A PROIBIÇÃO DE SE FABRICAR ÍDOLOS
A PROIBIÇÃO DE SE FABRICAR ÍDOLOS
Texto exegético de Êxodo 20,13 -16 e Deuteronômio 5,5 – 10

Para entendermos a confusão que muitos protestantes fazem sobre a questão da fabricação de imagens sacras, teremos que entender que esses debates, são, na verdade causados por falta de conhecimento; primeiro da cultura Judaica da época em que o decálogo se fixou como norma para a vida do povo Judeu e, segundo do contexto que o gerou. Uma questão que as pessoas ainda não entenderam, é que os mandamentos retratados pelo decálogo tinham uma única finalidade, preservar a liberdade do Povo de Deus.
Podemos observar claramente que a finalidade dos dez mandamentos, era criar uma exclusividade de culto, onde IaHWeH se torna o único Deus. A imagem adorada como imagem de Deus ou adorada como se tivesse os mesmos poderes de Deus era proibida. Este é, propriamente dito, o ídolo condenado por toda a escritura. Esta é a segunda hipótese: os mandamentos, retratados pelo decálogo, não proíbem a confecção de meras imagens, mas, efetivamente de Ídolos.
Fazendo uma análise das diferenças e das semelhanças entre os textos do decálogo, presentes no livro de exôdo e no de Deuteronômio. Essa análise nos dará material e fundamentação para sabermos se o decálogo foi escrito pelo mesmo do Deuteronômio.
Em nenhum momento vou colocar em dúvida a palavra de Deus, tenho consciência de que a Igreja afirma que ele mesmo escreveu o decálogo. Mas, vamos verificar se é fruto de um ou de vários autores conhecemos no, entanto, os acréscimos colocado ao longo dos séculos e preservados pelos redatores finais que não tiram valor do decálogo como palavra própria de IaHWeH. Cada mudança redacional foi realizada por homens altamente inspirados por Deus, o que faz com que o valor da palavra de IaHWeH permaneça.
Temos que começar com uma análise, identificando para quem o decálogo foi escrito, pessoas ou grupo de pessoas para as quais o decálogo foi escrito. Em uma tentativa de atualização, Veremos se, hoje, nós nos identificamos com Tais destinatários.
E quanto ao lugar em que o decálogo foi escrito? Sinai/ Horebe ou é fruto da convivência dos primeiros Hebreus que viveram na época tribal?
Temos que descobrir qual foi a intenção que levou o autor a escrever o decalogo. O povo foi escravo no Egito por causa da idolatria. Deus o libertou por intermédio de Moisés através do evento denominado Êxodo. Mas o Êxodo não foi simplesmente um acontecimento em prol da libertação do Povo de Deus. IaHWeH tinha um plano, o qual chamamos de projeto do Êxodo. tal projeto consistia em dar condições para que o povo soubesse o que fazer para preservar a liberdade que foi conquistada a duras penas, haja Vista, os quarenta anos que o mesmo levou para atravessar o deserto. Esse projeto se fundamentou e se concretizou nos mandamentos, Mais especificamente na Torá da qual os dez mandamentos são símbolo.
O DECÁLOGO
SABEMOS QUE O DECÁLOGO SE ENCONTRA EM ÊXODO 20,13 -17 E DEUTERONÔMIO 5,6 – 21. O texto que ambos os livros apresentam é conhecido como “Dez Palavras”, “Dez Mandamentos” ou “decálogo”. O conceito de decálogo, segundo Bauer, vem da primeira tradução chamada septuaginta: “baseia-se na tradução grega (na LXX) do hebraico aseret haddebarim (dez palavras).
O termo decálogo, derivado do grego dekalogos, foi usado primeiramente, por Irineu e Clemente de Alexandria. Ele confirma a origem do termo em Êxodo 34,28; Deuteronômio 10,4, que a septuaginta traduz como tous deka Logous.
Muitos comentários surgem quando algumas pessoas encontram o decálogo em Êxodo em Deuteronômio. Pensam, por exemplo, que é o mesmo texto repetido, sem nenhuma modificação; outras Imaginam que, como o autor dos cinco livros é o mesmo, no caso, Moisés, pode-se colocar o mesmo texto em quantos livros desejar. No entanto, os especialistas não pensam dessa forma. Para eles, na verdade, os textos “nasceram em épocas diferentes” e são de autores diferentes, uma vez que cada um que mudou o texto é considerado o verdadeiro autor. O biblista Lopes, por exemplo, afirma, concordando com albrecht alt, que “as leis apodíticas são anteriores A Moisés e encontram-se fora de Israel. Até mesmo, algumas diretivas de chefes de clãs nômades seriam de formas apodíticas. Uma espécie de ‘leis universais’ praticadas, naturalmente, em todos os clãs e em todas as tribos. Com Isso, demonstra que alguns mandamentos já existiam antes de Moisés e não nasceram em Israel. Com esses argumentos Lopes mostra que a origem dos dez mandamentos é mais antiga do que se imagina, mas foi se efetivando, com o passar do tempo, na vida do povo.
Alguns especialistas discutem também sobre a seguinte questão: qual dos dois textos foi escrito primeiro? para muitos pesquisadores foi o do Êxodo, para outros foi o do Deuteronômio. Por exemplo: Erhard Gerstemberg, exegeta alemão, diz que, “conforme F. L. Hossfeld, ‘o decálogo’ de Deuteronômio 5 foi o primeiro a receber o seu lugar no início das Revelações de Javé. Do Deuteronômio esse texto foi transferido para o contexto do livro do Êxodo para encabeçar as instruções sinaíticas.
Por outro lado, Airton José da Silva, afirma que “o mais velho é Êxodo 20, 1 17”. Em vários momentos, George V. pixley fala do decálogo de Êxodo 20 como sendo a “versão mais primitiva”.
Frank Crüsemann trabalha sob nova perspectiva. Em seu trabalho, ele busca descobrir se o autor de Deuteronômio é o mesmo autor do decálogo. Ele faz uma comparação entre os textos buscando as semelhanças e as diferenças. Segundo ele, partindo do ponto de vista das semelhanças, poderíamos concluir que o autor é o mesmo e que é de tradição deuteronomista. Isso significa que o texto do Deuteronômio é mais antigo que o próprio decálogo. Ao analisar as diferenças entre os textos, Crüsemann conclui que não se pode postular o mesmo autor. O Deuteronômio possui características literárias, apontadas pela crítica literária, que comprovam que é o mais antigo. Vou expor, de modo sintético o resultado da pesquisa:
Quanto às semelhanças: a fórmula “teu Deus” a descrição do Êxodo, a caracterização do Egito como “a casa de Servidão” são muito frequentes na linguagem do Deuteronômio. Raramente eles aparecem fora da linguagem deuteronomista. Isso também vale para outras expressões do decálogo, como ‘outros deuses’ do 1° mandamento. Depois disso, Crüsemann cita W.H.Schmidt que, em 1923, já escrevia “…. o decálogo é uma criação da mesma pena que criou também o Deuteronômio.
Quanto às diferenças: Crüsemam chama a atenção para as pesquisas de N.Lohfink: “o sábado, que no decálogo é tão significativo, no Deuteronômio não tem importância. Aquela expressão do 1° mandamento ‘al panay’l’ diante do meu rosto’ não tem nenhuma correlação com o Deuteronômio e nunca aparece aí. o mesmo vale para o termo ‘anoki ao invés de ‘ni).
Depois de analisar as semelhanças e as diferenças, Crüsemann acredita que os argumentos com relação às diferenças provam que “não estamos diante do mesmo autor, ou que não podemos postular para ambos o mesmo círculo de autores”. Afirma ainda que as diferenças, por si mesmas, mostram o quanto o texto do Deuteronômio é o mais antigo. Ele na maneira como está, sofreu interferência de vários grupos de escritores e das várias tradições.
É importante saber: não existem somente estes dois textos com dez mandamentos. Os escribas chegaram a determinar “613 mandamentos”. Há muitos textos com dez e até doze mandamentos, mas sabemos que, Originalmente, não eram assim. Talvez esse modo de classificação facilitasse o estudo e a apreensão dos textos. O texto dos dez mandamentos é o mais famoso por que se radicalizou, de modo especial, entre os cristãos. Trabalharemos especificamente com ele pois é o objeto material de nosso estudo.
Quando olhamos para dentro do texto Os Dez Mandamentos notamos alguns aspectos literários interessantes:
1•Cada mandamento é sui generis ou seja tem um jeito próprio universal globalizante por isso o nome apodítico
2•oito são os políticos negativos também chamados de interdições
3•dois são a políticos positivos que são os mandamentos propriamente ditos;
4•Alguns são curtos e diretos e não apresentam objeto;
5•outros tem comprimento;
6•apresento a mudança do sujeito vai da 1° para 3° pessoa passando pela 2° pessoa.
Isso indica que alguém ou algum grupo deve ter trabalhado o texto e o deixado na forma em que está. Sem dúvida, houve um trabalho redacional. Partindo desse ponto de vista, Lopes concordo com Crüsemann. Ele acrescenta que “… este famoso texto não é obra de um único autor, Mas recebeu inúmeros acréscimos” segundo o biblista Airton José da Silva, na sua origem, não eram dez. Seriam séries Independentes pequenas, grupos de dois, três ou cinco preceitos. Quem os agrupou, formando o número dez, foi o redator de Êxodo 20, 1-17. Ele é conhecido com eloísta* e escreveu seu texto entre os anos 850 e 750 AC.
*eloísta é o nome dado ao grupo de redatores que revisões retocouuma seção da Bíblia, cuja maior parte pertence ao chamado pentateuco. A tradição eloísta teve sua redação em meados do século VIII ac., No reino do norte — Israel — e chama Deus de Elohim. Ela continua tendo a história da salvação como tema central, mas de forma menos otimistas que outras tradições.
Autor
Alguns autores que escrevem sobre os dez mandamentos fazem questão de citar: “O seu autor (dos dez mandamentos) é o Criador do céu e da terra”. O decálogo foi revelado por Deus ao povo de Israel no monte Sinai. No diálogo aberto entre Moisés e Deus, este proclama solenemente o decálogo.” O próprio laHWeH os escreveu conforme as Escrituras.
A tradição literária mostra que era costume, naquela época, atribuir a autoria da “obra” a um escritor famoso ou a um grande patriarca (Moisés) ou ao próprio Deus. Desta forma, o povo não questionaria e obedeceria com total resignação. “Atribuindo o fundamento destas leis à responsabilidade do homem diante de Deus, e não tão-somente diante da sua consciência, Moisés pôde assegurar o seu cumprimento total em todas as circunstâncias e em todas as épocas. Não é porque a palavra de Deus diz que foi Deus quem escreveu os mandamentos, que tenhamos de acreditar que Ele os escreveu da maneira como estão na bíblia hoje. Esta é a intenção real de quem colocou o texto dentro do contexto em que se encontra. Por outro lado, as pesquisas mostram que o decálogo é ainda fonte de muitas discussões.
Erhard S. Gerstenbergen, exegeta alemão afirma: “O texto é uma obra redacional, isto sim, reunindo regras de diversas origens”. Muitas leis particulares foram geradas dentro do ambiente familiar, do clã, da aldeia, das comunidades que existiam antes da monarquia. Essas normas comunitárias visavam manter a ordem na aldeia, principalmente “no que diz respeito à integridade pessoal, às relações sexuais e à propriedade particular”. Nesse sentido, nasceram algumas normas universais” que, por terem sido geradas em pequenos grupos, dispensavam, originalmente, maiores comentários: não matarás, não adulterarás, não roubarás.
A convivência dentro do âmbito familiar obrigou o surgimento de algumas normais internas, como honrar pai e mãe. A casa era o centro do culto. “A autoridade básica não está no rei, mas nos pais, nas famílias. A família era a pequena família e também a grande família patriarcal, a comunidade. Os pais eram pai e mãe e também os patriarcas da grande família, os coordenadores da comunidade”. Os patriarcas construíam altares e faziam sacrifícios em favor de seu clã.
Cada grupo familiar vivia em um determinado clã. Com o passar do tempo, talvez séculos, este acabava tornando-se aldeia e as aldeias, depois de muito tempo também, tribos. Nasceram, então, as normas sobre a “cobiça” da mulher e das “coisas” do próximo. Essas normas passavam a ser diretivas gerais, universais, observadas por todo tipo de grupo. Conforme foram passando os anos, talvez séculos, elas foram evoluindo, dispensando-se e efetivando-se. Até que se tornaram “famosas” e seguidas por todos. Enfim, para que pudessem se radicalizar, foi necessário “atribuir–lhes” o Autor dos autores — IaHWeH.
No meio de todo o processo de sua evolução, temos influências literárias de vários redatores. Todos esses grupos contribuíram para a redação não só do decálogo como de todo o Pentateuco.
O Reino do Norte durou muito pouco: aproximadamente de 931 a 722 a.C. , pouco mais de duzentos anos, e o Reino do Sul, aproximadamente de 931 a 586 a.C. O povo, que outrora fora escravo no Egito, agora cai nas mãos dos assírios e, depois, dos babilônios. “Foi neste contexto que, por volta de 850 a.C. ou um pouco mais tarde, o eloísta redigiu Êxodo 20,1-17, agrupando em número de dez alguns dos mais importantes preceitos esparsos da ética tribal”.
Notamos características javistas no decálogo, pegando como ponto de referência o próprio nome de Deus — IaHWeH. “Em 1753, Astruc, médico de Luís XV (rei da França), notando que Deus era chamado, no Pentateuco, ora de IaHWeH ora de ‘Elohim’, aventou a hipótese de que isso se devesse a narrações paralelas.”
O decálogo possui também características sacerdotais: “O redator do Pentateuco, porém, ajustando o Tetrateuco ao Deuteronômio, em nova redação sacerdotal, inseriu o decálogo, juntamente com o Código da Aliança, na perícope do Sinai em Ex 20”. Encontramos mais à frente outros traços sacerdotais. “O redator do Pentateuco, finalmente, organizou os mandamentos segundo o esquema da dezena e introduziu a lei do Sábado a organização sabática, sacerdotal, da criação do mundo”.
Independentemente de estar no livro do Êxodo ou não, devido as evoluções relacionais sofridas, o decálogo também traz características Deuteronomistas peculiares: “por um lado, há no decálogo, e sobretudo em sua parte introdutória, relações estreitas e até íntimas com a linguagem e a literatura do Deuteronômio.
Depois, com a vinda da Monarquia, os reis de Israel “legislação com base nas antigas leis tribais e criavam novas leis em função de suas necessidades.
DESTINATÁRIOS
Quando analisamos uma obra, é muito importante identificar os seus destinatários, ou seja, quais são as pessoas para as quais o autor vai se dirigir. Sua identidade, o trabalho que desenvolveram e a ideologia que seguiram poderão nos ajudar a descobrir características do povo da época e a finalidade para a qual o autor resolveu escrever.
Carlos Mesters afirma que os dez mandamentos “se destinam, em primeiro lugar, ao povo”. Aqui, em uma tentativa de atualização, mesters quer mostrar que todos devem estar comprometidos na construção de uma sociedade melhor, visando ao bem comum. Chouraqui generaliza um pouco mais: O decálogo, longe de nascer para um país específico, foi destinada a pátria do homem. Já o exegeta Alemão Erhard S. Gerstenberger quer dizer, é preciso saber um pouco sobre as pessoas da época, seu estilo de vida e sua sociedade. Com relação a esse assunto, Crüsemann, utilizando-se do próprio texto, destaca alguns pontos relevantes: “O decálogo se dirige a pessoas que tem pai e mãe Êxodo 20,12 e Filhos Versículo 10 conferir Versículo 5 e que podem cobiçar mulheres versículo 14 e versículo 17. Sob o ponto de vista das relações de propriedade, ele se destina a pessoas que têm escravos e escravas Versículo 10 que tem terra de cultivo Versículo 12 e gado próprios Versículo 10. os destinatários tem a possibilidade de cultuar outros Deuses Versículo 3 e Versículo 5 de fabricar Ou pelo menos erigir imagens de deuses Versículo 4. eles são aptos a tomar em vão (por juramento) o nome de Javé versículo 7 e a participar de um processo jurídico como testemunhas ou acusadores Versículo 16 e se encontram em relação com vizinhos que, assim como eles próprios, possuem mulheres, de casas escravos e animais Versículo 17.
A partir dessas idéias que podemos perceber no próprio texto, crüsemann, naturalmente, tira algumas conclusões: “O decálogo se dirige a homens adultos, aptos para a prática jurídica e cúlticas. Eles se caracterizam pelo fato de possuírem terra e gados; são agricultores. Possuem escravos, sendo, portanto, pessoas livres. Além desses itens, analisando por um outro ponto de vista, continua concluindo: “O decálogo, não se dirige a crianças. Ele também não se dirige a mulheres. Não se dirige nem a escravos nem a pessoas assalariadas”. E termina: “… O decálogo foi formulado somente para os homens de determinada classe social em israel”. crüsemenn, mediante uma análise histórico social, esclarece quem são ‘os homens dessa determinada classe social em israel’ os “cidadãos plenos” . É assim que os agricultores livres eram chamados. Antes da monarquia, eles controlavam a sociedade. O decálogo, com o tempo, foi ficando conhecido e sofrendo ampliações e adesões por parte de outros segmentos. Com o advento da monarquia, Surge uma nova classe social, “a corte com seus funcionários e soldados”, que vivem da tributação ou corvéia*. Outras classes trabalhistas foram aparecendo. Ao lado desses cortesãos, “passaram a existir Comerciantes e artesãos e sobretudo Forasteiros, pessoas que não possuíam terra mas viviam em caráter Permanente em Israel… Além desses havia naturalmente, ainda, escravos e trabalhadores assalariados ou diaristas Deuteronômio 24,14. Ele não deixa de falar também dos livres proprietários do século VIII: ricos, latifundiários, senhores de escravos por dívidas e pequenos agricultores, mais conhecidos como pobres, humildes, espoliados e oprimidos”. Adiante, frisa para que não se esqueça “o decálogo se destina ao estamento” dos proprietários livres de Israel. E conclui o capítulo que fala dos destinatários com a síntese: “o decálogo, inclusive seu prólogo, deve ser aplicado do início ao fim ao proprietário Israelita enquanto indivíduo.
Espaço e tempo
De modo geral, segue-se o que está escrito: Moisés estava liderando o povo hebreu na libertação do Egito. Quando chegou a um certo monte — chamado de Sinai no livro Êxodo (cf. Ex 19, 1-2.11.18.20.23; 24,16; 31,38; 34,2.4.29.32) e de Horeb no Deuteronômio (cf. Dt 1,2.6.19; 4,10.15; 9,8; 18,16; 28, 69) — subiu e lá teve um encontro com IaHWeH. “O Sinai/Horeb é, antes de tudo, o ponto de encontro de Deus com o seu povo.” Aqui, Moisés simboliza todo o povo. Em toda a bíblia, a montanha é um lugar teológico, onde as divindades se manifestavam. O monte Olimpo, por exemplo, na Grécia, era considerado o lugar onde os deuses gregos moravam. Segundo a tradição judaica, é em um monte que IaHWeH se manifesta. “Na história das religiões, as montanhas sempre ocuparam lugar importante.” O biblista Airton José Silva afirma que foi o eloísta “quem inseriu os mandamentos no ambiente da aliança feita no Sinai entre Iahweh e Israel”. Para ele, o eloísta simboliza todos os camponeses da época, revoltados por causa da violação da solidariedade vivida nas tribos. Airton, baseado nesta ideia, encontra o lugar original dos mandamentos, que, na sua opinião, não é o Sinai/Horeb, mas “a sociedade israelita pré-monárquica, organizada a partir das relações de parentesco e conhecida como sociedade tribal seminômade”. Gerstenberger é da mesma opinião. Técio Machado Siqueira afirma: “Embora as relações das leis do Antigo Testamento esconda, há claras evidências de que, durante a vida nômade, o povo administrava sua vida comunitária através de leis”. Carlos Mesters mostra que os mandamentos vividos pelas famílias, clãs e tribos passaram por uma evolução e tiveram sua redação final na época depois do cariveiro.
Com relação à época de seu surgimento, Crusemann também dá a sua contribuição. Comunga das mesmas ideias de Gerstenberger, no sentido de que, originalmente, os mandamentos “não têm Deus, mas alguma autoridade humana atrás de si… , e conclui: “Atrás dessas afinações está a autoridade humana do chefe da clã. Para ele, é impossível determinar uma data específica para marcar o nascimento do decálogo, uma vez que não há comprovações arqueológicas que possam provar algo. Os documentos da época também não ajudam muito no tocante a esse assunto. Afirma que “a datação realmente exata de um texto como o decálogo já não é possível porque suas tradições e suas formas textuais passaram por constantes transformações”. Por outro lado, diz: “o desenvolvimento do decálogo pode ser situado na época do pós-exílio. Como mostram o Papiro de Nash e a Septuaginta, esse processo tem continuidade no pós-exílio, inclusive depois da canonização. Crusemann, dando destaque à introdução dos dez mandamentos, continua dizendo que o momento histórico mais importante foi “aquele em que essa seleção de mandamentos foi juntada sob esse prólogo. Esta é a hora do nascimento do decálogo”. Ele mostra que é possível determinar a data em que ele foi reunido os mandamentos. “Os marcos extremos situam-se entre o século 9 e a época imediatamente após o exílio. No século 9 temos, sobretudo o profeta Elias, cuja pregação gira toda em torno do 1°mandamento”. Um outro argumento que usa é que as dez palavras não eram conhecidas pelos profetas do século VIII: “O prefetismo do século 8, com seu forte acento na crítica social e no anúncio do juízo, não se refere de maneira explícita e inequívoca ao decálogo. Isso teria sido diferente de, naquela época, o decálogo existisse como um texto importante, antigo e reconhecido”. Mais para a frente, ele afirma categoricamente: “…o decálogo de fato ainda não existia no século 8”. Ao analisar Oséias, Crusemann diz que o Profeta não chega a fazer uma citação dos dez mandamentos em 4,2, mas de “uma das séries mais antigas , da qual também o decálogo se serve como fonte”. Ele afirma, realmente, que o Profeta não chegou a conhecer os preceitos da forma como estão no Pentateuco:”O decálogo, como tal, não pode ser conhecido por Oséias. Isso significa que o decálogo ainda não existia na época do fim do Reino do Norte”, por volta de 722 a.C. Crusemann se fundamenta em L. Pettit para afirmar que as dez palavras são consequências de uma teologia deuteronomista, por isso, pode ter surgido em um período bem posterior os que o imaginado. Segundo ele, L. Pettit “considera o decálogo como uma espécie de ‘concentrado’ da teologia deuteronomista”.
Essa ‘deuteronomização’ do decálogo levantou uma outra dúvida: qual a data do Deuteronômio? Crusemann é um tanto polêmico com relação a isso, porque vai de encontro à opinião de muitos. Para ele, “todos os indícios depõem a favor de que o Deuteronômio seja identificado com o livro de Josias, mencionado em 2Rs22s”. Outros consideram que o “Deuteronômio deve ser concebido como um texto exílico ou até pós-exílico com fortes traços utópicos”. Fundamentando o que diz, escreve: “Creio ser possível demonstrar de modo convincente que o Deuteronômio provém do fim da época pré-exílica. Ele pressupõe, por exemplo, a posse da terra por parte de Israel. O cerne do Deuteronômio provavelmente é idêntico ao livro de Josias”. Depois de tudo isso que foi levantado, Crusemann faz uma síntese de todas as ideias e conclui:”o decálogo pertence à época pré-exílica tardia. É um produto da época entre Oséias e o Deuteronômio; historicamente falando: entre a destruição do Reino do Norte e Josias. Certamente deve ter surgido naquela época, para nós tão obscura, do reinado do rei Manassés… Para compreender o decálogo, é necessário perceber, em primeiro lugar, que ele já representa uma reação à profunda crise religiosa, teológica, política e social não somente do século 9 mas também do século 8. Faz parte dessa crise… o surgimento dos grandes profetas de juízo. Sobretudo o desmantelamento do Reino do Norte e o choque que isso deve ter causado fazem parte dessa crise. Fase a essas experiências incisivas destacam-se as exigências básicas elementares de Javé: elas são reunidas no decálogo e formuladas, pela primeira vez, em tal concentração”.
INTENÇÃO DO AUTOR OU DOS AUTORES
Airton José da Silva Ressalta que “o eloísta, ao reunir em uma lista esses dez preceitos, queria evitar, em Israel, o restabelecimento da opressão do povo, como aquela antigamente sofrida no Egito. Da mesma Forma, Carlos Mesters também aponta: “Pela Lei dos dez Mandamentos, Deus oferece o caminho para o povo nunca mais voltar a viver na escravidão e conservar a liberdade que conquistou saindo do Egito. Félix garcia-lopez, seguindo o mesmo tipo de raciocínio, diz: “a obediência à lei salvaguarda a vida livre da na Terra Prometida. A transgressão da Lei compromete o bem-estar e a liberdade, assim como a própria posse da terra… Esse é, definitivamente, o primeiro objetivo dos mandamentos: conservar a vida, manter o homem livre. Os mandamentos são o canal da vida e da liberdade. Sobre esse assunto, Frank Crüsemann afirma: “Os mandamentos enunciam as condições da preservação da liberdade”. Crüsemann escreveu uma obra, que inclusive é a fonte de todos os textos postados, é uma fonte de pesquisa, onde ele desenvolveu com muita propriedade, esse tema. mais adiante, ele continua: “O decálogo tem um tema… O tema do decálogo são as exigências elementares que devem ser observadas para que se Preserve a liberdade de escrita no prólogo. Transgredir um dos mandamentos contidos nesse catálogo mínimo da liberdade prejudicaria o acabaria com a liberdade pressuposta”.
Thomas C. Chady, seguindo o mesmo modo de pensar, declara com muita propriedade: Deus libertou o seu povo da opressão e escravidão e queria que o povo continuasse livre, que ele não voltasse a aceitar nada que pudesse ameaçar essa liberdade. Deus, conhecendo muito bem o coração do homem e a sua tendência de cair perante a tentação, propôs uma nova ordem para o seu povo, uma nova constituição para reger a vida desse povo. Essa constituição tem dez artigos, Dez Mandamentos
José Luiz. Caravias fala que a idolatria é a causa da miséria e alienação do povo de Israel: “O Deus do faraó não passava de uma maquiavélica invenção humana, a fim de manter o povo na miséria e na total ignorância, garantindo mão de obra barata”. Deus, através de Moisés, liberta o seu povo e, para assegurar essa libertação, dá os mandamentos. Rejeitar Moisés é rejeitar o Deus Libertador: “Ao recusar Moisés, o povo está negando realizar-se como povo em função de um projeto concreto de libertação e de conquista de uma terra nova, na qual todos poderão viver como irmãos”. Félix garcia lopez, falando do mesmo assunto em outro livro, escreve:…”o objetivo primário dos mandamentos: conservar a vida, manter o ser humano em liberdade”.
Enfim, notamos que Carlos mesters está de comum acordo com os outros especialistas: “O objetivo dos dez mandamentos é assinalar o caminho para sair da ‘casa da escravidão’ e chegar a plena Liberdade junto à Deus (Êxodo 19,4). Essa caminhada em direção à libertação se iniciou no Êxodo e continua até hoje… um dos instrumentos mais importantes que ele entregou a Moisés, para impedir que o povo voltasse à ‘casa da escravidão’, foi a Lei dos dez mandamentos… por isso, a fiel observância desses dez mandamentos cria uma barreira que impede o retorno do povo à ‘casa da escravidão’, conforme a ordem explícita de Deus: ‘nunca mais voltará por esse caminho’ (Deuteronômio 17,16).
















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