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A Idolatria da Pornografia

5 de abr. de 2020
10 min de leitura

O problema que atravessa gerações

Vivemos numa sociedade hiper sexualizada, onde a sensualidade é exaltada como norma, e a pureza é zombada como símbolo da ignorância. Não, os tempos não pioraram, o pecado sempre esteve presente, nós é que demoramos tempos demais a percebê-lo, e o toleramos além da conta.

Nas sociedades antigas sempre houve imoralidades das mais diversas; basta lembrar dos exemplos da própria Bíblia, como a prática das filhas de Ló com o pai, a história do patriarca Judá, que se deitou com uma prostituta para mais tarde descobrir que era sua própria nora, o incesto do filho de Davi com a irmã, as perversões  da sociedade romana que Paulo descreve no primeiro capítulo de Romanos e tantas outras coisas.

Vemos então que a imoralidade sexual não é um problema novo, ele apenas tem se transformado conforme o avançar da história e o transformar das culturas.

Com o avanço da tecnologia, essa imoralidade penetrou facilmente nos lares e corações. Hoje é difícil não se deparar com anúncios de sites e aplicativos que induzem a promiscuidade, ou que buscam explorar os abismos do pecado, e transformar isso em fonte de lucro. Esse estímulo a imoralidade tem sido a mola propulsora da pornografia, um inimigo silencioso que tem agido nas sombras e levando cativo muitos corações.

A pornografia é um inimigo que ganhou ares de legitimidade, devido a uma massiva batalha pela desconstrução da moralidade religiosa e exploração dos pecados mais baixos do ser humano. E devido a isso, tentam nos convencer de que ela não faz mal algum, que é apenas uma diversão, ou como alguns progressistas gostam de dizer, é um “autoconhecimento”. Mas aprender sobre sexualidade na pornografia é como aprender sobre autocontrole com um bêbado.

Toda a nossa cultura está impregnada desse mal, que vem moldando o imaginário de homens e mulheres com mentiras, criando uma rede falsa de ensinamentos desde a infância, que irá se refletir até a vida adulta, que se não for freada, irá envenenar seu relacionamento com Deus e com o próximo, sem que você se dê conta da raiz do mal.

O tamanho do problema que enfrentamos

De acordo com dados do PornHub, um dos maiores sites de conteúdo pornográfico do mundo, apenas em 2018 o site teve assustadores 33 bilhões de visitas, uma média de 92 milhões de visitas por dia.[1] É mais do que toda a população da Alemanha ou de todo o Reino Unido acessando o site diariamente.

E foram consumidos mais de 1 milhão de horas de vídeos durante o ano pelos usuários. Isso são quase 115 anos inteiros! São números impressionantes!

Estima-se que a indústria pornográfica nos EUA faturou algo em torno de 6 a 15 bilhões de dólares ao ano.[2] Para se ter uma ideia, é tanto quanto a indústria de filmes de Hollywood. Então, com grandes quantidades de dinheiro, o marketing em favor dessa indústria é agressivo, e não irá sair de cena tão cedo.

Os males no relacionamento com o próximo

Mas como a pornografia afeta o usuário no seu relacionamento com o próximo? Ao contrário do que comumente é propagado pelos defensores da pornografia, ela não é um prazer solitário, é algo que irá afetar o seu cérebro, suas crenças, sua forma de se comportar, e principalmente, corromper seu espírito. Essa transformação de crenças e comportamentos irá moldar nossa cosmovisão, e afetar toda nossa forma de enxergar a realidade. Ao sermos ensinados a enxergar o mundo através das lentes da pornografia, estaremos trilhando um caminho de trevas. A pornografia é um cego guiando outros cegos a caminho do abismo.

Então, o que a ciência pode nos dizer sobre os males da pornografia e como isso nos afeta?

A pornografia é um professor poderoso de crenças e comportamentos e, de fato, fornece as condições ideais para o aprendizado. Ela pode ensinar não apenas comportamentos sexuais específicos, mas atitudes gerais em relação às mulheres e crianças, como são os relacionamentos e a natureza da sexualidade.

Como é feito esse ensinamento? Através das imagens. Elas carregam mais informação do que as palavras, palavras são frequentemente percebidas como opiniões, enquanto as imagens são frequentemente percebidas como eventos ou fatos. Se além disso, tais imagens são estimulantes, tendemos a lembrá-las mais facilmente. Adicionando o reforço repetitivo de tais imagens, a pornografia se torna um poderoso criador de comportamento, pois ela fornece as condições ideais para o aprendizado.[3] E cada vez que aprendemos algo, nossos neurônios formam conexões, e quanto mais consumimos pornografia, mais fortes essas conexões se tornam. [4] [5]

Por isso, as pesquisas mostram que o comportamento cerebral de um usuário de pornografia é semelhante ao de um usuário de drogas.[6] Ele desenvolve certa tolerância ao prazer, necessitando de doses cada vez maiores ou mais extremas para se sentir bem novamente.[7] E uma vez que o hábito é estabelecido, seu abandono pode ocasionar crises de abstinência e ansiedades, exatamente da mesma maneira que um usuário de drogas.[8]

Diferente da droga, a pornografia está disponível 24h por dia, a um clique de distância, na solidão do seu quarto, sem que talvez ninguém saiba, e o pior, tem se tornado socialmente aceita e estimulada por muitas pessoas.

Pesquisas também mostram que homens expostos a pornografia são mais propensos a ter uma visão de que mulheres “gostam” de ser estupradas. As mulheres também tiveram resposta semelhante aos homens. As pessoas expostas à pornografia, quando solicitadas, recomendaram uma sentença 50% menor para um crime de estupro do que aqueles que nunca foram expostos. Isso mostra que os consumidores de pornografia banalizaram o crime de violência sexual. [9] [10] [11] [12]

Os usuários que assistem a esses filmes, tem seu comportamento condicionados através das imagens, sendo acostumados a verem mulheres sendo maltratadas, objetificadas e banalizadas durante o sexo, mas vendo-as gostando e sentindo prazer na situação. Eles acabam recebendo uma mensagem de que as mulheres em geral gostam das mesmas coisas que acontecem nos filmes, e com o tempo, passarão a reproduzir um comportamento similar em sua vida e relacionamentos, pensando que assim, terão o mesmo desempenho sexual que os atores e atrizes dos filmes. Essa é a formação de um padrão de comportamento em ação.

Além do mais, o conteúdo pornográfico cria expectativas sexuais em homens e mulheres que não existem no relacionamento real. Eles formam um padrão de homem e mulher inexistente, que as pessoas inconscientemente acabam buscando em um parceiro futuro. Essa ilusão criada por mundo de mentira, gera impactos no relacionamento real, criando frustrações sexuais, ansiedades e até mesmo depressão. Essa é a receita para um relacionamento frustrado.

Derrubando ídolos: A raiz do problema e como enfrentá-lo 

O problema da pornografia está intimamente ligado a questão da idolatria, e a idolatria sendo um pecado, só será curado por Deus. A condição do homem é a de que ” todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus.”[13] Como falamos, o pecado é o nosso principal problema. E quando estamos longe da glória divina, ficamos “mortos nos nossos delitos e pecados”.[14]

E um corpo morto é um corpo que em breve irá apodrecer. Entregues ao pecado, somos o que Jesus chamou de sepulcros caiados, “bonitos por fora, mas por dentro estão cheios de ossos e de todo tipo de imundície.” [15] Isso ilustra bem nossa condição. Mas precisamos entender melhor o que é idolatria. Segundo o dicionário bíblico Strong, eidololatreia; (ειδωλολατρεια), significa “adoração ou culto a deuses falsos”.[16]Essa adoração não necessariamente se refere apenas a imagens de escultura, mas a qualquer coisa, seja material ou imaterial.

A idolatria faz com que busquemos o prazer e satisfação em outras coisas que não Deus, porque não mais nos alegramos nele e no sacrifício do seu Filho na cruz por nós. Perdemos a alegria nas coisas do Senhor, e nos entregamos ao nosso próprio desejo pecaminoso. Deus não mais ocupa seu lugar de honra em nosso coração, mas erguemos altares aos nossos ídolos em seu lugar, buscamos servir e adorar outras coisas que não Deus. Essa frieza espiritual nos leva ao desânimo, e passamos a buscar picos de felicidade e prazer que possam nos distrair, preencher e nos manter longe da presença de Deus. Nos tornamos idólatras.

O apóstolo Paulo, no primeiro capítulo da epístola aos Romanos diz:” Portanto, tendo conhecido a Deus, não o glorificaram como Deus.” [17]

Pois exatamente como falamos, trocamos Deus pelos ídolos do nosso coração, trocamos a Verdade pela mentira, como o apóstolo completa adiante: “Pois mudaram a verdade de Deus em mentira” [18]

Sejamos claros, o cristão, e até mesmos aqueles que não tem religião, sabem que consumir pornografia é errado, eles sabem que não deveria ser feito, mas mesmo assim eles não conseguem largar. Muitos já devem ter feito promessas, votos, e determinações de que nunca mais voltariam a cair em tal prática, mas eventualmente falham. Por quê? Por que insistimos nesse mundo de mentira e que só nos faz mal?

Não podemos buscar justificativas para esse pecado, dizendo que são “coisas da idade”, “uma fase” ou “é uma tentação difícil de resistir”.

O apóstolo Paulo nos diz que Deus não permite que sejamos tentados além do que possamos resistir. [19] E Tiago nos ensina que “cada um é tentado, quando atraído e engodado pela sua própria concupiscência.” [20] Somos atraídos ao pecado pelos nossos próprios desejos maus e precisamos encarar e nos livrar disso. Mas como?

Primeiro, dificilmente você irá vencer um pecado sozinho. Um bom combate não é feito por um soldado só, a questão do discipulado nessas horas é essencial para ajudar a enfrentar os problemas. É difícil derrubar os ídolos do nosso coração, e sozinho, tendemos escondê-los do que derrubá-los. Precisamos encarar o fato de que o pecado é uma doença, e o discipulado seria a ajuda que precisamos para chegarmos ao médico.

E segundo, não somente precisamos de ajuda humana, mas especialmente divina. A nossa força de vontade é fraca demais para nos libertar dos nossos vícios idolátricos que nos mantem cativos. Se tivéssemos tudo sob controle da nossa vontade, nenhum mal nos afetaria, mas sabemos que não é assim. Jesus deixou bem claro “sem mim nada podeis fazer.” [21] Ele é o médico que nos cura da nossa doença.

Devemos clamar como Davi, que no meio da angústia pelo seu pecado clamou: “Lava-me completamente da minha iniquidade, e purifica-me do meu pecado.” [22] Para que possamos voltar a sentir prazer nas coisas santas, como o próprio Davi, que após ter cometido pecado de idolatria sexual, ao preferir o prazer da carne do que o a glória de Deus, buscou arrependimento e pediu ao Senhor:” Torna a dar-me a alegria da tua salvação, e sustém-me com um espírito voluntário.” [23] Para destruir um ídolo, algo que nos torna cativo, a melhor maneira é não focar no ídolo em si, mas em unicamente em Cristo.

À primeira vista pode parecer estranho, como buscar a Cristo dessa maneira, fraco, desanimado e envergonhado das minhas ações? Mas é exatamente assim que funciona!

Pois como está escrito: “Deus demonstra o seu amor para conosco, em que sendo nós ainda pecadores, Cristo morreu por nós.” [24] Não há como se purificar para se chegar a Cristo, é exatamente o oposto. Somos purificados quando nos achegamos a Ele. Sabendo que Deus é” justo e justificador daquele que deposita toda a sua fé em Jesus.” [25] É unicamente Deus que nos justifica, ou seja, que nos torna justos quando depositamos todo nosso coração em Cristo.

A nossa alegria e prazer deve ser estar com Ele, não nas satisfações da nossa carne. Devemos ter a consciência de que não pertencemos a nós mesmos, ou “não sabeis vós que os vossos corpos são membros de Cristo?” [26] Nunca podemos perder de vista de que nosso corpo é templo do Espírito Santo e que fomos “comprados por alto preço;” [27] Preço de dor, sofrimento e sangue derramado na cruz.

No combate a essa idolatria sexual, devemos estar enxertados na videira verdadeira, Pois sem Cristo, nada podemos e nada somos, sem Ele nossa força de vontade é inútil, e se não for por Ele, morreremos sufocados em nossos próprios pecados.

As palavras de Jesus são firmes, Ele é o mesmo quando diz: “Vinde a mim” [28], e também “se um dos teus olhos te faz pecar, arranca-o, e lança-o fora de ti,” [29] Duras palavras nos parece. Mas somente Jesus sabe o peso do pecado e suas consequências. Lutar contra o pecado não é brincadeira, é guerra! E não podemos perder essa guerra, pois é a nossa alma que está em jogo.

Como bem coloca São João da Cruz: “por prazeres passageiros, sofrem-se tormentos eternos.” [30] A carne milita contra o espírito e dilacera nossa alma entre vontades conflitantes, como Santo Agostinho narra sua própria luta contra o pecado nas suas confissões; “O inimigo dominava-me o querer e forjava uma cadeia que me mantinha preso.” [31] Agostinho entendeu o ciclo dessa cadeia que o inimigo usava para o sufocar, ele diz “da vontade pervertida nasce a paixão; servindo à paixão, adquire-se o hábito, e, não resistindo ao hábito, cria-se a necessidade.” [32]

Somente a maravilhosa graça de Cristo pode quebrar os grilhões dessa cadeira que que ata o nosso coração aos ídolos. Somente nos aproximando de Deus, Ele se voltará a nós, conforme diz em sua Palavra “Aproximem-se de Deus, e ele se aproximará de vocês.” [33] Precisamos reconhecer nossa miséria e nos humilhar diante do Senhor, para sermos levantados por Ele, pois Tiago nos diz “Humilhem-se diante do Senhor, e ele os exaltará.” [34]

Se ainda não conseguimos fazer tudo isso por nós, se não conseguimos nos humilhar diante de Deus pelo nosso pecado, façamos por Cristo, pelo seu amor e glória, pela sua obra de sacrifício e amor. Lembre-se, sempre que nos sentirmos fracos e vacilantes, devemos ter em mente que  “o Espírito nos ajuda em nossas fraquezas” [35] Pois quando somos fracos, e de nós já não resta nada, é porque a graça agora habita em nós, e é nessa hora de fraqueza que somos fortes, verdadeiramente fortes.[36] Pois é Deus quem nos diz: “Minha graça te basta, pois o meu poder se aperfeiçoa na fraqueza.” [37]

Que possamos ter consciência do grave problema que enfrentamos, mas que isso não nos leve ao desespero, pois não caminhamos sozinhos nessa terra, e temos nos céus, a mais valiosa e nobre ajuda de eterna graça fiel.

Autor: Ramon Serrano

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Referências bibliográficas

[3] Layden, M. A. (2010). Pornography and Violence: A New look at the Research.

[4] Doidge, N. (2007). The Brain That Changes Itself. p.9

[5] Doidge, N. (2007). The Brain That Changes Itself. p. 242-243

[6] Pitchers, K. K., Et Al. (2013). Natural And Drug Rewards Act On Common Neural Plasticity Mechanisms With DeltaFosB As A Key Mediator. Journal Of Neuroscience

[8] Angres, D. H., & Bettinardi-Angres, K. (2008). The Disease Of Addiction: Origins, Treatment, And Recovery. Disease-A-Month, 54, 696–721.

[9] Check, J. & Malamuth, N. (1985). An empirical assessment of some feminist hypotheses about rape. International Journal of Women’s Studies, 8, 414-423.

[10] Millburm, Mather and Conrad, 2000

[11] Corne, S., Briere, J. & Esses, L. (1992). Women’s attitudes and fantasies about rape as a function of early exposure to pornography. Journal of Interpersonal Violence, Vol 7 No 4, pp 454-461.

[12] Zillmann, D & J. Bryant. (1984). Effects of massive exposure to pornography. In Malamuth, N and Donnerstein, E. (Eds), Pornography and sexual aggression. San Diego, Academic Press.

[13] Romanos 3:23

[14] Efésios 2:1

[15] Mateus 23:27

[16] Dicionário Bíblico Strong – Hebraico, Aramaico e Grego

[17] Romanos 1:21

[18] Romanos 1:25

[19] 1 Coríntios 10:13

[20] Tiago 1:14

[21] João 15:5

[22] Salmos 51:2

[23] Salmos 51:12

[24] Romanos 5:8

[25] Romanos 3:26

[26] 1 Coríntios 6:15

[27] 1 Coríntios 6:20

[28] Mateus 11:28

[29] Mateus 18:9

[30] São João da Cruz, Subida do Monte Carmelo.

[31] Santo Agostinho, Confissões p.112

[32] Ibidem

[33] Tiago 4:8

[34] Tiago 4:10

[35] Romanos 8:26

[36] 2 Coríntios 12:10

[37] 2 Coríntios 12:9

 
 
 

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