A REFORMA PROTESTANTE NA ORIGEM DA CRISTOFOBIA ATUAL – Grzegorz Kucharczyk

[Grzegorz Kucharczyk é um historiador polonês e professor de Humanidades especializado no estudo do pensamento político dos séculos XIX e XX, bem como da história alemã. Uma de suas últimas produções é um livro intitulado Cristofobia: 500 anos de ódio a Jesus e à Igreja. Em entrevista concedida em novembro de 2021, comentando vários temas abordados no livro, destaca o vínculo existente entre a reforma protestante e a atual onda de cristofobia no mundo ocidental].
A cristianofobia é apenas a manifestação de um processo mais profundo, a que chamamos de cristofobia, observável na forma de manifestações de hostilidade para com os cristãos ou o cristianismo, mas que, na realidade, é uma hostilidade contra o próprio fundador e chefe de nossa Igreja, isto é, Jesus Cristo.
Esta é a realidade que enfrentamos, por exemplo, no ano passado [2020], nas ruas de nossas cidades. As chamadas manifestações “relâmpago vermelho” [uma série de manifestações pró-aborto organizadas na Polônia no outono de 2020] transbordavam de hostilidade contra Jesus Cristo. Slogans blasfemos foram rabiscados nas fachadas das igrejas e houve até interrupções de missas. Tratava-se realmente de expressar um ódio específico a Jesus, e isto tem ocorrido desde os tempos antigos. Perseguição aos cristãos e à Igreja é apenas o epifenômeno de uma perseguição e ódio inicial contra Jesus.
Essas manifestações no outono passado revelaram a existência de certas correntes que começaram a se formar muito antes, surgidas ao mesmo tempo. Pode ser doloroso para alguns ouvir isto, mas temos que encarar os fatos: a situação na Polônia não é tão cor-de-rosa quanto se poderia pensar. Não podemos continuar a nos iludir dizendo, a nós mesmos, que não estamos preocupados, que as manifestações da cristofobia são exclusivas do Ocidente e que a Polônia estaria isenta delas. Acontece que esses eventos foram provavelmente um último aviso para muitos de nós: a última oportunidade para percebermos a gravidade da situação.
(…) Ao contrário da propaganda, dominante em círculos onde a Reforma é vista apenas como um progresso histórico, a Reforma não aconteceu apenas de baixo para cima. Não foi o povo que exigiu um evangelho purificado e a abolição da Santa Missa, do latim, do culto aos santos, a destruição da arte sacra e assim por diante. As “pessoas comuns” nunca pediram algo assim.
Desde o início, a Reforma Protestante foi um projeto revolucionário, nascido nos corações e mentes de alguns dos dignitários da Igreja Católica. Martinho Lutero foi padre antes de se tornar “reformista”. Tudo isso era basicamente um programa revolucionário muito abrangente. Uma revolução que rejeitava a Igreja como tal.
Tratava-se, sobretudo, de rejeitar a Igreja como instituição criada pelo próprio Deus e investida por Ele da missão de conduzir os povos à salvação. Isso é o que Martinho Lutero e os outros rejeitaram, com todas as consequências que se seguiram.
Uma dessas consequências foi o vandalismo cultural de que se acaba de falar: destruição de monumentos de arte sacra, atos de profanação dos Santos Sacramentos. Este foi especialmente o caso em áreas onde a facção calvinista estava crescendo em poder. Nessas regiões, tal atividade destrutiva foi particularmente violenta: na Holanda, Alemanha e Inglaterra. O povo se opôs. Na Inglaterra, como na Suécia, toda uma série de revoltas camponesas mostrou que o povo não era a favor desse tipo de mudança revolucionária.
O fator decisivo foi o envolvimento do Estado, isto é, dos próprios governantes, que tinham interesse material direto em serem cúmplices no confisco dos bens da Igreja. A palavra de ordem a favor da “Igreja pobre” derivava geralmente do fato de certas pessoas – nomeadamente o soberano e um certo número de magnatas da burguesia ou da nobreza – encontrarem nela a oportunidade de se enriquecerem. Foi assim que se criou uma comunidade de interesses que, de posse dos instrumentos do poder, acabou por prevalecer sobre as revoltas populares que se opunham à Reforma.
Grzegorz Kucharczyk : « Une crise de la foi attire inévitablement une crise de la raison »
















Comentários