A HISTÓRIA DO FALAR EM LÍNGUAS ESTRANHAS “Se alguém falar língua estranha, que haja intérprete.

“Se alguém falar língua estranha, que haja intérprete. Mas, se não houver intérprete, que se cale na igreja, e fale consigo mesmo e com Deus.”
(1Cor 14,27-28)
Nas décadas recentes temos observado um fenômeno interesse que é o fenômeno comumente conhecido como “falar em línguas”. Este termo mesmo não é muito claro; sendo que todo falar se faz com a língua, ninguém fala com as orelhas. O que é falar em línguas, ou glossolalia? para usar a expressão técnica, é a emissão espontânea de sons num idioma em que o falante jamais aprendeu e nem sequer o entende. Este falar em línguas é praticado normalmente em certos tipos de grupos religiosos. No entanto, o surpreendente é que, ainda que por relativamente muito tempo o falar em línguas esteve majoritariamente limitado às igrejas pentecostais, na verdade este fenômeno ocorreu na igreja primitiva, mas a partir de 1960 este fenômeno tem-se estendido às principais denominações da igreja Protestantes e até Católicas. O falar em línguas entrou nas igrejas episcopais (a alta),
presbiterianas, metodistas, batistas, luteranas e reformadas. A questão só ganhou estatus e passou a ser observada com mais atenção Quando a glossolalia saltou das igrejas com fachada de armazém e de tabernáculos pentecostais para os santuários góticos.
glossolalia (originado da palavra grega “glossa = língua”, e “lalin = falar”) é originalmente um termo religioso que é mencionado no Novo Testamento, e refere-se ao “DOM”-“presente” que os Apóstolos receberam através da descida do Espírito Santo em Pentecostes, e eles por sua vez, transmitiram a outros que também creram na promessa, por imposição das mãos “para assim falar fluentemente idiomas estrangeiros sem ter aprendido, como no Pentecostes.”
“Prefiro falar na assembléia cinco palavras que compreendo, para instruir também aos outros, do que falar dez mil palavras em línguas estranhas.”
(1Cor 14,19)
Xenoglossia (do grego xen(o) = estranho, estrangeiro + gloss(o) = língua) consiste no falar, de forma espontânea, em língua ou línguas, que não foram previamente aprendidas.
É também um suposto fenômeno metapsíquico no qual uma pessoa seria capaz de falar idiomas que nunca aprendeu, como, por exemplo, uma pessoa começar a falar alemão fluentemente sem nunca ter aprendido alemão, ser alemão ou conviver com alemães.
“Assim, as línguas são sinal, não para os fiéis, mas para os infiéis; enquanto as profecias são um sinal, não para os infiéis, mas para os fiéis. Se, pois, numa assembléia da Igreja todos falarem em línguas, e se entrarem homens simples ou infiéis, não dirão que estais loucos?”
(1Cor 14,22-23)
Alguns podem dizer que o falar em línguas não se iniciou antes do
surgimento do pentecostalismo em 1906, mas a verdade é que o fenômeno havia-se apresentado anteriormente dentro e fora da igreja primitiva. Na Igreja isto ocorreu com o movimento montanista, depois só veremos esse fenômeno em grande escala no início do Século XX, o falar em línguas somente foi encontrado ocasionalmente, e isso entre grupos minoritários. (Temos relatos de Santos que tiveram essa experiência).
Para entender a glossolalia devemos conhecer algo de sua história. Temos relatos do falar em línguas fora da igreja, não é difícil encontrar paralelos a este fenômeno entre os devotos de religiões não cristãs.
Podemos buscar as fontes
históricas a partir do ano 100 d.C., aproximadamente, porque esta data marca o fim aproximado do que poderíamos chamar história bíblica e o começo aproximado do que normalmente chamamos História da Igreja.
O examinar esta história, vemo-nos de encontro com a seguinte pergunta: Somos obrigados a supor que as modernas aparições de glossolália são a continuação do dom carismático de línguas como ocorreu, por exemplo, em Corinto? Ou é possível que haja explicações psicológicas para este
fenômeno que tornam a primeira suposição desnecessária e, sobretudo errônea?
A QUESTÃO DAS FORMAS ADIVINHATÓRIAS DO MUNDO ANTIGO E AS PROFECIAS PARTICULARES
O homem sempre procurou alguma maneira de conhecer o futuro, Adivinhação é uma tentativa de discernir os acontecimentos distantes no tempo e espaço 25. Wright (1995, p 32) afirma que esta definição também serve para a profecia no caso de 1 Sm 9:6-10. O termo então pode ser usado ocasionalmente num sentido positivo a profetas dotados de clarividência sem que a Bíblia esteja apoiando todas as práticas de clarividência. Talvez se possa exemplificar com a figura controvertida de Balaão ( Nm 22:7; 24:1). Sobre o caso Hoff comentou: Quem é Balaão? Balaão era de Petor, na Mesopotâmia, perto do rio Eufrates (Nm 22:5). Seus poderes sobrenaturais eram altamente estimados pelos moabitas e pelos midianitas (Nm 22:6). É um dos mais misteriosos e estranhos personagens da Bíblia. Era profeta de Deus ou meramente um adivinho em cuja boca o Senhor colocou suas palavras? Tinha certa comunhão com Deus (Nm 22:8-12), sabia algo da justiça divina (Miquéias 6:5), e algo sobre a vida além-túmulo (Nm 23:10), ouvia dos ditos de Deus, via “a visão do Todo-poderoso” (Nm 24:4), e não falaria o que Deus não lhe dissesse ( Nm 22:18). Por outro lado, parece que às vezes buscava agouros ou sinais a respeito do futuro (Nm 24:1). Daí se infere que ele tinha dom de profecia, mas seu conhecimento de Deus estava obscurecido, em certa medida, pelos conceitos pagãos. 26 De modo geral, a adivinhação foi proibida por Yahweh, exceto de modo profético como foi mencionado acima, neste caso não seria uma adivinhação no sentido específico da palavra, mas uma revelação de Deus. As práticas de adivinhação no mundo antigo são de naturezas diversas, elas podem ser agrupadas de duas formas: Adivinhação indutiva e intuitiva. O primeiro grupo são aquelas que partem da observação de diversos recursos, podendo ser a observação da natureza como a astrologia, Jr 10:2; assim como também a observação do comportamento dos animais 27; de sacrifícios usando as vísceras dos animas que supostamente forneciam orientações Ez 21:21; a partir da observação de alguns líquidos (hidromancia), como o azeite na água dentro de uma taça para interpretar a figura que é formada Gn 44:5; ou mediante a instrumentos como varetas ou flechas (Rabdomancia), que eram tiradas ao ar, e os presságios eram deduzidos da posição em que caíam Ez 21:21. Havia o tirar a sorte, este método foi significativamente utilizado pelos povos pagãos, mas também por Israel para saber a vontade de Deus, Js 7:14 e Jn 1:7. Este último não era condenado pelo antigo Israel, pois o Senhor governava toda sorte e por meio dela. O segundo grupo é a adivinhação intuitiva. De acordo com Sicre, alguns métodos de adivinhação ocorrem mediante a intuição, para ele são três as formas intuitivas 28: oniromancia, interpretação de sonhos; a necromancia, a consulta aos mortos; e a cresmologia, a comunicação divina por meio de oráculos. A oniromancia era muito comum no Antigo Testamento, Deus se utilizou deste expediente para comunicar por diversas vezes a sua vontade aos patriarcas e também ao seu povo. Sicre comenta : Dentro do Antigo Testamento o material é abundantíssimo, começado pelo Gênesis. Curiosamente, o primeiro caso que se registra não é de um patriarca e sim o de Abimelec, o rei de Gerara, ao qual Deus avisa em sonho que deixe Sara (Gn 20:3). Um sonho levará Jacó, segundo a tradição, a fundar o santuário de Betel (Gn 28:11-16). E os sonhos de vários personagens ponteiam a história de José: os dele mesmo, que profetizam a superioridade dele sobre os irmãos ( Gn 37), os do copeiro e do padeiro (Gn 40) e os do Faraó (Gn 41) 29 É interessante pensar como decisões de grande importância foram tomadas com base em sonhos. José pode ser tomado como exemplo, ao interpretar o sonho de Faraó (Gn 41), ele salvou o Egito de um colapso total e livrou o embrião da nação de Israel da destruição da fome, proporcionando a sua provisão e desenvolvimento. Outro episódio importante foi a interpretação do sonho de Nabucodonosor feita por Daniel (Dn 2), nela encontramos o destino de dois reinos: de Israel e do mundo . Quanto a necromancia, que também está associada à adivinhação, em Dt 18:11 foi terminantemente proibida: “Não vos voltareis para os necromantes, nem para os adivinhos; não os procureis para serdes contaminados por eles. Eu sou o SENHOR, vosso Deus,” 30 era uma prática cananita (Dt 18: 9-11), egípcia (Is 19:3) e os próprios israelitas também praticaram (I Sm 28:3-25; II Rs 21:8; Is 8:19).
O caso mais controvertido é a consulta de Saul a médium de En-Dor. Ele mesmo havia desterrado os médiuns e adivinhos, mas diante da crise, sem orientação do profeta, ele apelou para tal prática proibida pelo Senhor.
Outra questão que também estava associado à necromancia era os Terafins, ídolos do lar, talvez imagens de antepassados mortos, Zc 10:2.
A cresmologia talvez seja a prática que mais está relacionado ao ministério profético.“em Israel e na Grécia a vontade divina é consultar o oráculo, onde sinais e portentos são substituídos pela palavra, sem dúvida às vezes enigmática, mas afinal 31 de contas palavra, como a dos homens” Um dos casos mais conhecido e antigo de oráculo foi o denominado “Oráculo de Delfos”( VIII a.C.). Situado na região da Grécia, Delfos era um lugar e um complexo de construções, onde havia um espaço sagrado para os antigos gregos, dedicado ao deus Apolo. Neste local as sacerdotisas de Apolo (denominadas de pítia ou pitonisa) 32, faziam profecias em estado de transe. Proferiam palavras enigmáticas que eram interpretadas por sábios anciãos. Estudiosos contemporâneos acreditam que o transe era proveniente de gases que subiam de uma fenda subterrânea local, e das folhas de loureiro que eram consumidas antes da profecia. Estas em alta quantidade são narcóticas. A natureza do profeta, averígua-se mais facilmente mediante a posição que ocupa na vida pública do que pelas considerações etimológicas. As palavras que derivam desta raiz estão firmemente ligadas com o oráculo. O oráculo mais famoso foi o de Delfos, presidido por Apolo (…) A Pítia era chamada prophêtis, mas tinha o título adicional de promantis (…). Este cargo pertencia originalmente a uma, duas ou três moças tiradas da população local, mas, pelo menos em tempos posteriores, a pítia era de idade avançada. A pítia sentava-se num tripé em cima de uma cavidade na terra, de onde emergia um “espírito oracular” (Pneuma Mantikon) na forma de fumaça, dando-lhe a inspiração. Esta aumentava quando ela mastigava a folha de louro (a palavra de Apolo). Como resultado, irrompia em sons inarticulados enigmáticos, semelhantes à glossolalia (…). Estes diziam respeito a eventos futuro, conforme sugere o título promantis, e tinham conexão direta com a pessoa que consultava o oráculo.
Amparado pela doutrina e orientação da igreja eu entendo que falar em língua significa falar uma linguagem humana previamente desconhecida pelo locutor. Vemos no primeiro Pentecostes cristão que esta verdade foi claramente ilustrada. “E apareceram, distribuídas entre eles, línguas, como de fogo, e pousou uma sobre cada um deles. Todos ficaram cheios do Espírito Santo e passaram a falar em outras línguas, segundo o Espírito lhes concedia que falassem” (Atos 2, 3-4). Os apóstolos falaram uma linguagem previamente desconhecida para eles. “Quando, pois, se fez ouvir aquela voz, afluiu a multidão, que se possuiu de perplexidade, porquanto cada um os ouvia falar na sua própria língua. E como os ouvimos falar, cada um em nossa própria língua materna?’” (Atos 2, 6.8). Isto é uma clara evidência bíblica que falar em línguas não é do modo balbuciante pentecostal.
Vejamos que o problema com a idéia pentecostal é que por não conhecer a linguagem que profere acaba dizendo que é a linguagem dos anjos, enquanto alguém de certa forma possa fazer um argumento baseado em uma interpretação das Escrituras de que é possível que estas “línguas estranhas” existam, na verdade isto nunca é descrito. A única vez em que nós vemos línguas “em ação” nas Escrituras é quando foram usadas para comunicar àqueles que não poderiam entender o que eles estavam falando se não fosse em seu idioma.
O movimento pentecostal foi iniciado na rua Azusa, na Califórnia, em 1906. O movimento carismático se espalhou deste evento propagado por Fletcher, e depois chegou aos Católicos na Universidade de Duquesne em 1967. Assim, está bem claro que a compreensão tradicional do dom é que ele tinha o propósito de comunicar o Evangelho àqueles que não o conheceram em uma linguagem que eles poderiam entender.
Por experiência própria e por conversas com pessoas que tiveram tais experiências posso afirmar que se trata de uma experiência com idiomas desconhecidos, mas que existem em algum outro país, alguns afirmam que é uma “a evidência inicial do recebimento do Espírito Santo”. Mas grandes nomes do Cristianismo que chegaram à Santidade não tiveram essa experiência, além disso, afirma-se, alguns cultivam as línguas como “dom”, ao passo que outros só têm tal experiência uma vez. Será que falar em línguas realmente significa que se tenha o Espírito Santo de Deus?
O melhor exemplo,Jesus Cristo, não existe indício de que tivesse jamais falado por meio de um dom miraculoso de línguas. (Mat. 3,16; Luc. 4,16-21) E sobre os cristãos do primeiro século, escreveu o apóstolo Paulo: “Será que todos falam em línguas?” (1 Cor. 12,30) Ao invés, o Espírito de Deus dotou-os de “variedades” de poderes miraculosos. (1 Cor. 12, 4.11.13) Quando estabelecia uma lista de “dons espirituais”, o apóstolo Paulo colocou as línguas e sua interpretação em último lugar, incentivando os cristãos a ‘persistirem em buscar zelosamente os maiores dons’, especialmente o amor, que Jesus disse seria o verdadeiro sinal identificador de seus seguidores. — 1 Cor. 12.1, 4-10, 29-31; 13,1. 8. 13; João 13,35.
Devemos também entender que os dons miraculosos do Espírito Santo de Deus não deviam permanecer indefinidamente na Igreja, não determinar até quando existiram ou que foram totalmente estintos. As Escrituras, em 1 Coríntios 13,8, declaram: “Quer haja dons de profetizar, serão eliminados; quer haja línguas, cessarão.” Quando desapareceriam?
Segundo Atos 8,18, o Espírito de Deus, conforme expresso nos dons miraculosos, era dado “pela imposição das mãos dos apóstolos”. E, depois de Pentecostes, cada caso registrado de derramamento do Espírito de Deus, acompanhado de dons miraculosos, ocorreu na presença de um ou mais dos apóstolos de Jesus. (Atos 8,9-20; 10,44-46; 19, 6) não é evidente que a transmissão destes poderes dados por Deus cessou com a morte dos apóstolos; e, quando morreram aqueles que os receberam, tais dons cessaram por completo na Igreja.
Logo após as mortes dos apóstolos e seus temos relatos de que haviam esses dons, mas que não estavam mais em prática na igreja atual, S. João Crisóstomo, que se tornou patriarca religioso de Constantinopla no quarto século, observou que os dons espirituais mencionados em 1 Coríntios, capítulos 12 a 14, “costumavam ocorrer, mas agora não acontecem mais”. Por volta desse mesmo tempo, S. Agostinho, que influenciou grandemente os ensinos do ramo ocidental ou latino do cristianismo, disse sobre as línguas e outros dons espirituais: “Estes eram sinais adaptados ao tempo. . . . Isso era feito como símbolo, e passou.”
Os cristãos em Pentecostes falavam em línguas sobre “as coisas magníficas de Deus”. (Atos 2,11) The Expositor’s Greek Testament aponta que a palavra grega para “coisas magníficas” é usada “não só quanto à Ressurreição do Senhor . . ., mas quanto a tudo que os profetas haviam predito, tudo que Cristo fizera e o Espírito Santo conferira”.
Muitos grupos hoje, influenciados pelo “movimento da Rua Azusa”, de Los Angeles, em 1906, crêem que o que fazem é o mesmo “dom de línguas” do primeiro século. Infelizmente, isto pode ser um equívoco. Incrivelmente, esta influência chegou até mesmo a Igreja Católica, pelo movimento carismático. Inegavelmente que a Renovação Carismática tem feito muito bem a Igreja Católica e seus benefícios e graças são notórios. Mas estamos falando somente na questão do “dom de línguas” e da experiência pessoal e não da RCC em si.
“Qual é a relação entre a experiência pessoal e a fé comum da igreja? Ambos fatores são importantes. A fé dogmática que não esteja baseada em uma experiência pessoal é vazia. Por outro lado, a mera experiência pessoal que não esteja relacionada com a fé da Igreja permanece cega”..
Bento XVI
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…E AS LÍNGUAS?
Anthony Hoekema
Monografia: NILSON DOS SANTOS CARNEIRO
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