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A IGREJA DEVE MEDITAR SOBRE A REALIDADE DO ‘ESTADO PROFUNDO’ – Stefano Fontana

Respira-se, hoje, um sentimento de que os chamados governos democráticos não são os verdadeiros governantes e que, sob as aparentes formas constitucionais, está sendo instalado, ou já foi instalado, um sistema paralelo que permanece nas sombras, mas que detém o poder efetivo dentro de cada Estado e, sobretudo, em organizações supranacionais e internacionais. Este é a problemática do Estado profundo [“deep State”].

Em 2016, Mike Lofgren publicou o livro The Deep State. The fall of the Constitution and the rise of a shadow Government [A queda da Constituição e a ascensão de um governo paralelo]. Lofgren havia trabalhado por trinta anos, em Washington, como consultor de orçamento de defesa, a serviço do Congresso e do Senado. Em seu livro, ele fala sobre a existência de um Estado profundo que vai muito além da concentração de poder do “complexo militar-industrial”, denunciado por Eisenhawer como o principal perigo para a democracia americana. Lofgren tenta mostrar que “Estado profundo” significa que o governo dos EUA se tornou um espetáculo de marionetes e dá detalhes do que isso significou para Clinton, George W. Bush e Obama.

Lofgren explica assim a noção em questão: “A expressão Estado profundo foi inventada na Turquia e seria um sistema composto por elementos de alto nível dentro dos serviços de inteligência, do exército, da segurança, do sistema judiciário e do crime organizado. No último romance do escritor britânico John Le Carré, A delicate Truth [Uma verdade delicada], um personagem descreve o Estado profundo como ‘o círculo crescente de especialistas não governamentais, proveniente do mundo dos Bancos, da indústria e do comércio, que foram autorizados a acessar informações altamente confidenciais, não disponíveis, nesse nível, nem mesmo em Whitehall e Westminster’. Portanto, uso esta expressão [‘Estado profundo’] para indicar uma associação híbrida de elementos do governo e pessoas dos mais altos níveis da finança e da indústria, que são efetivamente capazes de governar os Estados Unidos sem relação com o consentimento dos governados, expresso por meio do processo político formal.”

Por “Estado profundo”, portanto, queremos dizer duas coisas relacionadas entre si. A primeira caracteriza uma desordem funcional na administração pública: setores que se tornam autônomos, como acontece, por exemplo, com o judiciário na Itália; ministérios, polícias, estados-maiores do exército que freiam ou desviam as decisões do poder central; as redes maçônicas, a espionagem, a corrupção. O Estado profundo seria um complexo formado por responsáveis pela diplomacia armada, as grandes companhias industriais, os think thanks ou a mídia, através dos quais possam exercer sua influência, juntamente com a posse de imensos recursos financeiros.

Da desordem funcional ao crime, o passo é curto; e esta é, precisamente, a segunda coisa que caracteriza o “Estado profundo”. Esses setores e conexões não reconhecidos formariam um Estado paralelo, gozariam de uma definição de objetivos diferentes daqueles que estão oficialmente estabelecidos, responderiam a outras regras éticas e de responsabilidades que não aquelas previstas pela lei comum. Seria uma hibridização de elementos legais e ilegais.

O regime democrático moderno sempre conheceu um dualismo constitutivo: de um lado, a afirmação da soberania popular exercida por via eleitoral; de outro, o poder real de uma oligarquia que pretende obter periodicamente a confirmação do seu poder graças às eleições, mas é livre, no resto, para agir em prol de seus próprios e variados interesses.

Até agora, entretanto, isso permaneceu dentro da estrutura do Estado-nação. Agora a situação mudou, como indica o permanente estado de emergência em que nos encontramos. Existem grandes semelhanças entre o que acontece nos vários países “democráticos” e em algumas organizações internacionais e supranacionais — ONU, OMS, União Europeia —, que experimentam o mesmo tipo de hibridação que se observa nos Estados-membros. Foi assim que nasceu uma superestrutura mundial, caracterizada pela absorção da política pela economia.

Se esta é a noção de “Estado profundo”, torna-se interessante fazer algumas observações à parte.

A primeira diz respeito à democracia que, já frágil por natureza, conhece no “Estado profundo” o seu próprio “de profundis”… Mesmo supondo que a noção de “poder popular” seja correta, o “Estado profundo” corrói esse conceito em suas raízes. O “Estado profundo” pilota a política, pilota as emergências (incluindo as sanitárias), pilota os governos.

A segunda diz respeito ao conceito de governança global, caro também a alguns documentos da Doutrina Social da Igreja que, diante do “Estado profundo”, se mostram ingênuos. Diga-se “não” a um governo mundial, mas “sim” à governança global, dizem esses documentos. Mas o “Estado profundo” prova que pode desempenhar muito bem esse papel de governança global. Portanto, é melhor ter cuidado.

Em terceiro lugar, pense-se na posição atual da Igreja Católica, que anda bastante inclinada a favor das instituições estatais, supra-estatais e globais, mas que não leva em conta a presença do “Estado profundo” sob as aparências apresentáveis de cada Estado nacional.

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