top of page

A MEDIDA COM QUE MEDIRDES…

No Evangelho da Missa de um dos últimos domingos, Jesus falou do vício humano de procurar defeitos no outro, antes do implacável examinador mirar-se no espelho mais próximo.

É interessante ligar esse assunto com o dos inimigos, aos quais incompreensivelmente Jesus mandou amar. Nada é mais fácil e agradável do que procurar defeitos no próximo, sobretudo se são inimigos. Mas nem os mais próximos e amigos escapam dessa alça de mira.

Santo Agostinho disse sabiamente, nalgum lugar, que em vez da preocupação com a virtude faltante no próximo, é preferível verificar como estamos nós em relação a essa virtude, pois certamente ainda deve faltar muito para que ela já esteja vitoriosa sobre o vício oposto.

De certo modo, porém, não deixa de ser um bom exercício esse de procurar defeito no próximo, desde que, no milésimo de segundo seguinte à sua localização, o caçador de defeitos alheios se volte imediatamente para o próprio umbigo e comece a trabalhar, em si mesmo, na construção da virtude oposta ao vício ausente no outro (que certamente ainda estará bem no início das obras, talvez ainda na etapa da fundação).

Com respeito ao próximo, é utilíssimo e caridoso o conselho cristão — e do próprio senso comum — de nos colocarmos em seu lugar, tentando conhecer as circunstâncias em que vive e viveu, sua história de vida, antes de proferir o julgamento.

É inevitável retornar, sempre, à questão do julgamento. Tecnicamente falando, julgar é afirmar a realidade de algo, depois de examiná-lo bem. Se digo que tal bispo alemão é herético, por defender o casamento gay, estou proferindo um julgamento objetivamente legítimo. Há dois modos, porém, de dizer isto: com o desprezo de quem se considera além de todos os pecados, ou com o compadecimento de quem vê a enrascada em que o bispo herético está se metendo, rezando por sua quase impossível conversão. O impossível para seres humanos é perfeitamente possível para Deus.

Tenho vários vizinhos de rua que são divorciados e vivem com outras pessoas, em casamento civil ou não. Como eles foram educados para ver o casamento? O que aprenderam de seus pais, de seus catequistas, do padre de sua paróquia, dos professores das escolas por que passaram, das novelas da Globo e dos filmes de Hollywood que viram? Se foi sempre para aceitar o divórcio, o lapidar juízo “eles estão em pecado mortal” terá de ter uma conotação obrigatoriamente mais compreensiva, e isto ainda não significa cair na armadilha do relativismo.

Sei que não posso fazer nada por esses vizinhos, objetivamente falando — não posso apertar a campainha de sua porta com o Catecismo debaixo do braço e dizer: “Vem cá, vamos conversar um pouco sobre esse assunto. Que tal deixar de fazer isto ou aquilo?” —, mas subjetivamente ainda posso bastante: está a meu alcance praticar a forma suprema de caridade, que é desejar a salvação dos outros, rezando para que eles um dia acordem para a verdade da indissolubilidade matrimonial e para que Deus tenha piedade dessas almas ludibriadas pelos tempos que correm.

0 visualização0 comentário

Posts Relacionados

Ver tudo

Comments


bottom of page