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A verdadeira Israel de Deus é a Igreja (PARTE II)

24 de jan. de 2018
3 min de leitura





Essa disputa acerca da autoridade do antigo testamento e a respeito da natureza da continuidade entre o judaísmo e o cristianismo foi a primeira forma de buscar por uma tradição, que voltou ao longo da história cristã em outras formas. A adoção cristã de Abraão como “pai de todos os que crêem” (Rm 4.11; Ag. Civ.15.1[CCSL 48:453-54]) e a identificação cristã da igreja, a cidade de Deus, com a herança de Abel ilustram essa questão. Quando a igreja formulou sua busca por uma tradição em uma doutrina de correção e cumprimento, ela foi capacitada a reivindicar todos os Santos e crentes até Abraão e até mesmo até Adão como seus (Eus. H. e. 1.4.6[GCS, 9;40]; Ag. Pel. 3.4.11[CSEL 60: 497-98]). Essa doutrina de correção e cumprimento também ajudou a estabelecer um padrão para o tratamento do problema da tradição nos séculos subsequentes. Atanásio reivindicou ter a tradição do seu lado a despeito do fato de a linguagem de muitos dos pais soar herética (Atn. Dion. 14). Agostinho tentou inocentar os pais grecos da acusação de pelagianismo; os oponentes ortodoxos de Gottschalk do século IX, por sua vez, tentaram inocentar Agostinho; os debates entre o grego oriental e o Latin ocidental giravam em torno do testemunho da tradição; e os reformadores protestantes podiam afirmar sua lealdade à tradição católica apesar de sua separação de Roma. Todos esses argumentos seguiram o esboço da apropriação da tradição judaica pelos cristãos dos séculos I e II.

A principal evidência para o desenvolvimento dessa apropriação é um gênero de literatura cristã devotada à comparação do cristianismo com o judaísmo. Nesse gênero literário “não há diálogo [……] Conduzido em tão alto nível de cortesia e justiça” na igreja primitiva quanto o diálogo comTrifão, de Justino Mártir; e o tratado de Justino foi apenas um dentre muitos. Praticamente todo escritor cristão importante dos primeiros cinco seculos compôs um tratado contra o judaísmo ou tornou essa questão o tema dominante em um tratado devotado a algum outro assunto. Os estudiosos, em geral, concordam que a obra de Justino representa a forma literária de uma entrevista real, mas que foi composta muitos anos após o fato é reflete a percepção do autor sobre o debate em retrospectiva. Mas fica igualmente claro que muitos dos últimos tratados “contra os judeus” não refletem não refletem nem contemplam essas entrevistas. O diálogo com o Judaísmo, ao contrário, tornou-se um conceito literário no qual a questão da singularidade do Cristianismo em comparação com o Judaísmo virou uma oportunidade para uma exposição literária da doutrina cristã para uma audiência não Judaica de leitores cristãos.

A comparação dos tratados dos três primeiros séculos contra os judeus revela a recorrência de determinadas passagens bíblicas e a combinação de passagens bíblicas, de determinadas referências históricas e de certas formas de argumentação. Por isso, no início do século XX, a descoberta do texto havia muito perdido da prova da pregação apostólica, de Ireneu, em uma versão Armênia, forneceu mais apoio para a teoria de que existia ali uma compilação “de textos escriturais agrupados sob o títulos de debates com a intenção de convencer os judeus a partir do próprio antigo testamento de que a antiga lei fora abolida, que sua abolição estava prevista no antigo testamento e que seu propósito fora preparar e prefigurar a nova lei de Cristo”. Esse lugar comum na literatura cristã ajudou na demonstração de que a igreja, agora, tinha se tornado a nova e a verdadeira Israel e pode bem ser anterior aos próprios evangelhos. A partir título de tratados tradicionais como para Quirino: três livros de testemunhos contra os judeus, de Cipriano (Cipr. Test. [CSEL 3:35-184]), esse conjunto de lugares comuns adquiriu o título de “testemunhos”. A literatura do diálogo com o Judaísmo fornece dados importantes sobre o desenvolvimento do autoentendimento da teologia cristã, bem como seu entendimento das diferenças o cristianismo e o Judaísmo.

 
 
 

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