A DOUTRINA DE SANTO AGOSTINHO SOBRE A PREDESTINAÇÃO De dono perseverantie (428)

Ousará alguém afirmar que Deus não conheceu antecipadamente aqueles a quem concederia a fé? Se antecipadamente os conheceu, também previu certamente sua própria Benevolência mediante a qual digna a nós resgatar isso, e não outra coisa, é a predestinação dos santos, a presciência de Deus e a determinação de sua condescendência através da qual certamente são salvos todos os Predestinados. Quanto aos demais…. Onde está o varão que, entregue ao justo juízo Deus, se salvará da massa da perdição onde foram abandonados os de Tiro e de Sídom? Estes, contudo, teriam crido, se tivessem visto os prodígios de Cristo, mas não se lhes concedeu a fé nem, consequentemente, os meios de crerem. Este exemplo nos ensina, evidentemente as coisas de Deus, pelo qual são levados à fé, se ouvirem as palavras ou perceberem os sinais apropriados a sua inteligência. E se alguns, no derradeiro Juízo de Deus, ainda não estão separados da massa de perdição pela predestinação da graça, então nenhuma destas palavras ou destes atos os atinge…
… Os judeus, por outra parte, foram abandonados na mesma massa de perdição porque não podia crer…as obras poderosas realizadas à sua vista… “Cegou-lhes os olhos e endureceu-lhes o coração, para que não vejam com os olhos e nem entendam com o coração, e se convertam e sejam curados por mim” (Is 6.10, Jo 12.40). Os olhos dos habitantes de Tiro e sidom não estavam tão cegos, nem seus corações tão endurecidos, pois teriam crido se tivessem presenciado os atos poderosos que os judeus viram. Mas de nada lhes serviu sua capacidade de crer, pois não estavam Predestinados por Aquele cujos “Juízos insondáveis e cujos caminhos são inescrutáveis” (Rm 11. 33).
SANTO AGOSTINHO E A GRAÇA IRRESISTÍVEL De corruptione et grátis (427)
Devemos distinguir duas espécies de assistência: a assistência sem a qual é impossível realizar determinado propósito (adjutorium quo fit). Assim, por exemplo, sem alimento não é possível viver. Mas , nem por ser o alimento proveitoso e vivificante, sobreviverá o homem decidido a morrer…. No caso da salvação, uma vez concedida a quem dela carecia, para sempre está salvo… Esta é uma assistência simultaneamente sine quo non e quo… O primeiro homem foi criado em estado de justiça e bondade: recebeu a possibilidade de não pecar [posse non peccare], de não morrer [posse nom mori], de não decair do estado de justiça [posse non cadere]. Acrescentou-se-lhe ainda ajuda para perseverar. Esta ajuda, no entanto, não foi de tal natureza que forçosamente levaria à perseverança de fato [adjutorium quo perseveraret], mas, simplesmente, porque sem ela de modo nenhum podia perseverar, por muito que o quisesse [adjutorium sine quo non perseveraret]. Entretanto, no caso dos santos predestinados ao reino de Deus pela graça divina, a ajuda concedida para que perseverassem não foi perseverança de fato [isto é, não só ajuda sine quo non, mas ajuda quo.] …. sendo de tal maneira forte e eficaz que os santos não podiam fazer outra coisa senão perseverar de fato.
Depois de Predestinados, não teriam perseverado de fato, se não tivessem recebido ao mesmo tempo o poder e o querer…. De tal maneira foi-lhes inflamada a vontade pelo espírito santo que podiam precisamente porque queriam e queriam porque neles Deus operava o querer. Mas se, na fraqueza profunda de sua condição mortal (fraqueza tal que não dá lugar a jactâncias, pois “O poder se aperfeiçoa na fraqueza”), na sua própria vontade fosse abandonada sem ajuda, de modo que, se eles quisessem, pudessem continuar no amparo de Deus, sem o qual não podiam perseverar, e se Deus não tivesse operado neles o querer em meio a tantas fraquezas, sua vontade humana teria fraquejado e não teriam sido capazes de perseverar até o fim, eles falhariam no querer por causa da fraqueza ou sua vontade seria tão fraca para assegurar sua própria realização. Eiz porque à fraqueza do querer humano foi concedida uma ajuda que a capacitou a ser, invariável e irresistivelmente, influenciadas pela graça de Deus, para que, fraca como era, enfrentasse e vencesse qualquer adversidade. Deste modo, a vontade humana, embora muito fraca e impotente, situada num nível tão baixo de bondade, perseverou pelo poder de Deus nessa bondade, enquanto que a vontade do primeiro homem, embora forte e sadia, situada num nível mais alto de bondade e possuindo o poder de escolher livremente, não perseverou nela. A razão foi que, mesmo não faltando a ajuda de Deus, tal ajuda era apenas um auxílio, sem o qual a vontade não podia perseverar, por muito que o quisesse; não foi aquele auxílio mediante o qual Deus opera o homem a querer . Deus, sem dúvida, deixou o mais forte fazer o que queria e reservou aos mais fracos o seu próprio dom, em virtude do qual mais irresistivelmente busacariam o que é bom e mais irresistivelmente se recusariam a abandoná-la.
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