que reconheciam explicitamente aos professores e aos alunos o direito de associação. Criada pelo papado, a universidade tem um carácter inteiramente eclesiástico: os professores pertencem todos à Igreja, e as duas grandes ordens que ilustram século XIII, Franciscana e Dominicana, e serão frequentadas por um S. Boaventura e um S. Tomás de Aquino; os alunos, mesmo aqueles que não se destinam ao sacerdócio, são chamados clérigos, e alguns deles usam a tonsura –o que não quer dizer que aí apenas se ensine a teologia, uma vez que o seu programa comporta todas as grandes disciplinas científicas e filosóficas, da gramática à dialética, passando pela música e pela geometria.

Nas universidade os professores e estudantes formam um corpo livre. Filipe Augusto tinha, desde o ano 1200, tirado os seus membros da jurisdição civil, estes professores, alunos e mesmo os criados destes dependem apenas dos tribunais eclesiásticos, o que é considerado um privilégio e consagra a autonomia desta corporação de elite. Professores e estudantes estão, portanto, inteiramente isentos de obrigações relativas ao poder central; administram-se a si próprios, tomando em comum as decisões que lhes respeitam e gerem a sua tesouraria sem nenhuma ingerência do Estado. É esta a característica essencial da Universidade medieval e, provavelmente, aquela que mais a distingue da de hoje. “A universidade, mais ainda do que nos nossos dias, é, na Idade Média, um mundo turbulento.”

Vemos na Idade Média a internacionalização do saber, isso se deveu unicamente pelo Cristianismo, continua Pernoud a nos informar que toda Europa era agraciada com o desenvolvimento de todas as artes liberais e conhecimentos científicos.

“É também um mundo cosmopolita; as quatro «nações» entre as quais estavam repartidos os clérigos parisienses indicam-no suficientemente: havia os Picardos, os Ingleses, os Alemães e os Franceses.

Os estudantes vindos de cada um destes países eram, portanto, suficientemente numerosos para formar um grupo que tinha a sua autonomia, os seus representantes, a sua atividade particular; fora disto, assinalam-se correntemente nos registros nomes italianos, dinamarqueses, húngaros e outros. Os professores que ensinam vêm, também eles, de todas as partes do mundo: Siger de Brabant, Jean de Salisbury usam nomes significativos; Alberto Magno vem da Renânia, S. Tomás de Aquino e S. Boaventura, de Itália.”

Não há, então, obstáculo às trocas de pensamento, e só se julga um professor pela amplidão do seu saber. “Este mundo matizado possui uma língua comum, o latim, o único falado na Universidade; é, sem dúvida, o que lhe evita ser uma nova Torre de Babel, apesar dos grupos diversificados de que é composta; o uso do latim facilita as relações, permite aos sábios comunicar de uma ponta à outra da Europa, dissipa, de antemão, qualquer confusão na expressão e salvaguarda também a unidade de pensamento. Os problemas que apaixonam os filósofos são os mesmos, em Paris, em Edimburgo, em Oxford, em Colónia ou em Pavia, ainda que cada centro e cada personalidade lhes imprimam o seu carácter próprio. Tomás de Aquino, vindo de Itália, em Páris acaba de esclarecer e de ultimar uma doutrina cujas bases ele concebera escutando, em Colônia, as lições de Alberto Magno. Nada se parece menos com um vaso fechado, vemo-lo, do que a Sorbonne do século XIII.” PERNOUD, Pernoud. Luz sobre a Idade Média. Europa-América publicações Ltda, Lisboa, 1996.

 
 
 
  1. O Preconceito humanista Muitos são os autores e estudos que concluem, sobretudo nos aspectos culturais e sociais, que a Idade Média foi uma era decadência. Há historiadores que publicaram estudos com atribuições ao período que vão desde “aquele em que a humanidade não tomou banho” (BESSELAAR, 1974; p. 89 – 95), ou a recorrente alegação de que seria esta a “Idade das Trevas” (FRANCO JÚNIOR, 2016; p. 17 – 19), ou até mesmo a “civilização da barbárie” (INÁCIO & LUCA,1988; p.7). Neste mesmo aspecto, encontra-se ainda menções sobre a falta de liberdade e de direitos das mulheres, perseguições sistemáticas das pessoas que pensavam diferente da Igreja Católica e sua “repulsa pela ciência e pela educação”. Por outro lado, identificam-se referências que atribuem a esta mesma Igreja o reconhecimento de dignidade humana a todos os homens, através de uma motivação à educação na Idade Média; fontes históricas atestam que, neste período, as universidades foram estimuladas semeando as bases da academia moderna; a criação de um direito canônico que pôde ser adaptado aos costumes senhoriais; ou ainda, no final da Idade Média, é possível enxergar as origens do direito internacional com a descoberta do novo mundo (PERNOUD 1996; p.63-74). Os hospitais, por exemplo, muitos historiadores testemunham que “parece dever-se à Igreja a fundação das primeiras instituições atendidas por médicos, onde se faziam diagnósticos, se prescreviam remédios e um corpo de enfermagem” (WOODS JR., apud ALVIN J. SCHMIDT, 2014; p.153). Os direitos humanos individuais, igualmente, tem grandes contribuições da Idade Média, assim como grandes conquistas nas artes, na literatura, nas instituições, na arquitetura nas relações internacionais, todas essas contribuições são visíveis e tem influência no nosso mundo contemporâneo (WOODS JR., 2014; p.179). Para efeito de melhor compreensão desta exposição, importa desvendar a origem desta imagem, que é o que se tem por senso comum histórico nos tempos contemporâneos. Primeiramente, é prudente compreender as influências e produções culturais do movimento humanista chamado renascença, principal fonte dos escritos e estudos utilizados para a qualificação (ou desqualificação) do impacto científico-cultural da Idade Média. A ocorrência do termo “Idade das Trevas”, por exemplo, é atribuída por Hilário Franco à renascença, como consequência de um sentimento identitário de superioridade cultural, em relação ao período medieval: No caso do que chamamos de Idade Média, foi o século XVI que elaborou tal conceito [depreciativo e anticientífico]. Ou melhor, tal preconceito, pois o termo expressava um desprezo indisfarçado em relação aos séculos localizados entre a Antiguidade Clássica e o próprio século XVI. Este se via como o renascimento da civilização greco-latina e, portanto, tudo que estivera entre aqueles picos de criatividade artístico-literária de seu próprio ponto de vista, é claro não passara de um hiato, de um intervalo. Logo, de um tempo intermediário, de uma idade média” (FRANCO,2016: p.11).

Delumeau (2017), por exemplo, nos apresenta Petrarca (intelectual humanista italiano do renascentismo) como o criador da noção do tempo obscuro a respeito dos tempos medievais:

[…]que iria durante muito tempo dominar a interpretação da história medieval. Qualificava de «antiga» a época anterior à conversão de Constantino e de «moderna» a posterior, a qual perdurava ainda no século XIV. Ora, para Petrarca, esta idade moderna caracterizava-se pela «barbárie» e pelas «trevas»; ao mesmo tempo, nutria uma admiração apaixonada e quase romântica pelo passado romano”(DELUMEAU, 2017: p.73).

O movimento renascentista nasce sediado na península itálica na crise feudal (séc. XIV-XVI), sob a influência de egressos bizantinos. A presença bizantina pode ser observada em diversos períodos da história europeia. O imperador romano Justiniano (em 535 d.C) terá começado a conceber um verdadeiro programa de restauração do império, que teve como grande alvo a Península Itália. Anos mais tarde (entre 541/42 e 552), a Guerra Gótica (535 d.C a 554 d.C) entraria no que pode se considerar uma segunda fase, com o Rei Totila (rei ostrogodo da Itália) contando com a cumplicidade dos Francos, valendo a Bizâncio a grande capacidade do General Narsés (um camareiro e eunuco pró-monofisita, que era o favorito de Teodora – Imperatriz bizantina – e um homem muito rico), o qual obteve vitórias decisivas em Busta Gallorum – batalha entre ostrogodos e bizantinos em 552, mesmo ano em que Totila encontrou a morte – e na batalha de Mons Lactarius (Salerno), no mesmo ano (MONTEIRO et al, 2016). Este sucesso significou a reentrada da Itália no Imperium Romanum e permitiu a Justiniano, em 554, a reorganização da região, com a promulgação da Constitutio (legislação imperial). Na Hispânia, Justiniano interveio a partir de 552, a pedido do rei visigodo Atanagildo, em revolta contra o rival Agildo; os Bizantinos aproveitaram para se apoderar de Cartagena, de Málaga e de Córdova, assim como do respetivo hinterland; um domínio que, todavia, não conseguiriam manter por muito tempo. Com a queda de Constantinopla em 1453, deu-se o surgimento do Império Turco Otomano, de modo que uma grande elite intelectual de homens bizantinos instruídos nas letras e nas artes migrarem para a Itália, levando para essa região muitos dos elementos da cultura clássica antiga, que fora preservada em Constantinopla. Com isso, exercendo uma grande influência na região da Itália, irromperam o primeiro elemento para o início do movimento renascentista (MONTEIRO; GONÇALVES; GOMES, 2016; p. 64-66-70), além da influência que os cruzados receberam do império bizantino no período das cruzadas (ROPS, 2014; p. 533). A região de Florença, na Itália, foi o epicentro do novo movimento renascentista. Esta cidade tinha o prestígio de ser a base de um movimento de renovação cultural, baseado no humanismo e na reinterpretação dos valores greco-romanos. A conjuntura histórico-sociológica foi a causa do pioneirismo italiano, fazendo-o um grande centro comercial; a consequência foi o formação de uma poderosa classe mercantil, bem como intensa atividade urbana e cultural, herança da antiguidade romana: obras, movimento e história. Dirá-nos o renomado medievalista Delumeau que “o renascimento definiu-se a si mesmo como um movimento virado para o passado – sentido aparentemente oposto ao do nosso mundo moderno, virado para o progresso. O Renascimento queria regressar às origens do pensamento e da beleza” (DELUMEAU, 2017; p.73). A tendência de um discurso de competição dos renascentistas em relação à produção cultural do medievo gerou, entre outras coisas, um arcabouço intelectual de “correligionários” de pensamento convergente e mutuamente referenciado e, por isso, não suficientemente profundo e abrangente a respeito da Idade Média. Há que se considerar que, a consequência disso é a limitação da intelectualidade dos grandes expoentes renascentistas. Delumeau dirá, à respeito do mesmo Petrarca – a quem se atribui a tese do obscurantismo medieval – e suas limitações nas letras que “[…]continuava Cortese, a informação que chega aos dias atuais é de que Petrarca não escrevia em latim suficientemente clássico. Porque nos devemos admirar? «Ao homem nascido no lodo acumulado por todos os séculos, faltavam os ornamentos da arte de escrever. Desde então, fizeram-se progressos” (DELUMEAU, 2017; p.74). A renascença avançou também em outros países europeus, o que se deu a partir do final do século XV. Adotou-se também fora da Itália a noção de um renascimento literário alcançado pelo regresso aos autores da antiguidade. Fazendo uso de formas mais terrenas, imanentistas e concretas, o humanista tinha características bem definidas a respeito de pensar a ciência, a moral, a religião com uma preocupação voltada totalmente ao homem e seu bem-estar individual. Antropocentrismo, resultado desse movimento filosófico-cultural, é aquele caracterizado pelo homem que passa a ser visto como o centro do Universo, e a negação do teocentrismo medieval foi uma das suas características principais, além do individualismo social, motivador da valorização da capacidade de criação e o espírito de competição; o que parece ser a mola propulsora do capitalismo moderno. O racionalismo (característica do antropocentrismo) ganhou uma posição de destaque ao colocar a ciência numa posição superior à religião, onde o experimentalismo passa a estar acima da fé (dogmas). Delumeau nos informa sobre um francês, Jean Despautière, no prefácio do seu Ars versificandi (1516), reconhecia sem dificuldade que tinha sido Petrarca “quem, não sem inspiração divina, inaugurara, por volta do ano 1340, a guerra declarada aos Bárbaros e, lembrando as musas esquecidas, estimulara vigorosamente o estudo da eloquência” (DELUMEAU, 2017; p.74). Todavia, segundo a informação de Delumeau, acreditavam os renascentistas que estavam em uma “guerra aos Bárbaros”. Daí a importância de Erasmo, estamos falando aqui de Erasmo de Roterdã, muitas vezes considerado fora da península itálica de acordo com a expressão de Guillaume Budé (carta de 1517), como co-pai do começo que se deu no nosso tempo». Esta opinião era partilhada por Jacques Charron (ator e diretor de cinema francês) que, quando reeditou os Adágios em 1571, afirmava no prefácio: «Ele [Erasmo] foi o primeiro que resgatou as boas letras na época em que começavam a renascer e a emergir do seu lodo bárbaro. Todavia, com a ajuda do orgulho nacional, foi com Francisco I (Rei da França) que muitos escritores franceses atribuíram o renascimento das letras no seu país. Jacques Amyot dedicava a Henrique II a sua tradução das Vidas de Homens Ilustres, de Plutarco, e declarava: «O grande rei Francisco, teu pai, fundou feliz mente as boas letras e fê-las renascer e florescer neste nobre reino.>> Mas o termo «Renascimento» tem ainda uma ressonância estética que deve aos humanistas e aos artistas da época. A este respeito, Filippo Villani, que compôs no final do século XIV um Livro dos cidadãos famosos da cidade de Florença (DELUMEAU,2017; p. 74). Como pudemos verificar os renascentistas tinham um elevado espírito corporatista e contemporâneo, beirando prepotência. Desenvolveram as bases de seu movimento cultural em uma visão revanchista para com a Idade Média, desconsiderando a contribuição de um passado composto por grandes homens e mulheres que construíram as letras e uma arte. Ainda sobre as mesmas artes Filipo Villani, o mesmo, em sua obra faz o elogio dos pintores florentinos «que recuperaram as artes anémicas e quase extintas», a começar por Cimabue que soube reconduzir a arte à semelhança com a natureza – ambos filhos do medievo. Depois dele, estando assim aberto o caminho para uma arte nova, Giotto, que não só considera a comparação com os ilustres pintores da Antiguidade, mas que os supera em talento e em gênio, devolveu à pintura a sua antiga dignidade e o seu mais elevado renome.

 
 
 
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