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A PRIMEIRA CRUZADA

30 de jan. de 2018
5 min de leitura

vamos entender o que foram as Cruzadas, afinal de contas o que foram? Como podemos definir com honestidade a série de expedições militares que prosseguiram por vários séculos? Um historiador eglpcio, Aziz Suryal Atiya, deu o que parece ser a descrição adequada:

O consenso geral entre os medievalistas ( … ) é que as Cruzadas foram expedições militares organizadas pelos povos da cristandade ocidental, notavelmente os normandos e os franceses, sob a liderança dos papas romanos. e que tinham como objetivo recuperar locais sagrados que estavam nas mãos de governantes muçulmanos.

Isso parece resumir mais claramente o que foram de fato as Cruzadas e como seus participantes as viam. As Cruzadas não foram aventuras colonialistas ou comercias, não tinham a intenção de cristianizar judeus ou muçulmanos e não foram projetos individuais de senhores de guerra. O seu objetivo principal, além da defesa do Império Oriental, era a recuperação da Terra Santa para a cristandade. Elas reconheciam a liderança dos papas. Como escreveu o historiador francês Louis Bréhier, “os papas, por si só, compreendiam a ameaça que o progresso islâmico oferecia à civilização cristã.” (Houve, no entanto, um ou dois casos nos quais a liderança papal foi desprezada ou ignorada, como veremos adiante.)

Em 1095, o papa Urbano II fez um apelo urgente à cristandade, pois recebera uma carta do Imperador Bizantino Aleixo l Comneno descrevendo o grande perigo no qual seu reino fora colocado, em virtude do poder crescente e do aumento de ataques de uma outra tribo muçulmana, os turco seljúcidas. Esse grupo, chamado por muitos de turcos, turcomanos ou tártaros, havia se deslocado das pradarias da Ásia rumo ao Ocidente. Após conquistar o enfraquecido califado de Bagdá em 1055, expandiram o seu império, à custa de outros governos muçulmanos e de Bizâncio, e agora governavam a Terra Santa. Em 1071, os turcos haviam derrotado as forças bizantinas, capturado o imperador e o forçado a assinar um t ratado de paz, abrindo caminho para a expansão turca na Ásia Menor. Em poucos anos os turcos adentraram Anatólia, também chamada de Ásia Menor (atual Turquia) e montaram quartéis em Niceia (local do famoso concilio da Igreja do século IV, que criou o Credo de Niceia), perto de Constantinopla (atual Istambul).

No seu famoso discurso, do qual existem diversas versões, o papa Urbano enfatizou aos guerreiros ocidentais a importância de socorreram os cristãos do Oriente, incluindo aqueles que estavam na Terra Santa. O objetivo era levantar uma força internacional de soldados profissionais para mar char e libertar o Império Bizantino. Entretanto, o que chamou a atenção das massas da Europa foi a ideia de libertar a Terra Santa dos infiéis. A ideia de indulgência plenária para quem “tomasse a cruz” – símbolo de um comprometimento com a cruzada – também as atraía, embora possam ter ficado confusas sobre as condições requeridas para tamanho beneficio espiritual. Um cavaleiro que fazia o juramento dos cruzados deveria fazê-lo com intenção pura e arrependimento por seus pecados; se morresse lutando honradamente pela defesa do cristianismo, o Céu seria a sua recompensa. É provável que em muitos casos as condições espirituais não fossem conhecidas. Motivos como um mero desejo por aventura, roubo ou fuga das responsabilidades domésticas (ou da lei) na terra natal não qualificariam um guerreiro. No entanto, críticos das Cruzadas zombam da própria ideia do papa de oferecer indulgência aos cruzados, e presumem que ele prometia o Céu aleatoriamente – como um imame que promete houris e rios de vinho para os guerreiros jihadistas que se explodirem pelos ares.

Cavaleiros de várias nações da Europa começaram a reunir armas e homens, e isso naturalmente demorou algum tempo. Havia outros, todavia, que não precisavam de tempo para se preparar, pois possuíam muito pouco ou nada. Esses “outros” – os pobres – eram muitos e foram elementos significativos na história da Primeira Cruzada. Este é um ponto importante, discutido em um artigo de Walter Porges sobre os não combatentes da Primeira Cruzada. Ele recorda a longa tradição de peregrinações à Terra Santa e o grande crescimento no tamanho dessas expedições.

Havia, no século XI, peregrinações de alemães com milhares de pessoas. Em 1064, uma expedição partiu com cerca de 7 a 12 mil peregrinos. O papa, portanto, deve ter presumido que quando a Cruzada começasse, haveria muitos leigos que, contando com a proteção dos guerreiros, estariam ansiosos para visitar os locais sagrados. Ele tentou limitar a participação deles. Exigia que peregrinos consultassem o clero local para se aconselharem sobre a viagem, desencorajava os doentes e fracos e insistia que mesmo os pobres deveriam estar dispostos a lutar, caso fosse necessário. Infelizmente, não conseguiu conter o grande número de cruzados despreparados. Pregações inflamadas de leigos atraiam multidões; doentes, velhos e até crianças partiram, a despeito dos avisos do papa, assim como muitos membros do clero sem permissão para seguir. Muitos desses estavam em ordens menores e talvez estivessem ávidos para deixar os lares, pois a reforma de Santo Odon de Cluny estava sendo muito severa para eles. Grande parte dessas hordas de não combatentes sucumbiu antes mesmo de chegar a Constantinopla, e muitos deles deram bastante trabalho ao exército cruzado e ao clero autorizado, que tinham de ajudá los e socorrê-los.

Em todo caso, lá chegaram, mas os guerreiros que o imperador Aleixo havia requerido não foram os primeiros a se aproximar dos portões de Constantinopla. Os primeiros a chegar foram as multidões entusiastas. Trazendo noções confusas sobre riqueza oriental a ser tomada, além de aventuras heróicas, eles haviam seguido líderes como Pedro, o Eremita e Gualrério Sem-Haveres através do continente e saqueado ao longo do caminho. Tornaram-se tão perigosos que alguns governantes fecharam-lhes as fronteiras, temendo o dano que causariam. Aleixo desejava ter feito o mesmo quando os viu chegar aos portões, em vez da infantaria e da cavalaria que esperava.

Friamente, talvez, apesar de ser difícil pensar no que mais poderia ter feito, ele transportou esses pretensos cruzados através do estreito de Dardanelos, até o local onde iriam obter seu desejo de lutar contra os turcos. Eles lutaram e foram massacrados. Depois chegou a Cruzada dos Cavaleiros. Era o que Aleixo esperava. O choque cultural causado a um grego refinado ao encontrar-se com um grupo de homens brutos cujos antepassados recentes eram bárbaros, foi motivo de um fascinante estudo para a filha de Aleixo, a historiadora Ana Comnena; a ela devemos muitos dos detalhes desse encontro apreensivo. A riqueza de Bizâncio impressionou os cruzados – e despertou a cobiça em alguns deles. Tendo chegado à zona de combate e começado a libertar propriedades imperiais das mãos dos turcos, alguns cruzados relutaram em devolver as terras ao imperador, causando mais tensão. O resultado foi a criação de pequenos principados cruzados que conseguiram sobreviver na Slria e na Palestina por dois séculos.

 
 
 

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