A CRUZ – Tasso da Silveira

Das mãos do Senhor erguiam-se labaredas, dos pés do Senhor erguiam-se labaredas, dos flancos do Senhor erguiam-se labaredas de dor… O corpo divino se estorcia como um tronco verde na queimada. O incêndio de dor crepitava violento em toda a carne do Senhor. E as mãos que tinham abençoado infinitamente eram agora folhas crestadas, e os pés que tinham sagrado os caminhos do mundo eram rebentos retorcidos, e a cabeça que abrigava os pensamentos eternos era uma fronde que ia tombar reboando. O incêndio de dor crepitava violento na alma e na carne do Senhor. E as chagas eram brasas vivas, e as palavras que brotavam trêmulas dos lábios que haviam pronunciado as verdades divinas eram outras chamas, mais altas e puras, de dor infinita. O incêndio de dor crepitava violento e enchia do seu rumor imenso a grande noite do mundo…
















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