A arqueologia e a torre de Babel
A construção da Torre de Babel é uma das passagens mais curiosas e conhecidas de toda a Bíblia, que durante muito tempo foi alvo de críticas e desconfiança se de fato aquela narrativa havia acontecido. Mas descobertas arqueológicas, cada vez mais, tem ajudado a entender melhor a narrativa bíblica e demonstrar a veracidade de diversas histórias, dentre elas o episódio da Torre de Babel.
O Contexto bíblico
Após o dilúvio, Deus ordenou que o homem se espalhasse e povoasse a terra (Gen 9:7). Mas contrariando a ordem de Deus, aquela população, os descendentes de Noé, resolveu se unificar, edificando uma cidade na planície de Sinar (Suméria). A cidade de Babel foi fundada por Ninrode, que também fundou as cidades de Ereque, Acade e Calné. Ele é um personagem bíblico descrito como o primeiro poderoso na terra (Gen 10:8)
No mundo pós-dilúvio, todo falavam a mesma língua (Gen 11:1), e movidos pelo sentimento de eternizar seus nomes (v.4), e alcançar “o cume dos céus”, começaram a construir a Torre de Babel, para evitar serem espalhados pela terra. E devido a essa desobediência, Deus “confundiu” a língua daquele povo (v.7) e os espalhou pela face da terra , conforme seu propósito inicial (v.8).
O contexto histórico da Suméria Na região da Suméria, junto aos templos das cidades, homenageando o seu deus patrono, eram erigidas enormes torres em forma piramidal chamadas zigurates. Os zigurates eram para os sumérios como uma espécie de link entre o céu e a Terra. Como torre, e mais tarde como torre-templo, o zigurate se espalhou pela Babilônia, e se tornou apresentação característica de arquitetura eclesiástica na Mesopotâmia.

Estela de Ur Nammu, sugere a construção de uma torre templo (zigurate). O rei é visto carregando um cesto, ajudando o povo também no topo adorando o deus Lua.
Quase 30 zigurates foram descobertos na área Mesopotâmia por arqueólogos.
O professor Andrew George, da Universidade de Londres, conseguiu decifrar uma tabuleta cuneiforme encontrada há mais de 100 anos atrás, que mostra a figuras dos zigurates. A imagem mostra a figura de um zigurate, uma torre babilônica, com sete degraus e 91 metros da altura. Ao lado, rei com um chapéu em forma de cone. O texto traz detalhes sobre a construção, encomendada por Nabucodonosor II. “Ali se lê: ‘do Mar Superior, que é o Mediterrâneo, ao Mar Inferior, que é o Golfo Persa, das terras distantes e das pessoas em suas habitações, eu mobilizei para fazer este prédio'”, afirma George. ” A tabuleta comprova que a Torre de babel não é apenas uma passagem bíblica e sim uma torre que realmente existiu.”
Como a Torre de Babel se pareceria/ Linhas destacadas digitalmente. (Smithsonian Museum)
Babel, em hebraico, significa “confusão”, mas que vem do acadiano bab-ilu que quer dizer “portal de Deus”, devido a essa ligação com o divino.
Com isso, seus construtores queriam dizer que, enquanto os deuses menores usavam os zigurates locais para se comunicar com o povo, o chefe de todos os deuses usava o zigurate de Babel para descer à Terra. Portanto, todos os povos deveriam estar ali para adorá-lo, mesmo que fossem devotos de outro deus local, pois sua religiosidade pessoal não permitiria se ausentarem desta grande coletividade ecumênica que traria a paz e a união na terra do Crescente Fértil.
Em 1872, George Smith, pesquisador do Museu Britânico, descobriu um tablete cuneiforme que trazia o seguinte relato acerca da edificação de um zigurate que provavelmente poderia ser a torre erguida por Ninrode:
“A edificação desta torre ofendeu todos os deuses. Numa noite, eles [deitaram abaixo] o que o homem havia construído e impediram o seu progresso. Eles [os construtores] foram espalhados e sua língua se tornou estranha.”
Novamente a arqueologia encontrou uma evidência do relato bíblico, dessa vez da confusão das línguas ocorrida em Babel. Mesmo apesar de alguns críticos se levantarem contra as conclusões, especialistas como E. A. Speiser e S. N. Kramer, da Universidade da Pensilvânia, após estudarem profundamente os tabletes, concluíram que a narrativa da torre de Babel “tem uma demonstrável fonte na literatura cuneiforme”.
Um outro fragmento de tablete foi descoberto posteriormente, contendo 27 linhas. Quem o copiou e traduziu foi o assiriólogo de Oxford, Oliver Gurney. O texto é parte de uma carta endereçada ao “senhor de Arrata”. O desconhecido remetente solicita ao rei que lhe permita ser seu vassalo, pois os tempos estavam muito difíceis. Ele, então, relembra ao monarca que houve uma era de ouro na Mesopotâmia em que havia “harmonia nos idiomas da Suméria” e “todo o universo, em uníssono [adorava] a Enlil em uma só língua…”
Vários zigurates parcialmente preservados foram localizados na região do Iraque. Muitos deles datam de mais de 2.000 anos antes de Cristo e podem ter sido construídos nos dias de Ninrode. Pelo relato bíblico em Gênesis 11, possivelmente Babel foi a primeira sede do governo de Ninrode, e onde seu reino teve início.
Interessante também notar, que muitos tijolos encontrados no zigurates sumerianos são queimados e colados com betume, justamente como a Bíblia descreve o processo de construção da torre em Gênesis 11:3.
O que podemos aprender com essas evidências?
A narrativa bíblica possui um fundamento consistente, apoiado por descobertas arqueológicas que fornecem um panorama histórico muito interessante. A construção de estruturas para alcançar os deuses e posterior confusão de línguas não é somente relatada nas Escrituras, mas também em outras culturas, como na Suméria. A narrativa da construção da torre de Babel não é uma invenção bíblica, mas possui fundamentação histórica que corresponde com as evidências conhecidas.
Referências:
Extraído e adaptado de: SILVA, Rodrigo. Escavando a verdade p.72-76
Outras fontes:
Michael David Coogan, Bruce Manning Metzger – The Oxford guide to people and places of the Bible-Oxford University Press (2004)
Matéria mais abrangente sobre o assunto (em inglês): https://christiananswers.net/q-abr/abr-a021.html#ref2
















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