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A Imaculada Conceição e a Igreja Ortodoxa – Parte I

31 de jan. de 2018
6 min de leitura

Por: Padre Lev Gillet (Ortodoxo) 

veymacu

É geralmente aceito, eu acho, que o dogma da Imaculada Conceição é uma das questões que faz uma clara e profunda divisão entre a Igreja Católica e as Igrejas Ortodoxas. É realmente o caso? Devemos tentar examinar objetivamente bastante o que a história da teologia Ortodoxa ensina-nos sobre este assunto. Deixando de lado o período patrístico devemos começar a questão no tempo do Patriarca Fócio. Parece-me que três observações preliminares têm que ser feitas.

Primeiro, é um fato inegável que a maior parte dos membros da Igreja Ortodoxa não admitiram o dogma da Imaculada Conceição da Mãe de Deus como foi definido pelo Papa Pio IX em 1854. Segundo, ao longo da história da teologia Ortodoxa, encontramos uma linha ininterrupta de teólogos, de autoridade bastante considerável, que explicitamente negaram a Imaculada Conceição da Bem-Aventurada Virgem Maria. Entre eles eu devo referir Nicéforo Calisto no século XIV e Alexandre Lebedev no século XIX, estes dois representando as extremidades de uma cadeia com vários elos intermediários. Há até mesmo um documento escrito contra a Imaculada Conceição: a carta do Patriarca Anthimus VII, escrita em 1895; veremos mais tarde uma discussão de seu valor doutrinal.

Terceiro, reconhecemos o fato que teólogos latinos muito frequentemente usam argumentos inadequados em seu desejo de provar que a Imaculada Conceição pertenceu à tradição teológica Bizantina. Eles às vezes forçam o sentido das expressões poéticas encontradas na Liturgia de Bizâncio; no momento eles desinterpretam o que era meramente um termo bizantino para descrever a incomparável santidade de Maria, como um sinal da crença da Imaculada Conceição; em outras ocasiões eles ignoram o fato de que certos Bizantinos tem apenas uma vaga ideia de pecado original. Falando da Theotokos, autores Ortodoxos multiplicaram expressões como “toda santa”, “toda pura”, “imaculada”. Isso nem sempre significa que esses autores acreditavam na Imaculada Conceição. A vasta maioria – mas não todos – teólogos ortodoxos concordam que Maria foi purificada do pecado Original antes do nascimento de Nosso Senhor. Por isso, eles costumam dizer que ela foi purificada no útero de sua mãe como João Batista. Esta santificação não é a Imaculada Conceição.

A questão deve ser frisada em termos teológicos precisos. Não queremos saber se a santidade de maria supera todas as outras santidades, ou se Maria foi santificada no útero de sua mãe. A questão é: Era Maria, nas palavras de Pio IX, “preservada de toda mancha do pecado original desde o primeiro momento de sua concepção” (in primo instanti suae conceptionis)? Essa doutrina é estranha à tradição Ortodoxa? É contrário a essa tradição?

Eu devo começar citando várias frases que não podem ser ditas com absoluta certa para defender a crença na Imaculada Conceição, mas em que é perfeitamente possível encontrar vestígios de tal crença.

Primeiro de tudo – o Patriarca Fócio. Em sua homilia sobre a Anunciação, ele diz que Maria foi santificada ek Brephous. Esse não é um termo fácil de traduzir; o significado primário de Brephos é de uma criança no estado embriônico. Ek significa origem ou ponto inicial. A frase parece-me que não significa que Maria foi santificada no estado embriônico, que é dizer, durante sua existência no útero de sua mãe, mas ela foi santificada no momento de sua existência como um embrião, desde o primeiro momento de sua formação – portanto – do momento de sua concepção (1).

Um contemporâneo e oponente de Fócio, o monge Theognostes, escreveu em uma homilia para a festa da Dormição, que maria foi concebida por “uma ação santificante”, ex arches — desde o começo. Parece-me que este ex arches corresponde exatamente ao “in primo instanti” da teologia Romana (2).

S. Euthymes, Patriarca de Constantinopla (+917), no decorrer da uma homilia da concepção de S. Ana (quer dizer, na Concepção de Maria por Ana e Joaquim) disse que foi nesse mesmo dia (touto semerou) que o Pai formou um tabernáculo (Maria) para seu filho, e que este tabernáculo foi “completamente santificado” (Kathagiazei). Mais uma vez encontramos a ideia da Santificação de Maria in primo instanti conceptionis (3).

Voltemo-nos agora para a evidência mais explícita. S. Gregório de Palamas, Arcebispo de Tessalônica e Doutor do Hesicasmo (+1360) em sua 65 publicação mariológica de homilias, desenvolveu uma teoria inteiramente original sobre sua santificação. Por um lado, Palamas não usa a formula “imaculada conceição” porque ele acredita que Maria foi santificada muito antes de “primus instans conceptionis”, e por outro, ele afirma banteste categoricamente como qualquer teológo Romano que Maria nunca foi a qualquer momento manchada pela mancha do pecado original. A solução de Palamas para o problema, de que tanto quanto nós sabemos, ele tem sido o único suporte, é que Deus purificou progressivamente todos os ancestrais de Maria, um após o outro e cada um a um grau maior do que o seu antecessor, de modo que no final, eis telos, Maria foi capaz de crescer, de uma raiz completamente purificada, como uma haste impecável “sobre os limites entre criado e incriado” (4).

O Imperador Manuel II Paleólogo (1425) também pronunciou uma homilia sobre a Dormição. Nela, ele afirma em termos precisos a santificação de Maria in primo instanti. Ele também diz que Maria era cheia de grça “desde o momento de sua concepção” e que, assim que ela começou a existir… Não houve tempo quando que Jesus não estava unido com ela”. Devemos notar que Manuel não foi um mero amador em teologia. Ele tinha escrito com muitos detalhes sobre a procissão do Espírito Santo e tinha tomado parte nos debates doutrinais durante sua viagem ao Ocidente. Pode-se, portanto, considera-lo como um representante qualificado da teologia Bizantina do seu tempo (5).

George Scholarios (+1456) o último Patriarca de Constatinopla do Império Bizantino, também deixou-nos uma homilia sobre a Dorminação e uma explícita afirmação da Imaculada Conceição. Ele diz que Maria foi “toda pura desde o primeiro momento de sua existência (gegne theion euthus)” (6).

É um pouco estranho que a mais precisa afirmação da Imaculada Conceição viria do mais Anti-Latino, o mais “protestantizado” dos Patriarcas de Constantinopla, Cyril Lukaris (+1638). Ele deu um sermão sobre a Dormição de Nossa Senhora. Ele disse que Maria “era totalmente santificada desde o seu primeiro momento da concepção (ole egiasmene en aute te sullepsei) quando seu corpo foi formado e quando sua alma unida ao corpo; e mais a frente ele escreve “Quanto ao Panaghia, quem é que não sabe que ela é pura e imaculada, que ela era um instrumento impecável, santificado em sua concepção e seu nascimento, como convém a quem conter Aquele a quem nada pode conter”? ” (7).

Gerasimo, Patriarca de Alexandria (1639), ensina ao mesmo tempo, de acordo com a crônica dos Gregos, Hypsilantis, que a Theotokos “”não estava sujeita ao pecado de nosso primeiro pai (ouk npekeito to propatopiko hamarte mati)”; e um manual de teologia dogmática do mesmo século escrito por Nicolas Coursoulas (+1652) declarou que “A alma da Santa Virgem foi feita isenta de toda a mancha do pecado original desde o primeiro momento de sua criação por e união com o corpo.” (8). Eu não estou ciente de que outras vozes se levantaram contra a Imaculada Conceição.. Damasceno o Estudita, no século XVI, Mitrophanes Cristopoulos, Patriarca de Alexandria e Dosithes, Patriarca de Jerusalém no século XVII, todos ensinaram que Maria foi santificada apenas no útero de sua mãe. Nicéforo Calisto no século XIV e o Hagiorite no século XVIII ensinaram que Maria foi purificada do pecado Original no dia da anunciação. Mas as opiniões que temos ouvido em favor da Imaculada Conceição não são menos eminentes ou menos bem qualificadas. Só depois da bula de Pio IX, Ineffabilis Deus, em 1854, que grande parte da Igreja Grega pareceu ter se virado contra a crença da Imaculada Conceição, Ainda em 1855, o professor ateniense Christopher Damalas, foi capaz de declarar: “temos sempre mantido e sempre ensinado esta doutrina. Este ponto é muito sagrado para dar origem a discussões e não tem necessidade de uma delegação de Roma “. (9) Mas foi só em 1896 que encontramos um texto oficial classificando a Imaculada Conceição entre as diferenças de Roma e Oriente Ortodoxo. Este texto é uma carta sinodal escrita pelo Patriarca Ecumênico, Anthimes VII, em resposta à encíclica Piaeclara Gratulationis enderaçada por Leão XIII para os fieis das Igrejas Orientais. Contudo, do ponto de vista Ortodoxo, o documento constantinopolitano tinham uma importância doutrinal muito limitada. Embora deve ser lida com respeito e atenção, ainda não possui nenhuma das marcas da infalibilidade, nem a disciplina eclesiástica impôs a crença em seus ensinamentos com uma questão de consciência, e deixa o solo bastante claro para o debate teológicos e históricos sobre este ponto. notas: 

1. Photius, homil. I in Annunt., in the collection of St. Aristarchis, Photiou logoi kai homiliai, Constantinople 1901, t. II, p. 236. 2. Theognostes, hom. in fest. Dormitionis, Greek Cod. 763 of the Bibliotheque Nationale of Paris, fol. 8. v. 3. Euthemius, hom. in concept. S. Annae, Cod. laudianus 69 of the Bodleian Library, fol. 122-126. 4. Photius, In Praesentat. Deiparae, in the collection of Sophoclis Grigoriou tou Palama homiliai kb’, Athens 1861. 5. Manuel Paleologus, orat. in Dormit., Vatic. graecus 1619. A Latin translation is to be found in Migne P.G. t. CLVI, 91-108. 6. Scholarios, hom. in Dormit., Greek Cod. 1294 of the Bibliotheque Nationale of Paris, fol. 139 v. 7. Lukaris, hom. in Dormit., Cod. 263 of the Metochion of the Holy Sepulchre in Constantinople, fol. 612-613, and hom. in Nativ., Cod. 39 of the Metochion, fol. 93. 8. Hypsilantis, Ta meta ten alosin, Constantinople, 1870, p. 131. Coursoulas, Sunopsis ten ieras Theologias, Zante, 1862, vol. I, pp. 336-342. 9. Quoted by Frederic George Lee, in The Sinless Conception of the Mother of God, London 1891, p. 58.

Créditos: Daniel Silva

 
 
 

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